terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Rose McDowall – Cut With The Cake Knife (2004)


Quando Cut With The Cake Knife foi finalmente editado em 2004, já Rose McDowall havia há muito deixado para trás todos os locais onde gravou estas onze canções, todos os sentimentos que a levaram a compô-las, e toda uma audiência que, durante um curto período nos anos 80, a venerava como genuína estrela pop pelo seu trabalho nas Strawberry Switchblade – provavelmente um dos cassos de sucesso mais estranhos dessa época, contando, de antemão, com os Sigue Sigue Sputnik.

A pop segundo as Strawberry Switchblade era, como o próprio nome levava a crer, feita de dualidade. De um lado, uma fofice e criancice deliciosas, melodias orelhudas e drum machines; do outro, temáticas negras como a morte, um choro lírico que, aliado ao instrumental, tornava a música francamente assustadora, do mesmo modo que uma lengalenga tocada pelos Current 93 (com quem Rose McDowall, mais tarde, colaborou) é assustadora.

Com o fim do grupo, McDowall passou a dar-se com pessoas menos ou mais recomendáveis – dependendo dos gostos de cada um – como Boyd Rice, Death In June, Coil e demais impulsionadores da música industrial e apocalíptica do Reino Unido pós-punk. O que nunca perdeu foi esse encanto, essa aura de pequena Sereia no meio de quarenta baleeiros.

De várias maquetas gravadas nesta década surgiu, em 2004, Cut With The Cake Knife, álbum a solo que documenta o trabalho que McDowall concretizou entre o fim das Strawberry Switchblade e as colaborações com outros pesos-pesados. Não é um “álbum” como o jornalismo rock os tende a definir; não existe um fio condutor entre as canções para além do género – synthpop simples e directa – e da voz de McDowall, açucarada ao ponto do twee, cujas letras por ora mórbidas só aumentam o fascínio. Pense-se em Cut With The Cake Knife sobretudo como uma compilação, referente a um determinado período da vida de McDowall.

A dicotomia entre o lado instrumental do disco e as letras começa desde logo em “Tibet”, dedicada ao seu amigo David Tibet, quando este nos anos 80 partiu para a Islândia, e em que McDowall “I wish I could change your mind / But wishes sometimes die enquanto uma guitarra soa baixinho por debaixo do ritmo e das teclas, numa aura nostálgica de saudade que só poderia vir de uma criança, sendo que é difícil não acreditar que McDowall, enquanto estrela pop nas Strawberry Switchblade, seja a madrinha de todas as Lolitas Góticas japonesas. Tal como nessa subcultura, o negro esconde-se por debaixo do cor-de-rosa.

Mas isto não quer dizer que Cut With The Cake Knife seja um álbum para deprimir; na verdade, muito desta toada mórbida é passível de arrancar uma bela gargalhada aos mais atentos, quanto mais não seja pelo ridículo de ouvir um verso como “I will cut you with the cake knife / Right between the eye…”, presente no tema-título, misturado com o doce pop dos sintetizadores e da caixa de ritmos.

Não só isso como o álbum guarda ainda um gigantesco trunfo: uma versão extremamente eighties de “Don’t Fear The Reaper”, dos Blue Öyster Cult, sem cowbell mas com uma melodia que parece ter sido sacada a um Casio de brincar – mantendo essa infantilidade intrinsecamente ligada a artista. Tendo sido reeditado no fim de 2015 pela Sacred BonesCut With The Cake Knife é um disco interessante não só para dar melhor a conhecer o trabalho de uma ex-estrela pop, mas também para perceber de que forma luz e escuridão andam, sempre, de mãos dadas. Essencial.



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