Um dos lugares onde a música psicodélica floresceu no final da década de 1960 foi o Brasil. A banda brasileira mais popular era Os Mutantes, mas também havia uma série de outras que davam um toque brasileiro aos sons distantes de artistas britânicos e americanos como Beatles, Rolling Stones, Jefferson Airplane e Jimi Hendrix. Um desses artistas era o Bango, que lançou este impressionante álbum homônimo de hard rock psicodélico em 1970 (estreando aqui em CD), que soa como Led Zeppelin, se sua estreia tivesse sido em 1967, e eles fossem brasileiros. O álbum apresenta uma tonelada de guitarras pesadas e distorcidas, órgão selvagem e vocais lamentosos, às vezes em inglês e às vezes em português. Há também algumas músicas mais leves, semelhantes em natureza à tropicalidade psicodélica de Os Mutantes. É uma das melhores reedições do gênero, e os fãs de hard-psych deveriam comprá-la. Minha única reclamação é que o encarte não conta muito sobre a banda. O grupo teve vida curta e deixou apenas este disco, mas é muito elogiado pelos adeptos da psicodelia. Eles são comparados ou associados ao grupo de bandas brasileiras que surgiu na vizinhança de Os Mutantes, a banda premium de psicodelia do Brasil, mas a verdade é que acho que o Bango tem personalidade própria e um som de garagem incrível.
O grupo "Bango" era, na verdade, outro nome, usado apenas para este álbum, adotado pela banda "Os Canibais". "Os Canibais" eram nos anos 60 (na verdade, ainda são) uma banda de pop leve, mas, segundo suas próprias palavras, decidiram gravar um álbum que refletisse as influências da época (final dos anos 60), mais pesado, com mais passagens instrumentais, etc. e com equipamentos mais adequados (Fenders, bateria Ludwig, etc.). Suponho que eles não usaram o nome "Canibais" neste álbum para não causar algum tipo de choque aos seus fãs, acostumados ao som pop leve tradicional a que estavam associados. A última vez que ouvi este álbum... bem, talvez tenha sido há 10 anos, mas vou baixá-lo para refrescar a memória e tentar fazer alguns comentários adicionais.
Lançado originalmente em 1970 (MUSIDISC HI-FI 2236 Mono 1970 Original BRASIL Press), este é um psych brasileiro extrapesado, com guitarras arrasadoras e músicas autorais bem elaboradas. Este é um dos álbuns mais procurados do Brasil no universo do hard psych, e você talvez já conheça uma faixa do álbum Love Peace & Poetry: Brazilian Psychedelic Music, que é um verdadeiro destaque. Cada faixa é um sucesso. Para muitos colecionadores underground, este é o álbum psych definitivo, então precisava de uma boa reedição.
O grupo Bango gravou apenas um álbum, no início dos anos setenta, para depois se dissolver. Integrava o Bango os músicos Fernandinho (guitarra solo), Elydio (baixo), Roosevelt (piano e órgão), Max (bateria) e Aramis (guitarra, violão e vocal), formados pelos Canibais. O álbum do Bango foi lançado originalmente pelo selo brasileiro Musidisc. O som da banda é uma mistura de Os Mutantes, hard rock e progressivo, com forte presença de fuzz-guitarras, teclados (órgão, principalmente) e vocais em português e inglês. Com qualidade internacional, o disco contém um repertório variado, com rock pesado, country rock à la '2001', os já citados mutantes, e pop. Das músicas, os destaques do disco são as faixas 'Inferno no Mundo' (fuzz-guitarras no talo), 'Rolling Like a Boat' (um rock & boogie com tecladinhos garageiros), 'Motor Maravilha' (as influências mais fortes dos irmãos Baptista) e 'Rock Dream' (pesado e pesado, com agudos e vocais berrados). A última faixa, "Ode To Billy", um solo de bateria, é uma música longa. CD inédito no Brasil, o álbum foi relançado em vinil na Alemanha pelo selo Shadocks, de Berlim.
Bango é supostamente uma raridade muito procurada no mercado de colecionadores de psicodélicos; presumivelmente, os discos de psicodélico-rock brasileiros não tiveram uma distribuição tão ampla quanto, digamos, o Quicksilver Messenger Service, cujos discos proporcionam uma experiência sonora muito semelhante. A aura de colecionador e a linhagem internacional deste álbum não devem, no entanto, induzir ninguém a pensar que se trata de algo além de um disco psicodélico comum. Dê crédito à banda pela arte de capa assustadora – quatro cabeças sangrando em uma bandeja apoiadas nas asas de um enorme abutre – e por dominarem um inglês rudimentar, que eles brandem na imitação de "Rolling like a Boat". Mas não espere nada revolucionário ou surpreendente: Bango atende a todas as expectativas que se tenha do gênero psicodélico-rock sem nunca as transcender. Com Os Mutantes, isso não é verdade. Essa banda brasileira inovadora apresentou uma mistura deslumbrante de influências estilísticas, unidas por um senso de humor irreverente e imprevisível, uma musicalidade impecável e inventiva e melodias memoráveis. Já o álbum do Bango consiste em releituras espirituosas, porém um tanto ineptas, de canções conhecidas como "Black Is Black", dos Los Bravos, ou "Time Won't Let Me", dos Outsiders, em um idioma diferente. Se você prefere "Motor Maravilha" a "Black Is Black", é só porque já ouviu "Black Is Black" dez mil vezes.
Além dos humildes prazeres de ouvir um gênero musical, de ouvir desconhecidos executarem uma fórmula musical apreciada, os únicos prazeres que possuir um disco como este pode proporcionar advêm de sua raridade (você pode impressionar outros colecionadores por ter descoberto algo assim) e de seu exotismo (você pode se convencer de que algo profundo está acontecendo porque não consegue realmente entender o que é). Ambos os prazeres são ameaçados pelo eventual relançamento de tudo e pela capacidade que a internet oferece de distribuir tudo em todos os lugares. Os colecionadores têm seu fetiche pelo vinil para se apegar, mas não podem mais fingir que é a qualidade da música que autoriza sua loucura. Com a desmistificação de músicas outrora raras como Bango, aqueles interessados em música pela música e não por acumular artefatos talvez se sintam menos tentados a perder tempo tentando imaginar como soa uma curiosidade impossivelmente obscura e se dediquem mais a apreciar a música brilhante que está à vista de todos.
Um cruzeiro pelo samba, Hendrix, Tropicália, Beatles, garage rock e até — pasmem! — música indígena, com uma tarde inteira de parada em cada local. Com tudo já descoberto, você, ouvinte, está livre para relaxar e aproveitar o sol... Lançado originalmente em 1970, Bango captura a exuberância lúdica de algumas das melhores músicas daquela época. De fato, é arquetípico, a essência do psych rock brasileiro, tão perfeitamente destilado que poderia muito bem estar disponível em forma de pílula. Dos riffs pesados de guitarra e trinados de órgão de "Inferno No Mundo" aos americanismos confusos de "Only", Bango apresenta uma síntese calculada de um movimento musical fundamentalmente não calculado — é esse tipo de cálculo que transforma experimentos musicais em gêneros.
Dito isso, Bango não é um disco ruim do gênero e certamente consegue soar como o rock psicodélico brasileiro. Embora o refrão de "Rolling Like a Boat" lembre o mais estelar "Inferno no Mundo" (só que sem o brio da original de Tina Turner ou o desespero bruto do cover de Creedence Clearwater Revival), os frenéticos estrondos vocais em "Rock Dream" criam um contraponto divertido (e uma imitação aceitável de Mick Jagger após um punhado de speed). Se você leu sobre o Brasil em guias de viagem, esta viagem provavelmente oferece tudo o que você poderia esperar. Por outro lado, a música é estruturada em torno dessa mesma qualidade, eliminando as surpresas para criar um produto tão refinado que se torna parte do ambiente. Este grupo teve vida curta e deixou apenas este disco, mas é muito bem avaliado pelos seguidores da psicodelia. Eles são comparados ou associados ao grupo de bandas brasileiras que surgiu nas proximidades de Os Mutantes, banda premium de psicodelia do Brasil, mas a verdade é que acho que o Bango tem personalidade própria e um som de garagem tremendo.
As poucas coisas que ouvi sobre o álbum da banda brasileira Bangos, de 1970, eram mais ou menos assim: "fuzz matador, órgãos vibrantes, psicodélico pesado, blá, blá". Qualquer um que já tenha lido uma resenha de alguma reedição obscura de rock psicodélico quase certamente encontrará esses adjetivos, já que são usados de forma tão vaga quando se fala de qualquer música que se enquadre no amplo espectro da psicodelia.
A primeira faixa deste álbum, Inferno no Mundo, já havia sido incluída na coletânea Love, Peace & Poetry: Brazilian Psychedelic Music e, de fato, faz jus às descrições mencionadas. A faixa abre com uma breve introdução de vozes tocadas em fita cassete em velocidade média e então explode em uma linha de baixo ascendente com solos de guitarra realmente incríveis, evocando as imagens perfeitas para combinar com o título da música.
No que diz respeito ao rótulo psicodélico pesado, há apenas três outras músicas no álbum de dez faixas (Rock Dream, Only e Ode to Billy) que poderiam ser interpretadas como matadoras ou cheias de distorção. O que acho incrível no Bango é a capacidade deles de interpretar uma gama eclética de influências americanas e britânicas em letras em inglês e português, resultando em um álbum que, embora tenha apenas 29 minutos de duração, exibe uma diversidade de estilos que abrange desde Motor Maravilha, influenciado por Los Bravos (Black is Black) e Stones Under my Thumb (Stones Under my Thumb), até a influência aberta de Rolling Like a Boat (Rolling on the River), de Ike e Tina (Rolling Like a Boat).
Em 1970, o auge da música psicodélica havia praticamente acabado nos Estados Unidos, mas em outros lugares esses sons inevitavelmente demoravam mais para chegar a lugares como o Brasil. Lembre-se, sem internet, sem downloads. Uma banda como Bango permitiu que essas influências se infiltrassem e então se lançou. "Mas Senti" começa com um violão suavemente dedilhado e evolui com órgão, guitarra elétrica e algumas harmonias bastante doces. Tirando a letra em português, a música não soaria deslocada em uma coletânea psicodélica da costa oeste ao lado de bandas como Quicksilver Messenger Service e It's a Beautiful Day.
Para mim, porém, o Bango soa melhor quando não se parece com ninguém. É em faixas como "Marta, Zeca, The Priest, The Mayor, The Doctor and Me" que eles realmente pegam essas influências externas, misturam com sons mais indígenas e as transformam em algo altamente original, assim como os contemporâneos da Tropicália, Os Mutantes, fizeram. Altamente recomendado!
Faixas:
01.Inferno No Mundo
02.Mas Senti
03.Rolling Like A Boat
04.Motor Maravilha
05.Marta, Zéca, O Padre, O Prefeito O Doutor E Eu
06.Rock Dream
07.Geninha
08.Only
09.Vou Caminhar
10.Ode To Billy
BANGO - ROCK DREAM
Bango:
Fernandinho (guitar)
Elydio (bass)
Roosevelt (keyboards)
Max (drums)
Aramis (guitar, violin, vocals)


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