Venho aqui falar-vos de um reencontro; de um disco de 1994, à semelhança daquelas agradáveis surpresas que coleccionadores de arte têm, ao abrir uma tela guardada há uns bons vinte anos. Ou, neste caso, ao abrir a capa de cartão de sete faces que envolve o disco compacto, protegida por outra capa de cartão com a mesma cor azul da Pérsia e textura de veludo cinematográfico. Afinal de contas, não é todos os dias que nos reencontramos com um disco espe(a)cial, do qual já não nos lembrávamos da sua existência. Poder voltar a escutar o que já tínhamos guardado no nosso armazém, lá para o fundo, escondido entre destroços, bocados inacabados de cimento estalado e espuma isolante – as partes do edifício que ficam por detrás das novas mercadorias embaladas semi-abertas, e a história da nossa vida volta a ter os mesmos sons. Sons tão característicos que se tornam indeléveis. Tenho ideia que este disco nos foi dado a conhecer pelo Sr. Saló- mestre na arte de desfazer opiniões musicais. Ah, as sagradas noites de domingo em que a voz do enciclopédico Ricardo nos acalmava e dava a conhecer mais um projecto alternativo da cena electrónica/jazz/ambiental e por esse mundo fora.
Há uns meses atrás o meu irmão (ele que me deu a conhecer grande parte das minhas bases musicais) ligou-me a dizer que se queria livrar dos CDs. Os CDs que lhe andavam a ocupar espaço nas prateleiras. Sinais dos tempos, libertação dos elementos materiais substituídos por discotecas remotas de ecrãs de retina e actualizações infindáveis. Eu, soldado sónico de fidelidade perene, vaidoso da minha estante repleta de capas, letras e copiosas tonalidades, disse prontamente – Eu fico com eles! Eu fico com eles e vou aí amanhã buscá-los.
De volta a casa, impunha-se um rastreio. Postas de lado as aparições indesejadas, sobretudo modernas, foi a vez de ir ao cofre. E que cofre…
No meio de muitas outras raridades dou de caras com o SKYLAB#1, disco de ascendência psicadélica com traços asiáticos e linguagem interplanetária (é incrível como proporcional continua este ensaio holístico). Imaginem que a nossa escola primária continua do mesmo tamanho, agora, nós adultos crescidos para o triplo, a escala mantém-se. Ao contrário de Alice, as coisas não diminuíram nem aumentaram, são as mesmas secretárias, as mesmas cadeiras, o mesmo quadro, agora, como nós somos, tudo do nosso tamanho. Tratar-se-ia de ubiquidade se os tempos fossem os mesmos. Acontece que já andámos mais 22 anos em frente. Para onde? não sabemos ainda muito bem. A música continua a fazer-se em todos os sentidos. Há cada vez menos oponentes à criatividade e as alianças produtivas grassam em quantidade. Os antigos voltam com coisas novas, os novos reinventam os antigos. A ciência faz-se por fluxos, tal como a natureza. A música pode ser o que nós quisermos, quando nós quisermos…
*Skylab (Sky Laboratorie) designa a primeira estação espacial norte-americana, lançada para o espaço em 14 de Maio de 1973, a uma altitude de 435 km.
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