segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Haken: crítica de The Mountain (2013)

 



Em uma época em que o metal progressivo havia atingido o ápice da megalomania técnica e saturação, quando bandas surgiam às torrentes, simplesmente imitando as mesmas fórmulas teatrais e praticamente enterrando o real significado do estilo, o sexteto inglês Haken surgiu como um dos poucos sopros de vida realmente notáveis dos últimos anos.

Desde a sua formação em 2007 até o lançamento de Visions, seu ambicioso último trabalho de estúdio, o jovem grupo vem sendo considerado a grande promessa do estilo na década passada, o que acabou por levá-los a excursionar ao lado de nomes como Dream Theater, Karmakanic e Shadow Gallery. The Mountain é o seu terceiro  álbum de estúdio, produzido em conjunto com Jens Bogren e marcando a estreia da banda pelo selo InsideOut Music.


Com uma tranquila aura contemplativa, “The Path” definitivamente cria, com o perdão do trocadilho, o início do caminho a ser trilhado ao longo do disco, como um último momento de concentração, um fôlego ou fechar de olhos antes do início da nova jornada em “Atlas Stone”. Com menos peso do que demonstrada anteriormente, nota-se uma banda mergulhando forte no lado mais atmosférico do rock progressivo clássico, aonde as linhas de teclado de Diego Tejeida não apenas criam as bases das músicas, mas atuam em diferentes níveis sem extrapolar para o virtuosismo, em combinação perfeita com o dinâmico trabalho de voz de Ross Jennings, que já apresenta uma evolução considerável (e muitíssimo bem vinda) em relação aos álbuns anteriores.

O ritmo extremamente quebrado e as interessantes inserções de jazz saem um pouco de cena em “Cockroach King” para dar lugar a um clima mais fantasioso, quase circense, nas mudanças de andamento que soam como o meio termo entre os períodos mais megalomaníacos do Yes e do Genesis da década de setenta (com direito a um interlúdio instrumental que poderia facilmente ter saído de alguma mente insanamente wakemaniana), acompanhados de um jogo de vozes digno da fase mais operística do Queen.

Quase inesperadamente trocando de curso, “In Memoriam” dá um salto no tempo e quase se afoga ao beber da inspiração mais do que evidente no som do Porcupine Tree (em especial os trabalhos após o Lightbulb Sun), enquanto as infinitas camadas de vozes de “Because It’s There” se constroem com uma belíssima singularidade, seja na longa introdução a capella ou acompanhada do desnorteado instrumental acústico.

Falling Back To Earth”, com seus doze minutos de duração, é claramente dividida em duas partes: a primeira, intitulada “Rise” traz um conceito extremamente esperançoso, sobre um prog metal que intencionalmente não foge muito do padrão estabelecido há anos pelo Dream Theater (dentro do estilo do Haken, claro), o que cria um contraste com o segundo trecho, “Fall”. Carregada e em um andamento ditatorialmente mecânico, acompanha o desenvolvimento da própria letra, e se estende inclusive ao longo do interlúdio “As Death Embraces”.

Apesar de criar uma estranheza inicial, “Pareidolia” traz vários elementos que fazem referência à música do Oriente Médio, soando por diversas vezes parecida com o Orphaned Land (especialmente o último – e excelente – trabalho, All Is One), além de um trecho em particular que parece ter sido extraído de um dos álbuns do Moonspell. Novamente trazendo um cuidadoso toque nos detalhes e em como as infinitas alterações de ritmo funcionam ao longo da faixa, “Pareidolia” se enquadra facilmente como um dos momentos mais ricos na discografia dos ingleses.

Não fosse o suficiente, o disco encerra com a longa balada “Someone”, que alterna entre trechos extremamente melancólicos com outros que remetem diretamente ao progressivo setentista em suas personificações mais acústicas e tranquilas, com algumas das melodias vocais mais inspiradas do álbum (e isso é realmente algo significável). Além de um grande tom épico, é como se a obra voltasse ao seu ponto de partida, fechando um ciclo ao unir-se, tanto instrumental quanto liricamente ao seu início.

A maneira como o conceito se desenvolve ao longo da escalada de The Mountain mostra um Haken engajado em definitivamente criar uma experiência imersiva em nível muito maior do que nos seus álbuns anteriores (que apresentavam boas canções, porém pecava um pouco como um todo). Mais dinâmicos e menos obcecados em soarem técnicos ou exibicionistas, as composições no novo trabalho atingem nível de maturidade diferente, focando na elaboração e no fluxo natural de uma história e na utilização de suas influências para agregar ainda mais detalhes à música, que funciona sistematicamente no decorrer do disco.

E a forma como eles trabalham estas inúmeras influências é  o que torna a audição tão interessante e intrigante em cada uma das faixas, sendo possível fazer paralelo inclusive com o  álbum Blood Mountain, do Mastodon, que apresenta proposta de conceito semelhante (ainda que a dos americanos seja mais violenta e linear). The Mountain não apenas representa a jornada da banda em busca de inspiração e elevação, mas também é facilmente uma das grandes obras do progressivo neste século, e coloca o Haken definitivamente como um dos maiores nomes atuais, que ao mesmo tempo venera o legado do estilo, enquanto gradativamente visa um novo caminho.

E eles não apenas vem usando esse caminho, mas deixam também a trilha limpa para novas possibilidades, quando o ciclo se reiniciar em um futuro próximo.

Faixas:
01. The Path
02. Atlas Stone
03. Cockroach King
04. In Memoriam
05. Because It’s There
06. Falling Back To Earth
07. As Death Embraces
08. Pareidolia
09. Somebody




Scalene: crítica de Real/Surreal (2013)

 



Com relativo pouco tempo de estrada, a realidade é que o Scalene não fugiu muito do padrão no que diz respeito à sua formação e à conquista de espaço no cenário musical, não apenas no Distrito Federal, mas por todo o país. Apesar de algumas mudanças ao longo dos anos, o reinício da banda veio efetivamente em 2012, com o lançamento do EP Cromático, que já mostrava uma personalidade musical notável, que equilibrava os ritmos tipicamente contemporâneos do rock com aquela noção melódica carregada do pop, deixando espaço ainda para sutis inserções experimentais.


Em 2013, então, o quarteto formado por Gustavo Bertoni (vocal e guitarra), Philipe Conde (vocal e bateria), Tomás Bertoni (guitarra) e Lucas Furtado (baixo) lança o novo trabalho, intitulado Real/Surreal. Produzido pela própria banda, em parceria com Lampadinha e Diego Marx, o  álbum foi lançado de forma independente (por sua própria escolha) e é claramente dividido em duas partes, com conceitos próprios e complementares, com o objetivo de serem subjetivos, para que cada um absorva e compreenda à sua própria maneira.


As boas vindas ao lado Real do álbum são feitas de forma agressiva, quase ofensiva com o grito de “Não ouse negar o sonhador”, primeiro verso em “Sonhador II”, acertadamente escolhida para iniciar o trabalho, com diversas mudanças de andamento e a inclusão de uma interessante aura atmosférica. Esse formato mantém-se na cadenciada “Marco Zero”, aonde a simplicidade forma a base para a criação de belas melodias, enquanto “Nós Maior Que Eles” injeta boas doses de velocidade em riffs e estruturas bem próximas ao hard rock mais moderno, mantendo-se a proposta da banda.


Extremamente serena, “Silêncio” é uma arrastada balada aonde os aspectos acústicos do Scalene aparecem de forma mais evidente, criando um contraste com passagens que remetem ligeiramente ao Tool. Ideia bem parecida ao apresentado em “Prefácio”, que dá continuidade ao foco mais contemplativo, de melodias fáceis, nesse momento do álbum. “Forma Padrão”, porém, traz uma sonoridade americana um tanto quanto semelhante ao Foo Fighters e ao Queens of the Stone Age.


“Amanheceu”, faixa baseada em dedilhados que inevitavelmente acabam por carregar um sentimento fortíssimo, esbarrando por diversas vezes com melodias típicas de MPB. Sentimento este que se mantém na negativista e quase agonizante atmosfera criada ao longo de “Disfarce”, música que antecede o curto instrumental “Interlúdio”, a ponte de ligação com Surreal.


E exatamente como representa em seu vídeo, “Danse Macabre” inicia o segundo lado com um Scalene que não perde as suas características primordiais, mas altera razoavelmente o método de representar a sua identidade bem própria. Essa diferença se mostra ainda mais evidente na lenta “Milhares Como Eu”, um soturno conto que constrói facilmente uma imagem mental ao longo dos versos, e na execução de “Karma”, que parece saída diretamente de algum lugar chuvoso dos anos noventa.


Com notáveis mensagens de protesto, “O Alvo” resgata os traços mais agressivos ao mesmo tempo em que insere de forma inteligente vários detalhes e camadas sonoras que engrandecem a composição, assim como na quase inglesa “Surreal” e a interessante forma como se desenvolve. Aquele meio termo entre o distorcido abafado e o limpo permanece na soturna atmosfera do choque de realidade em “Ilustres Desconhecidos”, até dar lugar ao belíssimo arranjo de dedilhados acústicos combinados com um fundo orquestral de “Anoitecer”, que parece intencionalmente soar como uma canção de ninar.


E como um prosseguimento do conceito, os primeiros versos de “A Luz e Sombra” transportam para um estranhíssimo sentimento de confusão, bem unidos com o instrumental de várias mudanças, que beira o desespero e a melancolia. Estas sensações lentamente se esvaem ao longo de “Branco”, curta passagem no piano que encerra o trabalho.


O Real e o Surreal contido na sonoridade apresentada aqui pelo Scalene não são exatamente opostos no que diz a qualidade, mas sim infinitos elementos que conseguem ser ambíguos e complementares no decorrer do álbum. Sem se importar se é pop, rock, ou qualquer outra vertente, as diversas influências da banda podem vir de direções opostas e inesperadas, mas ao mesmo tempo são encaixadas com uma notável criatividade e uma espantosa maturidade (em um estágio que bandas demoram muito mais tempo para atingir – quando, e se, atingem).


Mas não apenas musicalmente, a banda traz uma interessante coerência nos temas líricos, que apesar de um tanto fatalistas e violentos em alguns momentos (vejam bem, isso não é algo negativo) se encaixam perfeitamente com o sentimento transmitido pelo trabalho de vozes, o que torna a audição das dezoito faixas – acertadamente curtas e que totalizam menos de 56 minutos – extremamente bem fluída, principalmente graças às diversas oscilações melódicas, que garantem a cada uma das músicas a sua característica própria.


Real/Surreal talvez possa ser considerado o verdadeiro início para o Scalene, e pelos resultados que eles atingem aqui, o caminho a frente se mostra promissor. Aliás, muito promissor


Faixas:
01. Sonhador II
02. Marco Zero
03. Nós Maior Que Eles
04. Silêncio
05. Prefácio
06. Forma Padrão
07. Amanheceu
08. Disfarce
09. Interlúdio
10. Danse Macabre
11. Milhares Como Eu
12. Karma
13. O Alvo
14. Surreal
15. Ilustres Desconhecidos
16. Anoiteceu
17. A Luz e Sombra
18. Branco




Houston: crítica de II (2013)

 



Foi através de um amigo que conheci o Houston, banda sueca de AOR que vem fazendo bonito desde 2010, quando seu  álbum de estreia papou o título de melhor do gênero pela Classic Rock. No último dia 2, o trio, formado por Hank Erix, Ricky Delin e Freddie Allen, lançou II e, pelo que este demonstra, estamos diante de um forte candidato ao bicampeonato na conceituada revista britânica. 

O som que se ouve no decorrer dos 45 minutos do play é algo que, não fosse a produção de altíssimo nível, poderíamos desconfiar ter vindo diretamente da segunda metade dos anos 1980, quando o mundo testemunhou o nascimento (ou mesmo o ápice) das melhores bandas de Melodic Rock da história. E é nas tetas dessa turma das antigas que o Houston mama até não poder mais, incorporando tudo que é indispensável, mas preservando uma individualidade que se dá justamente pela união de elementos tão diversos e de diversas origens. Se tratando de um grupo sueco, é natural que a maior influência por aqui seja do Europe, mas há resquícios de Journey, Survivor e até mesmo um quê setentista a la Boston em determinados momentos. 

"Glory" dá partida no motor com teclado matador na introdução, quebra de padrão no pré-refrão e harmonias vocais de primeira. O single "I'm Coming Home" eleva a temperatura munido de uma energia positiva que toma proporções inimagináveis no refrão grudento, e novamente o teclado assume a linha de frente. "Talk to Me" é outra que mostra o bom funcionamento dos backing vocals. A frase de teclado que marca a introdução parece ter sido chupada do riff de "Thrills in the Night" do KISS, mas pode ser apenas uma feliz coincidência. 

O que seria a abertura do lado b, "24 Hours" tem cara mesmo é de abertura de show — dá até pra imaginar a cena: palco todo apagado, um foco de luz no tecladista e, de repente, aquela explosão de luz em simultâneo ao ataque conjunto da banda, para acelerar tudo que é batimento cardíaco na plateia. E se o show ideal começaria com "24 Hours", o bis mais que perfeito teria "On the Radio" na comissão de frente. O pedal de volume da guitarra é acertado em "Losing", mas o instrumento só permanece no comando até o piano dar as caras e reger o melhor refrão de todo o álbum. 

Alguém aí se lembra do filme Águia de Aço, que passava exaustivamente na Sessão da Tarde, ou dos comerciais do cigarro Hollywood? Tanto "Just Friends" quanto "Believe" parecem ter vindo diretamente dessas trilhas sonoras. Impossível não desconfiar da procedência, pois isto aqui é pura década de 1980. Comprovadamente, a produção impecável é que nos localiza em pleno século 21. Em sua missão de vestir em trajes modernos um gênero que muitos consideram datado, o Houston gabarita. Não consigo pensar em nenhuma outra banda nova que faça exatamente este tipo de som com o mesmo padrão de qualidade. Top 10 garantido! 


01. Glory 
02. I’m Coming Home 
03. Return My Heart 
04. Talk To Me 
05. Back To The Summer Of Love 
06. 24 Hours 
07. On The Radio 
08. Losing 
09. Just Friends 
10. Believe 





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