quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Tokyo Blade: a confusão na noite da navalha

 

Foram inúmeros fatores que fizeram com que várias das ótimas bandas que surgiram ali no início da New Wave of British Heavy Metal não tivessem o mesmo sucesso de Iron Maiden e Def Leppard. No caso do Tokyo Blade, a meu ver, um dos principais desses fatores foi a inconstância na sua formação. Desde a época em que a banda se chamava Killer e depois Genghis Khan já havia esse problema até que a formação se estabilizou para a gravação de seu primeiro disco autointitulado com Andy Boulton e John Wiggins nas guitarras, Steve Pierce na bateria, Andy Robbins no baixo e Alan Marsh nos vocais.

Porém, no ano seguinte já durante a gravação do seu segundo álbum que se chamaria Night of the Blade a banda resolve trocar seu frontman – sempre um movimento traumático. Segundo a versão oficial o principal motivo para essa decisão era o fato de que Alan Marsh tinha o famoso “medo de palco”, fato que atrapalhava o grupo nas apresentações ao vivo. Porém, quem chegou à conclusão de que o vocalista não estava dando conta do recado foi a gravadora. Na verdade, a empresa queria colocar alguém de sua confiança no posto com o intuito de que o vocalista fosse mais “vendável”. A comparação com David Lee Roth foi usada. O álbum, que viria a ser o Night of the Blade, estava praticamente pronto, Marsh sabendo dessas movimentações e chateado acabou pedindo as contas, antecipando a movimentaão. Isso foi o pior dos mundos para a banda que agora nem vocalista tinha. O cantor que a gravadora escolheu não deu certo e eles ficaram na mão. Para substituí-lo foi escalado Vick Wright. Incrível saber que Vick tinha dezessete anos na época e foi encontrado depois de responder um anúncio que saiu na revista Melody Maker. Ele estava numa banda chamada BoBo e foi chamado meio que as pressas para uma turnê que o Tokyo Blade faria na França ao lado do Mama’s Boys. Ele diz que teve que aprender 12 músicas em 24 horas para a turnê ouvindo o material em um walkman durante as viagens, mas a parte boa disso tudo foi que eles executaram várias das músicas de Night of the Blade durante um mês antes dele entrar em estúdio para regravar os vocais do disco. Essa turnê foi um fiasco para a banda que teve seu equipamento roubado – roubaram até o walkman – e ficaram sem dinheiro para tudo, até mesmo para comer. Acabaram recebendo uma ajuda mais do que necessária do pessoal do Mama’s Boys.

Formação do lançamento original: Andy Wrighton, Vic Wright, John Wiggins, Steve Pierce e Andy Boulton

Alan Marsh fez um ótimo trabalho em estúdio nos primeiros lançamentos e a inevitável comparação com o que Vick Wright entregou é baseada nos estilos vocais de cada um. Num primeiro momento a voz de Wright se apresenta mais exuberante, com agudos altíssimos, alguns exageros, porém mostrava uma personalidade incrível quando se lembra da idade do vocalista. Por outro lado, quando se tem acesso as gravações de Marsh para as faixas do álbum fica claro que os dois performaram as músicas de maneira bastante parecida, principalmente em relação aos timbres vocais. Conheço muitos fãs que preferem a versão de Marsh por acharem que Vick exagera nos tons. Mas esse é um caso clássico de preferência pessoal. Para mim, que conheceu e passou a gostar da banda por esse disco na sua versão original, fica na memória afetiva a admiração com a potência vocal de Wright. Alguns ainda vão lembrar da clássica resenha que saiu na Rock Brigade em que o vocalista é apontado como o ponto fraco do disco – dizia a resenha que ele era muito americanizado e choroso.

Alan Marsh deixou 10 faixas prontas, pouco mais de 40 minutos. Seria o suficiente para os dois lados de um LP. Não sabemos se, caso fosse lançado, seria usado tudo em um único disco. Depois da regravação de tudo por Vick Wright, duas novas músicas foram compostas e ambas entraram no álbum: “Rock Me to the Limit” e a ótima “Lightning Strikes (Straight to he Heart)”. Essa última foi o primeiro single do álbum e no lado B duas faixas regravadas que não entraram em Night of the Blade: “Fever” e “Attack, Attack”. Outras duas músicas que faziam parte daquelas dez também saíram fora do álbum, “Madame Guillotine” e “Break Out” foram incluídas em um EP com nome de Madame Guillotine. Quem está acompanhando as contas percebeu que junto das duas novas músicas mais seis faixas inicialmente compostas junto de Alan Marsh fazem parte do álbum, a saber: “Someone to Love”, “Night of the Blade”, “Warrior of the Rising Sun”, “Unleash the Beast”, “Love Struck” e “Dead of the Night”. Uma curiosidade que passa despercebido para muita gente é que para agilizar a regravação e o lançamento do álbum, além de baixar os custos com o estúdio, decidiu-se que os backings vocals inicialmente gravados por Alan Marsh seriam mantidos, dessa forma podemos dizer que os dois vocalistas estão presentes no álbum. isso desagradou todo mundo, mas não tinha muito o que ser feito. Para quem for ouvir com mais atenção vai perceber que as duas faixas já compostas com Vick na banda eram muito mais alinhadas ao hard rock do que o resto do repertório. Em uma entrevista já depois de muitos anos que ele já tinha saído da banda o vocalista conta que quando entrou percebeu que os outros caras tinham aspirações de ser o novo Iron Maiden, enquanto ele era mais chegado ao Aerosmith e o Rose Tattoo. Boulton ficou insatisfeito com o resultado do disco, porém teve que se render à boa repercussão que o disco teve.

Formação do relançamento: Andy Boulton, Alan Marsh, John Wiggins, Steve Pierce e Andy Wrighton

Conseguimos comparar tudo isso hoje em dia por conta do lançamento em 1998 de Night of the Blade: The Night Before, que trazia aquelas dez faixas gravadas por Alan Marsh. A existência desse material era de conhecimento de todos, mas demorou 14 anos para ser disponibilizados aos fãs. Junto desse material, como bônus, mais seis faixas gravadas sob o nome de Mr. Ice, banda que Alan Marsh e Andy Boulton chegaram a ter no início dos anos 90, antes de uma das várias reformulações que o Tokyo Blade teve ao longo dos anos. Porém, quem está disposto a conhecer todo o material dessa época pode procurar a edição nacional lançada pela Classic Metal ainda em 2022. Uma edição linda com poster, vários encartes e o principal, o álbum original, os dois singles além de algumas músicas gravadas ao vivo em estúdio em 1985 que chegou a sair na época com o nome de The Cave Sessions – Official Bootleg e, claro todo o material gravado pelo Alan Marsh. Uma edição completa para qualquer fã ficar satisfeito.

Edição nacional da Classic Metal

Depois de Night of the Blade, a banda ainda gravou mais um álbum com Vick Wright chamado Blackhearts & Jaded Spades, já com a colaboração maior do vocalista e isso fica claro pelo estilo abordado nas músicas. Andy Boulton julga que essa guinada no estilo foi a maior burrada que eles fizeram e quem ouve o álbum percebe que ele está certo. Quando mais crescia a aproximação ao hard americano e a quantidade de laquê no cabelo, mais caía sua popularidade. O problema, é claro, não é o hard rock americano, que particularmente adoro. A questão é que quando se ouve o material não parece algo feito com naturalidade. Ouçam as duas baladas “Loving You Is An Easy Thing To Do” e “You Are the Heart” e tentem descrever com algum outro adjetivo que não seja ‘constrangedor’. No fim das contas a banda se separou e cada um foi fazer alguma coisa. Vick comprou uma passagem só de ida para os Estados Unidos e foi morar em Los Angeles. Chegou a ter algumas bandas, quase entrou no L A Guns e teve no Johnny Crash seu trabalho mais importante, chegando a gravar com Matt Sorum e Dizzy Reed um álbum que nunca foi sequer lançado. Andy Boulton chamou outros músicos, fez o Andy Boulton’s Tokyo Blade e gravou Ain’t Misbehavin… que se não é um primor, pelo menos supera o anterior. Muitas idas e voltas depois, e recentemente a banda da formação clássica se juntou, com Alan Marsh, e estão gravando novamente. Talvez sem a notoriedade que podiam ter, mas vale a pena correr atrás.

Beatles at the Hollywood Bowl: o disco perdido dos Beatles

 

Na  primeira semana de Maio de 1977, foi lançado o histórico At The Hollywood Bowl, um registro dos músicos no auge de sua popularidade. O disco ficou décadas sem ter um relançamento e quando ocorreu, em 2016, chegou com uma nova cara. Novo tracklist e nova arte. É capaz que os fãs mais novos nem saibam sobre o LP, que é oficial. Por isso, no post de hoje, trago um pouco da história desse lançamento.

O vinil é, na verdade, uma coletânea de três concertos realizados pelos garotos de Liverpool no Hollywood Bowl (Los Angeles): 23 de Agosto de 1964, 29 e 30 de Agosto de 1965.  O disco era pra ter sido lançado no ano de 1964. A gravadora queria aproveitar o momento da beatlemania. A ideia inicial, para dizer a verdade, seria lançar a apresentação do Carnegie Hall (Nova Iorque), mas os rapazes não conseguiram permissão para gravar o espetáculo. Meses depois, decidiram gravar a apresentação de Los Angeles, mas o resultado final não agradou a equipe.

 

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John, Paul, George e Ringo ouviram as gravações, gostaram do material, se disseram surpresos e pediram uma cópia para eles. Contudo, os músicos disseram que não gostariam que o registro fosse lançado. George Martin também não aprovava o lançamento. No livro Complete Beatles Recording Sessions, Martin afirma que o procedimento de gravação foi equivocado. “Você teria que gravar a banda em dois canais e ter o terceiro para as vozes. Assim, poderíamos descer e subir o volume na mixagem. Eles fizeram errado. Fizeram uma mixagem bizarra. Quando recebi as fitas, encontrei guitarras e vozes no mesmo canal. E a gravação focava mais nos gritos do que na performance dos Beatles”.

Atualmente, é cada vez mais comum os grupos entrarem em estúdio para consertarem os erros antes de colocarem um trabalho ao vivo nas lojas. Voyle Gilmore, que produziu o LP junto com George Martin, chegou a declarar que “George Martin fez um discurso onde parecia que havia modificado algumas coisas. Eu duvido. Não havia muito que pudesse ser feito. O Hollywood Bowl tinha um bom sistema de som. A única coisa que fizemos foi plugar nossos microfones. Eles fizeram seu show habitual e nós gravamos. Não tinha sido ruim. Então fui para o estúdio e trabalhei no som do publico. Abaixei um pouquinho”. O show foi gravado em condições que hoje são consideradas amadoras, mas na época, era o que havia de mais moderno: uma mesa de som de 3 canais com uma fita magnética.

 

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No ano seguinte, o grupo retornou ao Hollywood Bowl para mais duas apresentações. Ambas, sold-out. A Capitol decidiu gravar os dois shows novamente. Embora tenham achado a qualidade de gravação melhor do que a do ano anterior, os executivos acreditavam que o material ainda não tinha qualidade suficiente para ir ao mercado. Com isso, essas gravações foram arquivadas. Durante muitos anos a única gravação oficial rondando desse show eram 48 segundos de “Twist and Shout” no LP Beatles´ Story, disco que narrava a historia dos Beatles. Apresentava, intercalada com a narração, trechos de entrevistas (com os músicos e com fãs) e de musicas.

Em 1970, o ultimo trabalho do grupo britânico chegou às lojas. No ano seguinte, houve uma primeira tentativa de dar uma lapidada no material. O trabalho foi oferecido à Phil Spector, que havia trabalhado no disco Let It Be. As fitas foram enviadas, mas não houve retorno. Sete anos depois, ficou decidido que iriam lançar o álbum à qualquer custo, por conta dos bootlegs que começavam a surgir nas lojas com as gravações dos shows. A maior parte, segundo os executivos, com som ruim.

A Capitol procurou Voyle perguntando se sabia onde haviam sido arquivadas as fitas originais. Diziam que gostariam de lançar o material e que gostariam que George Martin estivesse envolvido por conta da proximidade dele com os músicos. Martin se lembrava que não havia gostado da gravação na época, mas quando ouviu novamente as fitas ficou impressionado com a performance. “Fiquei maravilhado com a vitalidade e a crueza dos vocais. Então disse ao Bhaskar (Menon, presidente da Capitol) que iria tentar consertar com a tecnologia atual. Juntei-me ao técnico de som Geoff Emerick e transferimos as gravações de 3 canais para maquinas de 24 canais. Tínhamos um total de 22 musicas. Reduzimos para 13. Algumas tiveram de ser deixadas de fora por conta dos gritos que encobriam a banda”. A sacada dos produtores era genial, mas tinha um pequeno problema. Com o uso continuo do aparelho, as fitas magnéticas acabavam se derretendo por conta do superaquecimento. George Martin, que não é idolatrado à toa, encontrou uma solução pratica e nada usual: resfriar as fitas utilizando secador de cabelo com ar frio.

 

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As faixas foram novamente filtradas, editadas e equalizadas. Não foram realizados overdubs. Não teve conserto na parte vocal, nem instrumentos adicionados em estúdio. A solução encontrada foi fazer um “best of” daquele material. Foram selecionadas seis músicas do show de 64 (“Things We Said Today”, “Roll Over Beethoven”, “Boys”, “All My Loving”, “She Loves You” e “Long Tall Sally”), duas do show de 29 de Agosto de 1965 ( “Ticket to Ride” e “Help”) e quatro do show de 30 de Agosto de 1965 (“Twist and Shout”, “She´s a Woman”, “Can´t Buy Me Love” e “A Hard Day´s Night”). A faixa “Dizzy Miss Lizzy” é uma mistura da apresentação do dia 29 com a do dia 30. Talvez essa tenha sido a tal modificação comentada por George Martin que Voyle Gilmore não conseguiu sacar. (Vale lembrar que as faixas do dia 29 foram creditadas na capa erroneamente como gravações do dia 30. Por isso, muitos pensam que o álbum foi gravado em duas noites, ao invés de três).

O LP pode não ter agradado aos produtores, mas certamente agrada aos fãs. A qualidade de som é boa, levando em conta os fatores da época, e o registro é muito autentico. Os músicos esbanjavam energia. A execução não é perfeita. E nem teria como ser. Além de não possuir overdubs, os músicos muitas vezes não conseguiam ouvir o que estavam tocando (por conta do tal histerismo), portanto não estranhe se pegar um ou outro errinho. Ainda assim, o disco cativa e emociona o ouvinte. Justamente pela crueza da gravação e pela histeria da plateia, quando ouvimos o disco em volume alto, nos sentimos como se estivéssemos no local do show. Em 2016, por conta do lançamento do documentário Eight Days a Week, a gravadora finalmente lançou esse material em CD. O disquinho vinha com faixas adicionais e nova capa. No entanto, a versão original somente correndo atrás do vinilzão da época. Esse disco, que durante muitos anos, foi considerado pelos fãs como “o álbum perdido dos Beatles” sempre esteve na minha coleção. E você? Já conhecia essa versão de 1977? Ou só passou a conhecê-lo na nova prensagem?

 

Track list:

1. Twist and Shout
2. She’s A Woman
3. Dizzy Miss Lizzy
4. Ticket to Ride
5. Can’t Buy Me Love
6. Things We Say Today
7. Roll Over Beethoven
8. Boys
9. A Hard Day’s Night
10. Help!
11. All My Loving
12. She Loves You
13. Long Tall Sally


A segunda criação italiana

 

Nos dias de hoje, estamos assistindo a um resgate inacreditável de bandas dos anos 70 das quais nunca ouvimos falar. Graças ao e-bay e aos canais de troca como rapid share4-sharedmegaupload entre outros, vários cidadões ao redor do mundo tem disponibilizado preciosidades que custam, nas versões originais, muitos kgs de carne e algumas cervejas.
Um desses casos é o da excelente banda italiana La Seconda Genesi. A história deste precursor do rock progressivo italiano começa em Roma, em 1961, com um grupo chamado The Happy Boys. Nele, estavam Paride de Carli (guitarras) e Pier Sandro Leoni (bateria), além de Martino Fontana, Lucio Lucentini, Giuseppe Pompili e Giovanni Ancellotti, e eles tocavam aquele rock tradicional das bandas italianas nas décadas de 50, que segundo Sandro, tinha como principal influência o Shadows.

Paride começou a tocar guitarra quando tinha 19 anos. Antes, fez aulas de violão clássico e também de música latina, aprendendo a tocar desde reggae até bossa-nova, enquanto Sandro aprendeu a tocar sozinho, ouvindo os discos do Shadows.

 Peppermint Group

O estilo do Happy Boys nunca agradou a dupla, que decidiu sair e criar uma nova banda. Assim, em 1966, surgiu o The Peppermint Group. Um grupo bem mais maduro, com uma sonoridade mais rocker, e que fez um legado prestando um grande serviço para o rock italiano ao lado de outros como Trolls, Jet, Rokketti e Ghigo. Este grupo inclusive ganhou o prêmio de melhor banda italiana em um concurso nacional de rock, que permitia a banda vencedora excursionar por todo o país.

Essa turnê pela Itália atiçou o sentido de viajar dos garotos, e então, em 1969, Paride, Sandro, Loris Maranci, Enrico Pacchiarotti e Alfredo Bove formaram o Mhanas. O Mhanas fizeram fama, e foram precursores, tocando rock em cruzeiros marítimos dentro do navio Eugenio C., sendo que a maioria dos cruzeiros iam da europa para o Caribe (!), trazendo experiência para os amigos Sandro e Paride.

Em uma das viagens,quando o navio se dirigia para Buenos Aires, o grupo teve a oportunidade de abrir o show da tarde para nada mais nada menos que nosso Vinícius de Moraes (!). Após o show de Vinícius, ambos se juntaram e fizeram um improviso, com o público pedindo “Garota de Ipanema” (em italiano, “La ragazza di Ipanema”), mas que não foi tocada, pois Vinícius acabou se incomodando com os pedidos e decidiu deixar o lugar dos shows. Uma história que já valeria uma sessão inteira.
Mhanas no Flavia Costa

No ano seguinte, o grupo trocou de barco, indo para o Flavia Costa, que fazia excursões entre Miami e Nassau (Bahamas). Após essa louca turnê pelo caribe, que durou no total quase dois anos viajando pelos mares do mundo, o Mhanas voltou para a Itália, e descobriu que o mundo estava se transformando. Entre a efervescente cena rockeira de Roma, bandas como Pink Floyd, Yes, Van Der Graaf Generator e Mothers of Invention estavam rodando direto nas vitrolas das principais lojas da capital italiana, e a sonoridade chocou aos ainda beat Sandro e Paride, que passaram a frequentar cada vez mais essas lojas em busca daquele novo som, deslocando-se para outras cidades, como por exemplo Genova.
 Mhanas em ação

Em Genova, encontraram-se com outros músicos que estavam também tendo o primeiro contato com as viajantes composições dos grupos ingleses. Foi assim que surgiram Nazzareno Spaccia (baixo), Giambattista Bonavera (sax, flauta) e Alberto Rocchetti (voz, teclados). Rocchetti havia feito sucesso com o grupo Rokketti, citado anteriormente, e com quem gravou, em 1968, a bolachinha “Due Ali Nel Cuore / Sei Tu” (essa última um clássico dos clássicos italiano, cantada até hoje em qualquer boteco que tenha um cantor italiano), e estava afim de inovar seu estilo musical.

Os cinco rapazes fizeram uma forte amizade, e logo foram reconhecidos e “forçados” a montar uma banda pelo produtor Lucchetti, que batizou o conjunto como Stereo Otto. Começam a ensaiar dia e noite na casa de Paride. Com alguns pequenos shows, angariam um contrato com a Picci Records, onde Lucchetti trabalhava, e acabam participando da bolacha “Padre mio, padre Dio / Lo non vivrò”, de Pierluigi Terri.

Mudam de nome, agora para Stereo Quattro, passando a fazer trilhas para a TV. Com o pouco dinheiro que conseguem angariar fazendo essas participações, decidem investir em instrumentos e também na gravação de um álbum. Paride, que já possuia uma vida estável, incentivou os demais no projeto, e pensando no futuro da banda, decidiu se lançar como artista solo, acompanhado pela Stereo Quattro.
 O raro LP Naufrago in Cittá

Assim, gravam o raríssimo álbum Naufrago in Cittá, lançado em 1971 pelo selo Picci e sob o nome de Paride e gli Stereo Quattro. Do material, grande parte era composto por Paride. Apenas a parte de flautas e percussão surgia de improvisos. Ali, está um belo registro instrumental difundido em 11 canções com um predomínio de arranjos clássicos para o violão, onde o talento demonstrado por Paride é de alto nível. Destaque para a linda faixa-título, onde o solo de flauta acompanhado apenas pelo violão é de chorar.

Após a gravação do álbum de Paride, conseguiram confiança para lançar um disco como Stereo Quattro. Porém, a sonoridade da banda já era muito mais próxima ao progressivo inglês do que quando eles começaram. Assim, adotam um pomposo nome, La Seconda Genesi, e passam a cômpor canções para um álbum que seria gravado de forma totalmente independente. Os ensaios ocorriam no porão de uma igreja, e duraram várias semanas.

Em apenas quatro sessões de duas horas cada, estava terminada uma obra fantástica, que foi gravada praticamente ao vivo dentro de um estúdio de gravação de quinta categoria. O mais interessante é que o estúdio era tão precário que diversos problemas técnicos não davam o retorno para Sandro ouvir o que ele estava gravando. Então, para marcar o tempo, Sandro olhava os movimentos das mãos de Paride na guitarra e assim, sabia exatamente o que tinha que fazer!

 O único registro do La Seconda Genesi

Com a fita gravada, correm atrás de produtores, mas não são aceitos em nenhuma grande rede. Então, o material chegou nas mãos de Giuseppe Cassia, dono da velha conhecida, mas pequena, Picci Records, que investiu novamente nos garotos e bancou o lançamento do álbum. Em meados de 1972, chegava as lojas o mítico álbum Tutto Deve Finire, um clássico do progressivo italiano.

Trazendo influências do jazz, da música clássica e principalmente do rock britânico, o disco abre com a instrumental “Ascoltarsti Nascere“, onde barulhos de percussão acompanham uma guitarra fantasmagórica, com o wah-wah delirando, enquanto notas de órgão e baixo desfilam entre acordes de sax, em uma assustadora introdução. Bonavera passa a solar em um ritmo apenas dele, enquanto os demais músicos viajam em seus instrumentos, lembrando muito as viagens instrumentais que seriam gravadas posteriormente no álbum The Lamb Lies Down On Broadway, do Genesis.

Os acordes do órgão vão ficando mais fortes, assim como Sandro vai dando ritmo a loucura que está sendo feita no estúdio, de forma lenta, para então Paride assumir o posto de frente dos solos com a cadência da bateria e do baixo bem agitada, tendo como acompanhamento os acordes de órgão e sax. Paride manda ver em um ótimo solo com o wah-wah, e para quem ouve seu disco antecessor, é impossível imaginar que é o mesmo músico.

Paride puxa um riff, que é seguido por baixo, órgão, bateria e sax, encerrando a canção com um sessentista solo de guitarra, que leva para “L’urlo”, onde a percussão de Sandro é seguida pelo baixo cavalgante de Spaccia. Rocchetti executa os acordes do baixo no órgão, enquanto Bonavera viaja no sax, com um ritmo totalmente hipnotizante. O solo de Bonavera é enlouquecedor, com a guitarra entrando e fazendo os acordes do órgão, viajando nesse sistema durante impecáveis 4 minutos, com o sax e a guitarra repetindo o riff final de “Ascoltarsti Nascere” para então entrarmos na dupla “Se Ne Vai Con Noi / Vedo Un Altro Mondo“.

Sandro faz uma marcha de guerra na introdução de “Se Ne Vai Con Noi”, seguido pelos acordes tristes de Rocchetti e Bonavera. Paride e Spaccia passam a acompanhar o andamento fúnebre de Sandro, e então ouvimos os vocais de Rocchetti, cantando uma triste canção em italiano. Vocalizações feitas pelos demais músicos surgem enquanto os acordes de órgão se juntam aos da guitarra e do baixo, para a bateria fazer um rufo e entrarmos no excelente rock de “Vedo Un Altro Mondo”, onde Paride entra executando o riff inicial junto com Spaccia, para Bonavera mandar ver em um ótimo solo de flauta. 

Os vocais de Rocchetti são retomados dividindo a melodia vocal com a guitarra, com destaque para a base baixo/órgão, chegando em uma interessante sequência de acordes e viradas de bateria, enquanto Rocchetti executa um fervoroso solo no órgão, para encerrar a faixa e o lado A com a repetição do riff inicial.

O lado B abre com os viajantes 8 minutos de “Dimmi Padre“, onde a introdução com todos os instrumentos repetindo o mesmo ritmo nos leva para um pesado riff de guitarra, acompanhado por baixo, flauta, órgão e bateria, Rocchetti fica sozinho com o órgão, voltando então para o pesado riff e para mais um solo de órgão. Paride faz alguns acordes com a guitarra sem distorção, e então Bonavera passa a solar com a flauta. Baixo, bateria e órgão vão sendo adicionados aos poucos, com Paride repetindo infinitamente os dois acordes. O solo de Bonavera é excelente, e então Sandro novamente começa a ditar o ritmo da canção, aumentando o mesmo enquanto Bonavera perde o fôlego na flauta. 

Rocchetti faz viajantes mudanças de acordes no órgão, e também é outro ponto de atenção central. Finalmente, guitarra e flauta passam a fazer um segundo riff juntos, trazendo os vocais de Rocchetti acompanhados apenas pelos dois acordes da guitarra de Paride. A cadência da bateria, baixo e órgão é retomado, e Bonavera faz intervenções com a flauta durante cada estrofe, encerrando a faixa com um insano solo de guitarra, que apesar de não ter muita técnica, é carregado de sentimento.

“Breve Dialogo” é uma breve canção apenas com o violão clássico de Paride e alguns acordes de órgão, lembrando seu álbum solo, seguida pela dupla “Giovane Uomo / Un ‘Infanzia Mai Vissuta”, a qual começa com um embalo fenomenal da guitarra de Paride e do teclado elétrico de Rocchetti. A cozinha manda ver, e então temos os vocais de Rocchetti, com um refrão que repete o nome da canção, para então um solo de bateria levar à instrumental “Un ‘Infanzia Mai Vissuta”, que começa apenas com o violão de Paride, lembrando a canção “Ave Maria” de Bach. Paride começa a solar com o violão por cima dos acordes dedilhados que ele construiu e sobre acordes de órgão, passando então a solar com a guitarra, tendo a bateria, o dedilhado do violão e o órgão como acompanhamentos, em uma linda faixa que encerra com chave de ouro esse único registro da La Seconda Genesi.

Infelizmente, o processo de divulgação do vinil foi totalmente precário. Apenas 200 cópias foram lançadas, cada uma com uma capa diferente, na tentativa de atiçar o ouvinte e aos colecionadores a comprarem todas as cópias. Porém, dessas 200, pouco mais de algumas dezenas foram vendidas. O fato mais interessante é que do ponto de vista de fãs e também da própria mídia italia, La Seconda Genesi era tratada como uma das bandas mais fortes para alcançar o status de a maior banda de rock da Itália (posto que pertenceria dois anos depois ao Premiatta Forneria Marconi). 

Uma das diversas capas de Tutto Deve Finire

Porém, o fracasso comercial de Tutto Deve Finire acabou precocemente com um dos maiores talentos da Itália, apesar de permanecerem por mais dois anos, tendo como pontos máximos a participação como acompanhamento do álbum Io, L’Altra Faccia dela Luna, da cantora Fiammetta, e as únicas apresentações no Festival de Vanguarda e Novas Tendências (Festival d’Avanguardia e Nuove Tendenze) realizados em Villa Pamphili e Civitavecchia, ambos em 1975, onde o grupo apresentou Tutto Deve Finire na íntegra.

Paride e Rocchetti passaram a acompanhar o cantor italiano Vasco Rossi, enquanto Sandro lançou-se como artista de estúdio, tendo participado de álbuns diversos pela Itália afora. Quanto a Bonavera e Spaccia, cairam na ostracidade. 

O tempo passou e em 1994 ocorreu o resgate de bandas italianas do rock feito pela gravadora Mellow Records, que re-lançou Tutto Deve Finire em CD. Em 2002, uma versão mais caprichada foi lançada pela gravadora Akarma, trazendo Tutto Deve Finire e Naufrago In Cittá no mesmo CD.

Recentemente, o ebay registrou a venda de uma das cópias originais do vinil de Tutto Deve Finire, com um precinho camarada de 2000 euros. Porém, para os que querem conhecer a banda, uma versão em vinil 180 g já foi lançada, e assim como a versão original, possui diferentes capas, todas com a mesma pintura, mas com cores diferentes. Já o cd é facilmente encontrado nas lojas italianas. Passando pela Itália e querendo conhecer algo novo, atire-se de cabeça, pois a sonoridade do La Seconda Genesi é mais que especial.


O retorno dos Black Sabbath

 

Formado em 1968, na cidade de Birmingham, situada no leste da Inglaterra, o Black Sabbath tornou-se – ainda nos anos 70 – uma entidade além da música, exercendo uma enorme influência na criação e desenvolvimento do que viria a ser o Heavy Metal, e seus consequentes desdobramentos de estilo. Entre 1970 e 1978, o quarteto, então formado pelo guitarrista Francis Anthony Melby “Tony” Iommi, o baixista Terence Michael Joseph Butler, o baterista William Thomas “Bill” Ward, John Michael “Ozzy” Osbourne (vocais), lançou 8 discos de estúdio, sendo cinco deles, exatamente os cinco primeiros, fundamentais em qualquer prateleira de fã de rock com alguma pretensão mais séria.

Geezer Butler, Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Bill Ward.

Depois do último LP desse período, Never Say Die, lançado em 1978, Iommi seguiu com o Sabbath, ora contando com alguns dos integrantes de sua primeira fase, ora como único membro remanescente, mas sempre produzindo material de qualidade indiscutível – algumas vezes mais, outras menos. Já Ozzy seguiu em carreira solo, oscilando entre excelentes lançamentos, e palhaçadas homéricas – como o Reality Show “The Osbournes”. Durante os anos subsequentes, várias foram as tentativas de retorno da formação clássica do Black Sabbath, a primeira a ultrapassar os simples rumores, aconteceu em 1985, por ocasião do festival beneficente “Live Aid”. O grupo tocou apenas 3 músicas: “Children Of The Grave“, “Iron Man” e “Paranoid”, mas foi o suficiente para fortes boatos de uma reunião de fato e um possível disco de estúdio com material inédito. Boatos logo desmentido tanto pela parte do Sabbath quanto de Ozzy.

Seis anos depois, mais lenha para a fogueira: Ozzy prometia (e não cumpriu) a despedida dos palcos, e como forma de comemorar o passado e presentear os fãs com uma despedida à altura de sua carreira, reuniu-se novamente com o Black Sabbath em um de seus shows para tocar alguns clássicos de sua ex-banda. “Black Sabbath” desse show, acabou gravada e lançada em Live & Loud, disco ao vivo do vocalista, lançado em 1993.

Black Sabbath no Live Aid.

Mais uma vez as esperanças de um retorno efetivo vão por água abaixo, e dessa vez, ainda culminam com uma nova saída de Ronnie James Dio da banda (a primeira foi em 1983). Cinco anos se passam e a novela da possível reunião tem mais um capítulo. Desta feita, de uma forma mais concreta, com o lançamento do duplo ao vivo sintomaticamente intitulado Reunion. Gravado na cidade natal dos músicos, Reunion traz, além de vários clássicos indispensáveis da carreira do grupo, surpresas como “Dirty Women” e “Spiral Architect”. Guardadas para o final do disco, o motivo de alvoroço entre os fãs: As faixas de estúdio inéditas “Psycho Man” e “Selling My Soul“, gravadas em 1997. Ambas preservam o espírito do clássico Black Sabbath dos anos 70, mas com o clima contemporâneo (e não “modernoso”) do final do século XX, honrando a história do quarteto.

Black Sabbath e a discografia com Ozzy Osbourne.

Apesar da grande expectativa de uma real volta com um disco inteiro de músicas inéditas, e consequente reunião, a partir de 1997, Black Sabbath e Ozzy Osbourne tocariam juntos apenas sets curtos no festival “Ozzfest”, mas nada de disco novo. Em 2002, foi lançado Past Lives, disco duplo ao vivo contendo faixas gravadas nos anos 70, um verdadeiro tesouro para os fãs. Neste meio tempo, Osbourne e sua esposa/empresária/dona processaram Iommi pelos direitos do nome/marca “Black Sabbath”. Iommi, evitando perder tempo/dinheiro reuniu-se com Butler e Vinny Appice, (não por acaso a terceira formação instrumental do Black Sabbath) convocando novamente o vocalista Ronnie James Dio, formando a banda chamada “Heaven and Hell”, lançando um disco de estúdio e mais dois “ao vivo”.

Imediatamente após o falecimento de Dio, em maio de 2010, fortes rumores sobre uma nova reunião da “fase Ozzy” começaram a circular. Primeiramente desmentida pelos integrantes da banda, muitos comentários aleatórios davam pistas de que a tão aguardada volta estava, sim, por acontecer.

Conferência de imprensa anunciando o retorno da primeira formação do Black Sabbath.

O anúncio da “reunião” do Black Sabbath, divulgado através de uma coletiva de imprensa acontecida no último dia 11/11/11, depois de uma “contagem regressiva” no site oficial do grupo, não foi exatamente uma surpresa para os fãs da banda, e aqueles com algum conhecimento de rock em geral, e que acompanham regularmente os acontecimentos referentes ao gênero. Em realidade, nem se trata exatamente de uma “reunião” propriamente dita, uma vez que esse mesmíssimo grupo vem tocando com regularidade no festival intinerante “Ozzfest”, como citado anteriormente.

O que torna o anúncio do tal retorno tão impactante, é o fato de que, dessa vez trata-se não somente de alguns shows curtos, uma vez por ano, no referido festival. A coisa agora é pra valer! Uma turnê, completa, passando por vários países através do globo, contando com um set completo.

Mas a principal notícia, a que, no final das contas criou um maior alvoroço, é que essa turnê em questão não só serviria para os velhos – e seminais – clássicos do quarteto de Birmingham, mas em primeira instância, para promover um novo álbum de estúdio contando com Ozzy, Iommi, Butler e Ward, o primeiro desde o derradeiro Never Say Die. Segundo o produtor Rick Rubin – responsável também pela produção do mega-clássico Reign In Blood do Slayer – já há bastante material composto, e logo o processo de gravação começaria, para um possível lançamento nos primeiros trimestres de 2012.

O retorno de uma das principais formações do metal mundial.

Se levarmos em consideração o rol de clássicos fundamentais lançados pelos quatro entre 1970 e 1978, a expectativa é enorme. E não seria exagero nem estupidez apostar uma soma alta na possibilidade de um disco absurdo de bom, e talvez até, um clássico moderno. Resta esperar… 

ESQUINA PROGRESSIVA

 

Dream Theater - Awake (1994)



Lançado pela banda em 1994, sem dúvida alguma se trata de uma obra prima do metal progressivo. Ao contrário de Images and Words, a música é bastante jazzística e abrange o metal neoclássico de vez em quando. Além disso, o som é mais sujo, os riffs de guitarra são mais pesados e os vocais mais ásperos. Sem contar que a produção elimina qualquer influência de som glam metal que talvez tenha sido o único ponto negativo de Images and Words, álbum anterior. As composições são complexas e executadas rapidamente, dando a tenacidade e tornando-a mais dinâmica. Sempre sinto no disco certa atitude urbana, que de alguma forma me dá a impressão de está no meio de uma metrópole com todo o seu barulho e agitação. A guitarra é a melodia criada pelos carros que aceleram enquanto a bateria as portas que batem em todos os lugares e o movimento constante de milhares de pés, o baixo representa as vozes de todos conversando, os teclados as sirenes, buzinas e outros sons típicos metropolitanos.

O disco começa com “6:00” trazendo um mini solo de bateria que é um contraponto perfeito para o grito do teclado frenético de Kevin Moore. Apresenta um trabalho instrumental complexo e é a adrenalina e provavelmente o momento de maior diversão em um disco que soa muitas vezes sombrio. “Caught in a Web” é mais pesada e aqui confesso que a entrega vocal me soa um pouco estranha, apesar de bastante sólida. Demorou até que ganhasse a minha apreciação, mas hoje a vejo com uma música de versos muito atrativos, ótimo coro, excelente musicalidade por parte de todos, com destaques para as performances uníssonos de guitarra e teclado deixando tudo extremamente encorpado e cheio de vitalidade.

“Inocence Faded” é uma faixa muito mais leve do que as que a cercam e tem alguns cantos estranho de James Labrie e com isso, provavelmente seja uma das letras mais “mal interpretadas” em sua carreira com a banda. Mas ainda assim não a considero uma mancha no disco, pois musicalmente é agradável e possui um excelente final, enérgico e de um ótimo e direto solo de guitarra de John Petrucci.

As próximas três faixas compõe o épico “A Mind Beside Itself”. Mas quando escutada como um épico, esta faixa não rivaliza de forma alguma com outros grandes épicos prog, mas cada parte é interessante por direito próprio, digamos assim. A primeira parte é “Erotomania”, uma instrumental excelente, com passagens lindas, complexas e mudanças estranhas de tempo. A segunda parte é “Voices”, um lamento soberbamente poético de John Petrucci sobre o quão difícil às vezes é ter fé, pra mim, um dos momentos mais sublimes do disco, musicalmente as apresentações de cada um novamente é bastante sólida, com menção especial a Kevin Moore que adequa seus teclados perfeitamente ao tema, criando uma atmosfera gótica e catedral incrível. O solo de guitarra também é arrepiante e bastante condizente com a narrativa da música. James Labrie também brilha em uma incrível quantidade de tonalidade e fraseio impecável e bem escolhido. O épico finaliza com “The Silent Man”, não tem muito o que falar dessa faixa, trata-se de uma emotiva peça acústica muito bem interpretada por James Labrie e que traz um bonito solo de violão no seu meio.

“The Mirror” é pesada e excelente com letras que descrevem a luta de Mike Portnoy com o alcoolismo e muitas vezes vista como uma espécie de prelúdio para a “Twelve-Step Suite". Uma trilha notável e de metal puro perfeitamente bem trabalhado com elementos progressivos. Destaque também a referência feita a “Space Dye Vest” que ficou excelente. Se final súbito já a emenda na próxima faixa. “Lie” faz o álbum seguir de maneira pesada, mas dessa vez com menos elementos progressivos, mesmo assim a vejo com uma espécie de segunda parte de “The Mirror”, possui excelente atmosfera e um solo de muita velocidade de John Petrucci.

"Lifting Shadows off a Dream" é uma faixa branda, a introdução harmônica do baixo de John Myung, os teclados suaves seguindo a mesma linha melódica da voz, o som da guitarra espacial fazem dessa faixa uma grande experiência.  Uma música bastante completa apresentando muitas variações de estilo e intensidade. Com onze minutos, “Scarred” é a faixa mais longa, mas também musicalmente coesa do álbum, onde todos tem grande contribuição para o seu resultado. Os estilos mudam com tanta frequência que se o ouvinte não prestar atenção pode facilmente se perder em meio a tanta variação. Acho inclusive que é uma música bastante subestimada se comparada a outras da mesma natureza (tamanho), pois carrega uma qualidade crescente durante a sua execução poucas vezes vista na banda.

O álbum chega ao fim através de “Space Dye Vest”, composta inteiramente por Kevin Moore, é bastante emocional, onde toda a música se concentra quase que exclusivamente no piano de Kevin e no vocal suave de James. Pensativa, sombria e introspectiva, apresenta uma melodia intrigante, e há algo hipnótico e trágico sobre a forma como Moore mistura os dois "riffs" de piano principais ao longo da música. É uma canção sobre o crescimento cada vez mais alienado do mundo, um homem que ficou obcecado com modelos dos catálogos de moda, com exclusão de relacionamentos reais e significativos, sem dúvida alguma é a maior expressão de liberdade criativa de Moore no disco. Sua parte final tem o acompanhamento dos demais instrumentos que a fazem crescer musicalmente, finalizando o álbum de maneira soberba.

Awake sem dúvida alguma é um registro muito bem pensado e que merece cadeira cativa no rol dos grandes lançamentos de metal progressivo de todos os tempos. Cinco músicos sendo cada um dos percursores de suas nuances instrumentais (e vocais). Um trabalho de onze faixas de qualidade e profundidade que mesmo depois de mais de duas décadas desde o seu lançamento ainda merece ser difundido a aqueles que não se depararam com a sua música. 



Track Listing

1.6:00 - 5:31 
2.Caught In A Web - 5:28 
3.Innocence Faded - 5:43 
- A Mind Beside Itself:
4.I-Erotomania - 6:45
5.II-Voices - 9:53
6.III-The Silent Man - 3:48
7.The Mirror - 6:45
8.Lie - 6:34
9.Lifting Shadows Off A Dream - 6:05
10.Scarred - 11:00
11.Space-Dye Vest - 7:29





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