domingo, 19 de abril de 2026

Racionais MC’s – “Sobrevivendo no Inferno” (1997)

 

“Refrigere minha alma e guia-me pelo caminho da justiça.” 
– Salmo 23, capítulo 3


“Ilumina minha alma, louvado seja o meu senhor/ Que não deixa o mano aqui desandar/ E nem sentar o dedo em nenhum pilantra/ Mas que nenhum filha da puta ignore a minha lei.” 
– Da letra de “Capítulo 4, versículo 3”


Era Réveillon de 1997. Após muitas cervejas, samba, risadas e conversas altas no volume típico da minha família, pouco depois da virada do ano, nas primeiras horas de 1998, meu primo-irmão Leandro “Lê” Reis Freitas me chama para dentro da casa ao lado da garagem onde todos se reuniam. Fugíamos um pouco da algazarra, pois Lê queria me mostrar algo para se ouvir com atenção. Olhando-me com convicção e euforia, ele me disse: “Dã, tu tem que ouvir isso!”. Era um disco. Um disco de rap chamado “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MC’s, que completa 20 anos em 2017.

Sabia que ele curtia bastante rap, então não estranhava que quisesse me apresentar algum artista. Geralmente, não me animava tanto, admito, haja vista que o rap nacional sempre me parecia ficar bastante a dever ao dos Estados Unidos e principalmente ao Public Enemy, meus preferidos do estilo até hoje. Mas aquilo que Lê me mostrava era, definitivamente, diferente. O início salta com um “Ogunhê!”, a saudação ao orixá Ogum do Candomblé. Imediatamente, começa um rap arrastado feito sobre a base de “Ike’s Rap 2”, de Isaac Hayes – o mesmo sample usado em “Glory Box”, do Portishead, e “Hell Is Round the Corner”, do Tricky. Era uma versão originalíssima de “Jorge da Capadócia”, de Jorge Ben. Agradou-me bastante, mas Lê me alertou: “Essa é legal, mas o melhor vem a partir de agora”.

Sim, o melhor vinha em seguida. Após um prólogo interessantíssimo, muito bem escrito e revelador (a vinheta “Gênesis”), a faixa seguinte trazia em sua letra o mais pungente e expressivo manifesto escrito no Brasil depois do Antropofágico, do Concretista e do Tropicalista. E mais: sem ter a intenção de ser um manifesto propriamente dito, o que aumenta ainda mais sua força. Ali, falava-se de algo que estava grudado na garganta há muito tempo, bem dizer, desde que os escravos vieram para o Brasil, séculos atrás. Desde que, alforriados, os negros permaneceram na miséria por descaso do estado. Num trecho, a letra diz: “Minha intenção é ruim/ Esvazia o lugar/ Eu tô em cima, eu tô afim/ Um, dois pra atirar/ Eu sou bem pior do que você tá vendo/ O preto aqui não tem dó/ É 100% veneno/ A primeira faz ‘bum’, a segunda faz ‘tá’/ Eu tenho uma missão e não vou parar”. Era “Capítulo 4, Versículo 3”, a brilhante canção que mostrava, com todas as letras, que os Racionais, formado pelos mc’s Mano Brown, Edi Rock e Ice Blue e o DJ KL Jay, realmente tinham uma missão. E que não iriam parar.

Enquanto a noite seguia animada lá fora, Lê e eu ouvíamos de cabo a rabo o longo 5º disco dos Racionais, o ápice da maturidade dos rapazes da Zona Sul paulista e o melhor disco de rap brasileiro de todos os tempos, 14º colocado na lista da revista Rolling Stone dos 100 melhores álbuns da história da música brasileira. Tínhamos a noção de que estávamos diante de algo diferenciado e revolucionário. Além da qualidade técnica nunca antes atingida no rap no Brasil, com samples bem escolhidos e elaborados, densidade sonora e produção impecável do próprio KL Jay, “Sobrevivendo...” era um grito até então ensurdecido. O grito da periferia – em sua grande parte, negra. Um grito de revolta e ressentimento pelo apartheid social brasileiro; um grito agressivo contra a desigualdade de classes; um grito de protesto contra a repressão da polícia e do estado. Mas tudo traduzido em poesia, musicalidade, criatividade. “Sobrevivendo...” propunha uma revolução ideológica.

Os anos 90, primeira década da democracia no Brasil, traziam nas rádios o samba “embranquecido” do pagode e o conveniente “rap de classe média” de Gabriel O Pensador. Ou seja: os pretos mesmo não estavam representados. Precisou que o rap levantasse a bandeira, e os Racionais MC’s cumpriram essa função abrindo definitivamente um novo paradigma para a música brasileira em temas como “Diário de um Detento”, “Mágico de Oz”, “Fórmula Mágica da Paz” e a já mencionada “Capítulo 4...”. Nelas fala-se abertamente sobre o racismo e a miséria na periferia de São Paulo, marcada pela violência e pelo crime, numa representação muito maior do que somente aquilo: era um retrato da sociedade brasileira.

Outra das melhores do disco e da banda, "Tô Ouvindo Alguém me Chamar" disseca a vida de um assaltante, homem pobre que, ao contrário do irmão advogado, escolheu o caminho do crime. A narrativa de Brown é brilhantemente contada em fluxo de consciência a partir do momento da morte do protagonista, engendrando uma sucessão de flashbacks que vão construindo a história. A batida (tirada de “Charisma", de Tom Browne) ganha sons de pulso cardíaco, que dialoga metalinguisticamente com o tema. A dramaticidade da saga do marginal é uma aula de escrita. Afundado nas drogas e na criminalidade, ele é morto com a mesma arma que um dia havia presenteado seu parceiro de delinquência (o Guina, único personagem que o nome mencionado). A recorrente referência ao irmão, cuja figura se confunde com a do parceiro, com a do pai e do sobrinho, é tocante, como nesta passagem, quando o criminoso, agonizando, percebe que já está na berlinda: “Meu irmão merece ser feliz/ Deve estar a essa altura/ Bem perto de fazer a formatura/ Acho que é direito, advocacia/ Acho que era isso que ele queria/ Sinceramente eu me sinto feliz/ Graças a Deus, não fez o que eu fiz/ Minha finada mãe, proteja o seu menino/ O diabo agora guia o meu destino”.

De fato, muito dos Racionais se deve à cabeça privilegiada de Mano Brown. Ele é o rapper que superou o discurso rebelado mas geralmente pouco articulado do hip hop brasileiro, abrindo caminho para gente como Emicida e Criolo. Brown é, sem medo de errar, um dos maiores escritores brasileiros da atualidade – léguas à frente de nomes celebrados da literatura como Paulo Coelho, Fabrício Carpinejar ou Martha Medeiros. Para se ter ideia, segundo pesquisa da revista Billboard Brasil do ano passado, ele figura entre os 50 artistas mais completos do país. Suas letras trazem uma improvável e incomparável mistura de consciência social e racial e ativismo político com pitadas de religiosidade católica, evanvélica e afro misturadas ao melhor português, seja o culto ou o vulgar. Tudo como muita contundência e até agressividade. “Minha palavra vale um tiro e eu tenho muita munição”, diz um de seus versos.

Essa força expressiva está no maior clássico do disco, canção de muito sucesso à época: “Diário de um Detento”. Quase uma versão musical do livro “Estação Carandiru”, de Dráuzio Varella, a música de Brown, realista e crítica, amarra a narrativa de depoimentos do ex-presidiário Jocenir. Sobre o sample de “Easin' In”, de Edwin Starr, é uma carta que perpassa o dia anterior ao massacre do Carandiru (2 de outubro de 1992) até o dia seguinte à tragédia, 3. A abertura é inesquecível: “São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8 horas da manhã/ Aqui estou, mais um dia/ Sob o olhar sanguinário do vigia/ Você não sabe como é caminhar/ Com a cabeça na mira de uma HK/ Metralhadora alemã/ Ou de Israel/ Estraçalha ladrão que nem papel”. Uma “rima preciosa” – tipo que uniformiza palavras de idiomas distintos –, vem logo na sequência: “Na muralha, em pé, mais um cidadão José/ Servindo o Estado, um PM bom/ Passa fome, metido a Charles Bronson.  Outros trechos, cujas sentenças são verdadeiros petardos, impressionam igualmente: “Sua cara fica branca desse lado do muro” ou “Já ouviu falar de Lúcifer?/ Que veio do Inferno com moral um dia/ No Carandiru, não, ele é só mais um/ Comendo rango azedo com pneumonia” ou ainda “O ser humano é descartável no Brasil/ Como Modess usado ou Bombril.”

A onomatopeia “Ratátátá”, repetida algumas vezes e que vai se avolumando no decorrer da letra, ao mesmo tempo dá a ideia do trem que passa em frente ao presídio, elemento que simboliza a tortuosa passagem do tempo na prisão, quanto o som de tiros, como um prenúncio da chacina. Ali, naquela realidade, o destino inevitável é a morte. Vendo nos noticiários as rebeliões e acontecimentos violentos ocorridos em vários presídios brasileiros nos últimos tempos, “Diário...” parece lamentavelmente atual.

Se Brown apavora com canções como esta, Edi Rock, entretanto, não fica muito para trás. Mais fraco em termos letrísticos, ele ganha na criatividade das melodias e na voz potente. “Periferia é Periferia (Em Qualquer Lugar)” é um caso: baseada num tema de Curtis Mayfield, sampleia uma série de outros rap’s brasileiros, como os pioneiros Thaíde e DJ Hum, Sistema Negro e MRN. Já “Rapaz Comum” tem uma pegada mais gangsta ao samplear Dr. Dre e Snoop Dogg, retrazendo o mote de “Tô Ouvindo...” ao relatar, na 1ª pessoa, os momentos de agonia de “um preto a mais no cemitério”. É dele também o ótimo instrumental e "Qual Mentira Vou Acreditar?", parceria com Brown e a faixa mais light do repertório. A letra conta as funções de festas e pegações, mas nem por isso deixa de tocar no tema do racismo, como nesta engraçada passagem em que Ice Blue relata a Edi um episódio em que levava uma “mina” no carro. “Eu ouvindo James Brown, pá.../ Cheio de pose/ Ela perguntou se eu tenho, o quê? Guns N' Roses?/ Lógico que não!/ A mina quase histérica/ Meteu a mão no rádio e pôs na Transamérica/ Como é que ela falou?/ Só se liga nessa/ Que mina cabulosa/ Olha só que conversa/ Que tinha bronca de neguinho de salão, (não)/ Que a maioria é maloqueiro e ladrão (aí não)/ Aí não mano! Foi por pouco/ Eu já tava pensando em capotar no soco”.

“Mágico de Oz”, outra de Edi (“Queria que Deus ouvisse a minha voz/ E transformasse aqui no mundo Mágico de Oz”), é mais um sucesso de “Sobrevivendo...”. Evidencia o mundo desamparado da mendicância infantil e a falta de esperança e horizonte de quem nasce na pobreza. Por falar em “magia”, Mano Brown manda a última joia do disco: “Fórmula Mágica da Paz”. Espécie de autobiografia, canta a reflexão do próprio autor quando se deparou com a fronteira entre o crime ou o “caminho do bem”. Com um fluxo narrativo impressionante, Brown relembra: “Não tava nem aí, nem levava nada a sério/ Admirava os ladrão e os malandro mais velho/ Mas se liga, olhe ao seu redor e me diga/ O que melhorou? Da função, quem sobrou?/ Sei lá, muito velório rolou de lá pra cá/ Qual a próxima mãe que vai chorar?”. Momentos trágicos, como o de um “rapaz comum” da comunidade que morre baleado, o fazem pensar: “Na parede o sinal da cruz/ Que porra é essa? Que mundo é esse?/ Onde tá Jesus?/ Mais uma vez um emissário/ Não incluiu Capão Redondo em seu itinerário/ Porra, eu tô confuso/ Preciso pensar/ Me dá um tempo pra eu raciocinar/ Eu já não sei distinguir quem tá errado, sei lá/ Minha Ideologia enfraqueceu/ Preto, branco, polícia, ladrão ou eu”. Os questionamentos, entretanto, logo dão lugar à consciência: “Agradeço a Deus e aos Orixás/ Parei no meio do caminho e olhei pra trás/ Meus outros manos todos foram longe de mais/ ‘Cemitério São Luis, aqui jaz’.”

“Salve” repete a base de “Jorge...”, finalizando o disco de rap mais vendido da história mesmo que por um selo independente, Cosa Nostra, ou seja, sem a estrutura de uma grande gravadora por trás. Oficialmente, foram 1,5 milhão de cópias comercializadas, porém, não se contabilizam aí os outros milhões de cópias ilegais, uma vez que se estava no auge da pirataria de CD’s no Brasil à época – nós mesmos, Lê e eu, ouvíamos um pirateado naquela fatídica noite de 1º de janeiro.

Mesmo que criticável pelo discurso de “vingança racial”, pela apologia ao ódio ou até da visão machista e homofóbica por vezes, é inegável a importância do papel que cabe aos Racionais MC’s na cultura pop brasileira nesses últimos 20 anos desde que “Sobrevivendo...” foi lançado. Afinal, uma voz calada por tanto tempo e das maneiras mais cruéis que o ser humano é capaz, caso do povo africano e seus descendentes diretos, quando posta para fora, só pode vir carregada de coisas boas e ruins. A causa dos direitos humanos é mais valiosa do que qualquer coisa quando a mesma é subvertida. A única solução é a reação. Confesso que, naquela primeira audição, o discurso maniqueísta me chocara. Mas quem sou eu, um “mano” cuja história de vida sempre teve boas condições sociais (ou seja: protegido de uma série de constrangimentos e humilhações), para julgar? Neste sentido, o rap brasileiro dos anos 90, capitaneado pelos eles, alinhou-se ao que o samba do morro representou ao longo do século XX: a resistência. Se o samba agoniza mas não morre, o rap sobrevive e mata. E se hoje se fala tanto e com propriedade de “empoderamento” das minorias e “orgulho negro”, a tal missão que os Racionais se impuseram, violentamente pacífica, foi cumprida com êxito.


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FAIXAS
1. Jorge da Capadócia (Jorge Ben)
2. Gênesis (Mano Brown)
3. Capítulo 4, Versículo 3 (Brown)
4. Tô Ouvindo Alguém Me Chamar (Brown)
5. Rapaz Comum (Edi Rock)
6. Instrumental (Rock)
7. Diário de Um Detento (Brown/ Jocenir)
8. Periferia é Periferia (Em Qualquer Lugar) (Rock)
9. Qual Mentira Vou Acreditar (Brown/Rock)
10. Mágico de Oz (Rock)
11. Formula Mágica da Paz (Brown)
12. Salve (Brown)

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OUÇA O DISCO
Racionais MC's - Sobrevivendo no Inferno




RPM - "Revoluções por Minuto" (1985)

 

Disputar em cada frequência
O espaço nosso nessa decadência
da letra de "Radio Pirata"



Meus discos são inegavelmente parte importantíssima da minha vida. Só que alguns deles, em especial, tem papel importante na minha trajetória, por marcarem fases, episódios, vínculos, etc.
O “Revoluções por Minuto” do RPM é um destes discos que carrega uma marca importante em relação à minha vida: foi o disco que me mostrou que eu gostava de rock.
Não foi o primeiro disco que eu ouvi, não foi o primeiro que comprei, não é o melhor álbum nacional e todos os tempos, muito menos o melhor-melhor mesmo de todos, só que ele apareceu em um momento de descobertas. Muita gente começou com Beatles, outros com os Pistols. Descobertas relevantes, por certo. Eu comecei com RPM.
O trouxe hoje para ouvir no carro e ainda hoje percebo o porquê de ter-me despertado para algo que nunca mais me abandonaria, e que eu também não abandonaria mais. O rock.
Mesmo com seu apelo pop quase que pré-fabricado, serviu para despertar a sensibilidade para os elementos básicos do rock, guitarra-baixo-bateria, ainda que a grande estrela instrumental da banda fosse um tecladista, Luiz Schiavon, e que os outros instrumentistas fossem bastante limitados. Mas o fato é que ali se via um vigor de banda e nela os elementos que sempre estiveram presentes no gênero através dos tempos, como a rebeldia, o protesto, a ironia, a sensualidade e até mesmo esse apelo popular mesmo (por que não?) que sempre esteve presente desde que os ídolos são ídolos.
Tudo foi meticulosamente estudado para dar certo. Paulo Ricardo, o frontman da banda, fizera na época uma espécie de estágio em Londres para compor a receita que tinha que dar certo, e fez isso em cima de fórmulas já utilizadas nas últimas décadas e a partir do cenário local do momento que era extremamente criativo e dinâmico. Figuravam naquele momento Smiths, U2, Talking Heads, Cure, rolava o finzinho da new-eave, o fim do punk, o gótico estava na moda e no fundo no fundo o RPM tinha um pouco de tudo isso.
A primeira parte do álbum, que correspondia ao que seria o lado A do LP é a parte mais pop do disco. É onde encontram-se todos os grandes hits . Um riff de guitarra marcante e pungente seguido de um teclado cuidadosamente pegajoso abrem o disco e aí está “Rádio Pirata” com um aviso de que a invasão é inevitável. “Olhar 43”, talvez o maior hit tem um tecladão meio monocórdio, soando meio automatizado, bem grave e forte no início, encaminhando para uma letra totalmente sensual e envolvente que acaba num “tesão” que na época as rádios hesitavam em deixar que aparecesse. Segue “A Cruz e a Espada” baladinha com um clarinete e que falava sobre inocência, primeira vez, e essas coisas bem identificáveis para a meninada da época. “Estação no Inferno” um pouco mais soturna que só veio a ser sucesso mesmo no ábum ao vivo que seguiu este, tinha um clima meio soturno, meio que uma influência daquele cenário londrino estudado por Paulo Ricardo. O lado A fechava com “Loiras Geladas”, outro baita sucesso também muito sensual com o teclado em destaque numa espécie de The Doors/new-wave.
Curiosamente o que correspondia ao lado B, a segunda metade do disco, que não tocou no rádio era mais criativa e complexa como por exemplo a interessante “Liberdade/Guerra Fria” meio darkzinha com toques orientais, e a excelente e dramática ode ao país “Juvenília”. “Pr’esse Vício”, talvez a mais agressiva do disco, soa bem atual com suas referências a terrorismo e confrontos religiosos, e fechando o disco, completamente sintonizada com os dias de hoje, quase 15 anos depois, vem “Revoluções por Minuto” falando de caos econômico, globalização, drogas, consumo, num mundo girando a 78 RPM.
Depois disso o álbum “Rádio Prata Ao Vivo” vendeu como água, a banda fez megashows como nenhuma outra banda nacional havia feito, deu um tempo, voltou e ainda produziu um ótimo disco, “Os Quatro Coiotes”, mas que não teve boa aceitação do grande público. Aí a banda mudou de integrantes, voltou pra alguns caça-níqueis e era isso. O que pode resumir bem a situação atual é o fato de que o criativo e bom tecladista Luiz Schiavon toca atualmente na banda do Domingão do Faustão. Precisa dizer mais?
Depois do RPM descobri que uma banda que eu achava legal mas não sabia o nome era o tal de The Smiths, que uns carinhas de preto todos descabelados eram do The Cure e assim por diante, conheci outras e gostei mais de outras. Mesmo no cenário nacional, logo veio o “Cabeça Dinossauro” e abafou o “Revoluções...”, mas não deixo de ser extremamente grato ao álbum “Revoluções por Minuto” que foi o disco que me fez gostar de rock.
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FAIXAS:
01- Radio Pirata
02- Olhar 43
03- A Cruz e a Espada
04- Estação No Inferno
05- A Furia do Sexo Fragil Contra o Dragão da Maldade
06- Louras Geladas
07- Liberdade, Guerra Fria
08- Sob a Luz do Sol
09- Juvenilia
10- Presse Vicio
11- Revoluções Por Minuto

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Ouça:
RPM Revoluções Por Minuto



R.E.M. - "Reckoning" (1984)


"Michael ouve a melodia e então escreve uma letra ou acha alguma que se encaixa. Elas são incrivelmente pessoais, coisas que aconteceram com ele, por isso, às vezes as pessoas não conseguem decifrá-las."
Mike Mills


Certa vez estava em um ônibus, passando sobre um viaduto e ouvindo o “Reckoning” do REM no walkman. Por um instante aquele som me preencheu de tal maneira, me elevou de tal modo que cheguei a dispensar minha vida por um breve momento. Disse silenciosamente, “Deus, se tu quiseres, podes fazer esse ônibus despencar deste viaduto agora mesmo, porque ter vivido até aqui e morrer ouvindo algo assim terá me bastado”. Aguardei por um momento, ouvindo a música, atento a um possível impacto na mureta e um salto no vazio, mas logo abri os olhos e vi que o ônibus já havia descido do viaduto e, ainda que houvesse chance de uma colisão logo ali a diante, parecia que Ele ignorara minha ‘permissão’. O Velho lá por sua vez deve ter dito, “larga de bobagem, menino, que ainda te reservei muita coisa. Vai, vai...”. E tudo seguiu em frente até hoje.
Colocando assim pode parecer que o “Reckoning” seja a coisa mais maravilhosa do mundo, o álbum definitivo, a obra suprema, mas não... Não é isso. É que ele consegue na sua simplicidade, na sua sutil beleza, na sua pureza, na sua, até, crueza, soar tão gostosamente, tão suficiente e tão indispensável que chega a parecer algo assim como um papo com o melhor amigo, um vento na cara, um doce saboroso, um beijo de carinho, um sono numa manhã de sábado.
Do tempo que o REM era mais bruto, mais simples, mais alternativo, mais autêntico, “Reckoning” é feito só de jóias: "Harborcoat", a primeira, é um college rock cheio de ska bem gostoso e embalado e já de cara uma das minhas prediletas ; a adorável melodia de "7 Chinese Brothers" é encantadora; a lindíssima "So. Central Rain (I'm Sorry") antecipa momentos que veríamos depois mais lapídados em "Green" e "Out of Time"; "Pretty Persuasion", talvez seja a mais pop do disco, mas o que não representa, em absoluto, um defeito; “Time After Time”, que vem em seguida com seus ares árabes-orientais, é simplesmente apaixonate; "Second Guessing" tem uma levada embalada e empolgante; a belíssima "Camera" vem nos explorando, nos ganhado, nos conquistando com seu ritmo lento até nos arrebatar de vez com a emoção e envolvimento da interpretação de Stipe; e outra das grandes do álbum, (Don't Go Back To) Rockville, é bem country, bem folk e totalmente raiz americana, aliás uma das marcas do disco, no geral.
Outro daqueles pra se ter em LP: originalmente as músicas foram distribuídas em lado direito e lado esquerdo e isso, certamente, dentro dos quebra-cabeças de letras, momentos e sonoridades montados por Michael Stipe ao longo do disco, tem também seu significado.
Felizmente Deus sequer levou em consideração minha autorização besta de criança. Se tivesse acabado ali não teria criado um blog, não visto meu time Campeão do Mundo, não teria conhecido minha esposa, não veria agora minha filha que está a caminho, entre outras tantas coisas boas (e ruins) que aconteceram desde lá. Mas mesmo assim, sem qualquer motivo efetivamente palpável ou justo, até hoje, quando pego o “Reckoning” pra ouvir não consigo deixar de pensar nele como O Disco da Vida e da Morte.
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FAIXAS:

  • Lado 1 - Esquerdo
  1. "Harborcoat" – 3:54
  2. "7 Chinese Bros." – 4:18
  3. "So. Central Rain (I'm Sorry)" – 3:15
  4. "Pretty Persuasion" – 3:50
  5. "Time After Time (AnnElise)" – 3:31
  • Lado 2 – Direito
  1. "Second Guessing" – 2:51
  2. "Letter Never Sent" – 2:59
  3. "Camera" – 5:52
  4. "(Don't Go Back To) Rockville" – 4:32
  5. "Little America" – 2:58

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Ouça:
R.E.M. Reckoning



Victorius - World War Dinosaur (2026) Alemanha

 

Se você está procurando por letras existenciais ou reflexões profundas sobre a condição humana, pare de ler agora. Mas, se a sua ideia de diversão envolve répteis pré-históricos equipados com tecnologia laser e exércitos de ninjas espaciais, os alemães do Victorius acabam de entregar o seu bilhete dourado.

Em World War Dinosaur (2026), o Victorius prova que a linha entre o ridículo e o genial é pavimentada com bumbos duplos e refrões que grudam no cérebro como chiclete em dia de calor.


Avaliação: Victorius – World War Dinosaur (2026)

A Arte de ser "Seriamente Estúpido"

A grande sacada de World War Dinosaur é o contraste. Enquanto os títulos das faixas parecem ter sido gerados por uma criança de cinco anos com excesso de açúcar, a execução musical é de um profissionalismo assustador. Seguindo a trilha de nomes como Gloryhammer e Angus McSix, o Victorius não faz "Metal de comédia"; eles fazem Power Metal de alta linhagem, apenas escolheram substituir dragões e castelos por tubarões gigantes e artilharia jurássica.

O Arsenal de Refrões

É quase criminoso o quão viciante este álbum consegue ser. A banda domina a fórmula do Power Metal melódico germânico, misturando a grandiosidade do Rhapsody of Fire com uma energia frenética que não dá descanso.

Faixa

Nível de Absurdo

Veredito Musical

"Kingdom of the Strong"

Baixo

Abertura clássica, instrumental impecável.

"Dino Race from Outer Space"

Alto

O refrão mais "chiclete" do ano. Impossível não cantar junto.

"Brachio Bazooka Battalion"

Extremo

Nome ridículo, mas um hino de guerra épico e contagiante.

"Evil Mean Megalodon"

Infantil

Eficaz e divertida; o tipo de música que você odeia amar.

"Lazer Ninja Thunderstorm"

Fora de Escala

Velocidade máxima e técnica apurada.


Destaques Líricos e Épicos

"Dino Race Oh Oh / We have come from outer space / We're the legions of the storm / We fight the evil one by one."

Sim, é simples. Sim, é bobo. Mas tente tirar isso da cabeça após a primeira audição. Faixas como "March to War" e "Prehistoric Panzer Power" mantêm o ritmo lá no alto, enquanto "Golden Glory" e "Lost Legacy" mostram o lado mais "sério" e técnico da banda, com solos de guitarra que deixariam qualquer purista de queixo caído.


O Veredito Final

World War Dinosaur é o ápice do entretenimento escapista. O Victorius entende que, às vezes, tudo o que precisamos é de uma "droga" musical altamente viciante para esquecer a realidade sombria do mundo. Se você tem um pingo de espírito jovem (ou é apenas um adulto que se recusa a crescer), este é, sem dúvida, o álbum mais descaradamente cativante de 2026.

Nota: 9.0/10

"A qualidade das músicas é inversamente proporcional à seriedade dos seus títulos. O Victorius não quer que você pense; eles querem que você monte em um triceratops e vá para a guerra."


Destaques: "Dino Race from Outer Space", "March to War", "Lost Legacy".

Recomendado para: Fãs de Gloryhammer, Freedom Call, Dragonforce e qualquer pessoa que ache que falta um pouco mais de "bazucas" na paleontologia.


Temas:

1. Kingdom of the Strong 03:45
2. World War Dinosaur 04:15
3. Dino Race from Outer Space 03:16
4. Raptor Squad Attack 02:35
5. Brachio Bazooka Battalion 03:46
6. March to War 03:49
7. Evil Mean Megalodon 04:06
8. Dino Power Resistance 03:42
9. Prehistoric Panzer Power 03:59
10. Lazer Ninja Thunderstorm 03:00
11. Golden Glory 03:24
12. Lost Legacy 04:24

Banda:

Frank Koppe - Drums
Florian Zack - Guitars
Andreas Dockhorn - Bass
Dirk Scharsich - Guitars
David Bassin - Vocals



Destaque

Racionais MC’s – “Sobrevivendo no Inferno” (1997)

  “Refrigere minha alma e guia-me pelo caminho da justiça.”   –  Salmo 23, capítulo 3 “Ilumina minha alma, louvado seja o meu senhor/ Que nã...