terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Surf rock, psicodelia e um continente perdido

 

Apesar de o rock ter pouco mais de 55 anos, nossa história começa entre 50.000 e 12.000 anos atrás, época em que floresceu no que hoje é conhecido como Oceano Pacífico o continente de Mu, presente em muitas lendas dos nativos das Américas antes do homem branco chegar e, com toda a sua sabedoria de homem civilizado e temente a Deus, acabar com esse papo furado pagão. Mu teria sido o próprio Jardim do Éden, o berço da humanidade, e foram cidadãos desse continente que acabaram por migrar e dar origem aos povos que povoam os nossos livros de história, mais especificamente nos capítulos sobre a antiguidade.
Em 1926, um ocultista inglês (e ex-plantador de chá no Sirilanka), de nome James Churchward, publicou um livro que não só ressuscitou essas lendas como popularizou o continente perdido de Mu em todo o planeta. Churchward afirmava ter tido acesso a antigas tabuletas de argila escritas no idioma Naga-Maya que, em seu conjunto, seriam uma espécie de testamento e prova cabal da existência desse continente e de sua localização. Segundo as tais tabuletas, Mu foi o lar da avançada civilização Naacal que simplesmente sumiu do mapa após seus 64 milhões de habitantes, a maioria morando em grandes cidades espalhadas por um território imenso (ver mapa), terem sido submersos pelas águas do oceano após uma série de terremotos e erupções vulcânicas.
Mas nós vamos voltar ao continente de Mu quando chegarmos aos anos 70. Neste momento ainda estamos em 1961, na Califórnia, onde o jovem guitarrista Merrell Fankhauser compôs para o grupo instrumental The Impacts aquela que viria a ser a primeira música de surf rock: “Wipe Out”.
Gravada junto com outras músicas em algumas sessões para o selo Del-Fi, “Wipe Out” viu a luz do dia no lançamento do primeiro disco do Impacts em 1962. No entanto, uma melodia muito parecida foi lançada pelos Surfaris no ano seguinte e esta sim se tornou um dos maiores hits instrumentais de todos os tempos. Merrell afirmou mais tarde que seu grupo havia feito outra versão demo de “Wipe Out” e que esta é a que serviu de protótipo para o Surfaris. Enquanto na versão do Impacts a música é dominada pela steel guitar e o saxofone, na do Surfaris o arranjo privilegia a bateria e a guitarra base.
Os Impacts tocavam na região de Pismo Beach, ao norte de Los Angeles, e Merrell ainda ficou com eles por pouco mais de um ano até sair para acompanhar seus pais que se mudaram para o deserto do Mojave na região de Lancaster, na mesma Califórnia. Esse deserto ficou famoso na geografia roqueira porque era onde as cobras, os escorpiões e os lagartos disputavam o território com duas outras criaturas venenosas, mas no bom sentido: Frank Zappa e Don Van Vliet, mais conhecido como Captain Beefheart. Merrell foi então trabalhar no aeroporto local e num belo dia, praticando com sua guitarra, foi abordado por um dos empregados que disse ter um filho de 14 anos que estava aprendendo a tocar guitarra e se ele não queria conhecê-lo e quem sabe ensinar alguns truques ao garoto. Tratava-se de Jeff Cotton. Os dois se entenderam imediatamente e resolveram formar uma banda, recrutando o baixista Jim Fergusson e o baterista Greg Hampton através de anúncios no jornal local. Merrell and The Exiles foi completado logo depois com a entrada de um amigo de Cotton, o saxofonista Danny Stevens.
Não demorou muito e o Exiles se tornou a banda mais quente da região, tocando as composições que Merrell vinha colecionando desde 1960. Numa de suas apresentações, eles deixaram malucos o dono de um pequeno estúdio e selo de Palmdale de nome Glenn MacArthur. Começaram a gravar e a lançar singles e em questão de meses já disputavam as paradas de sucesso das rádios de toda a Califórnia. Tudo muito bacana, mas o ano era 64 e os Beatles e a Invasão Inglesa estavam chegando, derrubando tudo o que encontravam pela frente.
O Exiles lançou singles até 1966 e sua formação sofreu modificações com a troca do baixista por Larry Willey e do baterista por John French (dois outros bateristas já haviam entrado e saido do grupo). Por essa época, Frank Zappa estava formando o Mothers e Beefheart saiu à caça de músicos para formar seu próprio grupo. Ele tinha por hábito ficar na frente da casa de Merrell ouvindo os ensaios do Exiles e de vez em quando entrava para dar uma espiada no pessoal. Beefheart gostava do que ouvia, tanto que acabou levando Cotton e French para a sua Magic Band.
Com o fim da banda, Merrell Fankhauser voltou para Pismo Beach. Como a psicodelia corria solta, ele tratou logo de criar a sua, misturando na fórmula doses de folk, country e o seu ingrediente especial: a surf music. Com Bill Dood na guitarra, Dick Lee na bateria e Dan Parrish (depois Jack Jordan) no baixo, ele formou o Fapardokly – nome criado a partir das sílabas do sobrenome dos integrantes – e lançou pela Glenn Records um LP reunindo antigas músicas do Exiles, inspiradas em Ricky Nelson e Buddy Holly, e material novo, que aos ouvidos de hoje lembra o Byrds da fase Fifth Dimension e o Zombies.
Fapardokly é, em todos os sentidos, uma pérola perdida da West Coast Sound. Seus sulcos liberam melodias multifacetadas, decoradas com ótimos arranjos folkies, uma chapada guitarra de 12 cordas e uma qualidade sonora estranha, só encontrada naquele pequeno, caseiro e sem recursos estúdio da Glenn Records, cercado de deserto por todos os lados. E com esse nome enigmático, uma capa pavorosa, apenas mil cópias lançadas e poucas vendas regionais, o álbum logo ganhou status entre os colecionadores de discos e uma cópia original foi alcançando preços astronômicos com o passar dos anos.
Lá por 67 o Fapardokly se apresentava constantemente em um clube de Pismo Beach chamado The Cove. Algumas cópias do álbum foram enviadas para gravadoras maiores. Isso acabou chamando a atenção de George Tipton, um arranjador famoso de Los Angeles que andava trabalhando com Harry Nilson e outros artistas que estavam começando a aparecer. Na opinião de Tipton, o disco de Merrell era à frente do seu tempo, uma mistura interessante de vários estilos sem um rótulo definido. A banda então decidiu se mudar para LA (menos Dick Lee que foi substituído na bateria por Larry Myers) e com a ajuda de Tipton conheceu dois empresários que reservaram umas poucas horas de estúdio para a gravação de algumas músicas novas. Com elas a banda conseguiu um contrato no selo UNI Records para o lançamento de um novo LP, desta vez mudando seu nome para o mais palatável HMS Bounty.
Com um selo mais consistente por trás, o novo grupo de Merrell começou a se apresentar por toda a Califórnia, dividindo os shows com Canned Heat, Chicago, Electric Flag, Dusty Springfield e muitos outros. Em 1968, uma prensagem de alguns milhares de cópias (algo inédito na carreira de Merrell até então) coloca o HMS Bounty em condições de concorrer com as outras bandas da costa oeste. O disco, apesar de psicodélico até a medula, tem um apelo mais pop, com os vocais melancólicos de Merrell elevando a dimensão humana das letras e os arranjos se revelando mais viajantes, alguns deles influenciados pela nova onda de ragas indianos. Tinha tudo para dar certo, mas a UNI de repente pisou no freio e a promoção que prometeram para o disco foi realocada para o novo grande astro do selo: Neil Diamond. Problemas de distribuição também fizeram com que o disco sumisse do mercado rapidinho, transformando-o em mais um item cobiçado por colecionadores e seletos aficionados. Não é preciso nem dizer que a banda acabou por aí.
Merrell aproveitou seu tempo livre e foi fazer mais uma visita ao pessoal do Captain Beefheart que estava baseado nos subúrbios da área de Woodland Hills, não muito distante do litoral. Beefheart tinha a mania de manter todos os seus músicos confinados, numa espécie de concentração permanente, focados na composição de material, excursões e lançamento de novos discos, totalmente alheios ao que se passava ao redor. Merrell então aparecia, revia seus ex-companheiros do Exiles e eventualmente participava de alguma jam com a Magic Band. Nessa visita, Jeff Cotton (que no disco Trout Mask Replica recebeu a alcunha de Antennae Jimmy Semens) revelou a Merrell sua vontade de voltar a tocar com o amigo e abandonar Beefheart.
Acontece que alguém ouviu a conversa e dedou os planos de Jeff para o Capitão. A surra que Cotton tomou por causa disso o levou ao hospital com algumas costelas quebradas. Sua recuperação levou meses, que ele passou na casa de seus pais em Lancaster e depois na casa de Merrell. Uma nova banda estava sendo montada, com a volta dos ex-Exiles Randy Wimer na bateria e Larry Willey no baixo.
Foi nessa época, comecinho de 1970, que Merrell e Cotton, em meio a pesquisas para novas composições, tropeçaram no livro de James Churchward sobre o continente perdido de Mu. Eles se identificaram tanto com o livro e com os hábitos dos habitantes de Mu – que eram vegetarianos como eles e voltados para a natureza e a vida comunitária – que decidiram batizar sua nova banda de MU. Mas a vida não andava fácil para Cotton. Ele tinha medo de sair de casa por causa das ameaças de sequestro que recebia do pessoal que andava com Beefheart. E um belo dia eles foram às vias de fato, raptando Cotton enquanto ele fazia compras em uma quitanda próxima. Merrell então resolveu intervir e foi até a casa de Beefheart que se encontrava no banheiro dando uma lição de moral em Cotton, daquelas de deixar o rapaz chorando no box. Era preciso ser muito macho para enfrentar a banda e os amigos de Beefheart em sua própria casa e tirar o amigo guitarrista de lá, mas foi isso justamente o que Merrell fez. E ainda voltou mais tarde para um papo franco com Van Vliet. Com sua autoridade de capitão traída, Beefheart não admitia perder Cotton, para ele um gênio do rock, o melhor guitarrista de slide que ele já ouvira e, com certeza, uma das três melhores técnicas do estilo. Foram necessárias horas de muita conversa para convencer Van Vliet a aceitar as evidências e se conformar.
Livres, soltos e inspirados em Mu, as novas composições de Cotton e Merrell ganharam uma aura de misticismo inédita para ambos, com letras habitadas por discos voadores e carregadas de espiritualismo. A sonoridade da banda também ganhou tal dimensão que eles praticamente enlouqueceram o produtor Phil Meldman e o empresário Marty Gabler, que foram ouvi-los em um de seus shows em LA, a ponto de ambos bancarem a gravação de seu primeiro disco em um estúdio de Hollywood, que foi lançado em uma tiragem de apenas (mais uma) 3.500 discos pelo selo ERA/RTV de Beverly Hills.
Com o álbum homônimo MU nas mãos, Merrell conheceu o promotor Audrey Franklyn, que já havia cuidado da carreira do Lovin’ Spoonful, do primeiro concerto dos Rolling Stones no Hollywood Bowl e mais tarde trabalharia com Lennon e Yoko. Ele adorou o que ouviu e começou a promover a banda no rádio, na imprensa e na TV. Não demorou muito e MU já era considerado a melhor das novas bandas de Los Angeles, aparecendo constantemente na programação das TVs que cobriam a região e virando hit nas rádios FM.
Tanto entusiasmo pelo MU não era injustificado. O som que saia do LP era uma improvável mistura de Crosby, Stills & Nash, Beefheart e Grateful Dead, um dos sons mais sofisticados e inovadores do começo dos anos 70, uma espécie de psicodelia tardia, mas com lampejos progressivos graças, principalmente, aos intrincados arranjos das músicas, ao incrível slide de Cotton e também às intervenções crimsonianas que o mesmo Cotton tirava de seu clarinete. Sem dúvida um dos melhores discos lançados nos EUA em 1971 e que só ganhou lançamento europeu, desta vez pela United Artists e com outra capa, em 74, mesmo ano em que saiu no Brasil.
O interesse de Merrell e Cotton pelo continente de Mu não foi passageiro. Cada vez mais eles se aprofundavam em estudos e pesquisas sobre o tema. A coisa chegou a tal ponto que em 1973 eles acabaram aceitando o convite de um amigo músico de nome Jeff Parker para conhecer Mauí, a segunda maior ilha do arquipélago havaiano, lugar que segundo as lendas nativas seria o topo de uma montanha do continente perdido. Após uma breve estada de 10 dias resolveram vender tudo o que tinham e, em seis meses, estavam de volta à ilha, desta vez definitivamente. O único da banda que não topou a idéia foi o baixista Larry Willey, substituído então por Parker que já morava em Mauí.
A identificação dos músicos da banda com os habitantes da ilha (e vice-versa) foi imediata. Os shows do MU eram disputadíssimos e logo eles viraram celebridades locais, já que o único rock star que tocara por lá antes deles foi Jimmy Hendrix em 1970. Depois de um ano morando comunitariamente em uma casa na floresta, com eletricidade fornecida por geradores domésticos, eles conheceram o engenheiro Barry Mayo, que havia trabalhado com o Quicksilver Messenger Service e tinha alguns equipamentos de gravação que eles conseguiram instalar na casa da floresta. Foi a partir daí que eles reuniram material novo e puderam ir gravando ao vivo num modesto equipamento de quatro canais. Lá pelo final de 1974, no entanto, Jeff Cotton e Randy Wimer decidiram abandonar o mundo da música e voltar à Califórnia para seguir vocação religiosa, como sacerdotes cristãos.
Merrell permaneceu em Maui vivendo com a violinista Mary Lee, com quem iniciou uma parceria na composição de novas músicas que iriam virar o The Maui Album, lançado em 1976 numa tiragem de apenas 1000 discos. Esse álbum merecia muito mais do que isso, pois foi gravado em São Francisco e parcialmente bancado pelo recém inaugurado selo Dark Horse, de George Harrison. O ex-beatle estava tão entusiasmado com o material que se ofereceu, inclusive, para tocar slide em uma das músicas. Problemas organizacionais do selo acabaram por frustrar o projeto e o disco foi lançado no Havaí graças ao investimento de dois amigos locais.
Nos anos 80, quando já morava há muito em um outro endereço na ilha, Merrell recebeu a visita de dois fãs alemães interessados em materiais do MU. Foi quando ele se lembrou das fitas que o grupo havia gravado em sua casa estúdio na selva e, munido de uma machadinha, abriu caminho no mato que já tomava toda a antiga casa e conseguiu recuperar as fitas, ainda em boas condições apesar do abandono. As músicas foram lançadas no final dos anos 80 por alguns selos voltados para colecionadores. Ele ainda lançou vários álbuns nos últimos 25 anos, um deles com John Cippolina, do Quicksilver Messenger Service, e outro com Ed Cassidy, do Spirit.
Merrell Fankhauser jamais encontrou fisicamente seu continente perdido, mas o mundo do rock encontrou nele um grande exemplo de que nem sempre seus heróis são construídos pela mídia e pela super exposição. Ele é um dos únicos artistas cobiçados por fanáticos de vários gêneros, do surf rock ao folk, da psicodelia ao progressivo. São mais de 250 composições gravadas, discos disputados a tapa por colecionadores e até mesmo uma indicação ao Grammy de 2011 na categoria “Best Historical Album”. E esta história, que começou há 50 mil anos atrás, está longe de terminar.
Para os que se interessaram seguem links de algumas músicas compostas por Merrell Fankhauser em seu diversos grupos ao longo do tempo:
Fapardokly – “Gone to Pot
Fapardokly – “Tomorrow’s Girl
H.M.S. Bounty – “I’m Flying Home
H.M.S. Bounty – “Lost in the City
H. M. S. Bounty – “A Visit with Ashiya
MU – “End of An Era
MU – “Ain’t no Blues

Já tomou seu Todd hoje?

 

Quando Mark Chapman foi preso após o assassinato de Lennon, foram encontradas entre seus pertences de viagem várias fitas cassetes com músicas de Todd Rundgren, coisa que o artista só ficou sabendo tempos depois ao ver fotos do assassino vestindo uma de suas camisetas. Mark também era obcecado por Todd, a ponto de fazer várias comparações entre ele e John Lennon. Caso não fosse pego logo após assassinar John, quem sabe não teríamos o primeiro caso de um serial killer do rock.

Não que isso tenha deixado algum tipo de trauma em Todd Rundgren. Se tivesse, ele com certeza não teria inventado o Toddstock anos depois. Explico: em junho de 2008, morando no Hawaí e tendo acabado de lançar um disco, Arena, Todd resolveu comemorar seu sexagésimo aniversário convidando os fãs para ir à sua casa ouvir um show da sua banda como uma forma de promover o disco. Vieram trezentos, um número pequeno, mas considerável se levarmos em conta que cada um deles se locomoveu de alguma parte do mundo até o Havaí, compareceu ao show caseiro e passou uma semana no local, em plena comunhão, só para demonstrar seu afeto pelo artista. Tirando as caravanas deadheads, não conheço muitos casos de fidelidade tão explícita assim.
Mas não pensem que é fácil ser fã de Todd Rundgren. Primeiro que é preciso fatiá-lo em vários pedaços e escolher qual parte a gente gosta mais. Se é o adolescente americano fanático pela invasão inglesa e que criou a banda Nazz só para prestar tributo aos súditos da rainha. Ou se é o roqueiro que se reinventou vários anos depois criando a banda Utopia e distribuindo um dos hard rocks mais inteligentes que o gênero AOR já conheceu, com shows carregados daquela tecnologia que tanto definiu esse tipo de música. Ou talvez o artista technopop que ele se revelou diversas vezes nos últimos anos.
Da minha parte, prefiro a fatia que cobre do seu primeiro disco solo, Runt, de 1970, até a criação do Utopia. Fase em que sedimentou sua fama de mestre do pop de três minutos e que teve seu auge em 1972, no Lp Something/Anything. Disco fantástico, do qual três lados (era duplo) ele gravou e produziu sozinho e um quarto lado foi capturado ao vivo com uma banda. Esse disco, e o sucesso arrasador da faixa “I Saw The Light”, fizeram com que durante muitos anos ele carregasse consigo a fama de one-man-band Beatles.
Tudo muito bonito e consagrador, mas nem por isso Todd quis repetir a fórmula no disco seguinte. A Wizard, A True Star é um dos artefatos mais malucos do rock, com todos os ingredientes para se tornar uma espécie de suicídio para uma carreira até então muito consistente. Hoje é um disco cult, mas na época em que saiu poucos entenderam sua mistura grandiloquente de dadaísmo e psicodelia. O disco afrontava os ouvidos até mesmo fisicamente, já que Todd resolveu exceder os limites de tempo de um Lp comum e espremeu os sulcos ao máximo para poder atingir os quase 56 minutos que precisava, mesmo que isso conscientemente tenha comprometido a qualidade do som. Bom, conscientemente é forma de dizer, já que nessa época ele estava compondo sob efeitos de doses cavalares de LSD e do estimulante Ritalin. De toda forma, é o disco dele de que mais gosto e eu não trocaria 10 segundos de Wizard por muito bom mocismo prog da época.
Mas os fãs de Rundgren não se contam apenas nos ouvintes. Vários músicos e bandas devem parte de seu sucesso à sensibilidade de sua produção. Ele já produzia o Nazz e foi o engenheiro de som do disco Stage Fright, do grupo The Band. Também produziu o terceiro disco do Badfinger, Straight Up (junto com George Harrison); Halfnelson, do Sparks; We’re An American Band, do Grand Funk Railroad; Mother’s Pride, do Fanny e L, do Steve Hillage. Produziu Cheap Trick, The Tubes, Patti Smith (Wave), Rick Derringer, Hall & Oates, The Psychedelic Furs, Bad Religion e a obra prima Skylarking, do XTC, entre vários outros. Mas duas produções suas valem a pena comentar. Uma foi a estréia do New York Dolls, quase uma missão impossível, já que não é qualquer produtor que consegue manter Johnny Thunders e Cia. no mesmo estúdio, ao mesmo tempo, gravando a mesma coisa, mesmo quando esse estúdio é também habitado por dezenas de groupies, jornalistas musicais de plantão e toneladas de drogas e bebidas. Outra produção notável foi a do disco Bat Out Of Hell, do Meat Loaf, um cara tipo porcão do rock e que ninguém dava um pedaço de bacon torrado por ele. Para não me alongar muito, os números do álbum dizem tudo: 43 milhões de cópias vendidas, 200 mil todo ano até 2010, quinto álbum mais vendido de todos os tempos e 14 vezes disco de platina. Só com os royalties que ganhou, Todd pode ficar numa boa por anos seguidos.

Bat Out Of Hell foi lançado em 1977, mesmo ano em que nasceu Liv Rundgren, que a mãe Bebe Buell disse ser filha de Todd e que anos mais tarde acabaria revelando ser, na realidade, filha de Steven Tyler, do Aerosmith. Mas encerrar um texto falando de Liv Tyler é roubar no jogo, não é mesmo?

Toddstock

Rainbow: The Deluxe Editions

 

Edições especiais são um artificio recorrente da indústria fonográfica, muito comum nessa época de downloads sem fim, uma vez que essa manobra das gravadoras tem como objetivo chamar a atenção para o material original, muitas vezes almejando o interesse não do ouvinte ocasional, mas daquele fã específico de algum gênero ou artista. Ultimamente, as séries deluxe têm apresentado edições ampliadas de discos importantes de artistas dos mais diversos nichos múscais. O seminal Rainbow, finada banda do guitarrista Ritchie Blackmore, teve recentemente dois de seus lançamentos reeditados no formato: o maravilhoso Rising (1976) e o bom Down to Earth (1979). 
Rising, segundo disco dos caras e clássico absoluto, é uma das melhores obras geradas pela mente de Blackmore. Contando com um trabalho vocal soberbo do saudoso Ronnie James Dio, e o inigualável talento do também falecido Cozy Powell nas baquetas, Rising também contou com os talentos de Jimmy Bain no baixo e Tony Carey nos teclados. O disco, ainda que curto – pouco mais de 33 mintos – é poderosíssimo. Todas as suas músicas são um arregaço, mas cabe uma menção extra para a fodidíssima “Stargazer” que conta com a participação da Orquestra Filarmônica de Munique (Alemanha), regida então por Rainer Pietsch.
Levando-se em consideração a relevância e qualidade das músicas incluídas originalmente no álbum, seria lógico concluir que uma edição especial do mesmo ultrapassaria qualquer expectativa, correto? Errado! A edição deluxe de Rising é decepcionante… Trata-se, basicamente, do mesmo álbum em três versões, com diferenças muito sutis entre elas. Senão vejamos: no primeiro CD temos as mixagens denominadas “Los Angeles Mix”, e “New York Mix”, que na verdade tratam-se da versão original do álbum em LP e da primeira mixagem a sair em CD. São quase iguais, com mínimas diferenças que não justificariam uma edição especial. No disco dois, mais Rising em versão alternativa: as famigeradas “Rough Mixes” do álbum original. Versões mais cruas, de pré-produção, que, ainda que contenham diferenças mais aparentes que as músicas do primeiro disco, pouquíssimo contribuem para o resultado final do tal “pacote de luxo”. Uma obra de arte como Rising merecia um tratamento mais respeitoso. E seus fãs, também!
Disco 1:
1. Tarot Woman [New York Mix]
2. Run With the Wolf [New York Mix]
3. Starstruck [New York Mix]
4. Do You Close Your Eyes [New York Mix]
5. Stargazer [New York Mix]
6. A Light in the Black [New York Mix]
7. Tarot Woman [Los Angeles Mix]
8. Run With the Wolf [Los Angeles Mix]
9. Starstruck [Los Angeles Mix]
10. Do You Close Your Eyes [Los Angeles Mix]
11. Stargazer [Los Angeles Mix]
12. A Light in the Black
Disco 2:
1. Tarot Woman [Rough Mix]
2. Run With the Wolf [Rough Mix]
3. Starstruck [Rough Mix]
4. Do You Close Your Eyes [Rough Mix]
5. Stargazer [Rough Mix]
6. A Light in the Black [Rough Mix]
7. Stargazer [Pirate Sound Tour Rehearsal)]
Rainbow em 1979: Ritchie Blackmore, Roger Glover, Don Airey, Cozy Powell e Graham Bonnett
Quarto disco de estúdio da banda de Ritchie Blackmore, Down to Earth (1979) marcou uma guinada no estilo musical da banda. Já não mais contando com Dio nos vocais – substituido por Graham Bonnet, mais o ex-baixista do Deep Purple, Roger Glover, e Don Airey nos teclados – (Cozy Powell permaneceu), o disco tem uma sonoridade bem mais pop, seguindo a vontade do chefão Blackmore. Mesmo não mantendo semelhança com as porradas maravilhosas da fase anterior – e clássica – do grupo, Down to Earth tem alguns bons momentos. “Since You’ve Been Gone” e “All Night Long” viraram singles, inclusive. “Lost in Hollywood” também é bem bacana, e merece uma ouvida atenta.
A tal versão deluxe é outro tiro n’água: lados B já lançados à exaustão em coletâneas, out-takes instrumentais e um par de músicas não lançadas na época, fracas o bastante para justificar as suas ausências no álbum original. Na boa: quem já tem esses discos nas suas versões simples, só vai rasgar suas “verdinhas” à toa, ainda mais que essas edições “especiais” só se encontram em versões importadas. Ah, e mais uma coisa: gravadoras, vocês estão fazendo errado… MUITO ERRADO!
Disco 1:
1. All Night Long
2. Eyes of the World
3. No Time to Lose
4. Makin’ Love
5. Since You Been Gone
6. Love’s No Friend
7. Danger Zone
8. Lost in Hollywood
9. Bad Girl [Faixa bônus]
10. Weiss Heim [Faixa bônus]
Disco 2:
1. All Night Long [Instrumental Outtake]
2. Eyes of the World [Instrumental Outtake]
3. Spark Don’t Mean a Fire
4. Makin’ Love [Instrumental Outtake]
5. Since You Been Gone [Instrumental Outtake]
6. Ain’t a Lot of Love in the Heart of Me
7. Danger Zone [Instrumental Outtake]
8. Lost in Hollywood [Instrumental Outtake]
9. Bad Girl [Instrumental Outtake]
10. Ain’t a Lot of Love in the Heart of Me [Alternate Outtake]
11. Eyes of the World [Instrumental Outtake]
12. All Night Long [Cozy Powell Mix]


John Hartford, o menino do rio

 

Assim como tivemos um progressive jazz e um progressive rock, a música country americana do final dos anos 60 e começo dos 70 também viveu seus anos progressivos graças a artistas e bandas que eletrificaram seus instrumentos e misturaram ao country de raiz elementos retirados de outros estilos, principalmente o rock and roll. O bluegrass, por exemplo, um estilo regional do Kentucky surgido na década de 40 e caracterizado pelo dedilhar melódico do banjo, canto rigorosamente harmônico e uso do bandolim como instrumento líder (o rockabilly foi muito influenciado pelo bluegrass), ao ganhar guitarras elétricas, bateria e piano, se transformou no progressive bluegrass, ou newgrass, e apontou novos e revolucionários caminhos para o country a partir de 1970. Um dos artistas fundamentais para essa revolução foi John Hartford.
E já que estamos falando de um artista country, vamos esquecer a Swinging London e a West Coast americana e nos concentrar em Nashville, no Tennessee. Vamos deixar de lado o UFO Club e os Fillmore e ingressar no mundo do Grand Ole Opry, onde a realeza da mais popular música ianque fazia sua corte. John Harford nasceu em Nova Iorque em 1937, mas cresceu em St. Louis, onde descobriu suas duas grandes paixões: a técnica do banjo de três dedos que Earl Scruggs desenvolveu para o bluegrass e o Rio Mississippi.
Em 1965, já formado em artes comerciais, mas disposto a abandonar tudo pela música, Harford muda-se para Nashville onde, em pouco tempo, tocando na periferia do showbiss e eventualmente gravando algum single para pequenos selos, ganhou de presente do mestre Chet Atkins um “t” para acrescentar ao seu nome (virou Hartford) e um contrato para ingressar no cast da RCA.
Seu LP de estréia é lançado em 1967 e não dá em nada. No ano seguinte ele lança Earthwords & Music, seu segundo álbum, e este só não foi para o mesmo limbo porque Glen Campbell ouviu no rádio a música “Gentle On My Mind” (que Hartford compôs depois de assistir ao filme Dr. Jivago) e resolveu gravá-la. Foi como ganhar na loteria. A música na versão de Campbell alcançou um sucesso tão grande que no ano seguinte ganhou 4 Grammys – dois para Hartford, como compositor e também como música original, e dois para Campbell. Ela se tornou a música com mais versões de outros artistas da época e está entre umas das composições de maior sucesso de todos os tempos, ganhando interpretações que vão de Elvis a Aretha Franklin, passando até mesmo pela voz de Frank Sinatra. Mesmo depois de mais dois álbuns pela RCA, foi “Gentle On My Mind” que tornou Hartford um homem rico e independente, faturando mais de 100 mil dólares anuais por anos a fio.
Em 1970, Hartford muda de gravadora. Sem preocupações financeiras e com carta branca da Warner Brothers para ousar o quanto quisesse, ele forma a banda Aereo-Plain e lança dois discos fundamentais para a evolução do bluegrass tradicional para o newgrass. No Aero-Plain estão alguns dos músicos mais bem dotados do gênero: Norman Blake no violão, Tut Taylor no dobro e o legendário Vassar Clements no violino. John também não deixa de lado seu amor pelo Mississippi e o declara da forma mais romântica possível, conseguindo sua tão sonhada autorização para pilotar os enormes steamboats que cruzam o rio desde os tempos do velho oeste. Ele passaria muitos verões de sua vida pilotando o Julia Belle Swain nos finais de tarde e animando os passageiros e a tripulação à noite, em shows memoráveis à bordo do navio.
Aereo-Plain, o primeiro disco lançado pela Warner, já foi honrado com o apelido de “Revolver do bluegrass” (o “Sgt. Peppers” do gênero seria Will The Circle Be Unbroken, cometido um ano depois pela fantástica Nitty Gritty Dirt Band) e viu a luz do dia no glorioso ano de 1971. Gravado ao vivo em estúdio sem nenhum tipo de arranjo pré-planejado, suas faixas foram quase que todas paridas num único take, conforme os planos do produtor David Bromberg, um músico mais ligado à tradição folk. Neste LP, Hartford detona todos os princípios que Nashville levou décadas para sedimentar, usando de muito sarcasmo para falar de drogas e sexo e uma boa dose de mordacidade ao tratar da subcultura que cerca o country tradicional, sua ascensão e queda. Mas ao mesmo tempo em que Aereo-Plain põe em cheque alguns dos mais sagrados mandamentos do catecismo country, a música que vibra nos sulcos do LP é capaz de fazer qualquer caipira vender sua mula só para ter esse disco girando no prato da vitrola. Como era de se esperar, a obra foi muito apreciada pelos hippies e se consagrou entre os habitués da contracultura americana.
Para o próximo lançamento, Morning Bugle, de 1972, Hartford mantém Norman Blake na banda e acrescenta Dave Holland no baixo, curiosamente um músico de jazz, da turminha de Keith Jarrett. O produtor agora é John Simon (que trabalhou com The Band), mas ele repete a fórmula de gravação ao vivo em estúdio, sem nenhum overdub. O disco é praticamente uma continuação do anterior, mas aqui o humor negro de John se manifesta numa gama maior de temas. Talvez o fato do disco ter sido gravado em um estúdio próximo a Woodstock explique a quantidade de referências às drogas contidas nas letras e uma certa nostalgia psicodélica que paira na atmosfera das canções. Mais um disco maravilhoso, onde Hartford exorciza suas influências tradicionais e se coloca na condição de influência para muita coisa que foi feita no estilo daí para a frente.
Lá pela metade dos anos 70, John começa a se apresentar sozinho diante de seu público. Seus instrumentos são o banjo, o violino e o violão que ele vai alternando conforme a música. Neste momento ele é praticamente um cantor folk e seu único acompanhamento é o próprio corpo, tirando sons orgânicos que vão desde vocalizações malucas até uma dancinha safada executada sobre uma placa de madeira amplificada, uma espécie de sapateado caipira que funciona muito bem como percussão para suas composições. Em 76 ele leva essa sua nova técnica para o estúdio e lança pelo selo Flying Fish o álbum Mark Twang, que ele diz ser um disco em memória de um amigo, mas que soa mais como uma profunda homenagem ao Rio Mississippi. Hartford dedica ao disco todo o seu arsenal de diabruras sonoras, deliciando o ouvinte com um misto de sensibilidade romântica, humor e melodias mágicas. Como recompensa ele conquista seu segundo Grammy, na categoria de melhor disco étnico ou tradicional.
John só iria ganhar um novo Grammy em 2001 (mesmo ano de sua morte) pela sua performance na trilha sonora do filme “O Brother, Where Art Thou?”, que aqui no Brasil ganhou o título de “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”. Melhor disco do ano, essa trilha vendeu mais de três milhões de cópias só em seu lançamento e muito superastro country contemporâneo pôde descobrir nela tudo o que perdeu ao abandonar suas raízes. Hartford em vida gravou mais de 30 discos e seu nome batizou um festival anual de bluegrass e também uma curva de seu amado rio. E para todos aqueles que leram este texto até aqui e que ainda procuram justificativas para um músico sertanejo ocupar espaço numa comunidade dedicada ao rock, a única coisa que posso dizer é que é de John Hartford o violino e o banjo nas faixas do disco Sweetheart of the Rodeo, do grupo The Byrds. Serve?

Pequeno guia para se aventurar na floresta de sons de Roy Wood

 

Lamento começar este texto contrariando os filhos do orgulho tupiniquim, aqueles que defendem o grupo Secos e Molhados como inspiradores do visual pancake do Kiss. É que já li algumas entrevistas de Gene Simmons afirmando que a fonte foi mesmo o músico britânico Roy Wood. Se bem que Simmons, o Milton Neves do rock, não teria escrúpulo algum em eleger até mesmo o Pablo, do quadro dominical setentista “Qual é a Música?”, como o pai da idéia caso sua banda precisasse impressionar algum Silvio Santos de plantão.
Roy Wood já foi citado em verso e prosa várias vezes. Paul Williams, por exemplo, editor da já muito prestigiada Crawdaddy, chegou a listá-lo entre os cinco verdadeiros gênios do rock. Não sou tão econômico a ponto de achar que todos os gênios roqueiros que interessam cabem numa única mão, mas fosse eu portador de polidactilia, aquela alteração genética que leva o sortudo a ter seis ou mais dedos em um dos membros, era bem capaz de incluí-lo lá pelo sétimo dedo.
Que Wood foi um visionário, isso não se pode negar. The Move, ELO, Wizzard e seus discos solo são paletas sonoras de onde ele coloriu paisagens deslumbrantes a partir de uma imaginação que parecia não conhecer limites. E suas aquarelas musicais, abordando temas que vão do rock ao country, do pop descartável à psicodelia, do blues ao rockabilly e do clássico ao jazz provam que o título de camaleão não se presta apenas à David Bowie.
Nascido Ulysses Adrian Wood em Birmingham, Inglaterra, em 8 de novembro de 1947, despertou bem cedo para a música tocando bateria e harmônica. Sua abdução pelo rock coincidiu com sua primeira guitarra, pois seis meses depois de arriscar os acordes básicos já tocava numa banda. Depois de estagiar no Gerry Levene and The Avengers e no Mike Sheridan and The Nightriders, deu início ao seu próprio negócio, o The Move, em fevereiro de 1966, ao estrear no Belfry Hotel. Seus sócios na época eram Carl Wayne nos vocais, Bev Bevan na bateria, Ace Kefford no baixo e Trevor Burton na guitarra.
O Move era tão visceral que bastou uma semana de shows no clube Marquee para cimentar seu status de uma das melhores bandas underground da Inglaterra, com Keith Moon, Pete Townshend e Mick Jagger como figurinhas carimbadas em suas apresentações. E não demorou quase nada para que o empresário Tony Secunda firmasse um contrato com a Deram para a estreia da banda em single, que aconteceu em dezembro de 66. A música “Night of Fear“, lado A do single, alcançou o segundo lugar na parada inglesa e deu início a uma prática comum nas futuras composições de Wood: o uso de referências clássicas. Aqui ele se apropriou de um pedacinho da 1812 Overture, de Tchaikovsky, no riff de sua guitarra.
“I Can Hear de Grass Grow”, “Fire Brigade” e “Wild Tiger Woman” seguiram o caminho do sucesso aberto por “Night of Fear”, mas era nas apresentações ao vivo que a banda foi revelando seu lado mais selvagem, elevando a um estado de arte a destruição dos objetos de palco. Nem mesmo um automóvel Chevy 1956 escapou e, apesar de Wood não se sentir muito à vontade nessa sanha destrutiva e os promotores ficarem de cabelo em pé, banindo a banda de alguns clubes, essa escola The Who de demolição de palco acabou por chamar a atenção do público para o som do Move.
Em agosto de 67, um escândalo político ajudou a promover o próximo single da banda, “Flowers in The Rain” (a música que inaugurou a BBC Radio 1), carro chefe também do primeiro LP homônimo do grupo. Aproveitando as fofocas de que o então primeiro ministro do reino, Harold Wilson, tinha um caso com sua secretária, Roy Wood e companhia mandaram imprimir e endereçar para as donas de casa inglesas um cartão postal com uma caricatura do casal pelado na cama, chamando a atenção para a seguinte frase: “Por mais nojento, desprezível e vil que Harold possa ser, belo é a única palavra capaz de descrever “Flowers in The Rain”, do Move.” A resposta do político veio na justiça, cuja causa ganha obrigou a banda a doar todos os royalties arrecadados pela música para instituições de caridade. “Flowers in The Rain” nunca colocou um mísero penny no bolso de Wood.
Outro desastre na então recente carreira do Move foi sua excursão pela América do Norte. Mesmo sendo um enorme sucesso na terra da rainha, a ex-colônia inglesa não deu a mínima para a banda e os motivos apontados são a organização patética e a apatia da gravadora. Talvez esse fracasso tenha, inclusive, piorado as relações entre Wood e o vocalista Carl Wayne que, depois do lançamento do segundo LP do grupo, Shazam, aclamado pela crítica como um álbum de energia brutal, tirou seu time de campo após se recusar a cantar a pomposa e jamesbondiana “Blackberry Way“, de Wood, preferindo assumir sua veia baladeira e investir em carreira solo (ironicamente, algumas de suas canções e álbuns foram compostas e produzidos por Wood).
Para o lugar de Wayne foi recrutado Jeff Lynne, da banda Idle Race, alma gêmea musical de Wood e também responsável pelo upgrade de qualidade nos dois últimos álbuns do Move, Looking On e Message From The Country. Em 1972, após o single California Man, o Move anunciava um intervalo sabático que se prolonga até os dias de hoje. A verdade é que Wood e Lynne mantiveram o baterista Bev Bevan e pariram a banda Electric Light Orchestra como uma válvula de escape para o rock orquestral que Wood ensaiara em vários momentos do Move. “10538 Overture“, por exemplo, era para ser gravada pelo Move, mas só viu a luz do dia no primeiro LP homônimo do ELO.

Nas palavras de Wood, a intenção por trás do som do ELO era continuar de onde “I Am The Walrus”, dos Beatles, parou. Mas embora revolucionário, o casamento de rock e musica clássica que caracterizou a estreia do ELO não impediu o divórcio precoce. No meio das gravações do segundo LP, ELO II (1973), Wood fez as malas e foi para a casa de mamãe, dizendo que estava tão desapontado que não tinha mais vontade de formar uma banda.
Mas claro que ele formou: o Wizzard, um combo de oito lobos selvagens em pele de cordeiro que encaixava hit atrás de hit nas paradas inglesas, chegando duas vezes ao topo: a primeira com “Angel Fingers” e a segunda com “See My Baby Jive“. Wood havia vendido a alma de vez ao demônio com capa de lantejoulas do glam rock, apostando numa sonoridade altamente comercial. Por para tocar os discos do Wizzard é como atirar um gato no wall of sound de Phil Spector e amplificar seus miados. E ao vivo, a banda era o mais puro e espetacular rock’n’roll, um delicioso circo de excessos onde o mestre de cerimônias, Wood, vestia roupas extravagantes e se maquilava ao estilo Kabuki. Foi nesse picadeiro que o Kiss se inspirou e elevou o faturamento a cifras bilionárias.

Encaixado entre os dois discos do Wizzard, saia o primeiro trabalho solo de Wood: Boulders (1973). Se você é diabético, não ouça, porque esta coleção de deliciosos confeitos pop vai lambuzar tanto seus ouvidos que não me responsabilizo pela sua taxa de açúcar no sangue. Aqui Wood fez de tudo: compôs, produziu, cantou e tocou todos os instrumentos, além de ser dele a ilustração da capa. Ele repetiria a dose com Mustard (1975) e depois prestaria uma singela homenagem aos Beach Boys com o álbum Forever. Em 1977, já carente de hits na parada, Wood forma o Wizzo e lança apenas um solitário LP. Antes de se auto-impor uma aposentadoria precoce ainda lança em 79 o álbum On The Road Again, com convidados ilustres do naipe de um John Bonham na bateria e Carl Wayne nos vocais e produz o disco solo de Annie Haslam (do Renaissance), Annie in Wonderland, onde inclusive mostra suas habilidades em mais de quinze instrumentos diferentes.
Cansado das filas do INSS inglês, Wood retorna em 1987 com o sensacional Starting Up. E não pára mais, colaborando com Rick Wakeman, Jeff Lynne, The Royal Philharmonic Orchestra, Phil Lynott e por aí vai… Sua ficha de bons serviços prestados ao glorioso rock’n’roll é tão grande que vou parando por aqui. Se, contudo, você for detalhista, dá uma consultada na Wikipédia.

Yellow Raimbow” – Move
Fields of People” – Move
It Wasn’t my Idea to Dance” – Move
Songs of Praise” – Roy Wood
Custers Last Stand” – Rick Wakeman e Wood
We Are the Boys” – Phil Lynott e Wood
Rockalise” – Annie Haslam e Wood



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