segunda-feira, 30 de março de 2026

Weather Report - Weather Report (1971)



Aqui temos os primórdios abstratos e flutuantes do Weather Report, que definiriam o estado da arte do jazz/rock eletrônico desde a primeira nota até quase a última. Seu primeiro álbum é uma extensão direta do período de Miles Davis, como em In a Silent Way/Bitches Brew, mais fluido em sonoridade e mais volátil em interação. Joe Zawinul reflete de maneira delicada e fluida no piano elétrico Rhodes; nessa fase inicial, ele usava um modulador de anel para criar efeitos estranhos, semelhantes aos de um sintetizador. O sax soprano de Wayne Shorter brilha como um farol em meio ao trabalho conjunto efervescente do baixista e cofundador Miroslav Vitous, do percussionista Airto Moreira e do baterista Alphonse Mouzon. O tema mais memorável de Zawinul é "Orange Lady" (gravado anteriormente, embora sem créditos, por Davis em Big Fun), enquanto Shorter se destaca em "Tears" e "Eurydice". Uma das estreias mais impressionantes de todos os tempos por um grupo de jazz.


Estilos:

Fusion.

Faixas:
01 Milky Way
02 Umbrellas
03 Seventh Arrow
04 Orange Lady
05 Morning Lake
06 Waterfall
07 Tears
08 Eurydice.
 Formação: Joe Zawinul - piano elétrico / teclados; Wayne Shorter - saxofone soprano; Miroslav Vitous - baixo / baixo elétrico; Alphonse Mouzon - bateria; Airto Moreira - percussão.


McCoy Tyner - Enlightenment (1973)



Esta é uma das grandes gravações de McCoy Tyner. O pianista poderoso, percussivo e extremamente influente demonstra grande inspiração durante toda a sua apresentação no Festival de Jazz de Montreux de 1973. Azar Lawrence (no saxofone tenor e soprano) também merece destaque, e há muita interação com o baixista Juney Booth e o baterista Alphonse Mouzon. Mas Tyner é a estrela principal, seja em sua "Enlightenment Suite" em três partes, "Presence", "Nebula" ou na faixa de 25 minutos "Walk Spirit, Talk Spirit".


Estilos:
Jazz Progressivo
Modal
Pós-Bop

Faixas:
01 - Apresentando o Quarteto McCoy Tyner (01:19)
02 - Suíte da Iluminação, Parte 1: Gênesis (10:02)
03 - Suíte da Iluminação, Parte 2: A Oferenda (04:00)
04 - Suíte da Iluminação, Parte 3: Visão Interior (10:04)
05 - Presença (10:35)
06 - Nebulosa (09:39)
07 - Caminhe com o Espírito, Fale com o Espírito (24:04)

Formação:
McCoy Tyner - piano, percussão
Azar Lawrence - saxofone soprano e tenor
Joony Booth - baixo
Alphonse Mouzon - bateria


Norman Connors - Dance of Magic (1972)



Gravado com um verdadeiro time de titãs do fusion, incluindo o trompetista Eddie Henderson, o baixista Stanley Clarke e o tecladista Herbie Hancock, Dance of Magic canaliza as lições que o baterista Norman Connors aprendeu trabalhando com Pharoah Sanders, Sam Rivers e Sun Ra, reunindo ritmos latinos, texturas eletrônicas e misticismo cósmico para criar um funk-jazz não-denominacional, porém profundamente espiritual. A extensa faixa-título de 21 minutos ocupa toda a primeira metade do disco, capturando uma jam session monumental que explora os limites da improvisação livre, mas nunca ultrapassa o ponto de não retorno. A bateria furiosa de Connors é como um rastro de migalhas de pão que guia seus colaboradores de volta para casa. As três faixas restantes são menores em escala, mas não menos épicas em escopo, culminando com a explosiva "Give the Drummer Some".

os Estilos Musicais:
Fusion,
Crossover
, Funk-Jazz,
Avant-Garde.

Faixas:
01 - Dance Of Magic (21:00)
02 - Morning Change (06:29)
03 - Blue (10:20)
04 - Give The Drummer Some (02:22)

Formação:
Norman Connors - Bateria
Stanley Clarke - Baixo
Cecil McBee - Baixo
Herbie Hancock - Piano, Fender Rhodes, Piano Elétrico
Gary Bartz - Saxofones Alto e Soprano
Carlos Garnett - Saxofones Tenor e Soprano
Art Webb - Flauta
Eddie Henderson - Trompete
Anthony Wiles - Balifone
Airto Moreira - Percussão
Alphonse Mouzon - Percussão
Anthony Wiles - Percussão
Billy Hart - Percussão



Black Star Riders: crítica de All Hell Breaks Loose (2013)

 



Adoro Thin Lizzy. O grupo do falecido vocalista e baixista Phil Lynott é uma das trilhas da minha vida. Ouvi muito, e ainda ouço. Considero as guitarras gêmeas da banda o ápice no assunto. Ninguém jamais chegou perto dos caras nesse quesito, o que, aliado à forma de cantar única de Lynott, que parecia conversar com o ouvinte enquanto narrava as letras, transformou o Thin Lizzy em uma banda única. Pra fechar, julgo o grupo injustiçado e pouco reconhecido. Na minha opinião, o Thin Lizzy deveria ser uma banda gigante, reconhecida como um dos mais importantes nomes da história do hard rock, com a sua influência sendo sentida de maneira profunda em todo o gênero. Potencial comercial para isso nunca faltou, porém, o problema crônico dos músicos com drogas - motivo da morte de Phil - foi decisivo para que o Lizzy não alçasse vôos maiores.

Parceiro de Lynott desde os primeiros anos de banda, e companheiro do vocalista no mergulho profundo em heroína e outros entorpecentes, Scott Gorham é um sobrevivente. Exímio guitarrista, dono de grande bom gosto e uma capacidade impressionante para criar belas melodias, Gorham é também o único remanescente e a ponte que liga o Thin Lizzy de Lynott ao Black Star Riders, nome que a atual formação da banda adotou quando decidiu gravar um novo álbum com canções inéditas. Decisão acertada, diga-se de passagem, já que Lynott era o centro do grupo, e ele não faria sentido sem ele.

Ao lado de Scott Gorham no Black Star Riders estão Ricky Warwick (vocal e guitarra), Damon Johnson (guitarra), Marco Mendonza (baixo) e Jimmy DeGrasso (bateria) - um time que impõe inegável respeito. Na produção de All Hell Breaks Loose, primeiro disco do quinteto, o mais do que rodado Kevin Shirley, com trabalhos para nomes como Iron Maiden, Dream Theater, Joe Bonamassa e Black Country Communion. E por trás de tudo, a gigante Nuclear Blast, hoje a principal gravadora de heavy metal do planeta.

All Hell Breaks Loose foi gravado em janeiro em Los Angeles e traz onze músicas. A sensação ao colocar a bolacha para tocar é a de se estar ouvindo um novo álbum do Thin Lizzy, principalmente pela semelhança incrível entre os vocais de Warwick e de Lynott. Longe de ser um trabalho oportunista, All Hell Breaks Loose soa honesto aos ouvidos, é um álbum gostoso de escutar e, como cereja do bolo, entrega algumas canções muito acima da média.

Os grandes momentos do trabalho são a ótima “Bound for Glory”, primeiro single, que resgata com precisão a tradição do Thin Lizzy e reapresenta a sonoridade da banda irlandesa para a nova geração. Grande faixa! O nível segue bom com “Kingdom of Lost”, cheia de influências celtas (outra característica do Lizzy), que empolga principalmente pela interpretação de Ricky Warwick, apesar de perder pontos pelo refrão meio bobo. “Hoodoo Voodoo” tem cara de futuro single, e é daquelas faixas que, ao começar a rodar, você aumenta o volume instantaneamente e de maneira instintiva.

O restante do tracklist apresenta força, alternando acertos (“Valley of the Stones”, “Before the War”, “Someday Salvation”, "Blues Ain't So Bad")) com outros onde a inspiração deixou a desejar (caso da fraca faixa-título). Porém, em todos os momentos, o que se percebe é uma leveza, um bom astral saindo das caixas de som, fruto do prazer que levou os músicos a se arriscarem largando os shows puramente saudosistas compostos por canções escritas há mais de trinta anos e entrarem no estúdio para escrever novas composições que, a princípio, não teriam nada a agregar às suas carreiras.

All Hell Breaks Loose está longe de ser uma obra de arte, porém é um disco muito agradável e simpático, divertido e perfeito para escutar com os amigos, batendo um papo e tomando algumas cervejas geladas. E ainda, de quebra, traz de volta uma das mais cativantes sonoridades que o rock já viu nascer.

Phil Lynott aprovaria.






Faixas:
1 All Hell Breaks Loose
2 Bound for Glory
3 Kingdom of the Lost
4 Bloodshot
5 Kissin’ the Ground
6 Hey Judas
7 Hoodoo Voodoo
8 Valley of the Stones
9 Someday Salvation
10 Before the War
11 Blues Ain’t So Bad







Evile: crítica de Skull (2013)

 



Vou ser bem sincero com vocês: este é um disco complicado de avaliar. Escrever sobre Skull, quarto CD da banda inglesa Evile, não é tarefa das mais fáceis. O motivo são as sensações conflitantes que o álbum provoca. Se por um lado trata-se de um trabalho absolutamente empolgante, na mesma medida revela-se um disco que joga baldes de água fria sobre o ouvinte em diversos momentos. A razão: a extrema semelhança que o Evile apresenta com os três primeiros discos de uma certa banda norte-americana chamada Metallica. Do timbre vocal de Matt Drake, passando pela estrutura das faixas e até mesmo a produção, a sensação é que estamos ouvindo, novamente, o sucessor de Master of Puppets (1986) - novamente porque já era possível ter essa sensação com o último trabalho do grupo, Five Serpent’s Teeth (2011).

Essa dualidade de sentimentos faz com que Skull seja um disco controverso. Quem procura algo original ou com personalidade própria deve passar longe. Já quem não se importa com isso, venha bem pra pertinho. Aqui, vale um parênteses: não defendo a ideia de que uma banda deva reinventar a roda, fazer o que nunca foi feito antes. Afinal, já temos mais de cinco décadas de rock nas costas, e é realmente difícil ser original, criar algo novo. Entretanto, é necessário caminhar com as próprias pernas e não apenas seguir o caminho aberto por outros grupos.

Produzido por Russ Russell (Dimmu Borgir, Napalm Death, Amorphis), Skull foi gravado em fevereiro no Parlour Studios, localizado na cidade inglesa de Kettering, e traz nove faixas. Completam a banda, além de Matt Drake no vocal e guitarra, o guitarrista Ol Drake, o baixista Joel Graham e o baterista Ben Carter.

Volto lá para o primeiro parágrafo. Skull é difícil de ser avaliado porque está longe de ser um disco ruim, muito pelo contrário. As músicas que compõe o disco são thrash metal puro e eficiente, capazes de entortar pescoços e causar torcicolos persistentes. É um bom trabalho, isso é inegável, mas é também inegável que não há nada de original aqui. Ainda que a banda possua talento - todos são instrumentistas excelentes -, seria muito bem-vindo um distanciamento maior da sonoridade que consagrou o Metallica. É claro que, pelo passado afetivo que grande parte dos fãs de metal possui com os primeiros anos do grupo de James Hetfield e Lars Ulrich, e pelo abandono por parte do quarteto norte-americano dessa sonoridade a partir da morte de Cliff Burton, é reconfortante ouvir alguém retomar o caminho abortado pelo Metallica em 1986 - e, acima de tudo, fazer isso com competência. Mas é incômodo, por exemplo, ouvir uma  música como “Head of the Demon” e identificar sem grande esforço um trecho idêntico a “For Whom the Bell Tolls”. Essa sensação se repete várias vezes durante a audição, o que, evidentemente, não conta pontos para o Evile.

Me parece que a avaliação de um disco como Skull passa por uma escolha que o ouvinte deve fazer não só ao escutar esse álbum, mas na forma como consome música de maneira geral. Quem procura algo com personalidade própria, uma sonoridade construída de forma singular, não ouvirá isso não só em Skull, mas em toda a discografia do Evile. Entretanto, quem não coloca esse quesito como essencial e quer apenas ouvir um bom disco - e repito mais uma vez, Skull é um bom disco -, certamente irá gostar bastante. Há ótimos riffs, as músicas são bem feitas, mudanças de andamento são constantes, a performance é contagiante, transformando a audição em um ato de bater cabeça de forma incessante.

Eu estou confuso, muito confuso. Esse disco mexeu com a minha cabeça. Há vezes que o coloco para rodar e fico empolgadíssimo com faixas como “Underworld”, “Skull” e “Words of the Dead”. Em outros momentos, me incomoda demais a semelhança e a falta de originalidade citadas durante todo esse review. Poderia dar uma nota alta ou baixa para Skull devido aos sentimentos opostos que ele me fez sentir, e foi muito difícil me decidir sobre qual seria a decisão correta.

No final das contas, a paixão pelo metal, o histórico de anos de fã do gênero, acabam pesando mais alto que o lado crítico. Skull me empolgou tremendamente em diversos momentos, independente de soar original ou não. Por essa razão, recomendo e dou a nota que dou. Mas que no próximo álbum o Evile poderia se afastar um pouquinho do universo do Metallica, ah isso podia ...




Faixas:
1 Underworld
2 Skull
3 The Naked Sun
4 Head of the Demon
5 Tomb
6 Words of the Dead
7 Outsider
8 What You Become
9 New Truths, Old Lies






Dark Tranquillity: Crítica de Construct (2013)

 


Um dos nomes originais da cena musical sueca de Gotemburgo e um dos pilares do chamado melodic death metal, o Dark Tranquillity construiu ao longo de mais de duas décadas uma discografia consistente, que explorou em cada um dos registros novas sonoridades e percorreu caminhos ainda mais diferentes no estilo que ele mesmo ajudou a formar.

Construct é apenas o décimo álbum de estúdio, em meio a incontáveis lançamentos de coletâneas e discos de raridades/sobras de estúdio, e vem sendo considerado pela banda como o material mais dinâmico que eles lançaram desde Projector, o divisor de águas de sua identidade musical. O novo trabalho foi produzido em conjunto com Jens Bogren e lançado pela Century Media, e pode ser considerado como mais um passo no que o Dark Tranquillity vem trilhando nos últimos anos (em específico, após o Fiction, de 2007).


Porém, ao contrário do que pode ser ouvido nos álbuns anteriores, a faixa escolhida para abrir o disco, “For Broken Words” traz um ritmo cadenciado e de tempos esquisitos, destacando ainda mais a atmosfera sonora criadas pelo tecladista Martin Brändström, cuja função na banda se torna ainda mais importante a cada registro. As tendências se mantêm imutáveis em “The Science Of Noise”, uma das faixas liberadas para divulgação, aonde é importante notar que a voz de Mikael Stanne voltou ao gutural de antes, deixando de lado o excessivamente rasgado de We Are The Void.


“Uniformity” desce ainda mais na profundidade e soa como um híbrido entre o Dark Tranquillity atual e a banda da época do Projector, com elementos de gothic metal e industrial em meio ao melodic death, enquanto “The Silence In Between” é o primeiro momento realmente agressivo em Construct, com uma daquelas faixas de margens pouco definidas entre cada seção. Com riffs que remetem ao som primordial da banda, “Apathetic” quase chega a esbarrar nas influências de black metal que eles tiveram em determinadas partes dos últimos álbuns, diferente da simplicidade instrumental em “What Only You Know”, algo que raramente se vê nas faixas padrão da banda.


E por falar em simplicidade, muito pouco do melodic death metal de outrora é identificável em “Endtime Hearts”, que carregada de elementos eletrônicos, se aproxima um pouco mais dos lances de industrial. Estes mesmos elementos são os principais condutores de “State of Trust”, possivelmente o mais próximo de uma balada que os suecos compuseram nos últimos anos (embora você não deva esperar batidinhas de violão ou letras melosas aqui), uma preparação para a excessivamente cadenciada “Weight Of The End”, e para “None Becoming”, faixa que encerra o álbum mantendo a tradição de ser arrastada, atmosférica, como uma proclamação desesperada em diversos momentos.


Alguns detalhes importantes devem ser levantados para que seja possível entender a sonoridade do Dark Tranquillity em Construct: o principal compositor nesse álbum é o tecladista Martin Brändström (ele assina oito das faixas), que além de ter esta função na banda, é um freak no que se trata de efeitos eletrônicos e criação de texturas e atmosferas; o guitarrista Niklas Sundin, responsável por algumas das mais soturnas composições na discografia do Dark Tranquillity, é o segundo que mais colabora; Martin Henriksson e Anders Jivarp, anteriormente os principais compositores, aparecem em proporção muito menor do que a de anos atrás.


Agora, qual o motivo de saber tudo isso? Simples: Construct é um disco muito mais simples, no que diz respeito à sua execução técnica, centrado na construção de camadas musicais e na atmosfera que os instrumentos criam, guiados pelas texturas eletrônicas e linhas de teclado. A virtuose e a perfeição teórica de álbuns como Character e Fiction foram deixadas consideravelmente de lado (trabalhos em que Henriksson participou mais ativamente), enquanto que o espírito negativista de We Are The Void foi mantido, porém colocado aqui sob outro ponto de vista.


O que pode ser ouvido neste disco, é um Dark Tranquillity retomando algo que fizeram há mais de uma década, nos álbuns Projector e Haven (pelo qual foram um tanto quanto criticados, na época), porém com a experiência e a maturidade musical em um patamar muito acima, equilibrando as suas mais diversas facetas, e caminhando, ainda que isso ainda seja meio nebuloso, para novos ares.


Ou seja, Construct não é o mais indicado para que se tenha o primeiro contato com a banda, pois exige um pouco para montar mentalmente as referências, e mesmo não sendo nada exatamente novo ou revolucionário, foca em outros aspectos da sua identidade. 


E, definitivamente, não há nenhum problema nisso.




Faixas:
01. For Broken Words
02. The Science Of Noise
03. Uniformity
04. The Silence In Between
05. Apathetic
06. What Only You Know
07. Endtime Hearts
08. State Of Trust
09. Weight Of The End
10. None Becoming






Megadeth: crítica de Super Collider (2013)

 



De um projeto de vingança a uma das maiores e mais influentes bandas da história do heavy metal, o Megadeth completa em 2013 trinta anos de existência, entre idas, vindas, polêmicas, discos multi platinados, reabilitações e conversões.


Não apenas isso, marca também o lançamento de seu décimo quarto álbum de estúdio, Super Collider, o primeiro a manter a mesma formação entre um trabalho e outro desde Cryptic Writings (de um longínquo 1997), e também o primeiro a ser lançado pela Tradecraft, o selo do próprio Dave Mustaine. Produzido por Johnny K e masterizado por Ted Jensen, o novo disco ainda conta com a participação de uma série de convidados, responsáveis pela presença de trompete, violino e gaitas de fole nas 
músicas
 (embora seja mais do que sutil), além de David Draiman, vocalista do Disturbed/Device.


“Kingmaker” inicia o álbum com o típico híbrido de thrash e heavy metal, característica que estabeleceu o Megadeth como um dos grandes nomes da 
música
 entre as décadas de oitenta e noventa. Porém o resultado aqui soa muito inferior, grande parte pelas linhas vocais apáticas que deixam uma incômoda sensação de que a faixa simplesmente não chegará a nenhum lugar – o que de fato acontece. A indiferença da abertura do disco se mostra mais evidente ao ouvir “Super Collider”, a cadenciada música que batiza o novo trabalho e, que mesmo tendo causado reações controversas ao ser liberada para audição previamente, traz boas ideias e funciona muito melhor do que a anterior.


Apesar do conteúdo lírico mais raso do que o chorume entre a calçada e o meio fio, “Burn!” mostra uma banda se aproximando um pouco mais da simplicidade do hard rock, e é o primeiro momento que realmente atrai a atenção no álbum. Bem diferente de “Built For War”, que tenta mesclar a quebradeira e o peso de um Hellyeah com aqueles coros feitos apenas para as apresentações ao vivo – soando vergonhosos no estúdio.


Com uma introdução que parece preparar para uma faixa épica, a verdade é que “Off The Edge” se revela uma das mais pobres composições da carreira do Megadeth, daquelas que simplesmente não apresentam nenhum momento de inspiração ou um segundo qualquer memorável. Seria para afundar de vez o disco no ostracismo, mas “Dance In The Rain” está entre o que de mais interessante foi escrito pela banda nos últimos anos, puxando-o de volta para a superfície, com diversas mudanças de andamento e um instrumental carregado de detalhes que acrescentam em muito a faixa.


Porém, tudo parece afundar novamente com a arrastadíssima “The Beginning Of Sorrow”, que beira o amadorismo, tão fraco é o seu desenvolvimento em menos de quatro minutos de duração (caindo no mesmo problema de “Kingmaker”), enquanto “The Blackest Crow” retoma os elementos de western e bluegrass, como visto em “Guns, Drugs & Money”, faixa do álbum Th1rt3en. Apesar de ser homônima a uma histórica canção americana e carregar o mesmo sentimento melancólico, são bem diferentes, e mesmo a intenção do Mustaine tendo sido das melhores, a realidade é que é apenas uma música ok.


Voltando para as estruturas 
musicais
 mais tradicionais da banda, “Forget To Remember” resgata novamente saudáveis toques de hard rock e heavy tradicional, em um dos momentos mais melódicos em 
Super Collider e um destaque imediato, com potencial para as apresentações ao vivo muito maior do que o restante do disco. Por outro lado, a seguinte “Don’t Turn Your Back...” cai no mesmo problema de ser uma faixa que vem, vai embora, e não deixa nenhuma passagem memorável sequer, sendo solenemente ignorada a essa altura do álbum. Ou seja, o encerramento não é indiferente apenas graças à fiel versão de “Cold Sweat”, do Thin Lizzy, que se não é nada revolucionário, também não compromete – ao menos não é a regravação de algum sucesso comercial da própria banda.


Mas colocando em termos gerais, a realidade é que o Megadeth vem desde 2004 em uma curva descendente de inspiração, lançando discos com composições cada vez mais repetitivas e aparentemente sem o mesmo sentimento de outrora. Em Super Collider, com raras exceções, é um trabalho sem identidade própria, sem ideias memoráveis, com várias músicas sem o menor propósito de existência além de preencher lacunas no tracklist. As letras se mostram simplistas, infantis e sem nenhuma mensagem, bem diferentes do que já foi feito anteriormente e do que comummente é dito pelo incansável polemista falastrão líder da banda, nas entrevistas.


E por falar em Dave Mustaine, é notável como a sua voz está cada vez mais comprometida (basta comparar com os álbuns anteriores): tons mais graves, menos rasgado e em alguns momentos ele parece simplesmente recitar a letra ao invés de efetivamente cantá-la – e boa parte dos pontos negativos em Super Collider são decorrentes dessa insuficiência nas linhas vocais. A grande questão é quanto tempo mais será possível manter uma regularidade em álbuns e turnês.


Megadeth parece dar mais um passo ladeira abaixo, para longe da influente banda de décadas atrás, indo na contramão dos grandes nomes do thrash metal (que lançaram alguns de seus melhores álbuns nos últimos anos), como se estivesse extremamente confortável em sua situação e fazendo o menor esforço possível para lançar material novo a ponto de marcar a sua própria história de forma positiva.


Pelo menos, desta vez ninguém disse que seria “o melhor álbum desde Rust In Peace”.



Faixas:
01. Kingmaker
02. Super Collider
03. Burn!
04. Built For War
05. Off The Edge
06. Dance In The Rain
07. The Beginning Of Sorrow
08. The Blackest Crow
09. Forget To Remember
10. Don’t Turn Your Back…
11. Cold Sweat




Destaque

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