terça-feira, 1 de abril de 2025

Fever Ray “Radical Romantics”

 O terceiro álbum do projeto Fever Ray reúne os irmãos Karin e Olof (The Knife), junta contribuições de Trent Reznor, Atticus Ross e da portuguesa Nídia Borges e abre novos rumos emocionais e temáticos numa obra que continua a ser desafiante. 

Poucas foram as histórias de bandas com ponto final colocado relativamente cedo, mas após a edição da sua obra-prima. Aconteceu, por exemplo, com os Japan depois de “Tin Drum”. Voltou a acontecer, num outro tempo, com os suecos The Kife depois de “Shaking The Habitual”. Na verdade, em anos estes casos, houve ainda uma digressão após a edição destes dois álbuns marcantes, ambas depois com retratos fixados em áudio e vídeo, respectivamente em “Oil On Canvas” (1983) e “Live At Terminal 5” (2017). Em ambos os exemplos houve ainda carreiras a solo iniciadas antes dos momentos de separação, com Mick Karn e David Sylvian a gravar respetivamente um álbum e um single de estreia em 1982 e, no universo The Knife, Karin Elisabeth Dreijer a dar outros passos através do projeto Fever Ray, pelo qual lança um primeiro single em 2008, segundo-se um álbum no ano seguinte. A esse LP ao qual chamou “Fever Ray” fez seguir, em 2017, o sucessor “Plunge”, surgindo agora o terceiro capítulo, ao qual chamou “Radical Romantics”.

A principal surpresa do novo álbum, bem vincada no alinhamento do disco, é o reencontro entre Karin e o irmão Olof Dreijer, seu irmão e parceiro criativo nos The Knife, que mudou de ares e encontrou nova casa em Berlim. E de facto, mais do que em “Plunge”, onde se reconheciam possibilidades de alguns trilhos lançados por horizontes sugeridos em “Shaking The Habitual”, a sequência inicial de “Radical Romantics” (as quatro primeiras canções são co-assinadas e co-produzidas pelos dois irmãos) assenta num patamar que não esconde um reencontro com o espaço sonoro que poderia representar a descendência direta do que, há precisamente dez anos, se escutava no álbum de estúdio final dos The Knife. As maiores diferenças, num reencontro que não volta costas à identidade vincada pelos irmãos Deejer numa obra conjunta notável, notam-se contudo nas tonalidades emocionais de um alinhamento que, distinto do que moldava a visão crítica e ativista de “Shaking The Habitual”, olha mais agora para quem escreve, canta e faz música do que para o mundo ao seu redor e acrescenta um sentido aparentemente mais luminoso às partilhas de ideias e emoções que por aqui passam.

Além de Olof as contribuições da dupla Trent Rzenor /Atticus Ross na produção de dois temas, da DJ e produtora portuguesa Nídia Borges (que muitos certamente descobriram em edições da Príncipe) ou do produtor e compositor de Bristol, Vessel, amplificam o mapa de acontecimentos para além do que poderia ser uma sugestão eventual de segunda vida dos The Knife neste terceiro disco editado como Fever Ray. A linha da frente da criação da canção talhada com ferramentas electrónicas continua a contar, por isso, com Karin Elisabeth Dreijer como um dos talentos do nosso tempo a não perder de vista. 

“Radical Romantics”, do projeto Fever Ray, está disponível em LP e CD e também nas plataformas de streaming num lançamento da Rabid.





Sem comentários:

Enviar um comentário

Destaque

Tomas Bodin "An Ordinary Night in My Ordinary Life" (1996)

  Os fãs do Flower  Kings  na década de 1990 já sabiam muito bem do  talento  do tecladista ; nenhuma prova adicional era necessária. No ent...