Na vasta e árida paisagem da música country e folk, poucas canções cavalgaram com tanta força e persistência quanto " Ghost Riders in the Sky ". E de todas as vozes que tentaram domar esse potro selvagem de canção, a de Johnny Cash é talvez a mais autorizada, aquela que melhor encapsula sua essência sinistra e moral. Sua versão, gravada para o álbum "Silver" de 1979, não é apenas uma interpretação; é uma personificação. Johnny Cash não canta sobre a lenda; ele é a testemunha, o velho cowboy que narra, com a urgência de quem encarou o abismo, seu encontro sobrenatural.
A narrativa da canção é puro folclore gótico americano. Um cowboy, em um pôr do sol eterno e tempestuoso, testemunha uma visão dantesca: uma horda de cowboys fantasmas, condenados a perseguir eternamente uma manada de gado demoníaco através de um céu acobreado. A letra é rica em imagens apocalípticas: "um brilho vermelho" nas nuvens, bestas com olhos flamejantes e hálito sulfuroso, e os cavaleiros de rostos esqueléticos em uma cavalgada que é um eco amaldiçoado do Velho Oeste. O refrão, com seu inesquecível "Yippee-ki-yay, yippee-ki-yoh", não é um grito de alegria, mas um lamento espectral, o som da própria danação.
A genialidade de Johnny Cash reside na forma como ele imbuí essa história de horror com uma humanidade imensa. Em 1979, sua voz já era um instrumento bem curtido, um barítono rouco com a textura de madeira antiga. Quando ele canta, não há dúvida de que está relatando uma verdade que o marcou profundamente. Não há drama excessivo; em vez disso, há uma solenidade sombria, quase bíblica. Cada palavra carrega peso, cada pausa é densa como o assobio do vento do deserto. A produção musical, característica do "Tennessee Sound" de Johnny Cash , é austera, porém poderosa: um violão que marca o ritmo como cascos de cavalo, um baixo firme e profundo como um trovão distante e um coro de apoio que eleva a cena a um plano quase religioso.
Mas, além do espetáculo sobrenatural, Johnny Cash enfatiza a mensagem moral central da canção. O aviso do cavaleiro fantasma ao protagonista — "Você precisa mudar de vida se quiser salvar sua alma!" — é o cerne de tudo. A lenda não é apenas uma história de fantasmas; é uma parábola sobre redenção e as consequências de uma vida de pecado. Na visão de mundo de Johnny Cash , sempre permeada por sua luta pessoal entre a luz e as trevas, esse aviso ressoa com particular força. O cowboy não é apenas um espectador; ele é uma alma potencialmente condenada, e a visão é sua última chance de se redimir.
A versão de Johnny Cash para " (Ghost) Riders in the Sky " é, portanto, a definitiva, pois atinge o equilíbrio perfeito. É uma canção de cowboy, com toda a aventura e vigor que isso implica, mas também é um sermão do púlpito da fronteira, um lembrete de que nossas ações nos assombram além da morte. É o "Homem de Preto" enfrentando cavaleiros mais negros que a noite, e nesse confronto, ele nos presenteia com uma das baladas mais hipnóticas, poderosas e eternamente fascinantes de seu vasto e lendário repertório. Uma canção que, assim como os próprios cavaleiros, parece destinada a cavalgar para sempre na memória coletiva.
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