Em 1996, Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota lançaram Luzbelito , um álbum que chegou em um momento crucial na história da banda e na cultura argentina. Após a energia crua de Lobo Suelto, Cordero Atado, Los Redondos aprofundaram seu som com um disco mais sombrio, conceitual e introspectivo. Luzbelito é uma exploração do mal, da culpa, da religião e da condição humana. É uma obra que exige atenção, que não se rende facilmente, mas que recompensa a cada audição.
O próprio título já dá o tom: “ Luzbelito ” é um diminutivo de Luzbel, outro nome para o diabo. Mas o tom não é de adoração nem de condenação, e sim de curiosidade. Indio Solari se coloca no lugar do diabo como alguém que se olha no espelho. O álbum propõe uma espécie de jornada interior onde o bem e o mal se confundem, onde a ironia e a poesia se entrelaçam. Em vez de julgar, Los Redondos observam, retratam e questionam.
Musicalmente, Luzbelito solidifica o som maduro da banda. As guitarras de Skay Beilinson têm um timbre preciso, às vezes blues, às vezes psicodélico, sempre inconfundível. A seção rítmica de Semilla Bucciarelli e Walter Sidotti proporciona um groove sólido, quase hipnótico. E as letras de Indio, como sempre, estão no centro de tudo: metáforas que se abrem a múltiplas interpretações, frases que se tornaram parte da cultura popular.
Vamos relembrar cada um deles:
1. Luzbelito e as Sereias
O álbum abre com uma introdução assombrosa. “Luzbelito y las sirenas” combina um ritmo denso com uma atmosfera pesada. Apresenta o protagonista, um demônio tentado por suas próprias visões. A canção serve como manifesto do álbum: a queda, o fascínio, a beleza do abismo. O som é imersivo, com arranjos que remetem a um ritual. Desde o início, Los Redondos convidam o ouvinte a um mundo sombrio, porém cativante.
2. A Cruz do Diabo!
“Cruz Diablo!” soa mais direta, com um riff poderoso e uma bateria que dita o ritmo do rock clássico da banda. A música mistura referências religiosas com um tom irônico. A ironia do título resume apropriadamente a postura do álbum: nem devoto nem satânico, mas sim um observador das contradições humanas. A performance de Indio tem uma intensidade teatral, quase como um pregador discursando à beira de um palco infernal.
3. Ela dança com todos.
Uma das canções mais memoráveis do álbum, "Ella baila con todos" (Ela Dança com Todos), tem uma sonoridade mais melódica, com um refrão cativante e um tom que é ao mesmo tempo nostálgico e cínico. Foi interpretada como uma crítica ao oportunismo, à superficialidade ou até mesmo à traição. Mas também pode ser lida como uma reflexão sobre a liberdade: essa mulher que "dança com todos" não é necessariamente uma traidora; talvez ela simplesmente escolha não pertencer a ninguém. Musicalmente, é um dos momentos mais acessíveis do álbum.
4. Fanfarra de Cabra
O próprio título sugere uma mistura de solenidade e loucura. "Fanfare of the Goat" combina um ritmo marcial com guitarras ásperas. A letra é enigmática, com imagens de desfiles, máscaras e bestas. É uma marcha grotesca, uma celebração do caos. Ao vivo, essa música sempre gerou uma atmosfera especial, como se a banda estivesse invocando forças invisíveis.
5. Nuotatori professionisti
Traduzido do italiano, o título significa “nadadores profissionais”. O tom muda: é uma canção mais atmosférica, quase surreal. Imagens de corpos flutuando, água e movimento à deriva reforçam a sensação de transição, de estar entre mundos. A performance vocal de Indio é mais contida, mais sugestiva. Dentro do contexto do álbum, funciona como um respiro, um momento de estranha calma antes de mergulhar de volta na densidade.
6. Blues da Liberdade
O blues segundo Los Redondos . “Blues de la libertad” tem aquela cadência lenta e lânguida que evoca o gênero, mas com um espírito distintamente Ricotero. A letra fala de uma liberdade que é buscada, mas não plenamente encontrada, uma liberdade que dói. É uma das faixas mais emotivas do álbum e uma que melhor demonstra a maturidade musical da banda. Skay brilha com um solo preciso, contido e profundamente sentido.
7. A felicidade não é algo alegre.
Uma das joias escondidas do álbum. O próprio título já diz tudo: a alegria pode ser sombria, a felicidade nem sempre é radiante. A música tem um ritmo hipnótico e um tom quase confessional. A voz de Indio soa profunda e íntima, enquanto a banda cria uma base que parece oscilar entre o sonho e o pesadelo. É uma daquelas canções que ficam na cabeça muito tempo depois de terminar.
8. Eles estão me matando, Lemon!
Com “Me matan, Limón!” (Eles estão me matando, Limón!), o álbum recupera sua energia rock. É uma faixa eletrizante, com uma vibe de viagem e um refrão memorável. A letra brinca com imagens de perseguição e resistência, como se o protagonista estivesse tentando escapar de um destino inevitável. Há algo cinematográfico em seu ritmo, uma sensação de movimento constante. O título, além disso, tem aquele humor típico dos Redondos: uma piscadela que é ao mesmo tempo trágica e absurda.
9. Rocha jugular
O título diz tudo: isto é rock puro, direto ao ponto. Guitarras poderosas, uma batida de bateria pulsante e letras que transbordam desafio. É a faixa mais crua do álbum, uma explosão de energia que remete à era mais incendiária da banda. Indio canta com fúria, como se estivesse realizando um exorcismo. Nos shows, era um dos momentos mais explosivos.
10. Pontiac Butterfly / Country Rock
Uma faca de dois gumes em uma única faixa. “Mariposa Pontiac” é mais introspectiva, com um tom melódico e melancólico, enquanto “Rock del país” explode com espírito nacional e um riff contagiante. Juntas, elas formam uma síntese perfeita do universo Ricotero: beleza e fúria, poesia e crueza. É uma das partes mais ricas do álbum e uma das mais celebradas pelos fãs.
11. Brinquedos Perdidos
O encerramento não poderia ter sido mais simbólico. “Juguetes perdidos” (Brinquedos Perdidos) é uma das maiores canções da história do rock argentino. É um hino geracional, uma despedida, uma reflexão sobre a passagem do tempo e a inocência perdida. “E agora que estou à beira do abismo / tudo o que posso fazer é pular” — essas palavras resumem a filosofia de todo o álbum: aceitar a queda como parte da vida. Musicalmente, é um final majestoso. As guitarras crescem, a voz de Indio se torna mais emotiva e a música se desvanece, deixando uma sensação de transcendência.
Um inferno muito humano
Luzbelito foi recebido com enorme expectativa e alguma perplexidade. Alguns fãs esperavam um som mais direto, como nos álbuns anteriores, mas logo ficou claro que este trabalho tinha uma profundidade diferente. O álbum consolidou Los Redondos como uma banda capaz de se reinventar sem perder sua essência.
Em termos de impacto, Luzbelito foi um sucesso comercial e de público. Os shows de lançamento, especialmente os realizados no Racing e no Estádio Huracán, marcaram um ponto de virada na história do rock argentino. A figura de Indio Solari alcançou status mítico, e o conceito de "Ricotero" (fã de Los Redondos) começou a adquirir enorme peso cultural.
Com o tempo, Luzbelito tornou-se um dos álbuns mais analisados da banda. Alguns o consideram um álbum conceitual sobre queda e redenção. Outros o interpretam como uma sátira à religião e à moralidade. O que é certo é que sua ambiguidade faz parte de seu poder: ele nunca oferece respostas definitivas.
Quase três décadas após seu lançamento, Luzbelito ainda soa relevante. Sua atmosfera, letras e visão de mundo o tornam um clássico que transcende gerações. É um álbum que não busca agradar, mas provocar. Convida você a pensar, mas também a sentir.
No universo de Los Redondos , Luzbelito representa a maturidade plena: uma síntese de poesia, rock e filosofia de rua. É uma obra onde o diabo não é uma ameaça, mas um espelho. E nesse reflexo, cada ouvinte encontra um pedaço de si mesmo.
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