sábado, 14 de fevereiro de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: La Máquina De Hacer Pájaros - "La Máquina De Hacer Pájaros" (1976)

 

"La Máquina de Hacer Pájaros" (tradução: a máquina de fazer pássaros) foi a banda criada por Charly García no início de 1976, após a dissolução de seu grupo anterior, o "Sui Generis" (1972-75, em parceria com Nito Mestre e que fez três álbuns que se tornaram hinos para gerações de argentinos). Foi o projeto que deixou o Folk-Rock do Sui Generis para trás e mergulhou no Prog Rock sinfônico. Em sua curta vida, dois álbuns foram gravados, "La Máquina de Hacer Pájaros", de 76, e "Películas", de 77. No início, era um quarteto (Charly García nos teclados e vocais, José Luis Fernández no baixo, Carlos Cutaia nos teclados e Oscar Moro na bateria) e, com esta formação (todos músicos de alto calibre), tudo começou num night club chamado "La Bola Loca" em Buenos Aires, em mai/76. O nome foi tirado de uma tirinha do cartunista argentino Crist. Logo, Charly decidiu incorporar o guitarrista Gustavo Bazterrica, que deu a sonoridade final à formação. "La Máquina..." foi uma das bandas argentinas com sonoridade mais trabalhada contando com a genialidade de Charly e sua vontade de experimentar. "Nesta banda, eu fiz o que eu queria", lembrou ele depois. Inspirado no Rock elegante do Steely Dan, pelo virtuosismo do Yes e no aspecto mais aventureiro e sinfônico do Genesis, Charly formou uma das melhores bandas de Prog-Rock da Argentina, uma verdadeira academia musical. "Nós éramos o Yes do Terceiro Mundo", sintetizou García. 
Charly, Carlos, Oscar, José Luis e Gustavo
Entretanto, para aquela época, o grupo não foi bem recebido, nem pela imprensa, nem pelo público (sendo reconhecido apenas depois). Tratava-se de um som bem diferente e isto fez com que nenhum dos dois álbuns lançados (ambos selo Talent Microfón) fosse sucesso comercial. O álbum de estreia foi visto como "estranho", tendo sido o mais caro da história na Argentina (custo mais que o dobro de um LP comum, na época). De fato, "La Máquina..." teve a intenção de criar o mais profundo, meticuloso e complexo Prog-Rock sinfônico e Charly García introduziu ali a novidade de dois tecladistas simultâneos (ele mesmo e Carlos Cutaia) - talvez, isso tenha sido um dos aspectos para criar toda uma barreira entre a banda e o público, então habituado à sonoridade mais simples do Sui Generis. Representou uma tremenda evolução, trocando as anteriores letras adolescentes por música muito mais elaborada (e experimental) e com temas adultos. "La Máquina..." acabou se dissolvendo por problemas internos em 1977 e Charly explicou: "Eu sai da banda após um show. Fui para um hotel e fiz planos de me mudar para o Brasil. Eu havia ouvido Milton Nascimento e sua música balançou minha cabeça". "El Festival del Amor", em 11/nov/77, no Luna Park, foi onde aconteceu este último show. Foi um período conturbado, a Argentina ingressara num período de ditadura militar (1976-83), havia todo um clima de terror e de insegurança (o próprio Charly vivia com medo, evitava sair e tinha o temor de ter o nome incluído em "listas negras"). Naqueles vários meses, tocando de quinta a domingo no La Bola Loca, a banda foi testando e desenvolvendo canções (que depois apareceriam no primeiro álbum). Ali, cerca de duzentas pessoas toda noite os viam tocar. Prog melódico com toques jazzísticos, tudo com estruturas complexas, energia e liberdade criativa. Os dois tecladistas permitiam a construção de paredes de órgãos e sintetizadores. Instrumental brilhante, virtuosístico, partes instrumentais longas e cheias de solos, com os músicos realmente "arrasando" em alto nível. O álbum de estreia homônimo (que fãs apelidaram de "Bubulina", sua primeira faixa) é uma pérola do Prog mundial. Sete temas compondo uma obra forte e única, que permanece intacta até hoje. "Bubulina" (5:35) e seu clima Yes, todos os grooves e solos no estilo Grand Funk Railroad em " Boletos, Pases y Abonos" (6:30), o lado Folk em "Por Probar el Vino y el Agua Salada" (3:22) e toda a viagem musical de "Ah, Te Ví Entre las Luces" (11:09) são os destaques desta sublime estreia. 
Durante o inverno, "La Máquina..." se fixou um porão e moldou um segundo álbum, "Películas", outro belíssimo registro. O jornal "La Opinión" passou a acusar Charly de fazer música com "estrangeirizações" que nada tinha a ver com o "sentimento nacional" argentino. Este segundo álbum veio bem na mesma veia da estreia, com um Prog melódico com elementos jazzísticos. Excelente também, fluído, coeso, sofisticado, banda solta, mantendo todo o Prog sinfônico, outro discaço de alta qualidade. A qualidade de som em ambos discos era muito boa e notavelmente melhor do que qualquer outro álbum gravado na Argentina até então. Porém, assim como a estreia, passou totalmente batido no gosto do grande público (aliás, demorou um bom tempo para que este projeto de Charly García fosse reconhecido por seu valor na própria Argentina). O grupo ensaiava diariamente visando aprimorar cada vez mais suas performances ao vivo. O guitarrista Gustavo Bazterrica faltou a alguns desses ensaios e Charly o demitiu logo depois de um grande show em Montevidéu. Em seu lugar, colocou Alejandro "Golo" Cavotia, ocorrem mais um par de apresentações, mas Charly resolve acabar com tudo e vir morar por um tempo no Brasil.
Seu casamento com María Rosa havia acabado (apesar do nascimento do filho Miguel Ángel, em mar/77) e Charly lutava para lidar com a nova realidade de pai e todo o foco em sua música (o novo par de María Rosa era Nito Mestre, até então o melhor amigo de Charly). Nesse momento de dificuldades, ele conheceu Marisa "Zoca" Pederneiras, uma bailarina brasileira (de 17 anos) da companhia de dança contemporânea do coreógrafo argentino Oscar Araiz. Zoca seria sua parceira até o final da década de 80 e inspiraria-lhe diversas canções. Aqueles meses finais de 1977 representaram um ponto de virada na vida de Charly. Com toda a crise sentimental e artística, todo o clima de censura e repressão imposto pela ditadura militar, ele iria parar na casa de Zoca em Belo Horizonte. Ali, a família dela o recebeu de braços abertos (os Pederneiras eram uma família artística que logo ficou cativada pelo talento de Chalry). Ele estava influenciado por músicos brasileiros (especialmente Milton). Com o amigo David Lebón, colega dos tempos de Sui Generis, alugou por três meses uma casa em Búzios/RJ, onde viveu uma vida focada na natureza e voltou a tocar, compor e planejou um novo projeto (que viria a ser o Serú Girán, uma das bandas mais importantes da história da música argentina pela qualidade musical e letras, incluindo canções desafiadoras à ditadura militar, que assombrava o país naquela época).



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