sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Luzbelito el infierno poético de los Redondos


Em 1996, Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota lançaram Luzbelito , um álbum que chegou em um momento crucial na história da banda e na cultura argentina. Após a energia crua de Lobo Suelto, Cordero Atado, Los Redondos aprofundaram seu som com um disco mais sombrio, conceitual e introspectivo. Luzbelito é uma exploração do mal, da culpa, da religião e da condição humana. É uma obra que exige atenção, que não se rende facilmente, mas que recompensa a cada audição.

O próprio título já dá o tom: “ Luzbelito ” é um diminutivo de Luzbel, outro nome para o diabo. Mas o tom não é de adoração nem de condenação, e sim de curiosidade. Indio Solari se coloca no lugar do diabo como alguém que se olha no espelho. O álbum propõe uma espécie de jornada interior onde o bem e o mal se confundem, onde a ironia e a poesia se entrelaçam. Em vez de julgar, Los Redondos observam, retratam e questionam.

Musicalmente, Luzbelito solidifica o som maduro da banda. As guitarras de Skay Beilinson têm um timbre preciso, às vezes blues, às vezes psicodélico, sempre inconfundível. A seção rítmica de Semilla Bucciarelli e Walter Sidotti proporciona um groove sólido, quase hipnótico. E as letras de Indio, como sempre, estão no centro de tudo: metáforas que se abrem a múltiplas interpretações, frases que se tornaram parte da cultura popular.

Vamos relembrar cada um deles:

1. Luzbelito e as Sereias

O álbum abre com uma introdução assombrosa. “Luzbelito y las sirenas” combina um ritmo denso com uma atmosfera pesada. Apresenta o protagonista, um demônio tentado por suas próprias visões. A canção serve como manifesto do álbum: a queda, o fascínio, a beleza do abismo. O som é imersivo, com arranjos que remetem a um ritual. Desde o início, Los Redondos convidam o ouvinte a um mundo sombrio, porém cativante.

2. A Cruz do Diabo!

“Cruz Diablo!” soa mais direta, com um riff poderoso e uma bateria que dita o ritmo do rock clássico da banda. A música mistura referências religiosas com um tom irônico. A ironia do título resume apropriadamente a postura do álbum: nem devoto nem satânico, mas sim um observador das contradições humanas. A performance de Indio tem uma intensidade teatral, quase como um pregador discursando à beira de um palco infernal.

3. Ela dança com todos.

Uma das canções mais memoráveis ​​do álbum, "Ella baila con todos" (Ela Dança com Todos), tem uma sonoridade mais melódica, com um refrão cativante e um tom que é ao mesmo tempo nostálgico e cínico. Foi interpretada como uma crítica ao oportunismo, à superficialidade ou até mesmo à traição. Mas também pode ser lida como uma reflexão sobre a liberdade: essa mulher que "dança com todos" não é necessariamente uma traidora; talvez ela simplesmente escolha não pertencer a ninguém. Musicalmente, é um dos momentos mais acessíveis do álbum.

4. Fanfarra de Cabra

O próprio título sugere uma mistura de solenidade e loucura. "Fanfare of the Goat" combina um ritmo marcial com guitarras ásperas. A letra é enigmática, com imagens de desfiles, máscaras e bestas. É uma marcha grotesca, uma celebração do caos. Ao vivo, essa música sempre gerou uma atmosfera especial, como se a banda estivesse invocando forças invisíveis.

5. Nuotatori professionisti

Traduzido do italiano, o título significa “nadadores profissionais”. O tom muda: é uma canção mais atmosférica, quase surreal. Imagens de corpos flutuando, água e movimento à deriva reforçam a sensação de transição, de estar entre mundos. A performance vocal de Indio é mais contida, mais sugestiva. Dentro do contexto do álbum, funciona como um respiro, um momento de estranha calma antes de mergulhar de volta na densidade.

6. Blues da Liberdade

O blues segundo Los Redondos . “Blues de la libertad” tem aquela cadência lenta e lânguida que evoca o gênero, mas com um espírito distintamente Ricotero. A letra fala de uma liberdade que é buscada, mas não plenamente encontrada, uma liberdade que dói. É uma das faixas mais emotivas do álbum e uma que melhor demonstra a maturidade musical da banda. Skay brilha com um solo preciso, contido e profundamente sentido.

7. A felicidade não é algo alegre.

Uma das joias escondidas do álbum. O próprio título já diz tudo: a alegria pode ser sombria, a felicidade nem sempre é radiante. A música tem um ritmo hipnótico e um tom quase confessional. A voz de Indio soa profunda e íntima, enquanto a banda cria uma base que parece oscilar entre o sonho e o pesadelo. É uma daquelas canções que ficam na cabeça muito tempo depois de terminar.

8. Eles estão me matando, Lemon!

Com “Me matan, Limón!” (Eles estão me matando, Limón!), o álbum recupera sua energia rock. É uma faixa eletrizante, com uma vibe de viagem e um refrão memorável. A letra brinca com imagens de perseguição e resistência, como se o protagonista estivesse tentando escapar de um destino inevitável. Há algo cinematográfico em seu ritmo, uma sensação de movimento constante. O título, além disso, tem aquele humor típico dos Redondos: uma piscadela que é ao mesmo tempo trágica e absurda.

9. Rocha jugular

O título diz tudo: isto é rock puro, direto ao ponto. Guitarras poderosas, uma batida de bateria pulsante e letras que transbordam desafio. É a faixa mais crua do álbum, uma explosão de energia que remete à era mais incendiária da banda. Indio canta com fúria, como se estivesse realizando um exorcismo. Nos shows, era um dos momentos mais explosivos.

10. Pontiac Butterfly / Country Rock

Uma faca de dois gumes em uma única faixa. “Mariposa Pontiac” é mais introspectiva, com um tom melódico e melancólico, enquanto “Rock del país” explode com espírito nacional e um riff contagiante. Juntas, elas formam uma síntese perfeita do universo Ricotero: beleza e fúria, poesia e crueza. É uma das partes mais ricas do álbum e uma das mais celebradas pelos fãs.

11. Brinquedos Perdidos

O encerramento não poderia ter sido mais simbólico. “Juguetes perdidos” (Brinquedos Perdidos) é uma das maiores canções da história do rock argentino. É um hino geracional, uma despedida, uma reflexão sobre a passagem do tempo e a inocência perdida. “E agora que estou à beira do abismo / tudo o que posso fazer é pular” — essas palavras resumem a filosofia de todo o álbum: aceitar a queda como parte da vida. Musicalmente, é um final majestoso. As guitarras crescem, a voz de Indio se torna mais emotiva e a música se desvanece, deixando uma sensação de transcendência.

Um inferno muito humano

Luzbelito foi recebido com enorme expectativa e alguma perplexidade. Alguns fãs esperavam um som mais direto, como nos álbuns anteriores, mas logo ficou claro que este trabalho tinha uma profundidade diferente. O álbum consolidou Los Redondos como uma banda capaz de se reinventar sem perder sua essência.

Em termos de impacto, Luzbelito foi um sucesso comercial e de público. Os shows de lançamento, especialmente os realizados no Racing e no Estádio Huracán, marcaram um ponto de virada na história do rock argentino. A figura de Indio Solari alcançou status mítico, e o conceito de "Ricotero" (fã de Los Redondos) começou a adquirir enorme peso cultural.

Com o tempo, Luzbelito tornou-se um dos álbuns mais analisados ​​da banda. Alguns o consideram um álbum conceitual sobre queda e redenção. Outros o interpretam como uma sátira à religião e à moralidade. O que é certo é que sua ambiguidade faz parte de seu poder: ele nunca oferece respostas definitivas.

Quase três décadas após seu lançamento, Luzbelito ainda soa relevante. Sua atmosfera, letras e visão de mundo o tornam um clássico que transcende gerações. É um álbum que não busca agradar, mas provocar. Convida você a pensar, mas também a sentir.

No universo de Los Redondos , Luzbelito representa a maturidade plena: uma síntese de poesia, rock e filosofia de rua. É uma obra onde o diabo não é uma ameaça, mas um espelho. E nesse reflexo, cada ouvinte encontra um pedaço de si mesmo.



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