Gosto deste trabalho dos SQURL. Para quem não sabe, “é a banda do Jim Jarmusch”. Reparei neles precisamente durante o último filme Only Lovers Left Alive, que de resto parece ser nada mais nada menos que a reverberação directa da sua banda sonora, e isso é extraordinário.
Durante o filme um dos actores principais, que por sinal é vampiro, produz música, com a qual expressa a sua vertente lúgubre em isolamento poético. Sem saber sequer que Jarmusch era ele próprio músico, tive a certeza que aquele vampiro guitarrista era o próprio Jim. Só podia. Pensando nas outras obras do realizador norte americano lembro-me que a música para ele é de facto fulcral. Desde o extraordinário Samurai Dog, que me abriu as portas do hip hop, passando pelo Broken Flowers, que deu a conhecer ao mundo Mulatu Astatke, Dead Man, cuja banda sonora é basicamente um dos trabalhos mais interessantes de sempre de Neil Young, etc.
(um apart para referir que se Only Lovers Left Alive parece ser consequência da música, diz-se que em Dead Man Jarmusch meteu o Neil Young a dar-lhe na guitarra enquanto visionava o filme, ou seja, música como consequência do cinema)
Jarmusch a fazer-me lembrar tangencialmente Vincent Gallo, também ele realizador e músico, com a diferença do primeiro ter feito parte da cena nova iorquina do No Wave no início dos 80, enquanto Gallo por essas alturas não passava dum red neck de valores republicanos meio maluco, e essa diferença é brutal.
Extraodinariamente bem produzido, este trabalho em forma de esquilo assenta em alicerces de feedback e arranjos electrónicos – coisa que me agrada. Às vezes soa a metal, outras a algo saído de ressaca de charro. Parece-me não ter pretensões. Fazem aquilo que eu próprio gosto de fazer com a guitarra – perder-me nela com languidez e ruído. É curioso este conjunto de EPs ter um blues, formato excelente para queixume existencial. Desagradável ter um par de love songs, mas Jarmusch é um romântico, já se sabe. Perdoo-lhe.
Apesar dos laivos de drone rock, SQURL a não deixar com que a música se arraste em demasia, não tendo problemas em acabar com a trip num repente, como quem diz já chega caralho. Tal como este texto.
Country: USA Genre: Blues Rock, Boogie Rock Year : 2026
1. Who Do You Love? (Live In Atlanta, Georgia / 1980) (05:18) 2. Move It On Over (Live In Boston, Massachusetts / 1982) (05:07) 3. One Bourbon, One Scotch, One Beer (Live In Atlanta, Georgia / 1980) (10:47) 4. Ride On Josephine (Live In Roslyn, New York / 1978) (05:50) 5. Madison Blues (Live In Boston, Massachusetts / 1982) (05:48) 6. Bad To The Bone (Live In Boston, Massachusetts / 1982) (05:10) 7. Born To Be Bad (Live In Sarasota, Florida / 2024) (04:53) 8. Steppin’ Out (Live In Midland, Texas / 2022) (02:20) 9. Howlin’ For My Baby (Live In Hyannis, Massachusetts / 2023) (05:58) 10. Tail Dragger (Live In Kansas City, Missouri / 2020) (06:09) 11. Boogie Chillun (Live In Toronto, Canada / 1978) (12:33)
1. All For You (03:23) 2. It’s Never Too Late To Finish Last (03:26) 3. How Many More Times (03:42) 4. Without An Audience (03:40) 5. You Are Not Alone (04:04) 6. Oh Well (03:00) 7. Small Southern Towns (06:00) 8. Murder In The Forest (02:23) 9. Old Victorian House (05:53) 10. 5 Hammers (04:26) 11. Now I Stand Before the Gates of Eternity (03:40) 12. Maiden Voyage (Bonus Track) (07:20)
Joe Rowe (The Glands), David Barbe (Mercyland / Sugar), John Neff (Japancakes / Drive-By Truckers / The Star Room Boys), Adam Poulin (Grassland String Band), Ben Hackett (New Madrid), Jason NeSmith (Pylon Reenactment Society), Matt Tamisin (Flash to Bang Time), Neil Rosenbaum.
Genre: Hard Rock / Blues Year : 2026 Country: Sweden
01 – Dealer.mp3 02 – Life of mine.mp3 03 – Running wild.mp3 04 – Rocking blues.mp3 05 – The Wind.mp3 06 – The Fieldmouse.mp3 07 – I’m coming back.mp3 08 – Feel the pain.mp3 09 – Look in the sky (Extended Version).mp3 10 – Plugged in and wired.mp3 11 – Good night blues.mp3 12 – The Eagle.mp3 13 – Beginning in the end.mp3
01 – Like A Feather.mp3 02 – Give You All The Love.mp3 03 – Devil Delight.mp3 04 – Green-Eyed Lady.mp3 05 – Just What I Needed.mp3 06 – Blues For Mahsa.mp3 07 – Bullet From The Past.mp3
Biografia do Arcpelago: A banda foi fundada pelo tecladista Ronaldo Rodrigues (Massahara). Ele é acompanhado por Jorge Carvalho no baixo, Eduardo Marcolino na guitarra (Anxtron) e o baterista Rafael Melo. O nome da banda em 2011 era Aurah. Rafael foi substituído por Renato Navega em 2014 e, recentemente, Eduardo foi substituído por Diogo Albano. A banda fez seu primeiro show ao vivo no Rio de Janeiro em 2015. Eles começaram a gravar seu primeiro álbum, "Simbiose", com um novo nome. Sua música é inspirada pelo som dos anos 70 e mistura rock com jazz e blues. A banda gosta de estender suas músicas com longos trechos instrumentais.
"Do nada, o amor surgiu de repente, do céu, veio o sol". Essa letra de "Out of the Blue", do Roxy Music, certamente se confirma nesta maravilhosa descoberta. Explorar dezenas de bandas semanalmente pode ser uma tarefa árdua, e quando um baixo pulsante me chama a atenção, fico bastante empolgado. E quando, por acaso, a banda é brasileira, todos os meus sentidos começam a dançar também. O Arcpelago lançou seu álbum de estreia em 2016, passando completamente despercebido por mim até que, por pura sorte, acabou na minha coleção. Um quarteto formado por quatro artistas talentosos: o guitarrista Eduardo Marcolino, Renato Rodrigues nos teclados e vocais, o baterista Renato Navega e o já mencionado mestre do baixo elástico, Jorge Carvalho. O que torna este álbum tão especial, além do arsenal de teclados vintage à disposição e de todos os suspeitos de sempre, figuras conhecidas do prog rock, é a natureza sinfônica do seu estilo, muito anos 70 com doses generosas de Pink Floyd, Eloy, PFM, etc.?
Hipnotizado e entregue à obediência absoluta ao seguir a onipresente linha de baixo desde o início, "Sopro Vital" embarca numa viagem de 11 minutos rumo a um groove pulsante e intransigente, com exclamações vibrantes de Rodrigues e Marcolino, salpicadas de reviravoltas suficientes para fomentar uma revolução (risos). Estruturas de órgão expansivas, riffs de guitarra elétrica cortantes e nítidos, e as obrigatórias mudanças de ritmo e atmosfera mantêm o medidor de adrenalina no máximo. Os vocais oníricos e repletos de eco conferem uma expansão bem-intencionada à faixa, servindo como trampolim para uma conclusão ainda mais elaborada, onde o baixo irrompe com a solidez característica de Wetton, guiando a guitarra solo delirante a reinos sublimes, selando a música com um toque final jazzístico.
"Distancia Entre Um Dia e Outro" é uma fera completamente diferente, oferecendo deslumbrantes toques de piano elétrico, uma batida de bateria frenética e um baixo impactante de tirar o fôlego, que lembra o estilo fuzz elástico de Hugh Hopper, famoso em muitos álbuns do Soft Machine! Um rolo compressor de jazz pesado, petulante e um tanto abrasivo, com um som vintage e retrô dos anos 70 que exala eternidade. Na metade da música, Renato Navega e Jorge Carvalho tomam o controle do arranjo, reiniciando lentamente o groove crescente em um solo de guitarra elétrica insano, percorrendo o braço da guitarra como mineiros maníacos em busca desesperada de ouro. Os sintetizadores vibrantes mantêm a chama acesa, procurando a mina de ouro.
Segue-se um trio de faixas mais curtas, com "Ebulicão dos Tempos" envolta num modo mais acessível, com uma base rítmica de rock compacta, carregada de vocais melancólicos como se a distância evocada na faixa anterior permanecesse ilusória e atemporal. Os solos são refinados e aristocráticos, sem firulas, um rock direto e impactante. O baixo agressivo, à la Lemmy, assume a liderança na acelerada "Cidade Solar", uma virada vertiginosa para horizontes mais galácticos, um sintetizador cintilante apontando os controles para o coração do cosmos, sem qualquer indício de olhar para trás, para a estrada percorrida. Rodrigues brilha como uma bola de fogo quando impulsionado com combustível extra, mas sem medo de se acomodar numa calma astral, com alguns delicados trechos de piano. O guitarrista tem a oportunidade de curvar os dedos no joystick, ecoando tensamente no silêncio do espaço, uma aventura extraveicular emocionante.
Destacada pela presença de um vibrato mellotron confortavelmente suave, "Universos Paralelos" serve como um breve momento de aceleração, um interlúdio flutuante e reflexivo com o sintetizador de flauta como principal ponto de interesse.
Um final épico pode ser encontrado na espectral «Dentro de Si», tão próximo quanto possível de qualquer expansão Pink Floyd, com seu padrão elementar de baixo e bateria, o tapete de órgão ostensivamente imponente, vocais vagamente nebulosos e o uso diligente de contraste e variação para manter o clima expansivo. Invariavelmente psicodélico e vigoroso, com força suficiente para seduzir até mesmo os momentos mais suaves, o palco está pronto para um solo de guitarra elétrica incrível que usa poucos efeitos, preferindo uma técnica incrivelmente ágil, e então passando o espírito da época para o delirante destaque do órgão de Rodrigues. Quando o baixo retorna ao centro das atenções, a apoteose é alcançada, como uma supernova explosiva que encerra a questão.
Muitos anos se passaram, mas se alguma vez houve necessidade de um segundo álbum surgir do Brasil, este certamente estaria no topo do pódio. 4,5 Sinergias da Ilha
Biografia do Arco Iris: Fundada em El Palomar, Buenos Aires, Argentina, em 1968 - Dissolvida em 1975 - Reformada em 1977, permanecendo ativa até 2003.
Uma das principais bandas no desenvolvimento do rock progressivo sul-americano, ao lado de Los Jaivas e outras. Sua música é uma sólida combinação de jazz rock, folk étnico com arranjos sinfônicos sutis e "espaciais". A formação original era composta por Altar Tokatlián (instrumentos de sopro), Gustavo Santaolalla (voz e guitarra) e Guillermo Bordarampé. Nos anos 60, formaram diversas bandas (The Rovers, The Blackbyrds, The Crows) para tocar covers. Gravaram seu primeiro álbum no final da década de 60. Trata-se de uma mistura original de folk latino típico, música acústica e rock "ácido" dos anos 60. Após a saída de Alberto Cascino, o baterista Horacio "Droopy" Gianello se integra à banda. Em 1972, gravaram "Suite numero 1", também pela RCA. O álbum "Tiempo de resurrección", lançado no mesmo ano, consolidou a identidade musical da banda: uma fusão excepcional de música folclórica com jazz rock. O álbum duplo "Sudamerica o il regresso a la Aurora" representa o ápice da banda em termos de orquestração. A música oferece um universo rock único, com múltiplas influências, incluindo blues, música nativa americana, jazz... Lançado em 1973, "Inti-Raymi" é uma boa continuação do trabalho anterior, mas geralmente considerado menos cativante. Após o espiritual "Ara Tokatlián & Enrique Villegas: inspiración" (1975), "Los elementales" (1977) enfatiza improvisações jazzísticas e rock experimental. Depois desse período clássico, a banda continuou a produzir discos até hoje, direcionando seu som para uma sonoridade mais new age e jazz suave.
O sétimo álbum de estúdio lançado por esta incrível banda de músicos virtuosos de Buenos Aires.
- "Elemental De Tierra": 1. "Gob (Maestro-Mago De Los Gnomos)" (5:58) abertura incrível com uma interação impressionante entre bateria e percussão, com saxofone distante e Fender Rhodes adicionando acentos ao fundo. No final do primeiro minuto, a banda muda para uma performance pontuada de instrumentos eletrônicos no estilo Mahavishnu/RTF. Nossa! Esse baterista é muito bom! (E a bateria dele foi gravada perfeitamente para esse tipo de fusão de jazz-rock dinâmica e poderosa!) Surpreendentemente, o saxofone tenor de Ara Tokatllian assume o primeiro solo significativo – voando para territórios de free jazz quase à la Coltrane com seu abandono imprudente! Mas a banda de apoio me mantém bem envolvido – e torna a loucura de Ara bastante tolerável. O baixista Guillermo Bordarampé também é bastante impressionante, mas o trabalho do percussionista Jose Luis Perez pode rivalizar tanto com o saxofone de Ara quanto com sua própria bateria! É realmente difícil imaginar o Power Jazz-Rock Fusion da Terceira Onda sendo melhor do que isso! (10/10) 2. "Destilando El Perfume De Los Minerale" (4:58) com a suave abertura de piano e flauta, é difícil entender sua suposta conexão com a música anterior (dentro do título da suíte "Elemental de tierra"). Vocais e sintetizadores com som de serra entram com o baixo melódico de Guillermo, enquanto o piano e os sintetizadores de Ara expandem sua participação sob o canto. Há um quê de bandas da RPI como PFM e Maxophone, bem como Chick Corea, e também um pouco de KHAN! Bonito, mas nada tão impactante quanto a faixa de abertura. (8,875/10)
- "Elemental Del Fuego": 3. "Cristalizando Los Rayos Del Sol" (4:26) o lado mais pesado do Jazz-Rock Fusion, beirando o Jazz-Rock ou o Prog puro. Complexo, com muitas performances individuais mágicas de todos os músicos (embora a bateria esteja um pouco fraca em termos de volume), o vocal com várias vozes entra por volta dos dois minutos, apresentando uma sequência de letras antes de dar lugar à flauta folk e, em seguida, a uma seção poderosa com ótimas progressões de acordes que sustentam solos de guitarra elétrica e sintetizador. Depois, voltamos à letra em grupo para mais uma sequência, desta vez com sintetizador, saxofone, órgão e guitarra oferecendo os "solos" harmonizados até o final. (9,5/10)
4. "Djin (Maestro-Mago De Los Salamandras)" (3:52) acordes de piano metronômicos sustentam uma introdução bastante bombástica com bateria, baixo e várias guitarras estridentes, expondo o poder que esta banda é capaz de gerar. Mas isso dura apenas cerca de 50 segundos antes da tempestade passar e ficarmos com piano e saxofone soprano (e, logo depois, flauta) para nos brindar com uma suave beleza bucólica por cerca de um minuto, antes que a bateria e o duo de guitarras explodam novamente em cena. Esse ciclo continua até que o tema bucólico e o tema principal se combinem para nos encerrar suavemente. (9,25/10)
- "Elemental De Agua": 5. "Despertar De Los Hijos De La Mañana" (3:45) - Um piano elétrico tocando dois acordes abre a música antes que o resto da banda entre na festa com uma performance bastante bombástica: todos, exceto o baixo (e o piano), parecem se lançar em seus próprios solos. Por volta do segundo minuto, as coisas se acalmam, eventualmente deixando apenas o piano e a flauta para nos brindar, mas então - assim como na música anterior - o ciclo de beleza bucólica sendo interrompido por explosões bombásticas de 20 a 30 segundos continua - até que uma batida forte de baixo e prato aos 3:26 sinaliza a introdução da próxima música da suíte. Maravilhoso! (9,25/10)
6. "Necksa (Maestro-Mago De Las Ondinas)" (8:07) começa estabelecendo rapidamente um groove de baixo e bateria no estilo Jazz-Rock Fusion, funky, mas com fortes influências de rock, antes do saxofone tenor apresentar a melodia principal. O estilo do baixista lembra Stanley Clarke, com linhas de baixo encorpadas misturadas a acordes graves. Sensacional! Uma "pausa" ou "repetição" prolongada, na qual não há solo propriamente dito, é seguida por outra explosão melódica de saxofone, antes da música mudar para um tema diferente – um que parece combinar um tema de espionagem dos anos 60 com a ampla paleta sonora do RTF. Aos 5:45, a música se torna mais leve, dando lugar aos vocais: primeiro um coral feminino, depois um masculino. Aos 6:30, a música retorna ao instrumental com uma sonoridade e pegada de rock latino, enquanto um sintetizador espacial e uma flauta pairam sobre a guitarra rítmica e o baixo marcante. Excelente! (14/15) - "Elemental De Aire": 7. "Los Nacidos Del Viento" (3:57) - Uma paisagem sonora mais suave e espaçosa é criada, sobre a qual um vocalista masculino (com voz dobrada?) se junta, com uma voz que lembra uma mistura entre o clássico NEKTAR, CAMEL, CELESTE, PFM e o moderno DEVIN TOWNSEND. O saxofone e sons de sintetizador peculiares assumem a liderança no quarto minuto, antes que notas de guitarra elétrica controladas por pedal de volume e flauta forneçam sons que remetem a pássaros para nos levar ao fim - enquanto os acordes de guitarra elétrica suavemente arpejados que iniciaram tudo continuam do começo ao fim. Muito bonito. Quase mais folk progressivo do que JRFuse. (9,125/10)
8. "Paralda (Maestro-Mago De Los Silfos)" (8:09) é uma música de Jazz-Rock Fusion com forte influência de rock, construída em torno de uma variação de "Peter Gunn", de Henry Mancini, e com uma sonoridade pesada que emula muito bem o auge do VAN DER GRAAF GENERATOR: simplesmente notável! Aos 4:45, a banda faz um desvio por um caminho à la JAN HAMMER para que Ara Tokatlian possa exibir sua maestria no sintetizador — em dois canais — em contraste com seu guitarrista, Ignacio Elisavetsky. Um duelo extraordinário (ou seria triel?) — que se equipara a qualquer coisa que Mahavishnu, RTF ou seus inúmeros projetos derivados e imitadores já tenham feito. (14,25/15)
Tempo total: 39:20
Depois de começar pelos primeiros lançamentos da banda e agora avançar para este álbum completo de Jazz-Rock Fusion com toques de Prog, preciso admitir meu espanto com o crescimento e o progresso que a banda alcançou. Eles sempre foram bons — com músicos excelentes do início ao fim — mas misturar sons e estilos tão maravilhosamente de uma forma tão impressionante superou todas as expectativas.
Cinco estrelas! Uma verdadeira obra-prima do jazz-rock fusion progressivo: no mesmo nível dos melhores trabalhos de Fermáta, SBB, Jan Hammer ou qualquer um dos primeiros clássicos da RPI! Altamente recomendado, especialmente para quem se considera um fã de prog!
Meu segundo contato com a música maravilhosamente criativa desta banda argentina.
CD 1 - "Acto primero" (47:23) 1. "Obertura" (12:52) Uau! Que introdução: uma mini-sinfonia como abertura! Jazz-rock, com certeza, mas na maior parte do tempo sinto mais uma vibe de Rock Progressivo Psicodélico. Fiquei surpreso logo de cara por quase gostar do som e estilo do saxofone usado por Ara Tokatlian. Embora eu não seja tão fã dos efeitos sonoros de guitarra elétrica escolhidos por Gustavo Santaolalla, fiquei muito impressionado e conquistado pelo seu domínio dos violões. (22,25/25) 2. "La canción de Nahuel" (5:53) interessante canção fúnebre de blues-rock - especialmente se for para ser o tema do nosso "herói"! (8,75/10) 3. "Canto del pájaro dorado" (3:30) A primeira metade é contemplativa, quase pastoral no deserto, mas depois se volta para temas sul-americanos na segunda metade. Bem concebido, executado e produzido. (8,875/10) 4. "Viaje astral" (2:25) Arpejos suaves de guitarra elétrica com saxofone, sintetizadores, órgão, cítara, flautas e outros instrumentos incidentais serpenteando pela praça da vila antes que piano, percussão, baixo e vocais em grupo nos conduzam a um motivo semelhante a "Take Five"/bossa nova. Parece curto e incompleto. (4,375/5) 5. "Tema del Maestro" (2:52) Flauta e violão espanhol fornecem uma suave melodia folclórica para as árduas viagens do nosso herói. No segundo minuto, o Mestre entra com sabedoria e conselhos. Nahuel sai com um pouco mais de clareza sobre sua missão e vislumbres de como realizá-la/ter sucesso. (4,5/5) 6. "Iluminación" (1:59) O tema melódico das duas músicas anteriores é aqui levado adiante e amplificado pela banda, especialmente pelo saxofone sonoro e nasal de Ara. (4,375/5) 7. "Hoy he visto al rey (Gira)" (3:29) Finalmente, podemos ouvir um pouco da bela voz aguda de Gustavo nesta canção folclórica hispano-americana. Arranjos de harmonia maravilhosos, ao estilo de Simon & Garfunkel, com os vocais de apoio. (8,875/10) 8. "Sígueme" (1:48) Blues rock que soa como Blood, Sweat & Tears e música teatral de Andrew Lloyd Webber. (4,3333/5) 9. "El negro" (1:54) La musíca Sud Américan! Parece muito coloquial. (4,25/5) 10. "Los campesinos y el viajero" (2:18) Rock caribenho que dá a impressão de que a banda está tentando retornar a estilos e sons musicais anglo-europeus. (4,3333/5) 11. "El estudioso" (2:28) Outro pequeno interlúdio adorável. Sinto como se estivéssemos em uma peregrinação de caravana ao estilo dos Contos de Canterbury, com muitos momentos de inatividade nos quais os viajantes cansados precisam contar suas histórias. A segunda metade é uma peça instrumental enérgica que poderia sustentar uma história de aventura (des) animada e grosseiramente hiperbolizada. (4,375/5) 12. "Oración de la partida" (2:53) Flauta, flauta sintetizada e violão espanhol dedilhado lentamente apresentam mais uma peça musical regionalmente representativa (e significativa).Uma pena que tenha permanecido em tom fúnebre durante os três minutos inteiros. (4,25/5) 13. "Epílogo: Salvense ya" (3:02) começa com um ótimo solo de guitarra e vocais no estilo Pentangle, a música mantém um caráter tipicamente sul-americano, especialmente pelas escolhas melódicas e harmônicas feitas para a interpretação da letra em espanhol. Ótima composição com performances vocais incríveis, comparáveis às de Serge Fiori ou de outros cantores folk masculinos mais apaixonados. Infelizmente, não é Jazz-Rock Fusion! (9/10)
CD 2 - "Acto segundo" (51:37) 14. "Recuerdo di mi ser" (3:43) outro mecanismo de entrega para uma música vocal magnífica, quase monástica, aqui usando guitarra e baixo espaçosos com flauta em eco para acompanhar Gustavo e os outros. (9,125/10) 15. "Los siete peregrinos" (2:34) soa como algo que o THE ASSOCIATION dos EUA poderia/teria feito no final de sua carreira de produção. É bonito. Uma pena que nunca alcance a grandeza de uma música do The Association. (8,75/10) 16. "Tema de Amancay" (2:09) flautas e violão dedilhado acompanham o vocal quase operístico de Danais Wynnycka - aqui interpretando a musa de Nahuel, Amancay. (4,625/5) 17. "Busco a Dios en Mí y en el Sol (Hombre)" (17:10) O saxofone com sonoridade de John Coltrane abre esta faixa, enquanto baixo, órgão, guitarra elétrica com chorus e percussão disputam espaço atrás de Ara. Então, surpresa, surpresa, no minuto um, a banda solta um tema rockabilly extravagante sobre o qual Gustavo canta com bastante potência. Ok, finalmente temos uma música que soa como jazz-rock (do início). (Ainda não estou pronto para usar o termo "fusion".) O órgão Hammond blues, no entanto, assume o controle no sétimo minuto, cedendo apenas aos 7:20 para a guitarra elétrica com fuzz, mas felizmente nos proporcionando um alívio muito necessário de um riff de três acordes excessivamente longo (mas não exatamente, já que a estrutura de três acordes retorna para ancorar o solo de guitarra com fuzz). Às 9:05, todos param para dar lugar a uma jam de percussão com todos os músicos a postos. Os tambores falantes são os mais interessantes, claro, mas as vocalizações animadas e as muitas ejaculações percussivas divertidas também são bem interessantes. Essa seção continua até 13:45, quando a guitarra e o órgão começam a se reafirmar e a recolocar a percussão em seu devido lugar na seção rítmica. Depois disso, a música se estabelece em um tema de blues-rock que beira o blues puro devido ao solo de guitarra bluesy, mas então, às 15:30, ela entra em uma espécie de estrada descida por um tempo antes de voltar à realidade com um riff de blues-jazz rock. Um pouco confuso e rudimentar demais para superlativos. (30,5/35) 18. "Deserción del viajero" (0:49) soa como um chamado à oração do Los Jaivas. 19. "La duda de los campesinos" (2:11) a continuação da música anterior. Soa como um veículo para Serge Fiori, que demonstra sua forte capacidade vocal para transmitir sua mensagem em língua estrangeira. (8,75/10) 20. "El aliento de Dios" (3:17) outra ótima música de folk progressivo que se compara facilmente à produção dos anos 70 do Harmonium ou a algumas das bandas mais suaves da RPI, como Maxophone ou Celeste. (9/10) 21. "El viajero delata a los peregrinos" (2:17) a introdução de um minuto desta música soa muito como algo do início do URIAH HEEP, DEEP PURPLE ou PROCOL HARUM. Depois, ela se transforma em uma exploração mais acústica, como um experimentalista do jazz-rock do início da carreira, como Terje Rypdal ou Larry Coryell. (4,5/5) 22."Persecución de los peregrinos" (6:51), que começa com um toque de trompa real proclamatório, transforma-se em outra interessante exploração de jazz-rock ambiente, texturizada e espacial, explorando a acústica. Por volta de 1:15, o riff de baixo, bateria e guitarra no estilo blues-rock de Yardbirds/Led Zeppelin começa, estabelecendo um padrão de três acordes que fornece a base grave para o saxofone e, mais tarde, para dois solos simultâneos de guitarra elétrica. Deve ter sido divertido para Gustavo. Aos quatro minutos, a música é suavizada por um órgão enquanto Gustavo e um (ou ambos) dos outros integrantes se revezam nos vocais principais. Uma pequena e estranha "ponte" teatral aos 5:43 interrompe o fluxo de cinco minutos do tema de dois acordes de Yardbirds/Led Zeppelin. A música é mais interessante por suas contribuições vocais teatrais à história de Nahuel. (8,75/10) 23. "Viaje por las galerías subterraneas" (2:44) charango, contrabaixo tocado com arco e saxofone soprano contam essa pequena história coloquial incomum. (4,375/5) 24. "Salida al inmenso lago - Iluminación" (1:31) uma ponte vocal feminina com guitarra que nos leva do tema do charango para um tema bastante melodramático que meio que me diz que estamos nos aproximando do fim da nossa história. (4,875/5) 25. "Reencuentro con Amancay - Oremos" (2:13) começando com uma pequena e estranha rotina de "cantar no banheiro" de Gustavo, depois se transforma em uma balada vocal com acompanhamento de violão espanhol. Bela construção com arranjos maravilhosos de voz e flauta. (4,875/5) 26. "Las colinas y el Maestro" (0:46) o dueto de flauta e guitarra que conclui a música anterior. 27. "Epílogo: Sudamérica" (3:29) novamente, a energia desta música vibrante e o arranjo de rock totalmente orquestrado me fazem sentir como se estivesse na plateia de um musical. Eu me levantaria e aplaudiria esta. (8,875/10)31) Uma ponte vocal feminina com guitarra que nos leva do tema do charango para um tema bastante melodramático que me indica que estamos nos aproximando do fim da nossa história. (4,875/5) 25. "Reencuentro con Amancay - Oremos" (2:13) começa com uma pequena e peculiar rotina de "cantar no banheiro" de Gustavo, que então se transforma em uma balada vocal com acompanhamento de violão espanhol. Uma bela construção com arranjos maravilhosos de voz e flauta. (4,875/5) 26. "Las colinas y el Maestro" (0:46) o dueto de flauta e guitarra que conclui a música anterior. 27. "Epílogo: Sudamérica" (3:29) novamente, a energia desta música animada e o arranjo de rock totalmente orquestrado me fazem sentir como se estivesse na plateia de um musical. Eu me levantaria e aplaudiria esta. (8,875/10)31) Uma ponte vocal feminina com guitarra que nos leva do tema do charango para um tema bastante melodramático que me indica que estamos nos aproximando do fim da nossa história. (4,875/5) 25. "Reencuentro con Amancay - Oremos" (2:13) começa com uma pequena e peculiar rotina de "cantar no banheiro" de Gustavo, que então se transforma em uma balada vocal com acompanhamento de violão espanhol. Uma bela construção com arranjos maravilhosos de voz e flauta. (4,875/5) 26. "Las colinas y el Maestro" (0:46) o dueto de flauta e guitarra que conclui a música anterior. 27. "Epílogo: Sudamérica" (3:29) novamente, a energia desta música animada e o arranjo de rock totalmente orquestrado me fazem sentir como se estivesse na plateia de um musical. Eu me levantaria e aplaudiria esta. (8,875/10)
Tempo total: 99:00
Sei que 1972 ainda era um ano relativamente inicial para o desenvolvimento do Jazz-Rock Fusion como um gênero próprio, mas tenho quase certeza de que incluir este álbum conceitual épico sob o selo JR Fuse foi um erro. Para mim, ele se assemelha muito mais aos trabalhos de bandas de rock psicodélico, Canterbury e rock progressivo sinfônico do que aos de qualquer artista que estivesse experimentando ou mesmo flertando com as novas combinações e variações do Jazz-Rock Fusion. O fato de haver uma estrutura rítmica baseada no blues-rock tradicional é um dos principais argumentos a favor dessa afirmação. Aliás, eu diria que a música deste álbum está muito mais próxima do último álbum de estúdio da banda quebequense Harmonium, Heptade, do que de qualquer coisa que eu já tenha ouvido no verdadeiro universo do Jazz-Rock Fusion. Embora eu não seja fã de saxofone, o som e o estilo de Ara Tokatlian, que lembram Elio D'Anna (OSANNA, NOVA), são algo que muitas vezes me agrada.
Nota B-/3,5 estrelas; embora eu esteja muito impressionado com a criatividade da banda e com o talento vocal e instrumental da banda — e aprecie bastante a experiência de ouvir essa música —, ela não se sustenta bem como um álbum de Jazz-Rock Fusion. Na minha opinião, ela se qualifica como uma boa ópera rock, representante dos domínios do Folk Progressivo ou do Blues-Rock. Não nego a importância que este álbum, banda e música possam ter para os argentinos e/ou sul-americanos, mas em termos de como se encaixa e/ou contribui para os léxicos do Rock Progressivo ou do Jazz-Rock Fusion, eu a consideraria mais próxima do Proto-Prog, como It's A Beautiful Day, The Collectors, Jefferson Airplane, Led Zeppelin ou Spirit. Ainda assim, vou aumentar a classificação para quatro estrelas devido ao valor de entretenimento geral. Os vocais e a engenhosidade das composições, por si só, já podem valer a pena.
Formada em 1962, em Sarajevo, na antiga Iugoslávia (hoje, Bósnia), a banda focada nesta coluna de hoje é uma das primeiras bandas (e também uma das carreiras mais duradouras) daquele país, desfrutando popularidade através de gerações de roqueiros. Nos anos 60, ela se tornou sinônimo da então chamada cena "Sarajevo Pop School" (de bandas formadas por estudantes universitários). O nome "Indexi" significava o plural de "index", livrinhos azuis que os alunos usavam para registro de frequência e notas nos exames. No início, eles tocavam principalmente remakes instrumentais de sucessos do Rock mundial, mas por volta de 1967 começaram a compor suas próprias canções. A formação básica consistia em Slobodan A. Kovačević (guitarra), Fadil Redžić (baixo) e Davorin Popović (vocais), enquanto os bateristas e tecladistas mudavam frequentemente.
Assim como outra banda iugoslava muito famosa, o Korni Grupa, o Indexi também manteve duas "carreiras" paralelas: uma como uma banda Pop gravando numerosos singles e EPs e tocando em festivais de música Pop e acessível e outra bem diferente como banda pioneira de Rock Progressivo, que em 1969 gravou a primeira canção com mais de dez minutos da história da Iugoslávia, "Nekdje na rajku u zatišje" (tradução: Em algum lugar, o céu estava vazio). No início dos anos 70, eles fizeram turnês e tocaram em vários festivais Pop, enquanto planejavam gravar seu primeiro LP. Os produtores das gravadoras insistiam em gravar singles apenas com os sucessos autorais. Nesse período, eles tocaram na antiga União Soviética, Polônia e Bulgária, e ao mesmo tempo fizeram muitos shows na Iugoslávia. Em 1972, foi lançado o single "Plima" (tradução: maré), composição gravada em 1969 que trouxe um dos solos de guitarra mais memoráveis do Rock iugoslavo (feito por Kovačević). Pelo restante da carreira, entre meados dos anos 70 passando pelos anos 90, eles ocasionalmente gravaram singles e fizeram shows, mas deliberadamente evitaram as tentações do estilo de vida tipicamente Rock'n'Roll. Como todos tinham empregos em tempo integral (para além da banda), eles nunca se preocuparam em seguir uma carreira comercial para valer e só se reuniam para tocar/gravar juntos quando se sentiam prontos. Muito provavelmente foi por isso que duraram tanto (mais de 35 anos). Ainda assim, o Indexi conseguiu gravar dois álbuns de estúdio de Rock Progressivo, sendo que "Modra Rijeka" (tradução: rio azul), de 78, ficou como o auge do Prog-Rock iugoslavo, um trabalho conceitual (baseado nas letras do melhor poeta bósnio, Mak Dizdar), altamente refinado e elaborado, com enorme musicalidade e num estilo sinfônico. Um segundo álbum, "Kameni Cvetovi" (tradução: flores de pedra), só seria lançado em 99 (quando a Iugoslávia não existia mais, sem o baixista Redžić), mas era metade Pop Rock, metade Prog (ainda assim, excelente). Infelizmente, em 2001, o vocalista Davorin Popović morreu colocando um fim na banda. "Modra Rijeka" permanece até hoje como um trabalho muito importante, essencial em prateleiras de Prog-Rock. Ao trio Kovačević-Redžić-Popović se somaram Nenad Jurin (teclados), Đorđe Kisić (bateria), Fabijan Sovagović (narrador), Tihomir Pop Asanović (órgão) e Ranko Rihtman (piano). Todas as letras vinham dos livros de poesia "Kameni Spavač" (tradução: dorminhoco de pedra) e "Modra Rijeka", ambos de Mak Dizdar. A capa foi feita por Dragan S. Stefanović e Mersad Berber. O LP foi lançado pelo selo iugoslavo Jugoton, em 78. O Indexi foi uma banda com frequentes mudanças na formação em sua carreira, sem contar colaboradores externos, letristas, compositores, arranjadores, além de músicos que se juntavam à banda apenas para shows pontuais.
O período jun/69-abr/71 foi especial para a banda e foi quando eles experimentaram um pico criativo e produziram farto repertório autoral. Sentiram que era possível criar sua própria interpretação Prog-Rock em termos de duração e formato das canções. Neste contexto, experimentaram harmonias, sons e efeitos de gravação em estúdio. Havia o desejo de tentar incorporar o que era feito no Rock anglo-americano. Encorajados pela inesperada popularidade do single "Plima" (gravado no início de 69), eles mergulharam numa busca por alternativas para sua música de acordo com os desenvolvimentos então em curso na cena underground britânica e americana. O Rock Progressivo surgiu nesse período criando um veículo para as bandas canalizarem elementos da música erudita, Jazz e até outros gêneros fora do Pop convencional. O Indexi foi a primeira banda na Iugoslávia a abrir espaço para tais desenvolvimentos artísticos. Entretanto, composições gravadas assim, comumente tinham duração que excedia dos 3 ou 4 minutos padrões da indústria (e não cabia nos singles de 2 faixas ou nos EPs de 4 faixas). A solução estava no LP de 12" que oferecia mais espaço. Na Iugoslávia daquela época, LPs eram lançados apenas esporadicamente (a demanda do mercado por tal opção ainda não era suficiente). Além disso, a tecnologia de gravação por lá só permitia quatro canais e as gravadoras ficavam céticas quanto ao potência comercial de música Rock (ou Beat como ainda era chamada na Iugoslávia). Claro que tudo isso era um desafio para bandas ambiciosas como o Indexi. Mesmo assim, a principal gravadora iugoslava da época, a Jugoton (de Zagreb), arriscou e deu oportunidade neste período a vários conjuntos vocais-instrumentais nascidos na cena Beat dos anos 60 de gravar um álbum. Foi assim que o Indexi passou a planejar o seu. Kovačević e Redžić sentiam-se preparados (eles eram os principais compositores) e agora podiam contar com Rihtman, um excelente arranjador. O Indexi assinou contrato com a Jugoton no início de 69 (até então, seus singles foram todos lançados pela PGP RTB, de Belgrado). O fato de Đorđe Novković, ex-membro do Indexi, ter conseguido que sua nova banda, Pro Arte, gravasse um LP no outono de 70 (foi a primeira banda de Sarajevo a conseguir isto) ajudou a impulsionar. Outro fato positivo foi que, pouco antes das sessões de gravações acontecerem, eles se mudaram de Sarajevo para Zagreb (e eles assim optaram por causa de suas apresentações de sucesso no Festival de Zagreb em 70-71, bem como pela colaboração com a dupla de compositores Hrvoje Hegedušić e Maja Perfiljeva). Os primeiros frutos ocorreram no final de 70 através das composições "Da sam ja netko", "Svijet u kome zivim" e "Hej ti" (primeiros singles deles lançados pela Jugoton em mar/71). A partir daí, a banda passou a trabalhar no álbum, além de fazer shows regulares em hotéis e clubes. Entretanto, Ranko Rihtman saiu em mai/71 e o Indexi virou um entra-e-sai de tecladistas (Vlado Pravdić, Enco Lesić) e bateristas (Miroslav Šaranović, Perica Stojanović), o que dificultou o projeto do álbum. No final de 71, a banda decidiu se profissionalizar, isto é, funcionar em tempo integral, parar de aparecer em festivais Pop (para os quais dependia de compositores ligados à indústria fonográfica) e focar num trabalho diário, fazendo mais gravações e organizando shows independentes. Foi um gesto de libertação.
Entretanto, 1972 viu apenas o lançamento de uma fita cassete com o título "Indeksi" contendo sete faixas (pela recém lançada gravadora RTV Ljubljana), material gerado entre 69 e 71. A banda também fez dois shows importantes (em abril, no Pop Festival 72 "Boom" e no Pop Festival "Slovenska Popevka 72", em junho, ambos em Liubliana, na época ainda Iugoslávia, porém hoje capital da Eslovênia). Entre estas sete faixas, havia "Negdje na kraju, u zatisju", composição de Kovačević baseada no poema de Želimir Altarac Čičak, considerada a primeira canção da Iugoslávia gravada com mais de dez minutos, confirmando o pioneirismo do Indexi numa suíte com vários movimentos, com interlúdios instrumentais soando sinfônicos e experimentos de vanguarda utilizando efeitos de estúdio. Esta composição é frequentemente considerada a "magnus opus" do Indexi, um hino do Prog-Rock inicial na Iugoslávia. Infelizmente, o cassete era mono e três dessas canções nunca mais apareceriam em nenhum lançamento. Não era ainda o tão almejado álbum de estreia, mas já deixava clara a qualidade e a direção Prog da banda. Infelizmente, eles ainda levariam seis longos anos para conseguir registrar o álbum "Modra Rijeka". No início de 73, o Indexi ficou sem tecladista e houve uma surpreendente fusão com a banda Pro Arte (de Đorđe Novković) gerando o "Indexi + Pro Arte", contando com dois vocalistas (Davorin Popović do Indexi e Vladimir Savčić Čobi do Pro Arte). Esta formação (de orientação mais Pop) fez turnê pela Bulgária. Ainda em 73, a banda conquista o primeiro lugar no festival "Seu maior sucesso da temporada" com a canção "Give Up Your Heart", de Aleksandar Korać, mas no final de 73, Kovačević e Popović (guitarrista e cantor, respectivamente) são convocados para o Exército, o que levou o grupo a parar por um ano. Na retomada, o baterista foi Milić Vukašinović e o tecladista foi Miroslav Maraus (Novković havia se mudado para Zagreb). Em fev/76, ocorre um concerto em Sarajevo sob o nome "Return Of The Indexi", com grande sucesso, e engatam numa turnê pela Iugoslávia (durante a qual, Maraus sai e há o retorno de Enco Lesić. Apresentações em festivais se seguiram (com conquista de vários prêmios) e turnês pela U.R.S.S. Finalmente, após 16 anos de existência, a banda conseguiu durante 1977 gravar o álbum "Modra Rijeka" (tradução: rio azul), que significou um retorno ao Rock Progressivo. Com produção de Nikola Borota e da própria banda (Davorin Popović nos vocais, Slobodan A. Kovačević na guitarra/violão, Fadil Redžić no baixo, mais Nenad Jurin nos teclados e Đorđe Kisić na bateria), foi como registrar o lado artístico deles, para além do lado dos sucessos de orientação Pop. Contando com participações especiais de Fabijan Sovagović (narrador em 2 faixas, um famoso ator croata), Tihomir Pop Asanović (órgão) e Ranko Rihtman (piano), o disco era uma obra-prima do Prog. Curioso: tratava-se do primeiro álbum de estúdio de uma banda com tanta história, tão vitoriosa na seara Pop, e banda colocou neste trabalho uma energia criativa e uma musicalidade superiores. O resultado era um Prog dominado por teclados e o baixo energético, algo entre o Yes e o Renaissance. Música sobre poemas de Dizdar, um dos melhores poetas bósnios (com seus poemas cheios de misticismo e beleza), gerando canções em que cada uma contava uma pequena história. Belas harmonias multi vocais (típicas do Indexi), violão maravilhoso (lembrando algo do Prog italiano), solos de guitarra e teclados engenhosos e cheios de habilidade (piano clássico, órgão Hammond, sintetizador Moog etc. em duetos e em interações), linhas de baixo elegantes (e impressionantes), tudo musicando poemas sobre a humanidade e o lugar do homem no universo. "Rio Azul" era, na verdade, um símbolo alegórico sobre a vida e a música criada pelo Indexi era uma tapeçaria perfeita para tais letras. Absolutamente fora do tempo (afinal, estávamos em 78), o LP surpreendeu a todos (inclusive os fãs). Uma sonoridade triste e poética, dramática e angustiante, melódica e intensa, profunda e doce. Destaques para a faixa "Blago" (tradução: tesouro), "Slovo O Covjeku" (tradução: carta sobre o homem, com quase 6 minutos, uma bela balada), "More" (tradução: mar, com quase 12 minutos) e "Modra Rijeka II", que fechava o disco (com quase 7 minutos). Um álbum magistral e inspirado, mesclando Hard Prog com Prog sinfônico e com aquele elemento "grandioso", difícil de se descrever, típico das obras-primas. Uma joia!
"Like a Rolling Stone", canção de Bob Dylan lançada em 20/jul/1965 pela Columbia Records tornou-se um hino de uma geração. Sua letra surgiu de um longo texto em versos que o artista escreveu um mês antes, voltando exausto de uma cansativa turnê pela Inglaterra. Deste texto, Dylan retirou quatro versos e um refrão. A canção seria gravada algumas semanas depois dentro das sessões de gravações do álbum "Highway 61 Revisited" (sexto álbum dele, lançado em ago/65). O processo de pré-produção deu trabalho. Dylan lutou dois dias para encontrar a essência da canção testando formatos em fitas demo. Um avanço aconteceu quando ele testou o formato Rock e Al Kooper, um então músico de sessões, improvisou um riff no órgão Hammond B2 (pelo qual ela ficaria conhecida). A Columbia ficou insatisfeita com a duração da canção (mais de 6 minutos) e com seu som elétrico e hesitou em lançá-la. Foi somente quando, um mês depois, uma cópia vazou e foi ouvida por DJs influentes que ela foi lançada em single. Embora estações de rádio tenham relutado em tocar uma faixa tão longa, "Like a Rolling Stone" alcançou o primeiro lugar nas paradas dos EUA e tornou-se sucesso mundial. Muita gente já a descreveu como revolucionária em sua combinação de elementos musicais, o som jovem e o tom cínico na voz de Dylan e a franqueza na pergunta "Como se sente?". Ela completou a transformação da imagem de Dylan (de cantor Folk para estrela do Rock) e é considerada uma das composições mais influentes da história da música. No início de 65, Dylan já vinha insatisfeito com as expectativas do público sobre ele e com o rumo que sua carreira estava tomando. Chegou a pensar em desistir da música. Em 1966, ele contou:
"Na primavera passada, acho que ia parar de cantar. Eu estava muito esgotado, e do jeito que as coisas estavam indo, era uma situação muito chata... Mas 'Like a Rolling Stone' mudou tudo. Quero dizer, era algo que eu mesmo poderia continuar. É muito cansativo ter outras pessoas dizendo o quanto elas gostam de você, se você mesmo não gosta de você".
"Era um longo trecho de texto. Tinha dez páginas. Não foi chamado de nada, apenas uma coisa de ritmo no papel, tudo sobre meu ódio constante direcionado a algum ponto, que era honesto. No fim das contas não era ódio, era contar a alguém algo que ele não sabia, dizer que ele teve sorte. Vingança, essa é uma palavra melhor. Eu nunca tinha pensado nisso como uma música, até que um dia eu estava ao piano e no papel, estava cantando, 'How does it feel?' em um ritmo de câmera lenta, no máximo de câmera lenta seguindo algo".
Durante aquele 1965, Dylan compôs prosa, poemas e canções datilografando incessantemente. As filmagens presentes no doc "Don't Look Back" com Dylan em sua suíte no Savoy Hotel em Londres capturam esse processo. Dylan contou que "Like a Rolling Stone" começou como um longo "vômito", que mais tarde adquiriu forma musical. Tantas páginas, ele não estava interessando em escrever um livro ou uma peça, só queria compor canções. Daquele longo texto, ele tirou os quatro versos e o refrão. Em 2014, quando o manuscrito foi leiloado pode-se perceber que o refrão só aparecia na quarta página, linhas haviam sido rejeitadas e/ou substituídas por Dylan. Ele então convidou o guitarrista de Blues de Chicago, Mike Bloomfield, para sua casa em Woodstock num fim de semana. Bloomfield contou: "A primeira coisa que ouvi foi 'Like a Rolling Stone'. Achei que ele queria Blues, dobra de cordas, porque é isso que eu faço. Ele disse: 'Ei, cara, não quero nada tipo B.B. King e afins'. Então, OK, eu realmente desmoronei. O que diabos ele queria? Nós brincamos com a música. Eu toquei de um jeito que ele curtiu".
As sessões de gravação foram produzidas por Tom Wilson em 15-16/jun/65 no estúdio A da Columbia Records, em NYC. Além de Bloomfield, estavam Paul Griffin no piano, Joe Macho Jr. no baixo, Bobby Gregg na bateria e Bruce Langhorne no pandeiro, todos contratados por Wilson (Gregg, Griffin e Langhorne já haviam trabalhado com Dylan-Wilson no álbum "Bringing It All Back Home"). No primeiro dia, cinco takes foram feitos num estilo bem diferente, tipo valsa, sem partitura, tudo tocado de ouvido. No entanto, foi assim que Dylan descobriu o queria. Quando todos voltaram no dia seguinte, Al Kooper se juntou a eles (na época, um músico de 21 anos). Ele originalmente não participaria, mas estava ali no estúdio a convite de Wilson. Kooper era guitarrista e ficou intimidado pela guitarra de Bloomfield. Então, Kooper disse a Wilson que sabia tocar órgão. Wilson menosprezou suas habilidades e acabou surpreso ao vê-lo tocando. Dylan adorou e pediu que o som do órgão fosse aumentado na mixagem, apesar dos protestos de Wilson de que Kooper não era um tecladista. Houve 15 takes neste segundo dia durante os quais a canção evoluiu para sua forma conhecida por todos (estas sessões de gravações completas foram lançadas em 2015 na "The Bootleg Series Vol. 12: The Cutting Edge 1965–1966".
Like a Rolling Stone / Como uma pedra rolando
Once upon a time you dressed so fine / Era uma vez você se vestiu tão bem
Threw the bums a dime in your prime, didn't you? / Deu centavo aos vagabundos no seu auge, não foi?
People call, say: Beware, doll, you're bound to fall / As pessoas ligam, dizem: Cuidado, boneca, você vai cair
You thought they were all a-kidding you / Você pensou que eles estavam todos brincando com você
You used to laugh about / Você costumava rir sobre
Everybody that was hanging out / Todo mundo que estava saindo
Now you don't talk so loud / Agora você não fala tão alto
Now you don't seem so proud / Agora você não parece tão orgulhosa
About having to be scrounging your next meal / Sobre ter que surrupiar sua próxima refeição
How does it feel? / Como é?
How does it feel? / Como é?
To be without a home / Estar sem casa
Like a complete unknown / Como um completo desconhecido
Like a rolling stone / Como uma pedra rolando
Aw, you've gone to the finest school all right, Miss Lonely / Ah, você foi para a melhor escola, senhorita Sozinha
But you know you only used to get juiced in it / Mas você sabe que você só costumava se espremer nela
Nobody's ever taught you how to live out on the street / Ninguém nunca te ensinou como viver na rua
And now you're gonna have to get used to it / E agora você vai ter que se acostumar
You say you'd never compromise / Você diz que nunca se comprometeria
With the mystery tramp, but now you realize / Com o vagabundo misterioso, mas agora você percebe
He's not selling any alibis / Ele não está vendendo nenhum álibi
As you stare into the vacuum of his eyes / Enquanto você olha para o vácuo de seus olhos
And say: Do you want to make a deal? / E diz: quer fazer um acordo?
How does it feel? / Como é?
How does it feel? / Como é?
To be on your own / Estar por conta própria
With no direction home / Sem direção para casa
A complete unknown / Um completo desconhecido
Like a rolling stone / Como uma pedra rolando
Aw, you never turned around to see the frowns / Ah, você nunca se virou para ver as carrancas
On the jugglers and the clowns when they all did tricks for you / Sobre os malabaristas e os palhaços quando todos faziam truques para você
Never understood that it ain't no good / Nunca entendeu que não é bom
You shouldn't let other people get your kicks for you / Você não deve deixar que outras pessoas brinquem por você
You used to ride on a chrome horse with your diplomat / Você costumava andar em um cavalo cromado com seu diplomata
Who carried on his shoulder a Siamese cat / Que carregava no ombro um gato siamês
Ain't it hard when you discover that / Não é difícil quando você descobre que
He really wasn't where it's at / Ele realmente não estava onde está
After he took from you everything he could steal? / Depois que ele tirou de você tudo o que podia roubar?
How does it feel? / Como é?
How does it feel? / Como é?
To hang on your own / Se pendurar por conta própria
With no direction home / Sem direção para casa
Like a complete unknown / Como um completo desconhecido
Like a rolling stone / Como uma pedra rolando
Aw, princess on the steeple and all the pretty people / Aw, princesa no campanário e todas as pessoas bonitas
They're all drinking, thinking that they got it made / Eles estão todos bebendo, pensando que eles conseguiram
Exchanging all precious gifts / Trocando todos os presentes preciosos
You'd better take your diamond ring, you better pawn it, babe / É melhor você pegar seu anel de diamante, é melhor penhorá-lo, querida
You used to be so amused / Você costumava ser tão divertida
At Napoleon in rags and the language that he used / Em Napoleão em trapos e a linguagem que ele usava
Go to him now, he calls you, you can't refuse / Vá até ele agora, ele te chama, você não pode recusar
When you ain't got nothing, you got nothing to lose / Quando você não tem nada, você não tem nada a perder
You're invisible now, you got no secrets to conceal / Você está invisível agora, você não tem segredos para esconder
How does it feel? / Como é?
Aw, how does it feel? / Ah, Como é?
To be on your own / Estar por conta própria
With no direction home / Sem direção para casa
Like a complete unknown / Como um completo desconhecido