jornalista e pesquisador musical (trecho do texto da contracapa original de 1972)
Ele foi o sambista dark, o compositor das trevas, o seresteiro soturno. Seria ele uma espécie de Robert Smith do samba, um Allan Poe do morro, um Augusto dos Anjos da música? Exageros à parte, mesmo em um universo tão comumente marcado por dores, desgostos, abandonos, tristezas como é o da música brasileira, o carioca Nelson Cavaquinho conseguiu se sobressair no que diz respeito ao pessimismo. Não só pela temática, constantemente abordando assuntos como morte, fim, sombras, medo, mas muito também ajudado pela sua voz cadavérica, macabra, parecendo moribunda, arrancada do último suspiro do peito. Embora já conhecido nos meios de samba desde os anos 30, tendo sido gravado por diversos artistas da música popular brasileira, Nelson Cavaquinho foi um daqueles casos de artistas que, como intérprete, foi aparecer bastante tarde, lá pelos final dos anos 60, tendo gravado, então, somente em 1970 seu primeiro álbum. Destaco aqui, no entanto, seu segundo trabalho, que provavelmente reúne suas maiores preciosidades, a compilação "Nelson Cavaquinho - Série Documento", que na verdade é uma variação de disco de estreia, só que lançado por outra gravadora. O álbum traz a mórbida "Quando Eu Me Chamar Saudade"; "Palhaço", com sua quase angustiante dicotomia alegria-tristeza sendo, logicamente vencida pelo último sentimento; o clássico "A Flor e o Espinho" com seu misto de beleza e melancolia ; e a minha favorita, "Tatuagem", ressentida, magoada, machucada ao extremo. Tudo triste, arrasado sombrio. Nem a exaltação, "Sempre Mangueira", mais animada, bem raiz, bem fundo-de-quintal, consegue deixar de mencionar a tão aguardada morte. Se tem um clássico que falta nessa verdadeira galeria de pérolas é a excelente "Juízo Final", que já havia sido escrita mas que só apareceria no seu disco seguinte, "Nelson Cavaquinho" (1973), mas a ausência não desvaloriza em nada este álbum que é verdadeiramente um documento da discografia nacional. Um dos artistas fundamentais da música brasileira, ímpar no jeito de tocar o violão (curiosamente, não o cavaquinho), singular por sua voz peculiar e ainda hoje insuperável na capacidade de expressar a dor de uma maneira tão intensa. ************************************
FAIXAS: 01 – Quando Eu Me Chamar Saudade (Nelson Cavaquinho / Guilherme de Brito) 02 – Tatuagem (Nelson Cavaquinho / Guilherme de Brito) 03 – Eu e as Flores (Nelson Cavaquinho / Jair do Cavaquinho) 04 – Palhaço (Nelson Cavaquinho / Osvaldo Martins / Washington) 05 – Sempre Mangueira (Nelson Cavaquinho / Geraldo Queiroz) 06 – Deus Não Me Esqueceu (Nelson Cavaquinho / Ananias Silva / Armando Bispo) 07 – A Flor e o Espinho (Nelson Cavaquinho / Alcides Caminha / Guilherme de Brito) 08 – Degraus da Vida (Nelson Cavaquinho / César Brasil / Antônio Braga) 09 – Noticia (Nelson Cavaquinho / Nourival Bahia / Alcides Caminha) 10 – Lágrima Sem Juri (Nelson Cavaquinho / Fernando Mauro) 11 – Luto (Nelson Cavaquinho / Sebastião Nunes / Guilherme de Brito) 12 – Luz Negra (Nelson Cavaquinho / Amâncio Cardoso)
Um dos meus artistas preferidos é o cantor e compositor canadense Neil Young. Ele me foi apresentado pelo meu querido e saudoso primo José Carlos de Andrade Ribeiro, o popular Chico Caroço, em 1972, quando ele mostrou pra mim o disco “Harvest”. De cara, chapei com “Old Man” e fiquei de olho em alguma coisa que lançassem dele no Brasil. Só voltei a ouvi-lo com toda a atenção em 1975, quando o mesmo Chico Caroço me apresentou o disco favorito de hoje: “Zuma”, de Neil Young e seus fiéis escudeiros, o trio Crazy Horse (Frank Sampedro na guitarra base; Billy Talbot, no baixo, e Ralph Molina na bateria.
Com uma capa muito expressiva de Mazzeo, “Zuma” foi lançado após uma trilogia de discos muito bons, porém terrivelmente tristes (“Time Fades Away”, de 1973; “On the Beach”, de 1974, e o melhor de todos, “Tonight's the Night”, de 1975), inspirados na morte por overdose de Danny Whitten, o guitarrista original do Crazy Horse.
A viagem começa com “Don't Cry No Tears”, uma típica música de NY com Crazy Horse. As guitarras distorcidas fazem a cama para uma letra onde Neil Young pergunta: “Eu fico pensando quem está com ela esta noite?/ E eu fico pensando quem a está abraçando bem apertado/ Mas não tem nada que eu possa dizer/ para fazê-lo ir embora/ Um velho amor verdadeiro não é difícil de ver/ Não chore, sem lágrimas perto de mim”. Uma pegada country rock com ênfase no rock.
“Danger Bird” põe o dedo sujo na ferida do relacionamento de Young com a atriz Carrie Snodgress, mãe de seu filho Zeke. Como em todo o disco, as guitarras ditam o clima que iria inspirar Lou Reed a dizer que Neil tinha se tornado um grande guitarrista nesta época. E a letra é de um ressentimento absoluto: “Agora eu penso em você o dia inteiro/ Este é o momento em que ele se despedaça/ Porque você esteve com outro homem/ Há um tempo atrás no museu com seus amigos/ Aqui você está e aqui estou eu”. O homem ciumento que Neil havia se tornado lhe inspira a se comparar a um pássaro perigoso cujas asas viraram pedra. Mas mesmo assim ele consegue voar pra bem longe.
“Pardon my Heart” dá uma pausa na eletricidade e tem Neil em todos os instrumentos, especialmente guitarras e violões e percussão mais o baixista Tim Drummond e os backing vocals de Billy Talbot e Ralph Molina. Uma balada bem folk ao velho estilo. Mais um recadinho para Carrie Sondgress: “É uma triste comunicação/ Com pouca razão para acreditar/ Quando um não está dando/ E o outro finge receber”. Mais adiante, ele tenta remendar a situação dizendo: “Perdoe meu coração/ Se mostrei que me importava/ Mas eu te amo mais do que os momentos/ Que nós dividimos ou não”.
A próxima canção, “Looking for a Love”, tem uma base country music e um alívio na tristeza. “Tenho procurado um amor/ Mas ainda não a encontrei ainda/ Ela não será nada do que eu imaginei/ Nos seus olhos descobrirei/ Outra razão porque/ eu quero viver e fazer o melhor do que eu possa”. Mas ele sabe que não é moleza lhe aguentar quando, no refrão, ele garante: “Tenho procurado um amor que seja certo pra mim/ Não sei quanto tempo vai durar/ Mas espero tratá-la bem/ e não mexer com sua cabeça/ quando ela começar a ver o meu lado negro”. Autocrítica em dia, né?
“Barstool Blues” fala de um bebum num banco de bar e de sua tristeza. “Se eu conseguisse aguentar por apenas um pensamento/ o suficiente para saber/ porque minha mente está se movendo tão rápido/ e a conversa é devagar”. Lá pelas tantas, o fantasma de Danny Whitten volta a habitar – e a assombrar – Neil: “Era uma vez tinha um amigo meu/ que morreu milhares de mortes/ Sua vida era cheia de parasitas/ e incontáveis ameaças vadias/ Ele confiava numa mulher/ e nela fez suas apostas/ Era uma vez tinha um amigo meu/ que morreu incontáveis mortes”. A mulher, no caso, a heroína que causou a morte de Whitten.
Apesar do disco estar cheio de guitarras luminosas e aparentemente ser mais “solar" dos que os anteriores, “Zuma” tem sua carga de demência, ódio e ressentimento. O lado B começa com uma diatribe dirigida a uma “Stupid Girl”. Comenta-se que a canção seria direcionada à cantora e compositora canadense Joni Mitchell, com quem ele teve um namoro rápido e conturbado. E a letra é puro rancor: “Você é uma garota tão estúpida/ Realmente tem muito o que aprender/ Comece a viver de novo/ Esqueça de lembrar/ Você é uma garota tão estúpida”. E a agressão não dá refresco: “Você é um peixe muito bonito/ Pulando na areia do verão/ Olhando pra onda que perdeu/ quando outra já está chegando/ Você é uma garota tão estúpida”. Como as mensagens são diretas, a música não poderia ser diferente. Batidas simples, baixo marcando o tempo e as guitarras em distorção total. Nada de sofisticação.
A faixa seguinte abre com o que diria o meu amigo João César Nazário, o grande Alemão: uma guitarrada pra levantar defunto. “Drive Back” tem os solos mais lancinantes de todo o disco. Os puristas da guitarra acham que Neil é um mau músico, que não tem técnica. Pode até ser. Ele não é nenhum Larry Carlton, Allan Holdsworth ou Steve Vai. Mas o feeling deste homem é incrível. Carregando esta selvageria nas seis cordas, tem mais uma letra detonando: “O que te levar pela noite/ tá certo pra mim/ quando chegar a hora de dizer adeus/ Vou te fazer ver/ Que você não me conhece/ Não vou te ligar/ Não estarei aqui/ pra te lembrar/ o que você me disse/ Quando te mostrei/ pela manhã/ Deixa te dizer/ Dirija de volta pra sua velha cidade/ Quero acordar com ninguém por perto”. Restou alguma dúvida, querida?
“Cortez the Killer” é a faixa mais conhecida do disco. Ele a regravou em “Live Rust” e ainda toca em seus shows. A letra conta a história de Hernán Cortes, um conquistador espanhol que derrotou o império asteca de Montezuma, comandando um dos grandes massacres de índios da história do mundo ocidental. “Ele veio dançando através da água/ com seus galeões e arma/ À procura do novo mundo/ naquele palácio no sol/ Na praia estava Montezuma/ com suas folhas de coca e pérolas/ E nos lugares onde andava/ com os segredos das palavras... E as mulheres eram todas bonitas/ E os homens eram formes e fortes/ Eles ofereceram suas vidas em sacrifício/ para que outros pudessem continuar”. Durante sete minutos e 29 segundos, Neil e o Crazy Horse contam esta história de conquista e dizimação dos mais fracos.
Depois de tudo, a última faixa dá uma folga pras guitarras e Neil resgata uma canção do abortado projeto de reunião de CSN&Y em 1974, no Hawaii, com “Through my Sails”. Nela, os quatro cavaleiros do country rock mesclam suas vozes em harmonias perfeitas ao som do violão de Young, do baixo de Stephen Stills e das congas do convidado Russ Kunkel. As coisas realmente não estavam fáceis para eles nesta tentativa de reencontro. Os sentimentos eram conflitantes e Neil os captura bem falando de velejar, um dos esportes favoritos de seu irmão e rival de música, Stills: “Ainda fitando as luzes da cidade/ No Paraíso eu me elevo/ Incapaz de descer/ por razões que não sei explicar/ total confusão/ Desilusão/ Coisas novas que estou aprendendo... Vento soprando através das minhas velas/ Parece que estou longe/ Deixando o vento soprar/ através de minhas velas”.
Mesmo tendo as guitarras na linha de frente e dando a impressão de ser um disco ensolarado, especialmente após as tragédias de “Tonight's the Night”, “Zuma” não deixa de ser um disco carregado de uma raiva inerente a tudo que estava acontecendo na época. Além disso, esta foi uma das fases mais complicadas de Neil Young com as drogas, as mulheres, as parcerias musicais que não decolavam, o nascimento de um filho com paralisia cerebral e a morte rondando tudo o tempo inteiro. Como a carreira de Young é pontuada por momentos de rara beleza, como "Everybody Knows This Is Nowhere", “After the Gold Rush”, “Tonight's the Night”, “Rust Never Sleeps”, entre muitos outros, “Zuma” tende a ficar num patamar secundário. Mas é meu disco favorito dele por todos estes motivos relatados acima.
Dois anos depois, Neil se reúne com a nata dos músicos de Nashville mais uma colaboradora que iria acompanhá-lo por muito tempo, a cantora Nicolette Larson, e gravaria o seu disco mais conhecido e menos neurótico de todos: “Comes a Time”. Mas esta é outra história.
Lançado na primavera de 1969, "Everybody Knows This is Nowhere" era o segundo álbum solo de Neil Young, sua primeira colaboração com a legendária banda de apoio Crazy Horse e um exemplar que continha três de suas mais memoráveis canções: "Cinnamon Girl" rock forte que abre o dico, a extensa, lenta e inspirada "Down By the River" com seu duelo de guitarras e "Cowgirl in the Sand", intensa e sensível, pesada e doce, rock e country, é a melhor do disco e o encerra brilhantemente. Filho de um jornalista esportivo canadense, Young começou sua carreira como cantor folk em Toronto seguindo logo depois para Nova York no início dos anos 60, mas já ali pelo maio da década botou o pé na estrada de novo e se tocou pra Los Angeles, onde veio integrar a banda Buffalo Springfield que no fim das contas não durou muito e com a separação desta já em 1968, começou carreira solo vindo a gravar seu primeiro álbum em 1969. Enquanto ainda editava seu primeiro trabalho, Young conheceu um pessoal da Costa Oeste chamado na época The Rockets. Gostou do som dos caras, rolou uma identificação, rabatizou o grupo então para Crazy Horse e juntaram-se para a gravação de seu segundo álbum ainda naquele ano. Com produção de David Briggs e do próprio Neil Young, este "Everybody Knows This is Nowhere" foi gravado em apenas duas semanas, o que não o desvaloriza em nada quanto à técnica e sim depõe a seu favor quanto à simplicidade, objetividade e pureza da obra. Possui apenas sete músicas e estas tem muito da sua base nas extensas atuações instrumentais dos Crazy Horse. Logo depois de realizar este discaço, Young foi convidado a se juntar a Stills, Crosby and Nash e já no ano seguinte dividia seu tempo entre os dois projetos. Neil Young nunca desapareceu efetivamente, nunca ficou esquecido ou por baixo mas a redescoberta dele pela geração de Seattle deu uma nova alavancada na carreira trazendo o Cavalo Doido Canadesnse de volta à evidência. Como diria o próprio, mais tarde em outra canção conhecidíssima o "rock'n roll nunca morrerá". E é por isso que o velho continua na ativa (e em plena forma). ********************* FAIXAS: 1. Cinnamon Girl 2. Everybody Knows This is Nowhere 3. Round & Round (It Won't Be Long) 4. Down By The River 5. The Losing End (When You're On) 6. Running Dry (Requiem For The Rockets) 7. Cowgirl in the Sand
O oitavo álbum de estúdio dos norte-irlandeses Stormzone, intitulado Immortal Beloved, chegou em janeiro de 2026 marcando um retorno às origens — literalmente, já que a banda voltou a assinar com a editora Escape Music, a mesma que lançou a sua estreia há quase duas décadas.
Este é um disco de contrastes: começa com uma energia avassaladora, mas acaba por lutar contra a própria extensão.
O Regresso com Sangue Novo
Após uma pausa e mudanças significativas na formação, apenas o vocalista John "Harv" Harbinson e o guitarrista David Shields permanecem da formação original. A entrada de Shaun Nelson-Frame (que também produziu e misturou o disco) nas guitarras, juntamente com a secção rítmica dos irmãos Uhrin, trouxe um som mais robusto e "cheio", típico do Heavy Metal clássico britânico com nuances de Power Metal.
Sonoridade: Um Início de "Tirar o Fôlego"
O álbum começa de forma brilhante.
"Steel Meets Ice" e "Tyrannosaur": São descritas como faixas de ritmo acelerado e produção poderosa. Harbinson continua a mostrar que a sua voz é uma das mais fiáveis do género, entregando linhas vocais sólidas sobre uma muralha de som moderna.
O Desafio da Consistência
Onde o álbum parece "perder o gás" é na sua longevidade. Com 13 faixas, a análise aponta que o disco se torna um pouco unidimensional a partir da faixa-título.
Falta de Variedade: A crítica nota que, após o início explosivo, a banda cai num ritmo repetitivo. Embora faixas como "Stand In Line" tragam de volta o fulgor, o resto do álbum é visto como "mais do mesmo", faltando aquela faísca de inovação ou mudança de dinâmica que elevaria o Stormzone à "primeira divisão" do metal mundial.
Produção Impecável: Um ponto consensual é a qualidade sonora. Shaun Nelson-Frame fez um excelente trabalho na mistura, garantindo que o disco soe atual, pesado e nítido.
A Arte de Rodney Matthews
É impossível falar de Immortal Beloved sem mencionar a capa. Criada pelo lendário Rodney Matthews (Magnum, Diamond Head), a arte é descrita como um dos grandes atrativos do lançamento, especialmente para quem optar pela versão em vinil, capturando a essência mística e épica da banda.
O Veredito
Immortal Beloved é um passo em frente em relação ao anterior Ignite The Machine, mostrando uma banda mais coesa e com melhor produção. No entanto, peca pelo excesso de bagagem; se tivesse sido editado para 9 ou 10 faixas, seria um clássico instantâneo. Para os fãs de NWOBHM e Metal Melódico clássico (estilo Saxon ou Riot), continua a ser uma audição obrigatória, mesmo com os seus momentos de "piloto automático".
Nota:7/10.
Destaques: "Steel Meets Ice", "Tyrannosaur", "Stand In Line".
Recomendado para: Puristas do Heavy Metal britânico que valorizam produção cristalina e vozes melódicas potentes.
Temas:
1. Titanic (Steel Meets Ice) 2. Tyrannosaur (Screaming in the Night) 3. My Immortal Beloved 4. Stand in Line 5. The Hammer Has to Fall 6. Hands Held High 7. Iron Clad 8. Blood and Tears 9. The Reckoning 10. The Light of Day 11. Until I Found You 12. Heart on Fire 13. Facing Time
Banda:
John "Harv" Harbinson - Vocals (2004-present) David Shields - Guitars (2012-2015, 2025-present) Shaun Nelson-Frame - Guitars (2024-present) Jan Uhrin - Bass (2025-present) Peto Uhrin - Drums (2025-present)