sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Placebo – MTV Unplugged (2015)


À beira de completar 20 anos de carreira, os Placebo nunca gozaram da credibilidade artística de muitos dos seus pares dos anos 90. Fosse o ar andrógeno do vocalista Brian Molko, fosse aquele visual quase a atirar para o Emo (blhargh!), fosse aquele universo eternamente juvenil que sempre encarnaram, a verdade é que raros são os fãs de rock que coloquem os Placebo à cabeça das suas bandas preferidas.

Perante isso, a banda foi lançando discos, todos eles bons. Alguns bem sucedidos, quando o mundo estava atento, outros vendendo milhões na Alemanha e pouco nos restantes mercados, mas todos eles com pontos fortes suficientes para justificar um respeito que nunca lhes foi dado. O período mais forte do seu percurso começou na estreia homónima, em 1996, e durou até Meds, 10 anos depois (escolhemos Without You I’m Nothing, de 1998, como seu melhor álbum).

No entanto, com algumas mudanças de formação que nunca alteraram o ADN da banda, sempre seguiram em frente. Até, no ano da graça de 2015, terem desembocado num palco que serviu de consagração a muitos outros grandes vultos da música popular das últimas décadas: o Unplugged para a MTV (é surpreendente e de assinalar que a estação ainda tenha algo vagamente a ver com a música).

Partimos para este disco, admita-se, com expectativas baixas. Afinal, o forte dos Placebo sempre foram as malhas e os riffs fortes e aquele ambiente de frustração adolescente que, num formato acústico, corria o risco de nos dar uma coisa apenas deprimente. Felizmente, os receio revelaram-se infundados.

O espectáculo foi gravado em Londres, em Agosto, perante um público de fiéis, como é da praxe nestes episódios. São-nos oferecidos um generosos 17 temas, que correm todos os discos da banda. Um dos pontos muito fortes do álbum são os arranjos. De facto, como a própria banda admite, o objectivo não foi simplesmente sentarem-se à volta das guitarras acústicas e tocarem as músicas da mesma forma que em disco, apenas sem electricidade. O grupo juntou-se na sala de ensaios durante vários meses, procurando soluções e vias menos óbvias para apresentar os temas. E isso nota-se, com agrado, no resultado final. Cordas, piano, percussões arábicas e arranjos originais fazem deste disco uma experiência rica de (re)descoberta. Mais, Molko controlou aquele seu tom nasalado que a tantos irritou, e aqui, num plano mais despido, está a cantar melhor que nunca.

Pontos que nos encheram particularmente as medidas: “36 Degrees”; “Every Me, Every You”, com o vocalista convidado Majke Voss Romme; “Where Is My Mind?”, cover dos enormes Pixies; “Protect Me From What I Want”, com Joan as Police Woman; e “The Bitter End”, que fecha o disco, entre vários outros.

Este MTV Unplugged é um triunfo que, naturalmente, dirá pouco a quem nunca foi fã da banda. Mas aposto que mesmo esses, ouvindo o disco do princípio ao fim, não conseguirão deixar de reconhecer uma coisa: os Placebo, por baixo de toda a maquilhagem, têm grandes músicas durante todo o seu caminho. E, na verdade, é isso que interessa. A prova da relevância de uma banda mal-amada está aqui.


BadBadNotGood & Ghostface Killah – Sour Soul (2015)


Não haverá presunção alguma em reclamar-se preconizações desta eventual colaboração. Talvez incluindo não Ghostface Killah, possivelmente outra gorda personagem de ombros largos do hip-hop de velha guarnição, lá dos primórdios, dos que se multiplicam em features por meio da reputação e do peso do nome, eventualmente também segundo a delinquência prestada à convenção do tempos áureos deles; porém, cá a temos, cá a esperávamos, porquanto tão eventual era essa possibilidade quanto plausível é o entrosamento da sonoridade de BadBadNotGood (BBNG) com a ambiência genérica da velha guarnição do hip-hop. Inclusivamente, meia dúzia de colaborações nos entretantos com Tyler, the Creator ou colegas de linhagem concretizam e justificam a expectativa que reivindico, embora não sejam a sua causa. Pois bem, BBNG são intrinsecamente hip-hoppers: a atmosfera jazzy e os subterfúgios dos sopros de Leland Whitty mascaram e camuflam a intenção da banda, em púlpito palpitando no núcleo das suas composições, guardando em efervescência a agressividade de Public Enemy, o groove de Biggie, em casos fortuitos a elegia religiosa de 2Pac — alguém me corrija, se errado estiver. É precisamente a emancipação recorrente de riffs substanciais e de baixos hipnóticos que intermedeia a improvisação jazz segundo os padrões de Miles Davis (admita-se), uma vez que a intenção da espontaneidade se evidencia e constringe, se solta e se lhe são tomadas de novo as rédeas. Há equilíbrio, e o equilíbrio é ambíguo, mas invariável e prepotentemente pende para o pulular hip-hopper, em detrimento da frugalidade jazzy.

Assim, não é colaboração oca. Ghostface Killah é complementar de BBNG, e encaixam, encaixe esse que pariu Sour Soul. O próprio título do álbum ilustra o confronto directo entre o jazz de superfície assinado pela banda e o núcleo do old-school da Costa Este idiossincrático de Wu-Tang Clan: a amargura e tensão do gueto com a melopeia espiritual dum Ornette Coleman em speeds. Vinha já essa complementaridade sendo desenhada na rítmica trap de “Can’t Leave the Night”, em III, seguindo a espiral descendente do caos dos primeiros álbuns, acompanhando a agravamento caleidoscópio daquilo que é, hoje, tanto no transacto trabalho de BBNG como em Sour Soul, elegância e ordem; acompanhando a lírica (enfim, não esquecer que se trata do primeiro récord com mais do que meia dúzia de palavras mastigadas) austera e acusadora de 36 Chambers.

Vai-se ouvindo, essa dicotomia. D’Angelo tem delicadezas que se vêm descobrindo em “Stark’s Reality”. Na verdade, incorpora-se em curta medida a soul daquele, na medida certa para que se tempere, se apazigue aqueloutra dicotomia. O resultado é ambiência amena, prazenteira — assim, por intuição, chega-me o adjectivo soothing —, suficientemente neutra para que a primazia seja de Ghostface, interlocutor intenso, brusco. Qual não é a surpresa quando, desarmado, o ouvinte se dá ao deleite inicial de “Tone’s Rap”, defronte depois, num baque, do inesperado “AYO, BITCH”? Pois bem, inflexões semelhantes, de carácter idêntico nos álbuns transactos de BBNG (de maneira particular em permutas de ritmo e jogos de silêncio), dinamizam as faixas, conferem-lhes tensão, electrizam-nas. No geral, potencialmente seriam de contemplação descomprometida, álbum anestésico; porém, são espaços de intervenção, são possíveis jam sessions, uma vez que a aparente economia sonora transversal a Sour Soul — um não-minimalismo embora não-maximalismo — se recheia de pormenor. É tão espontâneo quanto pode ser, e é tão calculista nas suas possibilidades quanto pode ser. Não há obsessão de tudo estar no seu sítio, e no entanto há sentido de asseio. O low-profiling foi uma prioridade para a colaboração, e ao mesmo tempo laivos groovychill têm direito a um plano muito próximo do belicismo paternalista de Killah.

Sour Soul é exactamente o que se esperava que fosse. Não vem daí prejuízo, não vem daí acusação à criatividade: pelo contrário, o álbum estabelece, consciente de si, a ideia platónica daquilo que seria uma colaboração nos meandros do hip-hop e do jazzSour Soul é o que se imagina que seria, e parte maior do mérito da colaboração é a concretização dessa ideia. A criatividade de “Six Degrees” é ser o que é, é o agrado de a expectativa ser a realidade, sendo a expectativa o que se queria que fosse a realidade; a criatividade de “Ray Gun” e “Nuggets of Wisdom” — em particular a segunda parte, de fluidez inegável — é epitomizar a sonoridade e o conceito; a criatividade de Sour Soul é padronizar e consagrar Sour Soul. Depende de um preconceito a determinado grau, decerto (e os meus ritmos do pós-punk terão tido influência bastante no entrelaçar com os [meus] ritmos de Coltrane); contudo, é um álbum necessário. Não é groundbreaking, não há génio; contudo, ajunta e fortifica uma ideia. É sólido. É discreto. É paciente, é suave, é indulgente.

“My vocab is powerful, spit shit subliminal / Slang therapist, my whole style is criminal” contrariaria essa ideia, decerto. Em reminiscências de Nas, ocasião esta de “It Ain’t Hard to Tell”, em particular de “I kick a skill like Shaquille holds a pill / Vocabulary spills I’m Ill plus Matic”, é rico Sour Soul, assim como em ocasiões outras basilarmente chegadas ao individualismo empowering, chegado a um altruísmo excêntrico, do autor de Illmatic. Ghostface (e reparo em Danny Brown e sua incorporação flashing no esqueleto de “Six Degrees”) retrata os seus contemporâneos, aqueles, lá do início, os da velha guarnição; porém, incorpora-os, apazigua-os. Há algo largamente cinematográfico nesse contraste, nessa fusão que acabei de evidenciar. À semelhança do que reparei há parágrafos, denota-se contenção no improviso jazz, contenção essa que se dispõe na toada do que carrega a herança de Wu-Tang.

“Food” abraça e hibridiza esta ideia em coisa de três minutos e meio: soothingness, dizia eu mais acima, está no núcleo da produção. Em última instância, é um álbum terapêutico. Ameno. A ansiedade queda-se por aí, algures: nota-se-lhe a proximidade, e eventualmente seria perceptível na voz de Killah ou numa ou noutra extravagância de BBNG; porém, não se apalpa. “Experience” catalisa meia hora de confronto saudável em serenidade. A imagem com que Sour Soul se despede é saudosa, se me é permitido. O trabalho está feito, o sorriso sensaborão rasgou-se-me no rosto. Não é um bom trabalho, como o de Whiplash, contudo. Não é tão-só competência desinteressada. Prometia, criava expectativa, cumpre. O álbum é um statement, e raras vezes um statement foi tão prazenteiro.


Chá de Gim – Comunhão (2015)


Não sabemos se algo de diferente tem vindo a ser misturado na água da cidade brasileira de Goiânia, mas parece. Carne Doce, Boogarins ou Luziluzia são alguns dos nomes da nova música rock local, dos quais temos dado conta aqui no Altamont, mas há mais, muito mais, estranhamente mais.

Os Chá de Gim são outro fruto doce de Goiânia, tão fresquinhos que acabam de lançar o seu disco de estreia, este Comunhão.

O percurso, ainda curto, conta-se rapidamente. Com apenas um ou outro single editado mas já alguma presença em palco, os Chá de Gim foram fazendo caminho em festivais no Brasil, em Goiânia e não só.

Aquilo que distingue esta banda das restantes que mencionámos antes é, talvez, uma apropriação mais directa e maior da herança da variedade da música brasileira. O som dos Chá de Gim, liderados pelo vocalista Diego Wander, traz-nos um caldeirão onde cabe tudo e mais um par de botas. Temos Brasil profundo no samba e no forró mais eléctrico; temos bossa, claro; temos os eternos Mutantes; temos Jorge Ben e Luiz Gonzaga; temos construções e apontamentos jazz aqui e ali; e temos rock, a linguagem primordial, com laivos subtis de psicadelismo controlado.

Esta referência à música tradicional brasileira, a música do povo – o samba e o forró – não é nova. Lembrem-se os saudosos Raimundos, que partiam da mesma base mas em direcção ao punk e ao rock mais pesado. Aqui, está tudo mais próximo da raiz (ouça-se “Samba Verde” ou o single “Zé”, para se perceber como se pode fazer coisas novas e frescas, respeitando totalmente a tradição). Para rock escute-se “Dropei”, guitarra eléctrica toda efeitos e ritmo frenético de bater o pé.

Um disco de estreia a prometer muita coisa boa. Uma Comunhão de velho e novo, a merecer a nossa atenção.


Thin Lizzy – Black Rose: A Rock Legend [1979]

 Thin Lizzy – Black Rose: A Rock Legend [1979]

Black Rose: A Rock Legend é o nono álbum de estúdios da banda irlandesa Thin Lizzy, lançado oficialmente em abril de 1979 pelos selos Vertigo (Europa), Mercury (Canadá) e Warner Bros. (Estados Unidos). Em 1978, o Thin Lizzy lançou seu primeiro álbum ao vivo, Live and Dangerous. Há alguma discordância sobre quanto do álbum foi realmente gravado ao vivo – o produtor Tony Visconti afirmou que as únicas partes que não foram overdubladas foram a bateria e a plateia. No entanto, Brian Robertson contestou isso, afirmando que recusou o pedido de Phil Lynott (líder, baixista e vocalista) para regravar um solo de guitarra e que as únicas partes overdubladas foram os backing vocals e algumas partes de guitarra de Scott Gorham.

Phil Lynott, Gary Moore e Scott Gorham. Trio endiabrado do Thin Lizzy em 1979

Robertson acrescentou: “Simplesmente não é verdade. A única razão pela qual dissemos que foi gravado por completo foi obviamente por questões fiscais… então tudo o que Visconti alega é besteira.” Gorham concorda, afirmando que tentou regravar um solo, mas não conseguiu recriar o som ao vivo, acrescentando: “Eu refiz uma faixa rítmica e alguns vocais de apoio. Mas é isso.” O álbum foi um enorme sucesso, alcançando o segundo lugar no Reino Unido, e foi classificado como o melhor álbum ao vivo de todos os tempos pela revista Classic Rock em 2004.

Brian Robertson saiu definitivamente do grupo algum tempo depois de um show em Ibiza, em 6 de julho de 1978, quando os desentendimentos com Lynott chegaram ao limite. Lynott substituiu Robertson por Gary Moore novamente (que havia feito parte da banda em duas ocasiões diferentes anteriormente), e nessa época a banda uniu forças com Steve Jones e Paul Cook, do Sex Pistols, e também com Chris Spedding e Jimmy Bain, para formar o The Greedy Bastards, que fez alguns shows tocando uma seleção variada de músicas. Dessa forma, Lynott conseguiu alinhar sua banda ao movimento punk e evitar ser rotulado como um “dinossauro”, como muitas outras bandas de rock dos anos 1970 haviam sido. Outros membros ocasionais do The Greedy Bastards incluíam Bob Geldof e Pete Briquette, do Boomtown Rats.

Gary Moore, Scott Gorham e Brian Downey (em pé); Phil Lynott (sentado)

O Thin Lizzy iniciou outra turnê pelos Estados Unidos em agosto de 1978, seguida por uma viagem à Austrália e à Nova Zelândia. Brian Downey não os acompanhou, tendo contraído pneumonia e preferindo passar algum tempo na Irlanda. Ele foi substituído na turnê pelo baterista americano Mark Nauseef. Em seu retorno, Downey se juntou à banda e no início de 1979 eles gravaram Black Rose: A Rock Legend em Paris. As sessões foram marcadas pelo aumento do vício em drogas de Lynott e Gorham, e pela presença geral de drogas ao redor do grupo. Por conseguinte, isso também transpareceu na temática do álbum, em canções como “Got to Give It Up”. As influências celtas permaneceram, no entanto, principalmente na música que encerra o álbum, “Róisín Dubh”, um medley de sete minutos de canções tradicionais irlandesas com um toque de rock com guitarras gêmeas.

A formação do grupo continha Phil Lynott (Vocal e Baixo), Scott Gorham (Guitarras), Gary Moore (Guitarras) e Brian Downey (Bateria e Percussão). Também participam do disco: Jimmy Bain (Baixo em “With Love”), Huey Lewis (Gaita em “Sarah” e “With Love”) e Mark Nauseef (Bateria em “Sarah” – não creditado)

Single de “Sarah”

Black Rose incluiu a segunda música que Phil Lynott escreveu sobre um membro de sua família, intitulada “Sarah”. A primeira música com esse nome apareceu em Shades of a Blue Orphanage, de 1972, escrita sobre sua avó, também chamada Sarah. A música em Black Rose é sobre sua filha recém-nascida. A música “Will You Go Lassie, Go” (também conhecida como “Wild Mountain Thyme”) às vezes é erroneamente creditada como uma canção tradicional, mas na verdade foi escrita por William McPeake e gravada pela primeira vez por Francis McPeake. Ela é creditada no álbum a “F. McPeak”.

Pelo menos duas das músicas – “Waiting for an Alibi” e “S & M” – surgiram no início do verão de 1978, antes da saída de Brian Robertson da banda. As gravações ocorreram entre dezembro de 1978 e fevereiro de 1979 nos estúdios Pathé Marconi EMI Studios, em Paris (França) e no Good Earth Studios e no Morgan Studios, ambos em Londres (UK). A produção ficou por conta de Tony Visconti e do Thin Lizzy.

Single de “Do Anything You Want To”

“Do Anything You Want To” abre o álbum com a sonoridade roqueira do Thin Lizzy, ou seja, sem abrir mão de melodias criativas e guitarras gêmeas. “Toughest Street in Town” é mais hard rock, mais direta e traz um pouco mais de peso, contando com ótimo solo de guitarra. “S&M” é bem malemolente, trazendo um excelente trabalho do baixo, conferindo um certo swing para a canção.

A clássica “Waiting for an Alibi” mostra o relevante trabalho das guitarras e o baixo de Lynott muito presente, em um Hard Rock excelente. “Sarah” tem um clima ameno e descontraído, com melodias suaves e contagiantes. “Got to Give It Up” é um hard rock típico do Thin Lizzy, cheio de ritmo, sem abrir mão do peso. “Get Out of Here” é uma verdadeira porrada hard rock, com as guitarras infernais e ritmo acelerado. “With Love” flerta com uma pegada bluesy, dando bastante malícia para a sonoridade, em mais uma ótima construção do grupo. “Róisín Dubh: A Rock Legend” encerra o disco em uma jornada com várias passagens instrumentais e variações de dinâmicas bem interessantes.

Encarte de Black Rose

Juntar talentos como os de Phil Lynott e Gary Moore, dificilmente daria errado. O trabalho traz, sim, o peso do Hard Rock, com riffs e solos muito inspirados, explorando a categoria de um guitarrista como Gary. Ao mesmo tempo, a transcendental capacidade melódica de Lynott dá as caras por todo o álbum: as canções contam com verdadeiras ondas de melodias simples, suaves e acessíveis e que só acrescentam ao disco. E é neste contexto que surgem canções como “Waiting for an Alibi”, “Do Anything You Want To” e “Róisín Dubh (Black Rose): A Rock Legend”, todas destaques dentro da discografia do grupo.

Black Rose: A Rock Legend foi um sucesso no Reino Unido, alcançando o 2º lugar na principal parada britânica de discos. Segundo estimativas, o álbum supera a casa de 100 mil cópias vendidas apenas no Reino Unido. Entretanto, ficou apenas com a 89ª posição em sua correspondente norte-americana. “Waiting for Alibi”, “Do Anything You Want To” e “Sarah” foram singles que fizeram barulho no Reino Unido, alcançando os 9º, 14º e 24º lugares na principal parada desta natureza naquele país.

Revista promocional de 1979 com Thin Lizzy na capa

Em 4 de julho de 1979, após tocar no Day on the Green, em Oakland, Gary Moore deixou o Thin Lizzy abruptamente no meio de outra turnê. Anos depois, Moore disse que não se arrependia de ter saído, “mas talvez tenha sido errado o jeito que eu fiz. Eu poderia ter feito diferente, eu acho. Mas eu simplesmente tive que sair.”. Posteriormente, ele seguiu carreira solo, lançando vários álbuns de sucesso. Ele havia tocado com Lynott e Downey em seu álbum de 1978, Back on the Streets, e no single de sucesso “Parisienne Walkways” antes de deixar o Thin Lizzy, e, em 1985, Gary e Lynott se uniram novamente no single de 5ª colocação no Reino Unido, “Out in the Fields”.

Single de “Got To Give It Up”

Após a saída de Moore, o Thin Lizzy continuou a turnê por algumas noites como um trio antes de Lynott trazer Midge Ure para substituí-lo temporariamente. Ure tinha planos anteriores de se juntar ao Ultravox, mas havia co-escrito uma música, “Get Out of Here”, com Lynott em Black Rose: A Rock Legend, e concordou em ajudar o Thin Lizzy a completar seus compromissos de turnê.


Em seu retorno ao Reino Unido, a banda seria a atração principal do Reading Festival pela segunda vez, em 25 de agosto de 1979, mas teve que cancelar esta participação devido, segundo se acredita, a problemas justamente em sua formação. Especula-se que a apresentação como headliner exigiria um show mais extenso e não havia tempo de Ure aprender todo o repertório.

Contra-capa de Black Rose

Faixas:
1. Do Anything You Want To
2. Toughest Street in Town
3. S & M
4. Waiting for an Alibi
5. Sarah
6. Got to Give It Up
7. Get Out of Here
8. With Love
9. Róisín Dubh (Black Rose): A Rock Legend



Blind Guardian – Imaginations from the Other Side [1995]

 

Blind Guardian – Imaginations from the Other Side [1995]

Imaginations from the Other Side é o quinto álbum de estúdios da banda alemã Blind Guardian, lançado oficialmente em abril de 1995, através dos selos Virgin e Century Media. Somewhere Far Beyond, o quarto álbum de estúdio da banda, foi lançado em 1992 e produzido por Kalle Trapp. O álbum viu a banda desenvolvendo seu próprio som original, sem deixar de empregar a maioria de suas técnicas de speed/power metal. Em paralelo, a arte da capa e as duas “The Bard’s Song” deram à banda o apelido de “Os Bardos”. O uso do apelido também se estendeu aos fãs do grupo, sendo o extinto fã-clube nomeado Círculo dos Bardos, e Hansi Kürsch, baixista e vocalista do Blind Guardian, frequentemente chamando os fãs de “Bardos”.

Blind Guardian em 1995: Marcus Siepen, Hansi Kürsch, Thomen Stauch e Andre Olbrich

O álbum foi aclamado pelos fãs de power metal em toda a Europa, e especialmente no Japão, permitindo-lhes fazer uma turnê pela primeira vez fora da Alemanha. A turnê pelo Extremo Oriente levou ao lançamento do primeiro álbum ao vivo da banda, Tokyo Tales. Desta forma, tendo obtido muito sucesso com seus lançamentos recentes, Somewhere Far Beyond e Tokyo Tales, a banda estava otimista ao começar a compor um novo álbum. Logo notaram a lentidão do processo em comparação com as sessões de composição anteriores, pois, para essas novas músicas, as escolhas pessoais foram elevadas às partes que deveriam ser incluídas, e as ideias que não eram satisfatórias foram descartadas.

Versão japonesa slipcase de Imaginations from the Other Side

No entanto, após as duas primeiras músicas, “Imaginations from the Other Side” e “The Script for my Requiem”, serem gravadas em demo, os integrantes da banda ficaram satisfeitos com sua qualidade excepcional, e assim que as duas músicas seguintes, “I’m Alive” e “A Past and Future Secret”, foram compostas e adicionadas à fita demo, eles estavam confiantes com o novo material. Como já estavam insatisfeitos com a produção de seus dois últimos lançamentos, os citados Somewhere Far Beyond e Tokyo Tales (ambos produzidos por Kalle Trapp), Kürsch e o guitarrista Andre Olbrich logo começaram a procurar um novo produtor enquanto viajavam pela Europa.

Em sua primeira parada, na Dinamarca, eles conheceram o produtor Flemming Rasmussen, que já havia trabalhado com as bandas Rainbow, Pretty Maids e Metallica (uma influência predominante no estilo da banda). Depois de visitar outros estúdios ao longo do verão, até mesmo aqueles onde álbuns dos Beatles e dos Rolling Stones foram gravados, os dois sentiram que Rasmussen, que havia ficado visivelmente impressionado com a fita demo, era a escolha óbvia. Apesar do produtor exigir mais da banda do que estavam acostumados com Trapp (especificamente na guitarra base e nas performances vocais), havia uma química notável entre Rasmussen e o Blind Guardian. O guitarrista base, Marcus Siepen, refletiria que ele “os levou a um nível completamente diferente, em todos os aspectos“.

Raro k7 ucraniano

Seguindo os passos dos discos anteriores da banda, o Imaginations … continuou a se distanciar das tendências puramente speed metal. Além de riffs de guitarra rápidos, vocais (distorcidos e agudos) e a bateria extrema (características do speed metal), surgiram progressões de acordes cativantes e vocais limpos – componentes que lembram a música folk europeia clássica. Duas faixas, “A Past and Future Secret” e “Mordred’s Song”, poderiam até ser consideradas baladas.

Além de Kürsch e Olbrich (que levam todos os créditos de composição), completavam o gurpo, Marcus Siepen na guitarra rítmica e Thomen Stauch na bateria. Também participaram das gravações: Mathias Wiesner (Efeitos), Jacob Moth (Violão em “A Past and Future Secret”) e Billy King, “Hacky” Hackmann, Rolf Köhler, Piet Sielck, Ronnie Atkins – todos nos Backing Vocals.

CD single de “A Past and Future Secret”

“Imaginations from the Other Side” abre o disco com muita categoria, um Power Metal com influências de Thrash Metal. “I’m Alive” traz peso e forte influência do Metallica (antigo), com a faixa oscilando entre passagens intensas e outras mais amenas. Uma linda balada, a qual possui influências folk, “A Past and Future Secret” traz a voz de Kürsch em sua grande versatilidade. Com vários momentos que remetem a um Heavy Metal mais clássico, “The Script for My Requiem” é das melhores canções do trabalho. “Mordred’s Song” segue na pegada do disco, com seu Power Metal muito intenso e vocais incríveis de Kürsch. A influência Thrash fica mais evidente na ótima “Born in a Mourning Hall”.

CD single de “Bright Eyes”

“Bright Eyes” traz mais momentos cadenciados e bons solos de Olbrich e, de acordo com uma entrevista com Hansi, é a sua própria história, ao contrário de muitas outras canções da banda que são baseadas em obras populares de fantasia. Um Power Metal bem pesado está presente em “Another Holy War”, com vocais bem agressivos de Kürsch. “And the Story Ends” encerra o trabalho com categoria e as guitarras bem afiadas.

Imaginations from the Other Side traz a banda em seu melhor momento, quando seu estilo único estava se consolidando: um Power Metal repleto de nuances épicas e neoclássicas, e com forte influência do Thrash Metal – particularmente do Metallica. Desta forma, o Power Metal do Blind Guardian quando é pesado, é realmente muito intenso: riffs poderosos, seção rítmica pulsante e vocais rasgados de Hansi Kürsch. Tudo isto leva a sonoridade do conjunto a um patamar diferenciado dentro do estilo. Porém, simultaneamente, há muito espaço para melodias belíssimas por todo o álbum, que podem ser condensadas na belíssima “A Past and Future Secret”, na qual todo o poder da voz de Kürsch é sentido. Aliás, Kürsch, o grande destaque do álbum, utiliza bem mais vocais limpos neste disco, assim como o uso de corais nos refrões passa a ser bem mais frequente – características que se tornariam marcas registradas da banda.

Blind Guardian no encarte do CD: Siepen, Olbrich, Stauch e Kürsch

Embora não tenha repercutido nas paradas de Estados Unido e de Reino Unido, Imaginations from the Other Side fez barulho. Conquistou o 11º, o 13º e o 33º lugares nas paradas de Japão, de Alemanha e de Suíça, respectivamente. Em 2005, Imaginations from the Other Side foi classificado 373º lugar em um livro da revista Rock Hard, Os 500 Maiores Álbuns de Rock & Metal de Todos os Tempos. A Loudwire nomeou o álbum em segundo lugar em sua lista “Top 25 Álbuns de Power Metal de Todos os Tempos” e a Metal Hammer o classificou em terceiro em uma lista semelhante.

Em 1996, aproveitando o sucesso, o grupo lançou a coletânea The Forgotten Tales, um álbum que apresentou uma mistura de covers e novas versões para material original lançado anteriormente. Um novo álbum de inéditas sairia em 1998, com o clássico Nightfall in Middle-Earth.

Contra-capa de Imaginations from the Other Side

Faixas:
1. Imaginations from the Other Side – 7:19
2. I’m Alive – 5:31
3. A Past and Future Secret – 3:48
4. The Script for My Requiem – 6:09
5. Mordred’s Song – 5:29
6. Born in a Mourning Hall – 5:14
7. Bright Eyes – 5:16
8. Another Holy War – 4:32
9. And the Story Ends – 6:00


Cock Sparrer – Shock Troops [1982]

 

Cock Sparrer – Shock Troops [1982]

Ao contrário do pensamento comum, o movimento skinhead não se trata de uma manifestação neonazista. Essa cultura surgiu nos anos 60, entre a classe operária inglesa e era fortemente influenciada pelos Rude Boys da Jamaica, que migraram para a Grã Bretanha na mesma época.  A princípio era apenas um movimento musical, mas inevitavelmente os fatores político-sociais influenciaram e fragmentaram-no em várias subculturas. E foi nesse contexto que surgiu o Street Punk, também conhecido como Oi! E dentro dele apareceram várias bandas, como Cockney Rejects, Sham 69, The 4 Skins e o Cock Sparrer. Numa época em que o verdadeiro Punk Rock já estava em decadência, e toda a suavização da New Wave tomava conta, o Street Punk vindo dos subúrbios de Londres, com seus ideais proletários e encharcado de suor e cerveja, buscava resgatar o punk mais primitivo, rasgado, bruto.

O Cock Sparrer, com influências de Glam e Pub Rock, já tinha dez anos de estrada quando lançou sua obra prima, Shock Troops, em 1982. Com uma sonoridade extremamente simples, carregada de melodias grudentas, refrões de fácil memorização e recheado de sing alongs, é um disco tão contagiante que nem se percebe quando chega ao fim. O vocal rouco e o carregado sotaque britânico de Colin McFaull são características bastante marcantes no som do grupo.

O Street Punk Tinha forte vínculo com o futebol, a bebedeira, virilidade e vida trabalhadora e isso transparece em todas as músicas do disco, que abre com “Where Are They Now” e seu riff extremamente “catchy”, contestando a primeira geração do punk, que conquistou milhares de seguidores e sumiu deixando muitos órfãos (“Where are they/six years on and they’ve all gone/Now it’s all turned/ so Where are they now”). A segunda faixa é “Riot Squad”, uma ode à violência que representa todo o repúdio às autoridades. Na sequência vem “Working”, um hino proletário, com destaque para o simples e bonito solo de guitarra.

“Take’em All”, é mais uma canção agressiva, que critica os executivos de gravadoras, supostamente americanos (“Well tough shit boys, it aint our fault/Your record didn’t make it/We made you dance, you had your chance/But you didn’t take it/Well, I gotta go make another deal/Sign another group for the company/I don’t suppose we’ll ever meet againYou’d better get back to the factory.”). Obrigatória nos shows, e com o coro “Take’em All! Take’em All!” berrado em coro pelos fãs, foi até utilizada como grito de guerra de algumas torcidas de futebol.

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Em “We’re Coming Back”, o Sparrer presta uma homenagem ao companheirismo e amizade entre os integrants, com uma melodia extremamente contagiante, e o refrão (“So remember, out there somewhere/You’ve got a friend, and you’ll never walk alone again”). Talvez o hino de amizade mais simples e honesto já escrito.

Depois temos “Watch Your Back”, uma das letras mais polêmicas e interessantes da banda, que prega contra os supostos líderes politicos que se aproveitam da classe trabalhadora para ascender a algum cargo importante e depois “esquecem” de como chegaram lá (“Things get worse with every hour/the future fades into the past/all they want is total power/climbing on the back of the working class).

Em seguida vem “I Got Your Number”, uma crítica generalizada à imprensa, e seus valores e parcialidade (“It can’t be right what I’m reading here/No one believes in all this stuff no more/Our ideas don’t see eye to eye/You get your press with a pocketfull of lies/Telling everybody every word is true/One day soon they’re gonna see through you”). Assim como a maioria das faixas do disco, “I Got Your Number” possui um refrão grudento, e impossível  de não ficar cantarolando por um bom tempo depois de ouvi-lo.

Passamos pelas menos notáveis e “Secret Army” e “Droogs Don’t Run”, e Shock Troops encerra com a canção anti-militar “Out On An Island”, em ritmo de marcha, que traduz todo o repúdio da juventude pelo autoritarismo e disciplina das forças armadas, (“Everybody gets the training, in the wind and the rain/Ten miles cross country, driving you insane/Everybody gets to jump the hoop and march in time/You just gotta remember you gotta toe the line/So dont go looking over your shoulder for me”).

O Cock Sparrer teve pouca repercussão, mesmo com vários anos de carreira, e nunca chegou a ser celebrado por crítica ou grande parte do público, apesar de ter um grupo de fãs bastante fiéis e só lançar outros excelentes discos, e Shock Troops trata-se de uma obra simples, mas feita com muita garra e qualidade, essencial para se conhecer um pouco mais sobre a cultura streetpunk e skinhead, e acabar com aquele estereótipo de jovens carecas neo-nazistas e anti-semitas. Tive a felicidade de poder ver o primeiro show dos ingleses no Brasil, em 2012, um dos momentos mais marcantes da minha vida  e as canções do álbum em questão estiveram em peso no setlist da noite, com o público entoando todas em uníssono. Trilha sonora perfeita para um dia de futebol em um bar lotado com os amigos, para cantar com o copo de cerveja lá no alto. OI! OI! OI!

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Track list (versão original)

  1. Where Are They Now
  2. Riot Squad
  3. Working
  4. Take ‘em All
  5. We’re Coming Back
  6. Watch Your Back
  7. I Got Your Number
  8. Secret Army
  9. Droogs Don’t Run
  10. Out on an Island




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