Com essa música, Michael Jackson quebrou muitas barreiras. Foi o primeiro single do álbum Off the Wall e a primeira gravação em que ele teve total controle criativo. Muitos de seus sucessos foram escritos por Quincy Jones, Rod Temperton ou pelos membros do Toto, mas essa ele compôs sozinho. Foi também sua primeira música solo com um videoclipe. Adoro essa música há anos, mesmo que mal entenda a letra. Michael Jackson não é exatamente Cole Porter, mas suas letras têm uma lógica física brilhante, soam bem e são um verdadeiro prazer de cantar. Michael Jackson tinha a mesma estratégia de composição dos Beatles: ele começava com uma melodia sobre um ritmo, que desenvolvia usando sílabas sem sentido. Só mais tarde, quando a música estava completa e gravada como demo, ele encontrava a letra que se encaixava na métrica. A essência melódica dessa música reside nas palavras "lovely" (adorável), "febre", "power" (poder) e "happen" (acontecer) — é um som com uma ressonância emocional rica e complexa. Jackson compôs "Don't Stop 'Til You Get Enough" em casa, cantando a melodia repetidamente. Ele gravou uma demo com seu irmão mais novo e colega de banda, Randy, ao piano. (Randy se juntou aos Jacksons quando eles deixaram a Motown, substituindo Jermaine, que permaneceu na gravadora e lançou uma carreira solo. Michael não tocava piano, então disse a Randy o que tocar.) De acordo com alguns relatos, a percussão na demo foi feita por Michael, Randy e sua irmã mais nova, Janet, que chacoalharam maracas e bateram em garrafas de vidro e sinos de vaca com pauzinhos. A música estava praticamente finalizada.
“Don’t Stop 'Til You Get Enough” é um verdadeiro milagre da música pop, insuperável. A mãe de Jackson ficou escandalizada quando ouviu a música pela primeira vez, pois pensou que fosse sobre sexo, e pode até ser, mas trata-se mais do êxtase de se perder em algo maior do que si mesmo, de se entregar completamente. É vaga e mística: “Continue, não pare/ Não pare até se sentir satisfeito”. Sempre a interpretei como uma canção sobre dançar. (O segundo verso — “Me toque e eu me sinto em chamas/ Não há nada como o desejo amoroso” — põe essa teoria à prova, mas acho que, no geral, ela ainda se mantém válida.) Vejo Jackson como um jovem libertado, emergindo de uma infância estranha e protegida, indo a uma discoteca pela primeira vez, sentindo a música fluir através dele, sua cabeça girando de admiração. Isso não significa necessariamente que o sexo não faça parte disso; ele também vem com a descoberta do próprio corpo. Mas, ao ouvir isso, imagino Jackson naquela cabine de DJ no Studio 54, isolando-se do clamor da multidão lá fora, perdendo-se no momento. É fácil se deixar levar por “Don’t Stop ‘Til You Get Enough”. A música tem, pelo menos em parte, uma pegada disco (afinal, Off The Wall termina com uma música chamada “Burn This Disco Out”), mas não se baseia em uma única batida de bateria; seus ritmos são mais sutis, complexos e fluidos, cheios de contrastes. Todos os instrumentos parecem dançar juntos: o baixo vibrante e pulsante, as explosões eufóricas dos metais, as cordas mergulhando na música, as múltiplas camadas de percussão. O final, onde as guitarras se entrelaçam delicadamente, como se estivessem decifrando um código Morse, é um dos meus sons favoritos no mundo. Jackson se torna completamente um com a música, cantando em um falsete etéreo, deixando a música envolver sua voz. Muitas vezes, sua voz está quase enterrada na mixagem, desaparecendo antes mesmo da música começar. Ele compreende o ritmo, tornando-se parte dele. Na introdução, ele murmura timidamente, mas quando a batida começa, solta um grito triunfante e mantém esse tom durante toda a música. (Seus uivos não verbais transmitem mais do que suas próprias palavras.) A voz de Jackson soa como se ele estivesse sendo elevado aos céus, como se sua alma estivesse ascendendo.

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