sábado, 30 de maio de 2026

PAUL McCARTNEY - TOO MUCH RAIN

 


“Too Much Rain” é a sétima faixa do álbum de Chaos and Creation in the Backyard, lançado por Paul McCartney em 2005. Foi gravada no George Martin's Air Studios no centro de Londres com o produtor Nigel Godrich. Foi inspirada no tema do filme "Modern Times" de 1936, escrito por Charlie Chaplin e comumente conhecido como “Smile

”.

Em 1936, Charles Chaplin estrelaria um de seus mais populares filmes “Modern Times”. Para esta produção, Chaplin compôs especialmente a melodia da canção "Smile", sendo que a letra só seria adicionada à música em 1954, pelos compositores John Turner e Geoffrey Parsom. Assim como fizera com Golden Slumbers do álbum Abbey Road, Paul McCartney escreveu a letra de "Too Much Rain" baseada no espírito de Smile: “Smile though your heart is aching, Smile even tho i’ts breaking, When there are clouds in the sky, You'll get by” (Sorria, embora, seu coração esteja doendo. Sorria mesmo que ele estiver se repartindo. Quando há nuvens no céu, você irá prosseguir). Em "Too Much Rain", Paul diz "Smile when your eyes are burning, Laugh when your heart is filled with pain. Sigh when you think about tomorrow, Make a vow that its not going to happen again. Its not right, in one life, too much rain” (Sorria quando seus olhos estiverem ardendo, ria quando seu coração estiver cheio de dor. Suspire, quando você pensar no amanhã. Faça uma promessa que isso não se repetirá. Não é certo, em uma só vida, chuva demais". A inspiração, além de Smile, vem de acontecimentos verdadeiros na vida de Paul McCartney. Assim como "How Kind of You", a letra de "Too Much Rain" reflete suas perdas recentes, como as mortes de Linda e George Harrison.


PAUL McCARTNEY - FINE LINE

 


"Fine Line" é uma música de Paul McCartney, lançada como primeiro single do excelente "Chaos and Creation in the Backyard" de 2005, que vendeu um milhão e meio de cópias em todo o mundo. Alcançou o número 20 no Reino Unido e número 31 nos Estados Unidos, mas chegou ao número 1 no Japão. "Fine Line", foi a faixa escolhida por Paul e o produtor Nigel Godrich para abrir o discão e já dizendo a que veio, mostrando que esse é um álbum com o selo "McCartney" de qualidade.

"Fine Line" conta com um belo arranjo de Joby Talbot e mostra características que atravessarão todo o disco como as marcantes participações das cordas de Millenia Ensemble. "Chaos And Creation In The Backyard", foi o 20º álbum de estúdio de Paul McCartney. O disco de 13 faixas foi co-produzido por Godrich/McCartney e gravado em Londres e Los Angeles entre 2003 e 2005. Por sugestão de George Martin, a produção ficou a cargo de Nigel Godrich, colaborador de Beck e Radiohead. Paul toca praticamente todos os instrumentos, marcando de certa forma o retorno ao formato do álbum McCartney (1970), e sua sequência McCartney II (1980). Não deixe de conferir a superpostagem  de 10 de novembro de 2017.


JOHN LENNON - YOU ARE HERE - 1973

 


"You Are Here" é uma canção romântica escrita por John Lennon para Yoko Ono. Foi lançada como a penúltima faixa do álbum Mind Games, de  Lennon, em 2 de novembro de 1973 nos Estados Unidos e 16 de novembro de 1973 no Reino Unido. Magoado pela reação pública e crítica contra Some Time In New York City, Lennon se afastou da política radical e do ativismo. Deixou de gravar por um bom tempo e continuou sua luta para permanecer nos Estados Unidos.


Em maio de 1973, ele e Yoko Ono mudaram-se de Greenwich Village para um apartamento de 12 quartos no Dakota, perto do Central Park de Manhattan. O casal estava se separando, entretanto, ela se ocupou gravando os álbuns Approximately Infinite Universe e Feeling The Space. Lennon trabalhou em uma série de ideias para músicas que gravou em forma de demo, mas estava ciente de que sua confiança como músico havia sofrido um abalo. Faltava a criatividade ilimitada que impulsionou seus primeiros trabalhos solo, mas ele começou a criar um conjunto de canções sólidas, mas pouco inspiradas. Usando muitos dos mesmos músicos que Ono empregou em Feeling The Space, Lennon entrou no estúdio Record Plant de Nova York para começar a trabalhar no álbum. Mind Games foi concluído em um período de cerca de duas semanas, produzido pelo próprio Lennon. A banda foi creditada como Plastic UFOno Band. John Lennon: vocals e guitarra; David Spinozza: guitarra; Peter E ‘Sneaky Pete’ Kleinow: guitarra de pedal de aço; Ken Ascher: teclados; Gordon Edwards: baixo; e Jim Keltner: bateria. Novamente os backing vocals ficam por conto do coral Something Different.


Várias das músicas, inevitavelmente, eram sobre Ono e estavam entre as mais eficazes do álbum. "Out The Blue", "Aisumasen (I'm Sorry)" e "I Know (I Know)" detalharam seu arrependimento por perdê-la, enquanto "One Day (At A Time)" e "You Are Here" exploraram o tema de dois amantes infelizes destinados a ficar juntos.


"You Are Here" foi uma das canções de amor mais sinceras, melancólicas e poéticas de Lennon. O título foi retirado de uma exposição de arte que ele realizou na Robert Fraser Gallery, em Londres, em julho de 1968. A exposição foi publicamente dedicada à sua então namorada Yoko Ono. A peça central da mostra era uma tela circular branca na qual estavam escritas as palavras “Você está aqui”. Lennon e Elephant's Memory usaram camisetas com a frase em 1972, durante a promoção do álbum Some Time In New York City, sugerindo que ele ainda gostava da frase.


Na letra, Lennon preocupava-se com a união de duas culturas, duas pessoas, como uma só. Continham uma reformulação da máxima de Rudyard Kipling de que “Oriente é Oriente, e Ocidente é Ocidente, e nunca os dois se encontrarão”. Lennon afirmava que dois se encontrarão: “De terras distantes, uma mulher, um homem / Deixe os quatro ventos soprarem”. Também havia ecos de um antigo ensinamento: “Onde quer que você vá, você está aqui”.



THE BEATLES MEETS ELVIS - ENCONTRO DE GIGANTES

 


Desde que os jovens garotos de Liverpool, que um dia se tornariam Os Beatles, começaram a se interessar verdadeiramente por música, Elvis foi sem dúvida, uma de suas primeiras referências. Quando as coisas começaram a ficar melhores, e eles começaram a ganhar algum dinheiro, todos vislumbraram uma chance de algum dia poderem se encontrar com o Rei do Rock. Esse dia chegou na noite de 27 de agosto de 1965. Mas ao contrário de qualquer expectativa, esse encontro não foi uma festa. Os Beatles estavam apreensivos e Elvis estava inseguro e se mostrou na defensiva o tempo inteiro.

O encontro entre as duas maiores estrelas da música pop do século XX, foi marcado para aquele dia 27 de agosto de 1965, depois de muitos telefonemas entre Brian Epstein e o Coronel Tom Parker. A visita dos Beatles ao rei do rock aconteceu em sua casa, em Bel Air. Não existem muitas evidências, até hoje, de qualquer produto áudio/visual relevante. A única imagem alusiva ao encontro de Elvis com os Beatles é uma foto em que John Lennon aparece saindo da casa de Elvis. Anos mais tarde apareceu uma outra onde Elvis aparece segurando um baixo e John sua rickenbaker. No documentário The Beatles Anthology, de 1996, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, dizem que jamais tocaram com Elvis, e que somente John o fizera. Ringo, disse ter jogado futebol com Elvis. Hahaha.


Para lembrar os 58 anos do famoso encontro entre os maiores gigantes da música pop, a gente confere com exclusividade, um trecho do excelente livro “The Beatles – A Biografia” de Bob Spitz.


"Coisas estranhas abundavam em Los Angeles. Primeiro, a polícia se recusou a cooperar com os Beades, dizendo que "não poderia se responsabilizar pela segurança deles". Depois, Phil Spector os convidou a ir à sua mansão e fez uma apresentação de drogas e armas. Ambas as circunstâncias proporcionaram alguns momentos incômodos para os rapazes, mas nada que pudesse competir com a visita a Elvis. Havia mais de um ano que Brian e o Coronel Parker estavam tentando agendar um encontro entre seus megaastros, tendo apenas os egos — gigantescos egos — deles como empecilho. "Ávido para proteger o prestígio de seus artistas", nenhum dos empresários queria piscar primeiro quanto à decisão de quem aceitaria o convite do outro. Afinal, os Beatles cederam, concordando em fazer uma visita ao rei.Elvis tinha acabado de voltar de Honolulu, onde havia filmado Feitiço havaiano (Blue Hawaii), e estava encafuado com a máfia de Memphis numa casa alugada em Bel-Air. Quando os Beatles chegaram, um pouco depois das 10 horas da noite, em 27 de agosto, eles estavam "rindo [...] histéricos", parte pelo nervosismo, do qual todos sofriam, parte pelos baseados que tinham compartilhado no carro. A casa era muito, muito grande e extravagante — "como uma boate", pensou John. Lá dentro, Elvis estava acomodado soberanamente em um enorme sofá em formato de ferradura — o rei, maior que o mundo, com uma blusa vermelha por baixo de uma jaqueta preta justa e calças pretas. Com um braço, ele enlaçava sua rainha, Priscilla Beaulieu, e em volta estavam seus fiéis escudeiros: Joe Esposito, Marty Lacker, Billy Smith, Jerry Schilling, Alan Fortas e Sonny West. Talvez mais do que todos, John ficou abalado pela visão de seu ídolo de infância. Antes que ele comprasse um violão, antes do skiffle, antes de Paul, George e Stu, antes de sua própria odisseia pop, John tinha escutado "Heartbreak Hotel" e descobrira que "aquilo era o máximo para mim". Agora, John recorria a brincadeiras, encenações, e a falar sem parar como se fosse o inspetor Closeau. "Ah, entom esse é você!", ele brincou, tentando fazer um sotaque e olhando distraidamente para o anfitrião por sobre os óculos. Os outros Beates estavam atônitos, olhando em volta para o cenário ao estilo de Las Vegas, com mesas de bilhar e carteado, além de roletas que entulhavam o lugar. Uma.jukebox bem-abastecida ronronava num canto. A sala era banhada por uma luz vermelha e azul, o que criava a aparência de uma boate barata. Ninguém sabia o que fazer ou dizer. Após um breve e embaraçoso silêncio, Elvis os chamou para se sentar ao lado dele, mas se cansou dos olhares vazios dos Beatles — "Era a adoração de um herói de alto nível", admitiu Paul - e começou a zapear nervosamente pelos canais do aparelho de televisão, que tinha o tamanho de uma parede. "Se vocês vão ficar aí parados só olhando pra mim, eu vou pra cama", bufou Elvis, jogando o controle remoto na mesa de café. Virando-se para a namorada, ele disse: "Por hoje é só, certo, Cilla? Não queria que isto aqui acabasse como um bando de súditos visitando o rei. Achei que íamos relaxar, conversar sobre música e tocar um pouco". "Isso seria ótimo", disse Paul, sugerindo que tentassem tocar uma música da "outra Cilla" — Cilla Black —, e nesse momento surgiram guitarras e um piano branco, além de bebidas. "Nós plugamos os instrumentos, tocamos e cantamos... "You’re My World'", lembra-se John. Soltando-se aos poucos, eles emendaram alguns dos sucessos de Presley - "That's All Right (Mama)" e "Blue Suede Shoes", com Elvis levando a melodia e Paul improvisando ao piano -, e encerraram com "I Feel Fine". A essa altura, John havia passado para um tom mais espinhento. "Ê assim que isso deverria ser", ele arremedou não se sabe quem, "uma pequena rreuniom caseirra com alguns amigos e um poco de musique." Chris Hutchins, que relembrou a visita em sua crônica de 1994, Elvis Meets The Beatles, escreveu que além do falso sotaque francês, John cutucou Elvis grosseiramente — e nada menos que na frente de seus amigos —, mencionando sua falta de pegada, os compactos melosos que lançara depois de servir o exército, e sua série de filmes-pipoca. "Pode ser que eu grave algumas coisas e derrube vocês", disse Elvis, dando de ombros, sentindo-se pressionado a responder. Ninguém conseguia dissipar as "sutilezas incómodas [...] e a alegria superficial" que pontuaram a noite até um pouco depois das 2 da madrugada, quando os Beades finalmente partiram. "Agradeço pela música", disse John, indo embora, e então gritou: "Longa vida ao Rei!" No dia seguinte, a multidão de jornalistas famintos que cobria a turnê atacou o assunto do encontro histórico, que foi exposto à imprensa — e organizado, em grande parte, para agradar aos dois empresários — por Tony Barrow. Os jornalistas foram abas-tecidos com volumes generosos de citações de cada um dos Beates, que tropeçaram uns nos outros na pressa de cumprimentar o ídolo. Apenas em particular, John viria a admitir como realmente se sentiu. "Foi um monte de baboseira", ele concluiu. "Foi como visitar Englebert Humperdinck".*


Shylock - Gialorgues (1976/1977)

 

A década de 1970 foi prolífica para o rock francês, sobretudo para a cena progressiva. Pode parecer óbvio e, de fato, é, haja vista que o rock progressivo em toda a Europa, teve um terreno fértil. Mas voltando à França, foi a época da explosão, de um dia para outro, muitos álbuns soberbos foram lançados, seja por grandes e famosas bandas ou pelas bandas obscuras, que trafegavam pelo underground.

E a moda estava focada nas composições complexas, trabalhos conceituais, trazendo como referência bandas como King Crimson, Gentle Giant, Van Der Graaf Generator e não aqueles ritmos binários tradicionais do rock inglês ou norte-americano, por exemplo. Não era música para intelectuais, era uma música mais reflexiva, mais contemplativa, mais complexa, mas, ainda assim, acessível.

E eu preciso falar de uma banda que, apesar de não ter gozado de sucesso comercial, foi muito importante para a cena progressiva francesa, apesar também de não ter tido uma trajetória longeva e uma discografia vasta. Falo do SHYLOCK.

A história do Shylock começou no final de junho de 1974, quando dois músicos da região de Nice, então com apenas dezoito anos, Didier Lustig e André Fisichella, decidiram deixar a banda local “Fusion”. Tal banda tocava covers dos consagrados Deep Purple e Uriah Heep. Eles achavam que era a hora e o momento de criar a sua própria música, fazer música autoral e mais: desbravar a música progressiva!

Lustig teve aulas de piano desde os oito anos de idade e no Fusion tocava órgão elétrico, que rapidamente dominou aos dezesseis anos. Fisichella aprendeu a tocar mais tarde, somente aos quatorze anos de idade. Quando entrou no Fusion sua experiência como músico era de apenas dois anos!

Eles começaram a procurar outros músicos para materializarem seu projeto de fazer música progressiva. Foi quando notaram um anúncio em uma loja de instrumentos musicais de um jovem guitarrista que procurava outros músicos para montar também uma banda de rock progressivo. Esse guitarrista era Fredéric L’Epee.

Fredéric, um músico autodidata, tocava em outra banda local chamada Highway Park que também se dedicava a tocar músicas de bandas covers inglesas e esses três jovens músicos se conheceram, finalmente, em 1º de julho de 1974 e se deram bem imediatamente, afinal tinham as mesmas aspirações, de tocar um rock n’ roll incomum e ambicioso. E não faltava, aos jovens, energia e inspiração para isso.

E foi assim que surgiu o Shylock, exatamente um dia depois desses três caras se conhecerem na casa de Fredéric, em 2 de junho de 1974. Fredéric também tinha um sintetizador Elka, no qual ele mesmo ensaiava, mas ao ouvir como Didier tocava, imediatamente confiou o instrumento a ele.

Cabe aqui uma curiosidade: “Shylock” é um personagem fictício da peça de William Shakespeare, “O Mercador de Veneza” (1600). Um judeu veneziano, Shylock é o principal antagonista da peça. Sua derrota e conversão ao cristianismo são o ápice da história. E essa história migraria do palco teatral para o campo do rock progressivo da França dando nome a uma banda que nascia.

No dia 4 de julho, eles saem de férias de verão para a pequena vila de St. Dalmas-Le-Selvajs, onde Didier passou a sua infância, para ensaiar e já desenvolver seu repertório. Eles convenceram o prefeito a deixá-los ensaiar na igreja local pelos próximos dois meses, período que duraria as suas férias. Assim a igreja foi o primeiro ponto de ensaio do Shylock em sua história.

A igreja

Assim, em um cantinho do paraíso nos Alpes, longe de todas as vaidades mundanas, os jovens músicos começaram a criar a sua própria música. A combinação de improvisações constantes, natureza exuberante e isolamento completo resultou em uma verdadeira fonte de ideias e criatividade ilimitada. As suas principais músicas surgiram de longas e frutíferas improvisações, não havia objetivos estilísticos específicos. Todos propuseram ideias para os amigos, todos trabalharam juntos, mudaram algo, adicionaram, removeram, até que a composição assumisse a forma que todos gostariam.

No fim, a banda tinha várias composições, que os próprios caras distinguiam apenas pelos números. O fato é que os músicos tocavam música instrumental, e desde as primeiras apresentações as chamavam de “Primeira”, “Segunda”, “Terceira”, entre si. Ao mesmo tempo, uma composição podia fluir suavemente para outra e poucas pessoas conseguiam separá-las com precisão.

Quando o verão acabou e os jovens retornaram para Nice, onde todos estudavam na universidade, começaram a procurar o quarto músico para a banda, um baixista. Procuraram por muito tempo, mas sem sucesso. Então decidiram que o formato de um trio tinha seu próprio estilo e entusiasmo. E assim ficou a formação do Shylock: Frédéric L'Épée na guitarra e baixo, Didier Lustig nos teclados, piano e sintetizadores e André Fisichella na bateria e percussão.

Shylock

Na mesma época a banda foi contatada pelo ex-empresário do Fusion, Christian Guttennoir, que lhes ofereceu a chance de se tornar se empresário. Ele tinha experiência e parte da banda já conhecia o trabalho dele e confiavam em Christian. Então a resposta deles era óbvia.

A terceira visita à vila ocorreu durante as férias da Páscoa, quando as composições “Quinta” e “Sexta” foram criadas. Enquanto isso Crristian já havia planejado, negociado os primeiros shows do Shyock e que aconteceriam no mesmo clube da cidade. A primeira aparição, a primeira apresentação oficial aconteceu em 7 de abril de 1975, diante de uma plateia de 300 pessoas na Maison des Jeunes de Magnan, em Nice. 

Em junho daquele mesmo ano seria na Faculdade de Letras, nos arredores de Nice e Cannes. O feedback do público foi positivo e até mesmo entusiasmado, mesmo com o lado complexo e as longas improvisações das músicas. Os soundchecks pré-show são feitos por amigos da banda. Os músicos até tinham alguma grana para custear seu próprio show de luzes, embora eles próprios preferissem se concentrar na performance.

O álbum também foi mixado várias vezes, até que a versão final deste foi editada em Lyon. Tudo terminou simplesmente com o fato de que as pessoas responsáveis pela mixagem decidiram não convidar os músicos, assim haveria menos disputas. De todo o longo repertório, apenas as composições “Quarta”, “Quinta” e “Sexta” foram preservadas, descartando as três primeiras, que foram consideradas “ingênuas” demais. E o “Quarto” ficou principalmente porque Didier fez maravilhas com o sintetizador Elka, emulando os sons do cravo e dos violinos logo no início da composição.

No entanto, os próprios músicos não gostaram do que ouviram. Eles sentiram que o espírito e o som da banda não foram transmitidos de forma convincente. Músicos perfeccionistas eram eles! Mas decidiram conviver com isso e seguir! O álbum foi chamado de “Gialorgues” e é dele que falaremos nesse texto. O nome foi em homenagem à montanha cujo pico era visível pelas janelas da igreja em St. Dalmas-Les-Selvajs, onde toda a música aparecia. E na capa colocaram a imagem da igreja onde compuseram as músicas que o amigo da banda, Jean Charles Cohen, havia desenhado para eles.

Após a gravação a banda começou a procurar uma gravadora para lançar o álbum. Enquanto isso eles autoproduziram e imprimiram 1.500 cópias. Assim o lançamento foi inteiramente independente, feito pela própria banda, em 1976. O Shylock ofereceu parte dessas cópias para as lojas na Costa e para rádios locais. A recepção foi boa e a imprensa especializada do Sul dedicou alguns artigos e matérias a eles. O álbum também foi enviado para as revistas especializadas em rock n’ rollBest, Extra, Rock & Folk”. O Shylock apareceria na TV, em Monte Carlo.

Christian, o empresário, que havia se ausentado por conta do serviço militar, em 1976, retorna e vai à Paris apresentar o álbum para os grandes selos. A CBS decidiu lançar o álbum. A negociação com este selo, mais precisamente com o seu gerente, Eric Brücker, foi tão proveitosa que o mesmo ofereceu aos músicos um contrato para álbuns futuros. Assim a CBS relançaria “Gialorgues” no início de 1977, mantendo tanto a mixagem quanto a capa intacta. E como propaganda, lançaram um single onde colocaram alguns trechos das composições "Quarta" e "Sexta". Foram 3.000 cópias lançadas no mercado.

“Gialorgues” entrega uma música bela e complexa ao mesmo tempo, rica em melodias poderosas que se rompem para se reformar melhor, atmosférica em suas criações, encantadora, melancólica, hipnótica, repetitiva. Um progressivo sinfônico, experimental, calcado no excelente instrumental de seus músicos, mostrando uma habilidade técnica que os colocava acima da maioria dos seus contemporâneos. Um álbum soberbo, sombrio, orgânico, mas complexo, vivo, latente, intenso e dramático.

A abertura do álbum se dá com a faixa "Le Quatrième" (A “Quarta”) e faz uma viagem exuberante de música clássica, com os teclados melódicos e tilintantes que fornecem a base para a dissonância da guitarra e os exercícios técnicos da bateria, em uma levada meio jazz, em seguida. Aqui se percebem ganchos melódicos adoráveis, que me remeteu a algo leve e arejado, contrastando com a arte da capa sombria e até mesmo ameaçadora, mesmo se tratando da igreja em que a música foi concebida.

"Le Quatrième"

Na sequência tem a faixa "Le Sixième" (A “Sexta”) que, curta, é basicamente uma marcha militar de quase quatro minutos de duração. Os teclados me pareceram abafado nessa música, com uma guitarra pesada sobrevoando baixo e bateria. Para uma música curta, tem até um impacto sério à medida que a faixa acelera de andamento e, junto com as teclas atmosféricas, entra em um rock completo com solos de guitarra pesados. Exceto por um pequeno momento de “caos”, a marcha percussiva, a marcha militar, não perde o ritmo. Uma faixa enérgica, considerando que é algum tipo de intervalo.

"Le Sixième"

O apoteótico fim chega com a faixa "Le Cinquième" que se estende por quase 19 minutos e começa com uma sessão de teclado monótona e alguns movimentos percussivos. Mas, por outro lado, depende extremamente dos tons selvagens e dissonantes e traz texturas musicais que lembra o King Crimson. É uma faixa que não se poupa e revela os talentos extraordinários dos seus músicos. Nela se percebem mudanças de andamento, clímax e fundamentos melódicos de tirar o fôlego, que envolve progressivo sinfônico, experimentalismo e até mesmo o avant-prog. É técnico, complexo, porém orgânico.

"Le Cinquième"

Quando pretendem começar a gravar o segundo álbum, chega o período de serviço militar para todos os membros da banda. Os três, portanto, congelaram as atividades da banda por um tempo para, claro, cumprir com as suas obrigações para com a pátria. Quando retornaram, gravaram rapidamente o segundo trabalho, “Île de Fièvre”, em 1978. O álbum é um pouco diferente do debut, pois começa a banda a se inclinar para o jazz rock, mas mantém o ritmo minimalista durante a gravação do álbum. A banda agrega um novo baixista chamado Serge Summa.

"Ile De Fièvre" (1978)

Em 2012, André Fisichella, Frédéric L'Épée e Didier Lustig se reuniram a pedido de um festival nos Estados Unidos que infelizmente não aconteceu. Porém se apresentou, no mesmo ano, no Gouveia Art Rock Festival em Portugal e depois no Prog'Sud, no Pennes Mirabeau, perto de Marselha. Laurent James substituiria Serge Summa no baixo.

"Shylock live at Gouveia Art Rock, 2012"

Em 2014, um álbum "best of" foi gravado no Studio Arion, em Nice, foi lançado e Luca Mariotti substituiria Didier Lustig nos teclados. Tal coletânea teve as músicas escolhidas dos dois primeiros álbuns em um formato mais modernizado. E em 2016 foi lançado nova coletânea, de nome “The Sum of the Parts”, que traziam as mesmas faixas do primeiro “The Best Of” com mais duas faixas bônus, este para o mercado japonês.

Embora sejam comparados ao King Crimson há muito tempo, o Shylock é na verdade uma banda com seu próprio estilo. Claro que eles trazem uma referência muito forte da banda inglesa, mas trazer uma abordagem como a cópia do King Crimson é considerada, no mínimo, um insulto inaceitável ao Shylock. Entre 1988 e 2026, o selo Musea relançaria “Gialorgues” por quatro vezes, em 1988, 1989, 1994 e 2026.







A banda:

André Fisichella na bateria

Frédéric L'Épée – na guitarra e baixo

Didier Lustig nos teclados

 

Faixas:

1 - Le Quatrième

2 - Le Sixième

3 - Le Cinquième

 

"Gialorgues" (1976/1977)

 

Lobão E Os Presidentes – Sob O Sol De Parador (1989)

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Lobão e os Presidentes - Sob o Sol de Parador é o quinto álbum solo do cantor Lobão, lançado em 1989 pela BMG.

A gravação do quinto álbum de carreira de Lobão foi marcada por diversas dificuldades. No final de 1988, o cantor, que aguardava em liberdade o julgamento de um habeas corpus, foi condenado a cumprir nove meses de prisão em regime semi-aberto, veredicto dado pela Justiça em face do processo movido contra o artista, acusado de posse de drogas em 1987. Lobão planejava trabalhar em um novo álbum que contaria com a produção de Liminha, naquela época morando em Los Angeles (EUA). O cantor, no entanto, não poderia deixar o Brasil a menos que requeresse uma autorização perante à Justiça, por conta da condenação mais recente.

Em março de 1989, Lobão arquitetou um plano para ir de encontro ao produtor. Após um show na Festa da Uva na cidade de Caxias do Sul (RS), o cantor, acompanhado do seu empresário à época, Ricardo Leon, alugou um automóvel e, de lá, dirigiu rumo à cidade argentina de Paso de los Libres, na fronteira entre Brasil e Argentina. O  músico seguiu viagem até à capital portenha, Buenos Aires, de onde tomaria o voo para os EUA.

Depois de apostar na fusão samba-rock que norteou o disco anterior, Cuidado!, Lobão fez de Sob o Sol de Parador um álbum primordialmente de rock, ainda que explorasse mais estilos  musicais. Há canções no estilo hard rock, como "Panamericana (Sob o Sol de Parador)", "E o Vento Te Levou" e "Sexy Sua", esta última uma composição do ex-mutante Arnaldo Baptista. O disco ainda inclui baladas, caso do hit "Essa Noite Não", de "Uma Dose a Mais" e de "Toda Nossa Vontade", e um country rock, a faixa "Lipstick Overdose" (que a RCA desejava lançar como single, ideia vetada pelo cantor).

Faixas do álbum:
01. Panamericana (Sob O Sol De Parador)
02. Quem Quer Voltar
03. Essa Noite Não (Marcha À Ré Em Paquetá)
04. Um Bobo Pra Cristo
05. E O Vento Te Levou
06. Azul E Amarelo
07. Uma Dose A Mais
08. Lipstick Overdose
09. Sexy Sua
10. Toda Nossa Vontade




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