Praticantes de uma pop-rock melódica, ruidosa e dissonante, com vontade de tomar caminhos sónicos, os Blue Oranje Juice formaram-se em 1996 em Guimarães e eram compostos por António José Guedes (voz, guitarra, sintetizador), Rodrigo Areias (guitarra, voz), Ricardo "Formiga" (baixo, também membro dos Cio Soon) e Eduardo (bateria). A banda foi-se fazendo pela dissolução de outros projectos mais incipientes em que os seus membros haviam estado envolvidos (Bergen-Belsen, por exemplo). O primeiro tema que compuseram foi "Star" que chegou aos ouvidos de Marco Martins, o responsável pela editora Garagem, que gostou do mesmo e os quiz editar. Tocavam uma espécie de pop sónica e rock hipnótico ao estilo do que andava na moda na altura, assumindo-se indefectíveis dos inevitáveis Sonic Youth, Pavement, Pixies ou Dinosaur Jr. A partir de 1997, com o abandono de Ricardo "Formiga" que passa a concentra-se apenas nos seus Cio Soon e The Ant, Eduardo transita para o baixo, entrando Bruno Ferreira (ex-Godskin) que assume a bateria. Foi com este line up que a banda grava o tema "Star". O projecto acabou por atingir um certo estatuto por entre o leque de bandas independentes que na altura despontava. Tal como os seus ídolos, pretendiam não só fazer canções mas também desconstruir a música em formato pop, utilizando uma melodia que procuravam transformar através do ruído em algo mais abstracto. Em "Monoxide", o único registo de longa duração que editaram (e que esteve para se intitular "Happy Orange Party"), contaram com a colaboração do saxofonista de jazz Rui Azul, tendo a produção sido da responsabilidade de Joe Fossard. Actualmente Rodrigo Areias dedica-se ao cinema, sendo já um nome relativamente conhecido no meio.
DISCOGRAFIA
SPIN ORBIT [7"Single, Garagem, 1998]
RADIO TAPE [Tape, Edição de Autor, 1998]
MONOXIDE[CD, Garagem, 1998]
COMPILAÇÕES
GARAGEM [CD, Garagem Records, 1996]
PLEASE STOP THIS NOISE ON MY HEAD 01 [Tape, Som Sónico, 1997]
Um bom álbum de rock sinfônico mexicano com som semelhante ao de Chac Mool misturado com ELP (ponele) Muito teclado (o aspecto mais original desta banda era que todos os quatro membros tocavam sintetizadores e dividiam papéis para outros instrumentos como piano, baixo, guitarra e bateria), muita melodia e um pouco disso que eu não uso. -sabe o quê. Eles têm projetos musicais mexicanos que os tornam reconhecíveis. Convido-vos a conhecer o demónio dos teclados e dos sons infinitos, com passagens que nos conduzem pelos caminhos sonoros de uma sinfonia altamente fabricada, onde intervêm os sintetizadores Korg MS-20, ARP Omni, Mini Korg e pianos acústicos e elétricos, criando. texturas românticas, referências suaves de música clássica e ambientes atmosféricos, além de ocasionais introduções virtuosas. Grupo que gravou este único álbum embora tenha iniciado seu projeto no final dos anos 70 como oficina de composição até se tornar "Nobilis Factum", e aparentemente permanece ativo até hoje.
Artista: Nobilis Factum Álbum: Mutante Ano: 1982 Gênero: Rock progressivo sinfônico Referência: Discogs Nacionalidade: México
Mais uma vez entramos plenamente no mundo suculento e quase desconhecido do progressismo latino-americano.
É verdade que, quando se trata de música, o México nunca esteve na vanguarda nem foi uma referência a considerar na descoberta de novas tendências ou sons. A música no México se divide em duas vertentes principais: a nativa, que inclui todos os ritmos populares mexicanos, como banda, ranchero ou grupero, e até alguns emprestados como cumbia, salsa e danzón; e por outro lado há música com influência anglo-saxónica, seja rock, pop, electrónica, blues, etc. Esta última cena é a mais próxima da arte, embora existam poucos grupos de rock mexicanos que realmente conquistaram mérito suficiente para transcender. Mas dentro do rock há um aspecto muito particular do qual nem todo músico pode fazer parte, estou falando de rock progressivo, e acredite ou não, no México eles fizeram (e continuam a fazer, embora menos) progressivos de alta qualidade rock, que passou praticamente despercebido graças a vários fatores. Em primeiro lugar, o clímax do desenvolvimento deste género no nosso país foi durante a década de oitenta, uma época marcada (pelo menos no México) por tendências musicais muito diferentes a nível popular. Mas devemos considerar também a falta de apoio das gravadoras e a pouca difusão que o gênero teve em si na década anterior. Porém, houve grupos que fizeram rock progressivo...
Uma viagem cheia de surpresas, gostos e desgostos, delícias e sabores agridoces.
Olá, estou escrevendo para você do Peru, esse álbum é uma obra-prima, ouvi-o em minha cidade natal, Lima, por volta de 1982, durante o conflito das Malvinas e a proibição do rock em inglês, sempre quis o LP e sempre foi evasivo até Guillermo Navas me deu orientações sobre como baixá-lo, completando uma busca de mais de 25 anos, hoje ocupa um lugar muito especial no meu clube. Saudações ao Guillermo e aos Nobilis, desejo-lhe "a bela terra do sol"
Desmônio
Aqui vamos com uma veia sinfônica especial, como diz o comentário, bem mexicana... Música muito atmosférica e espacial, dominada por uma agradável tendência para orquestrações sinfônicas.
O primeiro álbum dos Nobilis Factum acaba de surgir no mercado nacional, e fá-lo num momento importante para este movimento, porque parece que há um despertar de novos grupos. Então este álbum junta gravações de gente como Flüght, Carlos Alvarado, Mistus, Syntoma e em breve Jorge Reyes e os que virão. Todos perceberam que existem outras possibilidades de fazer as coisas e fazê-las bem, o que no final é o que importa. Assim, nos últimos dias, assistimos à apresentação deste álbum e ficámos impressionados com a seriedade e profissionalismo com que este grupo trabalha, evidente na organização desta apresentação. O álbum consiste em seis faixas. No lado A temos estas composições: 1) Abertura, 2) Gosto quando você cala a boca (com música de Guillermo Nava sobre o poema nº 15 do poeta Pablo Neruda), 3) Quetzalcoatl e 4) Mutante. No lado B encontramos o seguinte: 5) Harmônicos em cadinho (peça com a qual o grupo participou no Concurso de Jazz da Universidade Metropolitana) e 6) Suíte natural para ela. As músicas do grupo têm letras em espanhol e são um bom exemplo de como combinar a nossa linguagem com o rock, pois embora simples, cumprem perfeitamente o seu propósito. A produção ficou a cargo do produtor Modesto López, que fez um bom trabalho, dando todo o apoio aos meninos. O álbum foi lançado pela marca Pentagrama, uma pequena empresa que se preocupa em divulgar o trabalho de artistas com possibilidades e talentos. Abaixo transcrevemos um fragmento do comunicado que foi distribuído na apresentação do álbum:
“Conhecer e valorizar o trabalho da Nobilis Factum são acontecimentos que ocorrem simultaneamente. O esforço, o profissionalismo, a qualidade e a busca constante são percebidos desde a primeira intenção e, diante disso, não podemos deixar de reconhecê-lo, incentivá-lo e comprometer-se lado a lado - naquele caminho que visa tirar o pó da nossa mente e enriquecer o nosso gosto. Não podemos, no entanto, deixar de nos referir a todos aqueles chauvinistas que arrancam as batinas por causa de um chauvinismo sentimental que frauda a cultura, para quem o rock ainda é o demônio aculturador. (uhi) e não uma manifestação inteiramente válida, constante e retumbante do nosso tempo." A Nobilis Factum foi criada em 1980 e desde então vem atuando em diversos estados da República Mexicana e do Distrito Federal dando concertos para Universidades, Casas de Cultura e outras instituições. O Nobilis Factum é composto por quatro elementos: Enrique Balderas Rodríguez, responsável pelos teclados e voz; Jesús Padillas, violão, teclado e voz; Guillermo Nava, baixo, guitarra, sintetizador e voz; e Miguel Caldera, bateria, percussão e voz. Como você pode ver, todos tocam teclado além do instrumento, o que confere à sua música uma riqueza harmônica muito especial. A música do Nobilis Factum pode ser definida como rock progressivo com grande influência do jazz e da música clássica e vimos isso nesta apresentação. Gostamos muito da composição e do trabalho de performance deles, por isso acreditamos que a qualidade será a chave que abrirá as portas do rock no México.
Liderado pelo tecladista sinfônico Enrique Balderas e sua adoração pelo toque clássico inglês dos teclados, Nobilis Factum produziu uma obra perene de excelente qualidade no início dos anos oitenta. Porém, Balderas não foi o único a tocar este instrumento, já que pelo menos três outros integrantes do grupo contribuíram com sons do principal instrumento do rock progressivo sinfônico. O violão assume papel fundamental em diversas porções do acetato, principalmente na música “Gosto quando vocês callas”, musicalização do lendário poema de Neruda. Esta música contém um intervalo semelhante com alguns tons de Moonmadness de Camel. As vozes de Balderas e Guillermo Nava se combinam na música, isso acontece de forma extraordinária na peça "Quetzalcoatl", todas as vozes pronunciadas remetem a letras lindas e inteligentes que contribuem ainda mais para a originalidade do álbum; Continuando com “Mutante” vale acrescentar que mais uma vez as teclas ocupam um lugar especial, tanto no solo quanto nas esplêndidas texturas no final da música, a essa altura, (metade do álbum) a obra vale ouro moído , resta dizer que a percussão às vezes denota sua origem latina e mexicana, mas de uma forma tão singular que é implausível encontrar um ponto de comparação. O lado dois começa com um estrondo, "Harmónico en crucible" com piano eléctrico fresco e contornos jazzísticos, produzindo um novo turbilhão de teclas e ainda por cima uma guitarra tímida, mas tenaz que luta e preserva o seu espaço num conjunto espectacular. A peça romântica do álbum é apresentada com a óbvia “Suite natural para ella”, cuja simplicidade permite realçar a beleza de um tema desta natureza. Nobilis Factum hoje goza de grande reputação em revistas estrangeiras sobre o assunto, mas já se passaram quase vinte anos desde que deram brilho à música mexicana, uma obra absolutamente indelével.
Lista de Temas: 1. Obertura 2. Me gusta cuando callas 3. Quetzalcoatl 4. Mutante 5. Armónicos en crisol 6. Suite natural para ella
7. Visión de triunfo (Bonus track)
Formação: - Enrique Balderas Rodríguez / mini Korg, piano, voz - Jesús Padilla Lechuga / guitarra, Korg MS 20, Arp Omni, voz - Guillermo Nava Cerda / baixo, guitarra Ovation, Korg MS 20, voz - Miguel Caldera Moreno / mini Korg, Arp Omni, percussões, Korg MS 20, voz
Até as estrelinhas mais incandescentes do universo têm de implodir um dia. E assim fez o nosso em tempos (e ainda) amado Mac DeMarco, com Here Comes The Cowboy, um estrondoso ressono de um disco que revela uma triste sombra de tudo o que nos fez por ele apaixonarmo-nos há mais de meia década atrás.
Mac DeMarco atingiu o cume da montanha, escalando disco após disco até montar a sua tenda dentro da estufa de um segredo que ainda julgamos bem guardado dos comuns ouvintes de rádio comercial, apesar de não ser segredo nenhum. Com 2, a estreia na Captured Tracks, no tão distante ano de 2012, agarrou com força as almas do mundo inteiro, graças às melodias bem dispostas e sumarentas, as guitarradas orelhudas e irresistíveis, uma narrativa sincera sem nunca se levar demasiado a sério e o seu ar de palhaço feliz. A sua aparente descontração, de quem faz parecer tudo tão direto, tão honesto e tão real, era contagiante e quisemos subir o pico com ele. Levou-nos para Salad Days, dois anos mais tarde, um álbum igualmente sólido, cheio de boas canções fixes para cantar no carro mas que haviam sido claramente compostas com um esforço honesto sentido em cada linha de guitarra e de teclado. Em This Old Dog, começámos a ficar para trás. As canções já não entravam sem esforço pelos ouvidos, e a sua característica boa disposição que nunca soava a forçada fora substituída por uma melancolia que, embora franca, sabia a amarga depois de todos os anos em que fomos construindo a sua presença no nosso consciente coletivo como um amigo tonho mas sincero, que não perdia muito tempo a pensar em nada sem por isso ser menos inteligente, com o qual podemos sempre contar para nos fazer fingir que é verão no inverno. Mas até aí, tudo bem, até os palhaços podem ser tristes. Mas em Here Comes the Cowboy, uma constrangedora amálgama do abatimento que já nos fazia adivinhar nas canções do seu último disco e uma tentativa falhada de recuperar a leveza dos primeiros álbuns, desviamos a rota e DeMarco acaba sozinho no topo da sua montanha solitária.
Mac DeMarco não tem direito a estar triste, é isso que estamos a dizer? Claro que tem. E tem direito a estar cansado, que é a emoção que pesa que nem um quilo de cimento ao longo dos treze temas que compõe este novo Here Comes the Cowboy, lançado a 10 de maio através da sua própria editora (uma estreia absoluta). Mas, enquanto a melancolia se traduz facilmente em boa música, a moleza mais dificilmente se ergue para nos deixar espreitar para além de uma sombra de canção. Depois de ouvirmos DeMarco a oscilar entre um esforço mal tentado de recuperar a magia de tempos passados e uma aceitação de uma inércia que simplesmente não estava lá dantes, quase que sentimos que a capa do álbum – uma simples carinha sorridente – não passa de uma cruel piada da qual ninguém se consegue rir.
As fórmulas gastam-se, claro. E a fórmula de DeMarco já ameaçava fazê-lo há um par de anos: o seu pastiche de Haruomi Hosono meets indie anglo-saxónico (admitamos, único na sua adaptação, que, aliás, já inspirou um milhão de cópias que nos fazem sempre regressar a DeMarco como uma referência improvável mas fundamental da cena indie dos últimos anos) havia de se esgotar um dia. Mas nunca aceitaríamos a possibilidade de chegarmos a 2019 e vermos o cozinheiro da sua própria receita sem saber muito bem o que fazer com ela. A desacreditá-la no seu ensaio de a falsificar. E o mais trágico nisto tudo é que ninguém o vai conseguir substituir, sem ser ele próprio, mas o “novo” DeMarco, um homem cuja criatividade parece ter sido sugada de dentro de si por um aspirador, não promete fazê-lo em breve, e certamente a missão não se cumpre neste Here Comes The Cowboy.
O álbum começa pouco promissor, com uma faixa título que se arrasta ao longo de uma sequência de acordes monótona e a frase que lhe dá nome durante três minutos que parecem nunca mais terminar. Depois disso, as coisas melhoram um pouco, e seguimos para a tristonha “Nobody”, uma luzinha num túnel sombrio, uma memória de baladas melhores do músico canadiano. Acaba por ser um dos momentos de maior sinceridade de DeMarco ao longo de todo o disco: ao escutar letras como “I’m a preacher / A done decision / Another creature / Who’s lost its vision” e “Let it go / Cash it in / For the creature / On television”, não conseguimos evitar sentir um certo desconforto ao adivinharmos a verdade da previsão de quem as escreveu.
Seguimos para a francamente esquecível “Finally Alone” (que ao menos oferece-nos um dos mais angelicais agudos da aveludada voz de DeMarco, uma das suas mais subestimadas armas), que se confunde com “Little Dogs March” para a qual podíamos aplicar exatamente a mesma descrição, sem tirar nem pôr. Apelidar “Preoccupied” de aborrecida é um elogio na medida em que é de uma dificuldade imensa encontrar palavras para sequer a batizar (fora uma linha de guitarra limpinha e cujo interesse se esgota na primeira vez que se ouve). As coisas não ficam muito mais famosas para além daqui: talvez se consiga destacar a doce “K”, balada Mccartney-esca dedicada ao seu amor de sempre que fará derreter até os mais gélidos corações, ou o suave single “All Of Our Yesterdays”, no qual DeMarco e a sua banda quase que recuperam o sol de temas passados como “Go Easy” ou “My Kind of Woman”. Tudo o que lhe confere o seu estatuto enquanto um dos melhores temas do disco, no entanto, retoma à sua similitude a canções melhores de um passado mais simples para nós e para DeMarco, e a vontade imediata é de ir escutar de novo essas músicas, e não estes pobres substitutos.
No entanto, por cada “K” ou “All Of Our Yesterdays”, temos de lidar com um “Choo Choo”, uma tentativa francamente humilhante de recuperar de forma plástica uma excentricidade que, no princípio, surgia de forma genuína, como um pai que tenta contar uma anedota mas erra na punch-line, ou um aborrecimento quase fatal causado pela colisão direta com temas como “Skyless Moon”.
Não é fácil dizer-se mal de um disco de uma figura tão universalmente tida como simpática: em tempos, a sua fórmula parecia e foi infalível, e resistir-lhe era ser careta. Hoje em dia, o careta é ele, a tentar em vão espremer de dentro dos seus dedos e cordas vocais cansadas uma magia que já só vive artificial. Os tempos passaram e passaram por DeMarco também. Dar uma nota negativa a este álbum é quase admitir derrota: se calhar já lhe passou, aquele rasgo de genialidade que sempre tomou com a humildade de quem nem sabe muito bem o que está a fazer ao mesmo tempo que faz tudo bem. Já fomos da guitarra ao sintetizador e do sintetizador à guitarra e do elétrico ao acústico e da sinceridade à palermice. Não o encontramos em lado nenhum. Mac DeMarco está exausto. Tomemos esta grande nega não como uma repreensão (quem conseguiria repreender uma das personas mais amáveis da música contemporânea?) mas como uma oportunidade para DeMarco fazer algo que talvez resulte numa cura: desistir, durante um bocadinho, descansar e encontrar um novo rumo que não esteja inundado pela inércia e artificialidade.
Como prometido, Anderson .Paak, ao lado dos sempre fiéis Free Nationals, envia-nos para Ventura ainda antes de querermos sair de Oxnard, California.
O mundo pertence a Anderson .Paak – em 2019 é difícil encontrar alguém que não tenha sido atraído pelo magnetismo do californiano. Desde 2016, com o lançamento de Malibu, a banda-sonora definitiva para um verão repleto de paixão e desejo, que o músico tem vindo a colher aplausos de fãs e críticos pelo mundo fora. No início de 2018 anunciou dois discos, Oxnard, lançado em Novembro do ano passado produzido por Dr. Dre e Ventura, gravado com a sua banda de sempre, os Free Nationals.
Em contraste com o hip-hop mais intenso de Oxnard, Ventura leva-nos de volta para as praias ao final da tarde de Malibu. A combinação de piano, baixo e coros que abre “Come Home” torna este regresso evidente, numa canção que conta com um excelente verso do cada vez mais desaparecido Andre 3000. A lista de veteranos colaboradores inclui também, inacreditavelmente, Smokey Robinson, que empresta a sua voz de algodão a “Make It Better” e Nate Dogg que contribui para o doo-wop de “What Can We Do?”.
Quanto ao conteúdo lírico, existe agora uma maturidade que ultrapassa as simples histórias de engates dos discos anteriores. As temáticas podem ser as mesmas, mas a perspectiva é mais adulta e deslocada. Um excelente exemplo desse crescimento é “Make It Real” uma canção que lida com a divergência atual de um casal, em contraste com a intensidade da relação no passado. Mas nem tudo tem de ser sério e maduro. O humor que caracteriza as letras do músico ainda está presente, como em “Reachin’ 2 Much”, um funk demasiado pesado para se perder em questões sérias. O seu instrumental parece conter a totalidade dos anos setenta, desde as guitarras wah-wah à secção de metais.
Há algo que não encaixa neste puzzle ondulante, no entanto. O álbum tenta frequentemente emular Malibu mas falta-lhe uma certa coerência e atenção ao detalhe. Por muito boas que “King James” e a já supracitada “Reachin’ 2 Much” sejam, falta-lhes algo que as eleve aos picos icónicos do álbum mais velho. Ventura é Anderson .Paak a fazer aquilo que faz melhor: R&B veranil sem pretensões nem preocupações. É, simplesmente, um conjunto de músicas bem escritas, tocadas e produzidas. E não há mal nenhum nisso.
Terceiro álbum da cantautora neo-zelandesa mantém a toada que lhe trouxe reconhecimento generalizado.
Apesar de não termos lançado crítica ao álbum aqui no Altamont, Party foi devidamente escutado durante o ano de 2017 e foi ficando a marinar desde então. Importa também referir que Harding fica intimamente ligada ao ano de 2018 por ter “contribuído” para que Marlon Williams se saísse com Make Way For Love, onde Harding participa como vocalista numa música, para além de grande responsável pelo coração partido de Marlon. O seu nome ficou assim no radar, tendo agora sido logo agarrado à primeira para não escapar a ser alvo de palavras nossas sobre o mesmo. Elas aqui ficam.
Comecemos pelo single, lançado, como é moda nos tempos que correm, dois meses antes do álbum – “The Barrel” são 5 minutos de uma bela balada, mostrando a subtileza que Harding impõe às suas composições. Subtileza é mesmo capaz de ser a palavra-chave para adjectivar este Designer, que discorre ao longo de 40 minutos com tranquilidade. Quiçá tranquilidade a mais, talvez falte um pedaço de intensidade que o faria agarrar mais ao tímpano, mas o jogo entre timbres de voz que Harding alcança são vistosos e evidentes, em cada música parece que uma personagem diferente entra em jogo. Em entrevista, a neo-zelandesa avalia o seu trabalho como sendo um debate entre três forças motoras – o medo, o amor e a força. Mas isto daria para praticamente tudo o que acontece no Universo, pelo que talvez lhe falta também alguma especificidade, algum alvo mais concreto. As letras são algo crípticas o que nos deixa um pouco perdidos sobre os propósitos da mensagem (se é que há alguma).
Numa altura em que estamos bastante bem servidos em termos de cantautoras alternativas (Angel Olsen, Jessica Pratt, Lucy Dacus, Snail Mail, Adrianne Lenker, Julia Jacklin, Sharon Von Etten), Aldous Harding facilmente se pode integrar neste grupo de herdeiras de Cat Power (que também continua a lançar discos)
Com os The Internet no limiar do mainstream, Matt Martians encontrou tempo para fazer uma pequena pepita de grooves intoxicantes.
É engraçado pensar em Matt Martians a fazer um disco à volta de um rompimento amoroso. Como é que um ser tão alienígena pode sofrer de uma condição tão terrena? E quem diria que algo tão amargo como uma separação poderia resultar em melodias tão doces? Com os The Internet ocupados a promover o seu último disco, Hive Mind, Matthew Martin conseguiu arranjar duas semanas para gravar esta pérola R&B psicadélica.
The Drum Chord Theory, de 2017, já tinha demonstrado amplamente a recente obsessão do músico com cogumelos mágicos, com a sua produção cozida, vocais pitch-shifted e melodias oblíquas. The Last Party é feito com os mesmos ingredientes mas é uma viagem relativamente mais sóbria, o que não quer dizer que a sua altitude se mantenha abaixo da exosfera.
Um detalhe interessante é que, apesar de existirem apenas oito faixas neste curto álbum (tem menos de meia hora de duração), muitas delas estão divididas em duas partes ou mais. “Knock Knock” por exemplo, começa como uma balada R&B até se desvanecer em coros etéreos e interpelações de saxofone. O seu companheiro de banda, Steve Lacy partilha com Mac DeMarco créditos de produção em “Pony Fly”, uma canção destinada a animar a pista. O baixo frenético de Lacy acompanha a guitarra solitária de DeMarco por baixo de um refrão gorduroso cantado por uma emaranhado de vocais desvanecidos em reverb.
No geral, as músicas não se afastam assim tanto da sonoridade dos The Internet, especialmente nas canções nas quais os membros da banda participam, mas a personalidade de Matt Martians prevalece. Quando não está a falar entre canções, está a introduzir efeitos sonoros inesperados a meio de canções, mais orelhudas que as da sua banda. Nada na discografia da banda é tão orelhudo como o riff de piano elétrico que forma a primeira parte de “Look Like”, por exemplo. The Last Party lembra-nos que os The Internet são muito mais que Syd e Steve Lacy.
Do nada que compõe a escuridão, os Mono conseguiram reconstruir um lugar seguro, cheio de texturas e sentimentos familiares. Nowhere Now Here é a reedificação de uma banda, que ao vigésimo aniversário, mantém os mesmos pilares mas sem a insegurança do desconhecido.
O post-rock é uma casa aberta. Neste espaço livre de constrangimentos – onde volto sempre em busca de alguma compreensão – são bem-vindos todos os estados de espírito e agilizados os procedimentos para que qualquer dor menos enquadrada sucumba às notas familiares que nos guiam espiritual e musicalmente para este porto seguro. Os japoneses Mono já fazem parte da mobília – bem lixada, encerada e cuidada – e comemoram vinte anos com o disco Nowhere Now Here, o primeiro desde 2016.
Ao décimo álbum de estúdio, concentram-se em fazer-nos sentir em casa com melodias acolhedoras e caseiras, a saber a Hymn To The Immortal Wind, e notas mais agressivas – mas sempre empáticas – e com tonalidades mais negras e exasperantes como já tínhamos sentido em The Last Dawn e Rays Of Darkness. No entanto, independentemente de onde e quando os ouvimos, todas as suas criações denotam alguma intemporalidade, seja pela vulgar sensação de familiaridade que a monocórdia do seu género nos passa, ou por nos vermos sempre inundados por sentimentos passados e presentes e certamente futuros, de uma vida vã em que não passamos de puros espectadores, meros transeuntes numa sociedade onde a música nos compreende mais do que as pessoas.
Minuciosamente orquestrado, Nowhere Now Here é, para além de uma jornada de introspecção, um álbum completo. Rico em sensações de ataraxia e nostalgia, surpreende ainda pela presença da voz extremamente bela da baixista Tamaki Kunishi, em “Breathe”, que nos transporta com o seu timbre sereno para um oceano de novas e profundas emoções.
Em cada nota, um ombro amigo. E na sua tristeza, a certeza de que não estamos sozinhos
Comentário: Grupo vindo de Toronto, ativo na primeira metade dos anos 70 e que ganhou certa popularidade local, lançando cinco LPs e vários singles, inclusive acompanhando Pierre Trudeau em sua campanha política em 1972. Neste segundo disco, dividido em 14 curtas faixas, ouvimos uma boa mescla de boogie, blues e country rock, típico da época. A guitarra guia o instrumental, com riffs e solos marcantes, acompanhada por piano, metais, gaita e percussão. Destaque para "Too True Mama", "Oh What A Feeling", "Murder In The First Degree" e "Mountain Fire", apesar de ser uma obra consistente.