
Antes de mergulharmos na música deste álbum, tão obscura quanto enigmática, devemos considerar o homem por trás do nome Renaissance. Alfredo Díaz Ordaz é filho de Gustavo Díaz Ordaz, presidente do México entre 1964 e 1970, cujo mandato permanece para sempre associado ao massacre de Tlatelolco, em outubro de 1968, onde centenas de estudantes foram mortos a tiros pelo exército e pela polícia.
Paradoxalmente, foi no próprio âmago desse poder, desprezado pela juventude, que o projeto germinou. Em 1969, valendo-se de sua posição social, Alfredo Díaz Ordaz conheceu o The Doors durante a turnê mexicana da banda. Ele serviu de guia e os convidou para a residência presidencial para consumirem diversas drogas psicotrópicas. O encontro foi breve. Chegando de surpresa, o presidente, não fã de rock, que considerava subversivo, expulsou o grupo de hippies drogados, incluindo seu filho. Uma cena quase surreal, que revelava as contradições que então permeavam o país e, claro, o próprio homem.
Apesar da repreensão do pai, Alfredo Díaz Ordaz persistiu. Em 1970, fundou o Love Syndicate, com quem lançou alguns singles, antes de optar pelo Renaissance no ano seguinte. Nesse grupo, ele era responsável pelos vocais, guitarra, composição e produção. Contou com o apoio de Rodolfo Valle (guitarra), Alfonso Sanchez Mejia (baixo, piano), Eduardo Barcelo (bateria, percussão), Francisco Bareño (guitarra, flauta), além de alguns substitutos, incluindo Armando Nava (flauta). Pouco depois, o Renaissance gravou um único álbum homônimo pelo selo Raff, com uma capa colorida e suntuosa que se tornou icônica.
Musicalmente, este LP se encaixa perfeitamente no gênero rock psicodélico, fortemente influenciado pelos Estados Unidos, mas com toques locais. O álbum abre com “Listen To Me People”, uma canção despreocupada conduzida por um piano boogie, solos de guitarra com toques de acid house e uma gaita de boca, apresentando um vocalista que já parece incompreendido e perdido. Em “Strange Dream”, a seção de metais cria uma atmosfera de solidão quase mariachi, enquanto a flauta se aventura pelo rock progressivo. “Life” estende essa jornada tex-mex desencantada com sua percussão pulsante e guitarras latinas.
Após um ligeiro momento de desorientação, “Down in Mexico” transporta o ouvinte para uma garagem cósmica, no coração de uma capital fantasiosa, enquanto “Love the One” flerta abertamente com o country e o soul.
O segundo lado revela uma faceta completamente diferente: mais áspera, mais sombria, mais crua. “A Dome of Love” começa a todo vapor, um rhythm & blues urbano e selvagem com riffs afiados, solos alucinatórios, uma linha de baixo impulsionada por querosene e bateria funky. Mas é a voz rouca de Alfredo Díaz Ordaz que realmente se destaca: ele parece estar arriscando a própria vida. A tensão se mantém com a furiosa faixa de rhythm & blues “I'm Dying”, com suas influências latinas inegáveis.
“Buried Alive” leva o experimento ainda mais longe: um funk híbrido, quase de outro mundo, pontuado por uma flauta que parece querer dialogar com Jethro Tull. Por fim, “A New Man Is Born in Me” encerra o álbum com uma urgência tropical, para um final paranoico e febril.
Estranho, contrastante, por vezes desajeitado, mas frequentemente incandescente, Renaissance soa como uma válvula de escape psicodélica carregada de tensões políticas e pessoais. Um álbum fascinante, nascido à sombra do poder, onde o rock se torna simultaneamente uma fuga desenfreada e um grito interior.
Este LP permanecerá como o único registro deste renascimento mexicano, destinado a permanecer em grande parte desconhecido. Os sucessivos governos conservadores nunca incentivaram o surgimento de um rock ainda considerado subversivo, imoral e indesejável. Enquanto a maioria dos músicos se refugiava na obscuridade, Armando Nava continuou sua jornada juntando-se à lendária banda Dug Dug's, outro pilar da psicodelia mexicana.
Não confundir, claro, com o famoso grupo inglês de mesmo nome.
Títulos:
1. Listen To Me People
2. Strange Dream
3. Life
4. Down In Mexico
5. Love The One You’re With
6. A Dome Of Love
7. I’m Dying
8. Buried Alive
9. The Gift
10. A New Man Is Born In Me
Músicos:
Alfredo Diaz Ordaz: Vocal, Guitarra
RodolfoValle: Guitarra
Alfonso Sanchez: Baixo, Piano, Congas
Eduardo Barcelo (Bateria, Percussão
Francisco Bareño: guitarra, flauta
Hugo Goldy, Francioli Vasquez: bateria
Manuel Goldy, Martin Mayo: Piano
Armando Nava: Flauta
Sergio Moreno: Baixo
Víctor Juarez: Gaita
Produzido por: Alfredo Diaz Ordaz
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