O terceiro ano da conturbada década de 70 no Brasil foi o que podemos chamar de início da era de ouro da cultura brasileira, principalmente da música. A despeito do recrudescimento da censura e o endurecimento do regime militar, 1973 marcou grandes produções cênicas e o lançamento de álbuns e artistas emblemáticos. O boom musical vai ser o foco dessa resenha, com um aspecto interessante: foi quando a semente do rock brasileiro germinou de vez e passaria a dar frutos até a explosão do chamado Rock Brasil, no início da década seguinte. Detalhes desse raciocínio são dissecados nas linhas abaixo.
Em 1973 o Brasil vivia o chamado “milagre econômico”. O PIB brasileiro dava um salto, os índices de crescimento alcançavam dois dígitos, a industrialização avançava em ritmo forte e a inflação ainda não havia disparado. O legado sócio econômico desse período, no entanto, é controverso. Ele foi marcado por corrupção desmedida e abafada pela censura, aumento da desigualdade social e disparada da dívida externa. Mas na música, os frutos foram brilhantes. O mercado fonográfico estava em crescimento, e o disco era um produto rentável, o que permitia que houvesse bastante investimento, que se refletiu em um grande número de artistas contratados e na possibilidade de mais ousadia nas gravações. Até mesmo o lançamento de álbuns de artistas estrangeiros cresceu, mas isso é assunto para outra missiva.
Artistas que haviam enfiado o pé na porta, lançando as bases da virtuosa MPB, estavam exilados ou vigiados pela censura, como Chico, Caetano, Gil, Elis, entre outros. Os festivais de música que agitaram o ambiente nos anos passados foram brecados por pressão do regime. O último havia sido no ano anterior. E havia ave agourenta que apostava no enfraquecimento dos artistas para ousar sem aqueles eventos efervescentes. Mas as correntes por eles criadas nos anos anteriores, como a Bossa Nova e o Tropicalismo oxigenaram o setor cultural.
1973 trouxe lançamentos de importantes e consagrados artistas, como Chico, Gil, Caetano, Gal, Bethânia e Elis mas também marcou o surgimento ou consolidação de nomes que fortaleceriam e agitariam a chamada música popular brasileira, como Milton Nascimento, Tim Maia, Alceu Valença, Luiz Melodia, Gonzaguinha, João Bosco e Fagner e , em especial, aqueles que turbinariam as futuras gerações do rock: Novos Baianos, Secos e Molhados e Raul Seixas.
Raulzito já havia gravado o LP de covers Os 24 Maiores Sucessos da Era do Rock, mas o disco havia sido creditado a uma banda fictícia, Rock Generation. Em 1973 ele deixava a labuta como produtor musical para mergulhar na carreira artística de fato. O lançamento de seu primeiro disco, Krig-Ha, Bandolo, trouxe clássicos eternos que inspiraram as futuras gerações do rock: Metamorfose Ambulante, Mosca na Sopa, Al Capone e Ouro de Tolo. Mesmo com tamanha transgressão, o grupo Secos e Molhados atraia atenção do público de uma forma heterogênea, desde crianças a jovens universitários e a adultos e velhos admiradores da bossa e do samba, tamanha era sua inovação. O álbum de estreia vendeu 800 mil cópias, o que era um absurdo para o Brasil da época e superava até artistas de grande vendagem do quilate Roberto Carlos. Suas músicas tocavam em todas as rádios, todos os dias, o dia inteiro. Seus shows eram tão concorridos que seus produtores resolveram ousar de vez, encerrando a temporada no Maracanãzinho, que sediou o primeiro evento de um único artista e teve lotação esgotada, no início do ano seguinte. Show que inclusive foi gravado e apresentado pela Rede Globo de Televisão, o que aumentou ainda mais a visibilidade daquela estética musical que se alinhava ao glam rock, então em alta no hemisfério norte.
Gastaríamos laudas e mais laudas para falar dos grandes discos lançados naquele ano no Brasil, inclusive do samba e de nomes eternizados como Tom Jobim (Matita Perê). Mas o que pretendemos com essa reflexão é linkar o ano tão profícuo para os estilos genuinamente nacionais com o fortalecimento do rock no país, cujos frutos seriam colhidos com abundância crescente a partir dali até desabrochar de vez na década de 1980.
As gerações anteriores dedicadas ao rock no Brasil (anos 60) foram pioneiras e enfrentaram dificuldades econômicas, de espaço e muito, muito preconceito da sociedade careta do Brasil daqueles tempos de chumbo. Mesmo com repertório basicamente de covers estrangeiros e tendo apenas bailes em clubes e escolas como espaço, plantaram a semente, que ganhou fertilizante especial a partir de 1973. Exceto por Mutantes e O Terço, muita gente promissora ficou pelo caminho, como O Peso, A Bolha, The Brazilian Bitles, Módulo 1000, Azimuth, Moto Perpétuo, Casa das Máquinas, O Som Nosso de cada Dia. Alguns deles ganharam sobrevida com relançamentos posteriores a partir dali e seus músicos tiveram o merecido reconhecimento. Toda a geração pós 80 deve agradecer a Raul Seixas e aos combos de Secos e Molhados e Novos Baianos e, claro, acender velas para o mágico ano de 1973. O ano em que a semente do rock vingou no Brasil.
OS. Essas reflexões têm como base os documentários Phono 73, e 1973, o ano que não acabou (ambos Canal Brasil) e os livros: História da Música Brasileira Sem Preconceitos (Rodrigo Faour), 1973 — O ano que reinventou a MPB (Célio Albuquerque) e os 50 Melhores Shows da Música Brasileira (Luiz Felipe Carneiro e Tito Guerdes – ed. Belas Letras).

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