sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Between ~ Germany

 


Dharana (1974)

Dharana é o terceiro álbum do Between, um grupo internacional baseado em Munique. A música aqui pode ser descrita, de forma geral, como World Fusion, um termo abrangente que incorpora várias tradições folclóricas, música eletrônica, new age e jazz. É preciso estar no clima certo para ouvir um álbum como este, pois é muito relaxante e tranquilo. Guardem a bateria, pessoal, isso não é Krautrock! Eu diria que, em Dharana, o Between opera de maneira semelhante ao Popol Vuh e ao Deuter da mesma época, embora seja muito diferente de ambos no geral. As notas detalhadas do encarte apontam para as tradições grega, budista, japonesa, europeia (em geral) e indiana como referências. O oboé de Robert Eliscu é o instrumento principal mais proeminente, embora eu considere o órgão hipnótico de Peter Michael Hamel um destaque. Dois percussionistas garantem que este não seja um trabalho estático.



Andromeda ~ Germany

 


Andromeda (1979)

Assim como Zarathustra, o nome alemão Andromeda é mais conhecido por um álbum do início dos anos 70. E assim como com Zarathustra, eu prefiro a banda posterior, com uma sonoridade diferente. Este Andromeda toca uma mistura de estilos familiares do rock progressivo, principalmente Jethro Tull devido ao uso da flauta e ao estilo geral das músicas. Genesis e Yes também são mencionados. No geral, me lembrou bastante o Mythos de meados para o final dos anos 70, com uma pitada de Novalis, especialmente considerando os vocais meio em alemão. Um ótimo álbum, que talvez tenha trechos líricos demais para ser um clássico, mas as partes instrumentais compensam. O trabalho de guitarra também é excelente.

Tecnicamente, a banda é conhecida como Andromeda. Eles têm outros dois lançamentos que eu não ouvi.

Até o momento, não existem reedições de nenhum de seus álbuns.



BIOGRAFIA DOS Corte dei Miracoli

 

Corte dei Miracoli

Corte dei Miracoli foi um grupo de rock progressivo italiano ativo nos anos 1970.

História

Com uma característica formação com dois tecladistas e sem guitarra, a Corte dei Miracoli, de Savona, realizou somente um álbum para a pequena etiqueta Grog, com a ajuda do guitarrista do New Trolls, Vittorio De Scalzi, que era também responsável pela gestão da casa discográfica.

O grupo foi formado em torno de 1973 pelos ex-componentes do Tramps, entre os quais, o tecladista Alessio Feltri, que tinha também tocada anteriormente com Il Giro Strano, um grupo estreitamente ligado com a Corte dei Miracoli.

O segundo tecladista original, Michele Carlone, deixou o grupo pouco antes das gravações do álbum, substituído pelo pianista de jazz, Riccardo Zegna.

O álbum é obviamente orientado em direção ao progressivo sinfônico dominado pelo cruzamento dos teclados e partes vocais são o seu ponto débil, muito distante da base musical. Um bom álbum, mas não entre os melhores gêneros.

O grupo continuou a tocar até o verão de 1976. A última formação compreendia também um guitarrista Valerio Piccioli. Após a dissolução da banda, uma nova versão de Il Giro Strano foi formada por Feltri, Siri e Piccioli, mas sem sucesso.

Um bom álbum póstumo, Dimensione onirica, gravado em 1973-1974 da primeira formação, foi publicado pela Mellow em CD. O tecladista Riccardo Zegna depois deu origem ao trio Gialma 3.

Formação

1973-74

  • Graziano Zippo (voz)
  • Alessio Feltri (teclado)
  • Michele Carlone (teclado)
  • Gabriele Siri (baixo)
  • Flavio Scogna (bateria, percussões)

1975

  • Carlone substituído por
  • Riccardo Zegna (teclado)

Discografia

LP

  • 1976 - Corte dei Miracoli (Grog, GRL 04)

CD

  • 1992 - Dimensione onirica (Mellow, MMP 104)
  • 1993 - Live at Lux (Mellow, MMP 138)
  • 1994 - Corte dei Miracoli (Vinyl Magic, VM 040)




Barry White - Just the way you are

 

"Just the Way You Are" é uma das canções mais icônicas do lendário Barry White , conhecido como "A Voz do Amor". Embora originalmente escrita e interpretada por Billy Joel em 1977, a versão de Barry White , incluída em seu álbum *The Icon Is Love* (1994), deu à música um toque sensual e profundamente emocional, transformando-a em um clássico da soul e do R&B. Com sua inconfundível voz aveludada e arranjos orquestrais suntuosos,  Barry White  transformou a canção em uma declaração de amor apaixonada e sincera.  

A produção de "Just the Way You Are" é característica do som opulento de Barry White : cordas exuberantes, um ritmo suave e constante, vocais de apoio femininos que complementam sua voz grave e uma levada que convida à dança lenta. A instrumentação cuidadosamente elaborada evoca elegância e romance, com pianos discretos, guitarras cheias de alma e linhas de baixo proeminentes que remetem à era de ouro da disco music e do soul dos anos 70. Barry White , além de intérprete, era um mestre da produção, e isso fica evidente em cada detalhe da canção.  

A letra, concebida por Billy Joel como uma homenagem à sua então esposa, ganha um novo significado na voz de Barry White . Versos como "Não mude para tentar me agradar" e "Eu te amo do jeito que você é" ressoam com devoção absoluta. Barry White consegue transmitir uma mistura de admiração, desejo e ternura, tornando a mensagem de aceitação incondicional ainda mais poderosa. Sua interpretação é íntima, como se ele estivesse sussurrando ao ouvido de um amor eterno.  

Embora a versão de Billy Joel já fosse um sucesso, Barry White a apresentou a um novo público, consolidando-a como um hino romântico atemporal. Sua versão se destaca pela capacidade de fundir o soul clássico com um toque moderno (para os anos 90), demonstrando que grandes canções podem ser reinventadas sem perder sua essência. Além disso, a canção reforçou o status de White como um ícone do amor e da sedução na música.  

"Just the Way You Are", interpretada por Barry White, é mais do que uma simples canção: é uma experiência sensorial. Combina produção impecável, uma voz inigualável e letras que celebram o amor incondicional. Embora décadas tenham se passado desde seu lançamento, permanece um marco da música romântica, perfeita para noites apaixonadas ou simplesmente para apreciar a arte de um dos maiores crooners da história. Se existe uma canção que encapsula o espírito de  Barry White , é esta: calorosa, sedutora e eternamente elegante. 


 

M I A (Músicos Independientes Asociados) - Cornonstípicum

 

Em 1978, no auge do rock argentino, a banda MIA (Músicos Independientes Asociados) surgiu com um som revolucionário em seu álbum de estreia. Entre suas faixas mais memoráveis ​​está "Cornonstípicum ", uma música que encapsula a essência de um grupo que ousou misturar rock, jazz, funk e vanguarda com uma atitude irreverente e experimental.  

Desde os primeiros acordes, a música surpreende com sua estrutura não convencional. A base instrumental, conduzida pelos riffs de guitarra de Alberto Muñoz e pelo baixo de Gonzalo Farrugia, cria uma atmosfera densa e em constante transformação, enquanto a bateria de Carlos Riganti alterna entre ritmos sincopados e explosões de energia. Os teclados adicionam um toque psicodélico, que remete a bandas como King Crimson ou Frank Zappa, mas com uma identidade própria, marcada por humor ácido e improvisação.  

A voz rouca e carregada de ironia de Daniel "Piti" Fernández é o fio condutor das letras, que parecem um jogo de palavras surreal. Frases como " Cornonstípicum , don't you see it's like this?" ou "Everything's upside down, but it doesn't matter" podem ser interpretadas como uma crítica à monotonia, à burocracia ou até mesmo uma zombaria dos clichês do rock da época. O próprio título, uma palavra inventada, sugere uma distorção do "típico", como se a banda quisesse romper com qualquer convenção musical ou social.  

No contexto do rock argentino do final dos anos 70, o MIA se destacou por sua atitude vanguardista. Enquanto outras bandas buscavam um som mais comercial ou político, eles exploravam uma liberdade criativa ilimitada. "Cornonstípicum"  é um exemplo perfeito: uma canção que desafia fórmulas, com mudanças abruptas, dissonâncias calculadas e um espírito lúdico que instiga o ouvinte.  

Embora não tenha alcançado o mesmo reconhecimento generalizado que outras bandas da época,  o álbum de Cornonstípicum e M.I.A. tornou-se um clássico cult. Hoje, a música ainda soa atual e inovadora, provando que a verdadeira inovação nunca envelhece.  

Cornonstípicum é uma joia do rock experimental argentino, uma obra que recompensa aqueles que buscam música com ideias ousadas e execução impecável. 



Violator - Depeche Mode

 

Violator, Depeche Mode

     Era 1990 e eu era um garoto de 17 anos, completamente absorto pelo heavy metal e por alguns artistas de gêneros mais populares. Depeche Mode, para mim, era apenas um nome que eu ouvia no rádio, uma banda de sintetizador que não combinava com o meu gosto. Tudo mudou numa tarde em que "  Personal Jesus" começou a tocar no rádio .  Aquela mistura de pulsos eletrônicos sombrios e sedutores foi como entrar num novo mundo, um mundo onde a música não era apenas ouvida, mas sentida profundamente. Foi uma revelação ouvir aquela melodia simples, porém hipnótica. Esse álbum me ajudou a descobrir e entender que existia outro tipo de música  que não precisava de guitarras estridentes para ser intensa.

Em 1990, num mundo onde os sintetizadores reinavam como prenúncios de um futuro incerto, o Depeche Mode lançou Violator , seu sétimo álbum de estúdio. Produzido por Flood (pseudônimo de Mark Ellis ) e mixado por François Kevorkian , Violator não era apenas um álbum, mas um portal para um universo paralelo onde melancolia, desejo e redenção se entrelaçavam em frequências eletrônicas. Com uma abordagem inovadora que rompia com sua fórmula anterior, o quarteto de Basildon ( David Gahan, Martin Gore, Alan Wilder e Andrew Fletcher ) criou uma obra que fundia synth-pop, rock gótico e blues eletrônico, catapultando-os ao estrelato mundial.


Ao contrário de seus antecessores, o álbum carece de uma narrativa definida, e a diversidade de temas que explora torna impossível apontar um único tema abrangente, apesar da aparente conexão entre as músicas. Violator  tece uma narrativa digna de um romance de ficção científica, onde cada faixa é um capítulo de uma saga distópica. 



O álbum abre com "World in My Eyes ", um hino synth-pop onde a influência do Kraftwerk é evidente , mas imbuído de uma sensualidade quase alienígena. A voz de Gahan nos convida a explorar um universo onde o prazer é a única moeda, seu ritmo dançante escondendo uma escuridão latente. Martin Gore, o arquiteto lírico, confessou que a canção é uma proposta hedonista, um hino à conexão física em um mundo desumanizado.  "Sweetest Perfection"  é uma faixa com um início minimalista que culmina em um refrão grandioso. A canção explora a busca pela plenitude por meios artificiais. Seu caráter progressivo se destaca, com ecos de rock psicodélico em sua estrutura pulsante. A inspiração de Gore pode estar ligada à luta interna pela autenticidade em um mundo de simulações. A voz de Gore  contrasta com os sintetizadores frios, como se uma inteligência artificial estivesse confessando seu desejo de sentir, como se fosse  o lamento de um androide ansiando pela imperfeição humana.  "Personal Jesus",  a música que me impressionou profundamente aos 17 anos, um dos destaques do álbum, surge como um raio em um céu metálico. Com seu riff de guitarra blues e percussão industrial, a canção é uma sátira mordaz da comercialização da fé, inspirada na relação entre Elvis e Priscilla Presley . Gore explicou que a música fala sobre ser "um Jesus para alguém, alguém que oferece esperança e cuidado ". O videoclipe da música foi dirigido por Anton Corbijn.  A canção foi um sucesso inovador, fundindo rock e música eletrônica de uma forma que pode ser considerada precursora do grunge.  "Halo" emerge como um oásis de luz na escuridão, com sua atmosfera etérea e narrativa de amor redentor. É uma das joias menos óbvias do álbum, com arranjos de teclado que criam um equilíbrio entre o gótico e o romântico. A letra de Gore fala de rendição e esperança, como se um viajante espacial estivesse encontrando refúgio após uma tempestade cósmica. A música apresenta uma produção impecável, com camadas de sintetizadores envolvendo a voz de Gahan em uma aura de melancolia, um  momento de introspecção onde os protagonistas confrontam as consequências de seus desejos e buscam absolvição. O Lado A encerra com "  Waiting for the Night ", uma peça minimalista com seu ritmo hipnótico e texturas ambientais. Gore e GahanEles cantam em uníssono, criando um senso de unidade na desolação. A natureza introspectiva do álbum continua, com letras que exploram a expectativa de uma mudança crucial.



A faixa de abertura do lado B é  "Enjoy the Silence  ", o coração pulsante de Violator , um hino que transcende o tempo e o espaço. Tornou-se um sucesso mundial, alcançando o top 10 tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos. Gore escreveu a letra como uma reflexão sobre a paz encontrada no silêncio, mas a produção de Flood a transformou em um gigante eletrônico com um refrão melódico irresistível. A música também contém um interlúdio oculto notável, " Interlude #2 (Crucified) ", que adiciona um toque sinistro ao final da versão do álbum. A canção reflete a luta de Gore com a comunicação em um mundo barulhento .  "Policy of Truth" é uma história de consequências, com seu ritmo hipnótico e tom cínico. A canção, com seu refrão marcante e   produção impecável,  alcançou o primeiro lugar na  parada Modern Rock Tracks da Billboard nos Estados Unidos . É  uma faixa que equilibra a dançabilidade com a melancolia,  enquanto explora as mentiras que sustentam os relacionamentos humanos e as verdades que ferem.  "Blue Dress" é uma das faixas mais enigmáticas do álbum , com seu ritmo lento e atmosfera sensual.  A letra de Gore  pode aludir a uma obsessão romântica ou à idealização de um objeto de desejo. A canção, assim como " Enjoy the Silence" , inclui um interlúdio,   "Interlude   #3",  uma peça sintetizada e operística onde os quatro membros da banda executam uma vocalização coral usada anteriormente apenas na excepcional faixa  "Pimpf",  do álbum "  Music for the Masses" (1987).  Este interlúdio é, na verdade, bastante curto, pois após a vocalização, inicia-se uma espécie de ronronar animalesco, marcando o verdadeiro ponto de partida da faixa final do álbum, " C lean " , uma peça que simboliza a "queda completa na escuridão ". Com seu ritmo assombroso e tom introspectivo, a canção é um lamento pela redenção pessoal, como se os protagonistas tivessem sobrevivido a uma catástrofe cósmica. Ela reflete a luta de Gahan com seus demônios pessoais, um tema que se intensificaria no álbum seguinte , " Songs of Faith and Devotion " (1993) .

Violator não foi apenas um álbum; foi uma supernova que redefiniu o cenário musical dos anos 90.Com mais de um milhão de cópias vendidas nos Estados Unidos e uma turnê mundial que atraiu 1,2 milhão de fãs,o Depeche Modese tornou um fenômeno global. É o manifesto de uma civilização à beira do colapso, um testemunho da capacidade da humanidade de encontrar beleza na escuridão. ComoGoreem uma entrevista de 1990:"Chamamos de Violator de brincadeira, mas ninguém entendeu". E aí reside seu poder: um álbum que quebraria minhas expectativas e marcaria para sempre aquele garoto de 17 anos...




Because the Night - Patti Smith Group

 


Lançada em 1978 como parte do álbum de estúdio "Easter", a canção "Because the Night" do  Patti Smith Group é uma das faixas mais celebradas de sua discografia e do rock americano dos anos 70. É uma música composta por Bruce Springsteen e pela própria Patti Smith , embora eles não a tenham escrito juntos. Originalmente, era uma composição de Springsteen das sessões do álbum Darkness on the Edge of Town (1978), mas ele não ficou totalmente satisfeito com o resultado, e a música acabou ficando de fora do álbum. O produtor Jimmy Iovine  então a ofereceu a Smith , que a reescreveu e lhe deu seu toque pessoal.

O resultado final é um hino apaixonado ao amor e ao desejo, habitantes comuns da vida noturna, como proclamam seu refrão e verso mais icônico: "Porque a noite pertence aos amantes, porque a noite nos pertence " .  "Because the Night" se destaca por sua estrutura ascendente, começando com uma introdução suave de balada marcada pelo piano e culminando em um refrão apoteótico com guitarra rock e um hino de estádio.

A performance vocal de Patti Smith é apaixonada e poderosa, situando-se entre o rock clássico e a intensidade do punk rock dos anos 70, mas brilha igualmente nos trechos mais lentos.  "Because the Night"  foi uma das faixas de maior sucesso em sua discografia, alcançando o 13º lugar na Billboard Hot 100 dos EUA , e desde então foi regravada por diversos artistas, incluindo  10,000 Maniacs, Sonic Youth e Kim Wilde.  O próprio Springsteen a apresenta regularmente em seus shows, e sua versão de "Because the Night" é  uma das mais aclamadas por seus fãs.


Thurston Moore – The Best Day (2014)

 


Só agora que a pessoa mais cool do mundo é meu quase vizinho, frequentando os cafés e livrarias que frequentei, se assemelha a algo de mortal. Mas a primeira vez que ouvi o seu novo trabalho foi mesmo em Portugal, na ZdB, há uns meses.

Encontrava-se Thurston no vestíbulo desta galeria, a olhar para uns livros como quem afaga um cãozinho. Recentemente confessou numa entrevista que o que gostaria de estar a fazer mesmo era a trabalhar na livraria da ZdB (que lírico). Na altura estava com a minha mulher, que não sabia mesmo quem eram os Sonic Youth, e, assim que viu os Adidas cor-de-rosa do Thurston, iguais aos dela, teve a certeza de que deveríamos chamar ao nosso filho Thurston. Certezas de mulher grávida, adensadas pelo fabuloso concerto. Tenho inveja de quem ainda não foi exposto a certos prazeres na vida: ler o Crime e Castigo pela primeira vez, ver um filme do Herzog sem saber quem é o senhor, ouvir o Daydream Nation por acaso. Fi-la ver que a minha avó não conseguia dizer Thurston e que isso a deixaria triste. Por outro lado, em português Thurston seria talvez Tristão, e aí ela disse que não. Contudo foi um concerto memorável que me trouxe aquilo que espero encontrar na arte: o sentimento de esperança.

Costumam acusar-me de ser demasiado inflexível no que toca a música, de não gostar de nada excepto do raro. Confundem-se os princípios que me regem com os do «hipsterismo». Nada tenho de hipster. Tenho um emprego das 9 às 5, perco duas horas diárias em transportes públicos, chego a casa e mudo fraldas, vejo a Peppa Pig com a minha filha e adormeço no sofá nos primeiros cinco minutos da décima tentativa de ver o ultimo filme do Jarmusch (que de resto me parece ser uma grande merda).

O que é bom é raro, é o problema; se isso é assim com tudo na vida, por que haveria de ser diferente com a música? Estou pronto para afirmar que o rock teve um período de interesse nas décadas de 50 e 60, pouco mais. Neste momento, e no que toca a rock e suas ramificações, não existe nada que valha a pena ouvir que não o deixado pelos Sonic Youth e agora Thurston Moore. Não me venham com outras merdas que não estou interessado. Não é preconceito, é conclusão.

Curiosamente, antes de ouvir o The Best Day, atentei ao novo álbum do Lee Ranaldo, com uma certa ânsia de ver o que aquele maluco que se dizia ser o único verdadeiro musico dos SY andava a fazer. Achei-o horroroso. Incompreensivelmente mau. Ranaldo certamente bateu com a testa num candeeiro de rua e decidiu que queria fazer música para conas moles. Puta que o pariu.

Já Thurston Moore, depois do fim do casamento mais cool do mundo e de sempre (como se isso me interessasse), veio para Londres continuar com o que evidentemente mais gosta de fazer na vida: rock experimental. The Best Day lembra-me (às vezes em demasia) aquele que é para mim um dos melhores álbuns dos SY, Murray Street. Ao contrário de todos os outros, Murray Street foi precisamente arquitectado em solidão por Thurston numa guitarra acústica. Ora The Best Day também, segundo o próprio. Lembra-me a máxima do Lou Reed dos tempos dos The Velvet Underground: «mais que um acorde é acorde a mais.» Percebo perfeitamente o que ele quis dizer. Gosto da reverberação de um acorde em loop, de ir registando subtilezas de variações, as vezes introduzidas pelo músico, outras pela nossa imaginação. Talvez a primeira vez que me apercebi disso foi com o álbum Psychic Hearts (o primeiro a solo de Moore) na musica «Blues from Beyond the Grave». «Checkem». Gosto da ideia de uma estrutura primária onde tudo o resto se agarra e o pensamento se evade. Gosto de trance, de William Basinsky e do filme Gerry pela mesma razão. Gosto também da quebra súbita e dissonante, lembrando-nos que nem tudo é cristais.

Thurston não se esquece contudo que rock é pujança e também para isso não dispensa o Steve Shelley, que lhe atira com a força e inteligência do costume. Thurston não receia ser um sénior armado em rocker. É o total oposto das cirurgias plásticas do Mick Jagger, alimentadas pelo desejo revivalista da desesperada classe media, que agora até pode colocar fotos no Facebook da sua presença no respectivo concerto, blusão de ganga e tudo.



Ryan Adams – Ryan Adams (2014)


Talentoso, delicado e prolífero como poucos, Ryan Adams está de volta. O seu 14.º disco a solo, a que se juntam dezenas de gravações menos convencionais, é homónimo e representa o que é o norte-americano por estes dias: um homem sereno, mais confiante em viver na sua pele, e com canções superlativas para atestar a boa fase.

Não será com Ryan Adams que o músico que conhecemos inicialmente nos Whiskeytown chegará a novos públicos. A forma, verdade seja dita, não muda muito de boa parte do repertório: canções sofridas, que partem da guitarra (aqui quase sempre eletrificada) e aliam qualidade lírica e melódica a uma voz especial. Há rasgos country, rock, alguma sensibilidade pop e muito bom gosto no meio disto tudo. Importante sublinhar também o papel da banda que trabalha com e para Ryan Adams, e fica a curiosidade: Johnny Depp – sim, o actor – é um dos convidados do disco, tocando guitarra em duas faixas.

«Gimme Something Good» foi o single de avanço e é a porta de entrada no disco. Canção rock, vigorosa e de fácil absorção, representa de forma válida o lado mais musculado do álbum. «Kim», logo a seguir, contrasta na doce amargura da letra e do (des)amor permanentemente presente nas cantigas de Ryan Adams. Durante 40 minutos ouvimos um disco que é de hoje, deste tempo, mas que poderia ser do passado, de há 40 anos, e, acreditamos, será um momento musical plenamente válido daqui a 40 anos.

As canções, ainda e sempre as canções. Haja quem as faça com máquinas, maior foco na percussão ou com os amplificadores no vermelho; a essência de uma boa canção é, ainda, o que fica para a memória. Ryan Adams escreve grandes canções e é um daqueles tipos que já não existem, tão bizarro quanto circense, delicado e doce na mesma medida em que parece disposto a enfiar uma murraça a quem «flirtar» com a sua esposa.

Ryan Adams é um disco de Ryan Adams feito para os seus fãs e para quem gosta de boas canções sem enfeites de maior. E é um disco bem jeitoso.


The Walks – R [EP] (2014)

 

Os The Walks são uma banda portuguesa a cujo crescimento urge estar atento. O primeiro EP, lançado este ano, promete: as quatro canções que o compõem deixam antever um futuro auspicioso na exploração deste território rock.

O nervo das canções não se estranha: basta notar que a produção é de Victor Torpedo (Parkinsons e Tédio Boys). E portanto as acelerações rítmicas, os refrões algo explosivos e esse lado meio «apunkalhado», ou semi-garage, estão presentes, mas coexistem com o groove, tendo o baixo especial importância na orgânica sonora dos Walks.

«Backfire», a primeira, transmite logo esse mote, com o instrumental acelerado que vai directo à questão de forma crua – e, sendo os Walks bons músicos, será muito interessante acompanhar a forma como se prevê que a canção vá crescendo em palco e a simbiose que poderá originar com o público. «Redefine» já tem outro ritmo, ao soar mais clássica, com um groove capaz de fazer dançar sem que se perca o nervo rock e a intensidade. É uma grande canção. «Before and After», a terceira, é blues, punk e garage misturados, e o riff no final da canção eleva-a a um nível bastante alto. O EP termina com «Riding the Vice», também ela uma belíssima canção, e outra em que os Walks voltam a mostrar que dominam como poucos por cá a capacidade de gerir a intensidade e rapidez com a subtileza e groove que nos levam a sentir a sedução rock de outros tempos.

O quinteto oriundo de Coimbra, apesar da sua juventude, já tocou em palcos como o Raw Coreto, do NOS Alive, o do Festival Mêda ou o desse relevantíssimo espaço rock que é o Sabotage Club. Para quem nasceu há pouco, portanto, as credenciais estão aí, e justificam-se totalmente pelas canções. Para este grupo, o rock ‘n’ roll continua a ser juventude, garra e subversão; e, a julgar por este primeiro EP, o futuro está mesmo aí à porta.