terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Rock Lobster - The B-52'S

 

No final da década de 70, a cena musical dominada pelo niilismo agressivo do punk e pela frieza calculada da new wave, um som tão excêntrico e colorido quanto um coquetel tropical surgiu. Era a voz do The B-52's, uma banda que soava como uma festa de garagem dos anos 60, perdida no espaço. E se fosse preciso escolher um hino que encapsulasse seu espírito surreal e festivo, seria sem dúvida " Rock Lobster ". Lançada originalmente em 1978 em seu álbum de estreia e relançada com sucesso em 1979, essa música não é apenas uma faixa; é uma experiência sensorial, uma viagem psicodélica a uma praia de outro mundo.

Desde o primeiro compasso, " Rock Lobster " estabelece seu DNA único. O riff de guitarra surf, vibrante e incisivo de Ricky Wilson, soa como se Dick Dale tivesse sido abduzido por alienígenas. É instantaneamente reconhecível e cria uma atmosfera de ansiedade festiva. A linha de baixo insistente, quase mecânica, age como o motor que impulsiona a nave, enquanto os vocais impassíveis e quase narrativos de Fred Schneider nos guiam pelo delírio. Mas a verdadeira sacada genial vem com os vocais de apoio de Cindy Wilson e Kate Pierson, cujos "oohs" e "aahs" não são meros enfeites, mas sim sereias cantando das rochas de um mar de plástico.

A letra é um catálogo de absurdos marinhos que desafia qualquer interpretação literal. Não é um protesto ambiental nem uma história de amor; é arte pop sonora. Passamos de ver uma garota em uma linha de pesca a testemunhar uma dança frenética de criaturas como lagostas, enguias, polvos e peixes-vidro. A genialidade reside em como a música reflete esse caos controlado. A canção é construída sobre um ritmo hipnótico e repetitivo, mas os detalhes — o glissando do teclado, os efeitos sonoros, os gritos — se acumulam, criando uma tensão crescente. É uma festa na piscina que de repente se enche de fauna pré-histórica.

O clímax da música é um dos momentos mais gloriosamente bizarros da história do pop. As vozes de Wilson e Pierson explodem em um desfile de imitações de animais: gritos de golfinhos, cacarejos, guinchos. O que poderia ter sido simplesmente ridículo se transforma em pura euforia. Diz-se que John Lennon, ao ouvir essa parte em uma discoteca, reconheceu em seu espírito livre e absurdo um eco do surrealismo dos primeiros Beatles e sentiu que o rock ainda tinha espaço para a imaginação — um impulso que influenciaria seu próprio retorno à música.

Rock Lobster " é, em essência, a personificação perfeita da filosofia do The B-52's : a ideia de que a música pop pode ser inteligente, inovadora e profundamente absurda ao mesmo tempo. Não é uma contradição, mas uma celebração. Quebrou as regras sem a arrogância do punk, abrindo as portas para a new wave americana e pavimentando o caminho para toda uma legião de artistas que não tinham medo de ser diferentes e divertidos. Não é apenas uma música; é uma viagem de seis minutos para um universo paralelo onde o sol sempre brilha, o mar é vinil e lagostas roqueiras são as rainhas da pista de dança. Uma obra-prima do absurdo que, décadas depois, ainda soa tão fresca e vibrante quanto no dia em que foi lançada.


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