
No final da década de 1960, Buenos Aires fervilhava com uma nova energia. Nos porões esfumaçados e pequenos clubes da capital, uma geração de músicos se libertou dos coros alegres do pop local para buscar uma expressão mais crua, mais realista, mais argentina. A gravadora Mandioca, pioneira do rock nacional, serviu como catalisador para essa efervescência.
Los Gatos, figuras fundadoras dessa cena, abriram o caminho: seu sucesso provou que o rock cantado em espanhol podia existir sem inibições diante das influências anglo-saxônicas. Mas em 1970, justamente quando atingiram o auge artístico com Rock de la Mujer Perdida , o grupo se desfez. Sua aventura chegava ao fim, dando lugar a uma nova geração pronta para afirmar uma identidade mais urbana, mais realista, menos sonhadora.
Foi aí que surgiu o Manal. Um trio atípico, nascido da mesma efervescência, mas impulsionado por uma energia diferente, eles personificavam a maturidade do rock argentino. Nada de fantasia psicodélica ou busca melódica: o Manal encarava a cidade de frente, retratando a vida nos bairros, o cansaço, a rotina, a dúvida. Seu primeiro álbum, lançado em 1970, marcou uma verdadeira ruptura estética. Sumiram as cores ácidas e o devaneio: em seu lugar, concreto, suor e a melancolia das noites de Buenos Aires. Enquanto Los Gatos buscavam a luz, o Manal escolheu as sombras. E nessas sombras, eles encontraram uma nova verdade.
Por trás dessa alquimia urbana reside uma rica história. Em 1966, Claudio Gabis (guitarra) e Alejandro Medina (baixo) se conheceram em uma festa em San Telmo. Claudio Gabis tocava na banda Bubblin Awe e Alejandro Medina na banda The Seasons. Em 1967, no evento Beat Beatles organizado pelo Instituto Di Tella, Gabis conheceu Javier Martínez (bateria, vocal), ex-integrante do grupo Los Beatniks, cujo single “Rebelde/No Finjas Más” (1966) é considerado fundamental para o rock brasileiro.
Entretanto, o baterista interpretou o papel de Paco no filme Tiro de Gracia (1968), de Ricardo Becher. O diretor descobriu que o jovem ator também era músico em uma banda chamada Manal e o convidou para criar a trilha sonora (gravada em 1969, mas lançada em CD apenas em 2000).
Entre 1968 e 1969, o Manal assinou com a gravadora Mandioca e lançou seus primeiros singles: “Qué Pena Me Das / Para Ser un Hombre Más” (1968) e depois “No Pibe / Necesito un Amor” (1969). Em 1970, o trio finalmente lançou seu álbum de estreia homônimo, muitas vezes apelidado de La Bomba em referência à sua capa, que rapidamente se tornou um marco do rock argentino.
Em sete faixas, Manal entrega um álbum de blues-rock fantástico e intransigente, que lembra Cream, John Mayall e Canned Heat, mas cantado em espanhol. Minimalista, porém intenso, este disco estabelece um mundo realista e urbano onde cada nota, cada silêncio, tem significado.
O trio encontra aqui a química perfeita. A guitarra de Claudio Gabis alterna entre tensão e melodia, o baixo de Alejandro Medina ancora o som, enquanto a bateria de Javier Martínez pulsa como o coração da cidade. Mas, acima de tudo, sua voz crua, cheia de gravidade e sinceridade, não deixa ninguém indiferente.
O álbum abre com “Jugo de Tomate”. Impulsionada por uma gaita alegre, Manal apresenta um blues bem ritmado, aberto como uma lata de comida em uma lanchonete com cheiro de óleo de fritura: simples, cru, imediato. Em suma, direto! Assim como “Avenida Rivadavia”, com sua levada levemente jazzística, cantada com voz lânguida por Alejandro Medina.
A canção toma um rumo mais sombrio, anunciado por um órgão de igreja que parece questionar a si mesmo. Etérea e onírica, “Porque Hoy Nací” evoca um despertar abrupto após uma noite passada em um bar decadente, tentando esquecer as próprias origens. O cantor está de ressaca. Mas os arrependimentos são claros e palpáveis.
Porque este álbum é frequentemente permeado por uma melancolia persistente. Ela se insinua na faixa stoner rock “Todo el Día me Pregunto”, onde os solos de guitarra flertam com o acid rock. Ela se afirma na balada noturna “Avellaneda Blues”, imbuída de um sentimento de melancolia. Finalmente, ela emerge na exótica “Casa con Diez Pinos”, impregnada de sabores nostálgicos.
“Informe de un Día” tem a missão de encerrar este LP. Uma peça com mais de oito minutos, estendida numa viagem experimental: pesada, jazzística, insidiosa, estranha, quase estratosférica. Os músicos improvisam, escutam-se uns aos outros, respondem, tentando ocupar todo o espaço sonoro até à exaustão.
Com este álbum de estreia, o Manal lançou as bases do rock argentino: um blues elétrico cru, lúcido e profundamente humano. Seco, melancólico e intenso, o trio inventou uma forma de retratar a realidade local sem artifícios ou ilusões. Em 1970, com o fim do Los Gatos, o Manal trilhou um novo caminho, o de um rock maduro e introspectivo, enraizado na vida. Simplesmente um clássico.
Títulos:
1. Jugo De Tomate
2. Porque Hoy Nací
3. Avenida Rivadavia
4. Todo El Día Me Pregunto
5. Avellaneda Blues
6. Casa Con 10 Pinos
7. Informe De Un Día
Músicos:
Javier Martínez: Voz, Bateria;
Claudio Gabis: Guitarra, Harmônica, Órgão;
Alejandro Medina: Baixo, Piano
Produção: Jorge Álvarez, Pedro Pujó
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