quarta-feira, 1 de abril de 2026

Fraser Edwards – Discography (12 releases) – 2016-2025

 


Genre: Power Metal
Year of release: 2016-2025
Artist (band) country: UK

Tracklist:
Albums [02:03:02]
2016 – I Am God [00:38:50]
2020 – The Architect [00:48:12]
2022 – The Reckoning [00:36:00]

Singles [00:32:08]
2020 – Baxter vs Fraser (Shred Guitar Battle) [00:02:04]
2020 – Hark! The Herald Angels Sing [00:01:56]
2020 – Support My Patreon [00:03:40]
2021 – Keyboard Warrior [00:02:23]
2023 – Canon Rock [00:05:32]
2023 – Mountains [00:03:19]
2023 – My Great Escape [00:04:47]
2023 – When We Were Young [00:03:27]
2025 – Poseidon’s Rage [00:05:00]

MUSICA&SOM ☝


Ariel Posen – Discography: 14 CD(2019-2026)

 


Genre: Blues, Roots Rock, Americana
Artist (band) Country: Canada
Year of release: 2019-2026

Tracklist:
Albums:
2019 – How Long (00:33:46)
2020 – Familiar Ground (Live) (00:44:37)
2021 – Headway (00:49:05)
2021 – Mile End (00:46:47)
2023 – Mile End ll (00:36:34)
2023 – Reasons Why (00:38:03)
2024 – Reasons Why (Redux) (00:45:21)
2025 – Mile End III (00:37:18)
2025 – Ash Soan & Ariel Posen (00:18:05)
2026 – Bannatyne (00:47:49)
EP & Singles:
2019 – Angeline (Live) (00:12:43)
2021 – Spare Tire (feat. Cory Wong) (00:02:48)
2021 – Headway (Acoustic EP) (00:23:34)
2022 – Ariel Posen on Audiotree (Live) (00:21:53)
2022 – Downtown EP (00:19:01)
2024 – All The Ways (00:10:51)
2024 – You and What You Do (feat. Eric Krasno) (00:03:32)

MUSICA&SOM ☝


Percussão Contemporânea Brasileira - 1993 - V.A.

 

1 - Abertura
Compositores: Lui Coimbra - Marcos Suzano - Paulo Muylaert
Percussão: Marcos Suzano
2 - Receita de Samba
Compositor: Jacob Do Bandolim
Percussão: Leo Leobons
3 - Rio Negro
Compositores: Jorge Degas - Paulo Moura
Percussão: Marcelo Salazar
4 - Samba de Verão
Compositores: Marcos Valle - Paulo Sérgio Valle
Percussão: Paulinho Braga
5 - Na Barra
Compositores: Celso Pixinga - Marinho Boffa
Percussão: Carlos "Bala" Gomes
6 - A ginga do Mané
Compositor: Jacob Do Bandolim
Percussão: Celsinho Do Pandeiro
7 - Barro e lama
Compositor: Nando Carneiro
Percussão: Mingo Araújo
8 - Baile dos meninos
Compositor: Túlio Mourão
Percussão: Uakti
9 - Ventos do Oriente
Compositor: Torcuato Mariano
Percussão: Armando Marçal
10 - P'ro Mauro
Compositor: Jota Moraes
Percussão: Paschoal Meirelles
11 - Terra Natal
Compositor: Roberto Sion
Percussão: João Parahyba
12 - Samburá
Compositor: Francisco Soares
Percussão: João Cortez
13 - Só Xotinho
Compositor: Alemão
Percussão: Zinho
14 - Jade
Compositor: Luiz Alves
Percussão: Robertinho Silva
 
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Aqui temos uma compilação dedicada à cena de percussionistas destacados pela gravadora em que estavam atuando naquele momento. Tratam-se de faixas pinçadas de álbuns diversos, criando uma fotografia da percussão brasileira no início dos anos 1990, trazendo diversos estilos de criação e de performances, cuja diversidade só atesta a competência destes músicos. 



Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz - 2016 - A Saga da Travessia

 

 

1 - Banzo – Parte 1
Letieres Leite
2 - Banzo – Parte 2
Letieres Leite
3 - Banzo – Parte 3
Letieres Leite
4 - Honra Ao Rei
Letieres Leite
5 - Professor Luminoso
Letieres Leite
6 - Feira de Sete Portas
Letieres Leite
7 - Dasarábias
Letieres Leite
8 - Mestre Bimba Visita O Palácio de Ogum
Letieres Leite

Músicos 
Letieres Leite - Gabi Guedes - Luizinho do Jejê - Kainan do Jêje Atabaqueria - Tiago Nunes - Icaro Sá - Emerson Taquari - Enio Taquari - Jorge Walace - Ricardinho Braga - Jaime Nascimento - Arthur Nascimento - Fernando Rocha - Vinicius Freitas - Adailson Rodrigues - Junior Maceió - Hugo San - Vanilson Lemos - Juracy Junior - Gilmar Chaves  - Joatan Nascimento - Guiga Scott - João Teoria - Rudney Machado - Danilo Brito - Rowney Scott - Leo Rocha - Andre Becker - Paulinho Andrade - Joander Cruz

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Segundo disco do grupo, contém composições que nos transportam às marcas da diáspora africana presentes na cultura mundial, sobretudo o que se traduz em música instrumental brasileira.





Bendengó - 1979

 

01 - Ficou bêbado
Patinhas - Capenga - Gereba
02 - Piriquitamba 
Tuzé Abreu - Gereba
03 - Pé de vento 
Tuzé Abreu - Capenga - Gereba
04 - Dança do punhal
Patinhas - Capenga
05 - Celacanto e Lerfa-mu 
Patinhas - Capenga - Gereba
06 - Pajarito 
Capenga
07 - Bom dia violão 
Gereba
08 - Seguraí 
Patinhas - Capenga - Gereba
09 - Nem Freud pode 
Patinhas - Gereba
10 - Recuo tático 
Capenga 
11 - Paciência Tereza 
Patinhas - Gereba 
12 - Danças dos Ni 
Capenga-Gereba
 
Músicos
Rogério Duprat - Gereba - Capenga - Zeca - Silvano - Vermelho - Oswaldinho do Acordeon - Dinho - Paulo Moura - Geraldo Azevedo - Passoca
 
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Terceiro álbum do grupo, nesse trabalho se agrupam músicos valorosos ao lado de Gereba e Capenga, mantendo a ideia musical dos discos anteriores. Gereba fala de um rock da caatinga, parente do rock rural de Sá & Guarabira, mas, em nossa opinião, é a música popular brasileira mesmo, com toda a sua graça, crítica e diversidade que se registra aqui naquela época de abertura política. 




Jacco Gardner – Hypnophobia (2015)

O verão chega e os dias alargam-se, as noites quase que se escondem e o sono foge-nos das mãos. A cama, essa, está transformada num autêntico campo de batalha. Horas e horas a fio, debatemo-nos com os cobertores numa guerra interminável, abrimos e fechamos janelas, nadamos pelo colchão em busca de posição, ligamos e desligamos a luz e os olhos. Até que por fim nos chega o elixir: um pequeno holandês cujas melodias açucaradas e místicas nos prometem embalar num sono tranquilo que cheira a musgo de floresta.
O seu nome? Jacco Gardner. O misterioso neerlandês viu o seu nome plantado na boca do povo em 2013, com a chegada do misterioso e belo disco de estreia, Cabinet of Curiosities – uma coleção de músicas embrulhadas em doçura e mistério, um misto de melancolia e fantasia roubada de um conto de fadas qualquer que nos leram em crianças e que simultaneamente nos assustava e fascinava. Volvidos apenas dois anos, Gardner ouviu os nossos clamores e regressou para nos embalar.

A magia ainda é palpável. Depois de uma boa noite de sono, Jacco cresceu a olhos vistos e entrou na idade adulta. Se Cabinet of Curiosities ainda se prendia com o sabor de uma certa nostalgia de infância, o mais recente trabalhoHypnophobia, ergue-se repleta de segurança e certeza de quem já não olha para trás.
Jacco já não é aprendiz. As suas influências já não o prendem, muito pelo contrário: delas retira sem vergonha os ingredientes necessários para uma mistura completamente sua. Observamos no resultado final tanto um pouco de psicadelismo mais maduro, arrancado dos gigantes dos anos sessenta e setenta, como algumas ideias emprestadas pela vaga psicadélica mais recente, apontando como possíveis suspeitos Temples ou Foxygen. No entanto, é a magia com que acaricia as cordas e entoa ao nosso ouvido letras como “don’t fight the feeling, just let it in / you know you need it like the sunlight on your skin” que não nos deixa esquecer o seu nome.
Letra esta do single “Find Yourself” que liderou a entrada do disco na consciência pública, uma faixa que, como muitas das que vemos aqui, se vêm completamente despidas de adereços desnecessários – são quase todas criminosamente simples e não se aventuram por trilhos mais complicados ou cavernas sem luz. No entanto, é esta mesma simplicidade que lhes dá toda a sua beleza – e a mestria com a qual Gardner consegue tecer melodia após melodia, acorde após acorde, verso após verso sem grandes complicações é tudo o que precisamos para respirar fundo e saber que, esta noite, estamos em boas mãos. Um disco para relembrar em anos vindouros? Talvez não. Mas de vez em quando talvez dê jeito meter a tocar o psicadelismo barroco de um pequeno holandês cujas melodias açucaradas e místicas nos prometem embalar num sono tranquilo que cheira a musgo de floresta.


Ryley Walker – Primrose Green

Ryley Walker é um dos guitarristas que mais vem procurando renovar e dialogar com a História da música folkcountry e bluegrass americana. Muitas referências têm sido feitas na forma de encarar a sua música, em particular a este Primrose Green, referenciando-se nomes como John Martyn ou Van Morrison. São referências que o próprio Ryley Walker assume. All Kinds of You, o seu primeiro LP a solo, tinha canções mais directas, mais polidas, mas com Primrose Green Ryley Walker quis fazer diferente, expandir o seu som, levá-lo a mais territórios, chamando para si músicos jazz de Chicago e fazendo jams com eles, algo de crucial para levar a sua música a territórios mais híbridos, criando canções mais encorpadas e menos previsíveis.

Porque é de canções que falamos; embora sejam mais extensas que as de All Kinds of You (2014), a maioria não ultrapassa os seis minutos, sendo que apenas quatro das suas dez canções (menos de metade, portanto) ultrapassa os cinco. Uma das mais longas é “Sweet Satisfaction”, curiosamente um dos melhores temas do disco, que tem a precisão e a liberdade que Ryley anda à procura na sua criação musical.

Primrose Green é um disco coerente, com as faixas a relacionarem-se umas com as outras. Como compositor de canções, Ryley tem-se procurado reinventar e sobretudo encontrar, explorando vários territórios e procurando perceber o que funciona melhor. Este disco ainda é uma busca: é um disco com uma identidade demarcada, que se inspira na música feita sobretudo nos anos 70 em solo americano mas que a sabe apropriar de uma forma inventiva, simultaneamente pessoal (porque lhe serve de forma de expressão) e colectiva (pela relação que estabelece com os restantes músicos que tocam no disco, que permite esse som mais desenvolvido e forte face ao que era o seu trabalho anterior).

The High Road”, um dos melhores temas, parece evocar os fantasmas de Nick Drake, com a sua sonoridade densa e sombria. “Sweet Satisfaction” deixa-se levar pelo poder que é tocar música com outros e abandona-se a esse fervor. Mas é “On The Banks of The Old Kishwaukwee” que mais convence, com a sua sonoridade que lembra a música de Steve Gunn pela forma como, tal como esta, consegue relaxar e criar um estado que em certa medida é letárgico mas que não é nunca monótono ou desleixado. Imaginamos Ryley Walker imerso na composição do tema, num canto qualquer de uma divisão caseira, porque também nós imergimos na música.

É um disco muito interessante, que provavelmente será recordado por melómanos de décadas vindouras, precisamente porque Ryley soube inspirar-se no passado para desenhar um presente diferente, distante da maioria das bandas-sonoras contemporâneas: onde a maioria se quer mostrar extrovertida e comunicar a todo o custo com o outro, a introspecção de Ryley Walker – como de Jessica Pratt, de Tamara Lindeman ou de Steve Gunn, por exemplo – soa-nos demasiado clássica, demasiado nostálgica (e por isso são sempre engavetados no passado, como se olhar para o passado fosse um revivalismo maior que o de forçar uma cópia de um modelo do presente tão gasto que já se torna difícil sair). O facto de não o achar um escritor de canções tão dotado (ou melhor: tão maduro, capaz de dar às palavras um valor singular) quanto os outros músicos americanos referidos não diminui excessivamente uma música cuja estética não é desinteressada nem preguiçosa, mas que é, pela técnica de todos os talentosos músicos que tocam em Primrose Green, recriada com autenticidade e criatividade (e que tem um bom-gosto e uma liberdade que a uns parecerão ultrapassadas, mas que para mim não são mais que uma lufada de ar fresco). Este é um disco feito por músicos que gostam de música e a procuram renovar. E é um disco urbano que conhece bem a importância do espaço e do tempo serem pensados de uma forma própria.

 

FFS – FFS (2015)

Conheço os Sparks desde a minha adolescência, e sempre vi neles uma banda inteligente, bem humorada, capaz de fazer algo sempre diferente, disco após disco, sem perder, no entanto, a sonoridade e identidade próprias. Gosto deles, mas confesso que aprecio ainda mais a sua fase recente, a que abarcou discos como Lil’ Bethoven (2002), Hello Young Lovers (2006) e Exotic Creatures Of The Deep (2008). Os distantes álbuns clássicos dos anos 70, como Kimono My House ou Propaganda, por exemplo, esses estão já tão distantes no tempo , que parecem perdidos numa qualquer galáxia quase irreconhecível. Quanto aos Franz Ferdinand, o que dizer da banda indie rock que melhor música faz para os amantes de calças apertadinhas e gravatas estreitas? São bons, muito bons até, entusiasmantes, inteligentes nos versos e nas melodias que criam, e bem humorados também. Por isso, a fusão improvável de Sparks e Franz Ferdinand tem tudo para resultar otimamente. E resulta! Foi amor à primeira audição, como há já algum tempo não me acontecia com um disco destas características.

Confesso ter sentido, à partida, alguma apreensão quando fui confrontado com um disco assim, unindo nomes dignos de figurarem numa qualquer generation gap musical list. Foi, confesso também, passageira essa vaga preocupação. FFS é um álbum bem disposto, mesmo quando trata de alguns assuntos mais sérios, como a solidão bem enraizada nos dias modernos, logo na faixa de abertura, a dançável “Johnny Delusional”. Tudo aqui combina na perfeição. Há muito de Sparks, mas o refrão não poderia ser mais Fernandiano. Como na seguinte “Call Girl”, onde a receita se repete. Nos momentos mais melancólicos, tudo decorre imaculadamente. O melhor exemplo do que digo é a belíssima “Little Guy From The Suburbs”, uma das melhores canções do disco. Há aqui algo de literário, coisa que não me deixa indiferente. Os versos são bons, a melodia vai crescendo, libertando-se das suas próprias correntes, algo claustrofóbicas de início. A visão sobre os falsos profetas dos tempos que correm é, neste tema, maravilhosa. O classicismo moderno (os paradoxos, sempre os paradoxos…) das canções dos Franz Ferdinand mostra-se em muitos dos temas (“The Man Without a Tan” é um ótimo exemplo do que afirmo), bem como o synth pop erudito dos Sparks na excêntrica, por vezes operática e bem irónica “Collaborations Don’t Work”. Boas canções não faltam por aqui. Excentricidade q.b. também não. Crítica política, igualmente. Ouça-se “Dictator’s Son”, e imediatamente somos levados a pensar no palerma que governa a norte, o local que é bem mais democrático a sul, do outro lado do mundo.

A produção de John Congleton, que já trabalhou com nomes importantes como David Byrne, St. Vincent ou Anna Calvi, faz aqui um fantástico trabalho. Art popnew waveglam rock de pendor mais modernista, tudo bem musculado e grandiloquente, intenso, mas também melancólico e lírico, num ou noutro momento, fazem deste FFS um disco que cabe bem nas noites quentes deste verão. Com um copo de cerveja na mão, este álbum escorre lindamente! E pede mais copos, obviamente. Segundo parece, está prevista uma edição especial e alargada do disco (para além da edição deluxe já editada), o que poderá ter algum interesse adicional, uma vez que depois de ouvido o álbum, fica a vontade de ouvir mais algumas canções da dupla Franz Ferdinand / Sparks. Enquanto isso não acontece, há sempre a boa hipótese do modo repeat, que é o que estou a fazer enquanto alinhavo estas linhas.

Ah, só mais uma coisa: ao vivo, isto deve ser bombástico! É só ter alguma calma e rumar ao Super Bock Super Rock no dia 18 de julho. Estarão no palco principal, por volta das 23.30.

 

Jim O’Rourke – Simple Songs (2015)


Seguramente que a maioria dos que lêem o Altamont já se depararam com o nome Jim O’Rourke, assim como eu. É provável que – entre leitores e outros escribas Altamont – muitos o conheçam já, que é coisa que até há pouco tempo não podia dizer. Continuo sem o conhecer de forma completa, é certo, mas estou já minimamente a par de algumas das coisas em que O’Rourke esteve metido, desde a participação nos Sonic Youth em discos como o Murray Street, ao trabalho de mistura do fabuloso Yankee Hotel Foxtrot dos Wilco, passando pelo seu envolvimento nos Loose Fur (banda que criou juntamente com Jeff Tweedy e Glenn Kotche, que originou dois discos – o primeiro, único que ouvi, recomenda-se) e pelos seus extensos trabalhos a solo, dos quais só posso falar dos que serão porventura os mais conhecidos: Insignificance, de 2001, o bonito e inteiramente instrumental The Visitor, de 2009, e o actual Simple Songs, de 2015. Agora que já assumi o atraso temporal da minha atenção à carreira deste americano, nascido em Chicago, falemos directamente de Simple Songs: ouvi-o pela primeira vez em pré-estreia no site da NPR, no passado mês de Maio, e só pensava de onde é que o tipo saiu (resposta: de todo o lado).

O título é desde logo curioso. O que aqui temos não são exactamente canções simples – os arranjos são até complexos, e porventura de recepção pouco imediata -, mas ao mesmo tempo não são também temas experimentais no sentido mais utilizado do termo: Jim O’Rourke compôs aqui canções, de formato relativamente estável e definido, mas dentro dessa estrutura criou canções interessantes, que soam por um lado “simples”, mas por outro profundamente diferentes das da maioria dos seus contemporâneos – sobretudo dos que se movem nos territórios rock.

Este era um disco que cabia bem ali na colecção dos anos 70: ambicioso, grandioso, mas com sensibilidade rock, a saber jogar no limite do foleiro mas encontrando-se do lado de cá pelo bom gosto, pelo pouco histrionismo e pela recusa na procura de soluções simples para as canções: versos e linhas instrumentais construídas com truques exaustos de tão utilizados nos tempos mais recentes. Na realidade O’Rourke faz um disco de uma delicadeza (ou sensibilidade) melódica, por vezes quase épica, que tem esse espírito rock sem necessariamente ser puramente rock – nos instrumentos utilizados, no formato da canção e na acalmia que por vezes paira no disco (essencial o uso do piano). Uma acalmia que por vezes é épica, o que faz com que – felizmente – não seja nem rock de estádio à Foo Fighters nem uma espécie de orquestra sinfónica a tocar temas rock.

Há temas que, não sendo maus, têm uma qualidade mais baixa, mas a maioria estará seguramente entre aquilo que de melhor se fez (e que provavelmente se fará) este ano: “Friends with benefits” é uma excelente abertura, “Half Life Crisis” é uma canção pop nada foleira (só o parecerá a uma audição apressada) e “Hotel Blue” é belíssima, de um classicismo difícil de superar.

Quatro anos depois de The Visitor, Jim O’Rourke traz-nos agora “canções simples”. Aquilo que se seguirá é um ponto de interrogação dos grandes, e a dificuldade de o catalogar e de o encaixar na indústria é também o que o torna um dos actores mais singulares da música americana destas primeiras duas décadas.


Unknown Mortal Orchestra – Multi-Love (2015)

 

A mudança é difícil. Seja quem mude – nós ou os outros -, seja voluntária ou inevitável, a mudança é difícil. 2015 tem sido um ano desafiante em todas as frentes: da ameaça terrorista de grupos extremistas como o Estado Islâmico e o Boko Haram ao falhanço da austeridade nos países europeus, mais que nunca o mundo tem nas suas mãos um futuro cada vez mais irresponsável, cada vez mais escuro. A Grécia, como ninguém, sabe-o. E não teve medo: abraçou com coragem a mudança.

O mesmo fez Ruban Nielson. Conhecido por Unknown Mortal Orchestra, o músico australiano tem vindo a fazer cair queixos por onde passa, transportando na bagagem dois portentos de neo-psicadelismo que não deixaram ninguém indiferente. Mas depois disso, o que poderia vir a seguir? Quem o visse ao vivo, diria que o caminho seria o mesmo, talvez com mais guitarras, mais solos, mais hinos épicos. Foi precisamente o caminho contrário que escolheu. A mudança, a escuridão positiva de não saber o resultado final, a forma que as coisas poderiam tomar, a quebra da rotina. Por isso em Multi-Love ouvimos mais teclados que nunca, numa pop complexa, ritmada e solta que não poderia ter sido prevista.

O disco abre com o single homónimo, dado a conhecer no início do ano. Fala-nos da relação poliamorosa que teve com a esposa Jenny e outra mulher, e todo o disco transparece a mágoa causada pelo seu final. Deixando claro que já nada seria como dantes, Nielson prossegue com “Like Acid Rain”, um tema que tem tanto de fatalista (na letra, em linhas como “You and I are doomed to burn” e “Tears are falling down”, repetida no final dos versos) como de prosperidade sonora, a soar a um futuro mais brilhante. O resto do tempo é passado a falar de amores de uma noite que foram também amores de uma vida, amores polígamos, os problemas e os fantasmas mais profundos da humanidade e do próprio, com os sintetizadores sempre de fundo e uma guitarra tímida que por vezes decide aparecer.

Há pista de dança com toda e qualquer bugiganga a servir de percussão em “’Can’t Keep Checking My Phone”, há teclas melosas a cantar um mundo ganancioso e egoísta, ao mesmo tempo que lamentam um amor desvanecido, em “Extreme Wealth and Casual Cruelty”. Há uma pop futurista e sideral, abundante em pormenores, riqueza e sentimento. Temos em “Necessary Evil” um braço que nos puxa para a sonoridade dos discos anteriores, onde a guitarra lo-fi retorna ao seu lugar basilar e a voz andrógina fala do mal necessário que é para a mulher.

Menos forte e impactante, é certo, mas o terceiro longa-duração de Unknown Mortal Orchestra é igualmente rico em conteúdo e génio. A mudança é grande e difícil, mas à medida que o álbum e a história que conta são digeridos, apercebemo-nos que Ruban Nielson nos trouxe mais um portento. Um portento de quem deixa pra trás os erros e a irresponsabilidade da juventude e toma as rédeas, perdendo as ilusões de um mundo fácil e cor-de-rosa.


Destaque

Fraser Edwards – Discography (12 releases) – 2016-2025

  Genre: Power Metal Year of release: 2016-2025 Artist (band) country: UK Tracklist: Albums [02:03:02] 2016 – I Am God [00:38:50] 2020 – The...