terça-feira, 3 de março de 2026

The Chemical Brothers – Born in the Echoes (2015)


Arrisco-me a fazer o primeiro artigo sobre The Chemical Brothers neste prestigiado site. Espero não ferir as susceptibilidades daqueles que poderão considerar que o ritmo que estes irmãos nos trazem não se coaduna com os beats que aqui se transformam em bytes.

Pois bem, os nossos irmãos lançaram um novo álbum: Born in the Echoes (o oitavo!). Vou na segunda música e já tremo de alegria. Sim, já é conhecida a minha vontade de dançar, expressa no que escrevi sobre Róisìn Murphy entre outros. E aqui, na primeira música, claramente em primeiro lugar por uma razão, surge um convite para ir mexendo aos poucos o corpo, adivinhando que, para quem gosta de dançar, vai ser uma grande viagem. “Go” que aparece logo de seguida, foi o segundo single a ser lançado, ainda em Maio deste ano. E não há dúvidas: isto é Chemical Brothers, a irmandade voltou e apesar de a relação ter mais de 20 anos, não há estagnação nem retrocesso. É uma relação feliz para quem acompanha de ouvido. “We’re only here to make you go”, dita o refrão desta música. E nós vamos. Eu pelo menos vou, e vou mais feliz.

Este álbum tem algumas colaborações e a terceira música é com St. Vincent. O “Go” abranda um bocado e nós vamos, mas a outra velocidade. E na música seguinte o estilo muda com “EML Ritual”, com colaboração de Ali Love e que francamente me fez lembrar a banda sonora do Matrix (o que pode ser bom ou pode ser mau, depende…). Na música seguinte voltamos a sentir a irmandade, mas é com “Just Bang” que eu entendo onde estão os 90s escondidos neste álbum. Eles tinham de estar aqui, não fossem os irmãos filhos dessa década. E se em “We Are The Night” dançávamos com um salmão, aqui temos “Taste Of Honey”, onde se ouve, algures, uma abelha. O corpo desfalece e passa à frente à espera de mais qualquer coisa.

Chegou a vez da música que dá nome ao álbum: “Born To The Echoes”. Gira. Gosto. Cate Le Bon na voz e uma boa possibilidade de ser eleita a música para-pôr-bem-alta-no-carro. “Radiate”, a penúltima já tem um tom de despedida, ou então sou só eu. Mas como eles gostam de acabar em beleza, a última música é com Beck e para mim, a par de “Go”, ganha o título de boa-música-hein! Sou suspeita, tenho Beck num lado do coração e os irmãos lá num cantinho também. Uma colaboração conjunta… Só pode estar no topo.

Penso vagamente que vai ser difícil decidir qual vai ser o álbum do ano…


Luke Haines – British Nuclear Bunkers (2015)

 


“This is an emergency broadcast from the BBC. Information of a possible nuclear strike against this country has been received.” É com este alerta de aviso que começa o novo álbum de Luke Haines, um dos meus mais queridos heróis da velha Albion. Haines tem andado em grande forma, como é seu timbre aliás, desde o tempo dos The Auteurs. Ultimamente, Luke Haines tornou-se ainda mais irrequieto e surge agora com esta nova e improvável proposta: um disco sobre bunkers nucleares em redes subterrâneas, e sobre o perigo eminente de ataques devastadores. A “frieza gélida” do anúncio de abertura de British Nuclear Bunkers tem perfeito seguimento em todo o disco, e por isso a escolha acertada de ser inteiramente tocado em sintetizadores analógicos. O som assético confere-lhe um caráter único, despojado, metálico, impessoal. Trata-se, como é fácil perceber, de mais um disco conceptual, depois dos anteriores New York In The ’70s (com crítica entusiamada neste mesmo site), Rock And Roll Animals e 9½ Psychedelic Meditations on British Wrestling of the 1970s And Early ’80s, apenas para citar os mais recentes. Esta parece ser a praia de Luke Haines, um dos génios mais incompreendidos do pop-rock das últimas duas décadas e meia. Saiu no último dia 16 pela excelente Cherry Red Records, e é um primor!

São várias as coisas que me agradam neste disco. Uma certa linguagem kraut, por exemplo, a aproximação (ou será melhor dizer colagem?) aos enormes Kraftwerk – ouça-se, como meros exemplos, a faixa “Camden Borough Control”, sobretudo quando os sons estridentes do que me parecem ser sirenes dão lugar ao dedilhar das teclas melodiosas dos sintetizadores, e também “Deep Level Shelters Under London”, o tema que encerra o disco -, as melodias primárias e ritmadas desenhadas em “Test Card Forever”, e até um certo tom de divertimento pueril que percorre todos os minutos de duração deste novo trabalho de Luke Haines. É, a bem dizer, um disco quase instrumental, onde as partes vocais são mais faladas do que cantadas, e não chega a ter meia hora de duração. Da minha parte, satisfaço-me com essa curta duração, não por ser de facto reduzida, mas por me parecer certeira no tempo útil que oferece ao ouvinte, tempo ideal para que se construa uma realidade futura imaginada (utópica, distópica, próxima, distante?) e se saia dela a tempo de não se deixar intoxicar com a toxicidade dos gélidos e terríficos ambientes criados.

Tudo conta e tudo vale na obra de Haines, até a ideia de um tempo que aqui se imagina futuro, e que em trabalhos anteriores (os que já citei neste mesmo texto) nos faziam recuar algumas décadas. Como se perceberá, este não é um disco amigo de todas as horas, muito menos um trabalho de audição fácil. Pelo contrário, British Nuclear Bunkers pode criar, sobretudo no ouvinte menos atento aos devaneios de Luke Haines, um certo incómodo, uma estranheza impossibilitadora de nele se poderem encontrar motivos mais escondidos e menos óbvios de encantamento. Mas depois, é essa a minha esperança (mais do que certeza), todos esses involuntários equívocos podem desfazer-se, percebendo-se então, assim o espero, a grandeza e a beleza ímpares deste álbum. Pouco próximas da ideia clássica de canções, as dez curtas faixas de British Nuclear Bunkers mais parecem uma banda sonora de um raro filme noir de culto. De facto, Luke Haines já frequentou musicalmente esses terrenos (Christie Malry’s Own Double Entry, de 2001), mas esta sua mais recente proposta discográfica soa ainda mais a banda sonora, mesmo sem pertencer a essa categoria, o que não deixa de ser curioso.

Curioso é também o mundo de Luke Haines! Incapaz de fazer dois álbuns iguais, sobretudo quando os grava em nome próprio, o músico nascido em Walton-on-Thames (adoro este nome de localidade) há 48 anos, tem feito de 2015 um ano extraordinariamente prolífico. Depois de Raving (Volumes 1-75), em que gravou um mesmo álbum por 75 vezes, e cuja tiragem foi limitada a essas sete dezenas e meia, lançou ainda uma mini-ópera intitulada Adventures in Dementia sobre um tipo que se quer fazer passar por Mark E. Smith em férias na sua auto-caravana, e ingleses punks fascistas de uma banda de nome Screwdriver. Parece-vos tudo isto algo inusitado? Então é porque não conhecem bem o trabalho do homem em questão e o seu riquíssimo universo particular. British Nuclear Bunkers é apenas o mais recente capítulo do seu trajeto musical. Desta vez, o que temos é “Maximum Electronic Rock and Roll”, Luke Haines dixit.


Kurt Vile – B’lieve I’m Going Down (2015)

 


Há lugar no mundo moderno para Kurt Vile? A pergunta é difícil: Vile é o tipo que se coloca em campanhas publicitárias da Levis e do Bank of America ao mesmo tempo que parece rejeitar a febre contemporânea. “É preciso estar sozinho/até numa multidão”, canta-nos, a certa altura, em B’lieve I’m going down. Talvez Vile cante só para si, ou colabore só esquivamente. E na música – o essencial, tenhamos melhor ou pior opinião sobre outras técnicas – a integridade de Kurt Vile é à prova de bala.

Recordo-me de ler, numa recente entrevista de Vile (não me recordo qual), que alguém (não me recordo quem – talvez o produtor?) o alertou para a excessiva duração dos temas e, quando lhe “sugeriu” uma alteração, Vile disse simplesmente “Assim fica demasiado curto” (não me recordo, note-se, das palavras exactas; mas para mistificação – uma palavra que muito ouvimos nas últimas semanas, pródigas quer na linguagem quer na música dada – é quanto basta). Talvez não seja de menor importância este facto: na música, Vile é implacável. Não usa truques.

Este B’lieve I’m going down chega ainda mais longe nesse caminho. De que serve a música, e este disco, para o mundo que vivemos? Talvez para nada no seu sentido mais imediato; mas é evidente que propõe um caminho, uma forma de trabalhar e pensar a arte, aqui dentro da pop. Oferece uma banda sonora diferente. Vile é deste mundo? Talvez não.“Sou um fora da lei à beira da implosão / sozinho na multidão, no canto / indo devagar para lado nenhum”.
Hoje é preciso entreter instantaneamente: fazer magia. Kurt Vile propõe-nos magia aqui, também: apenas de uma matéria mais sólida, que requer um esforço diferente. No meio de canções empoeiradas, talvez Vile seja provocador até pela maneira como encurrala o ouvinte: aguenta-te se puderes e quiseres, ouve isto com uma atenção diferente: só assim o captarás. Não esperes refrões pensados para ti, arrancados a clichés, mas uma beleza singular com este conjunto de canções – esparsa, cuidada e sobretudo adulta, do cantautor que menciona Clarence White e Gene Clark a um mundo distinto.

Há uma certa melancolia e exalação no disco (que o próprio descreve com um adjectivo peculiar: nocturno, pelo tom e pelo método de concepção) a pairar por todo o lado, que nestes temas se abandonam à sua sorte. Kurt Vile, na realidade, sempre foi assim (instrumentos usados à parte, arranjos de lado – sim, tem piano, mete banjo, etc e tal): talvez a surpresa seja não ter abdicado. Continua a saber separar o trigo do joio, a fazer as coisas como acha que devem ser feitas. O resto é o mesmo de sempre: um escritor de canções e músico exímio, de sensibilidade pouco comum, difícil de ser rotulado, que sabe dosear seriedade e uma auto-confiança irónica com um humor auto-depreciativo quase absurdo, que só lhe serve a ele. Veja-se: “Vamos dar uma baforada num cigarro e ver o que conseguimos / uma correção revigorante e um pulmão preto”, canta em “Dust Bunnies”. Ou: “É difícil pensar com um cérebro esmagado / Esperemos que não deixe uma mancha permanente”, do mesmo tema.

E Vile é também um músico que resiste – à América industrializada e apressada, ao entretenimento permanente e de deitar fora pouco depois, à rejeição da diferença, à urgência do movimento e dos truques exibicionistas para captar a atenção dos outros, à incompreensão face à ausência de uma satisfação permanente – jovial. Às personagens secundárias e ao fim do mistério. Oiça-se a música final, “Wild Imagination”, um lancinante adeus que é tão só um até já (até ver). “Vou-te contar o meu passado – tem crentes e amantes, e drogados e sonhadores, e bêbados e conspiradores”, canta.
É a tristeza fabricada com seriedade: sem lamentos, humana. Há quem goste da outra: por ora terão (teremos) mesmo de levar com ele, de sorriso no rosto (talvez rindo de nós, talvez de si mesmo), com as perguntas e respostas de sempre. E recordar daqui a bons anos o disco que Kurt Vile gravou durante várias noites, acordado, enquanto todos dormíamos.



Wire – Wire (2015)

 


“Wire are an English rock band, formed in London in October 1976”. Parece incrível que cheguemos ao ano de 2015 com os Wire no activo, com 39 anos de carreira e 14 álbuns em cima. Pensar que uma das bandas que deu início aos movimento punk e pós-punk resiste no século XXI é algo transcendental, surreal, único. Para quê continuar a fazer música quando podiam estar a fazer uma tournée a tocar um qualquer álbum antigo e encherem-se de dinheiro?

Para além de todo um histórico precioso (que só por si merecia a audição deste álbum por todo e qualquer apreciador de música que se preze) os Wire não andam aqui a brincar aos músicos, fazendo um excelente álbum, para o qual também em muito contribuiu a inclusão de um novo elemento no processo criativo, o guitarrista Matthew Simms. Isso mesmo foi assumido em entrevista pelo líder Colin Newman, apelidando até de uma espécie de Renascimento a esta fase da banda. E o que é facto é que sendo um álbum já longe da veia punk com que se iniciaram nestas andanças, marca muitos pontos como álbum rock per se. Afinal, para que servem rótulos e a necessidade de rotular os estilos?

Indo às músicas em si, arrancamos logo com “Blogging”, que só pelo título dá para perceber que estamos (nós e os Wire) mesmo em 2015, ano em que até o Papa tem uma conta de twitter. “Shifting” e “Burning Bridges” são tranquilas, “In Manchester” é animada e entra bem no ouvido logo à primeira. “High” serve apenas de passagem para a enorme (em duração e impacto) “Sleep-Walking”, tensa, sempre com vontade de explodir. Na segunda metade do álbum destaco “Joust & Jostle” e “Octopus”, sendo que o momento alto de todo o álbum chega mesmo na música final. “Harpooned” é musica de só por si merecer audição em repeat, do alto dos seus 8 minutos. Crua, poderosa, impossível de deixar alguém indiferente.

Há que ouvir isto e perceber que estamos em 2015 e há uma banda que com 39 anos merece ser ouvida pelo que fez, faz, fará.



Beirut – No No No (2015)

 


Gravado em apenas algumas semanas, “No No No”, o último álbum de Beirut, é o culminar de um caminho tortuoso de Zack Condon, a mente atrás do e som tão característico da banda.

Condon já admitiu que os últimos anos tinham sido difíceis a nível criativo e também pessoal e nas letras deste disco nota-se um tom de salvação e sobrevivência, a começar logo com “Gibraltar”, a faixa que abre este quarto longa-duração.

O tom de arranque é bem-disposto e quase estridente, com o piano a sobrepor-se praticamente a tudo, marcando o mote para as faixas seguintes, embora as letras sejam mais obscuras.

Segue-se o ‘single’, “No No No” provavelmente a melhor faixa dos disco e a que mais se assemelha aos trabalhos antigos de Beirut. Temos trompetes, temos arranjos simples mas ritmados, temos sintetizador apenas para marcar o tom. Se todas as faixas fossem mais como “No No No” teríamos um disco digno de Beirut mas logo na faixa seguinte percebemos que Zack Condon nos quer levar por um caminho mais obscuro.

At Once” ainda nos faz lembrar os temas tradicionais de Beirut, com as trompetas presentes, mas esse efeito perde-se ao longo do disco. Aliás, as trompetas praticamente desapareceram deste trabalho.

é um tema triste e simples, assente em piano e com os instrumentos de sopro habituais mas sem grande alma. E o mesmo se passa com as músicas seguintes. “August Hollande” é repetitiva mas a banda redime-se logo a seguir com uma comovente e instrumental “As Needed”. “Fener” regressa um pouco ao som tradicional de Beirut, jovial e alegre. A fechar “So Allowed”, uma despedida à altura, a deixar o bichinho para o próximo trabalho.

Apesar dos coros e dos vários instrumentos, que já nos habituámos a ouvir em Beirut, falta a simplicidade composta, a capacidade que Beirut tem de encher uma música de instrumentos, coros e crescendos mas mantê-la, ao mesmo tempo, leve, um equilíbrio entre a simplicidade e a epicidade. E sem trompetas.

Talvez Cordon tenha querido fazer uma coisa diferente ou talvez tenha percebido que tinha de se adaptar à evolução que a música sofreu nos últimos anos mas o resultado é um disco que não soa a Beirut. Não é um mau álbum mas falta-lhe aquele som característico e que agarra, tornando-se apenas mais um disco no meio de tantos álbuns indie e folk que já saíram este ano.



Kansas – Point Of Know Return [1977]

 

Kansas – Point Of Know Return [1977]

Point of Know Return é o quinto álbum de estúdios da banda estadunidense Kansas, lançado em outubro de 1977, através do selo Kirschner. Leftoverture, lançado em outubro de 1976, quarto disco do Kansas, foi um grande sucesso comercial, vendendo muito. Embalado por faixas como “Carry On Wayward Son”, “The Wall” e “What’s on My Mind”, o álbum atingiu a 5ª posição da Billboard 200. Desta forma, pavimentou o caminho do Kansas rumo ao sucesso mainstream.

As sessões de gravação de Point of Know Return começaram em junho de 1977, no Studio in the Country, uma instalação em Bogalusa, Louisiana, onde os dois álbuns anteriores do Kansas foram gravados. Devido à falha do equipamento da banda no Studio in the Country, o Kansas mudou o local de gravação, portanto, a maior parte da gravação de Point of Know Return foi feita no Woodland Sound Studios, em Nashville, durante o mês de julho. A banda contava com a seguinte formação: Steve Walsh (Vocal, Órgão, Sintetizadores), Kerry Livgren (Sintetizadores, Piano), Robby Steinhardt (Violinos, Vocal), Rich Williams (Guitarras), Dave Hope (Baixo) e Phil Ehart (Bateria, Percussão).

Kansas em 1977: Kerry Livgren, Phil Ehart, Rich Williams, Bobby Steinhardt, Steve Walsh e Dave Hope (da esquerda para direita)

O vocalista e compositor Steve Walsh deixou o grupo brevemente durante a gravação deste disco. Em uma entrevista no programa de rádio semanal In the Studio with Redbeard, ele admitiu que, neste ponto, ele era uma espécie de prima donna e foi atraído pela chance de uma carreira solo.

Compacto iugoslavo de “Point of Know Return”

“Point of Know Return” abre o disco com os teclados dominantes em uma abordagem cativante e acessível. “Paradox” traz uma faixa bem dinâmica, com ótimas presenças dos teclados de Livgren e do violino de Steinhardt. “The Spider” é uma música bem curtinha, instrumental, mas que remete à sonoridade inicial do Kansas, mais intrincada e mais complexa, com forte influência Prog. “Portrait (He Knew)” mantém a musicalidade mais rebuscada, embora flerte com o Hard Rock, sem perder seu caráter acessível. “Closet Chronicles” traz vocais de Steinhardt, em uma sonoridade bem mais acessível, com algumas passagens amenas contrastando a outras mais intensas.

Compacto espanhol de “Dust in the Wind”

“Lightning’s Hand” continua com os vocais de Steinhardt, sendo um pouca mais longa e mesclando Hard com Prog. Com Walsh de volta aos vocais, a clássica “Dust in the Wind” é uma bela balada. Ela é conhecida por sua natureza acústica esparsa. A linha de violão para a música foi composta por Kerry Livgren como um exercício de dedilhado. Sua esposa, Vicci, ouviu o que ele estava fazendo, comentou que a melodia era boa e o encorajou a escrever a letra para ela. Livgren não tinha certeza se seus colegas de banda gostariam da música, já que era um afastamento de seu estilo característico. No entanto, ele a ofereceu aos companheiros, e a música foi aceita e gravada. “Sparks of the Tempest” é mais pesada, sendo um Hard Rock com influência bluesy. “Nobody’s Home” é mais suave e introspectiva, com ótimos vocais e um clima mais ameno. O disco é encerrado com “Hopelessly Human”, a mais longa faixa do trabalho e que permite ao Kansas demonstrar suas raízes progressivas.

Compacto de “Portrait (He Knew)”

Fundada como uma banda de sonoridade bastante progressiva, Poin of Know Return já mostra o Kansas tentando conciliar estas raízes no Prog com passagens bem amenas e acessíveis, em um tipo de AOR em estado de desenvolvimento. Os flertes constantes com o Hard Rock só comprovam esta transição que seria confirmada em álbuns posteriores, qual seja, o Kansas deixando gradualmente o Prog e se abraçando com o AOR. E é neste contexto que temos canções com mais complexidade (e ótimas) como “Closet Chronicles”, “Hopelessly Human” e “The Spider”. Já canções acessíveis como “Portrait (He Know)” e a mais que clássica “Dust in the Wind” são mais ‘pop’, mostrando a dualidade presente na obra e que é deveras interessante – e cativante!

Encarte do LP estadunidense

Point of Know Return atingiu a excelente 4ª colocação da principal parada estadunidense de álbuns. O álbum foi aclamado pela crítica, especialmente os singles “Point of Know Return”, o qual foi uma adição tardia ao álbum, e “Portrait (He Knew)”, cuja temática versa sobre Albert Einstein. Durante esse período, o Kansas se tornou uma grande atração principal e esgotou ingressos nos maiores locais disponíveis para bandas de rock da época, incluindo o Madison Square Garden, em Nova York. A banda documentou essa era, em 1978, com Two for the Show, um álbum duplo ao vivo com gravações de várias apresentações de suas turnês de 1977 e 1978. O Kansas conquistou uma sólida reputação pela reprodução fiel, ao vivo, de suas gravações de estúdio.

Em março de 1978, o Kansas foi para uma turnê pela Europa pela primeira vez e, mais tarde, naquele mesmo ano, os caras foram nomeados Embaixadores Adjuntos da Boa Vontade da UNICEF. O álbum de estúdio seguinte foi MonolithPoint of Know Return supera a casa de 4 milhões de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos.

Contra-capa de Point of Know Return

Faixas:
01. Point of Know Return
02. Paradox
03. The Spider
04. Portrait (He Knew)
05. Closet Chronicles
06. Lightning’s Hand
07. Dust in the Wind
08. Sparks of the Tempest
09. Nobody’s Home
10. Hopelessly Human


Peter Gabriel - "So" (1986)

 

"[Peter] Gabriel pôs em cheque
sua esquisitice com "So",
mas fez isso sem comprometer  a si mesmo."
revista Q, em 1986


O ex-Genesis, Peter Gabriel, em 1986, aparecia com um grande álbum mais acessível ao público que seus anteriores da carreira solo. "So" trazia canções mais pop com bom potencial radiofônico como "Big Time" e "Sledgehammer", mas aliava a isso explorações rítmicas universais, a chamada world-music, como em "In Your Eyes", trabalhos percussivos interessantes como na ótima "Mercy Street", e não deixava de lado o experimentalismo, como em "We Do What We're Told" e  em "This is the Picture (Excelent Brids)", parceria com a performática Laurie Anderson.
Além das mencionadas, merecem destaque a ótima "Red Rain", que abre o disco é uma mescla equilibrada do pop com os elementos percussivos e o interesse do músico pelos ritmos de outras culturas; e a balada "Don't Give Up", em dueto com Kate Bush com interpretações espetaculares dos dois cantores.
Mas o carro-chefe do disco e uma das canções mais emblemáticas dos anos 80 foi a já citada "Sledgehammer", um pop-soul cheio de energia pontuado eventualmente por uma flauta sinuosa e conduzida por uma linha de metais empolgante. A propósito, esta canção, "Slegdehammer", provavelmente seja, junto com "Thriller" de Michael Jackson, "Money for Nothing", do Dire Straits, "Hunting High and Low" do A-ha, um dos grandes marcos na linguagem do videoclipe com um dos videos mais marcantes de todos os tempos, numa animação gravada quadro a quadro, feita em parte com massa de modelar, em uma edição incrível que causava inevitavelmente enorme sensação e impacto visual.
Embora Peter Gabriel já tivesse realizado trabalhos muito interessantes e talvez mais criativos do ponto de vista experimental, "So", além de lhe proporcionar pela primeira vez uma penetração entre o grande público nas rádios e, com um clipe tão marcante, na TV, mostrava um equilíbrio mais interessante entre os elementos explorados pelo músico, resultando num trabalho extremamente bem produzido, bem acabado e de alta qualidade, que se constituía, desde então, num dos grandes discos da década de 80.

vídeo de "Sledgehammer" - Peter Gabriel



FAIXAS:
  1. "Red Rain" – 5:39
  2. "Sledgehammer" – 5:12
  3. "Don't Give Up" – 6:33
  4. "That Voice Again" – 4:53
  5. "In Your Eyes" – 5:27
  6. "Mercy Street" – 6:22
  7. "Big Time" – 4:28
  8. "We Do What We're Told (Milgram's 37)" – 3:22
  9. "This Is the Picture (Excellent Birds)" (Laurie Anderson, Gabriel) – 4:25


Periferia S/A - "Fé+Fé=Fezes" (2014)

 

"Povo burro 
é povo submisso"
Jão



Então fazia algum tempo que eu não trazia algo para o AF, mas aí estava eu em casa a cozinhar quando resolvi pôr algo no YouTube para ouvir/assistir. Entre tantas opções modernas, entre tantos lançamentos, resolvi assistir a uma entrevista que há alguns dias eu vinha namorado na telinha. Nada mais nada menos que João Carlos Molina Esteves, o Jão, guitarrista fundador de uma das bandas que na minha opinião foi uma das precursores do movimento punk brasuca: os Ratos de Porão. Esta foi a banda que me inspirou e me fez querer fazer hardcore. Os caras tinham uma energia, uma verdade que eu sentia em poucas bandas. Mas até aí é a história que todo mundo conhece: o pioneirismo, a força, a fúria, as letras a influência... O que quero chamar atenção aqui, no entanto, talvez só quem tenha vivido aquele punk brasileiro dos anos 80 entenda o sentido. Eu curto RDP desde 1987 quando os ouvi na coletânea "Ataque Sonoro" e depois fui conhecer o "Sub", outra coletânea clássica do punk nacional dos oitenta, que é justamente o tiro inicial dessa resenha. Quando ouvi o "Ataque Sonoro", fiquei um tanto confuso quanto àquela banda. Eu havia gostado mas havia algo ali que voltimeia me fazia pular as músicas. Porém, depois, quando ouvi no "Sub" aquele baixo marcante da faixa “Vida Ruim” tive vontade de pegar imediatamente meu skate e descer a maior ladeira que eu pudesse entoando o “NÃO VAI DAAARR DESSE JEITO O MUNDO VAI ACABAARR”!!!! Aquilo me fez me fez sentir o motivo de ser punk naquele momento.
Mas os Ratos  de repente deram, meio que do nada, um salto pra um crossover. Seguiram naquele rip e eu, fã, mesmo não tendo compreendido bem aquela mudança, aprendi a amar e me mantive fiel durante todo esse tempo. Só após trinta anos, finalmente compreendi aquele salto, aquela passagem brusca daquele punk pro crossover. Estava tudo guardado na cabeça de um cara: o Jão. Um cara que com toda sua humildade e generosidade soube guardar e esperar o exato momento para, quem sabe, explicar a transição após todo esse tempo.
No meu ponto de vista, a retomada daquele ponto foi inconsciente. Uma coisa que aconteceu. Tipo, aquela namorada de adolescente que você resolve fazer um recibo mas que de repente explica o motivo de muitos erros e acertos na vida. Me refiro à Periferia S/A, banda formada por Jão na guita e vocal, Jabá no baixo e Dru na batera. A banda traz um som punk enérgico com letras de protesto que vão desde revolta contra o sistema, até o tiozinho bebaço que põe a vida fora na cachaça. E porquê eu falo deles no AF??? Porque eles me fizeram entender tal transição e também me fizeram acreditar que mesmo que o Ratos não fosse o Ratos que tanto curto e acompanho, eu teria o que acompanhar caso eles não existissem. Ouvindo o disco, o ótimo "Fé+Fé=Fezes" de 2014, segundo trabalho dos caras, vejo que seria ducaralho ouvir esse álbum de 2014 lá em 1989, por exemplo, e se por acaso o RDP não tivesse lançado o "Cada Dia Mais Sujo e Agressivo", este, o "Fé+Fé=Fezes", seria tão contemporâneo (não que pareça antigo, é que Ratos sempre esteve a frente do seu tempo), que teríamos discos para três ou quatro gerações futuras.
Mas situando-o devidamente em sua época e seu contexto, o álbum do Periferia S/A, se formos analisar de uma maneira mais ampla, pode ser visto como um acontecimento importante no cenário cultural e social brasileiro da atualidade. Numa época em que há tanto pelo que se gritar e pouca gente no mundo artístico parecendo disposta ou com capacidade para fazê-lo, trabalhos como este do Periferia configuram-se como obras necessárias e fundamentais. Sabemos que esse grito atinge poucos, e àqueles a quem chega estes já tem a consciência da necessidade de um insurgimento popular, mas já que a cena nacional de rock praticamente inexiste e ao contrário dos anos 80 quando pelo menos havia um rol de bandas, ainda que comerciais, com poder de discurso e mobilização, que a voz da periferia seja a representante de nossa legítima insatisfação. Mais do que o alcance, o importante neste momento é a indignação, o sangue nos olhos e isso o Periferia S/A tem de sobra. Como diz o título de uma das músicas do álbum, "devemos protestar" e nenhum gênero, estilo, movimento é mais legítimo do que o punk para fazer um convocação como essa. Sim, o bom e velho punk está de volta e com toda a fúria e energia. Longa vida a ele.




FAIXAS:
1. Pindorama Pindaíba (01:59)
2. Urbanóia (01:46)
3. Fé + Fé = Fezes (01:09)
4. Problema de Ninguém (02:31)
5. Fé + Fé = Fezes (01:27)
6. 12XU )01:33)


7. Pindorama Pindaíba (01:48)*
8. Recomeçar (03:06)*
9. Eles (01:59)*
10. A Farsa do Entretenimento (02:31)*
11. Segunda Feira (01:40)*
12. Oprimido (01:48)*
13. Carestia (01:11)*
14. Parasita (01:22)*
15. Padre Multimídia (03:31)*
16. Devemos Protestar (02:18)*

(7 a 16 gravações ao vivo)



“Pequeno Cidadão” - Arnaldo Antunes, Antonio Pinto, Edgar Scandurra e Ticiana Barros (2009)

 


“É sinal de educação
Fazer sua obrigação
Para ter o seu direito
de pequeno cidadão”.
refrão da música "Pequeno Cidadão"




Por um bom tempo, parecia que os memoráveis especiais de música infantil da Globo, os quais geralmente viravam LP’s de grande sucesso de público e vendas, tinham terminado. Do final dos anos 80 até a entrada do século XXI, estes ricos especiais como "A Arca de Noé" ou “Pirlimpimpim” sumiram das telas e das lojas – à exceção de “Castelo Rá-Tim-Bum”, único resistente dos anos 90. No mesmo período, não tão coincidentemente assim, os pequenos passaram a ficar cada vez mais emburrecidos pela computadorização limitadora do conteúdo educativo-cultural, desassistidos pelo desleixo das escolas e perdidos entre a superproteção e o desinteresse da “nova família” brasileira de classe média. Espaço para a criatividade, para o exercício do lúdico, para a valorização das coisas bonitas da vida – amigos, família, natureza, arte – restaram escanteados. Para que lançar produtos que elevam essas coisas “do passado”, já que não tem consumidor para tal? Resultado: desvalorização e consequente idiotização da criança.

A salvação veio a pouco mais de 10 anos pelas mãos dos paulistas da geração anos 80 – alguns dos responsáveis por, na minha infância/adolescência, fazerem-me aprender a gostar de música. São eles os criadores de um dos melhores exemplos de uma nova visão da condição infantil: “Pequeno Cidadão”. Desde este primeiro CD do conjunto, lançado em 2009, reúnem pais músicos e “mais um monte de filhos”, como eles mesmos dizem. Os protagonistas são alguns dos principais nomes da música brasileira daquela década para cá: o ex-Titã Arnaldo Antunes, o cabeça do Ira! Edgar Scandurra, a ex-Gang 90 Ticiana Barros e o multi-instrumentista Antonio Pinto (autor de várias e ótimas trilhas sonoras de filmes como “Cidade de Deus”, “Central do Brasil” e “Colateral”).

O grupo faz um som baseado no rock mas que investe também na psicodelia e nos ritmos brasileiros, passando pelo pop, funk e eletrônico. Conceitualmente, “Pequeno Cidadão” encerra a ideia de uma educação infanto-juvenil comprometida com o ser humano e com o planeta, sem perder o lado legal da brincadeira e da modernidade – ou seja, sem deixar esse “comprometimento” virar uma coisa chata e somente pró-forma. As músicas trazem como temas coisas normais (ou que deveriam ser normais) do universo infantil: alegrias, dúvidas, bichos, desafios, tristezas e aquilo que move a todos (ou deveria mover): amor. Afinal, criança não precisa de música bobinha: ela pode muito bem curtir um rock ‘n’ roll com poesia que lhe faça pensar. Multiplataforma e ativo, “Pequeno Cidadão” é, no entanto, mais do que apenas só música: o projeto conta com um segundo CD (2012), um precioso DVD de animações de todas as faixas do primeiro volume e quatro livros temáticos, além de jornal online e várias ações culturais que promovem em São Paulo. Tudo com ilustrações de Jimmy Leroy, que dá uma assinatura plástica muito peculiar em todos os materiais.

Uma das lindas artes de Jimmy Leroy.
Pontapé inicial do projeto, este CD começa pela faixa que lhe dá nome e que, de certa forma, o sintetiza, pois expressa a ideia de formar uma criança com responsabilidades mas a deixando ser aquilo que ela é: criança. E como Vinícius de Moraes ensinou: não duvidando da inteligência delas. Arnaldo, acostumado a escrever para esse público desde os Titãs, pratica isso se valendo de figuras de linguagem como anáforas, repetições no início de cada frase, e, principalmente, de anástrofes – e aí está já uma das sacadas pedagógicas da turma: mostrar para a criança a riqueza da língua portuguesa. A anástrofe é um caso especial dentro de nossa gramática, pois usa a inversão de maneira incomum: trocando sujeito e predicado, surpreende com a lógica que forma. Na letra, tudo que é brincadeira vira dever e vice-versa, estabelecendo uma dialética de correlação e não de condicionamento entre ambos. Por exemplo, o verso “Agora pode fazer a lição” ganha sentido de um consenso entre pais e filhos e não de obrigação como geralmente se entende daquilo que não é diversão. Em contrapartida, “Agora tem que jogar videogame” passa a ter a ideia de um convite à brincadeira, rejeitando o famigerado “tenke” imposto pelos mais velhos. Além de tudo, a música é um rock embalado e pegajoso, cujo gostoso refrão o resume clara e brilhantemente: “É sinal de educação/ Fazer sua obrigação/ Para ter o seu direito de pequeno cidadão”.

Antonio Pinto, coautor da primeira faixa, assina com Ticiana uma das mais lindas canções (infantis? De amor? Da música brasileira deste século?) do álbum: “O Sol e a Lua”. A música emociona a mim e a muitas pessoas que conheço, sejam crianças ou adultos. É um pop-rock cantado por ele e por um dos meninos, além do coro das crianças no refrão e das recitações na voz grave de Arnaldo. Voltada para os mais crescidinhos, fala sobre um acontecimento que ocorre com todo mundo na pré-adolescência: o amor não retribuído, aqui personificando nos dois astros. Apaixonado, o Sol pediu a Lua em casamento e disse que lhe amava há muito tempo, mas a Lua respondeu que seu coração não pertencia a ninguém, pois ela só servia para inspirar os casais, “dos grandes poetas aos mais normais”. O Astro-Rei, claro, ficou na fossa. Desesperado, foi pedir ajuda até para o Vento, que, apressado, nem parou para lhe escutar. Foi então que: “O Sol sem saber mais o que fazer/ Tanto amor pra dar/ E começou a chorar/ E a derreter/ E começou a chover, e a molhar/ E a escurecer”. E não é assim mesmo que nos sentimos quando ficamos tristes por amor: derretidos e sem brilho? No final, o consolo dito na delicadeza da voz infantil: “Se a Lua não te quer, tudo bem/ Você é lindo, cara/ E seu brilho vai muito mais além/ Um dia você vai encontrar alguém que com certeza vai te amar também”. Poesia da maior singeleza.

A doce canção de ninar “Meu Anjinho”, de Ticiana (“E aqui dentro/ no escurinho/ nos braços desta canção/ vou te ninar...”), se alinha à outra das ótimas do disco, o gostoso xote “Leitinho”, a qual traz a mensagem de que “um leitinho é muito bom” pro bebê e pros pais, pois, depois, vem aquele compensador “soninho” que descansa toda a família. Impossível não lembrar-me de uma vez com minha sobrinha Luna ainda pequena, com pouco mais de um ano, quando cantei essa música para ela, sabendo que gostava e que seu pai, meu irmão, costumava cantar-lhe e pô-la para ouvirem. A surpresa pura que ela ficou quando identificou que era a mesma música que o papai cantava foi engraçado e emocionante.

A funkeada “O ‘X’” e a agitada “Sobe Desce” são pura diversão, duas brincadeiras com palavras, letras e suas sonoridades. Mais pedagógica e profunda é “Tchau, Chupeta” (de Ticiana e Arnaldo), que versa sobre uma das maiores revoluções pessoais pela qual o passamos na infância: o momento de largar o bico. O complexo tema, que especialistas há muito discutem – os limites da chamada “fase oral” e a troca (nem sempre exitosa) de um substituto simbólico do seio materno –, é colocado de uma forma absolutamente poética e lúdica, propondo à criança nesse necessário rompimento o desapego em nome de uma nova fase de vida. “Todo mundo tem seu tempo de mamar”, diz um dos versos. Graciosa, a letra lança várias suposições de forma a demonstrar à criança que a chupeta não combina mais com alguém que não é mais neném: “Já pensou uma mãe chupando chupeta?/ Já pensou um pai chupando chupeta?/ E uma vó de bobs e chupeta?/ E um vovô de bengala e chupeta?”. E a proposta para deixar a tal peta? Libertar-se dela jogando-a no mar para, enfim, poder cantar “sem uma tampa de borracha pra atrapalhar”. O assunto é tão importante e passível de desdobramentos que virou um dos livros do projeto, de 2011 (Ed. Leya).
A banda Pequeno Cidadão, com os grandes e os baixinhos.

O tom educativo segue de outras formas. Tem as ecológicas “O Uirapuru”, bossa-nova que remete à “Passaredo”, de Chico Buarque, e a “Passarim”, de Tom Jobim, revelando a beleza linguística quase despercebida pelos brasileiros do tupi-guarani; e “Sapo-Boi”, um divertido rock ‘n’ roll urbano de Scandurra cantado por seu filho Lucas: “Se eu fosse o prefeito aqui da capital/ Pegava o sapo-boi e espalhava pela marginal (...)/ A dengue não passa de um mês/ pois o mosquito é o prato da vez”. Por falar em bichos, a punk-rock “Larga a Lagartixa”, além de ser mais uma quebra de paradigma – afinal, é saudável criança também gostar de barulho –, é igualmente educativa, uma vez que a frase principal, dita da forma acelerada para acompanhar o ritmo frenético, torna-se um trava-línguas, bom exercício para a garotada treinar a dicção.

Outra das mais queridas do disco é "Bonequinha do Papai", a qual minha sobrinha Luna gosta até hoje. Tecno bem dançante, põe a meninada na pista! Alem do mais, seu premiado videoclipe, algo como um retrô-futurista com desenhos estilo anos 20 (mas com uma animação dinâmica e moderna), é uma verdadeira obra-de-arte, o qual assisti pela primeira vez no Dia Internacional da Animação, em 2010.

Mas, claro, não podia faltar o futebol, esporte tão gostado no Brasil e praticado por meninos e meninas. Identifico-me com as duas faixas que tratam desse tema por trazerem-me lembranças de tempos passados. A primeira é mais uma bossa-nova: “Futezinho na Escola”, motivadora de outro dos livros do projeto, “1 drible, 2 dribles, 3 dribles — A história do futebol e outras informações interessantes”, de Marcelo Rubens Paiva (Companhia das Letrinhas, 2014). Nela, Scandurra aborda o que a mim era um corriqueiro hábito no 1º Grau: bater uma bola com os colegas na cancha da escola antes de começar os estudos. A letra descreve com muita sensibilidade as sensações e a dinâmica de um jogo: “O último lance, vâmo logo, passa a bola/ Recebi, quase perdi pro ladrão que eu nem vi/ Chegou primeiro pedalei e passei/ Chegou o segundo e eu também driblei/ Veio o terceiro e eu fiz uma tabela/ Tô livre parceiro, vou chutar de trivela/ É gol!”. Mas tem a hora do divertimento e a do dever. Acaba-se o jogo rapidinho, pois agora é preciso correr para ir a outro compromisso: a aula de português.

Tratando ainda do esporte bretão e fechando o disco, "Carrinho por Trás" é mais uma de Scandurra e novamente um samba. Neste caso, um partido-alto. Com uma pegada carioca e eletrônica, faz-me recordar de outra época, esta, da adolescência, quando jogávamos nos campos de várzea com nosso time de amigos, a Juventus. O universo das peladas é muito bem captado pelo compositor, que pega como mote um dos polêmicos lances que acontecem nas partidas: o carrinho (segundo a definição de Rubens Paiva, extraída do livro: “o jogador se lança no gramado e, deslizando pelo chão, tenta tirar a bola do adversário, arremessando os pés na direção dele.”). Como pode acarretar em uma jogada violenta, o carrinho é mal visto, ainda mais que nem todo jogador tem boas intenções e nem todo zagueiro tem habilidade para executá-lo. Eu, da posição, tenho lá minhas dificuldades, confesso. Porém, a canção fala sobre um defensor que entende do negócio: “O carrinho é perigoso/ No mínimo um tanto suspeito/ Mas se você acerta na bola/ É aplaudido com muito respeito”. João Nogueira merecia estar vivo para gravar essa música. Como extra, ainda tem “Pererê”, com participação do cartunista e escritor Ziraldo declamando um texto seu.

Ao escutar uma obra como essa, fica a sensação de que nem tudo está perdido no que se refere a conteúdo cultural para criança. Afora “Pequeno Cidadão”, outro projeto da mesma época, Adriana Partimpim, da cantora e compositora Adriana Calcanhoto, também teve continuidade e conquistou o público. No meu círculo, percebo, inclusive, que não são poucas as crianças que gostam de um ou de outro, desde Luna até outros pequenos que conheço como Bento, Dora e Gabriel. Bom sinal. Sinal de que há uma geraçãozinha aí antenada e bem orientada. Além disso, de que existe uma consciência do valor das coisas importantes da vida (muitas vezes, as simples), que não se resumem a consumo e tecnologia. Iniciativas como estas se mostram sintonizadas com tal mentalidade. E neste Dia das Crianças, é um alento perceber gente consciente de que, para se exercer a cidadania no mundo de hoje, começa-se desde cedo.
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FAIXAS:
1. Pequeno Cidadão
2. O Sol e a Lua
3. Meu Anjinho
4. Futezinho na Escola
5. O ´x´
6. Tchau Chupeta
7. Sapo-boi
8. Leitinho
9. Larga a Lagartixa
10. O Uirapuru
11. Sobe Desce
12. Bonequinha do Papai
13. Carrinho Por Trás
14. Pererê (extra)

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OUÇA O DISCO E VEJA OS CLIPES:



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