sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Nicolas Godin – Contrepoint (2015)

 

Nicolas Godin é conhecido em todo o mundo como uma das metades dos Air. A partir de agora, também como artista a solo. O seu parceiro de banda, Jean-Benoît Dunckel, lançou-se em nome próprio em 2006, enquanto Godin foi adiando esse caminho. Mas com esta chegada, faz estrondo.

Contrepoint é, à primeira escuta, um disco diverso, que percorre inúmeros ambientes, nenhuma canção é parecida com a anterior, há instrumentais e cantadas (em várias línguas), podendo até parecer um trabalho sem grande fio condutor, apenas a disparar para todos os sítios ao mesmo tempo.

Mas é preciso ter em conta que este disco é, antes de mais, um álbum de versões de Bach. Sim, o compositor alemão Johann Sebastian Bach! Nicolas Godin – músico autodidacta cujo instrumento de eleição é o baixo – considera as composições de Bach ‘a música mais bela de todos os tempos’.

Nos últimos anos, Godin foi ganhando interesse em reinterpretar a música de Bach (a vontade tornou-se séria ao ponto de ter aulas de piano), estudou a fundo as pautas e concluiu que é possível tocar Bach em qualquer instrumento. Isso, e o facto de querer trazer estas composições com 300 anos para a luz dos nossos dias, deu origem a Contrepoint. Agora já não soa tão difusa a ideia expressa no segundo parágrafo.

Ao todo, o disco tem 8 canções, todas compostas por J.S. Bach, mas a partir daí, reinventadas, transfiguradas por Nicolas Godin, num caldeirão cheio de ingredientes novos mas onde a herança dos Air, embora esbatida, não chega nunca desaparecer.

Logo a abrir, “Orca”, dá o mote. Guitarra eléctrica e teclados em modo “Bach em ácidos”. A segunda canção, cantada em alemão, já está mais perto do que conhecemos de Godin nos Air, mas com um toque barroco. “Club Nine” é uma balada jazz simples, em trio – bateria, baixo e teclas. À 4ª canção do disco entra em cena um convidado, no mínimo inesperado mas que faz todo o sentido. Marcelo Camelo escreveu a letra de “Clara” e emprestou a esta canção o seu cunho tropical. Fantástica a forma como Godin consegue fazer desta canção um tema que cabe, em partes iguais, no trabalho de ambos – não estranharíamos se a ouvíssemos num disco de Air; soaria natural se estivesse no último álbum dos Los Hermanos.

A segunda metade do disco entra mais no capítulo das bandas sonoras. “Glenn” lembra-me um genérico alternativo da série Dallas. “Bach Off” é afrobeat intercalado de suspense, podia perfeitamente estar num filme de acção dos anos 70, numa parte com uma perseguição. A música que fecha o álbum, “Elfe Man”, encaixa num filme de Inverno, quando se olha a neve pela janela.

Em pouco mais de 34 minutos e inúmeras paisagens sonoras, Contrepoint marca o início de uma nova fase na carreira de Nicolas Godin. Este é o primeiro passo do músico a solo, isso nota-se na experimentação, pode ser que em próximos discos, explore mais um ou outro caminho aqui iniciado, mas também pode ser que continue a desbravar todos os terrenos que lhe apeteça. Seja como for, este disco é uma exclamação fortíssima de um artista a reinventar-se!

P.S. – A não perder, por razões óbvias, o concerto dele em Lisboa no dia 28, no Teatro Tivoli, no âmbito do Vodafone Mexefest.



Boogarins – Manual (2015)

 


Quando, há dois anos, ouvimos As Plantas Que Curam, o disco de estreia dos Boogarins, os nossos braços e os nossos corações abriram-se irremediavelmente a estes brasileiros de Goiânia. Nesse álbum, o rock psicadélico vindo de onde menos se esperava cruzava-se com a doçura que só o Brasil nos sabe trazer. Essa relação só se fortaleceu quando os pudemos conhecer, os pudemos entrevistar, os pudemos ver ao vivo nos palcos portugueses.

Esse primeiro disco foi o trampolim para que a música deixasse de ser para estes rapazes apenas um sonho e uma paixão, e levou-os a correr mundo em palcos, sobretudo pequenos mas também grandes, espalhando a sua mensagem. A expectativa era, por isso, grande, em relação a este segundo disco. Conseguiriam continuar a encantar-nos?

A resposta é um contundente sim, conseguindo mesmo superar a beleza do que já haviam feito.

Manualcujo título completo é Manual, ou guia livre de dissolução dos sonhos mantém, naturalmente, a matriz que vinha de trás. As principais diferenças face à estreia são fáceis de identificar e tornam-se evidentes com audições repetidas. Apesar da electricidade, As Plantas Que Curam estava embebido numa candura bucólica, nalguma boa ingenuidade, numa tentativa inocente de buscar algo, e boa parte da sua magia estava aí. Com Manual, estamos a ver o que pode fazer por uma banda um ano na estrada. Um salto enorme de maturidade, de arrojo, de confiança. Uma banda que, agora sim, encontrou a sua voz e confia nela. Um conjunto que, dentro do seu mapa-mundo, encontra novos caminhos para rasgar.

O grande trunfo dos Boogarins é misturar a guitarra mágica e exploratória de Benke Ferraz com o groove da secção rítmica e a doçura da voz do vocalista Dinho (um dos tipos mais simpáticos e humildes do rock actual, já agora). E em Manual essa síntese é cozinhada de forma a apurar a receita, que nos é servida em doses generosas e assertivas.

Os 10 temas deste novo fresquíssimo disco ouvem-se como um todo, sem grandes quebras de qualidade, abrindo aqui e ali janelas cósmicas onde antes apenas víamos sólidas paredes.

O disco abre com uma pequena vinheta, “Truques”, uma réstia de jam com uma guitarra quase bossa lá atrás e a electricidade, discreta por cima, abrindo caminho à “Avalanche”, um dos primeiros temas a ser conhecido deste novo trabalho. É uma das grandes malhas de Manual, com várias fases e camadas de construção, que provavelmente condensa melhor o que são os Boogarins em 2015. É também o exemplo do salto de produção sonora, com uma maior limpidez face a As Plantas Que Curam.

“Tempo” reduz o ritmo e dá destaque à voz de Dinho, num tema subtil e hipnótico que vai crescendo com uma energia contida que se liberta no final.

6000 Dias” é outros dos grandes singles do disco. Uma boa malha pop que, a meio, descola, nas asas da guitarra espacial de Benke. As lições aprendidas com grandes contemporâneos como os Temples ou os Tame Impala foram bem apreendidas. Um solo daqueles que apetece engarrafar e trazer sempre connosco, quando precisamos de uma dose redentora de rock exploratório.

Segue-se “Mário de Andrade/Selvagem”, que permite à secção rítmica trazer um swing quase Stone Roses na sua face mais pop, até o tema descambar (no bom sentido), numa música dentro da música.

“Falsa Folha de Rosto” começa num compasso quase jazz, abrindo espaço à incontornável electricidade mas que regressa depois ao negrume, no tema que é provavelmente o mais exploratório de todo o disco.

De seguida recebemos de braços abertos “Benzin”, que já conhecíamos de a ouvir ao vivo. Dinho canta “não há nada como o sol daqui, mesmo sem mar”, e todo o tema é Verão, amizade, juventude. Um tema quente, swingante, mas leve como uma generosa brisa. Não seria preciso um génio para intuir que esta música vem do mesmo país que inventou a bossa nova.

“San Lorenzo” é uma calma e bonita vinheta instrumental, que abre caminho para “Cuerdo”, mais um tema pausado, negro e tenso, mostrando que no mundo dos Boogarins há muita luz, mas também há treva.

Manual encerra com “Auchma”, um regresso ao velho rock com um riff de arranque com toques orientais, que ainda passa por um belo coro de harmonias vocais até Benke Ferraz conduzir o tema até à sua conclusão, assente em mais uma das suas fantásticas divagações eléctricas e psicadélicas.

Este disco é uma mesa farta, com pratos variados mas sempre com a mão inegável do seu autor. É, ainda, um álbum que promete enormes possibilidades de crescimento em palco, algo que podemos conferir já sábado e domingo, 14 e 15 de Novembro, respectivamente no Musicbox e no portuense Maus Hábitos. Os Boogarins conseguiram subir do nível já muito alto do primeiro disco.

Vamos seguir nesta viagem?


Joanna Newsom – Divers (2015)

 


A figura feminina mais mágica, complicada e curiosa deste lado da floresta do freak folk abandonou o esconderijo. Abandonou-o com a missão de nos fazer apaixonar por ela novamente – como já havia feito uma, duas, três vezes anteriormente.

Joanna Newsom apanha-nos de surpresa com cada álbum que lança, deixando-nos sempre surpreendidos com uma nova faceta, uma nova máscara, um novo leque da sua complexa personagem. Com a estreia já distante, The Milk-Eyed Mender, de 2004, brotou do solo com a graça de um rebento: uma criança de olhos arregalados, agarrada à harpa, berrando numa voz infantil as maravilhas deste mundo novo que descobria com as mãos cheias de terra. Apenas dois anos mais tarde, com Ys, revelou-se uma velha anciã de uma terra perdida no tempo que reúne os filhos e netos à lareira, ainda com a harpa na mão (mas desta vez auxiliada pelo melindroso arranjo orquestral de Van Dyke Parks) para lhes cantar fábulas fantásticas de cometas, estrelas, macacos e ursos. E em 2010, com Have One on Me, reinventou-se na forma de uma música tão ambiciosa que só podia ter existido noutra época e noutros mundos, se é que podia ter existido sequer: uma força da natureza, lançando um disco triplo, com a duração de duas horas e recheado de temas complexos, que misturavam folk, jazz, música barroca e blues, tudo na mesma confusa mas saborosa iguaria. Um prato que demorou a digerir, tanto que nos deu cinco anos para o fazer.
E agora, regressou, com Divers – um disco que em nada se parece assemelhar ao anterior: mais compacto, com onze temas cujo nenhum passa muito mais dos sete minutos e que se cinge a menos de uma hora. Pode parecer uma mera sobremesa, mas a complexidade de Divers, mesmo camuflada, existe e talvez mais delicada, melindrosa e real que nunca.

Apesar da considerável “simplificação” em relação ao trabalho anterior, não se pode cair no erro e interpretar Divers como um disco fácil, disco de meter no carro ou na aparelhagem da sala e ouvir como quem toma um café distraído. Como todos os discos de Joanna, é um disco que prima pela complicação; não se deixa conquistar com a facilidade de tantos outros. É a voz – aquela voz, sobre a qual tanto já se escreveu, se disse, se comentou –, voz de bruxa, de criança, de timbre desconfortável e irrequieto, são as letras, que, embora mais acessíveis, continuam enterradas em tantas referências, significados e esoterismo que nos cansam os braços de tanto escavarmos, são as melodias, – que, além do habitual piano e harpa, incluem dezenas de teclados, sintetizadores, uma orquestração meticulosa e até mesmo guitarras e baterias – embora mais curtas, continuam a demorar-se nos nossos ouvidos antes de mergulharem com certezas.
A opacidade das letras de Newsom, que a cada disco soam mais refinadas e cheias, é óbvia no single “Sapokanikan” – uma história sobre a queda inevitável no esquecimento, com referências a figuras de poder nova-iorquinas remotas, técnicas de retrato, poemas dos quais ninguém se dá ao trabalho de recordar. É, sem dúvida, um dos pontos altos do disco; mais que uma música, é uma maré-viva de sentimentos e frustrações, oscilando entre a doce alegria e a raiva furiosa, que nos deixa com um nó na garganta à espera do que virá no próximo verso, e que nos faz sentir no peito que sabemos perfeitamente do que Newsom fala, mesmo quando não compreendemos nada do que ela diz.
Outro pico é o tema “Leaving the City”. Como uma verdadeira tempestade, a harpa gentil pinta um céu branco e calmo com os primeiros acordes, sonolentos e suaves; e de repente, chegam os trovões, os relâmpagos, a chuva, o vento, um refrão que explode com a violência das nuvens carregadas de preto, e Newsom surpreende-nos mais uma vez dominando um território que nunca adivinharíamos o dela – e enquadra-se perfeitamente no balançar certeiro das guitarras e das baterias vigorosas.
Desta forma continua Newsom a desfazer-nos tudo em que ousamos limitá-la; regressa forte e implacável, conquistando novo terreno com a certeza de um furacão e a graça de um anjo, apaixonando-nos pela sua voz improvável, a sua cabeça cheia de sonhos e a sua música complicada. E arranja sempre novas maneiras de nos deixar cheios de arrepios na espinha, com temas como “Waltz of the 101st Lightborne”, uma valsa carregada de uma melancolia simultaneamente risonha e lacrimejante, que nos parte o coração como apenas ela o sabe fazer; ou “You Will Not Take My Heart Alive”, uma melodia a pingar crueza e quase negrume, um ambiente de neblina desenhado pela harpa que soa de longe, enquanto a frase-título se repete até se transformar de pedido a ordem entregue com um sorriso.
Depois de criança, depois de contadora de fábulas fantásticas, depois de música com uma ambição maior do que ela própria, Newsom surge-nos, com Divers, completamente nua, despida de qualquer personagem ou mote que a cubra. Surge-nos humana, mulher, frágil. Em onze temas, reúne uma ode à experiência aterradora e maravilhosa que é estar vivo ou viva, fala de amor, de medo, de perda, da morte e da existência – “tell me, why is the pain of birth / lighter borne than the pain of death? / I ain’t saying that I loved you first, / but I loved you best” chirleia, na faixa-título, com a sabedoria de quem já viveu mais do que todos nós e com a fragilidade de quem nada sabe ainda. É uma reflexão sobre ser humano que todos nós – incluindo a própria, talvez – apenas podemos sonhar compreender na sua totalidade. Um verdadeiro evento, como já nos tem habituado.

Numa entrevista recente, Newsom disse, talvez em tom de brincadeira, talvez em tom de orgulho, ou talvez até tom de lamento: “as minhas músicas têm sempre camadas, camadas, camadas. Só sei escrever músicas complicadas.” E apenas podemos responder; descansa. A vida é complicada e quem a quer pintar num quadro, escrever num livro, ou musicá-la com os dedos assentes nas teclas ou nas cordas, apenas assim a pode representar. Não nos importamos com as inúmeras complicações que surgem com um novo disco da Joanna Newsom – e as camadas, essas, vamos desembrulhando uma a uma, levando o tempo que levar, para podermos finalmente compreender o quão bonito é estar vivo e ouvir discos sobre o fazer. E pelo caminho, acabamos por nos apaixonar novamente – sem sequer reparar.


Lower Dens – Escape From Evil (2015)

 


O novo álbum de Lowers Den, que a banda de Jana Hunter vai apresentar ao vivo a 21 de Novembro na ZDB, traz-nos uma sonoridade mais pop que o trabalho anterior.

O disco, que é o terceiro trabalho de estúdio da banda, arranca de forma tranquila, com “Suckers Shangri-La” mas depois é quase dançável, com “Ondine” e com “Quo Vadis”. Há um toque de pop sintética, a puxar ao psicadélico com o som do sintetizador a marcar o ritmo mas a voz é assumidamente dream pop.

Mais produzido que o trabalho anterior mas ainda assim mantendo a sua estética minimalista, “Escape From Evil” permite ouvir cada instrumento em separado mas sem nunca sair dos sintetizadores, que chegam em força em “Your Heart Still Beating”, já a meio do disco. Ao longo das dez faixas que compõem “Escape From Evil” vamos passando de sintetizadores a uma guitarra aguda em “Electric Current” e um batida ritmada em “Non Grata”.

A fechar, “To Die in LA”, cidade pela qual a vocalista é fascinada e que chega com um sintetizador frenético e voz simples, aproveitando coros que pouco se ouviram ao longo do disco.

Pop sonhadora e de registo ascético e quase etéreo, o novo trabalho de Lower Dens é uma banda sonora perfeita para nos ir acompanhando ao longo do dia, nos transportes públicos, num passeio a pé ou no carro. O disco é uma boa companhia mas não obriga a uma audição exclusiva e dedicada.


Benjamim – Auto Rádio (2015)


Estava Walter Benjamin posto em sossego, sonhando com Rosemarys impossíveis no seu exílio em Londres, quando se dá conta que ao longe a sua pátria se esboroa, usada, descartada, vilipendiada, vendida por um par de sapatilhas e um pires de amendoins, que a nossa elite não gosta de ser pedinchona. Era urgente regressar, atirar o estrangeirado Walter pela janela, renascer no mais consentâneo Benjamim, escritor de canções que sabe o que é mandar à merda na língua de PessoaAuto Rádio é isso, uma declaração de amor à pátria ferida, revelada em mil pormenores, desde a escolha da língua-mãe até aos temas só nossos (como o trauma da guerra colonial e a queda do império), passando pelo tributo assumido a alguns músicos portugueses, e desembocando no próprio conceito que une o disco: a ideia de uma viagem pelas estradas nacionais empoeiradas, numa provecta carrinha que já conheceu melhores dias, sempre ao sabor do fiel botão do rádio, a banda-sonora do Portugal multifacetado do século XXI.

The Imaginary Life of Rosemary and Me podia ser um álbum quase irrepreensível mas tinha um defeito: era demasiado perfeito, não corria riscos. Auto Rádio é mais arrojado: sai da estrada principal, enfia-se pelos carreiros, vira à esquerda e à direita ao mesmo tempo, não hesita em pisar a linha (sempre moralista) que separa o bom do mau gosto (e a alta da baixa cultura), não tanto por auto-ironia mas sobretudo por uma imensa ternura a tudo o que é autenticamente nosso. Por tudo isto, Auto Rádio é um disco mais denso e vital do que o seu antecessor.

Que bem que sabe nos refastelarmos na vetusta Volkswagen de Benjamim, ouvindo pelo rádio o Fausto a jogar bilhar com o Marco Paulo e o Zeca Afonso a apalpar as mamas à Lena d´Água (o atrevido). Porque se há uma ideia que define Auto Rádio é a de que não se pode ser português só pela metade. É preciso amar com a mesma intensidade as casas do Siza e as varandas fechadas a alumínio, os discos do Carlos Paredes e as cassetes do Quim Barreiros nas bancas das feiras, os filmes do Pedro Costa e o Eládio Clímaco no festival da canção, os livros do Gonçalo M. Tavares e as gajas nuas no Correio da Manhã, as esculturas de João Cutileiro e os piços não tão estilizados dos bonecos das Caldas. Tudo isto é Portugal, tudo isto existe, tudo isto é fado.

Por outro lado, queria fazer um sincero apelo aos mais alérgicos ao kitsch: não se precipitem.

Primeiro, porque se há um descarado piscar de olhos a Lena d’Água em “Volkswagen”, e uns coros assumidamente manhosos em “Tarrafal”, Benjamim, traído pela sua própria sofisticação, nunca consegue levar o mau gosto pretendido até às suas últimas consequências. Benjamim quer pôr “Tarrafal” a soar a Marco Paulo; o máximo que consegue é dar-lhe uns pozinhos de Duo Ouro Negro. Perdoa-me, Luís Nunes, mas és uma menina.

Segundo, porque grande parte do disco vai dialogar com referências portuguesas bem mais requintadas: “Auto Rádio” é Foge Foge Bandido em overdose de barbitúricos; “Sintoniza” é Bruno Pernadas caído num caldeirão de anfetaminas; “Meteorologia” é Noiserv com uma moca induzida por um desgosto amoroso.

Merece um parágrafo à parte a conversa entabulada entre Auto Rádio e a Música Popular Portuguesa (MPP). A homenagem é directa na lindíssima “Rosie”, uma canção bem velhinha do Fausto aqui cantada pelo próprio A. P. Braga (um ícone esquecido da canção de intervenção, que escreveu este tema a meias com o Fausto); e surge mais disfarçada em “O Sangue”, original de Benjamim mas inspirada no génio melódico do Zeca. Nos últimos anos, foram muitos os nomes que também foram beber a este filão. Se a primeira geração do rock português, a que explodiu nos anos oitenta, conquistou a sua identidade declarando guerra à MPP (trocando os timbres acústicos pela electricidade e enfiando a sociedade de consumo pós-moderna pelo marxismo de naftalina acima), o rock contemporâneo já não tem vergonha em reclamar para si este legado. Ainda bem.

Impuro mas belo, é esse o segredo escondido de Auto-Rádio. Quando o apolítico se torna empenhado, quando o exilado regressa a casa, quando o estrangeirado volta a falar português – com a língua, com a cabeça, com o coração, com os pés-, o melhor álbum nacional de 2015 acontece. Disco bonito, pá.


Rush – Presto [1989]

 Discos Que Parece Que Só Eu Gosto: Rush – Presto [1989]

Há discos que parecem nascer com um destino ingrato: jamais ocupar o lugar de clássico e, ao mesmo tempo, carregar o peso de sempre serem lembrados como “menores” dentro da discografia de uma grande banda. No caso do Rush, esse papel costuma recair sobre Presto, de 1989. Lançado no limiar entre duas décadas e duas estéticas, o álbum costuma ser apontado como “fraco”, “inexpressivo” ou “desconexo” pelos fãs mais ortodoxos. Pois bem: é justamente dele que venho falar aqui — e com um certo orgulho de quem gosta de defender os esquecidos. Lembro quando o ouvi pela primeira vez: não foi amor à primeira audição, mas uma curiosidade persistente de uma paixão que surgiria. Não tinha os riffs instantaneamente icônicos de Moving Pictures, nem a pompa futurista de 2112. Era outro Rush, mais discreto, quase contido. Mas, quanto mais eu voltava a ele, mais me convencia de que havia ali algo precioso, quase secreto — e que, sim, parecia que só eu enxergava.

Alex Lifeson, Neil Peart e Geddy Lee em foto promocional do lançamento de Presto em 1989

Lançado em 17 de novembro de 1989, ou seja, há 36 anos atrás, Presto é, antes de tudo, um disco de transição. Depois da fase marcada pelos sintetizadores dos anos anteriores (Grace Under Pressure de 1984, Power Windows de 1985 e Hold Your Fire de 1987), o trio decidiu voltar a soar mais orgânico, mais centrado na guitarra de Alex Lifeson. Só que essa “volta ao rock” não se deu por um retorno ao peso dos anos 70, mas sim por uma via alternativa, quase tímida, que privilegiou melodias claras, arranjos enxutos e uma certa sobriedade melancólica. Talvez por isso o álbum soe, até hoje, como um objeto estranho dentro do catálogo da banda, estranho e fascinantemente agradável de se ouvir. Muita gente critica justamente esse “meio do caminho”: para uns, não é o Rush clássico; para outros, não tem o brilho pop dos álbuns anteriores. Para mim, no entanto, é um disco que se recusa a agradar expectativas fáceis. Presto é Rush em transição, caminhando, como sempre, sem querer se repetir — e, por isso, Rush em estado puro.

Cassete single de “Show Don’t Tell”

E é exatamente nessa estranheza que reside sua beleza. A faixa de abertura, “Show Don’t Tell”, já dá o recado. O groove é marcado, a guitarra tem aquele brilho metálico típico do fim dos anos 80, mas há uma leveza ali, como se a banda estivesse se divertindo em explorar um espaço novo. Não é à toa que se tornou um dos singles do álbum: ela equilibra muito bem a sofisticação instrumental com uma pegada acessível.

The Pass”, talvez a música mais emblemática de Presto, merece ser ouvida com atenção quase solene. Neil Peart, em um de seus momentos mais sensíveis, longe da grandiloquência conceitual que muitos associam ao Rush, aborda o tema delicado do suicídio juvenil com rara sensibilidade, fugindo da tentação de soar moralista. A letra (“Todos nós perdemos / Na escuridão / Sonhadores se guiam / Pelas estrelas / Todos nós passamos / Um tempo na sarjeta / Sonhadores recorrem / A olhar para os carros / Vire-se e vire-se e vire-se / Vire-se e supere o limite / Não vire as costas / E bata a porta em mim”) é um consolo e um alerta ao mesmo tempo. Musicalmente, é uma das baladas mais impactantes da banda: Alex constrói texturas de guitarra que são quase etéreas, enquanto Geddy entrega uma das interpretações mais emocionais de sua carreira. Essa canção sozinha já justifica a existência do disco e o coloca em uma prateleira superior.

Cassete single de “The Pass” e “Presto”

Mas há outros momentos igualmente reveladores. “Chain Lightning”, segunda faixa do álbum, é um daqueles exemplos de como o Rush sabia escrever rock radiofônico sem abrir mão de inteligência. O refrão tem uma força imediata, mas a letra, com sua metáfora da eletricidade como energia vital e passageira, carrega uma poesia inesperada: “Energia é contagiosa / Entusiasmo se espalha / Ondas respondem à gravitação lunar / Tudo gira numa relação de sincronia // Riso é contagiante / Emoções vão para a minha cabeça / Ventos são movidos pelos planetas em rotação / Fagulhas acendem e espalham novas informações”. Já “Scars” se destaca pelo trabalho rítmico, com Neil incorporando grooves inspirados em música africana — uma experimentação que mostra o quanto o trio nunca deixou de olhar para fora de sua bolha progressiva.

E como não falar do encerramento com “Available Light”? Certamente, a faixa mais subestimada de todo o repertório da banda, até mesmo os fãs mais ardorosos a esquecem. Começa suave, quase como um convite à contemplação, e cresce em intensidade até atingir um clímax de pura beleza melódica. A letra é uma ode àquilo que se pode viver com o que se tem — a “luz disponível”: “Corra com vento e do tempo / Para a música do mar / Todos os quatro ventos juntos / não pode trazer o mundo para mim / Persegui o vento ao redor do mundo / Eu quero olhar para a vida / À luz disponível”. Toda vez que ouço, sinto que a banda entrega ali um manifesto: não precisamos de grandiloquência para tocar fundo. Desde quando ouvi essa música, passei a usar essa metáfora de ver as coisas “à luz disponível”. Obrigado, Rush e, sobretudo, Neil Peart, por serem parte de minha formação.

Neil Peart ao vivo em Ahoy, Rotterdam, em 2 de maio de 1988: com letras mais introspectivas e menos pomposas, torna a experiência de “Presto” mais pessoal. (Foto de Rob Verhorst / Redferns)
CD Single de “Superconductor”

“Available Light” fecha o disco, portanto, com uma delicadeza quase pop, e ainda assim profundamente Rush — ninguém mais poderia ter escrito aquela progressão instrumental que desemboca em uma catarse contida. Pensando assim, a partir da própria reflexão proposta por “Available Light”, entendo que Presto é um disco que pede tempo e, sem analisá-lo em perspectiva, realmente será aquela obra fácil de se colocar na rabeira da discografia, coisa que até mesmo Alex Lifeson e Geddy Lee já fizeram em entrevistas.

Eu discordo até mesmo deles: o álbum não conquista com riffs imediatos nem com a grandiosidade que marca outras de suas obras. É um álbum que convida o ouvinte a desacelerar, a se demorar nos detalhes: o timbre luminoso da guitarra de Lifeson, o baixo pulsante mas nunca intrusivo de Geddy Lee, as letras que, pela primeira vez em anos, soam mais íntimas do que épicas.

Tecnicamente, o disco também tem suas peculiaridades. Foi o primeiro disco do Rush pela Atlantic Records, produzido por Rupert Hine, conhecido por trabalhos com The Fixx e Howard Jones. Isso ajuda a explicar o ar “limpo” e cristalino da mixagem — que, embora soe datada para alguns, confere ao álbum uma transparência que permite apreciar cada detalhe. É possível perceber com clareza as linhas inventivas de baixo de Geddy, as texturas de guitarra de Alex e até a delicadeza de Neil em pequenos pratos e efeitos de percussão.

Encarte de Presto, com o trio brincando de Jokenpô (o famoso Pedra-Papel-Tesoura)

Gosto de pensar que Presto é um retrato honesto de uma banda que já não precisava provar nada a ninguém. Em vez de mirar as paradas ou tentar agradar aos fãs mais puristas, o Rush fez um disco de canções — e isso, para um grupo acostumado a conceitos e longas suítes, já era por si só um gesto de coragem. É claro que o disco não tem o status de Permanent Waves ou Signals, mas, justamente por isso, sinto que ele pede uma escuta diferente. É um disco que não se impõe; ele se insinua. Não grita por atenção, mas recompensa quem lhe dedica tempo e afeto. Talvez seja por isso que tantos fãs o subestimem — e talvez também seja por isso que eu o defenda com tanto entusiasmo.

Obviamente, pode ser que Presto nunca figure em listas dos “melhores álbuns do Rush”. Pode ser que muitos passem por ele com certa indiferença. Mas para quem se permite escutá-lo sem expectativas prévias, ele revela um Rush humano, vulnerável, poético. Uma banda que, mesmo no seu disco “menor”, ainda conseguia soar maior do que quase todo mundo. E é por isso que, se parece que só eu gosto de Presto e o considero um dos 5, 6 melhores álbuns do trio, confesso que não me incomodo: algumas preciosidades funcionam melhor quando guardadas como segredos pessoais. E, de vez em quando, compartilhadas em colunas como esta.

Contra-capa do vinil

Track list

  1. Show Don’t Tell
  2. Chain Lightning
  3. The Pass
  4. War Paint
  5. Scars
  6. Presto
  7. Superconductor
  8. Anagram (For Mongo)
  9. Red Tide
  10. Hand Over Fist
  11. Available Light


Paulinho da Viola - “Memórias Cantando” (1976)

 

“Este trabalho reúne sambas meus e de outros
com um significado todo especial para mim [...]
Foram momentos que ficaram
em minha memória de forma viva,
 acontecimentos que têm grande importância
 naquilo que hoje faço.”
Paulinho da Viola



Paulinho da Viola não é dono de uma obra extensa. Principalmente se comparado a contemporâneos seus da música brasileira, como Gilberto GilCaetano VelosoGal Costa e Milton Nascimento, sua discografia é consideravelmente menor e na qual se nota um espaçamento maior entre um trabalho e outro, chegando a somar 20 anos sem nenhum projeto de canções inéditas como atualmente. Entretanto, e talvez por isso, a noção de tempo dele, esse misto elegante de malandro de morro com sambista clássico, chorista e bossa-novista, seja, de fato, diferente da noção da maioria. Sua apreensão dessa percepção temporal é fundamentalmente interna, subjetiva. E um dos mais fiéis recursos para a materialização desse tempo, constantemente presente e vivido, seja-lhe a memória. É no registro afetivo do passado que Paulinho da Viola cria, recria e reinventa (a si e ao que já foi).

Não é difícil deduzir porque o duo Memórias Chorando e Memórias Cantando, ambos de 1976 (ou seja, completando 40 anos) sejam talvez os grandes discos dele, um dos maiores artistas da música brasileira. Forjados para serem lançados num álbum duplo, por questões comerciais foram parar nas prateleiras das lojas separadamente. Mas lhes é visível a coesão, a começar pela arte magistral de Elifas Andreado tanto da capa, com a imagem dos “erês” brincando em um fundo branco, quanto nos encartes, quando seu desenho entrelaça vários momentos cronológicos e afetivos dele e de Paulinho. Porém, fundamentalmente, os dois discos são, parafraseando Jorge Luís Borges quando se referia aos livros, “uma extensão da memória e da imaginação”. Profundos, ambos trabalhos vão buscar, de formas diferentes, sentimentos que traduzem a personalidade de seu autor.

O volume 1, “Cantando”, é certamente um dos felizes trabalhos do samba em todos os tempos, desde sua caprichada produção, a cargo de Mariozinho Rocha e Milton Miranda, até o repertório, pinçado a dedo por Paulinho e que casa temas antigos com novas criações à época. A força das lembranças emocionais abre o disco no elegante samba-canção “Nova Ilusão”, do repertório da velha guarda da Portela em que o cavaquinho de Paulinho desenha o rico “riff” inventado por “mano” Caetano e Claudionor. Na letra, os temas que formaram a poesia de Paulinho desde sempre: as referências à passagem do tempo, os símbolos da natureza, a inter-relação do emocional com o real, a amalgamação do subjetivo com o concreto. “És um poema na terra/ Uma estrela no céu/ Um tesouro no mar/ És tanta felicidade/ Que nem a metade consigo exaltar”.

Na sequência, a faixa-título, das escritas especialmente para o disco. Relembrando uma época de inocência, Paulinho percebe o transcorrer da história pessoal do homem e coloca os sentimentos bonitos e sinceros em confronto com os amargos da vida adulta. “Lembra daquele tempo/ Quando não existia maldade entre nós/ Risos, assuntos de vento/ Pequenos poemas que foram perdidos momentos depois/ Hoje sabemos do sofrimento/ Tendo no rosto, no peito e nas mãos umas dor conhecida/ Vivemos, estamos vivendo/ Lutando pra justificar nossas vidas”. Mas, valendo-se do canto, da sua música, ele desfecha otimista e humanisticamente: ”Cantando/ Um novo sentido, uma nova alegria/ Se foi desespero hoje é sabedoria/ Se foi fingimento hoje é sinceridade/ Lutando/ Que não há sentido de outra maneira/ Uma vida não é brincadeira/ E só desse jeito é a felicidade”.

“Abre os teus olhos”, ao estilo dos sambas da Portela, narra um amor se desfazendo, ou seja, o passado que já não se faz mais presente (“Felicidade já conheceu seu momento/ Abre os teus olhos e veja o que aconteceu/ Esqueça tudo/ Porque nosso amor já morreu”). Esta antecede uma das mais belas do disco e de todo o repertório do músico: "Dívidas". Samba cadenciado e melancólico, é uma espécie de “crônica de memória”, na qual Paulinho conta um episódio cotidiano que presenciou quando criança e que lhe marcou: um vizinho seu, homem da comunidade, apertado de grana no final do mês como tantos ali, incomodou-se ele e sua esposa, a Inocência, com outro vizinho, Oliveira, que havia lhe emprestado dinheiro mas não tinha sido pago ainda. A menção aos nomes desses personagens anônimos, o relato cronológico da pequena história, dando detalhes e pontuando aspectos simbólicos importantes, como a situação econômica e a estratificação social, dão a esta canção um aspecto literário. Isso ainda ajudado pela métrica não-linear da melodia – ao estilo de outro mestre portelense, Candeia – ,que acompanha o desenrolar ondulante que da narrativa – bem diferente de outras do disco, que chegam à perfeição simétrica como “Nova...” e “Mente ao meu coração”.

Esta última, por sinal, um samba-canção de Francisco Malfitano gravado originalmente em 1938 por Silvio Caldas, é mais uma das regravações cuja melodia Paulinho puxa do fundo do seu baú de emoções. E que bela poesia: “Mente ao meu coração/ Que cansado de sofrer/ Só deseja adormecer/ Na palma da tua mão...”. Das regravações há também uma do clássico de Noel Rosa e Vadico “Pra que mentir”, em que Paulinho interpreta (não sem a influência do canto de João Gilberto) apenas sobre o classudo violão de César Farias neste samba triste e de avançada estrutura, o qual lembra, com quase duas décadas de antecedência, as harmonias dissonantes da Bossa Nova.

Mas não apenas de tristeza, desentendimento e sofrimento se compõe a memória de Paulinho da Viola. “Perdoa”, um brilhante partido-alto no qual divide o microfone com Elton, levanta o clima. Além do tom alto, que lhe empresta vivacidade, é típico da estrutura deste tipo de samba o refrão permanente (aqui: “Meu bem, perdoa/ Perdoa meu coração pecador /Você sabe que jamais eu viverei/ Sem o seu amor”), o qual, como num repente nordestino, serve de marcação de tempo para que, nas rodas de pagode, os versos das estrofes possam ser inventados na hora pelos partideiros. Outra animada, esta em clima de crônica chistosa, “O velório do Heitor“ relembra um episódio em que o “catimbeiro” Heitor era enterrado com tristeza pela família, principalmente da esposa, Nair. Acontece que a “outra” do finado aparece também para dar seu adeus, e aí teve de se chamar até a polícia, pois, como dizem os versos: ”simplesmente o velório/ Virou a maior confusão”.

Os personagens, como bem se nota, são fundamentais para a formação desse mundo afetivo de Paulinho. É o que traz também “Vela no breu”, que descreve um velho mendigo de quem se tem muito mais a aprender do que lastimar: “Joga capoeira/ Nunca brigou com ninguém/ Xepa lá na feira/ Divide com quem não tem/ Faz tudo o que sente/ Nada do que tem é seu/ Vive do presente/ Acende a vela no breu”.

Em clima de choro sincopado, “Meu novo sapato” desfecha o disco, já anunciando o segundo bolachão, “Chorando”. Entretanto, “Cantando” tem ainda antes a talvez mais bela e intensa composição de Paulinho: “Coisas do mundo, minha nêga”. Nela, a questão do tempo é mirada em seu mais irremediável e infalível instante: a morte. Paulinho conta de forma poética a missão de um santo-sambista, imperfeito como um homem e poderoso como um deus, que, com seu violão debaixo do braço, sai pelos morros salvando almas com versos e melodias, sem, contudo, deixar de sofrer com isso e de precisar do amor redentor de sua amada. Difícil não se comover em passagens como esta: “Depois encontrei Seu Bento, nêga/ Que bebeu a noite inteira/ Estirou-se na calçada/ Sem ter vontade qualquer/ Esqueceu do compromisso/ Que assumiu com a mulher/ Não chegar de madrugada/ E não beber mais cachaça/ Ela fez até promessa/ Pagou e se arrependeu/ Cantei um samba pra ele/ Que sorriu e adormeceu”. “Coisas...” é tão importante para o repertório, que, não inédita, foi resgatada do álbum de 1968, o primeiro solo do artista, para esta versão definitiva da música preferida do seu próprio autor.

Interessante notar que, embora seja a mais anedótica entre todos os temas, “Coisas...” é a que tem o ar mais autobiográfico, como se somente fosse possível alcançar o misterioso interior de Paulinho da Viola através da fantasia. O próprio diz no texto que integra o encarte: “Amo o oceano que retém no fundo os mistérios de sua natureza”. Não à toa símbolos como o mar, os ventos, as flores, enfim, o tempo, estão constantemente presente nas suas letras e universo. A sentença “Meu mundo é hoje” (título de um clássico de Wilson Batista gravada por Paulinho na mesma década de 70), exprime o artista que é Paulinho da Viola e resume os versos que encerram “Memórias Cantando”: “É um verdadeiro artista/ Não tem orgulho/ Nem tão pouco amargura/ Está voltado/ Para o futuro.”

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FAIXAS:
1. Nova ilusão (Claudionor Cruz, Pedro Caetano) - 2:57
2. Cantando - 3:30
3. Abre os teus olhos - 2:47
4. Dívidas (Élton Medeiros, Paulinho da Viola) - 3:32
5. Perdoa - 4:05
6. Mente ao meu coração (Francisco Malfitano) - 3:12
7. Pra que mentir (Vadico, Noel Rosa) - 3:33
8. O velório do Heitor - 3:25
9. O carnaval acabou - 2:25
10. Coisas do mundo, minha nêga - 3:12
11. Vela no breu (Sergio Natureza, Paulinho da Viola) - 3:17
12. Meu novo sapato - 2:45

todas composições de Paulinho da Viola, exceto indicadas.



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