
Após a explosão criativa de seu segundo álbum em 1976, o Irakere já era um grupo reconhecido e respeitado, capaz de cativar tanto o público cubano quanto o internacional. O álbum confirmou que sua mistura de jazz, rock e ritmos afro-cubanos não era uma moda passageira, mas uma linguagem musical madura e poderosa. Com base nesse domínio, os músicos embarcaram em um novo capítulo: levar sua música para além de Cuba, para os palcos do mundo, e demonstrar que seu virtuosismo e inventividade não conheciam limites.
Essa expansão começou naturalmente na Europa Oriental: em 1976, o grupo gravou um álbum com a cantora Farah Marian, The Golden Orpheus '76, gravado no festival de mesmo nome na Bulgária. Simultaneamente, o Irakere também contribuiu para um álbum do guitarrista e compositor Leo Brouwer, consolidando ainda mais sua presença e reconhecimento internacional.
Quase simultaneamente, o grupo alcançou um marco decisivo ao se apresentar no Newport Jazz Festival, nos Estados Unidos, um evento excepcional considerando o embargo americano vigente. Desde 1960, as Regulamentações de Controle de Ativos Cubanos proibiam todas as transações comerciais com Cuba, tornando ilegal produzir ou pagar artistas cubanos em solo americano. Os promotores que convidavam o Irakere, portanto, corriam um risco legal significativo, necessitando de licenças especiais emitidas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC).
Para permitir que o grupo se apresentasse em Newport, foi estabelecido um acordo diplomático e jurídico especial: o festival obteve uma permissão especial, permitindo que os músicos tocassem e gravassem legalmente, respeitando o embargo. Essa apresentação não foi apenas uma façanha musical, mas também um símbolo de diálogo cultural que transcende barreiras políticas, demonstrando que o poder da música pode ultrapassar fronteiras mesmo em um contexto de extrema tensão.
Para este evento, o tecladista e líder da banda, Chucho Valdés, reuniu uma formação que incluía: Arturo Sandoval (trompete), Carlos del Puerto (baixo), Enrique Plá (bateria), Carlos Emilio Morales (guitarra), Paquito D'Rivera (saxofone), Jorge Varona (trompete), Jorge Alfonso (percussão), Armando Cuervo (vocal), Carlos Averhoff (saxofone) e Oscar Valdés (percussão, vocal). Essa mesma formação também se apresentou naquele ano no prestigiado Festival de Jazz de Montreux, consolidando a posição do Irakere no cenário internacional. Esses dois concertos, nos Estados Unidos e na Suíça, serviram de base para o terceiro álbum do grupo, intitulado simplesmente Irakere. O disco foi inicialmente prensado para Cuba pela Areito, mas foi principalmente em 1979, internacionalmente, que a Columbia adquiriu os direitos de distribuição, permitindo que o mundo inteiro descobrisse a energia ao vivo, o virtuosismo dos solistas e o poder do grupo no palco.
Em suma, este álbum homônimo respira improvisação. Irakere se apresenta em sua forma mais livre, capturada ao vivo no palco, permitindo que as faixas se expandam, se transformem e interajam em tempo real. Mais do que um simples concerto, o álbum proporciona a sensação de participar de uma cerimônia musical, onde cada instrumento desempenha um papel preciso em um drama coletivo.
A percussão nunca é frenética ou puramente festiva. Ao contrário de um transe latino espetacular à la Santana, aqui ela opera dentro de uma lógica profundamente ritualística. Ela invoca, estabelece uma tensão contida, um ritmo circular e repetitivo, como um chamado ancestral. Combinada com cantos iorubás, parece iniciar o ouvinte nos ritos da Santeria e nas práticas espirituais afro-cubanas, flertando com uma forma de xamanismo musical onde o transe permanece contido, quase sagrado.
É precisamente nessa contenção que reside a força do álbum. Quando a seção de metais finalmente emerge, não se trata apenas de uma explosão sonora: ela libera uma energia acumulada ao longo de muitos anos, agindo como uma revelação, uma descarga coletiva que impulsiona o concerto para uma dimensão incandescente. Irakere transforma, então, o palco do jazz em um espaço de comunhão, onde a improvisação se torna uma linguagem espiritual e a música, um ritual compartilhado.
Isso fica imediatamente evidente desde as notas iniciais de "Juana 1600", onde a percussão parece evocar tanto os marabus africanos quanto os espíritos ancestrais do povo Taíno, Ciboney e Guanahatabey. Com esses espíritos finalmente invocados, o baixo traça uma linha envolvente, pronta para uma guitarra psicodélica-funk, sustentada por um piano elétrico melancólico e cantos iorubás de encantamento. Gradualmente, Irakere embarca em uma emocionante jornada de jazz-rock caribenho, onde trompetes e saxofones se respondem em um crescendo vibrante, transformando a improvisação em um verdadeiro rito de passagem.
Mais emotiva, mais urbana, mais cósmica, mais tribal, mais galopante, "Iya" torna-se o pretexto ideal para apresentar todos os músicos. Cada um encontrando o espaço necessário para se expressar numa dinâmica febril e libertadora.
Mas a banda também sabe como se inspirar em influências inesperadas de outros lugares. Uma serenata para saxofone e flauta, "Adagio" se torna uma oportunidade para improvisações com influência cubana em torno de Mozart, conduzidas por um teclado discreto e com nuances de blues que ancora a peça em uma modernidade vibrante.
No entanto, o ponto alto deste álbum continua sendo "Misa Negra", uma epopeia de 17 minutos. Desdobrando-se como uma epopeia histórica, abre com um grandioso solo de saxofone, acompanhado por vocalizações extravagantes e sombrias. Mas esta faixa elástica serve principalmente para exibir Chucho Valdés e seu piano, claramente influenciados por Chick Corea, Chopin e Bill Evans. A peça atinge então seu clímax em um festival de percussão e trompetes, onde tribulações vodu florescem em um transe orquestral vulcânico.
O álbum termina com "Aguanile Bonko", que exala urgência, impulsionada por ritmos funky e metais ao estilo mariachi, transformando a experiência de ouvi-lo em um verdadeiro carnaval tropical, febril, vibrante e irresistivelmente contagiante.
Este terceiro álbum é um turbilhão sonoro, onde cada nota parece vibrar com energia primordial. Entre transe ritualístico, improvisação e explosões de virtuosismo, Irakere transforma o palco em um ritual compartilhado, confirmando seu papel como mensageiro da música cubana pelo mundo.
Títulos:
1. Juana 1600
2. Iya
3. Adagio
4. Misa Negra
5. Aguanile Bonko
Músicos:
Chucho Valdés: Piano, Órgão, Sintetizador
Carlos del Puerto: Baixo
Enrique Plá: Bateria
Carlos Emilio Morales: Guitarra
Jorge Alfonso, Oscar Valdes: Percussão
Carlos Averhoff, Paquito D'Rivera: Saxofone, Flauta
Arturo Sandoval, Jorge Varona: Trompeteµ
Armando Cuervo: Vocais
Produção: Chucho Valdés
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