sexta-feira, 8 de julho de 2022

POEMAS CANTADOS DE MARTINHO DA VILA

Martinho da Vila

 Não Chora Meu Amor

Martinho da Vila


Não chora meu amor, não chora

Não chora porque seu amor não vai embora


Português lhe diz não chore

Porém, eu digo não chora

Sua mãe diz não namore

Mas, eu digo me namore

Você diz pra voltar cedo

Eu só chego ao romper da aurora


Não chora meu amor ...


Já é hora vou me embora

Quero ficar, mas eu vou

Vou levar o meu pandeiro

Vou levar meu agogô

Vou levar a minha cuíca

Vou levar meu afoxé

Se sobrar uma graninha

Eu trago um presente pra você


Não chora meu amor ...


Aqui já não tem mais bonde

Vou em outra condução

A batalha é bem longe

Eu vou pegar meu avião

Tome conta do que eu deixo

Feche a janela e a porta

A saudade me maltrata

A saudade me conforta



Não Tenha Medo, Amigo

Martinho da Vila


Não tenha medo amigo

Não tenha medo

É

Como falou o poetinha Vinicius

"São demais os perigos dessa vida"

Mas o sangue brobulha nas veias

E eu tenho que andar na rua

Gosto de enfrentar o mundo cara-a-cara

Olhar as pessoas no olho

Tenho que estar nos botequins, nas favelas

Nos palcos, nas platéias

Nos campos, nas cidades, nos sertões

Aqui e acolá, como gente

Pés no chão, no meio do povo

Cautelosamente sem cautela

Receiosamente sem receio

Distraidamente distraído

Mas sem medo


Não tenha medo meu amigo, não tenha medo

Porque o medo é o seu maior inimigo


Admiro medrosos sem medo

Detesto valentes

De heróis desconfio

Do mundo eu não tenho medo

Mas viver a vida é um desafio

Não tenha medo

Não tenha medo amigo


É amigo

A vida é um segmento de reta sinuoso

Um vai e vem

Todo mundo tem que ser viandante

Pois "barco parado não faz frete"

- Tá lá nos caminhões

Fé em Deus e pé na tábua

Seguindo o destino

Moldando o destino, transando com ele

Sem medo do que você tem e do que você pode ter

Do que você é e do que você será

Vá em frente amigo

Amando a mulher amada

Dando amor a muitas mulheres

Caminhando em busca do infinito

Sem mitos, sem metas

Sem medo

Não tenha medo

Porque o medo é o seu maior inimigo


Não tenha medo de ficar doente

De ser impotente

Ou de levar um chifre

Confie no amor da amante

E na honestidade da mulher de casa

Não é mais tempo do duelo nobre

Ou de lavar a honra com florete ou sabre

Não tenha medo do clamor divino

E nem do capeta e seu inferno em brasa



Nem Réu Nem Juíz
Martinho da Vila


Que nem serpente
Até meus pés
Se rastejou
Me seduziu
Meu coração fragilizou
Me envenenou, feriu

Depois cruel, me seqüestrou
Me confinou no seu covil
E me entreguei ao seu amor
Me escravizei, servil

Tornou-se me feitor
Cambono, capataz
Um anjo protetor
Com ar de satanás
Me fez seu prisioneiro
Deixei-me acorrentar
E o meu resgate eu sei
Nem penso estipular

C´est un délinquant, un marginal
Un transgresseur désabusé
Qui s´est fait élire pour être cruel
D´un amour tourmenté

É um delinqüente, marginal
Desabusado transgressor
Que se elegeu para ser algoz
De um atormentado amor

Mas nessa estória há um porém
Me escravizei porque eu quis
Se dele hoje sou refém
Jamais serei juiz, juiz...




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