sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Marco Antônio Araújo "Influências" (1982)

 

Gênios tendem a viver pouco. O brasileiro Marco Antonio Araujo estava destinado a viver apenas até os trinta e seis anos. Mas mesmo nesse curto período, esse artista notável realizou o suficiente para se tornar uma lenda do rock progressivo sul-americano.
Araujo iniciou sua carreira solo como profissional. Na época, havia estudado na Escola de Música da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, onde dominou o violão clássico e o violoncelo, e posteriormente trabalhou com a Orquestra Sinfônica do Estado de Minas Gerais. No entanto, o jovem não tinha a intenção de se limitar a interpretar obras de outros compositores. Ele desejava ardentemente apresentar seu próprio repertório. E assim que a oportunidade surgiu, abdicou de sua posição consolidada como membro da orquestra sem qualquer remorso. Marco e seu irmão, Alejandro, começaram a buscar ativamente músicos com a mesma visão. Logo encontraram essa pessoa na figura de um grupo com o misterioso nome de Mantra ...
O ano de 1982 marcou o lançamento do álbum de estreia do nosso herói. "Influências" foi gravado com a seguinte formação: o próprio maestro - guitarras elétrica, acústica e slide, percussão; Alejandro Araujo - guitarras, percussão; Eduardo Delgado - flauta; Antonio Viola - violino; Ivan Corriea - baixo; Mario Castelo - bateria. Absolutamente original e extremamente interessante do ponto de vista da instrumentação, o lançamento demonstrou o potencial de um músico acadêmico que se converteu à fé do rock. Telas extensas sem palavras (Araujo deliberadamente recusou os vocais), "Influências" são, acima de tudo, um mosaico sonoro pitoresco, uma síntese intrincada de partículas díspares. A visão artística única do líder é particularmente evidente em peças extensas como "Panorâmica", onde elementos culturais do folclore europeu e influências étnicas locais coexistem em igualdade, com escapadas percussivas características, partes virtuosas de guitarra elétrica e passagens de flauta igualmente complexas. A faixa-título também demonstra uma fusão harmoniosa de extremos: sons sinfônicos em tom maior e pastorais acústicas sutis, blues-rock potente impulsionado pela guitarra e uma base folk sólida. A conexão temática entre "Bailado" e "Abertura No. 2" permite que Marco, juntamente com uma polifonia magistralmente construída, mostre seu lado lírico (os diálogos motívicos entre cordas e sopros na segunda parte da "abertura" são verdadeiramente tocantes). A faixa "Cantares", de cunho filarmônico, encanta com a perfeição de seus movimentos composicionais, e a épica "Folk Song" evoca, em alguns momentos, as maravilhas artísticas dos renomados menestréis ingleses Gryphon . O álbum é complementado por duas faixas bônus: o estudo puramente camerístico "Entr' Act I & II" e a hipnotizante obra "Floydiana II", inspirada na obra-prima do Pink Floyd, "Atom Heart Mother".
Em resumo: magnífico.Um programa vibrante e profundo que inaugurou uma série de experiências artísticas bem-sucedidas de Marco Antonio Araújo.Eu recomendo.




The Stranglers "Greatest Hits - 1977-1990"



Meu pai me aparece em casa um dia com uma fita cassete de uma banda de rock e me dá. Como se só por ser banda de rock eu fosse gostar assim, sem mais. Ele costumava comprar umas tralhas de um bêbado, maltrapilho quase mendigo que arranjava relógios, bijuterias baratas, ervas para chás e desta vez uma fita cassete. Me deu a fita. Li “The Stranglers”. Nunca ouvira falar. Fui ouvir... Até que era bom. E foi melhorando. Cara, é muito bom!
Vim ouvindo hoje no caminho para o trabalho o mesmo Stranglers que ganhei e ouvi naquela época cheio de desconfiança, “The Greatest Hits- 1977-1990”. Depois vim a descobrir que os caras foram parte importante do movimento punk e foram grande influência de uma série de bandas dos anos 80, em especial de uma da qual gosto muitíssimo, o Cure.
“Greatest Hists” mostra esta linha de evolução sonora. O início com a ótima “Peaches” é bem reflexo do punk com uma bateria seca, um baixo cru e um vocal rasgado e agressivo. “No More Heroes” mantém a linha mas com um trabalho de teclado mais bem acabado. O ponto alto da coletânea vem com a versão para a música multi-regravada de Burt Bacharach, “Walk on By”, um épico de uns sete minutos com um baixo agressivo e incendiário permeado pelo teclado característico da banda, que a faz lembrar muito The Doors. A influência do pessoal do Jim Morrison mostra-se evidente pela característica do timbre do teclado e de como ele é colocado nas músicas. Confirma essa fonte de inspiração principalmente a regravação do hit dos Kinks “All Day and All of the Nght” que, a propósito, é parecidíssima com “Hello, I Love You” dos Doors tendo gerado inclusive uma suspeita de plágio na época de seu lançamento. Gravar “All Day...”, no fim das contas era como tocar Doors sem estar tocando “Doors”. “96 Tears’ e “No Mercy” que fecham a coletânea já demonstram uma inserção nos anos 80 com uma ar bem mais pop e acessível.
A obra-prima dos caras na verdade é o álbum “Black and White” de 1978, que tem a doida “Nice’n’ Sleazy” e a punkíssima “Enough Time”. Li também que o primeiro disco “Ratus Norvegicus” é excelente mas não ouvi ainda. O que tenho em casa e que devo ao fato de meu pai comprar “porcarias” por aí é este ótimo “Greatest Hists- 1977-1990”.
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FAIXAS:
  1. "Peaches"
  2. "Something Better Change"
  3. "No More Heroes"
  4. "Walk On By"
  5. "Duchess"
  6. "Golden Brown"
  7. "Strange Little Girl"
  8. "European Female"
  9. "Skin Deep"
  10. "Nice in Nice"
  11. "Always the Sun"
  12. "Big in America"
  13. "All Day and All of the Night"
  14. "96 Tears"
  15. "No Mercy"

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The Stooges - "The Stooges" (1969)

 

"Então pensei: o lance é tocar
meu próprio blues simples (...)
Me apropriei de um monte de formas vocais deles
[os negros] e das linhas melódicas também
- ouvidas, ou mal ouvidas,
ou deturpadas, das canções de blues.
Assim, "I Wanna be Your Dog"
provavelmente é resultado da minha má interpretação
de "Baby Please Don't Go".
Iggy Pop

No embalo do lançamento do material raro dos Stooges, o duplo "Dirty Power", é bom não deixar passar o ensejo sem falar de um álbum verdadeiramente fundamental na história do rock. Estou falando do primeiro do “The Stooges", de 1969, e que leva o mesmo nome da banda que, aliás, proporcionou o aparecimento de Iggy Pop para o mundo do rock.
Disco importantíssimo para a formação do punk e para as gerações seguintes do rock dali para a frente. Com sua sonoridade crua, suja e barulhenta contribuiu grandemente para a identidade sonora daquele momento. Bandas como Velvet Underground, Doors, Television, artistas como David Bowie já vinham trilhando um caminho que levaria ao que se caracterizou depois como o punk rock, mas parece que com os Stooges o passo final da evolução do conceito tinha finalmente acontecido. Provas desta linhagem são os fatos, por exemplo de Iggy ter se estimulado a ter uma banda depois de ter visto um show do Doors, de John Cale ex-integrante do Velvet ter produzido o primeiro disco dos Stooges ou mesmo de Bowie ter sido parceiro e produtor de Iggy depois em carreira solo. Os Stooges traziam o minimalismo, a sujeira, a agressividade que faltava para que a coisa tomasse forma e a partir dali o caminho estava pavimentado para nomes como Ramones, e Sex Pistols aparecerem alguns anos depois.
Mas falando propriamente do disco, o negócio já começa detonando com a grande “1969”, um daqueles clássicos eternos do rock; na seqüência, sem sair de cima, já vem outra das fantásticas, “I Wanna Be Your Dog”, básica, ‘burra’, simples e matadora. Quatro acordes incansavelemente repetidos o tempo inteiro e um piano insistente ao fundo numa nota só. Cru e genial. “No Fun”, que viria a ser gravada depois pelos Pistols, é outra das grandes do disco, igualmente com uma concepção simplérrima e acordes muito básicos; destaque também para “Not Right” e para a excelente “Little Doll” que passa a régua e fecha a conta.
Na época o disco foi praticamente ignorado, vendeu mal até por conta dos problemas que teve antes do lançamento quando já concluído teve que voltar para a mesa de mixagem uma vez que a gravadora desaprovou o resultado da produção de John Cale atrasando o lançamento e então já saindo com um certo descrédito e desconfiança. Como muitas grandes obras, este álbum acabou só sendo reconhecido alguns anos depois de seu lançamento e só então se percebeu o quanto ele havia sido realmente ousado e pioneiro.
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FAIXAS:
1."1969" – 4:05
2."I Wanna Be Your Dog" – 3:09
3."We Will Fall" – 10:18
4."No Fun" – 5:15
5."Real Cool Time" – 2:32
6."Ann" – 2:59
7."Not Right" – 2:51
8."Little Doll" – 3:20



The Stooges – “Fun House” (1970)


"Em Fun House, tentamos fazer um som mais 
parecido com a banda original antes do primeiro 
álbum – uma coisa mais livre, improvisada.” 
Scott Asheton


“Os Stooges são originais. Eles têm espírito.” 
Miles Davis


O script da carreira de qualquer artista da música pop é o de, à medida que sua obra avança, a sonoridade e o estilo irem se aperfeiçoando. Embora depois possa fazer incorrer numa amenização ou até perda do viço inicial, isso acontece porque uma banda ou cantor do rock faz muitas vezes do jeito que dá o primeiro disco. O debut, por conta disso, acaba ou deixando a desejar em relação ao que ainda se virá a produzir ou, pela falta de recurso, não consegue expressar com completude as qualidades que já se tem – o que caberá, aí, aos discos seguintes mostrarem. Afinal de contas, todos querem melhorar com o tempo, certo? Errado em se tratando de The Stooges.

A avassaladora estreia no disco homônimo, de 1969, trazia a secura e a energia do punk, porém encapsulado pela minuciosa produção do craque John Cale. O ex-Velvet Underground conseguira tornar consideravelmente pop – mas sem perder o vigor – o baixo feroz de Dave Alexander, as guitarras barulhentas de Ron Asheton e a bateria alta de seu irmão Scott Asheton. Isso, claro, sem falar na intensidade irrefreável do vocalista e líder Iggy Pop, o mais alucinado front band do rock norte-americano à época. Uma banda normal chegaria à lógica conclusão: “Galera, deu certo a receita do nosso primeiro trabalho. Vamos melhorar no nosso próximo disco?”. Bem, como disse, não se trata de um grupo comum. Oriundos da cena underground de Detroit, os Stooges encarnavam uma massa de jovens deslocados, sem emprego e desvalorizados. Eram verdadeiros transgressores vindos de baixo para lutar contra o sistema. Então, por melhor que tenha sido a experiência com Cale, eles eram mais toscos que aquilo. Tanto que propositadamente deram um “passo atrás” em seu segundo e, para muitos, melhor álbum: “Fun House”, de 1970.

“Fun House” é daqueles acontecimentos em que se confundem vida e arte. A contestação típica do rock ‘n’ roll toma a forma mais punk que poderia: com niilismo e sarcasmo. Disponibilizando um orçamento mais modesto do que da primeira vez, a gravadora Elektra chamou para dar um jeito naquela gurizada outro tarimbado produtor Don Galucci (lendário, aos 14 anos tocara órgão na versão de "Louie, Louie", da garage band Kingsmen, sucesso em 1963). Afinal, o primeiro disco, mesmo cultuado, vendera mal e a turma só queria saber mesmo era de se chapar e de putaria. A genial resolução veio da cabeça de Galucci: por que não registrar, então, EXATAMENTE isso? “Se é de sexo, drogas e rock ‘n’ roll que os Stooges entendem, vamos colocá-los a fazer o que sabem”. 

Reproduzindo a atmosfera selvagem e performática dos shows da banda e da própria Fun House – a casa em que todos viviam entre picos de heroína, sexo, confusões e muita música –, eles entraram no estúdio em Los Angeles para tocar ao vivo. E de forma a se sentirem totalmente ambientados, com o aparato usado durante os shows. Iggy se pintando de tinta, trocando roupas, esfarrapando outras ou se lambuzando com cobertura de bolo, cujo branco se misturava ao vermelho do sangue que tirava de si mesmo cortando-se com cacos de vidro. Para completar, depois das sessões de gravação, a “Casa dos Prazeres” se transformava num motel onde orgias e drogas, em looping, geravam o conteúdo musical e conceitual que compõe o disco.

O resultado é uma sonoridade consideravelmente mais tosca do que a do primeiro disco, com a cara de som de garagem que queriam, onde prevalecem a guitarra em altíssimo volume; um baixo grave e permanentemente presente; uma bateria que parece uma lata sendo socada; e... Iggy. Ah! Iggy estava mais junkie e ensandecido do que nunca, o que se nota tanto nos vocais quanto nas letras. Perceptível isso na estupenda faixa de abertura, “Down on the Street”. Um cartão de visitas furioso, cru, liricamente violento. “Descendo a rua onde os rostos brilham/ Flutuando ao redor dela cabisbaixo/ Visualizando coisas bonitas/ Sem muros!/ Sem muros! Sem muros!...” Um dos melhores riffs de todo o cancioneiro punk-rock.

“Loose” segue no embalo “from hell”, mandando ver noutro riff matador da guitarra de Ron, enquanto ele mesmo executa noutra guitarra distorções que emporcalham o fundo. “Eu levei uma gravação de músicas lindas/ Agora as mostro pra você direto do inferno”, dizem os versos. O início da faixa, clássico, com a virada de Scott e os gritos de Iggy, virou sample da Chico Science & Nação Zumbi na faixa "Manguetown", de “Afrociberdelia” (1997).

Uma das músicas que melhor traduzem o clima de “Fun House” é a pogueda "T.V. Eye", gíria inventada pela irmã de Ron e Scott, Kathy, que significa algo como “Interesse sexual”. Um reflexo direto das noitadas da banda e do conhecido sex appeal de Iggy, àquelas alturas um símbolo sexual da cena. Scott parece que vai furar a caixa tamanha força das batidas, repetidas energicamente. O baixo de Dave está destacado sobre todo o resto, fazendo evoluções inteligentes sobre a base. A guitarra rasga o ar, mais rosnando do que outra coisa, haja vista que é do baixo que se percebe o riff. Iggy, por sua vez, é um caso à parte. Que performance! O número não começa: irrompe! O Iguana solta um grito literalmente animalesco, que chega a dar um susto em quem escuta. Sexo. Drogas. Rock ‘n’ roll. Na veia! “Vê aquela gata?/ Sim, eu a quero/ Você vê aquela gata?/ Sim eu quero você/ Ela está com um T.V. Eye sobre mim...” Importante não só para aqueles que viam nos Stooges uma referência, como Richard Hell, Ramones, Suicide, Dead Boys e outros, mas também dentro do repertório da banda, “T.V. Eye” inspiraria pelo menos duas canções de cunho altamente apimentado do disco seguinte da banda, “Raw Power”: “Penetration” e “Shake Appeal”.

“Dirt”, conforme o próprio Scott define, “é um exemplo perfeito de como era nossa atitude: ‘Foda-se toda essa merda! Somos lixo e não nos importamos.’” São 7 min lisérgicos sobre uma base 1x5 cuja batida cadenciada e a linha do baixo abrem campo para a guitarra literalmente sujar o ambiente com distorções de wah wah e muita viagem sonora. Isso sobre as frases soltas, gritadas, destroçadas de Iggy, que dizem a certa altura: “Ooh, eu estive sujo/ E eu não me importo/ Porque eu estou queimando por dentro/ Eu sou apenas um anseio interior/ E eu sou o fogo da vida”. 

Se o pessimismo de “Dirt” dizia que os sentimentos eram todos suplantados diante da realidade irremediavelmente imunda daquele início de década (Guerra do Vietnã, ditaduras nas Américas, reflexos de 1968, crise do petróleo, desemprego, inflação), o que salvava era extravasar por meio das emoções mais instintivas. “1970”, outro petardo punk – cuja métrica propositadamente lembra a de “1969”, do disco anterior –, fala que os loucos sábados à noite daquela época eram, afinal, a escapatória: o prazer carnal: “Linda gata/ Alimente o meu amor a noite toda/ Até eu explodir/ Toda a noite até que eu exploda/ Eu me sinto bem/ Baby, oh baby, queime meu coração”. Para completar a sonoridade de uma das grandes faixas do disco e de todo o repertório da banda, o sax de Steve Mackay, tão enlouquecido que, dissonante e estridente, lembra o dos “loucões” do free-jazz Ornette Coleman e Albert Ayler.

A faixa-título, um blues ruidoso e quebrado, tem uma bateria martelada e a guitarra solando desde o início junto com o sax – e claro, também dos gemidos e urros de Iggy. O baixo, que de início segura a base, passa a ter o acompanhamento de Ron e Mackay por um tempo, mas logo em seguida estes desvirtuam novamente e passam a solar cada um para um lado. O vocal de Iggy é extraordinário, capaz de impor seu belo timbre a serviço da mais assustadora insanidade. “Iggy era perigoso”, declarou certa vez o amigo e empresário da banda à época Danny Fields.

Fechando esse soco sonoro que é “Fun House”, "L.A. Blues", como não poderia deixar de ser, mais um soco. Quase 5 min de gritos lancinantes, improvisos, distorções, microfonias, dissonâncias. O blues mais sórdido que se pode ter notícia. É possível enxergar a performance de Iggy e Cia. somente ouvindo-os. Conforme conta Alan Vega, do Suicide, no livro “Mate-me, Por Favor – A História sem Censura do Punk”, Iggy Pop “não era teatral, era teatro. Alice Cooper era teatral, ele tinha todo o aparato, mas com Iggy não era encenação. Era a coisa real”. Neste sentido, “Fun House” soa tão honesto que não pode ser considerado um retrocesso, mas, sim, uma obra genuína. Ao contrário da maioria, os Stooges precisavam regressar para serem eles mesmos. Tamanha originalidade faz com que o disco, presente entre os primeiros em qualquer lista de melhores da história do rock e dos anos 70, seja cultuado por toda a geração desde que foi lançado – e não apenas de roqueiros, haja vista que o jazzista Miles Davis, pai do cool jazz, era fã declarado da banda.

Se “Fun House” já representava uma devolução, os Stooges conseguiram se superar em “Raw Power”, de 1973, em que as músicas eram ainda mais furiosas e a produção foi relegada a segundo plano, tornando-o (saudavelmente!) inaudível em alguns momentos. Mais um passo em direção ao depauperamento deliberado que Iggy Pop e Stooges promoviam na indústria fonográfica, provando aquilo que os punks entenderam muito bem: no rock, menos pode muito bem ser mais.

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FAIXAS
1. "Down on the Street" – 3:43
2. "Loose" – 3:34
3. "T.V. Eye" – 4:17
4. "Dirt" – 7:03
5. "1970" ("I Feel Alright") – 5:15
6. "Fun House" – 7:47
7. "L.A. Blues" – 4:57



The Stone Roses - "The Stone Roses" (1989)



"I'm the Ressurection
and I'm the life"


O grande disco dos Stone Roses, um dos marcos da cena chamada Madchester, daquela renovada onda de psicodélicos ingleses do final dos 80 acabou por ser na verdade um dos discos mais importantes da década seguinte que já estava ali às portas. Muitos como Charlatans, Ride, An Emotional Fish, Inspiral Carpets, já estavam na estrada e tinham o seu som, mas os Roses, certamente ajudaram a direcionar e abrir novas possibilidades.
Novas possibilidades como em “Warerfall” com sua melodia hipnótica que lá pelas tantas parece acabar e começa a tocar invertida mas continua sendo cantada normalmente. Já vimos isso com Hendrix em “Are You Experienced”? Já. Certamente. Mas aquela sonoridade da Grâ-Bretanha no final dos 80 precisava destas reinjeções, destas reexperimentações.
É lógico que nada se cria. Muito do disco é Beatles puro. Puro, não, aliás. Quase puro. Quase impuro. Sempre entendi que os Beatles deram os passos que ninguém havia dado até então, mas quando chegou a hora de seus discípulos (inesgotávies) os darem, o fizeram com um resultado melhor porque o caminho já estava trilhado. Por isso algumas coisas são totalmente influenciadas pelos Fabfour mas acabam, aquelas alturas, em 1989, tendo um resultado mais conciso. “I Wanna Be Adored” é um exemplo disso, “Bye Bye Badman” é outra muito próxima daquela sonoridade mas soa bem contemporânea e “Elizabeth My Dear” também não deixa de ter esta característica, mas tem aquela tocada mais melancólica, num breve acústico que funciona quase como uma ponte dentro do álbum.
Pontos altos na minha opinião são “Made of Stone”, que foge um pouco da característica do resto do disco, com uma pegada mais forte, e a clássica “I’m the Ressurrection” que é uma metamorfose contínua ao longo de seus quase 9 minutos.
A edição ainda tem uma bônus no disco principal que é a ótima “Fools Gold”, também totalmente psicodélica e mutável, que sem sofrer variações bruscas, vai indo, indo e termina bastante diferente de como começou.
O segundo disco é praticamente só de versões demo, sendo a maior parte de músicas daquele álbum mesmo, além de uma faixa inédita até então, “Pearl Bastard”; e o DVD traz parte de uma apresentação ao vivo em Blackpool com 6 músicas.
“The Stone Roses” com certeza é um dos meus álbuns preferidos e por certo, também, um dos mais influentes e importantes de todos os tempos, freqüentador assíduo de listas de melhores álbuns de todos os tempos e apontado, por exemplo, pela New Musical Express como o “maior álbum britânico de todos os tempos”.
Entre os 10, deve estar, sim.

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FAIXAS "The Stone Roses" 2009 20th. Aniversary Release:
  • disco 1
The Stone Roses album
1."I Wanna Be Adored" 4:52
2."She Bangs the Drums" 3:42
3."Waterfall" 4:37
4."Don't Stop" 5:17
5."Bye Bye Badman" 4:00
6."Elizabeth My Dear" 0:59
7."(Song for My) Sugar Spun Sister" 3:25
8."Made of Stone" 4:10
9."Shoot You Down" 4:10
10."This Is the One" 4:58
11."I Am the Resurrection" 8:12
12."Fools Gold" (UK 12" single version; bonus track) 9:53

  • disco 2
The Lost Demos
1."I Wanna Be Adored" (Demo) 3:42
2."She Bangs the Drums" (Demo) 3:46
3."Waterfall" (Demo) 4:45
4."Bye Bye Badman" (Demo) 4:03
5."(Song for My) Sugar Spun Sister" (Demo) 3:30
6."Shoot You Down" (Demo) 4:25
7."This Is the One" (Demo) 4:00
8. "I Am the Resurrection" (Demo) 6:38
9."Elephant Stone" (Demo) 3:13
10."Going Down" (Demo) 2:40
11."Mersey Paradise" (Demo) 2:47
12."Where Angels Play" (Demo) 3:16
13."Something's Burning" (Demo) 3:03
14."One Love" (Demo) 6:22
15."Pearl Bastard" (Demo; previously unreleased track) 3:42

  • disco 3
Music videos
1."Waterfall" (Video) 3:36
2."Fools Gold" (Video) 4:14
3."I Wanna Be Adored" (Video) 4:33
4."One Love" (Video) 3:47
5."She Bangs the Drums" (Video) 3:41
6."Standing Here" (Video) 3:15

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Ouça:



quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Amanda Gabana - Me Chama Pra Dançar (2026)

 



Me Chama pra Dançar (2026), primeiro álbum de Amanda Gabana, vai além do convite ao ouvinte: ela apresenta o seu universo, onde romances, desilusões e recomeços ganham forma por meio do pop brasileiro e de ritmos que atravessam o país. Entre uma faixa e outra, a cantora deixa um lembrete importante: a vida muda de compasso o tempo todo, e talvez a melhor forma de atravessar os diferentes capítulos sem deixar de dançar. Atuando na cena musical de Porto Alegre desde 2020 - tanto em sua carreira autoral quanto como vocalista da roda de samba LGBTQIA+ Caçamba e trombonista de fanfarras da cidade - Amanda faz do primeiro álbum um cartão de visitas que revela, acima de tudo, uma artista interessada em derrubar fronteiras. O ponto de partida é o pop, mas logo ele se expande para abraçar guitarradas paraenses, brega, pagode, milonga e vanerão, desenhando um Brasil que conversa consigo mesmo sem perder o sotaque gaúcho.Esse trânsito entre territórios é o grande acerto de Me Chama pra Dançar. Amanda Gabana não trata os ritmos brasileiros como citações ou ornamentos exóticos. Eles participam ativamente da narrativa, dando personalidade às canções e conduzindo emoções distintas. A faixa-título, ao lado da paraense Raidol, cria uma ponte direta com o brega de Belém. "Sarro" transforma a milonga em uma experiência quase performática, incorporando sapateado, castanholas, leques e palmas. Já o pagode ganha ainda mais significado com a participação da Caçamba, reafirmando a dimensão coletiva e afetiva que atravessa o disco.


Gustavo Jobim - Nova! (2026)




Do Rio de Janeiro, Gustavo Jobim compõe música com sons eletrônicos, num estilo baseado no toque humano. Com uma abordagem artesanal, prioriza mãos nas teclas criando camadas de harmonias, melodias e ritmos, usando teclados e módulos vintage. "Nova!" é seu novo trabalho, um álbum com 8 faixas naquela pegada eletrônica meio retrô, meio cyberpunk, definitivamente experimentando sempre...



DEARDARKHEAD – The Pendulum Swings

 

Deardarkhead cria um som soberbo em "Letting Go". Construída a partir de uma linha de baixo sólida, a faixa adota um groove de andamento médio e o sobrepõe a uma guitarra vibrante com uma melodia de sonoridade bastante lírica. O timbre da guitarra solo é belíssimo, adicionando um toque gótico bem comercial a um som já excelente. Uma faixa fundamental em um álbum instrumental, a música aqui é tão forte que a ausência de vocais não faz falta, apesar de Deardarkhead geralmente encontrar espaço para uma voz espacial, com efeitos de estúdio, para adicionar uma camada extra de atmosfera. Com pouco mais de três minutos de duração, essa música não se apoia em nenhum tipo de enrolação, e conforme as últimas notas se dissipam, você pode sentir uma vontade irresistível de apertar o botão de repetir... Esta é uma faixa absolutamente deslumbrante, e acabou sendo a maneira perfeita de divulgar "The Pendulum Swings" em um lançamento antecipado, já que, embora o resto do álbum seja bastante variado, ele frequentemente se assemelha a esta faixa de uma forma que realmente não decepciona.

O primeiro álbum completo da banda em um quarto de século mergulha em um universo de influências pós-punk e góticas inteligentes, entregando dez faixas brilhantemente construídas que demonstram com facilidade a maestria instrumental do Deardarkhead. A decisão de remover os vocais desta vez foi acertada; o espaço extra permite que as guitarras ocupem o centro do palco com mais frequência, exibindo a performance soberba de Kevin Harrington, cuja abordagem atmosférica se entrelaça com o trabalho de baixo robusto de Brandon Howard. Há elementos na faixa de abertura, "Flamethrower", que remetem ao som shoegaze mais antigo da banda, mas, em geral, apresenta o som de músicos ocupando um novo espaço, com Kevin inserindo riffs ocasionalmente mais pesados, compartilhando uma pegada mais roqueira, que funciona brilhantemente em contraste com a influência baggy da bateria. Mais do que nunca, isso demonstra a habilidade da banda em criar um groove; muito menos dependente de atmosferas do que alguns dos trabalhos anteriores, esta é uma abertura impactante que realmente prende a atenção. Com uma forte influência gótica no riff principal, inspirada principalmente nos anos 80 e na era "Dreamtime" do The Cult, "Coming Undone" opta por uma sonoridade igualmente pesada, porém com uma pegada mais familiar. O solo de guitarra de Kevin se destaca, com um timbre levemente ecoado e filtrado que adiciona um brilho especial ao som roqueiro, enquanto a seção rítmica se encaixa perfeitamente em um groove irresistível. Se você se encantar com o novo som do Deardarkhead ao final dessa faixa, certamente encontrará interesse musical no restante do álbum.

Adotando uma abordagem mais leve e se apoiando um pouco mais no som indie anterior, o timbre das guitarras que compõem "Tears" soa um pouco nostálgico, mas o som de baixo mais pesado de Brandon garante que esta faixa seja muito mais do que uma simples reciclagem. Um "refrão" mais roqueiro permite que Kevin se solte, demonstrando novamente a força motriz por trás de uma banda que sabe instintivamente como criar riffs incríveis, mas a verdadeira estrela desta faixa é o baterista Robert Weiss. Ele impulsiona tudo com uma performance precisa que deve muito mais ao passado shoegaze da banda. Eventualmente, os riffs mais roqueiros assumem o protagonismo, preenchendo a parte final desta excelente faixa com ótimos sons. Combinando indie pesado, post-rock tenso e uma pitada de gótico, esta é um verdadeiro destaque do álbum, capturando o "novo" Deardarkhead em plena forma. Em seguida, sugerindo um grande contraste, a vibrante "Sad Songs (And Better Days)" consegue combinar uma guitarra rítmica dream pop com uma linha de baixo inspirada em Peter Hook, direcionando tudo para um som indie robusto que a banda parece dominar com facilidade. Há momentos em que parece impossível desviar o olhar do brilhante riff de baixo, mas Kevin também brilha na guitarra, soando especialmente confiante ao executar um riff pós-punk em alto volume. Na verdade, este álbum não poderia ser mais diferente de alguns dos trabalhos anteriores do Deardarkhead, mas certamente não é pior por isso – é emocionante ouvir a banda realmente explorando novos horizontes em termos de riffs.

Em "In Another Life", o Deardarkhead mergulha ainda mais fundo no universo do som gótico do final dos anos 80, com a ajuda de uma linha de baixo pulsante e riffs de guitarra profundos que exploram os recônditos mais sombrios de uma melodia arrebatadora. Mantendo a coadjuvante do álbum, "Letting Go", um timbre de guitarra mais brilhante e vibrante complementa solos marcantes, frequentemente remetendo a influências do gótico e do pós-punk, mas também carregando um leve eco dos primeiros trabalhos do The Fierce & The Dead. A criação de uma atmosfera envolvente é impecável, e mesmo que soe um pouco familiar à banda, está longe de ser repetitiva. Em outras faixas deste disco sem grandes pretensões, você encontrará uma bateria mais incisiva no coração de "Black Pearls", que se encaixa surpreendentemente bem em um universo de influências shoegaze mais puras que remetem ao passado do Deardarkhead, e a faixa-título que apresenta outra linha de baixo proeminente cortando uma parede de timbres de guitarra cintilantes, inclinando-se para um som e influências mais familiares do início da década de 1990. Essa familiaridade parece alimentar a veia criativa da banda, resultando em algo que, embora se beneficiasse de um toque mais dream pop, captura os músicos em boa forma e, para os fãs do som de guitarra de Kevin, pode até soar melhor com o tempo.

Muita coisa pode mudar em vinte e cinco anos, até mesmo a perspectiva de uma banda veterana do cenário alternativo. O Deardarkhead poderia ter feito um retorno há muito esperado com algo que espelhasse os redemoinhos shoegaze de sua coletânea 'Oceanside', mas, como se vê, a decisão da banda de abandonar um som anterior em favor de algo um pouco mais direto rendeu bons frutos. A música aqui é fantástica; os arranjos melancólicos exploram alguns sons maravilhosamente retrô que, espera-se, agradarão aos ouvidos dos fãs mais experientes, ao mesmo tempo que capturam um som e uma energia que nunca se tornam cansativos, mesmo para quem ouve pela primeira vez. Um disco recomendado.