quinta-feira, 2 de outubro de 2025

The Doors, entrando pelas portas com Oliver Stone

 

A década de 1990 também viu um aumento nos filmes biográficos no mundo do cinema. Às vezes, quando a indústria do entretenimento fica sem ideias, ela se volta para algo certo para evitar o fracasso de bilheteria. Um exemplo disso foi The Doors, dirigido pelo controverso diretor americano Oliver Stone. As expectativas para o filme eram altas, mas o resultado final deixou tanto a crítica quanto o público um tanto frios. Oliver Stone embarcou na tarefa titânica de trazer a história de Jim Morrison, vocalista da banda de rock The Doors, para os cinemas. Levar essa imagem de um poeta amaldiçoado e vocalista de uma banda superlativa para a tela grande implicou em correr riscos em partes do filme. Assim, encontramos um festival de imagens poderosas, sedutoras e apaixonantes. A música e a imagem, como dizemos, se fundem em um pastiche difícil de digerir, mas ao mesmo tempo altamente evocativo para o espectador. 


Por Antonio Mautor

  

O aspecto musical do filme, como esperado, atua como um catalisador para a história que nos é apresentada, criando a atmosfera necessária para este tipo de filme. As músicas são apresentadas como elementos narrativos que definem o humor de Jim Morrison e destacam momentos vitais de sua vida.

O diretor americano não queria fazer um filme biográfico tradicional. Ele queria retratar a energia visceral exalada por Jim Morrison, juntamente com a criatividade de sua poesia e a deriva autodestrutiva que ele continuamente habitava. A abordagem se conecta com o espírito xamânico e desértico pelo qual Morrison era apaixonado, levando-o a ver a vida através de um prisma às vezes completamente distorcido e deslocado. A música atua como personagem principal do filme e o fio que devemos puxar para escapar do labirinto.

Acima de tudo, devemos destacar a extraordinária atuação do falecido Val Kilmer, que encarna Morrison com inegável dedicação e paixão. Surpreendentemente, ele até cantou em muitas das músicas do filme, deixando o público sem palavras com o poder de suas cordas vocais. Sua voz se misturava perfeitamente com as gravações reais da trilha sonora, criando um efeito hipnótico que deixava o espectador quase em transe psicodélico.
As músicas usadas na trilha sonora são uma espécie de "grandes sucessos" que contam a história do ilustre artista, desde suas origens na Califórnia até sua morte em Paris. Temos uma abertura impressionante com "Break On Through (To The Other Side)", que representa o que o filme quer transmitir: cruzar os limites da consciência, romper com o estabelecido. É hora de mergulhar no mundo do The Doors, guiado por Morrison.

"Light My Fire" é apresentada como uma das músicas icônicas da banda. Ela retrata os primeiros sucessos da banda e seus anos dourados. A selvageria sexual e a libertinagem definem a ambiguidade do personagem.

O emotivo "The End" é usado para marcar a tensão emocional extrema, funcionando como um mantra que resume a filosofia trágica e existencial de Morrison. O deserto é um elemento-chave para explicar toda essa raiva reprimida pelo personagem.
A crítica social e tudo o que cerca o grupo poderia ser significado com a música "When The Music's Over". É um momento para questionar o que foi conquistado, a fama efêmera, a falsidade do sistema, o riso forçado... as mentiras.

Todas as músicas aparecem em momentos-chave do filme. Elas são mostradas nos momentos mais existenciais do protagonista. Todos os seus baixos, loucura e alegria desenfreada são explicados por meio de uma música da banda. Não podemos deixar de mencionar músicas como "Not To Touch The Earth", "The Soft Parade" e "Mooonlight Drive". Tudo isso faz parte de uma conspiração para atrair você para o território deles.

Esta trilha sonora não é composta apenas pelas músicas da banda. Oliver Stone usa canções como "Heroin", do Velvet Underground, para transmitir a atmosfera decadente em que Morrison se encontrava. Ou o clássico "O Fortuna", de Carl Orff, para destacar cenas de transe ritual, etc.

Como já mencionamos, o filme foi recebido com controvérsia. Por um lado, alguns fãs acreditaram que ele fazia justiça a Morrison e ao The Doors, enquanto outros alegaram que alguns aspectos foram exagerados para torná-lo mais impactante. Os críticos se dividiram igualmente em sua análise do filme de Stone. Houve uma certa mistura de opiniões. No geral, a maioria chegou à conclusão de que tanto a atuação de Kilmer quanto o uso da música eram de altíssimo padrão.

Um filme que consegue evocar a alma de uma época e abrir uma janela para o que estava se formando naquela época nos EUA e no resto do mundo. Ele retratou com sucesso a descida de Morrison às profundezas de sua consciência, enquanto lutava para sobreviver por meio de suas canções. Sua imagem final, barbudo, barrigudo e fora de si, nos deixa com uma imagem dura e indesejada de alguém que queria sonhar, mas foi finalmente destruído por seus próprios demônios. 


Antonio Mautor






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