segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

A história de “Ace of Spades”, o álbum de maior sucesso do Motörhead


 Trabalho de 1980 foi o certo no momento adequado, tal como um movimento bem pensado em um jogo de cartas, tema da faixa que dá título ao disco

Em 1980, o Motörhead estava pronto para estourar. ‘Ace of Spades’ foi o álbum certo no momento adequado, tal como um movimento bem pensado em um jogo de cartas, tema da faixa que dá título ao disco – e a mais famosa da carreira da banda.

Embora tenha sido formado em 1975, o Motörhead demorou um tempinho para ganhar forma. O vocalista e baixista Lemmy Kilmister formou a banda com Lucas Fox na bateria e Larry Wallis na guitarra. O primeiro foi sacado ainda naquele ano para dar lugar a Phil “Philthy Animal” Taylor, enquanto o segundo deixou a formação em 1976 e abriu caminho para “Fast” Eddie Clarke.

O trio gravou três álbuns – “Motörhead” (1977), “Overkill” (1979) e “Bomber” (também 1979) – até começar a conquistar algum destaque em sua terra natal, o Reino Unido. Os singles das faixas-título dos dois últimos discos chegaram ao top 40 das paradas locais, o que trouxe fôlego comercial a um grupo que já agradava por sua sonoridade híbrida, capaz de unir fãs de heavy metal e de punk rock.

Foi nesse cenário que ‘Ace of Spades’ nasceu, mas havia um ingrediente extra que fez a expectativa por este álbum ficar ainda maior.


NWOBHM e o empurrão ao Motörhead

Foto: reprodução / Facebook

O empurrão que o Motörhead precisava veio da imprensa, ainda que de uma forma que eles não aprovariam. Jornalistas criaram a denominação “New Wave of British Heavy Metal” (NWOBHM) para elencar bandas do Reino Unido que começavam a ter destaque no segmento da música pesada. Em meio a nomes como Iron Maiden, Def Leppard, Saxon e vários outros, estava o trio liderado por Lemmy.

Sempre avesso a rótulos, a banda meio que rejeitava fazer parte desse movimento, pois estava na estrada há mais tempo que os outros colegas. Houve quem colocasse até o Judas Priest, ainda mais antigo, no meio desse balaio, mas isso é conversa para outra hora.

Fato é que pertencer a um movimento de bandas britânicas de som pesado que começavam a ter destaque comercial, inclusive fora do Reino Unido, ajudou o Motörhead a ficar conhecido em meio a centenas de novos fãs daquele tipo de som. O fácil trânsito entre os segmentos do metal e do punk também colaborou.

A gravadora Bronze Records percebeu isso e lançou o EP “The Golden Years”, com material ao vivo da banda, no início de 1980. O registro chegou ao oitavo lugar das paradas do Reino Unido, posição mais alta dos caras até então. Pouco antes, em dezembro de 1979, o selo United Artists, que representaria o Motörhead nos Estados Unidos, tirou da gaveta o álbum “On Parole”, que seria o primeiro da carreira do grupo e foi gravado ainda em 1975, mas não havia chegado a público até então.

O hype estava criado e os fãs logo esperavam por um novo álbum de estúdio do Motörhead. ‘Ace of Spades’, então, chegou às prateleiras – inclusive dos Estados Unidos, sendo o primeiro da discografia oficial a ser lançado por lá – em 8 de novembro de 1980.

Gravações e acertos

As gravações aconteceram entre 4 de agosto e 15 de setembro de 1980, nos estúdios Jackson, na cidade inglesa de Rickmansworth. Um processo relativamente rápido, o que não espanta muito, já que a banda sempre foi um tanto minimalista e direta em sua abordagem.

Vic “Chairman” Maile, que já havia trabalhado com Jimi Hendrix e Led Zeppelin, assinou a produção. Era o cara certo no momento, novamente, adequado, pois ele soube como traduzir a sonoridade matadora da banda nos palcos para o estúdio de gravação – talvez o grande problema dos discos anteriores do grupo.



A timbragem obtida por Maile é, certamente, um dos grandes destaques de ‘Ace of Spades’. A sonoridade da guitarra de “Fast” Eddie Clarke impressiona: mesmo usando uma Fender Stratocaster, de tons mais leves, Clarke conseguiu tocar de forma pesada, ainda que sem perder a classe do clássico instrumento. A bateria de “Philthy Animal”, enfim, obteve a abordagem grandiosa e cavalar dos shows, enquanto o baixo de Lemmy “engrossou” e passou a ocupar toda a ambiência rítmica necessária.

Em entrevista à “Uncut Magazine”, no ano de 2015, “Fast” Eddie Clarke relembrou que Vic Maile deu um trato nos caras do Motörhead com seu “jeitinho” relativamente delicado. “Ele não bebia, não fumava e era muito delicado, pois era diabético. Ele tinha que comer seu lanchinho diet às 18 horas. Não conseguíamos pegar pesado com ele, não podíamos sacudir o cara. Ele poderia morrer! Então, tivemos que ouvi-lo”, contou.

Fizeram bem. O resultado desse misto de empenho com ouvidos abertos foi o álbum de maior sucesso da carreira do Motörhead. Há quem diga que ‘Ace of Spades’ seja um disco superestimado, visto que muitas pessoas só conhecem esse trabalho – e tem quem conheça apenas a faixa-título –, mas é difícil contestar tamanho êxito ao dar o play no material.


Com os méritos técnicos de transportar a sonoridade da banda ao vivo para o estúdio, ‘Ace of Spades’ acabou representando a gênese do speed metal. É um trabalho tão influente que influenciou uma série de ramificações do heavy metal, especialmente as mais extremas, seja em peso ou em velocidade das canções.

Ace of Spades, faixa a faixa

Foto: reprodução / Twitter

A já mencionada faixa-título, ‘Ace of Spades’, sintetiza tudo aquilo que os fãs queriam ouvir do Motörhead: letras bem sacadas, vocais peculiares de Lemmy, baixo pulsante (e quase com timbre de guitarra), bateria cavalar na velocidade da luz e guitarra bem postada, como se fosse um “tempero final” de uma pesada equação. Sabemos, entretanto, que não dá para sintetizar esse álbum a apenas sua música de abertura.

Love Me Like a Reptile’, com seu riff matador e cadência irresistível, entra em seguida para nos lembrar que temos um disco repleto de méritos. ‘Shoot You in the Back’ traz temática influenciada pelos filmes de faroeste, que inspirou, inclusive, a icônica capa do álbum. ‘Live to Win’ aposta no groove como seu principal elemento e evidencia como a parceria entre Lemmy e Philthy Animal funcionava bem.

Fast and Loose’, por sua vez, coloca os riffs de “Fast” Eddie Clarke na linha de frente – talvez não tenha sido por acaso a presença do termo “fast” no título da música. ‘(We Are) The Road Crew’, um dos destaques do álbum, apresenta uma homenagem da banda a seus roadies, uma função que o próprio Lemmy ocupou ao trabalhar para Jimi Hendrix e The Nice.


Fire Fire’ sintetiza perfeitamente a gênese do speed metal comentada há alguns parágrafos, enquanto ‘Jailbait’, apesar de sua letra repreensível, serve para mostrar como “Philthy Animal” estava em seu primor técnico. ‘Dance’ evidencia a influência do blues ao trio, enquanto ‘Bite the Bullet’, quase uma vinheta de tão curta, soa envolvente por sua performance autêntica, que parece ter sido captada diretamente de um show da banda.

Outro grande destaque do álbum está próximo ao seu fim: ‘The Chase is Better Than the Catch’, que traz abordagem mais cadenciada e mostra que o Motörhead também sabia compor músicas grudentas, com potencial para emplacar. Uma pena que não tenha saído como single. ‘The Hammer’, ao fim, volta a pisar fundo no acelerador e encerra o álbum tão bem como ele foi iniciado.


Sucesso e futuro

Foto: reprodução / Pinterest

Com um material desse calibre, era de se esperar que o Motörhead amplificasse seus conceitos de sucesso. ‘Ace of Spades’ chegou ao quarto lugar das paradas do Reino Unido e ganhou disco de ouro meses depois, em março de 1981. Além disso, atingiu posições satisfatórias nos rankings musicais do Canadá (29°) e Noruega (37°).

Muito disso veio do single da faixa-título, lançado pouco antes do álbum sair na íntegra. A música que dá nome ao disco atingiu a 15ª colocação nas paradas do Reino Unido, o que levou a banda a ampliar o porte de suas turnês – inclusive uma com Girlschool e Vardis na abertura – e aparecer em programas de TV – até mesmo o infantil ‘Tiswas’.

Lemmy tinha sentimentos mistos no que diz respeito à música ‘Ace of Spades’. Em entrevistas, ele comentava que era grato pelo sucesso da canção e por ter atingido tamanho êxito com um bom trabalho (em vez de um hit pré-fabricado do qual ele seria escravo pelo resto da vida). Por outro lado, apontava que o Motörhead seguiu produtivo depois desse período e que as pessoas também deveriam ouvir os outros trabalhos da banda.


Gostando ou não, Lemmy teve que tocar essa música nos shows do Motörhead até o fim da vida. Nenhum outro álbum de estúdio da banda superou o sucesso de ‘Ace of Spades’. A repercussão foi amplificada com o lançamento seguinte, o ao vivo ‘No Sleep ‘til Hammersmith’ (1981), o único trabalho do grupo a atingir o topo das paradas do Reino Unido – muito disso porque apresentou o repertório dos discos anteriores, ainda desconhecido por muitos.

‘Iron Fist’ (1982), álbum que sucedeu ‘Ace of Spades’, até tentou repetir o mesmo sucesso, mas não conseguiu. Internamente, o Motörhead já estava rachado e desgastado. “Fast” Eddie Clarke saiu da banda, ainda em 1982, por um motivo relativamente tosco: ele não concordou com a regravação de ‘Stand By Your Man’ (Tammy Wynette) em parceria com a polêmica Wendy O. Williams e seu grupo, Plasmatics. Para ele, era como “fugir de seus princípios”.


Sem Clarke, que saiu para montar o Fastway, o Motörhead nunca mais conseguiu repetir o sucesso de ‘Ace of Spades’, embora tenha lançado álbuns muito bons e mantido sua relevância no underground. Vale lembrar que, entre idas e vindas, Phil “Philthy Animal” Taylor deixou o grupo em 1992.

Eles sabiam que havia algo especial com aquela formação, tida como a clássica. Não à toa, houve tentativa de reunião no fim da década de 1990, ainda que forma especial, para apenas um show, sem resultar no rompimento do line-up daquela época – composto por Phil Campbell na guitarra e Mikkey Dee na bateria. Lemmy não topou, pois não queria se indispor com os músicos que já estava na banda há tanto tempo, mas Clarke e Taylor acabaram tocando junto dele em situações esporádicas.


Quis o destino que Lemmy e Phil “Philthy Animal” Taylor morressem com apenas dois meses de distância. O baterista faleceu em 11 de novembro de 2015, enquanto que o frontman nos deixou em 28 de dezembro daquele ano. “Fast” Eddie Clarke partiu deste mundo em 10 de janeiro de 2018.

Nenhum deles ficou por aqui para entender o tamanho do 40° aniversário de ‘Ace of Spades’, um dos álbuns mais importantes do heavy metal. Mas os três sabiam, lá fundo, ainda que pudessem refutar, que essa foi a obra-prima da carreira deles.

Motörhead – ‘Ace of Spades’


A história de “Layla and Other Assorted Love Songs”, a obra de Derek and the Dominos


 História de amor daquelas, de filme mesmo, embalou todo o processo de criação do único álbum do projeto de Eric Clapton

Derek and the Dominos – ‘Layla and Other Assorted Love Songs’
Lançado em 9 de novembro de 1970

Uma história de amor daquelas, de filme mesmo, embalou todo o processo de criação de ‘Layla and Other Assorted Love Songs’, único álbum do projeto Derek and the Dominos. O guitarrista Eric Clapton estava perdidamente apaixonado pela modelo Pattie Boyd, esposa de seu amigo dos Beatles, George Harrison.

Ninguém poderia saber, tendo em vista a proximidade de Clapton com Harrison naqueles tempos. Além de amigos, os dois haviam se tornado parceiros musicais, com direito a uma participação de Eric em ‘While My Guitar Gently Weeps’, composição de George para o ‘White Album’ (1968) dos Beatles, e uma turnê em conjunto do projeto Delaney & Bonnie.

Como se isso não bastasse, Eric Clapton estava imerso em seus problemas pessoais. Drogas, álcool, depressão… até mesmo desilusão profissional – ele passou por várias bandas, como Yardbirds, Cream, John Mayall and the Bluesbreakers e Blind Faith, em um período de 5 anos. Conquistou notoriedade internacional, mas não conseguia se segurar em um mesmo projeto.

O Derek and the Dominos nasceu em meio a uma nova tentativa do guitarrista em firmar um projeto em definitivo. Inicialmente chamado Eric Clapton and Friends, o grupo adotou este nome curioso porque Clapton queria certa discrição para voltar às suas raízes, com direito a shows intimistas em pequenos pubs ingleses antes de gravar um álbum e revelar-se ao mundo.


A formação trazia Bobby Whitlock nos teclados, Jim Gordon na bateria e Carl Radle no baixo, todos colegas de Delaney & Bonnie. A escalação ainda seria concluída coma chegada de um fã de Clapton, ainda desconhecido do público: o guitarrista Duane Allman (Allman Brothers Band), que, recomendado pelo produtor Tom Dowd, trouxe a pitada southern rock que faltava ao projeto.

Eric Clapton e Duane Allman (foto: reprodução / Facebook)

A relação entre Clapton e Allman era tão boa que o primeiro descreveu o segundo como o parceiro musical que nunca havia tido até então. Entretanto, havia certa disputa de egos entre os músicos de uma forma mais geral – fora a esquizofrenia ainda não diagnosticada de Jim Gordon, que, anos depois, mataria a própria mãe em meio a um de seus ataques.

Todos esses elementos apareceriam conforme o desenrolar da história. Fato é que ‘Layla and Other Assorted Love Songs’ foi inspirado pelo primeiro episódio citado: o amor de Eric Clapton pela esposa de um de seus grandes amigos. Embora não seja formalmente conceitual, o álbum faz referência ao poema persa ‘Laila e Majnun’, de Nizami. Uma história de um amor proibido, tal qual Eric (que se colocou como Derek) se via com Pattie (a tal Layla).


Enquanto as letras estavam transbordando melancolia e “sofrência”, a parte melódica traz um dos trabalhos mais ricos da trajetória de Eric Clapton, bem como dos outros envolvidos. Apesar de trazer vários nomes conhecidos do cenário musical da época, Derek and the Dominos não era um supergrupo. Ao menos aqui, todos pareciam trabalhar em prol do que havia de principal, que é a música.

Méritos do repertório

O disco tem, ao todo, 14 músicas, sendo nove autorais e cinco covers. Boa parte do material próprio nasceu das colaborações entre Eric Clapton e Bobby Whitlock, que criaram, juntos, seis das nove faixas originais do álbum. As exceções são ‘Layla’ (de Clapton e Jim Gordon), ‘I Am Yours’ (de Eric com créditos à obra de Nizami) e ‘Thorn Tree in the Garden’ (de Whitlock).

Os covers, posicionados com o intuito de transformar o trabalho em um álbum duplo, são uma versão mais lenta de ‘Little Wing’, de Jimi Hendrix, que morreu enquanto o disco era gravado; uma adaptação mais acelerada de ‘It’s Too Late’, de Chuck Willis; e três clássicos do blues: ‘Nobody Knows You When You’re Down and Out’ (Jimmy Cox), ‘Key to the Highway’ (Charles Segar) e ‘Have You Ever Loved a Woman’ (Billy Myles).


A performance da banda nos covers é interessante, até pelo resgate à típica sonoridade blues de Eric Clapton, mas é no material inédito que os caras brilham. Um alinhamento de astros fez com que aquilo tudo desse certo, mesmo com tantos problemas no entorno. O talento imperou, como sempre deveria ser.

O grande destaque, em minha visão, está na forma como trabalhava a trinca principal, formada por Clapton, Bobby Whitlock e Duane Allman. A química entre os três era incontestável.

Eric é, evidentemente, o fio condutor dessa dinâmica. Ele capricha nas guitarras junto de Duane, que está inspiradíssimo por aqui e rouba a cena com sua técnica de slide guitar. Além disso, o músico conseguiu, talvez pela primeira vez, se expressar de modo irretocável nos vocais, ocasionalmente divididos com Bobby, que também soube criar a ambiência perfeita com seus teclados.

A cozinha, claro, também merece ser mencionada. Carl Radle e Jim Gordon se apresentam de forma consistente – ouça ‘Why Does Love Got To Be So Sad?’ para tirar a prova. O baterista também assumiu papel importante na co-autoria de ‘Layla’, também tocando piano naquela icônica passagem final.

Layla’, aliás, é um capítulo à parte deste álbum. Incrível da cabeça aos pés, na plenitude de seus 7 minutos de duração. Eric Clapton “pintou e bordou” ao longo da carreira, mas essa música ainda é citada como um dos melhores momentos de toda a sua obra. Não à toa, nunca deixou de ser tocada pelo artista em seus shows solo.

Entretanto, todo o álbum deve ser exaltado. Desde a trinca de abertura com as calorosas ‘I Looked Away’, ‘Bell Bottom Blues’ e ‘Keep on Growing’ até o encerramento com a bela acústica ‘Thorn Tree in the Garden’, passando pelos covers bluesy e pelas outras autorais que, no geral, trazem o tempero southern de Duane Allman… tudo aqui é digno de nota máxima.

Repercussão e legado

Eric Clapton em 1970 (foto: Amalie R. Rothschild / reprodução)

Curiosamente, ‘Layla and Other Assorted Love Songs’ não fez sucesso na época de seu lançamento. Chegou à 16ª posição das paradas dos Estados Unidos, algo considerado decepcionante para um artista do porte de Eric Clapton, e o single de ‘Layla’ atingiu a 51ª colocação por lá. Os críticos especializados também não curtiram o trabalho, citando “excesso de baladas românticas” no repertório. Que sacrilégio.

Nada como o tempo para fazer justiça a uma obra-prima. Em 1972, foi lançada a primeira coletânea de Eric Clapton, intitulada ‘The History of Eric Clapton’, e ‘Layla’ estava na tracklist. A compilação obteve boas vendas e foi responsável por fazer, enfim, com que a faixa emplacasse. Em 1974 e 1977, o álbum voltou às paradas e atingiu 500 mil cópias vendidas, ganhando disco de ouro. No Reino Unido, conquistou certificação de platina, mas demorou bastante para isso.

Infelizmente, o reconhecimento tardio não seria o suficiente para provocar um retorno do Derek and the Dominos. Eles até tentaram gravar um segundo álbum, mas a mencionada guerra de egos entre os envolvidos impediu tal realização. Duane Allman faleceu em um trágico acidente de motocicleta em 1971, com apenas 24 anos. Os músicos logo se envolveram em outros projetos, com exceção de Clapton, que entrou em depressão devido a problemas pessoais, perdas e vícios.

O guitarrista só voltou à ativa em 1973 e, após ter vencido seus vícios, conseguiu o que queria: namorar Pattie Boyd, que havia se separado de George Harrison em 1974. Os dois passaram a morar juntos no mesmo ano e casaram-se em 1979. Ficaram juntos até 1987, oficializando o divórcio em 1989.

Eric Clapton e Pattie Boyd (foto: reprodução / Facebook)

A relação entre Eric Clapton e Pattie Boyd não durou para sempre, mas a paixão entre Derek e Layla segue pulsante, mesmo cinco décadas depois. ‘Layla and Other Assorted Love Songs’ é um dos melhores trabalhos da carreira de Clapton e um registro visceralmente sincero de um período tão prolífico para a música de forma geral.

Derek and the Dominos – ‘Layla and Other Assorted Love Songs’

“Is This It” (RCA, 2001), The Strokes



Ano 2000, o século XX chega à sua reta final. O grunge havia virado “pó” com a morte de Kurt Cobain, líder do Nirvana, em 1994, o Pearl Jam e os Foo Fighters (banda do ex-Nirvana, Dave Grohl), tocam à diante o legado do movimento. A Grã-Bretanha continua irradiando o britpop que se mantém dando as cartas no mainstream do rock mundial capitaneado por Oasis e Blur, bandas que fomentavam uma das maiores rivalidades da história do rock. Numa outra frente, o Radiohead se consagrava a cada disco como uma das mais influentes bandas do rock contemporâneo através do experimentalismo eletrônico e hermético. A internet já era uma realidade, e através dela, surgia o Napster, um recurso que criou uma nova realidade para o público consumir música em larga escala e sem pagar nada, um verdadeiro pesado que tirou o sono e provocou reações judiciais por parte de alguns astros consagrados como a banda Metallica.

Enquanto isso, dentro desse cenário, um quinteto formado por garotos na faixa dos 22 anos, com cabelos desgrenhados como os de quem acabou de acordar, e vestidos num figurino de brechó, começava a carreira tocando nos botecos de Nova York. Formada em 1998 por Julian Casablancas (vocais), Nick Valensi (guitarra), Albert Hammond (guitarra), Nikolai Fraiture (baixo) e Fábio Moretti (bateria) - este último, filho de um norte-americano com uma brasileira – a banda The Strokes trazia na sua bagagem musical influências de Velvet Undeground e a simplicidade urgente do punk dos anos 1970 de bandas como Television, Ramones e Buzzcocks. Uma das apresentações da banda nova-iorquina chamou a atenção de um produtor inglês que estava de bobeira numa dessas casas assistindo o show dos moleques. Uma fita demo com três músicas dos Strokes foi parar nas mãos do produtor que ao voltar para Londres, entregou a fita ao selo independente inglês Rough Trade que demonstrou interesse no quinteto e decidiu lançar um EP a partir do material da fita demo.

Da esquerda para a direita: Nick Valensi, Albert Hammond Jr, Julian Casablancas, Fábio Moretti e Nikolai Fraiture.

O EP The Modern Ages foi lançado na Inglaterra em janeiro de 2001, e trazia as três faixas retiradas da fita demo: “The Modern  Ages”, “Last Nite” e “Barely Legal”. Logo que foi lançado, o semanário inglês New Music Express (também conhecido como NME) deu destaque ao EP como “disco da semana”. No mês seguinte, os Strokes embarcaram para a Inglaterra onde tocaram num festival promovido pela NME. A partir daí, a vida da banda norte-americana mudou. Os Strokes logo viraram assunto na internet numa proporção descomunal, e se tornaram o primeiro grande fenômeno do rock revelado pela rede mundial de computadores.

Em pouco tempo, mesmo contando apenas com um EP, os Strokes eram matéria das mais diversas publicações em todo o mundo, como a revista inglesa The Face, a americana Rolling Stone e o jornal brasileiro Folha de S. Paulo. A crítica musical mundial não poupava elogios àquela banda novata apontada como “novo Nirvana” ou “a salvação do rock”. O quinteto nova-iorquino seguiu numa pequena turnê na Inglaterra e outra nos Estados Unidos com ingressos caros e disputadíssimos. Na plateia de alguns desses shows, figuras como Chrissie Hynde (Pretenders), Michael Stipe (R.E.M), Noel e Liam Gallagher (Oasis) e o ex-The Smiths, Morrissey, estavam entre os astros consagrados do rock que foram ver com os próprios olhos o primeiro fenômeno roqueiro do novo século. Entre março e abril de 2001, os Strokes entraram em estúdio para a gravação do álbum de estreia. Logo após a conclusão, saem em turnê para a divulgação do álbum antes mesmo de seu lançamento.

Capa da edição norte-americana de  Is This It.
Finalmente, em setembro de 2001, Is This It, o tão aguardado primeiro álbum dos Strokes, era lançado.  A capa trazia um atraente e despido quadril feminino, mas isso para as edições do resto do planeta. Nos Estados Unidos, o puritanismo hipócrita daquele país fez com que a edição norte-americana ganhasse outra capa, mais comportada e sem graça. De qualquer forma, o conteúdo do álbum não decepcionou. A banda manteve as suas referências do punk “setentista” - sobretudo o nova-iorquino dos tempos do Television, Blondie e Ramones - através arranjos simples, guitarras “econômicas” e sem firulas, e o vocal berrado e desleixado de Casablancas, características presentes em faixas como  “Soma”, “Barely Ilegal” e “New York City Cops”. A faixa “Take It Or Leave It” chega a remeter o ouvinte aos New York Dolls.

As três faixas do EP The Modern Ages entraram no álbum, mas foram regravadas e ganharam uma versão mais “azeitada” e algumas alterações nas letras. Na edição norte-americana do álbum, “New York City Cops” não foi incluída devido à tragédia do 11 de setembro, duas semanas antes do lançamento de Is This It. Foi lançada com uma faixa a menos.

O álbum caiu nas graças da crítica. O New Music Express afirmou que era um dos melhores álbuns de estreia daqueles últimos 20 anos. Billboard colocou Is This It como álbum do ano. Atingiu o 2º lugar da UK Album Chart, na Grã Bretanha, e o 33º lugar na Billboard 200, nos Estados Unidos. “Last Nite” virou hit planetário e seu vídeo clipe rodou o mundo. Nos Estados Unidos, foram vendidas 900 mil cópias de Is This It, enquanto que na Grã-Bretanha foram 300 mil. Is This It rendeu três singles: “Hard Explain”, “Last Nite” e “Someday”.
                  
O grande legado de Is This It foi ter aberto um novo caminho para o rock ao se tornar referência para as novas bandas que surgiam com o novo século como White Stripes, Libertines, Franz Ferdinand, The Hives, Arctic Monkeys entre outras. Por carregar consigo os referenciais do punk e do pós-punk dos anos 1970, a nova cena roqueira aberta por Is This It naquele começo de anos 2000 foi batizada pela crítica de “Post-punk Revival”.

Is This It foi o primeiro grande álbum de rock do século XXI e figura entre os melhores debutes da história do gênero musical. Foi eleito pela New Music Express como melhor álbum dos anos 2000. Na lista dos “500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos”, da Rolling Stone, ficou na 199º colocação.

Faixas:
  1. “Is This It”
  2. “The Modern Age”
  3. “Soma”
  4. “Barely Ilegal”
  5. “Someday”
  6. “Alone, Together”
  7. “Last Nite”
  8. “Hard To Explain”
  9. “New York City Cops”
  10. “Trying Your Luck”
  11. “Take It Or Leave It”


Todas as faixas são de autoria de Julian Casablancas.


The Strokes: Julian Casablancas (vocais), Nick Valensi (guitarra), Albert Hammond (guitarra), Nikolai Fraiture (baixo) e Fábio Moretti (bateria).



“Admirável Chip Novo”(Deck Disc, 2003), Pitty

 


Quando surge no cenário nacional da música brasileira uma nova cantora baiana, logo se espera uma agitada cantora de axé ou uma diva de MPB. Só que em 2003, apareceu nacionalmente uma nova cantora baiana que quebrou todos esses paradigmas. Não era cantora de MPB e muito menos de axé, mas sim uma cantora de rock. Quem poderia imaginar que a maior cantora de rock do Brasil surgida nos últimos 20 anos viria da Bahia? Talvez os outros estados duvidassem dessa possibilidade, mas o público cativo do rock baiano jamais duvidou do potencial de Pitty, pois já a conhecia do circuito alternativo de rock de Salvador desde a segunda metade dos anos 1990. O seu álbum de estreia Admirável Chip Novo, lançado em 2003, era o resultado da vivência da jovem cantora no circuito roqueiro soteropolitano.

Mas até chegar ao primeiro álbum solo, Pitty atuou como vocalista de bandas de rock em Salvador. Sua caminhada começou na adolescência como vocal da banda de hard core Inkoma, entre 1995 e 2001, e depois numa banda só de garotas, a Shes, entre 1997 e 1999. Com a Inkoma, Pitty se apresentou em festivais alternativos como 2º Boom Bahia Festival, em 1998, que mereceu cobertura da MTV Brasil. Em 2000, a Inkoma lançou o único álbum, Influir.  Paralelo à carreira na Inkoma, Pitty foi estudante da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia.

Final dos anos 1990: Pitty quando integrava a banda Inkoma, em Salvador.
Em 2002, recebe o convite do produtor Rafael Ramos, da gravadora Deckdisc, que apesar de muito jovem, já havia produzido discos de bandas como Los Hermanos, Raimundos, Inocentes e da lenda da MPB, João Donato. Rafael já conhecia o trabalho de Pitty e sabia que ela estava compondo para uma provável carreira solo. Pitty assina com a Deckdisc, e para gravar o seu primeiro álbum solo, convida amigos da cena alternativa de rock de Salvador como o talentosíssimo guitarrista Peu Sousa (ex-Dois Sapos & Meio), Duda (ex-Lisergia) e Joe (ex-Dead Billies). Além de gravarem o álbum, esses músicos integrariam a banda de apoio de Pitty para os shows. O álbum foi gravado nos estúdios Tambor, no Rio de Janeiro.

Admirável Chip Novo chegou às lojas em maio de 2003. O título do álbum foi baseado no livro “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, de 1932. Dez das onze faixas do disco são de autoria de Pitty e mostram nesse primeiro trabalho solo, uma artista com uma maturidade surpreendente nas letras, apesar de jovem. Musicalmente, o álbum apresenta uma perfeita fusão de influências que envolvem o grunge, hard rock, punk rock e heavy metal, tudo com um “verniz” pop. O álbum mostra também que Pitty evoluiu como cantora, canta melhor, mais afinada, distante do canto berrado dos tempos do Inkoma.

Primeira formação da banda de Pitty: o guitarrista Peu Sousa (já falecido), Duda Machado (bateria) e Joe (baixista)
O álbum começa com uma sequência de quatro porradas sonoras. “Teto de Vidro” abre o álbum tendo a hipocrisia como o tema central da letra. Em seguida vem a futurista “Admirável Chip Novo”, faixa que dá nome ao álbum, tem o livro de Huxley como inspiração e fala sobre um mundo robótico, onde as pessoas são controladas por máquinas programadas. “Máscara” discute um tema atual que é a superficialidade das pessoas, o ato de se passar pelo que não é para sustentar uma aparência dita ideal. O clima desacelera com a balada “Equalize”, trazendo a participação especial do produtor e ex-Mutantes, Liminha no baixo. Outra faixa com inspiração literária é “O Lobo”, baseada na expressão “homo, homini lúpus” (“o homem é o lobo do homem”) criada pelo filósofo grego Platão (427 a.C – 347 a.C), mas popularizada pelo filósofo inglês Thomas Hobbles (1588-1679) , destaca a capacidade ilimitada do homem em promover atrocidades contra alguém da sua própria espécie.

“Emboscada” impressiona pela alternação rítmica, ora seguindo um ritmo tendendo para o funk metal, ora tendendo para o hard rock, sempre com uma linha de baixo bem acentuada e marcante. “Do Mesmo Lado” tem andamentos diferentes, cheio de contratempos, bateria em alguns momentos com um acento percussivo, guitarras e baixo agressivos.  A bela “Temporal” é uma agradável surpresa no álbum, é uma folk music com violões (participação de Paulinho Moska num deles), violinos, cello, e antecipa o que Pitty iria fazer anos mais tarde no projeto acústico Agridoce. O peso e a eletricidade voltam com “Só de Passagem”, onde Pitty canta sobre posse e materialismo. Futilidade e falsidade humanas estão presentes em “I Wanna Be” com direito ao diálogo entre guitarras pesadas e cítara indiana.  Em “Semana Que Vem”, Pitty alerta sobre a brevidade da vida.

Pitty
Admirável Chip Novo teve uma ótima recepção da crítica e do público. Na época de seu lançamento, alcançou a marca de 350 mil cópias e rendeu seis singles. Ao longo do tempo, ultrapassou a marca das 700 mil cópias. As faixas “Máscara”, “Admirável Chip Novo”, “Teto de Vidro” e “Equalize” tocaram bastante nas rádios de todo o país, bem como os clipes de algumas dessas músicas estavam entre os mais pedidos na MTV Brasil.  A popularidade do álbum foi tão grande que rendeu presença de algumas de suas faixas em trilhas sonoras de novelas como “Máscara” (“Senhora do Destino”, da Globo), “Temporal”(‘Da Cor do Pecado”, Globo), “Teto de Vidro”(“Malhação”, Globo) e “O Lobo”(“Metamorphoses”, Record).

Graças ao êxito de Admirável Chip Novo, Pitty foi indicada ao Grammy Latino em 2004 na categoria “Melhor Álbum de Rock Brasileiro”. No mesmo ano, ganhou o Prêmio Multishow como “Revelação Solo” e o Prêmio VMB da MTV Brasil como “Melhor Clipe de Rock” com o clipe de “Equalize”. Ainda em 2004, foi lançado o DVD Admirável Vídeo Novo, trazendo vídeo clipes, imagens de bastidores de shows e gravações.

Admirável Chip Novo teve um sucesso comercial incontestável e a proeza de atingir grandes massas, grandes plateias, com uma estética e sonoridade vindas do underground, e sem abrir mão da qualidade, um feito que poucos discos conseguiram alcançar na música popular brasileira.  Além de ter catapultado Pitty para o estrelado, o álbum revelou Peu Sousa, amigo da cantora baiana e guitarrista da banda. Peu logo ganhou projeção e tornou-se um músico bem requisitado graças ao seu talento e sua desenvoltura no palco. Lamentavelmente, teve uma vida curta, suicidou-se em 2013, aos 35 anos.

Na minha opinião, apesar da consagração, Pitty não conseguiu repetir ou superar nos seus álbuns posteriores, o impacto e o nível de Admirável Chip Novo, álbum que  considero o melhor da sua carreira até agora. Não sei se seria exagero da minha parte, mas incluo Admirável Chip Novo na seleta galeria dos grandes álbuns de estreia de um artista ou banda do rock brasileiro, onde dentre álbuns históricos, figuram Secos & Molhados (1973), Krig-Há Bandolo (1973), As Aventuras Da Blitz (1982), Nós Vamos Invadir A Sua Praia (1985), Raimundos (1994) e Da Lama Ao Caos (1994), respectivamente discos de estreia dos Secos & Molhados, Raul Seixas, Blitz, Ultraje a Rigor, Raimundos e Chico Science & Nação Zumbi.

Em 2013, a Deckdisc e a Polysom firmaram uma parceria e lançaram uma edição especial em vinil em cor roxa de Admirável Chip Novo.
  
Faixas :

"Teto de Vidro"              
"Admirável Chip Novo"               
"Máscara"         
"Equalize (co-escrita com Peu Sousa)"                 
"O Lobo"            
"Emboscada"   
"Do Mesmo Lado"         
"Temporal"       
"Só de Passagem"         
"I Wanna Be"   
"Semana Que Vem" 


Todas as faixas são de autoria de Pitty, exceto a indicada.



“Cosmotron”(2003, Sony Music), Skank

Com as vendas milionárias dos álbuns Calango (1994) e O Samba Poconé (1996), respectivamente 1,2 milhão e 1,8 milhão de cópias, o Skank havia alcançado o estrelado e se firmado como um gigante da geração do pop rock brasileiro dos anos 1990. A banda mineira podia então simplesmente sentar-se confortavelmente sobre as glórias do sucesso comercial e desfrutar comodamente do prestígio e repetir a fórmula que deu certo. Mas não foi bem isso que aconteceu.

A sonoridade da banda, calcada num misto de reggae, ska, dancehall, rock e pop latino, apesar de tê-la levada ao estrelato, parecia ter se tornado naquele momento um incômodo. No rastro do sucesso do Skank, começava a aparecer algumas pencas de bandas no mercado copiando o estilo do quarteto. 

A partir do álbum Siderado (1998), sucessor de O Samba Poconé, o Skank começa um processo de mudança de rota musical. Em Siderado, o Skank ainda mantém a linha estilística que o consagrou, mas já traz sinais do que estaria por vir. “Resposta”, a faixa mais diferente daquele álbum, revela o caminho que a banda iria tomar em breve. 
Diferente do transitório Siderado, no álbum seguinte, Maquinarama (2000), a mudança estilística é mais acentuada e o trabalho se mostra um divisor de águas na carreira do Skank. O quarteto mineiro deixa de vez a som festivo do reggae, do ska e do dancehall, e segue um caminho mais roqueiro, melódico e acústico como nas faixas “Três Lados” e “Ela Desapareceu”.

Lançado em julho de 2003, Cosmotron, sexto álbum de estúdio do Skank, consolida o processo de mudança estilística da banda mineira. Nele, são perceptíveis referências da fase psicodélica dos Beatles (safra 1965-1966), britpop, Oasis e o movimento Clube da Esquina, tudo dentro de uma embalagem pop e acessível. O álbum é uma clara evolução de Maquinarama, onde o Skank prima pelo colorido melódico e pela leveza poética das letras.


Skank, da esquerda para a direita: Lelo Zaneti, Samuel Rosa, Haroldo Ferreti e Henrique Portugal.

A presença da alma dos Beatles no álbum já é percebida na primeira faixa, “Supernova”, cuja levada rítmica remete à lisérgica “Tomorrow Never Knows”, do álbum Revolver. “As Noites”, balada de clima “oasiano”, possui um lirismo poético nos versos e uma beleza melódica capaz de levar o ouvinte ao mundo dos sonhos. “Pegadas Na Lua” é uma balada pop acústica com pinceladas psicodélicas e levada agradável aos ouvidos. “Amores Imperfeitos” é um folk rock sobre um relacionamento amoroso que acabou, mas que pode voltar. Em “Por Um Triz”, a introdução começa com uma batida eletrônica, mas que depois dá espaço para bateria agressiva e guitarras pesadas.

Com ecos de britpop e Oasis, “Dois Rios” foi um dos hits de Cosmotron.  “Nômade” é a única faixa que faz lembrar o Skank “regueiro” do passado, ainda que sob uma forma estilizada, etérea e psicodélica. O piano destoante no final da faixa guarda alguma inspiração ao piano de “Alladin Sane”, de David Bowie. A alegre e ensolarada “Vou Deixar”, outro grande hit do álbum, carrega referências de Beatles de meados dos anos 1960. Em “Formato Mínimo”, a banda consegue empregar beleza poética nos versos ao retratar o encontro de um jovem casal numa festa que termina num efêmero sexo casual (“Para ele, uma transa típica / O amor em seu formato mínimo/ O corpo se expressando clínico / Da triste solidão, a rubrica”). 

O folk pop e romântico de “Resta Um Pouco Mais” é seguido pelo teor crítico de “Os Ofendidos” e sua bateria dançante e guitarras agressivas. Com um pé no pop e outro na bossa-nova, “É Tarde” faz lembrar “Balada do Amor Inabalável”, do álbum  Maquinarama. “Um Segundo” é outra faixa com um clima britpop.

Com direito a loops e batida dançante, o álbum se encerra com “Sambatron”, um flerte com a MPB que traz versos emprestados de “Águas de Março”, de Tom Jobim, e “Reza”, de Edu Lobo e Ruy Guerra (“Laia badaia sabana / Ave-maria / É pau, é pedra, é toda alvenaria, eu sei”). 

Cosmotron vendeu apenas 210 mil cópias, números muito distantes dos de Calango e Samba Poconé. Contudo, teve uma boa recepção por parte da crítica e de público. O lançamento do álbum foi sucedido de uma turnê pela Europa, onde o Skank tocou em Roskilde, na Dinamarca. O vídeo clipe de “Dois Rios” recebeu o prêmio de melhor vídeo clipe pop no MTV Video Music Brasil 2003, enquanto que o de “Vou Deixar”, conquistou o prêmio de melhor videoclipe pop no MTV Video Music Brasil de 2004. Cosmotron já figura entre os mais importantes álbuns da carreira do quarteto mineiro.

Faixas
  1. "Supernova" (Samuel Rosa - Fausto Fawcett)
  2. "As Noites" (Samuel Rosa - Chico Amaral)
  3. "Pegadas na Lua" (Samuel Rosa - Humberto Effe)
  4. "Amores Imperfeitos" (Samuel Rosa - Chico Amaral)
  5. "Por um Triz" (Samuel Rosa - Rodrigo F. Leão)
  6. "Dois Rios" (Samuel Rosa - Lô Borges - Nando Reis)
  7. "Nômade" (Samuel Rosa - Chico Amaral)
  8. "Vou Deixar" (Samuel Rosa - Chico Amaral)
  9. "Formato Mínimo" (Samuel Rosa - Rodrigo F. Leão)
  10. "Resta um Pouco Mais" (Lelo Zaneti - Chico Amaral)
  11. "Os Ofendidos" (Samuel Rosa/Chico Amaral)
  12. "É Tarde" (Samuel Rosa - Chico Amaral)
  13. "Um Segundo" (Samuel Rosa - Chico Amaral)
  14. "Sambatron" (Samuel Rosa - Chico Amaral)

Skank: Samuel Rosa  (vocal, guitarra e violão), Lelo Zaneti (baixo), Henrique Portugal (teclados) e Haroldo Ferreti (bateria).



"Supernova"


"Dois Rios"


"Vou Deixar"


"Amores Imperfeitos"

Nick Cave and the Bad Seeds – Murder Ballads (1996)


 

Sangue, morte, inocência e perigo, num disco conceptual sobre o crime, que viria a tornar-se no trabalho mais vendido de Cave até então

Nick Cave e as suas sementes más já tinham muitos anos de estrada e muito caminho percorrido. De Austrália aos Estados Unidos, da Alemanha ao Brasil, e do punk ameaçador às baladas góticas. Em 1994, é editado Let Love In, um disco que faz a síntese perfeita entre o passado e o que Cave viria a fazer nos discos seguintes, que marcariam a sua imparável subida ao estrelato. O grupo estava a começar a aparecer com mais regularidade na MTV, e parecia claro para todos que aquela era a oportunidade, o vai ou racha: o público internacional, com os ouvidos abertos pelo sucesso da música alternativa no início dos anos 90, estava atento, e disponível para o que viria a seguir.

As gravações do novo trabalho, aliás, começaram ainda nas sessões de Let Love In, e durariam até 1995. Mas as origens do que viria a ser este Murder Ballads vêm de ainda mais atrás, dos tempos da gravação de Henry’s Dream, de 1992. É nessa altura que Cave compõe “O’Malleys Bar”, um delírio assassino de quase 15 minutos que detalha um massacre que um homem alucinado comete num bar. Dos dez temas de Murder Ballads, este é um de sete totalmente originais, a que se juntam duas músicas tradicionais trabalhadas por Cave e um cover puro, que fecha o álbum.

“O’Malleys Bar” não estava necessariamente longe do universo de Cave, mas a sua duração e a sua intensidade tornavam difícil a sua inclusão em discos anteriores (por exemplo, faria pouco sentido em Let Love In). Daí a ideia: e que tal agarrar neste tema da morte, dos crimes – passionais ou outros – e fazer um álbum conceptual? Não era exactamente a jogada mais previsível para um projecto à beira do sucesso mainstream, mas Cave não estava particularmente preocupado com isso. E tinha um plano.

As canções trágicas ligadas ao crime têm uma longuíssima tradição nos países do centro e do norte da Europa, numa corrente estética que vem desde a Idade Média aos contos dos irmãos Grimm. A própria capa remete para esse universo: uma casinha isolada, perdida num bosque nevado, e os desenhos que acompanham as letras de cada canção são obras alemãs do início do século XX. Mais do que retratar crimes e acontecimentos actuais, Cave optou por olhar para o passado. Foi buscar temas tradicionais britânicos e norte-americanos, lendas e mitos urbanos, misturou tudo com a sua distorcida imaginação e serviu-nos este caldeirão fumegante de noite, sangue e velas que ardem até que não sobre ninguém para as apagar.

A abertura, com “Song of Joy”, marca logo o tom. A história é contada por um homem cuja família foi assassinada: a sua mulher e as suas três filhas, encontradas mortas quando o narrador chegou a casa. O tema desenrola-se de forma lenta, dolorosa, com palavras literárias e antiquadas, algumas tiradas da obra de John Milton. Baladas, sim, mas num sentido mais lato.

“Stagger Lee” traz um passo mais acelerado e um tom perigoso, contando a história americana do assassinato de Billy Lions pelo chulo negro Lee Shelton, no natal de 1895. Segue-se a verdadeira balada “Henry Lee”, um fantástico dueto com PJ Harvey, baseado num tema tradicional em que uma jovem mulher rejeitada mata o seu pretendente. A relação amorosa entre Cave e Harvey é um dos episódios mais falados do folcore rock, e começou por essa altura. Ao Guardian, Cave chegou a dizer que começou mesmo na gravação do vídeoclip para “Henry Lee”, que pode ver mais abaixo.

“Lovely Creature” é o esforço mais colectivo de todo o disco, com os créditos de composição a serem atribuídos a quatro dos músicos, além de Cave. O assunto? Acertaram, o assassinato de uma jovem rapariga pelo narrador, que a encontrou e a convidou inocentemente para dar uma volta.

As cordas no arranque de “Where the wild roses grow” não mentem. É uma verdadeira balada, clássica e muito bonita, em que a primeira voz do dueto pertence à maior exportação australiana desde os AC/DC: a estrela pop Kylie Minogue. O vídeo foi uma verdadeira bomba, tirando todo o partido de um exercício que apresenta uma mulher linda e inocente, e Cave como o seu perigoso e quase satânico par. A presença de Kylie e a força da composição trouxeram grande sucesso ao vídeo de apresentação, e “Where the wild roses grow” foi talvez a principal razão para o sucesso comercial do disco. Cave chegou mesmo a dizer às pessoas que ouvissem bem o álbum antes de o comprar, porque aquela doce – ainda que macabra – balada não era representativa de tudo o que Murder Ballads continha. Ainda assim, as vendas foram excelentes, assustando alguns compradores mais inocentes mas trazendo outros para o universo tão peculiar deste australiano.

O ritmo aumenta com a saltitante e delirante “The Curse of Millhaven”, narrada por Loretta, ou Lottie, uma rapariga de 15 anos que se diverte a assassinar moradores locais assim que o sol se põe. O piano regressa com “The Kindness of Strangers”, sobre os perigos de uma jovem solta no mundo, à mercê de estranhos dissimulados e mal intencionados. As palavras de abertura, lentas e tristes, contam tudo: “They found Mary Bellows, cuffed to the bed/ with a rag in her mouth and a bullet in her head/O poor Mary Bellows“.

De seguida temos a história da assassina “Crow Jane”, numa jornada de vingança contra os que lhe fizeram mal, na sua casa pobre à beira do rio. Perto de chegarmos ao fim do disco, surge a besta de violência que é “O’Malleys Bar”. Para fechar, como que para dar algum alívio aos ouvintes depois de tanta morte e tanta dor, Cave guardou a única verdadeira versão de Murder Ballads: “Death is not the end”, de Bob Dylan. Com vários convidados a cantar uma estrofe, como Kylie Minogue, PJ Harvey ou o inimitável Shane MacGowan, é um singalong puro e, curiosamente, a única música em todo o disco em que não acontece pelo menos uma morte.

Murder Ballads, à boleia de um série de factores, tornou-se o disco comercialmente mais bem sucedido de Nick Cave até então, e preparou o terreno para os trabalhos magníficos que se seguiriam, fazendo parte deste período de ouro que começou com Let Love in, em 1994, e durou até No more shall we part, de 2001. É o triunfo de um fantástico exercício de estilo e do próprio estilo que Cave vinha há muito aprimorando. A ligação entre amor e morte, entre beleza e horror, entre o perigo e a inocência.

Um disco incontornável na coleção de qualquer apreciador dos múltiplos talentos do senhor Nick Cave.

Destaque

The Pretenders - 1981-07-17 - Köln, Germany (SBD)

  The Pretenders 1981-07-17 Sartory Säle   Köln, Germany 01. The Wait 02. The Adultress 03. Message Of Love 04. Louie Louie 05. Talk Of The ...