
Surfando na onda de sucesso de seu primeiro álbum, aclamado como um ponto de virada importante no nascimento do rock nacional, o Almendra se estabeleceu em poucos meses como um dos grupos mais criativos e sensíveis da cena argentina.
E, no entanto, justamente quando tudo parecia estar indo bem para eles, o quarteto se fragmenta: diferenças artísticas, tensões internas, uma visão ampla demais e exigente demais para caber em um único grupo… Almendra está se desfazendo.
Mas antes de desaparecerem, Luis Alberto Spinetta (guitarra, gaita, voz), Emilio del Guercio (baixo, flauta, voz), Edelmiro Molinari (órgão, guitarra, vocais de apoio) e Rodolfo García (bateria, vocais de apoio) deixaram um último presente: um monumental álbum duplo, lançado em dezembro de 1970 pela Sony.
Uma obra notável, pontuada por quatro interlúdios que funcionam como respiros em meio à sua abundante criatividade. “Jingle”, “Vete de Mí, Cuervo Negro”, “Verde Llano” e “Leves Instrucciones” são vinhetas musicais, breves condensações do universo que Almendra desdobra neste álbum duplo. Nenhuma delas ultrapassa um minuto e meio: essa brevidade decorre do fato de Almendra II ter sido originalmente concebido como uma ópera rock, um ambicioso projeto conceitual inspirado pelo clima opressivo que então assolava a Argentina. O país vivia sob um regime militar desde 1966; a censura, o autoritarismo e a repressão sufocavam uma juventude que ansiava por liberdade. Esses fragmentos são os remanescentes de uma narrativa maior e inacabada.
Cientes de suas raízes sul-americanas, os Almendra abrem o show com ritmos brasileiros. Mas “Toma el Tren Hacia el Sur” permanece tensa, como um trem descarrilando rumo a um destino incerto. Rapidamente, a faixa se transforma em um rock pesado e febril: guitarras afiadas, um ritmo pulsante com toques exóticos e uma energia quase ansiosa que parece expressar a necessidade de escapar, de respirar em outro lugar.
Mas, acima de tudo, os músicos demonstram um domínio formidável e uma inventividade desconcertante, capazes de impulsionar cada compasso para territórios inesperados.
E o hard rock é definitivamente um tema importante. Em um álbum duplo, há muito espaço, e Almendra o aproveita com impressionante potência, destilando sabores tropicais enquanto mantém uma linha melódica. “No Tengo Idea” e “En las Cúpulas” soam como um blues pesado e ousado, “Aire de Amor” e “Cometa Azul” respiram funk, enquanto “Mestizo” e “Obertura” oferecem um som folk vibrante e luminoso. “Rutas Argentinas” revela seu boogie divertido, “Parvas” é lenta e etérea ao mesmo tempo, e “Un Páajaro Te Sostiene” flerta com o country. Intensidade e sofisticação se combinam em “Florecen los Nardos” e “Los Elefantes”, flertando com o rock progressivo.
No entanto, Almendra não se esqueceu da música crua e emotiva que caracterizou seu primeiro álbum. Terna e desiludida, “Camino Difícil” expressa a dificuldade de ser livre, enquanto “Para Ir” oferece toques bucólicos. “Carmen” evoca as ilhas, com o delicado folk-blues de “Amor de Aire” em seu âmago.
Mas acima de tudo, há os 14 minutos de “Agnus Dei”. A faixa começa num cenário bucólico e melancólico. Em seguida, o violão se aventura por uma tropicalia delicada e jazzística. Gradualmente, o quarteto se transforma num heavy metal jazz formidável, sombrio e inquietante. É possível imaginar John McLaughlin, possuído por Jimi Hendrix, improvisando com o Led Zeppelin. As guitarras se tornam lâminas afiadas e ferozes, o baixo cria um groove alucinatório e a bateria nos mergulha num transe hipnótico.
Almendra II : uma obra-prima rica e intensa, onde o rock nacional atinge picos de audácia e emoção.
Títulos:
1. Toma El Tren Hacia El Sur
2. Jingle
3. No Tengo Idea
4. Camino Difícil
5. Rutas Argentinas
6. Vete De Mí, Cuervo Negro
7. Aire De Amor
8. Mestizo
9. Agnus Dei
10. Para Ir
11. Parvas
12. Cometa Azul
13. Florecen Los Nardos
14. Carmen
15. Obertura
16. Amor De Aire
17. Verde Llano
18. Leves Instrucciones
19. Los Elefantes
20. Un Pájaro Te Sostiene
21. En Las Cúpulas
Músicos:
Luis Alberto Spinetta: guitarra, gaita, voz
Emilio del Guercio: baixo, flauta, voz
Edelmiro Molinari: guitarra, órgão
Rodolfo García: bateria, piano
Produção: Almendra
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