segunda-feira, 2 de março de 2026

Electric Food - Flash 1970 (Germany, Hard Rock, Heavy Prog)

 



 George Monro (George Mavros) - vocals
- Peter Hesslein - guitar, backing vocals
- Peter Hecht - keyboards
- Dieter Horns - bass
- Joachim "Addi" Rietenbach - drums, percussion


All songs written by Peter Hesslein except where noted.
01. All Right Now (Andy Fraser, Paul Rodgers) - 3:45
02. Sam's Walk - 2:02
03. Love Me - 3:31
04. People - 2:55
05. Working On The Railroad - 3:24
06. Randall - 3:11
07. Love Like A Man (Alvin Lee) - 3:26
08. Sam's Talk - 1:39
09. I Can See Somebody - 5:51
10. Andy's Breakdown - 2:25
11. Give Me Love - 2:12
12. Plantation - 2:58
Bonus:
13. Born To Be Wild (Mars Bonfire) - 3:26
14. Up Around The Bend (John Fogerty) - 2:42









Albert Ayler - Live in Greenwich Village (1965)



Live in Greenwich Village foi a primeira gravação de Albert Ayler para a Impulse e é indiscutivelmente seu melhor momento, não apenas para a gravadora, mas de toda a sua carreira. Esta reedição em CD duplo reúne os dois shows no Village — documentados apenas parcialmente em LPs lançados anteriormente — gravados em 1965 e 1966 com dois grupos muito diferentes. As apresentações no Village revelam o Ayler maduro, cuja música incorporava ousadas contradições: há melodias doces, infantis e fáceis de cantar junto, contrastando com gritos violentos de emoção, contrastando com os gritos de júbilo do gospel e do R&B, todos se interpenetrando e se entrelaçando. Na apresentação de 1965, que contou com Ayler, seu irmão Donald no trompete, Joel Freedman no violoncelo, o baixista Lewis Worrell e o grande Sunny Murray na bateria, o som é de grande urgência. Abrindo com "Holy Ghost", os Aylers entram em cena com força total e Murray acelera o ritmo para trazer o baixo e o violoncelo ao nível do solo, ancorando a música aos seus respectivos sons. "Truth Is Marching In" lança um turbilhão estridente e gospel sobre um pano de fundo de frases "cantadas" de três e quatro notas que são constantemente repetidas, à la banda de circo, antes de arrombarem todas as portas e explodirem por quase 13 minutos. Na gravação de 1967 do segundo disco, os Aylers são reforçados pelo baterista Beaver Harris, o violinista Michel Sampson, Bill Folwell e Alan Silva nos baixos, e o trombonista George Steele na faixa de encerramento, "Universal Thoughts". "For John Coltrane" abre o conjunto com uma abstração sufocante de tonalidades nas cordas e metais. Em "Change Has Come", a abstração permanece, mas o campo da linguagem é mais profundo, mais denso, mais urgente. Somente com "Spiritual Rebirth", que começa com um tema de quatro notas, é que se tem a sensação de que a banda vinha se preparando para este momento, e que o concerto se tornou um verdadeiro tratado sobre a emoção de "cantar" em conjunto em territórios desconhecidos. Ao longo do restante do show, a banda de Ayler o acompanha perfeitamente, seguindo-o através de cada nova nuvem de incerteza até um sublime estado musical e emocional que, pelo menos em gravações, jamais seria alcançado novamente. Esta gravação é o motivo de toda a comoção em torno de Ayler.

Estilos:
Free-Jazz,
Avant-Garde

Faixas:
CD1
01 - Holy Ghost (07:41)
02 - Truth Is Marching In (12:42)
03 - Our Prayer (04:45)
04 - Spirits Rejoice (16:22)
05 - Divine Peacemaker (12:37)
06 - Angels (09:53)

CD2
01 - For John Coltrane (13:40)
02 - Change Has Come (06:24)
03 - Light In Darkness (10:59)
04 - Heavenly Home (08:51)
05 - Spiritual Rebirth (04:26)
06 - Infinite Spirit (06:37)
07 - Omega Is The Alpha (10:46)
08 - Universal Thoughts (08:22)

Formação:
Albert Ayler - saxofone tenor Saxofone:
Don Ayler - Trompete:
Michel Sampson - Violino:
Bill Folwell - Baixo:
Henry Grimes - Baixo:
Beaver Harris - Bateria



Cecil Taylor - Unit Structures (1966)



Após vários anos afastado dos palcos, o pianista Cecil Taylor finalmente teve a oportunidade de registrar sua música de meados da década de 1960 em dois álbuns pela Blue Note (o outro foi Conquistador). O atonalismo energético de Taylor se encaixava perfeitamente no free jazz da época, mas ele estava, na verdade, liderando o movimento, em vez de apenas fazer parte dele. De fato, esta gravação do septeto com o trompetista Eddie Gale, o saxofonista alto Jimmy Lyons, Ken McIntyre (alternando entre saxofone alto, oboé e clarinete baixo), Henry Grimes e Alan Silva nos baixos, e o baterista Andrew Cyrille é impressionante e muito intensa. Aliás, pode-se afirmar com segurança que nenhuma música jazz da época se aproximou da ferocidade e intensidade da de Cecil Taylor.


Estilos:
Free-Jazz,
Avant-Garde

Faixas:
01 - Steps (10:20)
02 - Enter, Evening (Soft Line Structure) (11:06)
03 - Enter, Evening (Alternate Take) (10:11)
04 - Unit Structure/As of a Now/Section (17:47)
05 - Tales (8 Whisps) (07:14)

Formação:
Cecil Taylor – piano, sinos
Eddie Gale Stevens, Jr. – trompete
Jimmy Lyons – saxofone alto
Ken McIntyre – saxofone alto, oboé, clarinete baixo
Henry Grimes – baixo
Alan Silva – baixo
Andrew Cyrille – bateria



Kylesa: crítica de Ultraviolet (2013)

 



A mais velha cidade do estado americano de Georgia e uma região aonde a industrialização e os centros históricos estão separados apenas por algumas ruas, Savannah também tem se destacado nos últimos anos por se revelar o berço de toda uma nova geração de bandas nos Estados Unidos.


Entre bandas de punk, progressivo, stoner e, mais notavelmente, sludge, representada por nomes como Black Tusk e Baroness, o Kylesa se destacou pela forte presença vocal da guitarrista Laura Pleasants e por contar com dois bateristas em sua formação, contribuindo em muito para os aspectos imundos dos ritmos que eles constroem. Em 2013, a banda lança Ultraviolet, o seu sexto trabalho de estúdio, o terceiro pela Season of Mist (gravadora que tem catalogado alguns dos mais ascendentes artistas da última década, aliás), representando uma mudança em sua forma de funcionamento e raciocínio na composição.


Apesar da pouca duração, “Exhale” não apenas é um ótimo documento de apresentação para o álbum, como também apresenta algumas de suas mais interessantes características: a união da sujeira empoeirada do sludge com esfumaçados toques de stoner e psicodélico, além do sutilmente presente progressivo. A produção, ainda mais suja do que o habitual (se é que isso era possível, sem parecer uma colmeia enfurecida) acaba por criar uma interessante aura ao fazer o contraponto com a voz surpreendentemente hipnótica adotada por Laura Pleasants, como pode ser ouvido na cadenciada “Unspoken” e na confusa “Grounded”, dona de um dos riffs mais Sabbathicos do álbum.


Com uma esquisita base etérea, “We’re Taking This” soa quase como uma viagem transcendental de ácido até uma garagem apertada nos subúrbios de Savannah, em meados da década de noventa. No mesmo pé, “Long Gone” segue por ritmos ainda mais arrastados e distorcidos, aonde as vozes funcionam mais como um ingrediente atmosférico, em combinação com os ruídos, bem diferente de “What Does It Take”, aonde eles parecem retornar um pouco às origens punk hardcore do Damad, o embrião que se tornaria o Kylesa anos mais tarde.


Voltando ao lado mais psicodélico do som dos americanos, “Steady Breakdown” deixa aquela ligeira sensação flutuante, esbarrando por diversos momentos no melhor que o space rock tem a oferecer. Estes elementos se mantém no loop de “Low Tide”, dominado pelas vozes do guitarrista Phillip Cope, que parecem afundadas na água.


“Vulture’s Landing” novamente mistura stoner, punk e muita lama, aonde os timbres quase adolescentes na forma como Laura canta são suplantados pela sensação claustrofóbica em cada riff. A sensação de desespero permanece na curta e arrastada “Quicksand”, e também em “Drifting”, como era de se esperar (a julgar pelos títulos), encerrando o curto álbum com uma sonoridade que lembra, ainda que vagamente, a sonoridade dos seus conterrâneos do Baroness.


Ao compararmos Ultraviolet com os últimos trabalhos da banda, é notável que a mudança no método de composição e gravação no álbum abriu a oportunidade para que todos colaborassem, resultando em um álbum ainda mais variado e heterogêneo, com influências que oscilam ao longo de cada uma das faixas e criam uma verdadeira viagem ácida de pouco mais de trinta minutos.


Se é o suficiente para levar o som do Kylesa para um público maior, a exemplo do que vem ocorrendo com outras bandas semelhantes em estilo e experimentos? Talvez. Mesmo mantida a sujeira primordial da sua sonoridade, a exploração de novos timbres proporcionou um álbum rico e diferenciado. A principal questão é que, aparentemente, esse não é nem de longe o limite até onde a banda pretende ir.


Faixas:
1. Exhale
2. Unspoken
3. Grounded
4. We're Taking This
5. Long Gone
6. What Does It Take
7. Steady Breakdown
8. Low Tide
9. Vulture's Landing
10. Quicksand
11. Drifting








Blood Ceremony: crítica de The Eldritch Dark (2013)

 



Você já ouviu falar do Jethro Tull. É, aquela banda inglesa do cara cabeludo que toca flauta. Os caras de “Aqualung”, lembra? Os autores de “Cross-Eyed Mary”, que o Iron Maiden regravou na década de 1980. A banda que venceu o Metallica na categoria heavy metal em uma das edições do Grammy. O grupo que tem aquele disco com capa de jornal e uma música de cada lado. Lembrou?

E o Coven, você sabe quem é? Era uma banda norte-americana que lançou um disco clássico em 1969 chamado Witchcraft Destroys Minds & Reap Souls, que tinha uma foto de um ritual com uma mulher nua cercada de caveiras e velas no seu encarte. Que tinha uma loira como vocalista, que, dizem, mergulhou valendo no ocultismo e nunca mais foi vista. Sem o Coven e seu primeiro álbum, toda essa cena de occult rock que vemos hoje em dia com nomes como Ghost, Year of the Goat, The Devil’s Blood e mais um monte de gente, provavelmente não existiria.

E o Blood Ceremony, já ouviu falar? Eu conto. Eles são do Canadá e estão na ativa desde 2006. A banda é formada por Alia O’Brien (vocal, flauta e órgão), Sean Kennedy (guitarra), Lucas Gadke (baixo) e Michael Carrillo (bateria). Eles já gravaram três discos. A estreia batizada apenas com o nome saiu em 2008. Em 2011 foi a vez de Living with the Ancients. E o mais recente, The Eldritch Dark, saiu no final de maio pela Rise Above e pela Metal Blade.

O que essas três bandas têm em comum? Muito. O Blood Ceremony é o ponto de intersecção entre o Jethro Tull e o Coven. Do primeiro, pegou uma boa parcela da sonoridade, o flerte com o folk e, claro, a presença da flauta. Do segundo, traz laços fortes com a temática das letras, sempre falando sobre temas sombrios, soturnos, ocultos. Em suma: pactos, sacrifícios e rituais embalados em uma música agradável, cheia de melodia e guiada por uma flauta doce hipnótica. O Blood Ceremony é o filho que o Jethro Tull e o Coven tiveram em seu primeiro encontro.

Tendo na vocalista e flautista Alia O’Brien a sua figura principal, o Blood Ceremony chama a atenção pela capacidade de criar canções cativantes e com belos arranjos. Optando por uma estética bem setentista, com timbres que remetem ao início daquela década, a banda proporciona uma viagem no tempo. A flauta de Alia marca presença em todas as composições, dando um toque único à uma sonoridade por si só já interessante. É a cereja do bolo. E uma cereja da qual conhecemos o gosto, já que os trechos instrumentais parecem saídos diretamente de algum disco perdido do Jethro Tull. A forte presença do órgão também colabora para evidenciar ainda mais esse tempero vintage, trazendo à tona influências como Uriah Heep e Deep Purple.

Com categoria e talento, o Blood Ceremony entrega outra vez um disco muito bom, gostoso de ouvir e agradável em sua totalidade. Um disco que não nasceu com a pretensão de mudar nada, apenas proporcionar boa música. E nesse quesito, que é o que importa, The Eldritch Dark é bastante pródigo. “Witchwood” abre o play com um riff saído das catacumbas e é uma das melhores músicas do disco. A atmosférica “Lord Summerisle” parece um outtake do clássico The Magician’s Birthday, disco de 1972 do Uriah Heep. “Ballad of the Weird Sisters” desenvolve-se sem pressa, com belas linhas vocais e passagens instrumentais bastante ricas. “Faunus” é uma espécie de folk blues instrumental onde a flauta de O’Brien reclama o seu protagonismo. E a coisa toda segue com um desfile de fortes canções, em um conjunto homogêneo onde é difícil apontar destaques individuais.

Se você nunca ouviu falar do Blood Ceremony, chegou a hora de conhecer a banda. Ouça The Eldritch Dark e descubra um dos nomes mais singulares do occult rock. E aproveite a ocasião para ir atrás também do Coven e seu clássico Witchcraft Destroys Minds & Reap Souls (1969) e para redescobrir a sensacional discografia do Jethro Tull, repleta de pérolas perdidas em discos que fazem parte do guia prático de como o rock deve soar.

Discão!

Faixas:
1 Witchwood
2 Goodbye Gemini
3 Lord Summerisle
4 Ballad of the Weird Sisters
5 Eldritch Dark
6 Drawing Down the Moon
7 Faunus
8 The Magician






Uncle Acid & The Deadbeats: crítica de Mind Control (2013)

 


Apesar do atual levante de bandas que gerou o tão comentado revival occult rock, não há como atribuir a esse termo uma existência em si mesmo. Logo, é possível afirmar de forma categórica que occult rock não é um gênero, musicalmente falando. Se fosse, o que seria exatamente e quando teria surgido? Com o Coven? Black Widow? Black Sabbath? Ora, por que não com Screaming Lord Sutch, Jacula ou Death SS? Impossível precisar.

Em 1956, Jay Hawkins já tocava "I Put a Spell on You". O que pode ser mais oculto do que "joguei um feitiço em você"? E o que dizer de Their Satanic Majesties Request (1967) ou "Sympathy for the Devil", dos Stones? Exemplos que mostram o equívoco e a incongruência de se tomar um termo, um adjetivo, como estilo  musical.

Mesmo aplicado na caracterização de inúmeros grupos, occult rock está muito mais para um conceito estético. Um modo de agrupar bandas que apresentam atributos temáticos semelhantes. Nas letras ou no aspecto visual. Na sonoridade, nem sempre. Led Zeppelin e Alice Cooper podem ser tão ocultos quanto Mercyful Fate e Venom, ainda que antagônicos em suas propostas e, principalmente, em suas músicas. Apenas mais uma prova da tese inicial.

Tudo isso para explicar que não é nada difícil definir o som do Uncle Acid & The Deadbeats, um dos pilares desse boom de bandas obscuras, e entender como todas podem ser occult rock mesmo com traços completamente distintos. Alíás, são justamente as pequenas singularidades encontradas em nomes como Electric Wizard, Year of the Goat, Bloody Hammers, Devil, Jess & The Ancient Ones, Orchid, The Devil's Blood, Ancient VVisdom, Kadavar, In Solitude, Ghost, Noctum, Seremonia, Gates of Slumber, Blood Ceremony, Kongh, dentre vários outros, que têm tornado essa safra tão bacana.
Diante desse cenário, no qual cada banda tenta se destacar com um atrativo específico, o Uncle Acid & The Deadbeats se posiciona exata e estrategicamente no meio do caminho entre o doom e o psicodélico. Distante, por exemplo, do apelo pop do Ghost, da flauta mágica do Blood Ceremony ou do tom krautrock dos primórdios do Kadavar. Os britânicos de Cambridge apostam alto é na fusão de melodias soturnas e viagens lisérgicas.

Em um definição rápida, mas eficiente, o Uncle Acid & The Deadbeats seria o Tame Impala obscuro. O Tame Impala do lado negro da força. Claro que sem atingir o mesmo estágio de psicodelia dos australianos, mas injetando doses cavalares de peso e fazendo de Mind Control, terceiro álbum da carreira, uma espécie de trilha sonora de algum filme de terror antigo.
O começo do disco é arrastado, tendo em "Mt. Abraxas" um épico de sete minutos e pelo menos dois riffs - da metade para o final da canção - tirados diretamente das lições aplicadas pelo maestro Tony Iommi em "Wheels of Confusion". A sequência se dá com a hipnótica "Mind Crawler" e depois com a, provavelmente, melhor do disco: "Poison Apple", depravada e dona de frases de guitarra estupendas.

Uncle Acid, ou melhor, Kevin R. Starrs, a mente maligna por trás da concepção da banda, sabe construir muito bem o desenrolar do track list. Assim como na trinca inicial, o bruxo segue o que sugere o nome do disco e, como em uma espécie de ritual, controla a mente de quem o está ouvindo, alternando faixas cadenciadas e atmosféricas com outras mais agitadas. "Desert Ceremony" se encaixa no primeiro grupo e é a prova cabal da supracitada semelhança para com o Tame Impala. Já "Evil Love" fica no time das mais rápidas e figura como a grande concorrente de "Poison Apple" na briga pelo posto de principal destaque.

Na segunda parte da bolacha, um pouco de leveza com a delicada e singela "Death Valley Blues", rapidamente suplantada por "Follow the Leader", a mais fraca do trabalho. Nada que o ótimo mellotron da agônica "Valley of the Dolls" não resolva. E ainda há tempo para outro épico: "Devil's Work", que fecha com excelência o ciclo iniciado em "Mt. Abraxas".
Difícil determinar, mas, ao que tudo indica, há uma certa trama narrada ao longo de Mind Control. De concreto, fica o fato de o disco avançar em relação ao que já fora apresentado na estreia com Volume 1 (2010) e em Blood Lust (2011). Uncle Acid e seus asseclas - Yotam Rubinger (guitarra), Dean Millar (baixo) e Thomas Mowforth (bateria) - podem se gabar de terem acertado em cheio neste play, que é o primeiro da banda pela Rise Above Records, e de estarem na linha de frente do occult rock. Um conceito estético, não um gênero  musical. 

Nota 8,5

 Faixas:

1 Mt. Abraxas 7:08
2 Mind Crawler 4:21
3 Poison Apple: 4:13
4 Desert Ceremony 5:09
5 Evil Love 4:07
6 Death Valley Blues 4:59
7 Follow the Leader 6:28
8 Valley of the Dolls 7:11
9 Devil's Work 6:55





Álbuns Fundamentais - Eric Clapton - Rainbow Concert (1973)

 



No ano de 1971, Eric Clapton era aclamado mundialmente como o melhor guitarrista vivo do mundo, levando-se em conta que Jimi Hendrix partira dessa para melhor no ano anterior, porém sua vida pessoal estava de ponta cabeça. Clapton estava apaixonado pela esposa de George Harrison, seu melhor amigo – com quem viria a se casar em 1979 – e estava afundando no vício em heroína e no alcoolismo. Sua banda, a fenomenal Derek and the Dominos, se dissolveu em abril, logo após o lançamento de um dos álbuns mais incríveis de toda a carreira de Clapton, o fabuloso Layla and Other Assorted Love Songs.



Em agosto, Clapton se apresentou ao lado de George Harrison e outros no Madison Square Garden em Nova York no famoso Concert for Bangladesh e depois sumiu do mapa, se refugiando como um ermitão em sua casa para um longo período de inatividade e isolamento. Eric não atendia o telefone ou a campainha, salvo para seus traficantes ou um que outro amigo mais próximo, e dormia o dia todo após passar noites em claro tocando guitarra e injetando heroína, esperando que a morte viesse lhe buscar.

George Harrison aparecia de vez em quando e ambos tocavam guitarras por horas, porém Clapton sentia-se desconfortável por desejar roubar a mulher do seu melhor amigo, justamente o cara de quem ele gostava como se fosse um irmão. Outro dos poucos amigos que apareciam regularmente era Pete Townshend, guitarrista do The Who, com o pretexto de ajudar Clapton a finalizar algumas faixas inacabadas dos Derek and the Dominos. Eric agradeceu a Pete pela ajuda, mas havia perdido o interesse pelo projeto e se entregado a total inércia. Townshend então chutou o balde e disse que sabia que Clapton estava com sérios problemas com a heroína e que já havia inclusive conversado a respeito com Harrison e Steve Winwood para acharem uma forma de ajudar o amigo e salvá-lo da morte certa. Clapton ficou chocado e horrorizado. Não imaginava que seus amigos soubessem da sua condição. Eric sentiu-se constrangido, confuso e embaraçado pelo fato das pessoas estarem preocupadas com ele, mas não ofereceu resistência. “Se você acha que pode me ajudar, vá em frente.” A conversa reacendeu um pouco do senso de vergonha do guitarrista, mas no momento ele era um prisioneiro do vício, um escravo inerte.


Nos últimos meses de 1972, Pete Townshend foi convidado para tocar em um concerto como parte da “Fanfare for Europe”, uma grande celebração para comemorar a entrada da Grã-Bretanha no Mercado Comum Europeu. Pete redarguiu que o The Who não iria se apresentar, mas se comprometeu a formar outra banda para o evento. Townshend viu que seria uma oportunidade perfeita para trazer Clapton de volta ao palco ao lado de amigos para incentivá-lo a retomar a sua carreira e romper com os maus hábitos.

O concerto foi marcado para o dia 13 de janeiro de 1973 no Rainbow Theathe, no Finsbury Park, ao norte de Londres. O Rainbow, um teatro pequeno e decadente, era conhecido como Astoria Theatre nos anos sessenta e em meados da década os Beatles se apresentaram no local. No início dos anos setenta, bandas iniciantes como Led Zeppelin, Jethro Tull e Yes tocaram por lá, mas o local era geograficamente de difícil acesso aos fãs de rock, numa zona desprovida de atrativos, e o outrora glorioso interior do teatro lembrava um velho cinema necessitando de uma redecoração e uma nova pintura. 

Pete Townshend não mediu esforços para ajudar o amigo e, com o auxílio de Harrison e Winwood, montou a banda de brothers que iria acompanhar Clapton no Rainbow. Para as guitarras, além do próprio Pete e obviamente Eric, Pete chamou o guitarrista dos Faces, Ronnie Wood. Steve Winwood, líder do Traffic, que havia sido colega de banda de Clapton no Blind Faith, assumiu os teclados e chamou seus colegas de Traffic Rick Grech (também ex-Blind Faith) para o baixo, Jim Capaldi para a bateria e Rebop para as demais percussões. O baterista Jimmy Karstein foi convocado para a segunda bateria. A banda foi batizada com o nome The Palpitations. Os ensaios foram marcados para dezembro na casa de Ronnie Wood em Richmond.


No tempo em que permaneceu recluso, Eric escutou música e tocou guitarra diariamente, mas para desenvolver sua habilidade com plenitude era preciso interagir com outras pessoas, e desde o concerto para Bangladesh ele não tocava com outros músicos. No primeiro ensaio na casa do futuro Rolling Stone, Clapton tentou tocar e participar, mesmo em um nível limitado, mas se sentiu tímido ao constatar sua deficiência em tocar, vendo que seus dedos não obedeciam ao que seu cérebro mandava. Steve Winwood o encorajou e lhe transmitiu confiança, e aos poucos os ensaios evoluíram consideravelmente.

Na noite do show, Clapton chegou ao Rainbow atrasado e chapadíssimo, deixando Pete Townshend de cabelo em pé. Na plateia, além dos fãs, uma constelação de rock stars se fazia presente para testemunhar o retorno de Clapton aos palcos. Logo na primeira fila, estavam George Harrison e Ringo Starr, sentados ao lado de Keith Moon, Joe Cocker, Elton John e Jimmy Page, que àquela altura era o mais celebrado astro do rock da atualidade, com sua banda atingindo níveis estratosféricos de popularidade. 

O show abriu com “Layla”. A banda estava tão entrosada que tudo soou perfeitamente, embora Clapton tenha declarado posteriormente que ainda estava “quilômetros fora da rota”. A segunda canção da noite foi “Badge”, uma parceria de Clapton e Harrison composta para o último álbum do Cream. Eric, Pete e Ronnie fizeram sinal para que George subisse ao palco, mas esse preferiu continuar assistindo o espetáculo em sua poltrona na primeira fila. Na sequência tocaram as ótimas “Blues Power” e “Roll It Over” e a cover para a balada “Little Wing”, de Jimi Hendrix, que Clapton gravou magistralmente no álbum do Derek and the Dominos, dando uma nova carga de emoção à canção originalmente lançada no disco Axis, Bold As Love do The Jimi Hendrix Experience.


A incrível recepção da plateia foi comovente para Eric. Todos os presentes sabiam que estavam testemunhando um momento único, um grande show de uma banda absurdamente boa. O show teve prosseguimento com canções do excelente primeiro disco solo de Clapton (“Bottle of Red Wine”, “After Midnight”), músicas do álbum dos Dominos (“Bell Botton Blues”, “Tell the Truth”) e “Presence of the Lord”, do Blind Faith, já que três quartos do Blind Faith estava no palco. Steve Winwood então assumiu os vocais na faixa “Pearly Queen”, do segundo álbum do Traffic, já que quase todos os membros da banda estavam presentes na empreitada. Clapton então tocou o clássico do blues “Key to the Highway”, há tempos incorporada em seu repertório, e encerrou a primeira parte do concerto com uma versão sublime de “Let It Rain”. No bis, a banda tocou uma endiabrada versão de “Crossroads” de Robert Johnson, que Clapton já havia gravado com o Cream. Foi um final apoteótico para um dos mais memoráveis concertos já realizados. 

Logo após o concerto no Rainbow, Clapton voltou a se esconder e a “afundar em novas profundezas”, consumindo quantidades imensas de heroína e bebendo duas garrafas de vodca por dia. O guitarrista sentia-se muito grato aos amigos, principalmente a Pete, por terem se preocupado e ajudado a colocá-lo de volta à cena musical, mas simplesmente sentia que ainda não estava pronto. Somente mais de um ano mais tarde Clapton formou uma nova banda e retornou a atividade com o álbum 461 Ocean Boulevard. Ainda em 1973 foi lançado o álbum ao vivo do concerto, intitulado Eric Clapton’s Rainbow Concert, contendo apenas seis canções. O lado um trazia as faixas “Badge”, “Roll It Over” e “Presence of the Lord”. O lado dois apresentava as músicas “Pearly Queen”, “After Midnight” e “Little Wing”. Recordo que quase furei os sulcos do vinil de tanto ouvir esse disco em minha adolescência. 

Em 1995, vinte e dois anos após o concerto, eu trabalhava em uma conceituada loja de discos quando recebemos uma leva de novos Cds importados. Entre eles, estava uma nova edição em CD do Rainbow Concert, que me chamou a atenção de imediato por trazer uma capa diferente do LP, com uma nova foto e novas cores. Porém, a grande e grata surpresa se deu mesmo quando fui conferir a contracapa e vi que não estavam apenas as seis canções do vinil, mas as quatorze músicas que foram apresentadas naquela gloriosa noite. Finalmente as outras oito faixas foram desengavetadas e estavam a nossa disposição após mais de duas décadas. Que deleite! Esse registro ao vivo somente existe porque o engenheiro de som e produtor musical Glyn Johns, notório por seus trabalhos ao lado de artistas como Beatles, Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin e do próprio Eric Clapton, resolveu gravar o show em uma fita de rolo para a posteridade. Infelizmente o show não foi filmado – ao menos até hoje não apareceu nenhuma imagem do evento - mas nos contentamos com o disco, absolutamente histórico e colossal.

Track List:

1. Layla - Previously Unreleased
2. Badge
3. Blues Power - Previously Unreleased
4. Roll It Over
5. Little Wing
6. Bottle Of Red Wine - Previously Unreleased
7. After Midnight
8. Bell Bottom Blues - Previously Unreleased
9. Presence Of The Lord
10. Tell The Truth - Previously Unreleased
11. Pearly Queen
12. Key To The Highway - Previously Unreleased
13. Let It Rain - Previously Unreleased
14. Crossroads - Previously Unreleased





Destaque

Electric Food - Flash 1970 (Germany, Hard Rock, Heavy Prog)

   George Monro (George Mavros) - vocals - Peter Hesslein - guitar, backing vocals - Peter Hecht - keyboards - Dieter Horns - bass - Joachim...