segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

"Era um relacionamento muito instintivo", Mick Taylor sobre seu tempo nos Rolling Stones

 


A sequência "Let It Bleed" (de nov/69), "Sticky Fingers" (de abr/71), "Exile On Main Street" (de mai/72), "Goats Head Soup" (de ago/73) e "It's Only Rock 'n Roll" (de out/74) é muito celebrada e nela quem toca é Mick Taylor, o guitarrista dos anos de ouro dos Rolling Stones. O motivo exato pelo qual ele saiu da banda em dez/74 até hoje é objeto de conjecturas. Taylor sempre foi discreto, esquivo e sempre calibrou suas respostas de maneiras sutilmente diferentes ao longo dos anos. Houve rumores de brigas, discussões sobre supostos créditos em composições, problemas conjugais, cansaço da estrada, drogas (principalmente um crescente vício em heroína) e até mesmo o velho e simples tédio. Talvez, tudo tenha se devido à simples química. Por mais proficiente guitarrista que Mick Taylor fosse, ele nunca foi um roqueiro declarado e muito menos um showman. Ron Wood, que o substituiu em mar/75 (embora só tenha sido oficializado no ano seguinte), se adequava muito mais à imagem dos caras dos Stones. Mas poucos dirão que Wood esteja na mesma liga que Taylor como guitarrista. O baterista Charlie Watts admitiu que "o período Mick Taylor foi um pico criativo para nós. Um salto tremendo na credibilidade musical". Mick Jagger falou em 95 sobre Taylor: "Ele era um músico muito fluente e melódico, o que nunca tivemos e não temos agora... Algumas pessoas acham que essa é a melhor versão da banda que existiu". Questionado se ele concordava com essas pessoas, Jagger respondeu: "Obviamente não posso dizer se acho que Mick Taylor foi o melhor, porque isso meio que destruiria o período em que a banda está agora". Na autobiografia de Keith Richards, este admite que às vezes ficava impressionado com a forma de tocar de Taylor: "o toque melódico, uma bela sustentação e uma maneira de ler uma canção" - mas também o chama de tímido a ponto de ser "muito distante". Há um distinto toque de amargura quando Richards afirma que sua saída "nos deixou na mão", mais ainda quando ele se deleita afirmando que, depois dos Stones, Taylor "não fez nada". O que simplesmente não é verdade! Taylor se juntou a Jack Bruce, excursionou e tocou com Bob Dylan e outros notáveis ​​como Alvin Lee, Little Feat e Grateful Dead, fez discos solo e até se reuniu com o mentor John Mayall no Bluesbreakers.
Mas você pode entender o ponto de Keith Richards. Morto ou vivo, de fato não há como escapar dos Stones. Mick Taylor sempre teve que responder perguntas sobre esse seu período com os Stones. O que ele lembra daqueles dias inebriantes no sul da França em 1971, gravando "Exile On Main St." em Nellcôte e à beira-mar? Cocaína, conhaque, a Cote d'Azur, poderia ser tudo, mas e no porão, onde todo o trabalho foi feito? "Era um porão pequeno e sujo, bem úmido", diz Taylor. "Não era um estúdio de gravação propriamente dito. Nós colocamos todos aqueles cabos no porão, que era dividido em salas pequenas. E havia apenas uma sala na qual todos nós cabíamos e onde podíamos tocar juntos. Havia um lugar onde Charlie tocava bateria, mas era em uma seção separada da sala. Para overdubs vocais, Mick tinha que fazê-los em uma sala minúscula ao longo do corredor. Era como um labirinto, realmente". A atmosfera do porão infiltrou-se no som em si – músicas como "Shine A Light", "Rip This Joint", "Rocks Off" e a única música oficial de Taylor co-escrita com os Stones, "Ventilator Blues"... "Eu acho que sim. Foi um pouco áspero e pronto. Não havia nenhum dos refinamentos do Basing Street ou do Olympic Studios, mas havia uma espécie de intimidade e proximidade em tocar juntos naquela época, mesmo que às vezes isso nos deixasse loucos. Quer dizer, ficamos lá por um longo tempo. É um disco muito Blues, tipo raiz. Os Stones nunca mais fizeram outro álbum daquele jeito. 'Ventilator Blues' foi uma canção que, para ser honesto, eu não esperava receber nenhum crédito. Eu provavelmente tive muito mais participação em uma ou duas das outras faixas".


Os Stones inicialmente se mudaram para a França como exilados fiscais. E enquanto Mick Jagger se estabeleceu em Paris com a nova noiva Bianca, os outros encontraram lugares nas colinas ao redor de Nellcôte. "Nós geralmente começávamos a gravar à noite e continuávamos a noite toda", Taylor relembra. "Eu saía na garagem e ficava ofuscado pela luz do sol. Então eu dirigia para casa com minha primeira esposa, Rose, para nossa pequena casa nas colinas perto de Grasse, onde Bill Wyman tinha realmente comprado uma casa. Tínhamos a velha escrivaninha de Tolstói. Madame Tolstói ocasionalmente vinha de Paris para nos visitar. Era realmente idílico, mas eu passava muito tempo em Nellcôte. Trouxemos muito de Londres conosco. Havia amigos e familiares vindo o tempo todo. Todo mundo descia na casa de Keith e a tratava como um acampamento de férias. Tenho certeza de que para as pessoas que não estavam envolvidas na produção do disco, era uma festa de 24 horas". A lembrança de Taylor sobre o elenco rotativo de pensionistas famosos de Nellcôte é um pouco confusa. "Havia muitas pessoas que vieram visitar das quais não me lembro, por qualquer motivo. Não me lembro de John Lennon e Yoko vindo, mas aparentemente eles vieram. Mas eu me lembro de Gram Parsons. Ele e Keith se davam muito bem. Conheci Gram Parsons em 1969, quando ele estava com os Flying Burritos, mas já havia estado com ele originalmente quando toquei em Los Angeles com John Mayall em 67 ou 68". Os Bluesbreakers de John Mayall foram a primeira vocação profissional de Taylor em 1966, quando o jovem de 17 anos substituiu Peter Green, que estava indo para o Fleetwood Mac. Taylor se tornou um guitarrista formidável sob a tutela de Mayall.
John Mayall & Bluesbreakers no palco em 1968 (Mick Taylor é o segundo à esquerda)
"Foi uma experiência bem estressante, eu era bem jovem, seguindo os passos de Eric Clapton e Peter Green, mas depois de um ou dois meses, eu me adaptei muito bem. Foi basicamente tudo por causa da administração de John Mayall e tudo que aprendi com ele sobre o Blues. Viajar com ele pela América me fez virar um bom tocador de Blues e eu desenvolvi meu próprio estilo. Nós tocávamos em muitos lugares icônicos como Winterland (em San Francisco) e Fillmore East and West. Uma noite em Winterland, Jimi Hendrix era a atração principal, John Mayall, eu e os Bluesbreakers abrimos o show, e Albert King estava no meio. Foi incrível, principalmente quando você considera o fato de que eu tinha apenas 18 anos"
. Em jun/69, Mick Jagger estava procurando um substituto para Brian Jones e pediu conselhos a Mayall. Mayall recomendou Taylor. "'Live With Me' foi a primeira faixa em que toquei", Taylor relembra, "quando eles estavam dando os retoques finais em 'Let It Bleed'. Nós realmente gravamos aquilo na noite em que fui para minha audição no Olympic Studios, ou talvez na noite seguinte""Então eu fiz overdub de guitarra em 'Honky Tonk Women'. Mas 'Live With Me' foi especial, porque foi a primeira canção dos Stones em que toquei. Lembro-me do (produtor) Jimmy Miller pulando para cima e para baixo na sala de controle e ficando todo animado sobre o quão bom soava, tendo duas guitarras tocando uma contra a outra. Porque eu acho que eles sentiram falta disso com Brian Jones no hiato de dois anos desde sua última apresentação ao vivo. Os Stones na verdade não tocavam juntos há muito tempo, então quando me juntei a eles foi como um novo começo. Foi uma nova fase na carreira, um novo capítulo""Foram dias muito criativos com os Stones. E então teve a coisa das guitarras gêmeas, comigo e Keith não tocando estritamente solo ou ritmo, mas flutuando um em volta do outro. Não houve muita conversa sobre quem deveria tocar o quê, foi um tipo de relacionamento muito instintivo".


E o que dizer do relacionamento pessoal entre Keith Richards e Mick Taylor? Quando perguntado, Taylor sempre foi cauteloso ao escolher as palavras: "Keith não estava no seu melhor momento comunicativo, então (pausa)... ele não estava tão extrovertido. Estou escolhendo minhas palavras cuidadosamente aqui. Mas instintivamente, sim, nós nos demos bem". Não há dúvidas, as memórias mais queridas de Taylor sobre os Stones são reservadas para "Sticky Fingers", o álbum que eles fizeram em Londres (e, por alguns dias, em Muscle Shoals, Alabama). "Ao contrário de 'Exile On Main St', não trabalhamos duro dia e noite, mês após mês. A maior parte foi feita no estúdio, embora parte tenha sido feita na casa de Jagger, 'Stargroves', em Berkshire". É geralmente reconhecido que a contribuição criativa de Taylor veio a influenciar duas faixas de "Sticky Fingers" – "Sway" e "Moonlight Mile". Novamente, ele escolheu suas palavras com prudência. "Eu tive uma influência sobre eles. Quer dizer, 'Sway' existiria sem minha contribuição? Provavelmente, mas não do jeito que existe. E o mesmo vale para 'Moonlight Mile'. Lembro-me de Mick escrevendo essa em um vagão de trem no caminho de Paddington para Bath. Fazer turnês naquela época, mesmo com os Stones, era frequentemente assim. Não tínhamos aviões ou trens particulares""Eu me lembro vividamente. Ele começou a tocar a música no violão. 'Sway' foi feita muito rápido. Mick realmente tocou guitarra base nela; Keith nem estava por perto quando fizemos isso. Eu não acho que Keith esteja em 'Moonlight Mile' também. Comecei a tocar o solo em uma afinação aberta, e é por isso que soa estranho. E Paul Buckmaster fez o arranjo de cordas com base no riff que eu criei". Mick Taylor conta que acompanhava a carreira dos Stones com interesse antes de se tornar parte da formação. Ele ainda estava na escola em Hatfield, quando eles fizeram sucesso no início dos anos 60 — ele é cinco anos mais novo (ele é de 1949) que Keith Richards (que é de 1943) — embora tenha admitido que sua irmã era muito mais fã da banda. Depois que ele entrou, ela o lembrava constantemente da vez em que colocou "Little Red Rooster" no toca-discos de casa, apenas para Taylor repreendê-la com: "Desligue esse lixo e coloque 'Revolver'".


Hoje, ele considera a dimensão extra que ele trouxe para a banda: "É interessante, porque muitas das canções que eles fizeram antes de 'Beggars Banquet' eram singles mais voltados para o Pop – coisas como 'Ruby Tuesday' ou 'Let's Spend The Night Together'. Mas, na verdade, os Stones sempre foram uma banda de Blues. Então, em um sentido, eu estava num terreno muito familiar, mas, em outro, foi uma verdadeira mudança para mim. Depois que entrei e gravamos 'Let It Bleed' e 'Get Yer Ya-Ya's Out', eu era parte da banda. Sendo um improvisador, percebi que sempre haveria espaço para um solo de guitarra, o que nem sempre foi o caso nos discos dos Stones". Mas era preciso mais de um Stone do que mera musicalidade. Era preciso uma espinha dorsal forte para sobreviver à vida na estrada com a maior banda do mundo. Se o batismo de Taylor no Hyde Park não foi teste suficiente, cinco meses depois veio Altamont. O desastroso show gratuito perto de San Francisco foi marcado por confrontos violentos entre os Hells Angels e a multidão, terminando no horrível assassinato de Meredith Hunter, capturado em filme pelos irmãos Maysles em "Gimme Shelter". "Altamont aconteceu tudo tão rápido", relembra Taylor. "Foi muito surreal, um pesadelo na verdade. Toda a ideia de fazer um show no Altamont Speedway foi uma reflexão tardia. Tínhamos terminado a turnê e estávamos em Muscle Shoals no Alabama, gravando 'Wild Horses' e 'Brown Sugar"""Eu nunca consegui descobrir porque realmente fizemos aquele show. Não tivemos nenhuma contribuição prática na organização dele; foi tudo feito com base na confiança. Não pareceu certo desde o momento em que cheguei lá. Um cara pulou e deu um soco em Mick Jagger. Foi um caos. E o fato de que foi policiado pelos Hells Angels não ajudou. Eles fizeram justiça com as próprias mãos e começaram a jogar as pessoas para fora do palco. Foi um alívio sair, mas também foi assustador. As pessoas queriam ir embora tanto que havia muitas no helicóptero".


Além de tudo isso, havia o lado recreativo de ser um Stone, incluindo o uso de drogas muito divulgado pela banda. Isso atrapalhou as coisas de alguma forma? "Não sei, talvez até tenha ajudado de alguma forma. É uma coisa estranha de se dizer, mas era apenas uma parte da vida de tantas pessoas que costumavam sair com os Stones, mesmo desde os primeiros dias. Não era algo que eu sentisse que fosse exclusivo deles. Era parte integrante da visão cultural da vida das drogas recreativas. Não estou dizendo que não era perigoso, mas não tinha as qualidades sinistras e desagradáveis ​​que são associadas a isso hoje em dia". "Éramos todos muito mais jovens naquela época e você tentava coisas diferentes. Algumas pessoas acabavam ficando para trás, algumas pessoas tentavam as coisas uma ou duas vezes e outras simplesmente desapareciam. Mas eu não culpo os Rolling Stones pelos meus problemas pessoais". Todo mundo parece ter uma teoria sobre o motivo de Mick Taylor ter saído dos Stones. O falecido produtor Jimmy Miller — o homem por trás daquela série imperiosa de álbuns que começou com "Beggars Banquet" — uma vez postulou que o guitarrista foi de alguma forma sufocado pela banda, "pois eles queriam que ele preenchesse aquela parte necessária dos Stones. Ele adicionou uma dimensão com a qual Keith não se sentia confortável... Acho que Keith tinha uma visão diferente da de Taylor e queria proteger suas canções". Quando se menciona o assunto de sua saída, uma nota de cansaço sempre surgiu na voz de Taylor: "É, eu poderia escrever um livro sobre isso. Do momento em que entrei para John Mayall, até 1974, eu fiquei trabalhando o tempo todo. Eu estava completamente acostumado a estar no estúdio ou na estrada. Se não fosse com os Stones, era com outra pessoa. Eu só precisava de uma pausa". Taylor sempre insistiu que seu tempo com os Stones foi uma ótima experiência. 


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