terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

David Bowie – David Bowie (1969)

 


E aqui temos o disco homónimo. Esperem, então a estreia, em 1967, não havia sido com um disco homónimo? Sim. Mas o David Bowie de 1969 era já muito, muito diferente, do David Bowie de dois anos antes. Esse primeiro disco havia sido um fracasso comercial e uma nulidade crítica, levando Bowie a perder o contrato com a editora, que não sabia o que fazer com ele. Mas talvez tenha sido esse falhanço inicial a levar o artista em busca do que tinha realmente de único dentro de si.

Ainda dorido pela má ou inexistente reacção ao seu disco, Bowie colocou tudo em causa. Sabia que queria ser um artista, sabia-o desde criança, mas talvez a música não fosse o único meio para o conseguir. A transformação começou a ocorrer quando se inscreveu nas aulas de expressão física de Lindsay Kemp, um artista burlesco e um reputado mimo (está explicado o vídeo de “Ashes to Ashes”). Aí, Bowie encontrou uma liberdade de criação que nunca havia experimentado, começando também a dar atenção ao lado visual das apresentações, algo que nunca o iria abandonar. Mas encontrou outra coisa importante, uma namorada. Numa actuação do estúdio de Kemp para a BBC, o músico cruzou-se com a bailarina e actriz Hermione Farthingale, no início de 1968. Desenvolveram uma relação, necessariamente significativa para um rapaz de 21 anos, que acabou abruptamente um ano depois, quando Farthingale foi filmar para a Noruega, deixando em Londres um Bowie de coração partido.

Mas tinha também os horizontes mais abertos, pelas experiências de teatro extremo de Kemp, pela proximidade com os bailarinos e demais pessoal do showbiz. A versatilidade de Bowie nesta altura tem dois bons exemplos: entrou em anúncios para televisão, enquanto actor, e foi em digressão com uma primeira encarnação dos T-Rex… enquanto número de abertura, como mimo.

Para além de toda esta avalanche criativa, Bowie recebia os ecos dos EUA, onde a onda hippie estava a todo o vapor. Juntou-se a mais dois amigos e organizou noites de música folk ao vivo, que inclusive deram origem a um festival gratuito ao ar livre. Bowie nunca foi exactamente um hippie, mas este foi o momento da sua vida em que esteve mais próximo. Paz, amor, budismo, tudo encontrou lugar nesta altura, embora quase sempre disfarçado por detrás da ironia e da “persona” que já era Bowie.

É nesta conjuntura que surge o segundo disco, o segundo disco homónimo, numa tentativa de reescrever a História, de afirmar que, agora sim, Bowie havia encontrado a voz com que queria apresentar-se ao mundo. E, agora sim, o mundo haveria de ouvir.

A grande pedrada no charco do disco – e com influência extrema no arranque a sério da popularidade do cantor – veio com “Space Oddity”, que abre o disco. A história de Major Tom, astronauta, perdido no espaço a bordo de uma nave, que fala para o centro de controlo. É uma música com todo um mundo lá dentro, que nos fala de alienação, de beleza, de solidão, de desespero. A 11 de Julho de 1969, “Space Oddity” é editado em single, uns meros cinco dias antes da data prevista da chegada do homem à lua. Todo o mundo ocidental vivia obcecado com a era espacial e com esse evento em particular, e foi uma feliz coincidência – nas palavras de Bowie – que a música, essa música lenta, estranha e alienígena e, no fundo, tão humana, chegasse às lojas nesse mesmo momento. A carreira de David Bowie como músico estava finalmente lançada. Vendas, popularidade, elogios e presenças na televisão, tudo chegou nas asas desse fantástico single, ainda hoje uma das mais celebradas canções de Bowie.

O álbum propriamente dito não foi necessariamente um sucesso de vendas. Era ainda demasiado estranho, e a personagem encarnada por Bowie demasiado composta para a multidão que comprava discos. Mas uma coisa é certa: todos os putos que viram aquele vídeo (que conheceu duas versões, das quais partilhamos a primeira nesta página) na televisão dos seus pais sentiram que algo estava a mudar, algo de diferente e de excitante estava a acontecer. O impacto do single foi tal que, logo em 1972, aquando da sua reedição, este David Bowie de 1969 foi baptizado de Space Oddity, até para não gerar confusão com o primeiro disco.

O álbum – que ainda hoje não recebe o reconhecimento que merece por parte da crítica – é um longo caminho percorrido desde 1967. Em primeiro lugar, há um gigantesco salto em termos de coerência musical entre os temas (o primeiro single, curiosamente, é talvez a canção mais “fora” do disco inteiro). Temos nove temas, nos quais a linguagem estética de Bowie se encontra mais definida. A estrutura-base é a guitarra acústica, um contraste face à profusão de instrumentos da estreia, e sinal da sua contaminação folk. Mas não é um disco folk evidente, contando quase sempre com uma discreta guitarra eléctrica e, por vezes, com um som mais pesado, a meio-caminho do que Marc Bolan andava a fazer e o próprio Bowie faria anos mais tarde.

Há vários temas que se destacam, “Unwashed and Somewhat Slightly Dazed” e “Cygnet Comittee”, que foram alvo de muita rodagem posterior em palco, por exemplo. “Letter to Hermione” é provavelmente a canção mais bonita do disco e uma das mais bonitas de toda a sua carreira, dedicada à sua antiga namorada (isto apesar de, aquando da edição do disco, Bowie já ter conhecido Angie Barnett, com quem viria a casar pouco tempo depois). “Janine” é dos primeiros exemplos do Bowie-rock, com uma energia contagiante. “God Knows I’m Good” é um dos raros exemplos de temas mais antigos que encontraram casa no disco de 1969, podendo perfeitamente ter feito parte do primeiro álbum. E “Memory of a Free Festival”, que fecha o disco, recorda os dias do festival gratuito de música folk, com uma letra que nos remete para o ‘flower power’ que estava prestes a terminar.

David Bowie/Space Oddity/Man of Words, Man of Music (outro rebaptismo), de 1969, é claramente um disco, globalmente, mais conseguido que o primeiro. É a primeira transformação de Bowie, do vaudeville inicial para herói de uma nova geração, com um pé na folk, outro no psicadelismo esotérico, e começando a abraçar, lentamente, a energia da guitarra eléctrica que atingiria o seu expoente na sua fase glam, poucos anos mais tarde. Um álbum obrigatório, que lança sementes do futuro e que merece ser revisitado e ganhar o protagonismo, enquanto um todo, que o colossal “Space Oddity” sempre lhe roubou.



David Bowie – The Man Who Sold The World (1970)

 


Os anos sessenta tinham acabado de dar o seu último suspiro. Com o fim da década mais incrível da História, tanto nível cultural como social, as mudanças começaram a surgir em ritmos cada vez mais frenéticos. A ideia de paz e amor, que começou em meados da década e teve o seu auge em 1969 com o festival de Woodstock, passando pelo infame Verão do Amor, dois anos antes, em plena São Francisco, começava a dar espaço a um lugar mais sombrio, mais negro, mais agressivo, mais estranho. O fim, em modo figurativo, já tinha sido dado no final da década, no festival Altamont, com os Stones no olho do furacão. A partir desse momento, a inocência tinha ido dar uma volta e nunca mais apareceu…

Ao aproximarmo-nos do fim da década, a música começou a seguir outro caminho. Começaram a aparecer os grandes guitarristas, os grandes bateristas e, claro está, os grandes baixistas. Jimi Hendrix tinha mandado a sapatada na porta e nem precisou de nenhum Martim Moniz para que esta permanecesse aberta. Os Cream de Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker vieram logo atrás. The Who, Led Zeppelin, The Free, Black Sabbath não quiseram faltar à festa, e deram o ar da sua graça, sendo que ainda por aí viriam outros…

No fim de 1970, David Bowie estava numa encruzilhada. O seu disco de estreia, de 1967, tinha sido um desastre. A qualquer nível, especialmente comercial, o que lhe valeu ter ficado sem contrato com a editora. Dois anos volvidos e alguma experimentação pelo meio, o seu novo disco, novamente homónimo (mais tarde lançado com outros nomes para facilitar a identificação por parte do ouvinte) trouxe-lhe alguma da fama que o inglês sempre almejou. “Space Oddity” deu-lhe mais espaço de manobra e tempo de antena para poder decidir o seu rumo. Mas, aquele que viria a ser conhecido, e bem, como Camaleão, ainda não se tinha encontrado totalmente (será que alguma vez o fez?). O seu som, ainda algo folk, estava prestes a tornar-se “obsoleto”, um nicho para os puristas e algo precisava de ser feito.  A resposta veio através de dois novos elementos que entraram na “banda” de Bowie: Mick Ronson e Woody Woodmansey.

Nunca será por demais elogiar a presença do novo, à altura, guitarrista Mick Ronson,  homem responsável pela transformação do som mais folky e psicadélico de Bowie numa parede de som rock de barba rija, que não envergonharia nenhuma das bandas acima citadas. Aliando a bateria do seu conhecido Woodmansey  ao baixo de Tony Visconti, novamente produtor do disco, só faltava enquadrar a voz e as letras de Bowie nesta mistura explosiva.

E assim, 1970 viu nascer aquele que é visto para muitos como o primeiro disco “a sério” da carreira de David Bowie. Aquele que começa a revelar o verdadeiro Bowie dos anos vindouros. The Man Who Sold The World é a escolha de Bowie na encruzilhada da sua vida. O caminho divergiria por diversas vezes no futuro, mas nunca tão decisivamente como nesta ocasião.

Quem vê a capa de The Man Who Sold The World pela primeira vez [na versão inglesa, apenas lançada em 1971, mas que mais tarde se tornaria na imagem definitiva] pensará estar na posse de um qualquer disco que se aproximará mais de algo que pudesse ser ouvido por alguém como Oscar Wilde, pois encontramos Bowie num “man-dress”, muito século XIX, um original do estilista Michael Fish, que retrata o início da criação do ser misógino que mais tarde Bowie explorará com todo o vigor nos discos vindouros.

No entanto, no interior de The Man Who Sold The World só encontraremos rock, praticamente. E nas mais diversas formas. Desde o hard rock até ao sinfónico, passando pelo progressivo e pelo glam. A isso não é alheia a participação de Mick Ronson. Além de trazer trazido o baterista Woody Woodmansey, Ronson trouxe mais peso e volume ao som de Bowie, e fez o pré-camaleão ter uma banda de verdade. Uma banda que pudesse rivalizar com os grandes que se começavam a destacar naquele tempo.

Pela primeira vez, Bowie tinha uma banda completa. Quatro elementos que se tornavam em mais do que a soma das partes, deixando Bowie mais tranquilo para as suas letras. The Man Who Sold The World é um disco de banda, e não um disco de Bowie com músicos de estúdio, como outrora tinha sido e isso reflecte-se no resultado final do álbum. Um disco coeso que funciona como um todo sem nenhuma música, à época, que se destacasse acima das outras. No entanto, hoje em dia é impossível ouvir o disco sem se pensar no single que dá nome ao álbum.

O disco foi todo ensaiado onde a banda vivia. Uma mansão chamada Haddon Hall que, para quem a frequentava, tinha o ar de ser a mansão onde viveria o Conde Drácula. Foi aqui que Bowie, Visconti, Ronson e Woodmansey se tornaram íntimos e, entre jams e jams, construíram aquele que seria o grande começo da carreira de Bowie. Nestas sessões, Bowie andava meio alheado, perdido de amores com a sua mais recente conquista (Angie), estando, por diversas vezes, ausente das sessões. Os restantes membros continuavam a ensaiar melodias e trechos de músicas, até que Bowie surgisse  com uma ideia nova ou a misturasse em alguma já existente. Terá sido exactamente este alheamento de Bowie que trouxe um novo paradigma ao seu som. Uma espécie de líder ausente, que quando aparecia detonava tudo à sua volta.

O disco abre com “Width of a Circle” que, como já tem sido referido, afasta Bowie do caminho folk e mete-o rapidamente nos circuitos hard rock e progressivo. Uma música com mais de oito minutos que começa de modo frenético e acaba ao bom estilo dos Pink Floyd (“Saucerful of Secrets”) que estavam, também eles, a mutar-se para o progressivo. Daí, passando para feérica “All The Madmen”, é apenas um saltinho. Continuamos no mundo do psicadélico/progressivo, espécie de homenagem ao mundo de Syd Barrett e ao futuro dos Pink Floyd sem ele. A letra não podia ser mais apropriada.

Entre momentos mais pesados (“Black Country Rock”, “Running Gun Blues”, “She Shook Me Cold” ou “The Supermen) e os mais assombrosos (“After All” e, claro está, “The Man Who Sold The World”), o disco parece falar de vários temas que afligiam a vida de Bowie e que sempre foram a sua marca. Alienação e desencanto, a ideia de que o mainstream pisa todos que não se enquadram nele. E fá-lo desaguando em lugares escuros, paranóicos, referindo doenças mentais, guerras e opressões religiosas. Esses eram temas que começavam a afligir não só Bowie, mas toda a sua geração, à medida que os anos setenta começavam a raiar.

Bowie continua neste disco a escrever a sua participação na história da música e a serpentear-se de estilo em estilo, de pele em pele, de cor em cor. The Man Who Sold The World é apenas mais uma encarnação do extraterrestre que viveu entre nós, mostrando-nos como podemos estar sempre na crista da onda, independentemente da idade que vamos tendo.

Apesar das divergências a propósito do real começo da carreira de Bowie, The Man Who Sold The World é o primeiro tomo daquilo que viria a ser  Ziggy Stardust. Ainda com réstias do rock psicadélico, Bowie, em conjunto com o triunvirato Visconti, Ronson e Woodmansey, acelera o passo e dá uma cacetada nos ouvidos dos ouvintes. Hard rock, heavy metal, rock progressivo e sinfónico e, claro está, o início do glam que muito começava a agradar a Bowie e ao seu grande amigo Marc Bolan, líder dos T. Rex. Daqui até ao estrelato era só uma questão de tempo e de uma nova mutação…



David Bowie – Hunky Dory (1971)


Qualquer pessoa que o conhece sabe que mudança é o nome do meio de David Robert Jones. Começando logo cedo, pela mudança de cor de um dos olhos numa pequena luta de miúdos, passando pela mudança de nome com o aparecimento de “Bowie” no mesmo e continuando por aí fora na sua longa carreira musical sobejamente conhecida.

Assim, 1971 foi ano de, não fugindo à regra, mudança. Em vários aspectos, já que a meio do ano foi pai pela primeira vez, o que (quem já o foi sabe, quem ainda não o foi imagina) é uma das grandes mudanças na vida de um homem. Para atacar um novo disco decidiu-se por mais uma mudança – chutar para canto o baixista e produtor dos seus anteriores álbuns Tony Visconti, promovendo Ken Scott (um dos engenheiros do anterior The Man Who Sold the World) e chamando para a banda Trevor Bolder. Estava em curso uma das mais importantes mudanças da História da música, já que ficou assim formada a banda de Ziggy Stardust. Por fim, nada como começar um álbum com uma música chamada “Changes” para corroborar tudo aquilo que escrevi acima.

Uma coisa é certa – tal como muitas vezes na carreira de Bowie, os ingleses em particular e o mundo em geral ainda não estava preparado para tanta mudança. Ainda agora se tinha chegado à Lua e já havia quem se questionasse se haveria vida em Marte? Quem é esse tal de Andy Warhol? E como se atreve a conjugar profanamente sua majestade com a palavra bitch? Bowie conseguiu ter bons reviews da crítica especializada, mas claramente não foi um álbum que chegou às massas. Ou pelo menos não per se, já que depois da loucura de Ziggy também este álbum beneficiou de aceitação por arrastamento.

E, há que dizê-lo, merecidamente, já que, sendo bastante dificil dizer qual o melhor álbum de Bowie, posso aqui assumir que este é o meu favorito. A música “Changes” marcou os meus anos 2011 e 2012, anos de (sim, é fácil adivinhar) grandes mudanças na minha vida pessoal e profissional, ouvi-a recorrentemente (numa playlist que fiz sobre esse tema e que partilharei futuramente). Um prazer do início ao fim, piano, saxofone e uma letra irrepreensível sobretudo sobre o generation gap existente na altura entre os adultos e os jovens. Piano volta a aparecer em grande estilo para a seguinte “Oh You Pretty Things!” que se segue. Um pouco mais à frente a estrondosa “Life on Mars?” de letra surreal, a fazer lembrar um quadro de Salvador Dali sonorizado. “Kooks” sobre a qual já vos escrevi aqui, canção de amor paternal é uma pequena maravilha. “Quicksand” em modo guitarra acústica e voz, carregada pela força de um potencial Super-Homem bem servido por Nietzsche “I’m not a prophet / or a stone age man / Just a mortal / with the potential of a superman”. E saltamos então para a trilogia de homenagens, a personagens vitais na criação da persona David Bowie – Andy Warhol, Bob Dylan e Lou Reed. Todos distintos mas interligados, pesos pesados de transformação e inovação que introduziram na evolução da História da música e aos quais Bowie se juntou (ou suplantou?). Fechamos com “The Bewlay Brothers”, balada densa, de ouvir com olhos fechados.

Hunky Dory é portanto álbum para se ouvir vezes sem conta. Não cansa, antes pelo contrário permite sempre a descoberta de coisas novas a cada audição. Saboroso até ao fim.



Bob Dylan – The Bootleg Series Vol. 4: Bob Dylan Live 1966, The “Royal Albert Hall” Concert [1998]

 

Bob Dylan – The Bootleg Series Vol. 4: Bob Dylan Live 1966, The “Royal Albert Hall” Concert [1998]

Em 1991, a gravadora Columbia Records lançou uma caixa com três CDs, chamadas The Bootleg Series, e apresentou aos fãs do cantor norte americano Bob Dylan uma fartura de material registrado entre 1961 e 1991, a maioria sessões de ensaios, até então inéditas oficialmente. O lançamento serviu para comemorar os 30 anos de carreira de um dos maiores gênios da canção mundial.
Sete anos depois, saiu o quarto volume da série, e talvez o mais emblemático de todos. Bob Dylan Live 1966, The “Royal Albert Hall” Concert registra um dos principais momentos da carreira de Dylan, quando ele enfrenta seu próprio público, abdicando do folk rock feito apenas com violão, voz e harmônica para ampliar os horizontes, plugando as guitarras e sendo assessorado por uma das maiores bandas da história, o grupo The Band (ainda em formação).
São dois CDs que distribuem, em pouco mais de uma hora e meia de audição, um show inesquecível, tenso e carregado de energia. Na época, Dylan, com apenas 24 anos, vinha de uma longa e polêmica excursão, na qual ele apresentava primeiramente um set acústico solo, e depois, um set elétrico acompanhado por um quinteto com órgão, guitarra, piano, baixo e bateria. Até então, ele havia caracterizado-se e consolidado-se como um dos principais nomes do folk rock, apresentando-se sozinho com violão e harmônica, declamando suas canções com letras de protesto (em maioria) e no máximo com a companhia da amiga (seria também amante) Joan Baez nos vocais e violões.
Ensaio para o Newport Folk Festival, com Mike Bloomfield (à esquerda, de preto)
Mas tudo mudou a partir do Newport Folk Festival, em julho de 1965, local onde começou a turnê do álbum Bringing it All Back Home (1965) e que causou um choque na plateia e imprensa, tudo por que Dylan havia decidido ligar a guitarra em um festival folk. A ideia surgiu ao ver, no mesmo festival, o grupo Paul Butterfield Blues Band fazer o mesmo, com o excelente guitarrista Mike Bloomfield detonando em solos arrasadores, deixando a plateia, organizadores e imprensa de tranças caídas com tamanha ousadia.
Bloomfield acompanhou Dylan na empreitada em Newport, e participou de quase toda a perna americana da turnê, sendo substituído por outro gênio da música, o canadense Robbie Robertson. Junto de Robertson, vieram Levon Helm (bateria), Garth Hudson (órgão), Rick Danko (baixo) e Richard Manuel (piano). Esse time, batizado de The Hawks, formou a base do que viria a ser a The Band anos depois, e participou de boa parte da turnê europeia e australiana.
Dylan, assustando ao público com sua banda elétrica
Nos shows finais, na Inglaterra e França, Levon sofreu um pequeno problema, e foi substituído por Mickey Jones. Toda a turnê foi registrada no filme  Don’t Look Back, de D. A. Pennebaker. Os shows na Inglaterra foram o auge da tour, não somente por que Dylan já estava cansado, mas também por que o público inglês não estava preparado para o que aconteceu no palco, apesar da ampla divulgação que a imprensa norte-americana já havia feito de shows como o citado Newport Folk Festival e também de uma apresentação em San Francisco, em dezembro de 1965 .

No dia 17 de maio de 1966, Dylan subiu ao palco do Royal Albert Hall, em Manchester, Inglaterra, onde Bringing it All Back Home estava na primeira posição nas paradas, e diante de mais de 2000 pessoas começou seu set acústico com “She Belongs to Me”. Dylan entra ovacionado, e atacando a plateia com três minutos de fúria ao violão e harmônica, e rasgando ainda mais sua voz esganiçada. Todo o set acústico está no disco 1, e é claro ao ouvinte que Dylan está totalmente sem vontade, principalmente ao interpretar a segunda canção da noite, “Fourth Time Around”, mas com o público o ovacionando e muito ao final de cada canção.A partir da épica “Visions of Johanna”, o norte-americano começa a descarregar sua raiva, e essa se torna um dos principais destaques do disco 1, ao lado da primorosa versão para “Desolation Row”, além de uma inspirada interpretação para “Mr. Tambourine Man”.

Parte interna do CD
Dylan deixa o palco aplaudidíssimo, e o CD 1 é concluído, levando-nos para o elétrico CD 2, o qual já começa com a plateia conversando, murmurando algo como que dizendo: “Como assim, uma banda elétrica?”. Dylan dá o toque e é Robertson quem abre o celeiro de clássicos, com o riff de “Tell Me Momma”, um verdadeiro assombro, com guitarra e órgão comandando a sacolejante levada da canção, e com Dylan muito mais a vontade no palco.
A partir de então, é pancadaria atrás de pancadaria. Dylan canta com uma gana Viking, e a cozinha Jones / Danko é um caso a parte, batendo com violência em cordas, pratos e caixa. Apesar da mixagem não ser das melhores (culpa principalmente da gravação ter sido feita originalmente em um “moderno” – a época – caminhão de gravação), é perceptível que os dois estão em um dos seus melhores momentos.
Danko, Dylan e Robertson. Eletricidade exalando por cada poro dos músicos
Outro que está arrasando é Robertson. Sem as famosas engasgadas, o ainda menino canadense manda ver em solos rasgados, fraseados melódicos e esbanja talento em passagens muito emocionantes, como as apresentadas em “Just Like Tom Thomb Blues” e “Ballad of a Thin Man”, essa última com Dylan ao piano.
Mas, é claro, o grande destaque do show é Dylan. Indignado com as vaias e manifestações (que passam a ocorrer a partir da terceira canção, “Baby Let Me Follow You Down”), ele se destaca por apresentar aos fãs, com soberania e indiferença, algo que eles não queriam ver nem ouvir. A voz de Dylan se destaca em pérolas como “I Don’t Believe You (She Acts Like We Never Have Met)” e “One Too Many Mornings”, ou até mesmo apresentando o bluesão “Leopard-Skin Pill-Box Hat” (esse com uma irônica “tenho uma canção fresquinha para vocês”), a qual  é caracterizada pela ironia, desprezo e satisfação por estar fazendo aquilo, entre diversas manifestações contrárias advindas da plateia.

Tudo isso ocorre durante uma catarse coletiva do público, que, embasbacado com a potência sonora das guitarras, órgão, bateria e baixo, mal aplaude as canções, e vez em quando faz rumores de vaias. Dylan mal fala com os fãs, e quando o faz, é sempre com ironia. O auge do show ocorre em “Like a Rolling Stone”, quando, segundos antes de começar a tocar, um fã da plateia grita para Dylan: “Judas!”, e é ovacionado pelos demais presentes. Dylan estupidamente responde da seguinte forma ao fã: “Não acredito em você! Você é um mentiroso!”, e praticamente cuspindo ao público, grita para Robertson e os The Hawks: “Let’s Fucking Loud!”, mandando uma magistral versão de oito minutos para um verdadeiro clássico do rock, encerrando o show abaixo de vaias e pouquíssimos aplausos, com o hino “God Save the Queen” sendo entoado nas caixas de som.

Bob Dylan, o gênio rebelde

Pouco tempo depois, Dylan lançou Highway 61 Revisited (agosto de 1965), um de seus melhores trabalhos, e na sequência, o essencial Blonde on Blonde (1966), talvez o melhor disco de sua carreira, nos quais conseguiu harmonizar a parte elétrica com a acústica e conquistar toda uma nova geração de seguidores. Até que veio o fatídico acidente de moto em 1966, que o deixou afastado dos palcos por mais de oito anos, voltando somente em 1974 com a turnê de Planet Waves.

Mas isso já é assunto para outro lançamento da Bootleg Series.

Este Vol. 4, com certeza, se você gosta de boa música, não hesite em adquirir.

O material contido em The Bootleg Series Vol. 4: Bob Dylan Live 1966

Disco 1

1. She Belong To Me
2. Fourth Time Around
3. Visions of Johanna
4. It’s All Over Now, Baby Blue
5. Desolation Row
6. Just Like A Woman
7. Mr. Tambourine Man

Disco 2

1. Tell Me. Momma
2. I don’t Believe  You (She Acts Like We Never Have Met)
3. Baby, Let Me Follow You Down
4. Just Like Tom Thumb’s Blues
5. Leopard-Skin Pill-Box Hat
6. One Too Many Mornings
7. Ballad of a Thin Man
8. Like a Rolling Stone


Ambrosia – Somewhere I’ve Never Travelled [1976]

 

Ambrosia – Somewhere I’ve Never Travelled [1976]
O grupo americano Ambrosia é um dos mais injustiçados da história.  Um dos pais da fusão de rock sinfônico com pop, tem em seu segundo álbum, Somewhere I’ve Never Travelled (1976) como o ponto principal em sua carreira.
A formação é a clássica do grupo com David Pack (voz, guitarras, cordas e Fender Rhodes), Joe Puerta (voz, baixo, Moog pedals e guitarra), Christopher North (teclados e vocais) e Burleigh Drummond (bateria, percussão, basson e vocais).
O álbum abre com “And…”, uma pequena introdução com carrilhões e vocais que me lembram muito Beach Boys. Uma pequena amostra do que virá, levando para a faixa-título, na qual os vocais da banda são um destaque importante. Infelizmente, não consegui realmente encontrar quem canta em qual música. Os créditos são um tanto genéricos. Joe Puerta no baixo é um encanto. Belos teclados no final da canção. Em vários momentos, a banda mistura o pop com psicodelia e o progressivo. Um achado! Ainda mais para um grupo americano. Os EUA nunca tiveram enorme tradição dentro do gênero.
Cristopher North, David Pack, Joe Puerta e Burleigh Drummond
“Cowboy Star” começa com Space para dar ênfase ao título. A narração do início dá um toque genial à canção que aos poucos vai aumentando e tomando vida pra entrar em algo moderno-renascentista. Um luxo! Como em muitos discos prog pop, a guitarra é um tanto relegada. No entanto, se levarmos em consideração que ela não faz tanta falta enquanto ouvimos o disco, então está tudo bem! A segunda parte já começa orquestral. O que eu chamaria de banjo (???) nos remete à um desenho animado que lembra um pouco o comercial do Marlboro. Sem palavras! A volta é ainda mais emocionante.
A introdução de violão de “Runnin’ Away” é linda. A música também! É daquelas que emocionam. Daquelas que você ouve de novo sem um motivo aparente. Os vocais em falsete são encantadores. As vocalizações da banda são sem sombra de dúvida sem igual. Eu digo e repito: “é disso que eu sinto falta”. Os vocais das bandas 70′s.
Os vários vocais da banda (pelo que eu pude perceber todos cantam) são um achado. “Harvey” é encantadora, de voz e violão, com um Q de saudosismo. Não sei porque razão me lembra de o (maravilhoso) filme Forret Gump. Uma música curta demais. Único porém!
Em “I Wanna Know”, a bateria vem à frente. Seguida de guitarras orquestradas e ritmadas, baixo pulsante, quase um groove. Até a entrada do violino que dá um toque diferente para que então a orquestra venha a tona. A música fica pesada e pulsante. Lembra-me muito The Alan Parsons Project. Os metais dão um toque 60′s, meio soul. E, para variar, o refrão é um encanto com o vocal sensacional. Tanto em melodia quanto em timbre. O solo de guitarra é belo e conta com um timbre inusitado.
Já “The Brunt” é Space total!!! Progressiva, já começa detonando. Convenções de teclados, bateria e baixo. Vocais épicos com tom de cartoon. Se não me engano, um xilofone permeia a canção. Novamente os metais dão um toque sem igual. A orquestração a seguir mostra que a banda tinha que ser mais reconhecida. O que é os assobios orquestra, confusão e viagem? Sem igual! Logo em seguida, percussões inusitadas e vocais como em uma cerimônia. Barulho de gente, reunião, feira, sei lá o que!? Sensacional!
“Danse With Me George (Chopin’s Plea)” é uma beleza. Daquelas para levantar, sacodir a poeira e dançar, se soltar. Uma loucura divertidíssima com belos pianos e arranjos. Depois de uma bela doidera e vocalizações, voltam calmarias e violinos. O disco tem ótimas orquestrações!
Por fim, temos ” Can’t Let A Woman”, a mais’ Rock’ do disco. Um riff legal para embalar uma canção bacana. Um solo muito legal que eu acredito ser de teclado. O destaque novamente vai para o baixo que por todo o álbum passeia com uma versatilidade incrível. Para encerrar, “We Need You Too” com piano na introdução, uma melodia vocal linda, teclados muito fodas e orquestra comendo solto. Os caras do Ambrosia – e também o The Alan Parsons Project – sabiam muito bem o que faziam.
David Pack, Burleigh Drummond, Joe Puerta e
Cristopher North
Pelo que li, a banda fez muito sucesso nos EUA no meio dos anos 70 até o começo dos 80 (fase em que esteve na ativa). Parece que há alguns anos voltaram a excursionar, mas não com a mesma formação. É uma pena não ser mais conhecida.
Track list
1. And…
2. Somewhere I’ve Never Travelled
3. Cowboy Star
4. Runnin’ Away
5. Harvey
6. I Wanna Know
7. The Brunt
8. Danse With Me George (Chopin’s Please)
9. Can’t Let A Woman
10. We Need You Too



New Order - "Brotherhood" (1986)

 



Não existe nada melhor que New Order


Eu tenho uma teoria (mentirosa) que não existe nada melhor do que New Order. É a sensação que eu tenho no auge do solo de baixo de “Perfect Kiss”, curtindo a melodia de “Bizarre Love Triangle”, no início da bateria eletrônica clássica de “Blue Monday”, enfim, parece que enquanto se está ouvindo New Order a sensação é de que aquilo é a melhor coisa do mundo. Lógico que aí vem à cabeça um Kraftwerk, os Stones, uns Smiths da vida e a gente cai na real e vê que não é tanto assim. Mas que é demais é. Principalmente ouvindo o excelente Brotherhood, de 1986, que mais do que qualquer outro da banda passa essa sensação. Com “Brotherhood” parece que o New Order acha o meio termo entre suas experimentações eletrônicas e seu veio de banda de rock, encontrando o melhor entrosamento entre teclados-sintetizadores-bateria eletrônica com guitarra-baixo-bateria.
“Paradise” que abre o disco já dá mostra disso, com uma entrada de bataria falando alto, uma base eletrônica mas com aquele vocal melodioso de Barney Sumner e com o baixo de Peter Hook, como de costume, funcionando como uma guitarra; no que aliás ele é singular.
As seguintes seguem também esta linha de interação de elementos, com uma curiosa, até então, atenção para as guitarras que não costumavam figurar na música dos caras.
Um dos maiores hits da banda “Bizarre Love Triangle” não foge à esta regra e embora tenha predominância de elementos eletrônicos, vale a pena desviar a audição dos teclados e tudo mais para se ouvir o contrabaixo de Hook conduzindo a música com uma beleza admirável.
All Day Long” que a segue é um dos pontos altos com seu final apoteótico com teclados soando como uma orquestra de violinos; e a próxima, “Angel Dust” é uma viagem dançante com uns samples de vozes em árabe, e que culmina num surpreendente e empolgante solo de guitarra.
O disco fecha com a quase acústica “Every Little Counts”, leve e descontraída a ponto de Bernard Sumner rir da própria letra durante a música, que acaba estranha e curiosamente com uma mistura de ruídos, como de uma agulha arranhando um vinil.
Muita gente prefere o álbum anterior, “Low Life”, que direciona mais para esta tendência eletrônica da banda, mas que na minha opinião ainda fica devendo no acabamento da idéia; outros preferem o posterior, também excelente, “Technique”, que é uma lapidação e uma mistura dos conceitos dos dois anteriores, mas ainda fico com o “Brotherhood” que é tão bom, que quando a banda quis retormar o rumo, foi nele que buscou referências para fazer o, também interessante, álbum “Get Ready” de 2001. “Brotherhood” é meio rock, meio eletrônico, meio acústico, meio Joy Division, mas sobretudo é totalmente New Order e a história acabou provando isso e fazendo justiça a esse álbum que quando lançado não teve tão boa receptividade. Tanto que a mal recebida “Bizarre Love Triangle” é hoje, provavelmente o “cartão de visitas” da banda em qualquer lugar no mundo.
Sei que ouvindo o êxtase da “orquestra” de “All Day Long”, o inusitado solo de guitarra vibrante em “Angel Dust”, aquele incrível baixo sempre solando soando como uma guitarra, aquela integração de percussão eletrônica com acústica como só Stephen Morris sabe fazer desde os tempos do Joy, afirmo que, pra mim “Brotherhood” é sim, o melhor disco da banda e, digo-lhes também, senhores, que não existe nada melhor do que New Order.
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FAIXAS:
1."Paradise" – 3:50
2."Weirdo" – 3:52
3."As It Is When It Was" – 3:46
4."Broken Promise" – 3:47
5."Way of Life" – 4:06
6."Bizarre Love Triangle" – 4:22
7."All Day Long" – 5:12
8."Angel Dust" – 3:44
9."Every Little Counts" – 4:28



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