domingo, 12 de março de 2023

CRONICA - GYPSY | Gypsy (1971)

 

Desenvolvendo-se em Leicester, no centro da Inglaterra, o grupo folk Legay lançou um single em 1968, "No-one/The Fantastic Story Of The Steam Driven Banana" em Fontana, antes de finalmente se batizarem de ciganos (não confundir com a combinação rican do mesmo nome). Gypsy reúne o baterista Moth Smith, o baixista/vocalista David McCarthy, o tecladista John Knapp, que também toca violão de 12 cordas, e os guitarristas/vocalistas Robin Pizer e Rod Read. A combinação rapidamente causou sensação, permitindo-lhe abrir para Led Zep e The Who, mas também obter o seu bilhete para a primeira edição do festival da Ilha de Wight em 1969. Programado para duas noites, serviu de trampolim. De fato, no ano seguinte, o grupo assinou contrato com a United Artists para publicar um álbum homônimo em 1971.

Composto por 10 músicas, Gypsy está longe de ser influenciado pelo prog e hard rock que estoura na Inglaterra. O quinteto parece estar olhando para São Francisco, inspirando-se no heavy folk psicodélico de Buffalo Springfield, Moby Grape, HP Lovecraft e CSN&Y. Isso faz você se perguntar se Gypsy é realmente inglês porque o resultado é impressionante. Ele começa com “O que faz de um homem um homem? » uma espécie de heavy country blues com solos de acid rock, riffs de rhythm & blues, voz rústica beirando a raiva e belas harmonias vocais. Harmonizações estratosféricas que vão percorrer todo este disco que cheira a ar livre para canções de rock sólido com espírito Woodstock como "Feel About The Country Fine", "Standing Alone, Feel So Bad" e "Let Me Take You Home" .

Mas Gypsy também sabe oferecer baladas com cheiro country como “Keep On Trying” feita de acordes cristalinos, a rústica “I Don't Care, Do You Mind? », o celestial « I Want To Be Beside You » e o nostálgico « Please Don't Stay ».

Porém, o atrativo desse disco são os 8 minutos de "Turning Wheel" que a CSN&Y não teria negado. Faixa épica, pesada e dramática pontilhada de longos soli de seis cordas elétricas bluesy, assombrosas e vertiginosas, que nos convidam a seguir a imensa Planície de Carrizo na Califórnia. A volta de 33 termina com "Pony Ride" para um hard-boogie perto de Canned Heat. Em suma, Gypsy assina um vinil muito agradável e fácil de ouvir.

Pouco depois de Rod Rean deixar Gypsy. Os membros restantes trabalharão para recrutar um novo guitarrista para continuar a aventura.

Títulos:
1. What Makes A Man A Man?       
2.  On Trying 
3. I Don’t Care, Do You Mind?        
4. Turning Wheel      
5. Feel About The Country Fine       
6. Standing Alone, Feel So Bad       
7. I Want To Be Beside You 
8. Please Don’t Stay  
9. Let Me Take You Home   
10. Pony Ride

Músicos:
Moth Smith: Bateria
David McCarthy Baixo, Vocal
John Knapp: Teclados, Guitarra de 12 cordas
Robin Pizer: Guitarra, Vocal
Rod Read: Guitarra, Vocal

Produção: Gypsy, Peter Swales


CRONICA - KALEIDOSCOPE | A Beacon From Mars (1968)

Se Sides Trips impresso em 1967 mostra uma banda cheia de ousadia e inventividade, o pop psicodélico de Kaleidoscope está longe de ser unanimidade. É preciso dizer que esse sertanejo misturado com música étnica é uma experiência que parece levada ao extremo. David Lindley (guitarra, banjo, bandolim, violino…), Chris Darrow (baixo, gaita, bandolim, dobro, clarinete…), David Solomon Feldthouse (vocais, bouzouki, violão de 12 cordas, oud, violino, saz, vînâ, dulcimer … ), Fenrus Epp cujo nome verdadeiro é Chester Crill (órgão, violino, piano, harpa…) e John Vidican (bateria, percussão) têm de reagir mantendo o seu desejo de fuga. É com esse espírito que lançou em 1968 na Epic A beacon From Mars com a capa magnífica.

Esta segunda obra é uma verdadeira joia do rock psicodélico bem em sintonia com o que está sendo feito na Califórnia. O disco é realizado em dois títulos que terminam cada lado. "Taxi", um instrumental flutuante superior a 11 minutos, feito de improvisações que convidam a viajar do Norte de África ao Extremo Oriente, entre bouzouki, guitarra acústica, oud, tabla...

Nas pegadas dos Doors via órgão, o título homónimo que conclui o LP é um estranho blues de andamento lento mas sobretudo 12 minutos que nos mergulham numa viagem alucinatória. Obviamente, uma peça feita mais do que atordoada após abuso de teste de ácido e outros psicotrópicos.

De resto, o quinteto oferece-nos baladas country folk de ritmo médio influenciadas por Bob Dylan and the Byrds num fundo cajun e ragtime ("I Found Out" na abertura, "Life Will Pass You By", "Louisiana Man" composta por violinista Cajun Doug Kershaw). Como no LP anterior, Kaleidoscope oferece covers tradicionais (a balada assassina “Greenwood Sidey”, uma canção famosa nos países anglo-saxões e o vaudeville “Baldheaded End of a Broom”). Há também um cover daquele blues inflado com hélio em um fundo de guitarra fuzz, "You Don't Love Me" de Willie Cobbs.

Deve-se notar que durante um show promocional Jimmy Page presente naquela noite foi seduzido e fez do Kaleidoscope sua banda favorita.

Em suma, um disco muito agradável e em sintonia com os tempos.

Títulos:
1. I Found Out
2. Greenwood Sidee
3. Life Will Pass You By
4. Taxim
5. Baldheaded End Of A Broom
6. Louisiana Man
7. You Don’t Love Me
8. Beacon From Mars

Músicos:
David Lindley
Chris Darrow
John Vidican
Fenrus Epp
David Solomon Feldthouse

Produtor: Stu Eisen

DISCO PERDIDO



Afonso - Tenho De Ir


Depois do lançamento do single ‘Paper’ em 2021, o estado do mundo abriu espaço para introspeção e tempo para observação do que rodeava o artista Afonso.

 

Tendo deixado de viver em Londres e retornado a Portugal, a forma como tinha lançado música até então teve de se reinventar, já que a banda que na altura integrava o projeto permaneceria no Reino Unido e em outras partes do mundo.

 

Afonso, utilizou este tempo para aprimorar as suas habilidades de produção e deixou para trás as inseguranças que o impediam de lançar música 100% feita pelo próprio. Ao voltar a Portugal, o artista repensa o seu estilo sonoro. Até então, afirmava-se um artista estrito de Jazz e Soul, mas devido às várias influências, de consumo e vivências, adapta-se agora a uma forma mais abrangente de produção. Sonoramente, ‘Tenho De Ir’ aborda a onda afro-pop com um toque de modernismo e inovação - com synths metálicos, e batidas experimentais, delays e guitarras distorcidas, e linhas vocais soulful.

 

O single ´Tenho De Ir´, é então composto por instrumentação, voz e composição completamente ao encargo de Afonso. A música retrata episódios de traição e falta de comunicação numa relação do autor que o levam a ter de abandonar o seu par para se poder reencontrar e aprender com esta experiência. A ideia base da música é que, numa relação, ao não transparecer as nossas ideias, os problemas que possamos pensar existir podem-se tornar maiores. Não exprimindo os nossos sentimentos, é impossível haver harmonia, e daí, Afonso sente a necessidade de se exprimir neste tema.

A produção desta música foi feita entre Lisboa e Londres, com Dario Scotti, um dos produtores dos singles anteriores de Afonso e a mistura e masterização estiveram ao cargo de Nélson Canoa.

 

Review: Bob Marley & The Wailers – The Complete Island Recordings (2021)

 


The Complete Island Recordings
 é uma caixa com 11 CDs lançada nos Estados Unidos e na Europa em 2015, e que cobre toda a trajetória do lendário Bob Marley na gravadora Island, que foi sua casa do início ao fim da carreira. O box foi lançado no Brasil em 2021 pela Universal Music e é uma ótima dica para quem é fã do rei do reggae ou quer conhecer uma das obras musicais mais influentes e espirituais do século XX.

Fazem parte da caixa os álbuns Catch a Fire (1973), Burnin’ (1973), Natty Dread (1974), Rastaman Vibration (1976), Exodus (1977), Kaya (1978), Survival (1979), Uprising (1980) e Confrontation (1983), este último lançado dois anos após a morte de Marley. Além disso, estão no box também os ao vivos Live! (1975) e Babylon by Bus (1978). Todos esses álbuns foram gravados por Bob Marley ao lado dos fenomenais The Wailers e são um documento fundamental sobre a história e desenvolvimento do reggae, que nasceu na Jamaica no final dos anos 1960 e com Marley à frente se transformou em um dos gêneros musicais mais influentes e populares do mundo, impactando estilos diversos como o rock, o pop e até mesmo o jazz.

Ouvir esses 11 discos em sequência é uma experiência transformado e esclarecedora. O som cru e até mesmo rascante dos primeiros álbuns vai evoluindo álbum a álbum até chegar ao refinamento de Exodus, para muitos o melhor trabalho de Bob. Além disso, as performances presentes nos dois álbuns ao vivo são incríveis, com as canções ganhando contornos transcendentais e tornando a música de Marley e dos Wailers ainda mais forte.


Graficamente, os CDs vem acondicionados dentro de uma resistente caixa e as embalagens são todas cardboards, reproduzindo as artes das edições originais em vinil. O material traz um livreto de 24 páginas, além de um encarte de quatro páginas com todos os créditos.

A edição brasileira contém um pequeno erro: no álbum Kaya, as canções “Sun is Shining” e “Is This Love” estão impressas nas posições trocadas tanto na capa do CD quanto no livreto.

The Complete Island Recordings é um documento incrível sobre a música e a obra de Bob Marley. Com acabamento simples e preço atrativo, o box é muito bonito e, musicalmente, traz todos os clássicos que transformaram Marley em um deus da música.


Review: Lucas Barnery – The Wave and the Sea (2021)

 


Primeiro álbum do guitarrista baiano Lucas Barnery, The Wave and the Sea é um trabalho de rock progressivo muito influenciado por Pink Floyd e que traz o músico também cantando. Lucas é acompanhado de diversos instrumentistas e conta com as participações especiais de vocalistas como Karen Silva, Amanda Naricci e Igor Garcia, entre outros.

O álbum é conceitual e fala sobre a morte e a decisão de tirar a própria vida. As canções narram o sentimento de perda de quem fica e o vazio de quem tomou essa decisão, compondo um trabalho denso e melancólico. A influência de Pink Floyd (notadamente do clássico The Wall, de 1979) é sentida durante todo o disco, e vai desde o modo de escrever e a ambientação das canções claramente inspiradas na maneira Roger Waters de fazer música, e chegam até David Gilmour através da forma de tocar de Lucas, que é elegante e nada apressado nos solos. Já os trechos mais pesados não chegam a se aproximar do prog metal e mostram que Barnery provavelmente é fã de bandas como o Porcupine Tree.

Todo cantado em inglês, The Wave and the Sea é um bom álbum de rock progressivo que brinda o ouvinte com belas canções como “Fate After Death”, a linda “Birds”, “Hold On”(com um solo de sax bem encaixado por Jordi Amorim), “The End” (com um belo dueto de Lucas com Amanda Naricci) e a grandiosa “The Enemy and the Corridor” (a mais pesada do disco), com mais de quinze minutos de duração e que conta com um trecho central acústico onde Lucas mostra suas influências de música brasileira.

Graficamente, o CD vem em slipcase e em um digipack muito bem feito, e conta com encarte de 12 páginas com todas as letras. A produção é um pouco abafada, mas nada que comprometa o resultado final.

Uma boa surpresa, indicada para todo fã de prog.

sábado, 11 de março de 2023

50 anos de “No Secrets”: O mágico disco de Carly Simon.

O Pop dos anos 70 é simplesmente maravilhoso. Na minha opinião, é um dos momentos da música mais fáceis de curtir e com menos chance de errar, afinal os artistas encontraram um formato muito interessante de composição e produção. Carly Simon é uma artista que entendeu isso e em 1972, mais precisamente há 50 anos atrás, ela lançava o melhor disco de sua carreira, o “No Secrets”!

Até então, Carly havia lançado dois discos, esses são bons trabalhos , regulares mas que ainda possuem uma produção menos elaborada e composições não tão inspiradas. Acontece que em 1972, Simon estava muito inspirada e acompanhada de grandes músicos, ela trabalhou e lançou um trabalho mágico, por assim dizer, o “No Secrets”. A pureza que esse disco passa, a leveza é coisa de outro mundo.

As músicas são muito leves e parecem ser uma só, seguindo uma linha muito parecida porém nada repititiva. Uma coisa que me chamou a atenção no disco são os inícios das músicas que são bem envolventes e parecem ter um cuidado a mais! Falando um pouco sobre os destaques do disco, não posso deixar de destacar a faixa de abertura “The Right Thing To Do”, uma das coisas mais românticas e lindas que já vi. E também o maior sucesso desse disco “You’re So Vain”, uma composição muito autoral e inspirada, grandiosa, melódica e inesquecível.

No Secrets foi disparado o maior sucesso da carreira de Carly Simon, e com muita justiça. Pois é um disco lindo, perfeito. Composições que emocionam do início ao fim, um nível de qualidade e requinte que não vejo frequentemente. Com certeza é um dos grandes trabalhos de 1972 e merece demais essa homenagem nos 50 anos de seu lançamento!

 


“Sentimental Fool”: A incrível regularidade artística de Lee Fields.

Se Lee Fields registrou um disco no ano, aquele ano já foi excelente para a música. Ele é um dos artistas mais inspirados e talentosos da atualidade e para a surpresa de 0 pessoas, ele lançou um dos trabalhos mais interessantes de 2022, e hoje vamos falar um pouco sobre tal, o “Sentimental Fool”! É um prazer ser contemporâneo à música de um nome tão fantástico como Lee Fields!

Não seria exagero algum dizer que Lee Fields é o James Brown da atualidade, tanto pela semelhança de estilos com o Brown, quanto pela superidodade quando comparamos Lee com os demais nomes da indústria hoje. E comprovando cada dia que passa, sua regularidade, constância e qualidade musical, fomos presenteados mais uma vez com um disco cuidadoso, o “Sentimental Fool”!

Neste disco ele segue a linha que já conhecíamos de Soul/Funk dos últimos trabalhos, com a diferença de que desta vez ele carrega uma linha um pouco mais introspectiva e sentimental como o título do disco sugere! Com um vocal menos “raivoso” e mais suplicativo! O que na minha opinião da uma opção bacana em sua discografia e marca novamente seu talento!

De considerações finais, “Sentimental Fool” traz ótimos temperos da década de 70, aquele momento de ouro da Soul Music, com qualidade e destreza, uma produção cheia mas não poluída! Me faz abrir um sorriso de orelha a orelha ter um artista desse nível entre nós hoje em dia! Vamos celebrar Lee Fields! Fica a recomendação!

 


10 discos essenciais: Punk Rock

 


Por Sidney Falcão

Ao chegar à década de 1970, o rock havia evoluido tecnicamente e gerado novas ramificações, algumas delas primando pelo preciosismo técnico e o exibicionismo como o rock progressivo, onde as músicas eram “quilométricas” - chegando a ocupar um lado inteiro de um LP - arranjos exageradamente elaborados e as produções dos discos muito caras. Nascido como um instrumento de rebeldia aos padrões conservadores e moralistas nos anos 1950, o rock tornou-se duas décadas depois uma máquina lucrativa para as grandes gravadoras. Astros do rock como Led Zeppelin, Paul McCartney, Pink Floyd, Yes, Elton John, Peter Frampton, por exemplo, viraram celebridades milionárias, inacessíveis, quase que “semideuses”. Os concertos dos grandes astros do rock tornaram-se muito “pirotécnicos” e em palcos gigantescos. Todo esse exagero e imponência fizeram do rock um gênero musical “burocrático”, distante da rebeldia, da urgência e da espontaneidade das suas origens.

O punk rock surge em meados dos anos 1970 como um movimento estético musical em reação ao estado mercantilista que havia chegado o rock. Chegava para trazer a simplicidade das suas origens de volta, porém com um olhar crítico acentuado, e também, é claro, para execrar toda a “realeza” do rock.

As caracteríticas principais do punk como gênero musical são as músicas curtas e rápidas, executadas em alto volume e com muita fúria, arranjos básicos, simples, baseados em três acordes, intrumentos de segunda mão. Os temas são geralmente tratam sobre política, guerras, violência urbana e luta de classes. Dentre as influências que ajudaram a formatar a sonoridade do punk rock estão o rock de garagem dos anos 1960, e bandas como MC5, The Stooges, The Kinks, The Who, Velvet Underground e New York Dolls.

Ramones: pioneiros do punk rock.

O punk começa a ser “germinado” em Nova York quando uma cena alternativa roqueira estava em ebulição naquela cidade, por volta de 1974. A casa noturna CBGB, em Nova York, era ponto central dessa cena alternativa, promovendo shows de Ramones, Television, Blondie, Talking Heads, Patti Smith, Richard Hell & The Voidoids, dentre outros artistas.

Atento a tudo aquilo, estava o inglês, Malcolm McLaren, que naquela época, morava em Nova York desde 1971 e era empresário dos New York Dolls, banda nova-iorquina de glam rock que tinha laços de amizade com os artistas daquela cena alternativa de rock que se propagava. Os New York Dolls, uma especie de cruzamento de Rolling Stones com travestis, faziam um som tosco e pouco técnico, mas exerceu influência no som punk nova-iorquino. Contudo, a banda financeiramente era um fracasso, e chegou ao fim em 1974. Isso motivou McLaren a retornar para Londres, sua cidade natal, e consigo levou as ideias do que viu em Nova York, sobretudo, o visual desleichado de Richard Hell, vocal dos Voidoids.

Em Londres, Malcolm McLaren e sua esposa, a estilista Vivienne Westwood, abriram a loja Sex, onde comercializavam roupas inspiradas nos figurinos de Richard Hell: roupas rasgadas e com alfinetes, e camisetas riscadas à mão. Esse figurino se tornaria a referência estética para o punk inglês. Além disso, a Sex vendia também trajes com inspiração sadomasoquista. Sex era frequentada por pessoas esquisitas e de caráter duvidoso. Dentre os frequentadores da loja, estavam Steve Jones, Paul Cook, Glen Matlock e Johnny Rotten, que formaram os Sex Pistols e tiveram Malcolm McLaren como empresário.

Johnny Rotten, vocalista dos Sex Pistols.

 Dali para a explosão punk detonada pelos Pistols foi um pulo. Em pouco tempo, o Reino Unido era sacudido pelo punk rock que espalhou a filosofia do “Do It Yourself” (“Faça Você Mesmo”), em que incentivava jovens ingleses a montarem suas próprias bandas de rock, com instrumentos usados, com pouco ou nenhum conhecimento musical. O que importava era o jovem expressar as suas ideias, as suas angústias e a sua fúria, num momento em que os britânicos passavam por uma recessão econômica. No rastro do furacão punk encabeçado pelos Sex Pìstols, seguiram dezenas de bandas como The Clash, Buzzcocks, The Damned e The Stranglers. O rock a partir de então não seria mais o mesmo.

No final dos anos 1970, após o seu ápice, o movimento punk inglês se desdobrou em outras tendências musicais que seguiram em frente empunhando a bandeira punk do “Faça Você Mesmo”, como a Cold Wave, 2 Tone, Synthpop, No Wave, Psycobilly entre outras. Todas elas comporam a era denominada Pós-Punk que adentrou os anos 1980 apontando novos caminhos para o rock e o pop.

O punk, como gênero musical, seguiu em frente influenciando o rock nos anos posteriores, inclusive o rock brasileiro dos anos 1980, bem como o de outros países. Continuou exercendo influência nas tendências do rock alternativo e comercial que surgiram ao longo dos anos como grunge, o punk pop e no revival do pós-punk no começo dos anos 2000.

Abaixo, confira dez discos essenciais do punk, não necessariamente uma lista dos dez melhores do gênero em os todos os tempos (embora alguns dos álbuns presentes figurem nas listas dos melhores de todos os tempos), mas álbuns que exerceram influência e têm relelevância no punk rock.

Ramones (Sire Records, 1976), Ramones. Gravado praticamente em uma semana, ao custo de pouco mais de US$ 6 mil e com instrumentos de segunda mão, os Ramones tentavam em seu primeiro e homônimo álbum, traduzir de maneira furiosa e tosca, todas as influências baseadas no que eles ouviam na adolescência nos anos 1960 como surf music, rock de garagem, bublegum (um pop fabricado e “descartável” dos anos 1960) e o protopunk de bandas como Stooges e MC5. Em seu álbum de estreia (e primeiro álbum de punk rock da História), os Ramones passeiam por temas leves como romantismo (“I Wanna Be Boy Friend”) até assuntos mais barra pesada como drogas (“Now I Wanna Sniff Some Glue”), violência (“Chain Shaw” e “Beat On The Brat”) e prostituição (“53rd & 3rd”). Destaque para a faixa “Blitzkrieg Bop” que traz o famoso grito de guerra da banda: “Hey Ho! Let’s Go!”.


Blank Generation (Sire Records, 1977), Richard Hell & The Voidoids. Criativo ao extremo, o papel do baixista e cantor Richard Hell no punk não limitou-se apenas na música, mas também na moda. Os cabelos espetados e as roupas rasgadas cheias de alfinetes que se tornaram a marca do figurino punk, partiram da mente inquieta de Richard Hell. Após passar pelas bandas Television e Johnny Thunders & Heartbreakers, Richard Hell formou em 1976 a banda The Voidoids, que também ficou conhecida como Richard Hell & The Voidoids. O grupo foi um dos mais importantes nomes da cena alternava de Nova York em meados do anos 1970. Blank Generation, álbum de estreia dos Voidoids, é presença frequente nas listas de melhores álbuns punks de todos os tempos. A curiosidade fica por conta do baterista Marc Bell, que após deixar os Voidoids, entrou nos Ramones em 1978, e passou a se chamar Marky Ramone.


The Clash (CBS, 1977), The Clash. Da “trinca de ouro” do punk composta por Ramones, Sex Pistols e The Clash, sem sombra de dúvidas, o Clash é de longe a mais politizada e engajada. O engajamento politico do Clash já se manifesta neste seu primeiro e autointitulado álbum, em faixas como “I’m So Bored With The USA” (uma crítica ao apoio dos Estados Unidos a ditaduras em países pobres naquela época), “White Riot” (uma crítica ao racismo), “Hate & War” (aborda a violência e intolerância), “Carrer Opportunities” (sobre crise econômica e social). Ao mesmo tempo, o Clash demonstrava neste seu primeiro álbum, a sua aproximação com o reggae, numa regravação de “Police & Thieves”, do jamaicano Junior Murvin.


Never Mind The Bollocks, Here's The Sex Pistols (Virgin, 1977), Sex Pistols. Foi com este álbum que o punk britânico foi detonado e nada mais ficou de pé no rock do Reino Unido. O som, o título do álbum (“bollocks” = “escrotos” em português) e a postura anárquica dos Sex Pistols, chocaram a opinião pública, mas disseminou o punk rock no Reino Unido, provocando uma renovação no cenário roqueiro britânico. Os Pistols descarregam a sua fúria, sarcasmo e a desesperança no futuro em faixas que se tornaram clássicos do punk como “God Save The Queen” (um ataque à Rainha Elizabeth II), “Anarchy In The UK” (uma revolta contra a apatia no Reino Unido naquele momentoi), “Liar” (punk rock sobre a falsidade) e “Bodies” (letra versa sobre aborto). A vida dos Sex Pìstols pode ter sido curta, mas o seu legado através deste álbum parece desconhecer a barreira do tempo.


Damned, Damned, Damned (Stiff Records, 1977), The Damned. A banda The Damned foi duplamente precoce dentro do punk rock inglês. Foi a primeira banda punk inglesa a lançar um single, “New Rose”, em outubro de 1976, três meses depois que o grupo foi formado, em Londres. A Damned foi também a primeira banda punk inglesa a lançar um álbum, Damned, Damned, Damned, em fevereiro de 1977.





Another Music In A Different Kitchen (United Artists, 1978), Buzzcocks. Enquanto as outras bandas punks tratavam em suas canções sobre guerras, violência urbana, conflitos sociais e política, os Buzzcocks focavam assuntos mais voltados aos sentimentos humanos como a paixão, desilusões amorosas e amores conturbados. Apesar do romantismo nas letras, o som dos Buzzcocks une fúria, velocidade, melodia e uma dicreta inclinação pop. Todas essas caracteríticas estão presentes em Another Music In A Different Kitchen, álbum de estreia do quarteto inglês. Destaque para as faixas “I Don’t Mind”, “Fiction Romance”, “Love Battery” e “I Need”.


Fresh Fruit For Rotting Vegetables (Cherry Red Records, 1980), Dead Kennedys. Os californianos Dead Kennedys se notabilizaram como pioneiros do hardcore e pelas músicas cheias de críticas sarcásticas e corrosivas à classe política e entidades religiosas. E é justamente isso que se encontra em Fresh Fruit For Rotting Vegetables, álbum de estreia dos Dead Kennedys. Punk rocks e hardcores velozes e afiados servem de base sonora para faixas matadoras. “Kill The Poor” apresenta de maneira sarcástica, a solução da elite para o fim da pobreza: exterminar os pobres com uma bomba de neutrons. “Holiday In Cambodja” convida o jovem rico e hipócrita americano a passar um feriado na ditadura exterminadora do Camboja. 


Damaged (SST Records, 1981), Black Flag. Outra banda que ajudou a difundir o hardcore no mundo foi a banda Black Flag, californiana da cidade de Hermosa Beach, nos Estados Unidos. Damazed, primeiro álbum da Back flag, é um álbum de sonoridade crua, pesada, com faixas velozes e curtíssimas, tendo Henry Rollins aos berros nos vocais. Em meio à massa sonora caótica, a banda aborda temas como alienação e tédio. O álbum traz a música mais conhecida da Black Flag, “Party TV”, uma crítica bem debochada sobre pessoas que passam o dia todo vendo TV.




Rock For Light (Passport Records, 1983), Bad Brains. Formada em 1977, em Washington DC, Estados Unidos, a banda Bad Brains marca a presença negra na história do punk rock. Os músicos da banda tiveram formação musical no jazz fusion e no funk, mas ao descobrir o som agressivo e politizado do punk rock, decidiram trilhar um novo caminho. Rock For Light é o segundo álbum da banda e teve a produção de Ric Ocasek, vocalista do The Cars. Assim como no primeiro álbum, lançado apenas em fita cassete, Rock For Light concilia a fúria e crueza do punk e do hardcore com a malemolência do reggae. Os Bad Brains não só adotaram o reggae na sua mistura musical como também, alguns de seus membros converteram-se ao rastafarianismo. 


Dookie (Reprise, 1994), Green Day. Em meados dos anos 1990, o punk tomou um novo fôlego com o punk pop, tendência que combinava o ritmo veloz e contagiante do punk rock tradicional acrescido de melodia, letras mais descontraídas e um pouco de “polimento” na sonoridade. Com essa receita, o punk pop logo se tornou uma mania, revelou dezenas de bandas e passou a frequenter as paradas de sucesso, horrorizando os punk mais conservadores que tanto renegaram a grande indústria fonográfica. Dookie é foi fruto daquela nova onda punk e revelou para o mundo o power trio norte-amereicano Green Day, um dos principais nomes do punk pop. O álbum bateu a marca de 30 milhões de cópias e emplacou as faixas “Basket Case”, “Welcome To Paradise”, “She” e “When I Come Around”. O álbum foi contemplado com um prêmio Grammy de “Melhor Álbum de Música Alternativa”, em 1995.

Destaque

CAPTAIN BEYOND - Texas - 1973

  Outro dia reclamaram que ando boicotando bandas americanas aqui no PRV. Para acabar com a polêmica posto aqui uma das melhores bandas das ...