segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Traffic Sound - A bailar a Go Go

 



Este álbum é uma compilação dos três singles lançados pela Traffic Sound em 1968; apenas seis faixas duram 22 minutos. São todas covers, incluindo "I'm So Glad", do Cream, que é decente; "You Got Me Floating" e "Fire", do Hendrix, também boas; "Sky Pilot", do Eric Burdon, que é ruim; e "Sueno", do The Rascals, que é razoável. "Destruction" soa como um modelo inicial para "Meshkalina", com sua combinação de acordes de órgão e saxofone. O som é psicodélico pesado, com violão, saxofones e percussão pesada, semelhante aos álbuns posteriores, mas um pouco menos integrados. Ainda não é tão ruim, mas também não é essencial.

Entre o Swing e a Psicodelia: Os Primeiros Passos do Traffic Sound

Era a segunda metade da década de 1960, e Lima — aquela cidade a meio caminho entre o colonial e o cósmico — vivenciava seu próprio despertar eletrizante. Enquanto o mundo rugia com Woodstock, Paris ardia sob os paralelepípedos e os Beatles se transformavam em alquimistas de estúdio, pequenos bolsões de psicodelia crioula, garage com sotaque andino e soul tropical sem licença começavam a brotar no Peru. Era o início da grande explosão musical sul-americana, fermentando longe do radar de Londres e São Francisco, mas com igual intensidade.

Ditaduras se aproximavam, a censura crescia, e ainda assim... os jovens dançavam, compunham e tocavam. Nesse cenário, em meio a penteados sofisticados, luzes de clube e LPs piratas, nasceu o Traffic Sound. Uma banda formada por jovens de classe média alta com rock britânico, soul afro-americano e psicodelia com toques tropicais nas veias. Começaram tocando covers em inglês para festas privadas, mas logo a chama cresceu: tornaram-se ícones sem nem tentar.

A bailar a Go-Go surge como testemunha fóssil e altar iniciático daquele período. Gravado em 1968-69, mas lançado apenas em 1970 como uma compilação de seus primeiros EPs, este álbum é o eco de uma Lima que queria dançar, mas também alucinar, romper com os moldes, flertar com o estrangeiro sem perder completamente o sotaque. Não é uma estreia oficial, dizem. Mas é o primeiro rugido gravado de uma banda que, sem ainda saber, daria o rumo ao rock psicodélico peruano. E agora, com o cenário montado, as caixas de som ligadas e o espírito bem desperto, convido você a ler esta resenha-fanzine como ela deve ser: com a alma aberta e o ouvido curioso.

Cru, Kitsch e Ansioso: O Primeiro Rugido do Som do Tráfego

Há álbuns que entram pela porta da frente e outros que escapam pela fresta dos fundos, com a poeira dos anos 60 ainda nos sulcos. A bailar a Go-Go, lançado em 1970 pela banda peruana Traffic Sound, é um deles. Não é a estreia oficial deles (seria o alucinante Virgin, de 1969), mas eu, com toda a falta de protocolo que o vinil e o soul permitem, declaro: este é o verdadeiro primeiro passo da banda. E que se dane a cronologia dos discos.

Por quê? Porque essas faixas são de 68-69, quando o Traffic ainda impulsionava sua nave espacial sem mapa nem contrato. São suas primeiras gravações, suas provas de fogo, os rituais iniciais antes de acender o verdadeiro pavio. E é por isso que são valiosas. Porque são cruas, sinceras, com lama nos sapatos e um espírito fervente. A coletânea — que reúne todos os EPs da época — é um desfile de covers, sim, mas não se trata de exibir músculos técnicos, mas sim de se deixar levar pelo swing amador que vibra em cada faixa. Há um charme desajeitado, uma espécie de inocência elétrica que parece mais viva do que muitas tentativas de perfeição polida. Como costumavam dizer uma manhã na Lima psicodélica: "Este disco tem valor kitsch". E é claro que tem. Mas não no sentido pejorativo, mas naquele outro sentido, mais raro e caloroso: o de algo estimado apesar de suas imperfeições.

Não há sucessos. Não há produções bombásticas. Não há pretensão. Mas há coragem, e isso não é fabricado. Ouça Sky Pilot (faixa 4) e note aquela tentativa psicodélica de quebrar a forma, ou Sueño (faixa 3), onde a guitarra dá pequenos vislumbres do que o Traffic alcançaria mais tarde. O resto... são exercícios, rascunhos comoventes.

É um álbum "bom"? Não exatamente. É um álbum importante? Claro que sim. Porque A Bailarina a Go-Go é um retrato de uma banda antes de encontrar sua voz, quando ainda se buscavam sob a influência dos Beatles, dos Stones e de outros homens santos. É como ver as primeiras pinturas de um artista que mais tarde incendiará o museu. Tem o sabor do artesanal, do feito em casa com entusiasmo e mais paixão do que técnica. E isso, para os completistas, os arqueólogos do rock sul-americano, vale mais do que mil listas da Rolling Stone. Então, não peça muito. Basta colocar para tocar, deixar tocar e ouvir aqueles jovens peruanos tentando se tornar estrelas sem ainda saber que o seriam. E se depois de ouvir você quiser virar a página, vire. Mas faça-o com respeito, como quem guarda uma carta antiga sem remetente, mas perfumada. Te vejo na próxima esquina de vinil.


01.I´m So Glad
02.You Got Me Floating
03.Sueño
04.Destruction
05.Sky Pilot
06.Fire 

 CODIGO: I-5

MUSICA&SOM ☝





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