domingo, 5 de fevereiro de 2023

Parece que foi ontem (Parte 2)

 

Saiu em Portugal, pela editora Paisagem, dentro da coleção Vozes Livres, o livro O Mundo da Música Pop (Das buch der neuen pop musik), do jornalista alemão Rolf-Ulrich Kaiser, com tradução e prefácio de Joaquim Fernandes.
Kaiser talvez seja o nome mais influente da chamada Kosmiche Musik alemã – que os ingleses hoje em dia preferem tirar um sarro e chamar de Krautrock (rock chucrute). Ele praticamente testemunhou o nascimento desse movimento, tendo sido seu principal porta-voz e mentor desde então.
Sob os auspícios de Kaiser, alguns dos mais importantes selos alemães da atualidade foram lançados, como Pilz e Ohr . Foi ele também quem promoveu, no ano passado, o encontro do guru do ácido Timothy Leary (atualmente foragido dos EUA) com o grupo Ash Ra Tempel nos Alpes suíços. Seven Up, o nome do LP gravado dessas sessões, inaugurou não apenas uma etiqueta subsidiária da Ohr chamada Cosmic Couriers, como também toda uma ousada filosofia de trabalho voltada para a criação de climas sonoros que facilitem atingir os altos estágios de consciência proporcionados pelas viagens de mescalina e LSD. Mais que isso, Kaiser tem batalhado na linha de frente do rock alemão contra a sólida influência dos ingleses e dos americanos na música pop.
Bom, espero que eu tenha deixado clara até aqui a enorme importância desse jornalista, um dos principais pensadores do rock na atualidade. E ter seu livro sobre o fenômeno pop em língua portuguesa é mais do que motivo para se comemorar.

No entanto, os editores portugueses cometeram um deslize imperdoável, praticamente uma afronta: eles deixaram de fora dessa tradução justamente o capítulo onde Kaiser registra, em forma de reportagem, o nascimento do rock alemão, com depoimentos de grupos pioneiros como o Xhol Karavan, o Guru Guru Groove, o Floh de Cologne e uma oportuna discografia das principais bandas do movimento.
Por que fizeram isso? Não faço a mínima idéia. Talvez um país com tão pouca representatividade no rock europeu e mundial ache que seus vizinhos também não são tão importantes assim. Talvez os editores quisessem economizar no número de páginas para baratear o preço do livro. Talvez esses mesmos editores nunca tenham ouvido  discos de rock alemão e considerem que nenhum ouvido português vá se interessar por eles. Sei lá.
O que eu sei é que graças à outras traduções, como a espanhola, lançada pela editora Barral em 1972, vou poder dizer um pouco do que trata esse capítulo negligenciado pelos portugueses.
Kaiser diz que podemos creditar o nascimento do atual rock alemão às “Jornadas Internacionais de Essen” (a oitava maior cidade da Alemanha), uma espécie de festival cultural ocorrido em 1968, e que na sala Gruga apresentou ao público shows de bandas famosas nos EUA e na Europa e das bandas alemãs que estavam surgindo na época. Três dias antes do festival, e sob o título de “Alemanha desperta – música pop das regiões alemãs”, três grupos também fizeram uma de suas primeiras apresentações diante de uma plateia: Amon Duul, Tangerine Dream e Guru Guru Groove.
Depois de falar um pouco sobre o descaso dos promotores com os desconhecidos grupos alemães e as dificuldades encontradas por eles para apresentarem sua música, o autor começa a responder à seguinte pergunta: “O que há de alemão na música pop atual?” (lembre-se que suas considerações foram escritas entre 1968 e 1970).
Primeira resposta: o aspecto político. Aqui ele foca na banda Floh de Cologne, um grupo musical e de variedades inspirado principalmente em duas atrações americanas desse mesmo festival de Essen, The Fugs e The Mothers of Invention. O grupo alemão, no entanto, deixa claro que dos Mothers eles admiram o espetáculo, mas que é dos Fugs que eles tiraram o componente político de sua música.

Segunda resposta: a música. Kaiser passa a exemplificar o caso do Limbus 4, um conjunto formado por três músicos que improvisa sobre os seguintes intrumentos: piano, contrabaixo, cello, violino, viola, flauta transversal, flauta oriental, flauta plástica, valiha faray, tsikadraha, tablas e guitarra elétrica. O autor presenciou uma  apresentação da banda em Neumunster, uma cidade no norte da Alemanha, diante de um bom público. Bastaram, porém, algumas músicas para ele perceber que bem poucos entendiam a proposta dos músicos e, ao final da apresentação, apenas 50 ou 60 pessoas permaneciam na sala.

Terceira resposta: o novo som. O exemplo escolhido por Kaiser neste tópico é o músico Bernhard Höke, um artista plástico de formação e inventor de instrumentos que tocou por algum tempo no começo do grupo Tangerine Dream. Para Höke, a música do futuro é a nova música das garrafas, das tablas e das flautas, sem nenhuma notação prévia e feita na base do improviso. A música que ele toca nunca foi executada da mesma forma antes e jamais será repetida no futuro. Diz que atua quase nu para poder tirar sons de seu corpo, o principal instrumento de sua música.
Kaiser conclui o capítulo negligenciado pelos editores portugueses dizendo que tudo o que escreveu é apenas o começo, mas que enquanto a nova música pop alemã não for comercializada pelas gravadoras, enquanto os músicos preferirem comunicar-se ao invés de obter benefícios, esta música pode ser considerada um meio para despertar a criatividade e nada mais do que isso. Para conquistar a devida atenção, reconhecimento e fazer sucesso, no entanto, é preciso que os alemães aprendam novamente a ouvir.

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