sábado, 28 de dezembro de 2024

FADOS do FADO...letras de fados...

 


A velha praia do tempo

José Fernandes Castro / Armando Machado *fado maria rita*
Repertório de Filomeno Silva 

Na velha praia do tempo
Há uma onda feroz
Que teima em não desmaiar
A voz soberba do vento
Nem sequer chega a ser voz
É apenas suspirar

As areias são o chão
Aonde irá repousar 
A memória duma vida
Há uma velha embarcação
Que teima em não flutuar 
Na onda desfalecida

A noite vem, lentamente
Trazer a luz natural 
Que antecede a madrugada
Há um brilho diferente
Que nos diz que o vendaval 
Vai chegar, não tarda nada

Enquanto o luar perdura
Uma onda caprichosa 
Enfrenta a fúria do mar
Uma noite, mesmo escura
Tem a cor harmoniosa 
Que a vida lhe soube dar


A ver as vistas

João Monge / Pedro de Castro
Repertório de Ana Margarida Prado


Subi ao castelo a ver as vistas
Que vão do Tejo até onde a vista alcança
Dizem que Lisboa é das modistas
Que a vestiram com saudade e com a esperança

Ao colo dos velhos moradores
Lembranças de uma eterna viagem
Chegam turistas, chegam doutores
E vem o povo que chega da outra margem;
Chegam fadistas e outros piores
Mas vêm todos com Lisboa na bagagem

Quem viu a luz à beira Tejo
Foi batizado nas vielas
Chegam varinas, chegam da estiva
E vêm todos com a marcha nas canelas;
Vim de lá longe, vim à deriva
Sou de Lisboa e agora é que são elas


Subi ao castelo a ver as vistas
Que vão da gente até gente mais além
Cheira a caril e a floristas
E é por isso que Lisboa cheira bem

O mundo desagua no Rossio
E todos falam pelos cotovelos
Com fatiotas que ninguém viu
E os camones filmam tudo de chinelos;
Um carteirista diz que faliu
E deixa a malta da esquadra p’los cabelos


A ver passar os dias

Jorge Fernando / José Pereira *fado latino*
Repertório de Jorge Fernando

Fico aqui a ver passar os dias
Hoje é sombra onde antes fora luz
As memórias p'lo tempo esmaecidas
Espelham-me a vida inteira á contraluz

Anoiteceu em mim e o meu viver
É um ocaso que não reclama o dia
É um certo não ter de acontecer
Que não faz acontecer nem me alivia

Como se um sopro quente embaciasse
Um vidro, donde olhasse o meu passado
E um copo sempre cheio embriagasse
Meu corpo, sobre a mesa debruçado

É pois a minha vida um duro inverno
Por entre os quentes dias a passar
Será que é isto o tão temido inferno
Onde a vida se escorre devagar?



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