sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Nick Cave & The Bad Seeds – The Boatman’s Call (1997)

 


Já nestas páginas escrevi sobre o meu adorado Nick Cave. A propósito de um disco, e também sobre uma particular canção deste The Boatman’s Call. A de abertura, para ser mais exato. Avanço agora, uma vez que algum dia teria de ser, para aquele que é o meu disco preferido de um dos músicos vivos que tenho como soberano e imortal. A tarefa, por isso mesmo, não é fácil, mas tentarei cumpri-la sem grandes exageros (desculpáveis, assim espero que os entendam), sem que muito se note o amor desmesurado que tenho por eles, disco e artista. Nick Cave & The Bad Seeds conseguiram, no final dos anos setenta, mudar o rumo da trajetória que vinham traçando há muito, e fizeram-no com a têmpera dos grandes, dos escolhidos. The Boatman’s Call representa, portanto, um corte previsto (se tivermos em conta a suave mudança de pequenos pormenores de discos anteriores), mas mesmo assim radical, e também um momento sem retorno equivalente, uma vez que os álbuns seguintes, por muito interessantes que sejam, como é o caso do ótimo No More Shall We Part (2001) por exemplo, não mais revelaram a preciosa delicadeza, o minimalismo de meios e de formas, a catarse que se sente no disco de 1997.

Recuemos um pouco até Murder Ballads, saído a público um ano antes. Ele terá sido um disco em que se adivinhava o fim de uma época e cujo expoente máximo aconteceu com Let Love In (1994), obra fundamental e paragem obrigatória para os que quiserem conhecer a obra do australiano e das suas sementes malignasMurder Ballads começa a mostrar uma outra forma de compor, um outro estilo mais despido, mais cru, mais direto de fazer canções. Nesse sentido, ele é o fim e o início de um percurso mais intimista, cujo primeiro capítulo é The Boatman’s Call. O que terá pesado para tão notória mudança? O difícil relacionamento com Polly Jean Harvey, e o seu inevitável fim? O afastamento das drogas que durante tanto tempo estiveram presentes na sua vida? A necessidade orgânica (por não dizê-lo?) de um caminho onde o transcendente pudesse estar presente como equação central da existência? A morte, metáfora suprema do fim? O questionamento de tudo, da carreira, da vida e do significado de ambas? A verdade é que este poderia ter sido muito mais um disco a solo do que um álbum de Nick Cave & The Bad Seeds. Até o próprio Cave concordou com essa ideia. Num interessante essay sobre The Boatman’s Call feito por Jim Sclavunos (músico há muito ligado ao universo caveano e aos Grinderman), aparece escrito algo que ajuda a perceber melhor o disco de 1997, e que se resume a uma única questão: estariam os Bad Seeds dispostos a restringir o seu poderoso som, a apagar-se, a diluir-se enquanto persona artística, para que um novo Nick Cave pudesse sobressair da forma tão visceral? A resposta é brilhantemente dada no disco, e é afirmativa.

As canções memoráveis são mais do que muitas, quase todas, umas mais conhecidas do ouvinte comum (se é que o ouvinte comum ouve Cave, coisa que não tenho como certa), outras menos. Entre as primeiras, “Into My Arms”, “Lime Tree Arbour”, “People Ain’t No Good” e “(Are You) The One That I’ve Been Waiting For?” são as mais representativas, e nelas encontramos a sofrida beleza sublimada que tão bem caracteriza o disco. Nas outras, nas que não terão ficado na retina auditiva dos menos atentos, podemos referir “Brompton Oratory”, “There Is A Kingdom”, “Where Do We Go But Nowhere?” e “Far From Me”, (aquele baixo, meu Deus, aquele baixo divinal!), canção central para percebermos um dos sentidos de maior significado do álbum, o da sua vida íntima amorosa. Adoro-a, e adoro os versos que dizem “For you I am dying now / You were my mad little lover / In a world where everybody fucks everybody else over”. Depois, depois há Deus e o relacionamento possível entre o homem e aquele que o terá criado. Nesse sentido, “There Is A Kingdom” merece leitura atenta, “Such is my faith for you / Such is my faith”…

Resumindo o que talvez não devesse ser resumível, The Boatman’s Call é muito mais do que um disco. É também uma fatia biográfica sobre um certo período íntimo e artístico de Cave, uma página virada para um novo e singular caminho que deu outro belo fruto em No More Shall We Part (2001), que dificilmente teria sido feito se este meu disco de estimação não existisse. A beleza do piano de Nick Cave percorre todo o álbum e é a sua maior âncora. É ele que dita as agruras, as nuances, o sofrimento, como se cada tecla tocada ocupasse o lugar de lágrimas e anseios. É, sobretudo, um disco inquietante, muito mais do que um disco tranquilo. Não há, aliás, ponta de tranquilidade nas 12 faixas de The Boatman’s Call. Por isso ele é tão imprescindível, tão clássico (no sentido dado aos clássicos por Italo Calvino), tão soberano, tanto naquilo que diz, como naquilo que evoca.

É um disco para toda uma vida!


Sem comentários:

Enviar um comentário

Destaque

Wings - Back To The Egg (1979)

  01. Reception 02. Getting Closer 03. We’re Opening Up 04. Spin It On 05. Again and Again and Again 06. Old Siam, Sir 07. Arrow Through Me ...