MUSICA&SOM
MUSICA É VIDA
domingo, 19 de abril de 2026
Racionais MC’s – “Sobrevivendo no Inferno” (1997)
RPM - "Revoluções por Minuto" (1985)
Meus discos são inegavelmente parte importantíssima da minha vida. Só que alguns deles, em especial, tem papel importante na minha trajetória, por marcarem fases, episódios, vínculos, etc.
O “Revoluções por Minuto” do RPM é um destes discos que carrega uma marca importante em relação à minha vida: foi o disco que me mostrou que eu gostava de rock.
Não foi o primeiro disco que eu ouvi, não foi o primeiro que comprei, não é o melhor álbum nacional e todos os tempos, muito menos o melhor-melhor mesmo de todos, só que ele apareceu em um momento de descobertas. Muita gente começou com Beatles, outros com os Pistols. Descobertas relevantes, por certo. Eu comecei com RPM.
O trouxe hoje para ouvir no carro e ainda hoje percebo o porquê de ter-me despertado para algo que nunca mais me abandonaria, e que eu também não abandonaria mais. O rock.
Mesmo com seu apelo pop quase que pré-fabricado, serviu para despertar a sensibilidade para os elementos básicos do rock, guitarra-baixo-bateria, ainda que a grande estrela instrumental da banda fosse um tecladista, Luiz Schiavon, e que os outros instrumentistas fossem bastante limitados. Mas o fato é que ali se via um vigor de banda e nela os elementos que sempre estiveram presentes no gênero através dos tempos, como a rebeldia, o protesto, a ironia, a sensualidade e até mesmo esse apelo popular mesmo (por que não?) que sempre esteve presente desde que os ídolos são ídolos.
Tudo foi meticulosamente estudado para dar certo. Paulo Ricardo, o frontman da banda, fizera na época uma espécie de estágio em Londres para compor a receita que tinha que dar certo, e fez isso em cima de fórmulas já utilizadas nas últimas décadas e a partir do cenário local do momento que era extremamente criativo e dinâmico. Figuravam naquele momento Smiths, U2, Talking Heads, Cure, rolava o finzinho da new-eave, o fim do punk, o gótico estava na moda e no fundo no fundo o RPM tinha um pouco de tudo isso.
A primeira parte do álbum, que correspondia ao que seria o lado A do LP é a parte mais pop do disco. É onde encontram-se todos os grandes hits . Um riff de guitarra marcante e pungente seguido de um teclado cuidadosamente pegajoso abrem o disco e aí está “Rádio Pirata” com um aviso de que a invasão é inevitável. “Olhar 43”, talvez o maior hit tem um tecladão meio monocórdio, soando meio automatizado, bem grave e forte no início, encaminhando para uma letra totalmente sensual e envolvente que acaba num “tesão” que na época as rádios hesitavam em deixar que aparecesse. Segue “A Cruz e a Espada” baladinha com um clarinete e que falava sobre inocência, primeira vez, e essas coisas bem identificáveis para a meninada da época. “Estação no Inferno” um pouco mais soturna que só veio a ser sucesso mesmo no ábum ao vivo que seguiu este, tinha um clima meio soturno, meio que uma influência daquele cenário londrino estudado por Paulo Ricardo. O lado A fechava com “Loiras Geladas”, outro baita sucesso também muito sensual com o teclado em destaque numa espécie de The Doors/new-wave.
Curiosamente o que correspondia ao lado B, a segunda metade do disco, que não tocou no rádio era mais criativa e complexa como por exemplo a interessante “Liberdade/Guerra Fria” meio darkzinha com toques orientais, e a excelente e dramática ode ao país “Juvenília”. “Pr’esse Vício”, talvez a mais agressiva do disco, soa bem atual com suas referências a terrorismo e confrontos religiosos, e fechando o disco, completamente sintonizada com os dias de hoje, quase 15 anos depois, vem “Revoluções por Minuto” falando de caos econômico, globalização, drogas, consumo, num mundo girando a 78 RPM.
Depois disso o álbum “Rádio Prata Ao Vivo” vendeu como água, a banda fez megashows como nenhuma outra banda nacional havia feito, deu um tempo, voltou e ainda produziu um ótimo disco, “Os Quatro Coiotes”, mas que não teve boa aceitação do grande público. Aí a banda mudou de integrantes, voltou pra alguns caça-níqueis e era isso. O que pode resumir bem a situação atual é o fato de que o criativo e bom tecladista Luiz Schiavon toca atualmente na banda do Domingão do Faustão. Precisa dizer mais?
Depois do RPM descobri que uma banda que eu achava legal mas não sabia o nome era o tal de The Smiths, que uns carinhas de preto todos descabelados eram do The Cure e assim por diante, conheci outras e gostei mais de outras. Mesmo no cenário nacional, logo veio o “Cabeça Dinossauro” e abafou o “Revoluções...”, mas não deixo de ser extremamente grato ao álbum “Revoluções por Minuto” que foi o disco que me fez gostar de rock.
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FAIXAS:
01- Radio Pirata
02- Olhar 43
03- A Cruz e a Espada
04- Estação No Inferno
05- A Furia do Sexo Fragil Contra o Dragão da Maldade
06- Louras Geladas
07- Liberdade, Guerra Fria
08- Sob a Luz do Sol
09- Juvenilia
10- Presse Vicio
11- Revoluções Por Minuto
R.E.M. - "Reckoning" (1984)
Certa vez estava em um ônibus, passando sobre um viaduto e ouvindo o “Reckoning” do REM no walkman. Por um instante aquele som me preencheu de tal maneira, me elevou de tal modo que cheguei a dispensar minha vida por um breve momento. Disse silenciosamente, “Deus, se tu quiseres, podes fazer esse ônibus despencar deste viaduto agora mesmo, porque ter vivido até aqui e morrer ouvindo algo assim terá me bastado”. Aguardei por um momento, ouvindo a música, atento a um possível impacto na mureta e um salto no vazio, mas logo abri os olhos e vi que o ônibus já havia descido do viaduto e, ainda que houvesse chance de uma colisão logo ali a diante, parecia que Ele ignorara minha ‘permissão’. O Velho lá por sua vez deve ter dito, “larga de bobagem, menino, que ainda te reservei muita coisa. Vai, vai...”. E tudo seguiu em frente até hoje.
Colocando assim pode parecer que o “Reckoning” seja a coisa mais maravilhosa do mundo, o álbum definitivo, a obra suprema, mas não... Não é isso. É que ele consegue na sua simplicidade, na sua sutil beleza, na sua pureza, na sua, até, crueza, soar tão gostosamente, tão suficiente e tão indispensável que chega a parecer algo assim como um papo com o melhor amigo, um vento na cara, um doce saboroso, um beijo de carinho, um sono numa manhã de sábado.
Do tempo que o REM era mais bruto, mais simples, mais alternativo, mais autêntico, “Reckoning” é feito só de jóias: "Harborcoat", a primeira, é um college rock cheio de ska bem gostoso e embalado e já de cara uma das minhas prediletas ; a adorável melodia de "7 Chinese Brothers" é encantadora; a lindíssima "So. Central Rain (I'm Sorry") antecipa momentos que veríamos depois mais lapídados em "Green" e "Out of Time"; "Pretty Persuasion", talvez seja a mais pop do disco, mas o que não representa, em absoluto, um defeito; “Time After Time”, que vem em seguida com seus ares árabes-orientais, é simplesmente apaixonate; "Second Guessing" tem uma levada embalada e empolgante; a belíssima "Camera" vem nos explorando, nos ganhado, nos conquistando com seu ritmo lento até nos arrebatar de vez com a emoção e envolvimento da interpretação de Stipe; e outra das grandes do álbum, (Don't Go Back To) Rockville, é bem country, bem folk e totalmente raiz americana, aliás uma das marcas do disco, no geral.
Outro daqueles pra se ter em LP: originalmente as músicas foram distribuídas em lado direito e lado esquerdo e isso, certamente, dentro dos quebra-cabeças de letras, momentos e sonoridades montados por Michael Stipe ao longo do disco, tem também seu significado.
Felizmente Deus sequer levou em consideração minha autorização besta de criança. Se tivesse acabado ali não teria criado um blog, não visto meu time Campeão do Mundo, não teria conhecido minha esposa, não veria agora minha filha que está a caminho, entre outras tantas coisas boas (e ruins) que aconteceram desde lá. Mas mesmo assim, sem qualquer motivo efetivamente palpável ou justo, até hoje, quando pego o “Reckoning” pra ouvir não consigo deixar de pensar nele como O Disco da Vida e da Morte.
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FAIXAS:
- Lado 1 - Esquerdo
- "Harborcoat" – 3:54
- "7 Chinese Bros." – 4:18
- "So. Central Rain (I'm Sorry)" – 3:15
- "Pretty Persuasion" – 3:50
- "Time After Time (AnnElise)" – 3:31
- Lado 2 – Direito
- "Second Guessing" – 2:51
- "Letter Never Sent" – 2:59
- "Camera" – 5:52
- "(Don't Go Back To) Rockville" – 4:32
- "Little America" – 2:58
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Ouça:
R.E.M. Reckoning
Victorius - World War Dinosaur (2026) Alemanha

Se você está procurando por letras existenciais ou reflexões profundas sobre a condição humana, pare de ler agora. Mas, se a sua ideia de diversão envolve répteis pré-históricos equipados com tecnologia laser e exércitos de ninjas espaciais, os alemães do Victorius acabam de entregar o seu bilhete dourado.
Em World War Dinosaur (2026), o Victorius prova que a linha entre o ridículo e o genial é pavimentada com bumbos duplos e refrões que grudam no cérebro como chiclete em dia de calor.
Avaliação: Victorius – World War Dinosaur (2026)
A Arte de ser "Seriamente Estúpido"
A grande sacada de World War Dinosaur é o contraste. Enquanto os títulos das faixas parecem ter sido gerados por uma criança de cinco anos com excesso de açúcar, a execução musical é de um profissionalismo assustador. Seguindo a trilha de nomes como Gloryhammer e Angus McSix, o Victorius não faz "Metal de comédia"; eles fazem Power Metal de alta linhagem, apenas escolheram substituir dragões e castelos por tubarões gigantes e artilharia jurássica.
O Arsenal de Refrões
É quase criminoso o quão viciante este álbum consegue ser. A banda domina a fórmula do Power Metal melódico germânico, misturando a grandiosidade do Rhapsody of Fire com uma energia frenética que não dá descanso.
Faixa | Nível de Absurdo | Veredito Musical |
"Kingdom of the Strong" | Baixo | Abertura clássica, instrumental impecável. |
"Dino Race from Outer Space" | Alto | O refrão mais "chiclete" do ano. Impossível não cantar junto. |
"Brachio Bazooka Battalion" | Extremo | Nome ridículo, mas um hino de guerra épico e contagiante. |
"Evil Mean Megalodon" | Infantil | Eficaz e divertida; o tipo de música que você odeia amar. |
"Lazer Ninja Thunderstorm" | Fora de Escala | Velocidade máxima e técnica apurada. |
Destaques Líricos e Épicos
"Dino Race Oh Oh / We have come from outer space / We're the legions of the storm / We fight the evil one by one."
Sim, é simples. Sim, é bobo. Mas tente tirar isso da cabeça após a primeira audição. Faixas como "March to War" e "Prehistoric Panzer Power" mantêm o ritmo lá no alto, enquanto "Golden Glory" e "Lost Legacy" mostram o lado mais "sério" e técnico da banda, com solos de guitarra que deixariam qualquer purista de queixo caído.
O Veredito Final
World War Dinosaur é o ápice do entretenimento escapista. O Victorius entende que, às vezes, tudo o que precisamos é de uma "droga" musical altamente viciante para esquecer a realidade sombria do mundo. Se você tem um pingo de espírito jovem (ou é apenas um adulto que se recusa a crescer), este é, sem dúvida, o álbum mais descaradamente cativante de 2026.
Nota: 9.0/10
"A qualidade das músicas é inversamente proporcional à seriedade dos seus títulos. O Victorius não quer que você pense; eles querem que você monte em um triceratops e vá para a guerra."
Destaques: "Dino Race from Outer Space", "March to War", "Lost Legacy".
Recomendado para: Fãs de Gloryhammer, Freedom Call, Dragonforce e qualquer pessoa que ache que falta um pouco mais de "bazucas" na paleontologia.
Temas:
1. Kingdom of the Strong 03:45
2. World War Dinosaur 04:15
3. Dino Race from Outer Space 03:16
4. Raptor Squad Attack 02:35
5. Brachio Bazooka Battalion 03:46
6. March to War 03:49
7. Evil Mean Megalodon 04:06
8. Dino Power Resistance 03:42
9. Prehistoric Panzer Power 03:59
10. Lazer Ninja Thunderstorm 03:00
11. Golden Glory 03:24
12. Lost Legacy 04:24
Banda:
Frank Koppe - Drums
Florian Zack - Guitars
Andreas Dockhorn - Bass
Dirk Scharsich - Guitars
David Bassin - Vocals
Destaque
Racionais MC’s – “Sobrevivendo no Inferno” (1997)
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