sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Discos que ficariam melhores se as sobras de estúdio estivessem incluídas neles – parte 1

 

Discos que ficariam melhores se as sobras de estúdio estivessem incluídas neles – parte 1

Hoje em dia não é tão comum, mas houve um tempo em que as bandas gravavam (muito) mais material do que o necessário para preencher os dois lados do vinil de seu próximo lançamento. Não é raro sabermos de discos simples que foram originalmente pensados para serem duplos, mas, por diversos motivos, tiveram seus planos alterados ou pelos autores, ou (mais frequentemente) pelas gravadoras. Com o advento do CD, ficou mais fácil colocar mais músicas em um mesmo lançamento, mas, ainda assim, certos grupos ainda mantiveram a prática de registrar mais sessões do que o necessário.

O destino destas faixas “descartadas” muitas vezes foi o fundo de algum arquivo ou a lata de lixo, mesmo! Mas, em alguns casos, estas “sobras” encontraram espaço em coletâneas futuras ou em box sets de “raridades” do artista, ou até mesmo em discos “picaretas” lançados por empresários e gravadoras (em muitos casos, para “lucrar em cima” do nome de algum artista falecido). Em outras ocasiões, existem “pérolas” que precisam ser garimpadas em bootlegs registrados ao longo dos anos, pois foram executadas apenas nos palcos, sem chegarem a ser registradas adequadamente nos estúdios de gravação.

Na minha opinião, muitas vezes estas tais faixas “descartadas” são melhores do que as escolhidas para compor o disco “oficial” lançado no mercado. Foi com isto em mente que elaborei esta lista, onde aponto cinco discos que não são necessariamente “ruins”, mas que, a meu ver, ficariam ainda melhores com algumas substituições eu seu track list, considerando o período de gravação/composição dos mesmos. Claro que este é apenas o meu ponto de vista, e todos podem discordar o quanto quiserem, e até apontar outros álbuns que tenham ficado de fora (já adianto que a parte dois desta lista está por vir). Sendo assim, vamos aos discos que penso que poderiam ter sido ainda melhores (listados em ordem de lançamento), e nos encontramos nos comentários deste texto!


1. Atom Heart Mother (Pink Floyd – 1970)

Já vi pessoas se referindo ao “Disco da Vaca” como sendo o seu favorito na discografia do Pink Floyd, mas confesso que o mesmo nunca me “pegou” tanto quanto outros registros do grupo. Ainda que as três primeiras faixas do lado B sejam bastante aceitáveis (embora eu sempre as tenha encarado como uma continuação do que o grupo fez no disco de estúdio do álbum Ummagumma, não no sentido musical, mas por serem quase três faixas “solo” de seus respectivos autores, assim como as músicas do disco citado), eu nunca consegui compreender e apreciar devidamente a faixa de encerramento, “Alan’s Psychedelic Breakfast”. A faixa título é, dentre todas as “suítes” do Floyd, a que menos gosto, principalmente por conta da participação da orquestra, e de achar que algumas “viagens” sonoras no decorrer da composição não encaixam bem com o todo da faixa. O que acho curioso é que existem diversos bootlegs ao vivo gravados ao longo de 1970 que trazem versões “embrionárias” deste épico, chamado então de “The Amazing Pudding”, onde apenas a banda participa (sem a orquestra), e que, aos meus ouvidos, soam muito melhores que a faixa finalizada em estúdio. Nestes mesmos bootlegs do período, é quase certo, também, que o ouvinte encontrará uma música chamada “Embryo”, uma faixa psicodélica cujo início remete aos princípios da banda, mas depois abre espaço para improvisos diversos por parte do grupo, que podiam se estender de dez a quinze minutos dependendo da inspiração do quarteto. Apesar de algumas versões ao vivo terem sido lançadas oficialmente em box sets posteriores do Pink Floyd, a única versão de estúdio que conheço desta canção saiu na coletânea Works, de 1983 (em uma edição com menos de cinco minutos de duração, e que, segundo a wikipedia, foi registrada ainda durante as sessões de Ummagumma, e lançada oficialmente pela primeira vez em uma compilação com vários artistas da gravadora Harvest chamada Picnic – A Breath of Fresh Air), a qual não faz jus à qualidade de suas versões ao vivo do período. Para o meu gosto, se o Pink Floyd tivesse colocado uma versão “completa” de “Embryo” no lugar de “Alan’s Psychedelic Breakfast”, e tivesse mantido a faixa título mais próxima de sua versão inicial (“The Amazing Pudding”), Atom Heart Mother seria um disco bem mais forte, e subiria vários “degraus” no meu nível de apreciação da discografia da banda…


2. Red (King Crimson – 1974)

Red é não só o meu disco favorito do King Crimson, mas um dos meus favoritos em todo o gênero Rock Progressivo. Embora eu considere o lado A irretocável, nunca consegui entender a primeira faixa do lado B, chamada “Providence”. Gravada ao vivo na cidade que lhe dá nome, capital do estado de Rhode Island, nos EUA, esta composição é uma versão editada de um improviso realizado em um show de 30 de junho de 1974, e nunca fez muito sentido para mim. A versão completa deste improviso foi lançada oficialmente pela primeira vez no box set The Great Deceiver, de 1992 (aparecendo depois em outros lançamentos posteriores), e os pouco mais de dois minutos que “completam” a faixa dão, a meu ver, um significado completamente diferente à versão apresentada originalmente. Eu gostaria muito de ter a versão “completa” disponível em Red, ao invés da editada, mas, talvez, as limitações de tempo do vinil à época não permitissem sua inclusão. Mesmo assim, “Providence” poderia, a meu ver, ter sido substituída por um dos muitos improvisos registrados na turnê anterior (presentes tanto no citado box set The Great Deceiver quanto no posterior The Road To Red, de 2013), mas, principalmente, por uma faixa que consta nestes box sets e que nunca teve uma versão oficial de estúdio registrada, chamada “Doctor Diamond”, uma pérola desta encarnação da banda que foi “abandonada” porque o grupo não estava satisfeito com seu arranjo, fazendo com que o então quarteto nunca tenha chegado a completar uma versão “definitiva” da mesma (o que, a meu ver, é algo inexplicável, pois as poucas versões ao vivo disponibilizadas dela provam sua qualidade, ao menos para mim). Ainda que “Doctor Diamond” seja mais curta que “Providence”, os poucos minutos que “faltariam” para completar o lado B poderiam ser preenchidos por partes dos improvisos citados (até mesmo de “Providence”), e o disco ficaria, no meu entender, ainda mais forte desta forma. Para completar, quero citar que considero “Starless”, a faixa que encerra o disco, um clássico não apenas do King Crimson, mas também de todo o rock progressivo (em por que não, da música dos anos 1970), mas ainda prefiro ouvir sua versão “original” (com a presença do violino de David Cross, músico que foi desligado do grupo no início das sessões que levariam ao disco Red), presente em vários concertos ao vivo lançados oficialmente através dos anos, a qual, se tivesse chegado à forma final do vinil lançado, faria dele um registro ainda melhor para o meu gosto musical!


3. In Through the Out Door (Led Zeppelin – 1979)

In Through the Out Door está longe de ser um dos meus discos preferidos do Led Zeppelin. Embora considere o lado B como muito bom (não curto tanto “I’m Gonna Crawl”, mas a faixa não me desagrada em quase nada), acho o lado A muito fraco, e aprecio realmente apenas a abertura com “In the Evening”. As demais três faixas, a meu ver, não fazem justiça à discografia da banda, e, se tivessem sido substituídas por três “outtakes” que viriam a aparecer posteriormente na coletânea Coda (a saber, “Ozone Baby”, “Darlene” e, principalmente, “Wearing and Tearing”, todas registradas durante as sessões de gravação de In Through the Out Door), fariam com que o disco ficasse muito mais forte do que a versão disponibilizada no mercado. Não conheço outras sobras de estúdio desta época, mas não duvido que, mesmo com os problemas que enfrentava à época das gravações (com Bonzo lutando contra o alcoolismo e Page contra seu vício em heroína), o Led teria condições de compor faixas mais fortes do que “South Bound Saurez” ou “Fool in the Rain”, e as três faixas de Coda, para mim, provam isto!


4. Combat Rock (The Clash – 1982)

Já escrevi sobre este disco aqui no site, mas não quero perder a oportunidade de, mais uma vez, expressar meu desgosto com as escolhas feitas pelo grupo para este registro. Pensado originalmente como um álbum duplo chamado Rat Patrol from Fort Bragg, a versão “finalizada” produzida pelo guitarrista Mick Jones acabou sendo rejeitada por seus parceiros de banda, pelos empresários e pela gravadora da banda. O renomado produtor Glyn Johns foi então chamado para “dar um jeito” nas faixas já registradas, e, junto aos membros remanescentes do Clash (Jones quase não participou deste processo), fez diversas edições e “montagens” no material, selecionando partes para serem incluídas no que viria a ser o disco simples Combat Rock, e descartando muito do que a banda havia gravado antes da chegada do novo produtor. O resultado final do disco, apesar de ter alcançado o posto de álbum mais vendido da banda, é, para mim, um dos registros menos atraentes do Clash (perdendo apenas para o “canto do cisne” Cut the Crap, de 1985). Para o meu gosto, todo o lado B do disco poderia ter sido descartado (com exceção, talvez, de “Inoculated City”), e mesmo “Car Jamming” e “Red Angel Dragnet”, do lado A, poderiam ter suas posições comprometidas. Isto porque as sessões iniciais deixaram para a posteridade faixas muito melhores, como “Long Time Jerk” (que chegou a ser lançada como lado B do single “Rock The Casbah”), a instrumental “He Who Dares or Is Tired”, a excelente “Midnight to Stevens” (que ficou “perdida” por muitos anos até ser resgatada no box set Clash On Broadway) e duas faixas que precisavam, a meu ver, apenas de alguns ajustes para serem melhores que 75% do material final lançado oficialmente: “The Beautiful People Are Ugly Too” (lançada oficialmente na edição de quarenta anos como “The Fulham Connection”) e “Kill Time” (que foi renomeada como “Idle In Kangaroo Court” na mesma edição). Todas elas aparecerem na citada edição de quarenta anos do disco (já resenhada aqui no site), e, a meu ver, fariam de Combat Rock um disco muito mais agradável do que é, e, talvez, até aumentassem seu potencial comercial ainda mais. Infelizmente, não foi o que ocorreu, em um dos maiores “erros de julgamento” na hora de “montar” um disco que já escutei em minha vida!


5. Animal Boy (Ramones – 1986)

Embora não conheça ninguém que concorde comigo, Animal Boy é meu disco favorito dos Ramones desde a primeira vez que o ouvi. A mistura do lado mais hardcore do registro anterior (Too Tough to Die, de 1984) com alguns toques mais pop dos últimos discos antes da demissão de Marky (sem esquecer do punk rock mais simples do início da carreira) agradam em cheio aos meus ouvidos, em uma combinação com uma qualidade que quase chegou perto de ser alcançada no imediatamente posterior Halfway to Sanity, de 1987, mas que não teria o mesmo nível nos discos após a saída de Dee Dee (nem no último registro com o baixista original). Mesmo assim, saber que três faixas excelentes registradas neste período acabaram relegadas a meros “lados B” na discografia do grupo nunca foi um fato muito bem aceito por mim. Me refiro a “Go Home Ann” (lado B da versão 12″ do single “Bonzo Goes To Bitburg”, e, para mim, uma das melhores composições do grupo na fase com Richie na bateria), “(And) I Don’t Wanna Live This Life” (lado B da versão 12″ do single “Crummy Stuff”, que depois foi renomeada para “I Don’t Want To Live This Life (Anymore)” na coletânea All the Stuff (And More) Volume 2), e “(You) Can’t Say Anything Nice” (lado B da versão 12″ do single “Something To Believe In”, e, das três, talvez a que eu menos aprecie). Para mim, estas canções são mais fortes que faixas como “Apeman Hop”, “Crummy Stuff” ou “Hair of the Dog”, e se, para fazer estas trocas, o fator “espaço no vinil” fosse um problema, eu não teria dificuldade em sacrificar “Eat That Rat” ou “Freak of Nature” para colocar as três “dispensadas”. Animal Boy é um discaço do jeito que saiu, mas tinha potencial para ser ainda melhor. Pena que não ocorreu, nem mesmo em reedições, pois o excelente trabalho da Rhino em relançar os discos da banda com faixas bônus e encartes mais “atraentes” parou exatamente no já citado Too Tough to Die, sendo que nenhuma reedição posterior de Animal Boy teve a “sacada” (ou a possibilidade) de incluir estas faixas (e outras demos que circulam de forma “não oficial” pelos círculos de colecionadores) na relação oficial deste álbum!

Como já escrevi, tudo isto é apenas a minha opinião, baseada no meu gosto pessoal! Já adianto que uma segunda parte desta matéria está encaminhada para ser publicada em breve (com mais cinco discos que poderiam, a meu ver, ser “melhorados”), mas deixo o convite aos leitores que coloquem nos comentários as suas sugestões de discos que poderiam ter sido “aprimorados” utilizando-se sobras de estúdio ou faixas não aproveitadas na época!

Cinco Músicas Injustiçadas: Rolling Stones

 

Cinco Músicas Injustiçadas: Rolling Stones

Vamos aos fatos: apesar de ter uma carreira de mais de sessenta anos, The Rolling Stones são bastante estáveis em termos de seu repertório. Todo mundo conhece a banda, todo mundo conhece algumas músicas, mas se você que é fã comentar sobre suas favoritas com um ouvinte ocasional, provavelmente será recebido com vários comentários de “não conheço essa aí” para músicas muito legais. Muitas músicas que a banda gravou nunca tiveram versões ao vivo, muitas foram tocadas pouquíssimas vezes em shows, e as antologias oficiais repetem quase sempre os mesmos cavalos de batalha (afinal, quem compra uma coletânea vai querer sempre os hits, não as obscuridades). Entretanto, antologias “semioficiais” lançadas em todos os cantos do planeta acabam trazendo músicas inesperadas, o que tornou selecionar as músicas para esta seção um tanto complicado. Ainda assim, há várias pérolas no catálogo do grupo que nunca receberam a atenção merecida da banda na hora de montar um setlist ou dos compiladores. O grupo, aliás, é muito mal servido no quesito “raridades”: Metamorphosis, de 1975, traz muitas demos em que só Mick Jagger aparece cantando acompanhado por músicos de estúdio, e Rarities 1971-2003 não faz jus ao nome, trazendo músicas fáceis de se encontrar em outros lançamentos e deixando de lado algumas verdadeiras raridades.

Os critérios para que uma música faça parte desta lista são os seguintes: ela não pode ter sido lançada em single, nem ter feito parte de um disco ao vivo oficial – e não deve aparecer em discos piratas, pelo menos não nos mais conhecidos. Não pode aparecer em coletânea (ao menos não nas oficiais) e nem pode ter recebido versão de outro artista (se isso ocorrer, não deve ter feito muita diferença no meio musical). Por fim, tem que ter impressionado o autor o suficiente para ele julgar que ela merecia maior atenção. Como será visto, esses critérios foram meio flexibilizados para que a lista refletisse mais as preferências pessoais deste que vos escreve. Assim, a lista resultante procurou trazer material das três fases do grupo, com Brian, Mick Taylor e Ronnie. Na verdade, seria possível fazer uma lista de injustiçadas para cada uma dessas fases; se esta seção render alguma discussão, quem sabe não rola alguma coisa assim? Vamos às músicas!


The Lantern – Their Satanic Majesties Request (1967)

Esta balada folk se destaca no álbum Their Satanic Majesties Request, ele próprio injustiçado para alguns (e uma grande porcaria para outros), pelo fato de ser uma das poucas músicas que não tiveram grandes inovações ou experimentações em termos do arranjo. Levada ao violão por Keith Richards (que ainda toca uma boa guitarra elétrica) e com um belo vocal de Mick Jagger, “The Lantern” começa com o som de sinos de igreja (confesso que até agora não entendi o que eles têm a ver, mas…) e traz Brian Jones no órgão, possivelmente também tocando os metais que a embelezam. Bill e Charlie desempenham seu papel tradicional, com o baterista se destacando quando se faz necessário. Nicky Hopkins no piano é o único session man presente. Com uma letra curiosamente filosófica para os padrões de Mick Jagger, essa música prenuncia o trabalho acústico que dominaria Beggar’s Banquet, mas nunca chamou muito a atenção do público. Their Satanic Majesties Request é um dos discos menos lembrados da banda, a não ser quando se trata de fazer retrospectivas da carreira, e os próprios integrantes da banda, ao falarem do álbum, raramente a mencionavam. Mas o trabalho brilhante de Richards, somado ao baixo sempre preciso de Bill Wyman e uma bateria surpreendentemente pesada de Charlie Watts fazem com que a música seja suficientemente atraente para me motivar a trazê-la para essa seção.


Soul Survivor – Exile on Main Street (1972)

A música que encerra Exile on Main Street teve seu riff de guitarra copiado pela própria banda em “It Must Be Hell”, do álbum Undercover (1983) e reciclado em “Rock and a Hard Place”, de Steel Wheels (1989). Isso deveria ser o bastante para ela chamar mais a atenção, certo? Errado, muito errado. “Soul Survivor”, apesar das guitarras brilhantes de Richards e Mick Taylor (tocando com slide), e do vocal furioso de Mick Jagger, com o apoio de Nicky Hopkins no piano (que chega a tocar desacompanhado antes da coda da música), de um monte de backing vocals (dentre eles, um certo Mac Rebennack, que a maioria dos mortais conhece como Dr. John) e da seção de metais formada por Bobby Keyes e Jim Price, nunca saiu do seu status de encerramento do álbum duplo. Durante a turnê de 1972, a música não foi nem mesmo cogitada para as apresentações ao vivo, e depois que os Stones voltaram a se apresentar regularmente no final dos anos 80, “Soul Survivor”, diferentemente de outras músicas de Exile …, nunca apareceu nos setlists. Mesmo Mick Taylor, que revisita músicas pouco conhecidas do catálogo do grupo em seus shows, parece não ter interesse em tocá-la ao vivo. Em termos de coletânea, ela só apareceu na raridade Rolling Stones Volumen 2, um CD promocional mexicano que era distribuído pela Coca-Cola (por isso flexibilizei a regra das coletâneas), e trazia seis músicas praticamente sem relação alguma entre si. Uma pena; se servir de consolo, a descarada “It Must Be Hell” também nunca apareceu em shows ou coletâneas da banda.


Hide Your Love – Goat’s Head Soup (1973)

Gravada originalmente por Mick Jagger ao piano e Mick Taylor soltando fogo na guitarra, “Hide Your Love” data de 1969, mas só foi ser lançada em 1973, no lado B de Goat’s Head Soup, com Charlie na bateria, o produtor Jimmy Miller no bumbo, Keith Richard no baixo e Bobby Keyes no sax barítono, adições posteriores à gravação original para que a música se encaixasse melhor no disco da sopa de cabeça de bode. “Hide Your Love” é basicamente um blues simples, com uma letra absolutamente inócua, que serve de veículo para solos brilhantes de Taylor, estimulado por Jagger, que solta um “go on, my man” no meio dela. The Rolling Stones sempre foram uma banda bastante coesa, que abria pouco espaço para o brilho individual de seus músicos, mas aqui são uma base para um guitarrista solo se divertir livremente; talvez isso tenha pesado na hora de escolher músicas para as antologias. O clima é de uma jam session que virou música – algo que você jamais esperaria de uma banda como os Stones. “Hide Your Love” não apareceu no setlist da turnê de 1973, e depois que Mick Taylor saiu, dificilmente apareceria, já que Ronnie Wood, apesar de ser um guitarrista habilidoso, prefere ser o fiel escudeiro de Keith Richards, brilhando bem menos do que poderia; com isso, as chances de ela ser valorizada por meio de apresentações ao vivo caíram bastante. Quando Goat’s Head Soup foi homenageado com uma box set, uma versão alternativa de “Hide Your Love” acabou encontrando lugar no CD de raridades, mas foi só; os compiladores sempre preferiram “Angie” para representar o álbum de 1973 nas coletâneas.


Think I’m Going Mad – single b’side (1983)

“Think I’m Going Mad” foi gravada em 1979 durante as sessões que geraram Emotional Rescue. Por algum motivo, o grupo achou que essa balada frágil não se enquadrava no LP e a engavetou sem muita cerimônia, só para recuperá-la no início de 1984, quando o terceiro single de Undercover, com “She Was Hot” no lado A, foi lançado. Teoricamente, a música foi lançada em compacto e não se enquadraria, mas, honestamente, tirando fãs do Iron Maiden, a maioria não presta atenção nos lados B. A banda é acompanhada aqui por Mel Collins, que brilha no sax, tanto na introdução quanto num solo, com Mick Jagger no piano, Ronnie Wood tocando pedal steel guitar de forma bastante discreta (um instrumento que ele sempre gostou e até hoje faz umas aparições nos shows dos Stones, normalmente sem pedal para apoiar), e Keith, Bill e Charlie nos seus papéis tradicionais. É verdade que Emotional Rescue teve sua dose de baladas, mas “Think I’m Going Mad” poderia ter entrado no lugar da muito mais fraca “Indian Girl”; possivelmente o fato de que Jagger nunca completou a letra da música a seu contento deve ter pesado bastante. No entanto, é uma bela canção em que a harmonia vocal de Keith acrescenta um tempero adicional, e a bateria precisa de Charlie Watts e o baixo discreto de Bill emprestam um charme adicional. Quando a banda lançou Rarities 1971-2003, esta foi uma das exclusões mais flagrantes nesse mal planejado lançamento, e à exceção de uma box set contendo todos os singles lançados desde 1971, “Think I’m Going Mad” nunca encontrou seu lugar numa antologia, menos ainda num setlist de show.


Hold on to Your Hat – Steel Wheels (1989)

Quando Steel Wheels foi lançado em 1989, este velho fã dos Stones tinha passado por maus bocados defendendo álbuns fraquinhos como Undercover e Dirty Work perante seus amigos, e ainda tinha passado três anos sem nada de novo da banda. O disco trazia Rolling Stones soando mais forte e mais rocker do que nos imediatamente anteriores, e detonou uma longa turnê americana – e posteriormente uma europeia – em que algumas músicas foram apresentadas, mas não essa aqui. “Hold on to Your Hat” é curta e surpreendentemente pesada para os padrões dos Rolling Stones, com múltiplos solos de guitarra tocados por Keith Richards – de acordo com os créditos do álbum (e conferidos pelos especialistas como Nico Zentgraf), Ronnie se restringiu ao baixo, com Mick tocando uma guitarra rítmica bem distorcida e Charlie fazendo o seu usual na bateria. A letra não é nada de especial, basicamente sendo a velha misoginia de Mick Jagger em destaque. Steel Wheels tem doze músicas, reflexo da duração maior dos discos introduzida pela popularização dos CDs, o que ajuda a entender por que esse rock pesado nunca chamou muito a atenção da maioria das pessoas – mas não passou desapercebido aos ouvidos de um fanático como eu, que nunca esqueceu a surpresa que o tomou quando a ouviu pela primeira vez, pois não se parecia em nada com as outras músicas do grupo. Como as músicas mais famosas do álbum sumiram dos setlists das turnês recentes, a possibilidade de que “Hold on to Your Hat” venha a ser tocada ao vivo pela banda é praticamente nula.

Lucas Arruda – “Sambadi” (2013)

 

Musicalmente falando, eu acho que o que estou fazendo é, basicamente, a continuação de uma estética de linguagem musical que existe no Brasil desde os anos 60 e 70, mas que de repente ficou meio esquecida por aqui.”

Esse cara é um gênio. Para mim, ele salva esse cenário supermedíocre de hoje”.

Ano passado publiquei aqui no Clyblog uma lista dos meus melhores discos instrumentais brasileiros de todos os tempos. Salvo a minha ignorância de não listado a obra-prima de Robson Jorge e Lincoln Olivetti, de 1982 (menção esta aqui com a qual me sinto agora livre do justo espancamento), um que não incluí, pois ainda não o conhecia nem o entendia suficientemente devido à sua recência, é “Sambadi”, de Lucas Arruda, de 2013. Considero, no entanto, que desfaço agora duplamente a injustiça ao sagrá-lo como um ÁLBUNS FUNDAMENTAIS, tanto por destacá-lo assim, exclusivamente, como pelo fato de ser o álbum mais recente sobre o qual já escrevi entre os meus mais de 40 para esta seção.

O certo é que esse destaque não se sustenta por um sentimento de culpa. “Sambadi” é que é muito bom. Primeiro disco deste talentoso jovem capixaba multi-instrumentista radicado no Rio de Janeiro, é ao mesmo tempo um trabalho autoral e raro na música brasileira dos últimos 20 anos como também uma homenagem aos ídolos da soul music e do samba-jazz brasileiro, forte nos anos 60 e 70 mas gradativamente desvalorizado a partir dos 80. O resultado é um disco semi-instrumental altamente sofisticado pela habilidade de Lucas, responsável por praticamente todos os instrumentos (a bateria, único que ele não toca, é de seu irmão, Thiago Arruda). As referências vão dos mestres norte-americanos Stevie Wonder, Curtis Mayfield e George Duke aos brasileiros Tamba TrioAzimuth, Marcos Valle, Black RioSambrasa Trio, Ed Motta, os próprios Robson Jorge, Olivetti, entre outros dentre os que dominam o legado da MPB e o manancial estético oferecido pelo jazz e o R&B.

Physis” dá a cara da abertura com uma linha de sintetizador marcando acordes que vão e voltam, acompanhados por vocalises de Lucas. Ao fundo, um clima muito brasileiro se forma com sons da natureza de nossa flora e fauna. Prenúncio da brasilidade que se sentirá fortemente a partir dali. Sem dar tempo de respirar, a primeira faixa emenda com “Tamba”, um samba-funk gostoso e sofisticado no qual Lucas manda ver em lindos improvisos de seus teclados (piano, Fender Rhodes e sintetizador). Nos tons médios, a guitarra, numa levada de mexer o esqueleto, sustenta a base junto com o Rhodes e a batida sincopada da caixa, enquanto o baixo e o bumbo mantém a seção grave. Afora a visível homenagem ao famoso trio de bossa-jazz dos anos 60 comandado pelo pianista Luiz Eça, a sonoridade remete mesmo durante todo o disco fortemente à Azimuth, outra grande banda da mistura de jazz e MPB, porém esta, já setentista, com o espírito fusion de então.

Aliás, a arquitetura timbrística de “Sambadi” respira o tempo todo a Rio de Janeiro e a essa atmosfera da Azimuth, e isso por dois motivos. Primeiro, pelo arranjo e produção serem do próprio Lucas Arruda, que encerra todas as músicas do disco dentro do mesmo conceito sonoro: bateria e/ou percussão e/ou programação de ritmo (uma ou duas juntas no máximo), guitarra, baixo, piano elétrico e sintetizador ou Fender Rhodes. Fora um ou outro instrumento ocasional (cavaquinho, violão) ou voz, as texturas do disco são permanentemente essas, o que lhe dá bastante coesão. E essa sonoridade é muito Azimith, principalmente no mitológico "Light as a Feather", de 1979, porém adicionando a isso a limpidez dos estúdios digitais de hoje. Segundo: quem executa tudo é apenas um músico: o próprio autor – fora a bateria, que também vêm de alguém do sangue Arruda. E com tamanho talento, tudo funciona redondinho. “Batuque” (outra referência a seus mestres, nesse caso, o clássico “Batucada Surgiu”, dos irmãos Valle, de 1967) acelera o ritmo mas mantém a mesma malemolência e elegância. Na percussão, além da bateria, um agogô joga o ouvinte pra dentro de um terreiro de samba. Nesta, Lucas investe em solos não só de seus teclados, mas também da guitarra, tudo sob uma linha de baixo 4/4 maravilhosa a la Ron Carter que lembra as realizadas pelo baixista norte-americano nas memoráveis gravações com os brasileiros Airto MoreiraTom Jobim e Hermeto Paschoal.

black music ganha um preito especial em “Who’s that Lady”, de autoria de O'Kelly Isley, do grupo soul norte-americano Isley Brothers, das poucas cantadas do disco. Clima sensual e charmoso nesse AOR que podia rodar em qualquer rádio retrô tipo Continental que os desavisados achariam que foi gravada nos anos 70. Sem percussão, apenas no piano elétrico e sintetizador, “Rio Afternoon”, na sequência, é quase uma vinheta atmosférica como a inicial “Physis”, demarcando agora o começo de uma nova seção do disco, como se o CD tivesse o lado B do vinil. Essa segunda parte começa com a também curta “Na Feira”, um baião hi-tech, provando o quanto Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira são sofisticados.

Tudo isso faz cama para a excepcional faixa-título em seus cerca de cinco minutos de puro desenvolvimento de solos e perícia nas linhas de base. O espírito nordestino se mantém na marcação metálica de um triângulo, que vem com os keyboards espaciais do Rhodes e uma rica linha de guitarra ao estilo Nile Rodgers. Uma programação eletrônica, associada à bateria e a percussões, aponta o ritmo. O baixo, entretanto, é um destaque à parte, denotando o quanto Lucas é ouvinte atento de suas fontes. Com uma letra quase incidental, ele canta versos que mais fazem dar sentido melódico à ideia de “samba de” (“Sambadi balada/sambadi quebrada/ sambadi embolada/ sambadi linha do mar...") do que para inventar poesia. A melodia, swingada e requintada, algo entre o samba e o funk, dá espaço tanto para os solos quanto para floreios dos instrumentos, principalmente da guitarra e do Rhodes.

Outra aberta lembrança à Azimuth, “Carnival” (alusão à “Jazz Carnival”, sucesso da banda de José Roberto Bertrami) põe ainda mais groove no samba. Já “Alma Nova” faz cair novamente o ritmo para aclimatar uma bela bossa-nova romântica, a última com letra de verdade. Lucas canta com leveza e afinação sobre uma batida de violão sincopada, característica do estilo, somada a um acompanhamento na bateria do irmão Thiago digno de um Milton Banana ou um João Palma. O piano e o Rhodes estão ali funcionando no arranjo como integradores da faixa ao restante do repertório mesmo com a estética distinta que a bossa-nova impõe. Para arrematar, uma nova sequência de “Tamba”, finalizando o álbum novamente com um instrumental de alto virtuosismo.

Festejado por gente do calibre de Ed Motta, por quem a admiração é recíproca, o surgimento de Lucas Arruda vem como um raiar de esperança na música brasileira contemporânea tão infestada pelo medíocre, conformada com o mediano e, quando melhor que isso, ainda ditada por artistas de gerações (bem) anteriores. Ironicamente, o que acontece com Lucas Arruda é a repetição do que muitas vezes já se viu em terras tupiniquins: seu trabalho foi apreciado antes no exterior (no caso dele, Europa e Japão) para depois receber atenção aqui. Pouca, diga-se de passagem. E se a galera da MPB pós-bossa-bova está toda na faixa dos 70 anos, o aparecimento de um guri de apenas 32 de idade (30 quando gravou “Sambadi”) é no mínimo alentador. Com uma estreia luminosa como essa isso se torna ainda mais promissor. Neste sentido, não parece coincidência que seu novo CD, lançado em março desse ano (novamente primeiro no exterior) traga um título consideravelmente simbólico: “Solar”.

Lucas Arruda - Sambadi (Radio Edit)
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FAIXAS:
1. Physis - 1:15
2. Tamba, Pt. 1 - 7:10
3. Batuque - 5:38
4. Who's That Lady (O'Kelly Isley) - 3:40
5. Rio Afternoon - 1:37
6. Na Feira - 1:29
7. Sambadi - 5:18
8. Carnival - 3:30
9. Alma Nova (Arruda/Fabricio Di Monaco) - 5:33
10. Tamba, Pt. 2 - 4:41

todas as composições de autoria de Lucas Arruda, exceto indicadas.


Love - "Forever Changes" (1967)

 


"- Mas você disse que me amaria para sempre!
- exclamou a garota.
E o namorado respondeu:
- Bem, para sempre muda."
diálogo de um casal de amigos do vocalista Arthur Lee
que teria originado o nome do álbum


Meu irmão, que é bem mais pesquisador que eu, foi quem me apresentou o Love. Naquela época ele costamava ir atrás das recomendações da seção chamada Discoteca Básica da revista Bizz. Lá destacavam um álbum chamado Forever Changes", com uma capa bem psicodélica na qual um conjunto de rostos dava forma a algo tipo um coração humano hipercolorido. Como éramos meio duros de grana, meu irmão costumava pagar para gravar numa loja de discos, e assim, numa fita gravada, o “Forever Changes” apareceu pra mim.
Gamei logo de cara! “Que que era aquilo?”. Era ao mesmo tempo, forte, romântico, apaixonado, louco, psicodélico, sofisticado, rock, orquestral. Trazia uma semente de hard rock ao mesmo tempo que dava peso às músicas apenas com violões, tinha solos de metais e bases de cordas e orquestra.
Alone Again Or”, a primeira, abre o disco de maneira magnífica com um vocal dobrado e um solo de trumpete bem ao estilo tourada madrilenha; a segue outra maravilhosa, "A House is Not a Motel", mais rock, mais cheia de guitarras mesmo, inclusive com um solo bem bacana  antecedido por uma virada de bateria daquelas de guardar na memória; “Andmoreagain”, docemente melódica traz nos seu delicado arranjo uma atmosfera colorida de bucolismo; a sétima faixa, de nome quilométrico é embalada, é poderosa, cheia de força, com seu arranjo complexo misturando o poder das guitarras com naipes de metal espetaculares; "Live and Let Live" inicia bem folk, bem country mas logo passa a alternar para um rock potente e encorpado embasado por violões fortes; e "You Set the Scene" que fecha a obra é outra das minhas favoritas, dosando genialmente entre a pegada e o requinte.
Obra de arte do rock de uma das bandas mais cultuadas e respeitadas no meio musical. Referendados na sua época mesmo por nomes como Neil Young, Jim Morrisson  e Jimmi Hendrix , sendo este último inclusive amigo particular de Arthur Lee, o 'difícil' vocalista e cérebro desta banda espetacular que teve muitos altos e baixos na carreira, muito em virtude d e seu temperamento complicado. Mas infelizmente todo gênio é meio assim, não?
Consta que "Forever Changes" seria uma resposta de Arthur Lee a "Sargent Pepper's..." dos Beatles.
Sabemos quem é mais conhecido mais significativo mais importante e tudo mais, mas não há como se negar que foi uma boa resposta. Ah, isso foi!
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FAIXAS:
1. Alone Again Or
2. A House Is Not A Motel
3. Andmoreagain
4. The Daily Planet
5. Old Man L
6. The Red Telephone
7. Maybe The People Would Be The Times Or Between Clark And Hilldale
8. Live And Let Live
9. The Good Humor Man He Sees Everything Like This
10. Bummer In The Summer
11. You Set The Scene





Lou Reed & John Cale - "Songs for Drella" (1990)

 

“Lou e eu tivemos uma conversa, e se tornou muito mais importante expor o que nós dois tínhamos [de relação com Andy Warhol], criando um show com apenas duas pessoas no palco, para que todos vissem nossa história. Achei que era mais importante – quase mais importante do que a música”.
John Cale

“O que você experimenta por meio desse registro é o relacionamento entre nós e Andy. Não se trata apenas de Andy; não é apenas, ‘oh! ele fez isso, ele fez aquilo’. Quando você experimenta ‘Drella’, é sobre John e eu, é sobre mim e Andy, e é sobre John e Andy. Queremos que você conheça melhor Andy Warhol, que você o sinta como John e eu o sentimos, para que você possa vivenciar a presença dessa pessoa única e incrível e se aproximar dela.” 
Lou Reed

Há quem contradiga o ditado de que “dois raios não caem no mesmo lugar”. Se for considerar a parceria entre Lou Reed e John Cale, essa máxima realmente não se aplica. Tanto pela raridade do fenômeno quanto por sua fugacidade, em todas as ocasiões em que os dois estiveram juntos ao longo de quase quatro décadas, o céu proporcionou um espetáculo irrefreável de belezas, mas também não demorou a se precipitar com violência. E isso, não apenas uma, mas duas, três vezes pelo menos. Tal como forças da natureza semelhantes e intensamente fortes, não suportam uma a outra pela tamanha atração que exercem entre si, repelindo-se mutuamente tão logo realizem seu feito. 

Foi assim com Reed e Cale desde sempre. Dois dos maiores talentos de sua geração de prodigiosos jovens artistas nascidos no pós-Guerra, são figuras essenciais para a cena da contracultura nova-iorquina, que mudou os rumos da vida social na segunda metade do século XX. Isso, contudo, não impediu que as desavenças se manifestassem. Pelo contrário, era-lhes como dar mais munição. Já na Velvet Underground, histórica banda que cofundaram com Moe Tucker e Sterling Morrison nos anos 60 e espinha dorsal do rock junto a BeatlesBob Dylan e Rolling Stones, isso já acontecia. Mesmo com a alta sinergia artística que os unia e os colocava como o principal núcleo criativo do grupo – capaz de inventar algumas das mais elevadas obras da música contemporânea, como “Heroin”, “Venus in Furs” e “Sister Ray” –, as diferenças falavam mais alto do que as semelhanças. A Velvet continuou com Reed até este partir para sua própria carreira no início dos anos 70, mas Cale, incomodado com o parceiro, não suportou mais do que dois discos e saltou fora um ano após a estreia no clássico "Disco da Banana" para voos solo e na produção musical.

Já veteranos, os integrantes da banda promoveram uma nova aproximação somente 25 anos, em 1993, para o memorável show “Live MCMXCIII”. A turnê comemorativa, que vinha emocionando fãs por onde passava, entretanto, mal havia começado e teve de ser subitamente interrompida por causa de brigas entre os dois líderes. De novo os iluminados raios se chocavam e faziam fechar o tempo, transformando a situação festiva em um dilúvio de ferozes descargas elétricas.

A Velvet com Nico: apadrinhados por Andy
Somente um milagre da natureza para fazer com que tanto talento (e ego) pudesse permanecer minimamente em harmonia por algum tempo, mesmo que curto, sem que se provocasse imediatamente mau-tempo. Esse milagre tinha nome e lhes era um velho conhecido desde os tempos das performances multimídia da Exploding Plastic Inevitable, nos primeiros anos da Velvet. Chamava-se Andy Warhol. Fazia já três anos que o pai da pop art e padrinho artístico da turma havia dado adeus, deixando neles uma sensação de dívida para com a figura que, junto com eles – mas também abarcando-os –, havia transformado os cânones da cultura mundial para sempre com sua proposta artística ousada e conectada com a pós-modernidade. No entanto, ainda precisou que um segundo raio teimasse em se lançar no mesmo ponto: praticamente um ano depois, a cantora e modelo alemã Nico, parceira do histórico primeiro disco da Velvet e musa musical de Cale por vários anos, também morria. A despedida de Nico, que dera voz a alguns das principais composições da dupla, como “All Tomorrows Parties” e “Femme Fatalle”, deixou a Cale e Reed mais do que evidente que aquele 1990 lhes trazia um aviso do firmamento. Sim, precisavam unir-se. Foi então que, entre tempestades e quietações, nasceu Songs for Drella, o qual completa 30 anos de lançamento.

Precavidos do próprio histórico, a combinação foi a seguinte: por três meses, os dois – e somente os dois –, suportariam o confinamento e baixariam a cabeça para comporem conjuntamente um repertório inteiramente novo em memória a Andy. Três meses apenas. O que talvez seja muito pouco tempo para alguns, foi mais do que suficiente para que os conflituosos, mas não menos experientes e afinados companheiros, compusessem uma obra-prima única em vários aspectos. A começar pela ocasião em si, para a qual Reed e Cale conceberam também algo especial, uma vez que sabiam da responsabilidade que lhes cabia: somente eles podiam cumprir aquela tarefa. Embora a vastidão da influência de Andy para a arte, estabelecendo nesta um "antes" e um "depois" de si, eram Reed e Cale seus verdadeiros herdeiros na música. Por isso, entendiam que a homenagem a Andy pedia pompas. Afinal, somente um indivíduo ímpar na humanidade poderia juntar Drácula com Cinderella (daí, o apelido “Drella”). Com isso, “Songs” saiu não apenas um disco, mas uma ópera-rock, que respeita toda a estrutura clássica tal como o rock havia incorporado ao narrar uma história de apogeu e miséria e final necessariamente trágico. Outra excepcionalidade é ter apenas os dois no recinto tocando, cantando, gravando, mixando e produzindo a si próprios. O resultado é um disco de sonoridade minimalista mas altamente expressiva, em que não há percussão, sopros, orquestra ou outras vozes, apenas as cordas vocais dos dois falando pela de Andy e intercalando-se e a de seus instrumentos: guitarras, baixo, viola e piano/teclados.

Cale, Reed e Andy em 1976: relação antiga e muito cúmplice

Para narrar a trajetória de Andy, Cale e Reed determinam, então, 15 movimentos em que se ouvem a sofisticação do art rock, a fúria do punk, a ousadia da vanguarda, a tradição clássica europeia e o palpável da canção pop. Tudo que Andy lhes legou em ideias e conceitos, desde a Velvet até as suas carreiras solo, era revisado e revisitado de forma altamente madura e concisa, mas também emocional e devota. Num teor erudito, a provocativa “Smalltown” começa como uma espécie de minueto ternário em allegro em que a voz de Reed faz resgatar o desejo do jovem Andy antes de mudar-se para a cosmopolita Nova Yprk nos anos 50. Gay, estranho e totalmente deslocado em sua Pittsburgh natal, ele tinha uma única certeza: a de que queria sair dali. “De onde é que Picasso vem/ Não há Michelangelo vindo de Pittsburgh/ Se a arte é a ponta do iceberg/ Eu sou a parte mais ao fundo“. 

A percepção de que o destino de Andy era mudar os padrões da sociedade começa a ser desenhada a partir do momento em que ele pisa na Big Apple, mais precisamente quando “abre a casa” na 81st Street, em Manhattan, para receber toda a fauna de artistas e doidões de uma Nova York em plena ebulição criativa. Era a Factory, seu lendário estúdio de onde a arte ocidental entrou de um jeito e saiu de outro para nunca mais ser a mesma. A dupla dá a este momento ares litúrgicos e ambientais, mas ao mesmo tempo recorre ao minimalismo nas três notas repetidas que formam o núcleo melódico de "Open House", o mesmo que usaram em "Waiting for the Man", outra sua do repertório da Velvet. 

Enquanto Cale canta a busca de Andy por patrocínio junto aos mecenas endinheirados, a quem apresenta um portfólio com suas embalagens de Brillo e uma tal banda chamada Velvet Underground (“Style It Takes”), Reed, na sequência, sob um ruidoso e minimalista rock, traz o artista em atividade (“Work”) fazendo lembrar o som hipnótico e sequencial de contemporâneos de anos 60, mas estes, da cena avant-garde da Califórnia, Philip Glass e Steve Reich. Logo começam, entretanto, os problemas. “Trouble With Classicists”, numa melodia neo-renascentista quase declamada por Cale, traz as idiossincrasias entre a arte moderna e classicismo, bem como o embate com os críticos.  

A efervescência nova-iorquina agora está nas veias de Andy. A intensa “Starlight”, com as guitarras distorcidas de Reed e o toque atonal do piano de Cale, fala da casa LGBT que abrigou seus pares: Ingrid, Viva, Little Joe, Baby Jane, Eddie S. “Starlight aberto/ Luz das estrelas abre sua porta/ Isso se chama Nova York/ Com filmes na rua/ Filmes com pessoas reais/ Que você recebe é o que você vê”. Desses personagens reais surgem as famosas fotografias e serigrafias como as que imortalizou de Marylin MonroeElvis Presley ou Truman Capote. O genial e inquieto rapaz do interior agora se encontra totalmente consigo mesmo. Criador e criaturas se homogeneízam. Para Andy, cantado no elegante timbre de Cale numa das mais brilhantes do disco, “rostos e nomes são tudo a mesma coisa”Kitsch, celebridades, sexo, drogas, noite, ruas. Em "Faces and Names" a arte sai pelos poros, seja pela pintura, cinema, teatro ou música. São os “15 minutos de fama” e muito mais. Andy, no auge, prossegue formando novas figuras, como Reed canta noutra maravilha de “Songs”, “Images”. A viola ao estilo La Monte Young de Cale e a guitarra com efeitos de pedal de Reed formam um corpo dissonante só para registrar que, além do figurativo, o abstrato também integra o repertório pictórico do artista visual. 

A dupla em 1990 na rara
reunião para homenagear
o pai da pop art
Tanta exposição resulta na primeira grande crise, fato presente nas cinco faixas seguintes, que é a tentativa de assassinato que Andy sofreu da feminista radical Valerie Solanas, a qual se sentira ofendida com ele em razão de um desacerto profissional. A melodiosa “Slip Away (A Warning)” fala justamente do conselho de amigos para que fizesse o movimento inverso do que vinha procedendo: ao invés de “open house”, fechar seu estúdio. Pressentimento do pior. A barra segue pesada com “It Wasn't Me”, em que Andy tenta convencer Solanas a não se suicidar e de que ele não tinha culpa. O tiro, literalmente, saiu pela culatra: em 3 de junho de 1968, ela invade a Factory armada e desfere três tiros contra Andy, o que lhe deixou sequelas físicas e emocionais para o resto da vida. “I Believe”, outra ótima, narra com detalhes e urgência a cena do atentado, da chegada dela ao local à agonia de Andy no hospital. Solanas, que passou três anos na prisão pelo ocorrido, morreria 14 meses depois de Andy (e dois antes de Nico) em abril de 1988.

O belo country “Nobody But You” versa ainda sobre o traumático episódio (“Eu realmente me importo muito/ Embora pareça que não/ Desde que eu fui baleado/ Não há ninguém além de você”), encaminhando o musical para um desfecho, como se sabe, melancólico como em todas as óperas. Na discursiva e etérea “A Dream”, Cale traz sua veia new age e neoclássica captada junto a outros parceiros, como Terry Riley, Brian Eno e Kevin Ayers. A letra é um fluxo de pensamento de Andy, cuja descrição de um sonho traça um panorama de vários momentos de sua biografia: os primeiros anos, a Velvet, pessoas de convivência, a amizade com Reed e Cale, o incidente na Factory e as feridas que a vida lhe trouxe. A indagação: “Puxa, não seria engraçado se eu morresse neste sonho antes que eu pudesse inventar outro?”, quase ao final da faixa, denota o pressentimento de que os últimos traços de um artista sublime estavam sendo dados. 

A arquitetura narrativa de “Songs” - que mantém um exemplar equilíbrio entre densidade e leveza, tonalismo e dissonâncias, agitação e calmaria, classicismo e vanguarda, agressividade e lirismo - surpreende mais uma vez na virada da contemplativa e extensa “A Dream” para o blues ultramoderno “Forever Changed”, talvez a mais impactante de todo o álbum. Ciente da proximidade da morte, Andy compreende igualmente a sina de todo grande artista: a permanência do seu legado. “Eu fui”, mas tudo “mudou para sempre”. A consciência da eternidade. Se Cale emenda as duas anteriores, é Reed quem tem o privilégio de desfechar este réquiem. Isso porque, ao invés de prosseguirem a narrativa na terceira pessoa, como que falando pela voz de Andy, são as próprias palavras de Reed que compõem a letra de“Hello It's Me” numa emocionante carta de despedida. “Andy, sou eu, não te vejo há um tempo/ Eu gostaria de ter falado mais com você quando você estava vivo”, abre dizendo na singela balada, mais uma como “Femme Fatale” e “Sunday Morning” composta pelos dois em meio aos vários proto-punks raivosos e sinfonias ruidosas dos tempos de Velvet. 

Terminada a gravação, também não durou muito a turnê de “Songs”. Após algumas apresentações, Cale e Reed separaram-se novamente, como raios excelsos que entram em choque depois de mal se aproximarem. A última ocasião, o reencontro da Velvet, três anos dali, foi sentenciada com a partida de Sterling Morrison dois mais tarde e a do próprio Reed, em 2013. Antes da tormenta, contudo, o tempo colaborou para que registrassem este impecável e sui generis disco, que evidencia o quanto figuras como Andy Warhol fazem falta sempre. E por quê? Porque, como um Michelangelo, um Mozart, um Picasso, um Shakespeare, ícones revolucionários invariavelmente deixam lacunas impreenchíveis, simplesmente. Ouvir “Songs” hoje, a três décadas de seu lançamento, dá a dimensão do que existências como as de Andy, Reed, Nico e Morrison significam depois que partem e da importância dos que ficam, como Cale e Moe. Raios muito raros que, incrivelmente, caíram no mesmo lugar. Justo por isso que o disco tenha se concluído com estes versos: “Bem, agora Andy, acho que temos que ir/ Espero de alguma forma que você goste deste pequeno show/ Eu sei que é tarde, mas é a única maneira que eu sei/ Olá, sou eu/ Boa noite, Andy”.

Show de "Songs for Drella"de Lou Reed e John Cale (1990)


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FAIXAS:
1. “Smalltown” - 2:03
2. “Open House” - 4:16
3. “Style It Takes” - 2:54
4. “Work” - 2:36
5. “Trouble With Classicists” - 3:40
6. “Starlight” - 3:26
7. “Faces And Names” - 4:11
8. “Images” - 3:28
9. “Slip Away (A Warning)” - 3:04
10. “It Wasn't Me” - 3:29
11. “I Believe” - 3:17
12. “Nobody But You” - 3:44
13. “A Dream” - 6:33
14. “Forever Changed” - 4:49
15. “Hello It's Me” - 3:03
Todas as composições de autoria de Lou Reed e John Cale




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