domingo, 14 de maio de 2023

“Tapestry” (Ode Records, 1971), Carole King



Foi através de seu segundo álbum solo, Tapestry, que a norte-americana, Carole King, teve o seu talento como cantora e compositora reconhecido pelo público e pela crítica. Pode parecer precoce o reconhecimento do talento de um jovem artista vir no segundo álbum, mas em se tratando de Carole King, é diferente. Embora estivesse em seu segundo álbum solo, King já era uma artista experiente, tanto na vida quando na arte. Beirando os 29 anos de idade quando lançou Tapestry no início de 1971, King vinha de um divórcio, era mãe de duas meninas e tinha uma carreira como compositora de pouco mais de 12 anos, compondo ao lado do seu então marido, Gerry Goffin, canções de sucesso para dezenas de artistas, verdadeiras gemas pop.

Até chegar ao multiplatinado e premiado Tapestry, Carole king percorreu um caminho longo. Filha de pais judeus, Carole King nasceu em 9 de fevereiro de 1942, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Aos quatro anos de idade, aprendeu a tocar piano com sua mãe.  Na adolescência, nos anos 1950, montou com os amigos a banda Co-sines. Em 1958, com 16 anos, grava o seu primeiro single, “The Right Girl”, canção composta por ela mesma.

Pouco depois, Carole King ingressa na Queen College, onde conhece Gerry Goffin, com o qual inicia um romance. Carole engravida de Goffin, e os dois se casam, o que obriga o casal a abandonar a faculdade para trabalhar para sustentar a família que os dois estavam formando com a chegada do bebê, em 1960. O casal trabalhava de dia, e à noite, compunha canções para os mais diversos artistas gravarem. Geralmente Goffin escrevia as letras, King fazia a melodia ao piano.

Goffin e Carole King: de casal de namorados a dupla de compositores de sucesso. 

Não demorou muito e ainda em 1960, a primeira canção composta pela dupla Goffin-King a estourar foi “Will You Love Me Tomorrow”, através das Shirelles. Com essa música, as Shirelles foram o primeiro grupo musical formado por negras a chegar ao 1º lugar da parada da Billboard Hot 100, nos Estados Unidos.

Com o sucesso de “Will You Love Me Tomorrow”, o casal passou a ser bastante requisitado por artistas para fornecer canções para gravar. A quantidade de canções que produziam e que viravam sucesso era enorme, fazendo com que Goffin e King deixassem os seus trabalhos diurnos para se dedicarem exclusivamente às composições de canções. O casal fez parte do chamado grupo Brill Building, que integrava compositores, músicos e produtores que trabalhavam num edifício de mesmo nome, em Nova Iorque, criando canções para bandas, cantores e trilhas sonoras. Gente como Neil Diamond, Burt Bacharach, Bobby Darin, entre outros faziam parte desse grupo, assim como o casal Goffin-King.

Até 1967, o casal Goffin-King compôs uma considerável coleção de canções que se tornaram sucesso na voz dos mais diversos artistas como “Take Good Care Of My Baby” (com Bobby Vee, em 1961), “The Loco-Motion” (com Little Eva, em 1962), “Up On The Roof” (com The Drifters, em 1962), “Chains” (com The Cookis, e depois The Beatles, ambas versões em 1962), “Hey Girl” (com Freddie Scott, em 1963), “I’m Into Something” (com Heman’s Hermit, em 1964), “Bring Me Down” (com The Animals, em 1966).  Mas o grande sucesso composto pelo casal foi “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”, que estourou com Aretha Franklin, em 1967, chegando ao 8º lugar da parada de singles da Billboard Hot 100, nos Estados Unidos. Se tornou um dos maiores sucessos da carreira de Aretha Franklin.

"Will You Love Me Tomorrow", gravada pelas The Shirelles (foto) em 1960,
foi a primeira canção composta pela dupla Gerry Goffin e
Carole King a se tornar um grande sucesso.

Apesar do sucesso da carreira profissional como compositores, a vida pessoal do casal não ia bem. Goffin e King se separaram em 1968. Após o divórcio, King mudou-se com as duas filhas, frutos do seu casamento com Goffin para Los Angeles, indo morar em Laurel Canyon, uma localidade habitada por vários astros do rock da época. Lá, Carole King fez amigos, conheceu a cena musical, e fez amizade com James Taylor e Joni Mitchell. Em Los Angeles, Carole King formou com o guitarrista Danny Kortchmar e o baixista Charles Larkey (com quem King se casaria), o trio The City, onde ela atuou como vocalista e pianista do grupo. O trio chegou a lançar um álbum, mas o trabalho não teve repercussão porque Carole tinha pavor de palco, o que impossibilitou o grupo de fazer shows para divulgar o disco. Com isso, The City acabou se dissolvendo em 1969.

Graças ao incentivo de James Taylor, Carole King se lançou em carreira solo, lançando em 1970 o seu primeiro álbum solo, The Writer. O álbum contou com a colaboração de James Taylor no violão e nos vocais de apoio. Apesar da avaliação positiva por parte da crítica, The Writer teve uma produção ruim, e suas vendas foram muito fracas.

Apesar do desempenho comercial do seu primeiro álbum ter sido fraco, Carole King se sentia motivada para gravar o seu segundo álbum. Boa parte das canções do novo álbum foi escrita por Carole King. No entanto, King incluiu três canções da sua antiga parceira com Gerry Goffin: “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman” (gravada por Aretha Franklin), “Will You Love Me Tomorrow” (sucesso com as Shirelles, em 1960) e a até então inédita “Smackwater Jack”. O repertório incluiu também duas parcerias de Carole King com a poeta e letrista Toni Stern.

A produção do novo álbum foi conduzida por Lou Adler, proprietário do selo Ode Records, e as gravações ocorreram no estúdio B da A&M Records, em janeiro de 1971. Carole King contou com a participação de amigos como James Taylor, que tocou violão em algumas faixas e fez vocais de apoio. A cantora Joni Mitchell, amiga de Taylor e de King, também participou das gravações fazendo vocais de apoio. Os ex-parceiros de King no The City, Danny Kortchmar e Charles Larkey, também participaram das gravações; Korchmar tocou violão, conga, guitarra elétrica, vocais de apoio, enquanto Larkey tocou baixo.

James Taylor, Joni Mitchell e Carole King durante as sessões
de gravação do álbum Tapestry.

Lançado em 10 de fevereiro de 1971 através da Ode Records e distribuído pela A&M Records, Tapestry é álbum leve e agradável, que musicalmente, varia entre o pop, o rhythm’n’blues, soul e o folk. É um álbum pop que consegue ser simples e ao mesmo tempo refinado, muito bem-acabado. Embora tenha sido lançado numa época de grandes transformações sociais e políticas, reflexos dos movimentos ocorridos na década anterior, Tapestry não é um álbum de canções engajadas. Mesmo assim, o álbum contém faixas que trazem sutilmente, versos com mensagens conscientes, reflexivas. Os temas das canções giram entorno de amor, amizade e desilusão amorosa.

O álbum começa com o riff de piano executado por Carole King, e que dá início à faixa “I Feel The Earth Move”, canção que trata sobre satisfação e uma excitação sutil de uma garota apaixonada quando está perto do seu amado: ela sente a terra se mover sob os seus pés e o céu desmoronar”. A balada “So Far Away” é uma das faixas mais conhecidas de Tapestry e da carreira de Carole King. A letra da canção trata sobre a dor e a saudade de dois amantes separados pela distância: “It would be so fine to see your face at my door / And it doesn't help to know that you're so far away” (“Seria tão bom ver seu rosto na minha porta / E não ajuda saber que você está tão longe”).

Outra faixa famosa do álbum é “It’s Too Late”, fruto da parceria de Carle King e a poeta Toni Stern. É um exemplo de canção pop perfeita, na medida certa. A letra, escrita por Stern, possui versos simples, diretos, que tratam sobre o fim de um relacionamento, de um amor que acabou, mas abordado sem melancolia, sem traumas. “Home Again” é uma linda balada que versa sobre solidão, em que uma mulher que mora sozinha, sente a falta de alguém para conversar e lhe fazer companhia. Em “Beautiful”, o eu lírico observa a infelicidade e a frustração nos rostos das pessoas ao seu redor. O refrão prega o otimismo e a valorização da autoestima.

Imagem da área interna da capa dupla do álbum Tapestry.

O lado A da versão LP de Tapestry termina com “Way Over Yonder”, uma canção gospel com sabor pop em que Carole King canta sobre a busca da paz de espírito e ressalta o valor que as coisas simples da vida têm. Destaque para a participação da cantora Merry Clayton nos vocais de apoio, a mesma que colaborou com os Rolling Stones na canção “Gimme Shelter” fazendo vocais de apoio sensacionais.

Abrindo o lado B do álbum, uma canção que é considerada um “hino à amizade”: “You’ve Got A Friend”. Carole King teria se inspirado no amigo James Taylor para compor a canção. Seria uma resposta à canção “Fire And Rain”, gravada por Taylor em 1970 para o álbum Sweet Baby James, em que o cantor expressar a sua dor ao saber do suicídio de sua ex-namorada, Suzanne Schnerr. Os versos “I've seen lonely times when I could not find a friend” (“Tenho passado horas solitário quando não consigo encontrar um amigo”), de “Fire and Rain”, motivaram King a compor “You’ve Got A Friend”, em que ela se mostra à disposição para apoiar o amigo num momento tão difícil que ele passava. O cantor travava uma batalha para vencer a depressão e o seu vício em heroína. A forte amizade entre Carole King e James Taylor encantou o público, e levantou suspeitas de que eles tinham um romance.

Quando Carole King apresentou “You’ve Got A Friend” a James Taylor, sentiu vontade de tocá-la, e acabou gravando-a para o seu álbum Mud Slide Slim And The Blue Horizon, que curiosamente estava sendo gravado na mesma época em que Tapestry estava sendo gravado. Embora gravados na mesma época, por volta de janeiro de 1971, o álbum de Carole King foi lançado em fevereiro e o de James Taylor saiu em abril. A versão de Taylor para “You’ve Got A Friend” foi a que ficou mais famosa, ainda que a de King tivesse alcançado uma boa execução em rádio.

Carole King e James Taylor: uma grande amizade para toda a vida. 

“Where You Lead” é outra parceria de Carole King com Toni Stern presente em Tapestry, cuja letra é sobre uma mulher apaixonada, disposta a seguir o seu amado aonde quer que ele vá. Se na sua versão original com as Shirelles, “Will You Love Me Tomorrow?” (composta por Gerry Goffin e Carole King) era um R&B pop adolescente, a versão gravada por King se tornou uma balada lenta e com uma interpretação mais adulta.

“Smackwater Jack” possui um tema que destoa de todo o resto do álbum. A faixa é um rhythm‘n’blue alegre e descontraído, com clima de “velho oeste”, que conta a história de um bandido destemido que acabou capturado e condenado à forca. Segue a faixa “Tapestry”, uma balada lenta à base de voz e piano, e dá nome ao álbum.

O álbum chega ao fim com mais uma canção antiga da parceria Gerry Goffin e Carole King, “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”, originalmente gravada por Aretha Franklin, lançada como single no final de 1967, e incluída no álbum Lady Soul (1968). A canção teria sido uma sugestão do coproprietário da Atlantic Records, Jerry Wexler, que sugeriu a Goffin e King que compusessem uma canção para Aretha com o título “Natural Woman”. Enquanto a versão original de Aretha é mais pomposa, cheio de naipe de cordas, vocais de apoio, vários instrumentos, a versão de Carole vai num sentido contrário: é mais intimista, e conta apenas com a voz de King e seu piano, e discretos vocais de fundo. A letra de “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman” é sobre uma mulher com uma autoestima baixa, sem inspiração, mas que ao encontrar uma grande amor, ela descobre a alegria de viver.

Aretha Franklin gravou em 1968 "(You Make Me Feel Like) A Natural Woman",
de Gerry Goffin e Carole King, e regravada pela própria
Carole King em 1971 para Tapestry.

Tapestry foi bem recebido pela crítica. Na época de lançamento do álbum, o jornalista Jon Landau, da edição americana da revista Rolling Stone, afirmou em sua resenha sobre Tapestry que Carole King era uma das artistas mais criativas da música pop e que o álbum era uma “superação pessoal” da cantora.

A julgar pelo desempenho de Tapestry nas paradas, o público aprovou o álbum. Tapestry ficou em 1º lugar na parada da Billboard 200, nos Estados Unidos, durante quinze semanas. No Canadá, o segundo álbum de Carole King permaneceu por nove semanas no topo da parada de álbuns daquele país. O single de “It’s Too Late” alcançou o 1º lugar da Billboard 100, nos Estados Unidos, onde permaneceu cinco semanas no topo.

O desempenho comercial de Tapestry foi magnífico. Foi o álbum mais vendido nos Estados Unidos em 1971. Ao todo, no mercado americano, Tapestry vendeu mais de 10 milhões de cópias, enquanto que em todo o mundo, o álbum chegou à marca de 25 milhões de cópias vendidas, fazendo dele, um dos álbuns mais vendidos em todos tempos.

Carole King no auge da carreira nos anos 1970.

Além dos elogios da crítica e dos ótimos números em vendas, Tapestry foi contemplado com prêmios. Na edição de 1972 da premiação do GrammyTapestry venceu em quatro categorias: “Álbum do Ano”, “Melhor Performance Vocal Pop Feminino”, “Gravação do Ano” (por “It’s Too Late”) e “Canção do Ano” (por “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”.

O megassucesso de Tapestry impulsionou a carreira de Carole King, que a cada disco se tornava uma das cantoras mais populares e queridas da música pop norte-americana, graças às suas canções melódicas e agradáveis, bem como ao seu jeito carismático.

Tapestry teve não apenas um papel importante na carreira de King. O álbum mostrou que as mulheres, assim como os homens, também poderiam ser bem-sucedidas como compositoras e intérpretes de suas próprias canções. Se no futuro, o mundo viu cantoras autoras brilhantes da música pop como Amy Winehouse e Adele, isso só foi possível porque no passado, houve artistas como Carole King e álbuns femininos brilhantes como Tapestry que abriram caminho.

Faixas

Todas as músicas foram escritas por Carole King, exceto onde indicado.

Lado A

  1. “I Feel the Earth Move"
  2. "So Far Away"
  3. "It's Too Late" (letra de Toni Stern)
  4. "Home Again"
  5. "Beautiful"
  6. "Way Over Yonder" 

Lado B

  1. "You've Got a Friend"
  2. "Where You Lead" (letra de Toni Stern)
  3. "Will You Love Me Tomorrow?" (Gerry Goffin – Carole King)
  4. "Smackwater Jack" (Gerry Goffin – Carole King)
  5. "Tapestry"
  6. "(You Make Me Feel Like) A Natural Woman" (Goffin, King, Jerry Wexler) 





“Aqualung” (Chrysalis/Island Records, 1971), Jethro Tull

 



“Conceitual ou não conceitual? Eis a questão”. Esse dilema ecoa há décadas desde que Aqualung, quarto álbum de estúdio do Jethro Tull, foi lançado em março de 1971. Se para a crítica Aqualung é um álbum conceitual por trazer canções sobre moradores de rua um lado, e do outro, canções que tecem crítica à religião, para o vocalista, flautista e líder da banda inglesa, Ian Anderson, o álbum não passava de uma coleção de canções.

Aqualung representou não apenas a consagração do Jethro Tull no cenário mundial do rock como também a consolidação da linha musical da banda. Quando surgiu, em 1967, na cidade Blackpool, na Inglaterra, o Jethro Tull era uma banda fundamentada no blues rock e no jazz, o que fica bem claro no seu primeiro álbum de estúdio, This Was (1968).

Mas haviam divergências dentro da banda entre o guitarrista Mick Abrahams e Ian Anderson. Enquanto Abrahams queria o Jethro Tull no campo do blues e do R&B, Anderson queria que a banda explorasse outras possibilidades, que expandisse os seus horizontes musicais, experimentando elementos da folk music, da música erudita e até da asiática, tudo misturado ao rock. O choque entre os dois motivou Abrahams a deixar o grupo ainda em 1968, e formar uma nova banda, a Blodwyn Pig, esta mais dedicada à proposta musical que ele queria.

Sem Abrahams, Anderson assumiu a liderança do Jethro Tull, e a banda trilhou outros caminhos a partir do segundo álbum, Stand Up (1969), trabalho que dá início ao processo de transição musical. Stand Up traz um Jethro Tull completamente diferente, sem o blues rock, e agora mergulhado na sonoridade do folk rock, experimentando inclusive elementos do folk celta e flertando com o nascente rock progressivo. Outra novidade que o álbum apresenta é um novo guitarrista, o subestimado Martin Barre, que entrou no lugar de Mick Abrahams.

Ian Anderson, vocalista, flautista e líder do Jethro Tull. 

O processo de transição musical segue com o próximo álbum, Benefit, lançado em abril de 1970. Em Benefit, o Jethro Tull agrega ao seu som baseado no folk rock e no rock progressivo, o peso do hard rock, o que neste caso, revela uma importância fundamental do guitarrista Martin Barre, que cria vários riffs de guitarra inspirados em em guitarristas como Jimi Hendrix e Jimmy Page (do Led Zeppelin).

Com Aqualung, o Jethro Tull finalmente encontrou o seu estilo, a sua identidade musical. Todas as referências musicais que a banda havia experimentado desde o segundo álbum, resultaram numa combinação muito bem acertada e equilibrada em Aqualung, envolvendo folk music, hard rock e o rock progressivo.

As gravações de Aqualung ocorreram entre dezembro de 1970 e fevereiro de 1971, sob a produção de Ian Anderson e de Terry Ellis, que além de produtor e co-fundador do selo Chrysalis, era empresário do Jethro Tull. O álbum foi gravado num recém-inaugurado estúdio construído pela Island Records dentro de uma antiga igreja, em Basing Street, em Londres. Na época, enquanto o Jethro Tull gravava Aqualung numa sala, o Led Zeppelin gravava numa sala vizinha o seu antológico Led Zeppelin IV.

Saída, entrada e até efetivação de integrante marcaram as gravações do quarto álbum do Jethro Tull. O álbum foi o último trabalho que o baterista Clive Bunker gravou como membro do Jethro Tull. Por outro lado, o quarto álbum da banda inglesa foi o primeiro gravado pelo novo baixista do grupo, Jeffrey Hammond, substituto de Glenn Cornick que havia deixado o Jethro Tull após a turnê de Benefit. Enquanto isso, o tecladista John Evan, antes músico contratado para acompanhar a banda nas gravações e em shows, era efetivado no Jethro Tull, e Aqualung foi o primeiro trabalho que ele gravou como membro oficial do conjunto.

Jethro Tull em 1971, da esquerda para direita: Clive Bunker, Martin Barre,
Jeffrey Hammond, Ian Anderson e John Evan.
 


A produção do álbum contou também com os trabalhos do arranjador Dee Palmer, responsável pelos arranjos de orquestra e regência em Aqualung. Curiosamente, Palmer se tornou anos mais tarde tecladista do Jethro Tull, entre 1976 e 1980.

Lançado em 19 de março de 1971, Aqualung foi considerado pela crítica musical um álbum conceitual. Isso se deveu ao fato do disco ser dividido em duas linhas temáticas. O lado A, batizado Aqualung, traz canções que tratam basicamente sobre aspectos da natureza humana, bem como personagens presentes nessas canções como o mendigo pedófilo Aqualung e a prostituta colegial Cross Eyed Mary. O lado B, chamado de My God, traz canções que tratam sobre religião sob o ponto de vista de Ian Anderson, que como autor das canções, traça uma visão bastante crítica e pessimista.

O álbum abre com a faixa-título cuja letra faz referência ao mendigo chamado Aqualung, um morador das ruas de Londres que veste roupas surradas, cata restos de comida com dedos engordurados e o nariz escorrendo meleca. Ele tem o hábito de observar as calcinhas das garotas que passavam pela rua. A música começa com um fantástico riff de guitarra executado brilhantemente por Martin Barre, que marcaria toda a carreira do Jethro Tull. Para escrever a letra dessa música, Ian Anderson se inspirou na série de fotos de moradores de rua de Londres fotografadas pela sua esposa, a fotógrafa Jennie Anderson. Por causa disso, Jennie foi creditada como co-autora da letra de “Aqualung”.

Cross-Eyed Mary é outra personagem presente no álbum e que dá nome à segunda faixa que começa com o som incrível e inconfundível da flauta de Ian Anderson. A música trata sobre uma estudante que se prostitui com homens ricos, mas que também faz uma “caridade sexual” para Aqualung sem cobrar nada, proporcionando a ele algum momento de felicidade na vida miserável daquele homem.

As próximas canções até encerrar o lado A, o Jethro Tull toma um caminho musical que transita entre a folk music e o folk rock. “Cheap Day Return” é uma curta e linda balada folk de melodia agradável, em que a letra diz respeito a Ian Anderson e a sua visita ao seu pai internado num hospital. A faixa seguinte também é uma balada folk, “Mother Gosse”, que apesar de essencialmente acústica, traz em alguns momentos da canção riffs de guitarra elétrica que dão base a versos surreais e absurdos.  “Wond’ring Aloud” é de uma beleza melódica sensível e até mesmo comovente, realçada pelo naipe de cordas e pelo piano executado por John Evan. O lado A termina com “Up To Me”, uma canção folk de ritmo lento, com algumas inserções de guitarra elétrica distorcida, além da presença constante da percussão e da flauta executada por Ian Anderson.

Arte interna da capa dupla de Aqualung.

O lado B, intitulado My God, começa com o violão dedilhado que dá início a “My God”, que mais adiante dá lugar a um som poderoso de hard rock e a uma performance sensacional de Martin Barre na guitarra, enquanto Ian Anderson mostra toda a sua habilidade fantástica na flauta. Em “My God”, os versos de Anderson tecem duras críticas às instituições religiões e ao seu poder de castrar a liberdade dos seus fiéis e de manipulá-los.

“Hymn 43” é uma crítica dura aos líderes religiosos e a instituições que usam o nome de Jesus para se promoverem: “If Jesus saves well he better save himself / From the gory glory seekers who use his name in death / Oh Jesus save me.” (“Se Jesus salva, bem, seria melhor ele salvar a si mesmo / daqueles que buscam a glória sangrenta, que usam seu nome na morte / Oh Jesus, salve-me!").

“Slipstream” seria uma reflexão sobre o materialismo e a vida após a morte. Ian Anderson compôs “Locomotive Breath” preocupado com a superpopulação no mundo. A locomotiva presente na letra seria uma metáfora para o crescimento descontrolado da população, tal qual um trem pesado e desgovernado. O álbum fecha com “Wind Up”, uma canção que questiona os dogmas da Igreja e critica a forma como ela transforma Deus num “brinquedo de dar corda”.

A arte da capa de Aqualung foi desenvolvida pelo pintor e desenhista americano Burton Silverman. O trabalho foi encomendado por Terry Ellis, produtor do álbum e empresário do Jethro Tull. Silverman fez três pinturas em aquarela para ilustrar a capa, contracapa e a parte interna da capa dupla do álbum, todo o trabalho ao custo de US$ 1.500 (mil e quinhentos dólares). A capa mostra um mendigo com cara de poucos amigos e que seria a representação do personagem Aqualung. Quem detestou a capa foi Ian Anderson, que achou aquele homem maltrapilho e enfezado muito parecido com ele. Silverman por sua vez, afirmou que ele mesmo foi o modelo para o mendigo retratado e não Anderson.

Mas a polêmica não parou por aí, e o fato do mendigo da capa se parecer ou não com Anderson foi o menor dos problemas. Enquanto o álbum vendeu milhões de cópias em todo o mundo, a imagem da capa foi usada para ilustrar todo tipo de produto como camisetas, canecas, roupas e pôsteres, gerando lucros para o Jethro Tull, Silverman pouco lucrou com a arte que ele fez para Aqualung. Talvez o erro tenha ocorrido lá no passado, no momento em que foi encomendado do trabalho, quando não foi acertado se o artista teria direito a determinada porcentagem dos lucros que a arte da capa pudesse gerar após o lançamento do álbum, bem como para outras finalidades que tivesse a função de propagar a imagem e o nome do Jethro Tull. Provavelmente, o artista não imaginou o imenso sucesso que o disco iria ter e nem que aquela capa iria entrar no imaginário do rock.

Ao longo do tempo, Burton Silverman tentou vários acordos com a banda, mas todos foram em vão. O artista, já idoso, chegou a tentar um contato direto com Ian Anderson, que apesar de nunca ter manifestado apreço pela capa de Aqualung, se limitou a dizer que o Jethro Tull tinha direito de uso da arte da capa.

O pintor Burton Silverman, autor das pinturas que ilustram Aqualung,
em seu estúdio em 2018, aos 90 anos de idade. 

O desempenho comercial de Aqualung foi incrível. Alcançou a marca de 3 milhões de cópias vendidas somente nos Estados Unidos. Em todo o mundo, o álbum vendeu mais de 7 milhões de cópias, o que fez Aqualung se tornar o álbum mais vendido da discografia do Jethro Tull. No Reino Unido, Aqualung chegou ao 4º lugar na parada de álbuns, enquanto que nos Estados Unidos, o álbum ficou em 7º lugar na parada da Billboard 200Aqualung chegou ao 5º lugar da parada de álbuns do Canadá.

A recepção de Aqualung na época de seu lançamento por parte da crítica foi razoável. Devido à divisão temática dos dois lados do disco, os títulos que cada um desses lados possui, fizeram a imprensa musical classificar Aqualung como um álbum conceitual. Ian Anderson, líder do Jethro Tull, ficou surpreso com o rótulo, e discordou completamente afirmando que o álbum não era conceitual, que no máximo poderia haver canções com uma linha temática semelhante.

Como provocação, Ian Anderson decidiu que o próximo álbum do Jethro Tull seria conceitual propositalmente. E foi o que aconteceu quando em março de 1972, o Jethro Tull lançou Thick As A Brick, um álbum conceitual que contém uma longa e ininterrupta música dividida em dois lados do disco, e que passa por vários andamentos e ritmos. A letra é baseada no poema de um menino fictício chamado Gerald Bostock em que ele narra como seria a sua vida, desde a infância à velhice. O álbum de faixa “quilométrica” fez um enorme sucesso de público e de crítica. Mas esta é uma outra história, e que será contada numa outra oportunidade.

Faixas

Todas as canções por Ian Anderson, exceto a indicada.

Lado A: Aqualung                                                       

  1. "Aqualung" (Ian Anderson - Jennie Anderson)
  2. "Cross-Eyed Mary"                                                     
  3. "Cheap Day Return"                                                  
  4. "Mother Goose"                                                         
  5. "Wond'ring Aloud"                                                    
  6. "Up to Me"         

Lado B: My God  

  1. "My God" 
  2. "Hymn 43"          
  3. "Slipstream"       
  4. "Locomotive Breath"                                                 
  5. "Wind Up" 

 

Jethro Tull: Ian Anderson (vocais, violão, flauta) Martin Barre (guitarra, flauta doce soprana) John Evan (piano, órgão, mellotron), Jeffrey Hammond (baixo, flauta doce alta vocais) e Clive Bunker (bateria, percussão).


Ouça na íntegra o álbum Aqualung


VALE A PENA OUVIR DE NOVO

 

                         Billie Holiday - "Lady In Satin" [1958]

Paul Davis - A Little Bit Of Paul Davis (1970-71 us, wondrous blue eyed soul, r 'n' b, soft rock, 2009 bonus tracks reissue)

 




O próprio título da estreia de Paul Davis em 1971 é um aceno para Bert Berns, o fundador da Bang Records e autor de “A Little Bit of Soap”, o single de Jarmels de 1961 que Davis cobriu e trouxe para o Top 40 em 1970. Ironicamente, “A Little Bit of Soap” acaba sendo a música que parece fora de sintonia com o resto do pop-soul chiclete em A Little Bit of Paul Davis, já que Davis a reformula como um groove sonolento – bom o suficiente, mas não tão atraente quanto o pop brilhante e rápido do resto do álbum.

Como muito da produção de Bang no final dos anos 60/início dos anos 70 - pense em Neil Diamond e Andy Kim - isso caminha em uma linha curiosa entre o chiclete AM e o soft rock adulto contemporâneo, com os ganchos vindos do primeiro e a suavidade vindo deste último. Davis dá a isso uma pitada de soul georgiano em seu fraseado, mas isso é apenas um sabor desse lote de pop chiclete. Impressionantemente, a maior parte do disco é escrita pelo próprio Davis - apenas três cortes vêm de outros escritores - e ele mostra um talento real para pop alegre e propulsivo, mas mesmo isso tem um toque da entrega descontraída que se tornaria sua marca registrada… apenas o suficiente para torná-lo distinto de outros LPs do Bang e outros pop AM do início dos anos 70, e apenas o suficiente para torná-lo uma espécie de pequena joia desconhecida de seu tempo. 
por Stephen Thomas Erlewine

Paul Davis era casado com Pamela Gayle Jay Davis, que teve uma breve carreira na Bang Records/Web IV Music em Atlanta, onde Davis estava escrevendo e gravando suas canções. Quando seu único filho Jonathan nasceu com necessidades especiais, Pamela se aposentou do mundo da música para cuidar dele. Ela morreu em 20 de março de 2017. Paul Davis morreu de ataque cardíaco no Rush Foundation Hospital em Meridian, Mississippi, em 22 de abril de 2008, um dia após seu 60º aniversário.
Faixas
1. I Just Wanna Keep It Together - 2:29
2. Supernatural Power - 2:39
3. If I Wuz A Magician - 2:14
4. Pollyanna - 2:36
5. Sally's Sayin Somethin (Harry Moffitt, Howard Boggess) - 2:09
6. A Little Bit Of Soap - 2:33
7. Mississippi River - 3:05
8. Who's Gonna Love Me Tomorrow (George Soule) - 2:33
9. Rainy Sunday Mornin - 2:45
10.Three Little Words - 2:45
11.When My Little Girl Is Smiling (Carole King, Gerry Goffin) - 3:14
12.I Feel Better - 2:49
All songs by Paul Davis except where stated
Bonus Tracks 11-12


*Paul Davis - Vocais









Richard Thompson, Yosemite, CA 9-02-1990

 



Richard Thompson
Camp Mather
Strawberry Music Festival
Yosemite, CA
September 2, 1990
 
Esta é uma ótima performance acústica solo de Richard Thompson. Sua guitarra é ótima e vale a pena conferir
 
Side A
01 Introduction
02 Turning of the Tide
03 I Misunderstood
04 1952 Vincent Black Lightning
05 When the Spell Is Broken
06 Two Left Feet
07 God Loves a Drunk
08 Jerusalem on the Jukebox
09 Now That I'm Dead
10 She Moves Through the Fair
Side B
11 I Feel So Good
12 Wall of Death
13 Waltzing for Dreamers
14 Days of Our Lives
15 Valerie
16 Down Where All the Drunkards Roll
17 Don't Roll Those Bloodshot Eyes at Me
18 Tear Stained Letter
Total Time  73:44 min







Lee Ritenour Steve Martin With The Steep Canyon Rangers Featuring Edie Brikell, Raleigh NC, 9-28-2013

 



Steve Martin With The Steep Canyon Rangers Featuring Edie Brickel
International Bluegrass Music Association Awards
Red Hat Amphitheater
Raleigh, North Carolina
September 28, 2013
Soundboard
 
Setlist:
Disc 1
01. Make It Real
02. Instrumental
03. Jubilation Day
04. Band Intro's
05. The Crow @
06. Get Along Stray Dog *
07. When You Get To Asheville *
08. Sarah Jane and Iron Mountain Baby *
09. Stand and Deliver
10. Hunger
11. Atheists Don't Have No Songs
12. Stage Banter
13. The Great Remember
14. The Dance At The Wedding
Disc 2
01. Love Has Come For You *
02. Pretty Little One *
03. Auden's Train *
04. Another Round -> So Long Now *
 

The Steep Canyon Rangers-
Nicky Sanders - Fiddle
Woody Platt - Guitar
Mike Guggino - Mandolin
Graham Sharp - Banjo
Charles R. Humphrey III - Bass
Steve Martin - Banjo
Bela Fleck - Banjo
Edie Brickel - Vocals





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