segunda-feira, 10 de março de 2025

Black Sabbath – Super Deluxe Editions, Valem a Pena?

 

Black Sabbath – Super Deluxe Editions, Valem a Pena?

Uma banda que tem se mostrado pródiga em relançar seus discos clássicos é o bom e velho Black Sabbath. Acompanho a banda há quase 40 anos e tive a coleção completa em vinil e depois em CD. Sobre este formato, as primeiras edições nada trouxeram de novo (a não ser as da Castle, que traziam músicas do Live at Last como bonus tracks nos discos da fase Ozzy), mas no começo do século XXI começaram a surgir Deluxe Editions bastante caprichadas, em CDs duplos, abrangendo os três primeiros álbuns, os discos com Dio (incluindo Dehumanizer) e alguns posteriores (Born AgainSeventh Star e Eternal Idol). Essas edições fizeram os fãs quebrarem o cofrinho para ter acesso, sobretudo, a gravações ao vivo e versões alternativas, mas um Sabbathmaníaco queria tê-las de qualquer jeito!

Em 2016, um dos agraciados com aquelas edições ressurgiu no mercado como Super Deluxe Edition, numa box com 4 CDs: Paranoid! Quatro anos depois, a box foi relançada (inclusive em vinil), e outras três saíram nos anos seguintes: Vol. 4Sabotage e Technical Ecstasy, fazendo com que apenas Sabbath Bloody Sabbath e Never Say Die, dos primeiros anos, não tenham nenhuma reedição com material adicional. Heaven and Hell e The Mob Rules (que não serão abordados aqui) receberam recebendo novas edições em CD duplo – o segundo é o mais interessante, pois traz um show completo, inteiramente inédito, gravado em 1981, antes dos shows que compuseram Live Evil. E agora em 2023 esse álbum ao vivo recebeu sua própria Super Deluxe Edition.

Vamos aos fatos: na parte boa, as boxes são lindas, realmente caprichadas na parte gráfica e na qualidade sonora e o material ao vivo tem qualidade variável de gravação; por outro lado, os preços são elevados e não há músicas inéditas ou desconhecidas, apenas versões alternativas. Então, daí surge a pergunta: vale mesmo a pena investir nas Super Deluxe Editions do Sabbath? Vamos tentar responder uma a uma…

Paranoid

Uma escolha natural para as reedições em box sets, o favorito de muita gente quando se trata de Black Sabbath (mas não o meu, hehehehe), Paranoid se deu muito bem aqui. O primeiro CD traz o original remasterizado, com excelente qualidade sonora, e o segundo o reprisa na versão quadrafônica (aqui “reduzida” para estéreo) dos anos 70. O pacote se completa com dois discos ao vivo, Live in Montreux 1970 e Live in Brussels 1970 (gravados respectivamente em agosto e outubro) que, embora sejam muito populares entre os colecionadores de bootlegs, nunca tinham sido lançados oficialmente. De fato, a qualidade sonora dos discos ao vivo não é das melhores, mas não chega a comprometer; o show em Montreux, cronologicamente mais antigo, traz algumas músicas de Paranoid com letras alternativas, e é interessante ver como Ozzy agitava o público já nessa época. O show em Bruxelas circulou muito tempo erroneamente creditado como sendo em Paris, mas aqui está corrigido. Pena que os dois discos juntos totalizam em torno de 100 minutos, mas é sempre melhor um pouco de Sabbath ao vivo do que nenhum. A performance dos músicos é muito boa e o repertório, embora não traga novidades, é baseado no que os primeiros discos tinham de melhor.

Um livreto de capa dura, um poster e uma reprodução do programa dos shows de 1970 acompanham o pacote. O livreto é muito bom em termos de fotografias e imagens, e o texto é de boa qualidade. Por fim, os CDs são acomodados em capas duplas no formato mini-LP, reproduzindo a arte original de Paranoid. Numa escala de zero a cinco, Paranoid Super Deluxe Edition recebe as cinco estrelinhas com louvor – mesmo que as versões instrumentais e a “Planet Caravan” alternativa que fizeram parte da “Deluxe Edition” não tenham sido incluídas, o que fará com que os colecionadores tenham que manter as duas edições…

Black Sabbath Vol. 4

Vol. 4 sempre foi meu álbum favorito do Sabbath, então, para mim, este era o disco que mais precisava de uma reedição caprichada. E, honestamente, essa edição ficou realmente fantástica na parte gráfica. Mais uma vez, tem-se um livreto em capa dura, mas neste caso não há propriamente um texto, e sim trechos de entrevistas, de publicações de época sobre a banda, e muitas fotos e memorabilia. Já o poster traz o que seria a capa original de “Snowblind”, primeiro nome (vetado) para o LP. Novamente, os CDs são colocados em capas duplas, como o original, cada um dedicado a um membro da banda. Dois CDs trazem versões alternativas e outtakes. Normalmente temos pouca variação, mas neste caso as versões alternativas possuem diferenças sensíveis, e é muito interessante ver a evolução de “Wheels of Confusion” (uma das melhores músicas do Black Sabbath, na minha opinião), bem como acompanhar as várias tentativas de acertar “Supernaut” (também disponível em versão com letra bem diferente da final). A coda instrumental de “Wheels of Confusion”, intitulada “The Straightener”, também é apresentada como uma música à parte. Por outro lado, a versão instrumental de “Under the Sun” nada traz em relação à original, pois parece ser simplesmente a música normal sem os vocais mixados.

Um último senão: todo o material caberia num só disco, pois os dois CDs totalizam cerca de 79 minutos. A gravação ao vivo é um pouco decepcionante, pois se trata do velho Live at Last, ainda que com mais falação do Ozzy entre as músicas e com qualidade sonora superior em relação aos lançamentos original e em Past Lives; o CD também usou as versões completas das músicas, sem edições. Embora muito criticado, eu gosto desse disco, mas, uma vez que a banda gravou dois shows para um álbum ao vivo, poderia ter incluído versões alternativas, tornando o pacote mais atraente; ou mesmo lançar um CD duplo com um dos shows completo e músicas do outro como bônus. Ainda assim, a edição Super Deluxe do Vol. 4 é indispensável para os fãs do Sabbath. Quatro estrelinhas para a edição de um álbum que, para mim, numa escala de zero a cinco merecia seis!

Sabotage

À primeira vista você torce o nariz. Não há outtakes ou versões alternativas das músicas, os dois CDs ao vivo circulam facilmente por aí em discos piratas, e o 4º CD é tecnicamente falando um single. Mas não deixe isso iludi-lo, pois essa edição de Sabotage é simplesmente sensacional. O disco original nunca soou tão bem, com uma gravação um pouco mais clara, com melhor separação do instrumental na mixagem, e um volume sonoro absolutamente perfeito. Entretanto, a música fantasma, “Blow in a Jug”, continua audível somente para quem aumentar muito o volume após “The Writ” – custava ter colocado a gravação em qualidade melhor? Os dois discos ao vivo trazem um show completo, com pouco menos de 100 minutos. As gravações foram feitas no Convention Hall, Asbury Park (New Jersey), e algumas das músicas tinham saído no álbum Past Lives. Particularmente, conhecia bem uma das versões piratas deste show, e embora a qualidade sonora dos discos da box set não seja exatamente uma maravilha, dá para ouvir tranquilamente sem reclamar, e é bem melhor que a versão pirata (além de aqui estar completo).

Na minha opinião, é um dos melhores ao vivo da banda disponibilizados oficialmente, com os músicos dando o melhor de si. E é uma pena que a banda não licenciou o show no “Don Kirshner’s Rock Concert” da mesma turnê – teria sido interessante, em vez do single japonês (que podia tranquilamente ser adicionado ao CD 1), ter um registro em DVD ou Blu-Ray do Sabbath com o Ozzy na sua fase clássica. A inexistência de versões alternativas e outtakes, no caso desta edição, é explicada por um fato bem conhecido dos fãs: os tapes originais das sessões foram apagados, sobrando apenas a fita master original. Seguindo o padrão das boxes anteriores, o livreto é muito bom e muito completo, embora novamente seja uma coleção de recortes de jornal. O poster não é dos mais interessantes, já que reproduz a (horrorosa) capa do disco e traz as datas da turnê britânica. No todo, Sabotage Super Deluxe Box Set oferece um bom valor pelo seu dinheiro, e é essencial para quem gosta deste álbum em particular. Mais uma com quatro estrelinhas!

Technical Ecstasy

Confesso que este lançamento em particular me surpreendeu. Estava esperando por Sabbath Bloody Sabbath, e de repente veio este álbum que raramente aparece nas listas dos favoritos dos fãs. Technical Ecstasy, para mim, é um dos discos mais subestimados do Black Sabbath, com a banda soando criativa e diferente, tentando equilibrar o peso que a distinguia com as músicas mais elaboradas que começaram a pintar a partir de Vol. 4. Essa box, espero, é uma oportunidade para muita gente ouvir novamente o disco e reavaliar – vale a pena fazê-lo. O CD 1 traz o álbum original, praticamente sem variações, embora com qualidade sonora superior às edições anteriores, e um detalhe muito interessante: o encarte com letras do original é reproduzido aqui; já o segundo repete as músicas, em nova mixagem de Steven Wilson – e é aqui que a coisa fica interessante, pois Wilson deixou o solo de Iommi ao final de “Dirty Women” mais longo, fazendo com que a música ganhe quase 30 segundos a mais. “Backstreet Kids” ganhou muito em qualidade sonora, com o baixo de Geezer soando mais forte e mais destacado; a bateria na introdução de “Gypsy” está mais clara e mais pesada. Raramente prefiro uma remixagem à original, mas neste caso dou a mão à palmatória: Wilson fez um ótimo trabalho e atualmente, se quero ouvir somente o álbum em vez da box completa, pego o CD 2 e não o 1.

Quanto ao terceiro disco, algumas novidades bem interessantes: “She’s Gone” aparece duas vezes, uma delas com acompanhamento de Bill Ward na bateria e outra instrumental, que destaca bastante a beleza da música original. Quase todas as músicas estão um pouco mais longas do que as versões finais, com destaque para “All Moving Parts (Stand Still)”, que ganha quase 30 segundos a mais; curiosamente, “It’s Alright” não aparece neste CD – e mesmo no CD 2 ela não foi remixada, apresentando-se a versão em mono do single lançado em 1976. O terceiro CD é bem interessante para comparar com o primeiro, e sugiro ouvir nesta sequência, pulando o segundo disco, para perceber melhor as diferenças que surgiram durante as gravações. Por fim, o quarto CD traz parte de um show registrado em dezembro de 1976 no Civic Center de Pittsburgh, e mais uma vez, embora a qualidade sonora não seja das melhores, tem-se uma performance excelente da banda. Das músicas do disco, três são apresentadas: “Gypsy”, que revela todo o seu potencial nessa versão, “All Moving Parts…”, que ganhou mais peso e está bem melhor do que em estúdio, e “Dirty Women”, que fez parte das últimas turnês do Black Sabbath e traz Iommi em sua melhor forma, solando alucinadamente no final.

No todo, trata-se de uma ótima adição às gravações ao vivo oficiais do grupo, e seu único defeito é ser muito curto, totalizando cerca de 57 minutos. A parte gráfica é mais uma vez um destaque, e em especial o programa da turnê, aqui reproduzido, é muito bonito e inclusive traz uma foto do tecladista Gerard Woodrofe, que acompanhou a banda em Sabotage e neste disco, bem como suas respectivas turnês. Novamente, o texto do livreto é baseado em trechos de entrevistas, memórias (o livro de Tony Iommi é citado várias vezes), reportagens da época, e lança luz sobre esse período conturbado da vida da banda. O que faltou, entretanto, é um tratamento da saída de Ozzy após a turnê e sua substituição por Dave Walker. No todo, esta “Super Deluxe Edition” é muito interessante para os fanáticos pelo Sabbath, mas não atrairá os fãs casuais por não ser um disco muito conhecido ou muito apreciado. Para mim, cinco estrelas, sem dúvida!

Live Evil

A mais recente das Super Deluxe Editions mantém o alto nível das anteriores em termos de produção gráfica. O tour book de The Mob Rules é reproduzido junto com um poster famoso da época, e o livreto em capa dura traz mais textos e não apenas recortes de entrevistas ou textos anteriores, mas peca um pouco em termos de fotos. Uma lista completa das apresentações da turnê é incluída, e a famigerada história das mixagens do álbum, que provocaram a saída de Dio, é contada detalhadamente – ainda que Tony Iommi sustente que o maior problema, que provocou as brigas entre os músicos, tenha sido o fato de que a Warner tinha dado ao vocalista um contrato para um disco-solo. Musicalmente falando, trata-se de dois CDs duplos, um com o álbum original remasterizado (reproduzindo fielmente o álbum original) e o outro com uma remixagem. Soa decepcionante? Não é; a versão remasterizada é muito boa, com qualidade sonora bem superior à dos lançamentos anteriores (incluindo a Deluxe Edition da década de 2010), e a remixada é indispensável: em primeiro lugar, temos mais presença de Dio entre as músicas, interagindo mais com o público, a passagem de “Paranoid” a “Children of the Grave” é mais longa, e, sobretudo, a nova mixagem finalmente fez Live Evil soar como deveria: o baixo de Geezer Butler ganhou mais destaque, o vocal de Dio está tão claro que ele parece estar cantando do seu lado e, acima de tudo o mais, o som da bateria ficou mais encorpado, mais
pesado – confira o solo de Vinnie! Várias das músicas na versão remixada estão mais longas do que no LP original, mas todas as versões do Live Evil estão diferentes nesse aspecto – o que me fez comparar as diferentes versões do álbum:

Live Evil foi um álbum bastante judiado nas primeiras versões em CD: a primeira edição não trazia “War Pigs”, a segunda a recolocou, mas cortou quase tudo o que Dio falavaentre as músicas. A Deluxe Edition de 2010 voltou ao padrão original, mas a maior qualidade sonora da nova edição a torna preferível. Este foi o primeiro disco que comprei do Black Sabbath, quase 40 anos atrás – e ainda é uma das melhores introduções à banda que eu posso recomendar. A versão remixada dura 86’27”, o que, comparado com o vinil original, que tinha duração registrada de 78’40”, significa um ganho de quase oito minutos, mesmo sem trazer nenhuma música adicional. Ainda assim, poderíamos ter alguns bônus, mesmo que fossem versões alternativas das músicas que compõem o álbum original – por isso, quatro estrelas para esta versão!

The famous last words…

Em resumo, a decisão de adquirir as Super Deluxe Editions depende de quatro fatores principais: o quão fanático você é pelo Black Sabbath, o grau de seu interesse pelas versões ao vivo e alternativas, o valor que dá pelo material gráfico e, sobretudo, a sua disponibilidade de $$$$… Uma coisa eu posso garantir: o som é o melhor de todas as edições em CD até hoje, e os comentários que li também são favoráveis às boxes em vinil – mas, como não compro LP, não posso dizer nada. Poderiam ser melhores? Talvez, mas quem sabe o que mr. Iommi está escondendo nos seus cofres? De momento, pode ser que essas não sejam as edições definitivas dos discos da banda, mas hoje não há melhores no mercado. E se a gente puder sonhar, que venham Born Again (já prometido por Tony em entrevistas, aliás), Sabbath Bloody Sabbath (quem sabe com o show no California Jam? E talvez até com um DVD com a filmagem?) e Never Say Die! (e seria um sonho ter as gravações com Dave Walker no meio, o show da turnê de 1978 lançado em vídeo no passado, comemorando o 10º aniversário da banda, preferencialmente em áudio e vídeo).

De concreto, sabe-se que os álbuns na IRS, com Tony Martin nos vocais, devem ser relançados, mas não se sabe se serão idênticos aos originais, Deluxe Editions em CDs duplos ou Super Deluxe Editions como essas. O tempo dirá!

A condessa sangrenta do metal

 A condessa sangrenta do metal

Elizabeth Bathory é uma figura histórica bastante controversa. Sabemos bastante sobre sua biografia, porém os mitos e lendas que rondam sua existência chamam muito mais atenção do que os fatos puros e simples. Para situarmos o período histórico em que ela viveu farei um breve relato sobre o que é conhecido sobre ela. Nascida no Reino da Hungria em agosto de 1560, Elizabeth (Isabel ou Erzsébet, em húngaro) no seio de uma família recheada de nobres do leste europeu se tornou condessa após o casamento com o conde Ferenc Nádasdy aos onze anos de idade. Por ter condição social mais elevada que o marido, se recusou a trocar seu sobrenome. Seu pai era um barão, seu tio era príncipe da Transilvânia, sua mãe era irmã do rei da Polônia e vários outros membros da família estavam distribuídos por outras casas nobres da Europa. Um dos seus ancestrais era ninguém menos que Vlad Tepes, “O Empalador”, aquele mesmo que inspirou a criação do Conde Drácula (a própria Elizabeth teve características incorporada ao personagem). O brasão da condessa, inclusive, trazia o dragão, Dracul ou Drácula em sua forma eslava.

Diz-se que ela sofria de epilepsia causada, provavelmente, por conta da consanguinidade dos seus pais (eles eram parentes próximos). Isso trazia problemas de personalidade pois por conta dessas crises epiléticas ela vivia em constante tensão e seu comportamento era instável e incontrolável. Um dos tratamentos estabelecidos para a epilepsia na época era a ingestão de sangue de outra pessoa saudável – aí os leitores já começam a entender alguns dos motivos das lendas. Depois do casamento seu marido assumiu o controle das tropas do exército húngaro e por conta disso passava muito tempo longe das suas terras. Durante esse período era ela quem cuidava dos assuntos da família de seu marido e dos deveres do castelo. Elizabeth chegou a ficar grávida de um camponês nesse período de ausência do marido. Tinha um comportamento cruel com os trabalhadores do castelo. Os castigos corporais infligidos aos criados eram até comuns na época dentro desse contexto histórico, mas os praticados por Elizabeth quase sempre se tornavam sessões de tortura que não raramente chegavam até a morte dessas pessoas.

Após a morte de seu marido em 1604 ela se mudou para Viena, mas passava muito tempo em uma propriedade na cidade de Beckov, que hoje pertence a Eslováquia. Nesse local foram praticados seus atos mais conhecidos. A descrição de tudo o que ela fez gera uma lista enorme e é fácil conseguir pela internet e muitos dos leitores já devem conhecem pelo menos alguns deles. O fato é que isso a levou a ser julgada e condenada à prisão perpétua. As histórias contadas sobre ela foram juntadas nesse julgamento, porém a própria condução desse processo já é cheia de contradições pois era de interesse tanto do rei quanto de alguns de seus familiares que ela fosse condenada. Para aumentar ainda mais a confusão em torno dessa figura, essa história com mais detalhes foi divulgada somente cem anos depois dos acontecimentos e foi feito por um padre jesuíta que encontrou alguns documentos sobre seu julgamento. Porém esse distanciamento temporal histórico pode ter adicionado mais contradições ainda. Toda essa ambiguidade gera muita curiosidade e é um prato cheio para que histórias fossem criadas em torno de tudo o que se relacionava ao nome de Elizabeth Bathory.

Mas o que tudo isso tem a ver com a música? A própria história de vida de Elizabeth já poderia inspirar as artes, quando todos os tipos de lendas foram adicionados junto de seu nome as coisas ficaram maiores ainda. Assim a literatura, o cinema, vídeo games, peças de teatro e até brinquedos usam e abusam de todo esse arsenal de referências. E, o que nos interessa aqui, a música não poderia ficar de fora. Com relatos conflitantes sobre seus crimes e personalidade os artistas interpretem e reimaginam sua história de diferentes maneiras, criando músicas que exploram diferentes aspectos de sua vida e legado. A primeira obra musical inspirada de alguma forma por seu nome foi escrita em 1913 por Sándor Szeghö, ‘Báthory Erzsébet’, uma ópera húngara. Anos depois outra ópera composta agora pelo checo Millos Smatek. E esse tipo de música erudita costuma revisitar frequentemente essas histórias sendo que até os dias de hoje algum compositor volta a elas. Entretanto os leitores aqui estão interessados na sua relação com o rock e o metal.

Nessa linha é impossível não citar duas referências. Em seu segundo álbum, Black Metal (1982), o Venom consolidou e deu nome à um estilo musical e continha uma de suas principais faixas da carreira, “Countess Bathory”. A outra é a banda que usou o sobrenome da condessa como nome da banda, o Bathory. Eles mesmo em seu disco Under the Sign of the Black Mark trazem “Woman of Dark Desires”. Existe a discussão se a banda, fundada em 1983, foi nomeada por conta direta da história ou por conta da música do Venom. Porém tanto o Venom quanto o Bathory ficaram para a história como importantes integrantes e pioneiros da primeira onda do black metal.

Por motivos óbvios o black metal é um estilo que aproveitou muito do terreno fértil das histórias de Elizabeth para suas músicas. Tormentor com “Bathory Erzsebet” em 1989, regravada pelo Dissection em 1993. Os holandeses do The Countess em sua demo de 1995 traziam a faixa “The Wrath of Satan’s Whore”, com sonoridade muito parecida com o material produzido lá na Noruega. O Cradle of Filth em 1998 não gravou apenas uma música, mas fez um álbum todo dedicado à ela, Cruelty and the Beast, inclusive com uma capa bem representativa das principal característica das lendas que rondavam Elizabeth: o fato de que ela se banhava em sangue de jovens para manter sua beleza. Várias outras obras tem a sede de sangue da personagem a inspiração para suas músicas. Até mesmo uma banda brasileira pode ser citada nesse momento. O Malefactor, oriundo de Salvador veio com “Elizabathory” no seu ótimo álbum Anvil of Crown de 2013. A história de Elizabeth Bathory é repleta de elementos sombrios e macabros, como assassinatos, tortura e alegações de vampirismo, são temas frequentemente explorados no black metal que têm uma estética mais sombria e obscura. Mas a ligação da personagem com o sobrenatural é o mais explorado por essas bandas.

Patch especial do Kamelot

Outras vertentes do metal, como o power metal, o metal sinfônico e o doom metal, tem como um mote comum as lendas e mitos, geralmente épicos. A história de Elizabeth Bathory é envolta de muitas lendas e mitos, o que a torna ainda mais intrigante. Muitas vezes, artistas são atraídos por histórias lendárias e misteriosas, pois elas oferecem uma rica fonte de inspiração para criar músicas com narrativas cativantes. O Cloven Hoof, representante da NWOBHM em seu álbum de 2020, Age of Steel, apresenta “Bathory”. O Candlemass já sem o vocalista Messiah Marcolin, com Robert Lowe, em 2009 soltou “The Bleeding Baroness”. A curiosidade fica por conta do cover gravado para o clássico “Countess Bathory” por uma banda montada por Marcolin creditada como Ex-Candlemass para um tributo ao Venom de 1994. O Kamelot em seu álbum Karma de 2001 tem “Elizabeth”, uma obra em três partes que foca na sua busca desesperada pelo elixir da juventude. Até mesmo os gigantes do Slayer têm sua “Beauty Through Order” do álbum World Painted Blood de 2009.

Outro fator que explica o interesse por esse personagem é a estética visual e teatral que todo o entorno traz à nossa mente. A história de Elizabeth Bathory é repleta de referências com imagens de castelos sombrios, sangue e beleza eterna. Esses elementos visuais podem ser explorados na música, especialmente em gêneros como o gothic metal, que valorizam a estética e a performance teatral. Aqui podemos citar uma das principais bandas de occult rock e seu representante máximo, o Ghost, que em seu álbum de estreia de 2010, lançou a faixa que se transformou em um single muito cobiçado e valioso hoje em dia, “Elizabeth”. Os austríacos do Darkwell em seu EP de 2002 com “Elizabetha”. Na Espanha o Forever Slave com duas faixas sobre Bathory; “Resurrection” e “Schwarzer Engel”.

Em alguns aspectos a figura de Elizabeth Bathory também pode ser vista como uma representação de rebelião e transgressão contra as normas sociais e morais. Muitas vezes, a música é usada como uma forma de expressão artística que desafia as convenções e tabus, e a história de Bathory pode ser vista como um símbolo dessa busca por viver fora dos limites das regras da sociedade. O rock também foi visto dessa forma durante muito tempo, principalmente quando estava no mainstream. Assim é normal que bandas que não se encaixem nos estilos citados acima também acabem se interessando por ela. Algumas bandas de outros estilos dentro do rock que fizeram citações a ela são Siouxsie and the Banshees com uma faixa chamada “An Execution” lançada como lado B de um single. A banda feminina Burning Witches faz uma referência visual da condessa e seus hábitos em seu clipe da música título de seu último disco The Dark Tower (2023). O BoySetFire, banda mais alinhada ao Metalcore, usa o sobrenome da condessa como um sinônimo de maldade em “Bathory’s Sainthood”. Até os japoneses do X Japan dedicaram “Blue Blood” em sua homenagem.

Como citei no início do texto Elizabeth foi julgada por seus crimes e, apesar de ter tido um julgamento não ortodoxo e cheio de interferências externas, ninguém diz que ela não mereceu o seu destino. Grande parte das acusações foram tiradas sob tortura dos depoentes. Muitos até argumentam que ela foi vítima de conspiração. As guerras contra o império otomano, a luta entre o catolicismo e o protestantismo (e dentro da vertente protestante ainda tinham os calvinistas e luteranistas – ela era calvinista) e a enorme dívida que o rei tinha com ela e sua família estão no caldeirão político social que envolvem toda essa história e as controvérsias são enormes. Porém, mesmo com o grau dantesco de seus crimes ela foi sentenciada apenas à prisão perpétua e solitária. Sua cela, que ficava no castelo de Csejte, não tinha sequer portas e janelas e o único acesso era uma pequena passagem por onde lhe davam água e comida. Seus cúmplices – sim, ela tinha alguns – por não terem sangue nobre não tiveram a mesma “sorte”, pois foram todos queimados vivos. Inclusive uma dessas pessoas era Anna Darvullia, com quem Elizabeth tinha um possível caso amoroso o que acrescenta ainda mais tempero à todo esse turbilhão de informações. Ela foi encarcerada em 1611 e não é conhecido o dia exato da morte da condessa já que abriram sua cela em agosto de 1614 e ela estava morta e muitos dos pratos de comida que foram oferecidos à ela estavam intactos. Quando foi confirmada sua morte o rei Mathias proibiu que seu nome fosse mencionado e todos os documentos sobre seu julgamento foram lacrados. Cem anos depois o padre já citado acima descobriu esses papéis, a história foi divulgada e não saberemos o quanto o próprio contribuiu com o tom e intensidade das lendas que foram se criando.

Visão aérea do castelo Csejte

O leitor que tiver mais curiosidade vai encontrar outras bandas menos conhecidas que fizeram seu “tributo” a esse personagem controverso. Ela era possivelmente a pessoa mais rica da Hungria e tinha posse de dois terços do território húngaro. Teria ela sido vítima de um massivo processo de difamação com interesses obscuros? Suas atividades podem ter sido exageradas? Ou ela realmente mutilava jovens camponesas indefesas em busca de sangue revigorante? Seria esse um caso daquele conceito de “se a lenda é mais interessante que a história, publique-se a lenda”?.

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