quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

CRONICA - PAX | May God and Your Will Land You and Your Soul Miles Away From Evil (1970)

 

Em 1970, enquanto o rock psicodélico declinava nos Estados Unidos, paradoxalmente explodia na América do Sul. E entre os grupos que impulsionaram o Peru para o cenário mundial do rock, o Pax se destacou como um dos mais ferozes.

O grupo formou-se no final de 1969 em Lima, a partir das cinzas do Los Nuevos Shain, que lançou um álbum psicodélico naquele mesmo ano. Após algumas mudanças na formação, o Pax estabilizou-se em torno de Pico Ego Aguirre (guitarra solo), Mark Aguilar (baixo), Miguel Flores (bateria) e Jaime "Pacho" Orue Moreno (vocal). Em 1970, o quarteto assinou com a Sono Radio e um LP foi lançado logo em seguida.

Com seu título bíblico, quase encantatório, " May God and Your Will Land You and Your Soul Miles Away from Evil" estabelece imediatamente uma atmosfera de viagem mística. Mas, assim que a agulha toca o disco, não há como negar: Pax está longe de ser uma jornada psicodélica tranquila. É um gigante do rock pesado, cru, saturado de fuzz e urgente, um álbum que não tem medo de rivalizar com Cream, Blue Cheer ou Jimi Hendrix, até mesmo Black Sabbath, mantendo, ao mesmo tempo, uma identidade andina, sombria e espiritual.

O álbum abre com o medidor VU no vermelho, pé no acelerador, com “A Storyless Junkie  , uma faixa de rhythm & blues mutante e devastadora. A guitarra grita com distorção animalesca, a bateria martela forte e implacável, o baixo, no máximo, impulsiona tudo para um tumulto elétrico, enquanto os vocais atravessam a música com a febre de uma Linha de Nazca possuída, como uma figura emergindo de algum ritual obscuro. Uma abertura movida a querosene que chega como um rolo compressor, afirmando imediatamente que o Pax não está aqui para sutilezas, mas para impor sua própria visão de um proto-metal psicodélico feroz e incandescente.

Com um ritmo boogie e brutal, a faixa seguinte, “Rock An' Ball”, é igualmente destrutiva, enquanto a funky-soul “Sittin' On My Head” evoca o espírito de Hendrix. “Deep Death” começa como uma viagem de acid rock arrebatadora antes de se transformar em um hard rock fúnebre, ameaçador, destrutivo e caleidoscópico. Esmagadora e galopante, “Pig Pen Boogie” é suficiente para fazer Ozzy Osbourne tremer.

Mas Pax também sabe quando diminuir o ritmo. Apesar do título, “Green Paper (Toilet)” é uma balada country-folk ocasionalmente pontuada por momentos de tensão. “For Cecilia”, um delicado interlúdio orquestral, encerra com um refrão de guitarra etéreo, quase dramático.

O episódio termina num bar alucinado com "Shake Your Ass", uma sessão de bebida onde você juraria que o diabo puxou a primeira cadeira.

Este LP será o único disco sobrevivente do Pax. Mas ele prova, com uma insolência selvagem, que o Peru podia competir sem pudor com os gigantes anglo-saxões do nascente heavy rock.

Títulos:
1. A Storyless Junkie
2. Rock An’ Ball        
3. Green Paper (Toilet)         
4. Sittin’ On My Head
5. Deep Death
6. For Cecilia
7. Pig Pen Boogie     
8. Shake Your Ass

Músicos:
Mark Aguilar: Baixo
Miguel Flores: Bateria
Enrique “Pico” Ego Aguirre: Guitarra
Jaime “Pacho” Orue Moreno: Vocais

Produção: Pax




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