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terça-feira, 21 de abril de 2026
concealer. - This Room Could Be Heaven. (2026)
Memórias, Momentos e Músicas: Rita Lee – “Arrombou a Festa” e “Arrombou a Festa II”

Em seu quarto álbum de estúdio, “Fruto Proibido” de 1975, Rita Lee descreve uma mulher contestadora e sem medo na faixa Luz Del Fuego, retrato da artista, dançarina, precursora do naturismo e feminista. A contestação e o destemor de Luz Del Fuego, que causaram furor no Brasil das décadas de 1940 e 1950, podem ser atribuídos à própria Rita.
Uma das qualidades que mais admiro em Rita Lee é sua habilidade de juntar contestação e deboche. Foi com esse espírito irrequieto que ela lançou, em 1976, a música Arrombou a Festa. Segundo a própria Rita, a sua intenção era “escandalizar os bons costumes da MPB”. E não fica pedra sobre pedra na galhofa musical que tem ironia e cutucadas nos músicos brasileiros que estavam em evidência àquela época.

A pândega começa pelo título da música que é uma paródia de um sucesso de Roberto Carlos: Festa de Arromba. A chacota vai comendo solta ao longo da música, alguns artistas são tratados de forma mais branda, mas para maioria sobra ironia e sátira.
É claro que uma parte dos “homenageados” não gostou nem um pouco da gozação feita por Rita, em parceria com Paulo Coelho, e aconteceram algumas reações exaltadas do público com a troça aos seus ídolos. Segundo Rita Lee a sua pilheria só poupou Elis Regina.
Alguns anos depois do lançamento de Arrombou a Festa, Rita “arrombou de novo a festa” da MPB. Em seu álbum “Rita Lee”, de 1979, o primeiro em parceria com o guitarrista, e seu companheiro, Roberto de Carvalho. Este álbum, dos sucessos Mania de Você, Chega Mais e Doce Vampiro, marca uma guinada do rock para um estilo musical mais abrangente e foi um sucesso como Rita jamais havia experimentado.

A última faixa deste álbum, Arrombou a Festa II, traz uma nova lista de artistas “agraciados” com a ironia de Rita Lee. Novamente em parceria com Paulo Coelho, Rita Lee zomba até dela mesma na frase: “E a Rita Lee parece que não vai sair mais dessa / Pois pra fazer sucesso arrombou de novo a festa”
A segunda arrombada segue a mesma linha musical que a primeira, com algumas diferenças rítmicas: a primeira era um rock, a segunda vem acrescida com um tempero de disco music, que era a onda daquele momento no Brasil. A excelente banda Tutti Frutti, que acompanhou Rita entre 1973 e 1978, só participou da primeira música.
Hoje, talvez, as duas canções possam ser consideradas politicamente incorretas, mas é exatamente isto que as torna tão divertidas.
VÍDEOS
Wendy Carlos, pioneira do sintetizador

Dedicado à Dra. Margareth Giglio e a toda equipe do Projeto
Transexualizador do Hospital Estadual Alberto Rassi – HGG
Quem assiste ao filme “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick deve ter notado a exuberância de sua trilha sonora. A música está muitas vezes em primeiro plano e não apenas como complemento à ação. Logo no início do filme, se tivermos ouvidos atentos, notaremos que a música tem um brilho diferente, isto porque grande parte do que se ouve no filme foi executado pela musicista Wendy Carlos em instrumentos musicais eletrônicos, os sintetizadores.
A música e a eletrônica estão presentes na vida de Wendy Carlos desde sua infância. Aos seis anos ela aprendeu a tocar piano e, alguns anos depois, se graduou em Música e Física na Brow University de Rhode Island, EUA.
Na década de 1960, o engenheiro Robert Moog criou o primeiro sintetizador comercial da história. Naquela época era um equipamento complicado e difícil de operar, porém o sintetizador Moog atraiu a atenção de Wendy Carlos que começou a utilizá-lo para criar e executar música.

Nascia assim a parceria entre Robert Moog e Wendy Carlos, com esta ajudando o inventor a aperfeiçoar seu instrumento.
Um marco da utilização de sintetizadores na música é o álbum “Switched-on Bach”, de 1969, onde Wendy Carlos, com a colaboração de Benjamin Folkman e Rachel Elkind, gravou peças do compositor alemão Johann Sebastian Bach totalmente executadas em instrumentos eletrônicos.
Este álbum, pioneiro na utilização de sintetizadores como instrumentos musicais, foi um sucesso de vendas e Wendy recebeu três prêmios Grammy por ele.

A colaboração com Kubrick começou na finalização do filme “Laranja Mecânica”, quando Wendy adaptou eletronicamente peças clássicas e compôs alguns temas inéditos para a trilha sonora. Uma das adaptações mais impactantes que aparecem no filme é o do quarto movimento da Sinfonia nº 9 de Beethoven, quando o protagonista Alex está sendo submetido ao “Tratamento Ludovico” para condicionar seus impulsos violentos. O filme foi lançado em 1971.
Wendy Carlos também foi pioneira pelo fato de ser uma das primeiras artistas trans da música. Ela nasceu em 1939 com o nome de Walter Carlos, em Rhode Island, EUA. Ela relatou que se percebeu como mulher desde os seus cinco anos de idade. No final da década de 1960, ela começou seu tratamento de reposição hormonal e, graças ao sucesso comercial do disco “Switched-on Bach”, ela realizou a cirurgia de redesignação sexual em 1972 e assim pode adotar oficialmente o nome Wendy.

VÍDEOS
Infelizmente há poucos vídeos com as músicas de Wendy Carlos no Youtuve.
A capoeira do Besouro Mangangá em dois clássicos da MPB: “Fita Amarela” e “Lapinha”

Nascido em 1895 na cidade de Santo Amaro, terra de Caetano Veloso e Maria Bethânia, o baiano Manoel Henrique Pereira ficou conhecido pela alcunha de Besouro Mangangá, por sua extrema habilidade na arte da capoeira.
Sua destreza e inteligência ajudaram a alimentar a crença popular de que o Besouro tinha poderes mágicos e o corpo fechado. Um desses poderes seria aquele que lhe deu o apelido: ele poderia se transformar em besouro e sair voando quando estivesse numa contenda com muitos adversários e não pudesse vencer a todos. Conta-se que não era criminoso, mas não gostava da polícia, o que lhe angariou antipatia das forças de segurança.

Um dos pilares da capoeira é a música, e principalmente o ritmo. Expressão genuína da cultura afro-brasileira, a capoeira agrega arte marcial e dança, que seguem o ritmo ditado pela música instrumental e vocal. A capoeira entrelaçada ao samba de roda, outra expressão cultural do Recôncavo Baiano, influenciou muitos compositores da música brasileira, destaque para Baden Powell.
Dentre canções inspiradas pela capoeira, quero me deter aqui em duas delas: “Fita Amarela” de Noel Rosa e “Lapinha” de Baden Powell e Paulo César Pinheiro.
Quando eu era criança, eu pensava que essas duas músicas eram uma só, pois minha mãe cantava regularmente as duas em nossa casa. A do Noel, ela cantava inteira, e começa assim:
“Quando eu morrer
Não quero choro nem vela,
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela”
Já “Lapinha”, ela cantava só o refrão:
“Quando eu morrer me enterre na Lapinha,
Quando eu morrer me enterre na Lapinha
Calça, culote, paletó almofadinha
Calça, culote, paletó almofadinha”
Além do ritmo puxado para o samba de roda, mal sabia eu, ao perceber intuitivamente a similaridade, que ambas as canções teriam bebido na mesma fonte: um tema supostamente composto pelo Besouro Mangangá para suas rodas de capoeira.

A genialidade de Noel Rosa quase não nos deixa perceber as citações à capoeira e ao candomblé na música e na letra de seu samba urbano, apesar dele ter reproduzido frases inteiras da original atribuída ao Besouro. “Não quero choro nem vela” é uma rejeição aos rituais católicos tão arraigados na época de Noel. Há também citações à reencarnação e a comemorar a passagem da alma com samba, sapateado e choro de flauta.
Já na música de Baden Powell e na letra de Paulo César Pinheiro, a presença do Besouro, que também era conhecido por Cordão de Ouro, é explícita:
“Adeus Bahia, zum zum zum, Cordão de Ouro
Eu vou partir porque mataram o meu Besouro
Adeus Bahia, zum zum zum, Cordão de Ouro
Eu vou partir porque mataram o meu Besouro”

“Lapinha” foi lançada em 1968, ano agitado na cultura e na política do país. O endurecimento da ditadura militar levaria à edição do AI-5 no final daquele ano. Veladamente a música exaltava um personagem da nossa história que lutava, e não se entregava, contra a opressão.
Para finalizar, aqui estão os versos originais que teriam sido escritos pelo Besouro Mangangá:
“Quando eu morrer
Não quero choro nem vela,
Também não quero barulho
Na porta do cemitério
Eu quero meu berimbau
Eu quero meu berimbau
Com uma fita amarela
Gravada com o nome dela”
A vida, romantizada, do Besouro Mangangá foi retratada no filme “Besouro”, 2009, dirigido por João Daniel Thikomiroff, do qual peguei a imagem do ator Aílton Carmo, que interpretou o capoeirista.
MÚSICAS
“E se Deus fosse um de nós?” Memórias, Momentos e Músicas: Joan Osborne – “One of Us”

Uma canção arrebatadora! A primeira vez que a ouvi foi no clipe que passava na MTV, em meados da década de 1990. A música se chama One of Us e é interpretada pela cantora estadunidense Joan Osborne, faz parte de seu segundo álbum solo, “Relish” de 1995.
É um pop rock delicioso com um refrão poderoso. Composta pelo guitarrista Eric Bazillian, que participava das gravações do álbum de Joan, ela entrou quase por acaso no disco, uma vez que o repertório da cantora é mais voltado para o country rock.
Apesar de ter gostado muito da música, eu só fui me interessar mais profundamente por ela depois de assistir ao filme “Vanilla Sky”, 2001, de Cameron Crowe. O personagem principal do filme, David Aames (Tom Cruise) canta o refrão enquanto está numa maca de hospital, a caminho de uma cirurgia. Aliás, a trilha sonora de “Vanilla Sky” é um espetáculo, mas não tem “One of Us”, por isso eu acabei comprando o álbum “Relish” por causa de dela, mas o disco é muito bom.

Na introdução da música aparece um trecho de uma antiga canção folclórica, The Airplane Ride, cantada a capella por Alan e Elizabeth Lomax.
E eu, que já gostava da música, fiquei apaixonado depois que entendi a sua letra. “E se Deus fosse um de nós?” é o tema da música. Ela aborda de maneira simples e honesta a questão da fé. “Se você estivesse cara a cara com Deus, o que perguntaria a ele?” e “Se Deus fosse apenas um estranho no ônibus, tentando ir para casa?”
A canção é um exemplo de perfeição: melodia bonita, letra tocante, refrão pungente e um belo riff de guitarra. Destaca-se o esforço de Joan Osborne em cantar um tipo de música que não era o qual ela estava acostumada a cantar até então.
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