domingo, 26 de abril de 2026

ROCK ART


 

BIOGRAFIA DOS Ange

 

Ange

Ange é uma banda francesa de rock progressivo formada em 1969 pelos irmãos Francis (tecladista), Christian Décamps (vocalista) e Jean-Michel Brézovar.

História

Eles eram inicialmente influenciados pelo Genesis e pelo King Crimson, e a música da banda é bem teatral e poética. O primeiro sucesso deles foi uma versão da canção Ces gens-là de Jacques Brel, presente no disco Le Cimetière des Arlequins.

Os outros três membros da banda, nos primeiros anos (comumente considerados os melhores anos do Ange) eram Jean-Michel Brézovar na guitarraGérard Jelsch na bateria e Daniel Haas no baixo e na guitarra acústica.

Em 1995, eles fizeram uma turnê de despedida. Christian Décamps lançou alguns discos como Chistian Décamps et Fils ("Christian Décamps e Filho"), antes de retomar o nome "Ange" em 1999 (usando a banda de seus discos solo, incluindo seu filho Tristan), com o disco La voiture à eau.

Discografia

Fase Christian e Francis Décamps

Fase Christian e Tristan Décamps

Christian Decamps & Fils

Cd e dvd editados pela comunidade de fãs: Un pied dans la marge (UPDLM)

  • 1970 La fantastique épopée du Général Machin
  • 1971 le vieux de la Montagne (45tours?)
  • 1997: Les Mots d'Emile
  • 1998 Plouc
  • 1999 Grands Crus
  • 2000 Instantanés
  • 2001 Pêle-Mêle
  • 2002 Brocantes
  • 2003 En Vrac
  • 2004 Bonus
  • 2005: Collages

Ramones - "Ramones" (1976)


“Hey, Ho!
Let’s Go!”



Em pouco menos de uma semana e com pouco mais de 6 mil dólares, aqueles quatro rapazes esculhambados de calças jeans rasgadas, jaquetas de couro e cabelos descuidados tinham mudado definitivamente a história da música. Sim, o punk já vinha em curso, era um processo, foi o experimentalismo, depois foi a sujeira, foi o minimalismo, o peso, teve KinksSonics, teve DoorsVelvetStooges, MC5, e tantos outros, mas parece que tudo foi para que chegasse naquele ponto em síntese e personificação. E essa materialização chamava-se Ramones.
Em seu primeiro disco, gravado meio às pressas e com o orçamento máximo que o agente da banda Danny Fields conseguiu obter; com canções rápidas e certeiras, poucos acordes, sem firulas, sem solos elaborados e com uma produção bruta e tosca, os Ramones fizeram um dos discos mais importantes de todos os tempos, pela musicalidade revolucionária, pela atitude, e pela influência que passou a exercer dali para frente em praticamente tudo o que se ouve (e se vê) em música pop até hoje.
Embora eu prefira o terceiro, "Rocket to Russia", um pouco mais bem cuidado e mais profissional, não tem como negar o valor, importância e a curtição que é este “Ramones” de 1976.
As boas?
Todas!
Mas merecem menções especiais “Judy is a Punk” a primeira das garotas punk dos nomes de músicas dos Ramones e que mais tarde ganharia a companhia de outras como Sheena, Suzy e Jackie; "I Don't Wanna Walk Around With You", boa pra poguear; "I Wanna Be Your Boyfriend" que é, assim, uma espécie de canção romântica dos Ramones; e “Blitzkreig Bop” que traz a expressão clássica que virou uma espécie de marca da banda, “Hey, ho! Let’s Go!”.
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FAIXAS:
  1. "Blitzkrieg Bop" - 2:14 (Tommy Ramone, Dee Dee Ramone) 
  2. "Beat On The Brat" - 2:31 (Joey Ramone) 
  3. "Judy Is A Punk" - 1:32 (Joey Ramone, Dee Dee Ramone) 
  4. "I Wanna Be Your Boyfriend" - 2:24 (Tommy Ramone) 
  5. "Chain Saw" - 1:56 (Joey Ramone) 
  6. "Now I Wanna Sniff Some Glue" - 1:35 (Dee Dee Ramone) 
  7. "I Don't Wanna Go Down To The Basement" - 2:38 (Dee Dee Ramone, Johnny Ramone) 
  8. "Loudmouth" - 2:14 (Dee Dee Ramone, Johnny Ramone) 
  9. "Havana Affair" - 1:56 (Dee Dee Ramone, Johnny Ramone) 
  10. "Listen To My Heart" - 1:58 (Ramones) 
  11. "53rd & 3rd" - 2:21 (Dee Dee Ramone) 
  12. "Let's Dance" - 1:51 (Jim Lee) 
  13. "I Don't Wanna Walk Around With You" - 1:42 (Dee Dee Ramone) 
  14. "Today Your Love, Tomorrow The World" - 2:12 (Ramones)



Rage Against the Machine - "Rage Against the Machine" (1992)

 

"As pessoas que se ofendem com [minhas opiniões sobre] política
 no Twitter ou Instagram, por favor,
 saibam que é porque você não era inteligente o suficiente
 para saber sobre o que era a música
 que você estava ouvindo
 todos esses anos (...)
De nada pela música,
 mas se você é um supremacista branco
 ou um protofascista,
 essa música não é escrita para você
 – é escrita contra você."
Tom Morello,
 guitarrista e compositor


A última passagem de Roger Waters pelo Brasil, em 2018, reacendeu uma discussão, que na verdade não faz muito sentido, uma vez que o rock, mesmo quando apenas reivindicava o direito de não cortar o cabelo ou de namorar no banco de trás do carro, à sua maneira, era "político", sobre o fato de artistas de rock se posicionarem politicamente. A situação toda começou quando o ex-baixista e vocalista da célebre Pink Floyd fez mostrar no telão, ao fundo do palco, os dizeres #EleNao, referindo-se ao então candidato Jair Bolsonaro à presidência brasileira (que, para infelicidade do país, veio a se eleger) arrancando um misto de vaias e aplausos da plateia e causando a reclamação de muitos "fãs" de sua antiga banda pelo fato de "agora" ter resolvido se meter em política e que um show de rock não seria lugar para esse tipo de manifestação do artista. A lamúria dos fãs superficiais, pseudo-roqueiros, no entanto foi ironizada pelos verdadeiros admiradores do grupo e roqueiros de verdade que questionaram se aqueles modinhas de ocasião que estavam no show nunca ouviram, por exemplo, o "The Wall" do Pink Floyd, que trata exatamente sobre o enfrentamento da sociedade opressora. Ou se ouviram, não leram as letras ou nunca entenderam do que se tratava. A discussão, especialmente em redes sociais, se ampliou e para situar os roqueiros do chalalá, que só curtiam o som mas não faziam a menor ideia do que estava sendo falado, outras bandas foram citadas de modo a mostrar o quão ignorantes aquelas criaturas estavam sendo. System of Down, Plebe RudeBruce Springsteen e até  a queridinha Legião Urbana foram algumas das que serviram de exemplo e, para maior surpresa, geraram ainda mais indignação entre os "revoltadinhos de condomínio-fechado", que qualificaram esses artistas, de forma simplista, imatura e desinformada, meramente de comunistas.

No entanto, a surpresa que mais chamou foi em relação à banda Rage Against the Machine. Ora, pensavam que a Máquina do nome da própria banda era o quê? Uma cafeteira elétrica? O RATM é antes de mais nada uma banda engajada, politizada e de pensamentos predominantemente de esquerda. Suas letras são quase sempre uma bala na cabeça, como diz o título de uma das músicas de seu primeiro álbum,  "Rage Against the Machine" de 1992, que, por sinal, fala exatamente sobre alienação e idiotização em massa.

No disco, os tiros da banda vão pra todo lado e sobra bala pra todo mundo que merece: "Bombtrack" atira na indústria musical; o hino "Killing in the Name" dispara contra o racismo; "Settle of Nothing" é  sobre criminalidade e vidas jovens arruinadas; "Freedom", fala, é claro, sobre liberdade, mas também acerta em cheio quanto à ignorância do ser-humano e sua relação com o meio ambiente; "Wake Up" liga a metralhadora giratória e atira nos fascistas, no judiciário, na mídia e no que estiver pela frente; e "Take the Power Back", "Know Your Enemy", "Fistfull of Steel" e "Township Rebelion", simplesmente, miram no sistema, de um modo geral, convocando para uma reação diante de tudo que nos oprime.

Tudo isso ao som da guitarra eletrizante de Tom Morello, conduzido pelos vocais contagiantes de Zach de La Rocha e  embalado por uma mistura explosiva de metal, hardcore, funk, rap e hip-hop, tão intensa que, eu até posso entender que tenha seduzido até o mais superficial roqueirinho de ocasião. Sim, sim, eu também escuto muita coisa pela sonoridade, muitas vezes não dou, mesmo, muita bola para a letra, ou nem ligo muito para o que estão dizendo em inglês, mas certos artistas, cuja atitude está ligada à sua obra é impossível, e até imperdoável, que se ignore essa relação. É o caso de Dead Kennedy'sBob Dylan e do Rage Against the Machine, uma banda essencialmente política, engajada, atuante, como fica provado em seu primeiro disco. A própria capa do disco atesta essa atitude com a foto do monge vietnamita que preferiu atear fogo ao próprio corpo a se render ao governo autoritário de seu país. Esse é o espírito. Isso é o Rage Against the Machine. 

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FAIXAS:

1. "Bombtrack" 4:02
2. "Killing in the Name" 5:14
3. "Take the Power Back" 5:36
4. "Settle for Nothing" 4:49
5. "Bullet in the Head" 5:08
6. "Know Your Enemy" (featuring Maynard James Keenan) 4:57
7. "Wake Up" 6:06
8. "Fistful of Steel" 5:32
9. "Township Rebellion" 5:22
10. "Freedom" 6:06



Rage Against the Machine - "Evil Empire" (1996)

 

“...eu os aviso para terem cuidado com a tentação do orgulho, a tentação de se declarar alegremente acima de tudo e rotular os dois lados igualmente em falta, ignorar os fatos da história e os impulsos agressivos de um ‘Império do mal’, para simplesmente chamar a corrida armamentista de um gigante mal-entendido (...) Eles pregam a supremacia do Estado, declarando sua onipotência sobre o homem individual e preveêm sua dominação eventual de todos os povos da Terra. Eles são o foco do mal no mundo moderno. “
discurso de Ronald Reagan
no qual usa a expressão
que inspirou o nome do álbum



Um coquetel Molotov!
Uma explosiva combinação de funk, hardcore, hip-hop, metal, rap como nunca havia se visto antes. Não com tamanha qualidade, com tamanha pegada, com tamanha fúria.
Sobre os riffs pesados do bom guitarrista Tom Morello e bases embaladas, Zack de La Rocha com seu vocal rap desfilava suas letras engajadas, inteligentes e indignadas sobre a guerra, sociedade industrial, capitalismo, desigualdades sociais e tudo mais que pudesse servir de pólvora para esta verdadeira bomba que é o som do Rage Against the Machine.
Embora seu primeiro álbum, de mesmo nome da banda, de 1992, já tivesse despertado a atenção de público e crítica, com “Evil Empire” de 1996 atingem uma maturidade sonora mais interessante e um resultado técnico mais completo. Peso, balanço, rima e intensidade ganham um maior equilíbrio e resultam em faixas excepcionais como ‘Revolver”, “People of the Sun”, “Tire Me” e “Down Rodeo”, a minha favorita dos disco com aqueles efeitos que lembram o barulho de uma tesoura.
Também merecem destaque “Vietenow”, “Yera of tha Boomerang” e “Witohut a Face”, verdadeiras porradas na boca do estômago.
Dinamite pura.
Um homem-bomba no metrô, um carro bomba estacionado na frente da embaixada.
Tipo do disco que devia vir com o aviso na capa: Altamente inflamável.

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FAIXAS:
  1. "People of the Sun" – 2:30
  2. "Bulls on Parade" – 3:51
  3. "Vietnow" – 4:39
  4. "Revolver" – 5:30
  5. "Snakecharmer" – 3:55
  6. "Tire Me" – 3:00
  7. "Down Rodeo" – 5:20
  8. "Without a Face" – 3:36
  9. "Wind Below" – 5:50
  10. "Roll Right" – 4:22
  11. "Year of tha Boomerang" – 3:59



Eef Barzelay – Eldorado 13 Slash 14 (2015)

 


Vamos por partes, tentando não entrar em detalhes desnecessários: Eef Barzelay é um autor que se divide entre trabalhos a solo, e principal membro do grupo Clem Snide, sendo que ainda toca em algumas outras bandas, ocasionalmente. Mas, sobretudo, dá-me ideia que será sempre um ilustre desconhecido. Nasceu em Tel Aviv, embora tenha ido para os Estados Unidos muito cedo, e por lá foi permanecendo e construindo a sua obra musical. Nomes como Andrew Bird, Will Oldham e Bob Dylan surgem-nos à cabeça quando ouvimos os seus discos, sobretudo aqueles feitos em nome próprio, como é o caso deste fresquíssimo Eldorado 13 Slash 14, último trabalho de uma série de EPs que o músico foi mostrando ao mundo desde 2013. Interessado em aproximar-se do seu (pouco) público, Eef Barzelay teve a ideia de lançar o projeto Eldorado no seu bandcamp, em que por 8 dólares mensais os seus fãs recebem no correio EPs de 3 a 5 canções, algumas delas covers escolhidas por eles mesmos. Com o passar do tempo, uma vez que a ideia não foi abandonada, foram-se avolumando os tais EPs, e o mais recente é uma autêntica maravilha, uma preciosidade. Mais longo do que os anteriores (este apresenta 9 composições), Eldorado 13 Slash 14 tem enchido os meus dias, sobretudo quando pretendo encontrar na música a calma e a tranquilidade que nem sempre a vida nos pode proporcionar. Trata-se de um pedaço sonoro de grande delicadeza, apenas com a voz e a guitarra de Eef Barzelay.

Desta vez, como referi, são 9 as composições (o que, a bem dizer, faz deste trabalho muito mais um álbum do que um EP), e entre elas constam covers de “Maybe I’m Amazed”, de Paul McCartney / Wings e “Heaven”, dos saudosos Talking Heads. Para além destes temas, há ainda vários outros para ouvir, alguns deles instrumentais, todos muito bonitos, sendo que um ou outro é apenas pontuado por vocalizações do cantor, aperfeiçoando os contornos dos esboços de canções que nos apresenta. Tenho ouvido Eldorado 13 Slash 14 em repeat, e não me canso de apreciar o que este disco tem para nos oferecer, sobretudo em momentos como “Now You Kill Me”, talvez o mais sublime de todos. Mas também em “Bioluminescence”, ou “Idle Hour” e “God’s Name Is Jeff”. No entanto, e apesar de o ter feito, gostaria de não particularizar qualquer das 9 composições deste trabalho, uma vez que o seu todo é suficientemente saboroso para não ter de o fatiar nas partes que o compõem.

Talvez depois de ouvirem esta mais recente entrega de Eef Barzelay os leitores deste texto, que eventualmente desconheçam o seu trabalho, possam ficar curiosos e queiram saber um pouco mais da obra deste talento em estado puro. Se for esse o caso, permitam que vos deixe uma ou outra sugestão, que vos apresente dois ou três discos, tanto em nome próprio como em nome da banda de Eef Barzelay, os já mencionados Clem Snide. Começando por estes últimos, não deverão passar por cima de The Ghost Of Fashion (2001) e de The Meat Of Life (2010). Depois, se ficarem com o bichinho, avancem à vossa vontade, por vossa conta e risco. Verão que não se arrependerão. Mas se, por outro lado, optarem pelos discos em nome próprio, o primeiro terá mesmo de ser Bitter Honey (2010), de onde sobressai a imensa canção que é “The Ballad Of Bitter Honey”. Depois, avancem livremente, uma vez que todos os portos onde forem atracar serão bem seguros.

De qualquer das formas, ouvir Eef Barzelay é o que mais importa, e este Eldorado 13 Slash 14 pode muito bem abrir-vos portas e janelas para um horizonte sonoro de enorme riqueza. Aproveitem.



Blur – The Magic Whip (2015)


Os Blur sempre foram um caso à parte na música britânica. Ninguém como eles soube mudar e reflectir a passagem do tempo, das modas, do ambiente, inclusivamente político e social. A história deixará Ok Computer como o disco que matou a britpop e o seu vazio em favor da experimentação e do reflexo da alienação, mas isso poderá ter sido apenas um facto cronológico. De facto, a partir de The Great Escape para a frente, os Blur nunca deixaram de explorar, de procurar novos rumos, de transformar o seu som. E com a coragem de o terem feito apesar de serem pontas de lança indiscutíveis da britpop – coisa que os Radiohead nunca foram – e que os deixava com muito mais a perder.

The Magic Whip marca um regresso tardio e inesperado. Mas antes de reflectirmos sobre ele, temos de ir à história sobre como nasceu este improvável disco. O reencontro dos Blur – sobretudo entre os seus eixos centrais Damon Albarn e Graham Coxon (vocalista e guitarrista, respectivamente), assentou numa celebração do passado, uma reunião para mostrar quão vivo é o legado desta banda. Mas serviu também, internamente, para Coxon e Albarn, lenta mas seguramente, irem reacendendo a proximidade e a amizade que mantiveram desde crianças até à ruptura, em 2003, aquando da edição de Think Tank. Apesar de tudo – e até hoje, o que é notável – nem tudo está bem no reino destes londrinos. A mágoa entre Coxon e Albarn, com as acusações mais tarde trocadas na imprensa, é muito funda. Basta ver a banda agora, dando entrevistas junta: guitarrista e vocalista parecem daquelas pessoas que se magoam mas que também se amam, que sofrem ao estar juntas mas que não conseguem existir separadamente. Isto perante o olhar de Dave Rowntree e Alex James (baterista e baixista, respectivamente), que parecem mais ocupados em manter positivo o ambiente que permita manter viva a banda das suas vidas.

The Magic Whip nasceu de uma série de coincidências. No final de 2013, andavam os Blur em digressão pelo Oriente quando o festival para o qual estavam contratados foi cancelado. Não tinham planos para os dias seguintes, e decidiram passa-los num estúdio em Hong-Kong, sem compromisso. A ideia não era necessariamente ensaiar as músicas de 15 ou 20 anos antes, mas trabalhar numa série de esboços que, criativamente, unissem mais a banda. Nesses cinco dias, os músicos viram-se, pela primeira vez, os quatro realmente juntos: longe de casa, sem distrações, e com tempo para ver se a velha magia criativa voltava a funcionar. A dieta desses dias foram ‘jam sessions’ relativamente soltas e o trabalho em cima de esboços de canções e ideias novas de Coxon mas, sobretudo, de Albarn, o eterno compositor profícuo. Desses cinco dias obsessivos, ficaram horas e horas de gravações (o baixista diz que dava para fazer um novo disco) e cerca de 15 canções relativamente alinhavadas. No entanto, havia um grande problema: Damon Albarn. Não só não tinha escrito uma letra como não estava, de todo, convencido de que estava ali a base de um disco, e muito menos de que seria boa ideia voltar a colocar os Blur a andar a todo o vapor.

Coxon não pensava assim e, quase um ano depois, pediu autorização a Albarn para revisitar as gravações e ver o que se podia fazer com aquilo. Enquanto o vocalista andava em digressão a promover o seu álbum a solo, Everyday Robots, Coxon convidou para o ajudar o velho aliado Stephen Street, produtor que deixou a marca em óptimos discos de Smiths, Suede, Morrissey e, lá está, alguns dos clássicos dos Blur. E foi o resultado desse trabalho de formiguinha que deu aos temas uma aparência de canções quase acabadas. E foi, então, que Albarn deu o sim para um novo disco. Faltavam as letras, e o vocalista passou uma temporada, sozinho, em Hong-Kong, para buscar inspiração que coubesse junto das músicas aí gravadas um ano antes. O resultado é The Magic Whip, o oitavo disco dos Blur, o primeiro desde Think Tank, de 2003, e o primeiro com Coxon a bordo desde 13, de 1999.

Esta longa introdução é importante porque tudo isto marca o som e o ambiente do disco. Na verdade, apesar de ter sido Coxon a dar forma a boa parte do projecto, The Magic Whip é marcadíssimo por Albarn, e pela sonoridade dos vários projectos em que se envolveu ao longo dos últimos 20 anos. E isto é um gigantesco sinal de altruísmo do guitarrista, que não sucumbiu à tentação de, com o material à frente, replicar o som típico dos Blur dos anos 90, colocar a sua guitarra distintiva à frente de tudo. Na verdade, este disco soa a outra coisa: soa a um disco a solo de Albarn com a guitarra de Coxon. E isso chega. Alex James, o dandy, e Dave Rowntree, o contabilista parecido com Jorge Sampaio, não deixam por aqui grande marca, o que também já era verdade em vários discos anteriores dos Blur.

Ao longo dos 12 temas oficiais, há ecos fortes de Everyday Robots e do óptimo disco dos The Good, The Bad and The Queen (“Lonesome Street”, “Ice Cream Man”, “Pyongyang”); em “New World Towers” temos um cheiro de Gorillaz; o que falta, às vezes, é Blur.

Isto é relativamente injusto, porque o som deles está lá. Não o som dos loucos anos 90 e da britpop. Os Blur já não são essa banda há muito, muito tempo. O que perderam em ‘britishness’ ganharam em mundo, o que perderam em pica e energia ganharam em profundidade e, até, em marcas do cansaço normal da vida. “Go Out”, o terceiro tema, traz-nos os Blur de volta, os Blur do disco homónimo de 1997, o álbum da transição que deixou para trás a Inglaterra e abraçou os sons do rock exploratório e alternativo dos EUA. “The Are Too Many of Us” lembra a sonoridade desse mesmo disco. Já “Ghost Ship” traz-nos 13, enquanto a última faixa do disco, “Mirrorball”, nos transporta para o imaginário de Think Tank.

Apesar de tudo, é incrível como o disco consegue manter uma coesão e coerência à prova de furacões. Raramente acelera, nunca cede ao refrão fácil, é sempre profundo e relevante. O único momento mais fora, um doce para os fãs e para qualquer amante de música, é “Ong Ong”, pop simples e perfeita, mas ainda calma e quase triste.

As letras – o que é estranho num processo de produção tão fragmentado – assentam na perfeição nas músicas. Alienação, crescimento e envelhecimento, solidão e tecnologia, ocidente e oriente. Um mundo em que estamos sempre em contacto com toda a gente sem estarmos, de facto, em contacto seja com quem for; um mundo que nos permite estar amanhã no Senegal ou no Japão, e que aproveitamos para tirar ‘selfies’ para meter no facebook e no instagram.

Acredito que este será o último disco dos Blur. Não porque o desejo – se mantiverem a qualidade deste podem mandar vir mais – mas porque me parece uma forma extraordinariamente apropriada de terminar um percurso, a todos os títulos, brilhante. Estes são os Blur de agora: cansados, crescidos, magoados – até uns com os outros – mas não rancorosos. Um final que pisca o olho e referencia boa parte do seu percurso, sem procurar ser quem já não é.

Um disco complexo sem ser difícil, profundo sem deixar de ser pop no bom sentido. Um grande disco de uma grande banda que, como nós, se olhou ao espelho e se apercebeu que cresceu.


Alabama Shakes – Sound & Color (2015)


E eis que se passaram três anos e os artistas de Boys & Girls deixaram de ser meninos e meninas. Se manter a fórmula de 2012 – quando “Hold On” ofereceu a Alabama Shakes um lugar de respeito no mundo da música – teria sido tentador, Sound & Color surpreende. Estes meninos e meninas, agora mais adultos, mais vividos e sem medos, amadureceram no som, na interpretação e nos ritmos. Ao segundo álbum, a sua música está mais estranha, mais suja, mais rouca, mais firme e muito mais sexy do que o álbum de estreia.

Cresceram e já definiram o seu caminho. A missão desta gente não é ser da soul com mais electricidade, não é ser retro só porque o retro está mais na moda. Alabama Shakes, gente que vê na música um espaço para expressar o que sente; gente que ouviu tanta música e que quando chega a hora de escrever canções a coisa sai naturalmente.

Sound & Color não é minimamente esforçado. É mais um “não sabemos fazer outra coisa se não isto”. Vem de dentro e é realmente sentido. Se Brittany Howard, voz e guitarra desta matilha, já comandava ao primeiro disco com a potência da sua voz, agora parece que a sentimos esquecer as regras e suar, ainda mais, a cada nota. Parece que a vemos a ajoelhar-se perante a música que a arrebata. Quem dera a Kings of Leon e eteceteras.

Façam um favor a vocês mesmos e vão para casa ouvir Sound & Color. À primeira faixa (que dá nome ao álbum) vão logo sentir a diferença. Chegam ao single “Don’t Wanna Fight” e estão conquistados. Sigam disco fora e, ali a meio, escutem com especial atenção “Gimmy All Your Love”. É coisa para arrepiar. E depois não digam que eu não avisei.



TV Rural – Sujo (2015)


Os TV Rural já aí andam há uns anos, mas foi com o EP Barba, do ano passado, que conseguiram furar parte do cerco mediático e fazer-se notar com mais intensidade. E em boa hora o fizeram, como o Altamont tem testemunhado nos últimos anos de percurso destes cinco rapazes de São Domingos de Rana, às portas de Lisboa.

E se esse impulso de Barba soube a pouco, pelo sabor das canções que pedia mais que as seis músicas do EP, este regresso faz-se de forma decidida, em quantidade, assertividade, e pujança.

Em entrevista recente ao Altamont, o conjunto explica o título de Sujo, o novo registo, com uma necessidade de dar aos temas uma maior energia, um foco mais directo, por contraposição a algo mais pensado e mais composto do que o feito no registo anterior. E aqui, há boas notícias…e notícias ainda melhores.

As boas notícias são que, de facto, a maioria das canções (porque é de canções, e de primeira água, que falamos) traz um ritmo mais forte, mais pulsar, que nos faz apetecer começar a mexer. Prometem bons resultados ao vivo, algo que podemos confirmar a 8 de Maio, sexta-feira, no lisboeta Musicbox.

As melhores notícias são que o conjunto não faz jus ao nome de Sujo. Apesar da preocupação com uma composição mais directa, os TV Rural são já uma banda madura, e a recuperação de algum espírito adolescente nunca chega a convencer realmente, nunca chega a descambar para uma desbunda despreocupada e vibrante. É uma banda relativamente cerebral, esta, e o talento de composição e o bom gosto acabam sempre por imperar. Daí que Sujo não tenha distorção a rodos, músicas de três acordes e aquela salutar estupidez que associamos à adolescência. O que se perde em espontaneidade ganha-se em robustez das músicas, e no seu prazo de validade.

Ainda assim, os primeiros temas do disco fazem questão de ir direito ao assunto, com “Bailarina” e “Tiro no Pé” a puxarem pela guitarra e pela voz. De qualquer forma, a sujidade e a explosão pressentem-se na urgência do ritmo, mas nunca chegam a impedir-nos de ouvir, limpidamente cada pormenor, cada instrumento. O que não serve a tal sujidade em todo o seu esplendor (isto é um elogio à produção) mas deixa no ar a promessa de decibéis mais altos nos concertos.

“Pedra é Pedra” traz algum peso mas um ritmo mais pausado, quase monolítico. É o single do disco, embora aqui seja discutível (é sempre) a escolha não ter recaído por um dos vários temas mais “dançantes” do álbum. “Caga Nisso” traz-nos mais rock, e é um bom exemplo de uma das imagens de marca da banda, esta capacidade de, num mesmo tema, alternar cenários e ritmos, com mestria.

“Estava-se Mesmo a Ver”, esta sim, traz aquele gosto do indie-rock adolescente, levando-nos aos Dinosaur Jr e ao refrão libertador que cheira a Verão. Segue-se “Maratona”, para nós um dos destaques do disco, uma máquina rítmica feita de urgência e negrume. Vai de uma espécie de kraut ao rock genuíno, em mais uma demonstração de qualidade de todos os instrumentistas, com espaço para cada um brilhar, mas sempre ao serviço da música e não em solos gratuitos.

O ritmo baixa com os dois temas seguintes, “Não Sou Uma Flor no Teu Jardim” e “Ligeiro Ciúme”, dando espaço à respiração das letras, com novo arranque com “Se te Faz Tremer”, que até começa com aquele promissor e muito rock n’roll “um, dois, um dois três!” e depois se faz à estrada. É provavelmente o tema mais rock do disco, com direito a solos de guitarra e tudo.

“Lamento” traz-nos mais uma pérola de letra, neste caso o lamento é para a vida trabalho-casa-trabalho. O ritmo é lento, permitindo-nos também saborear os vários pormenores instrumentais escondidos aqui e ali, em background.

“Formiga e Cigarra” é uma delícia, um quase-funk feito de fluidez cool com toques jazzy e um minucioso trabalho de bateria discreta mas sempre certeira. Uma boa ilustração de como uma música pop/rock pode fugir, com imaginação, à ausência aparente de uma estrutura básica e, ainda assim, funcionar e bem. Mestria e maturidade, lá está.

“Círculo”, a penúltima música, vai também oscilando entre registos, com um riff maquinal que vai e volta servindo de trave-mestra deste círculo obsessivo.

Sujo termina com “Um Febrão que Custa a Curar”, um dos temas mais bonitos do disco, levando-nos a casa no fim desta viagem. Um cheirinho a anos 90, uma pseudo-balada quase grunge, mas com uma delicadeza que tudo eleva.

Como podem inferir da longa descrição tema-a-tema, muita coisa cabe no caldeirão dos TV Rural. Ecos de grandes como Jorge Palma e Ornatos Violeta (e Nuno Prata), indie-rock dos anos 90, cheiro a cidade e a noite numa rua vazia. E, acima de tudo, boas letras, boas ideias e uma assinalável mestria instrumental.

O rock português está vivo. Não tenhamos medo de nos sujar.



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