quinta-feira, 6 de julho de 2023

CRONICA - POCO | Legend (1978)

A história que começa com "Legend O décimo primeiro álbum de estúdio de Poco é pouco mais que um novo capítulo para a banda. É um novo começo. Originalmente, este disco também não seria lançado com o nome de Poco: após a saída de Timothy B. Schmit, que saiu para se juntar aos Eagles, os três membros restantes - Rusty Young, Paul Cotton e o baterista original George Grantham - tinham de fato tomaram a decisão de interromper, pelo menos por um tempo, suas atividades comuns. Os inseparáveis ​​Cotton and Young mantiveram-se, no entanto, associados num novo projeto com os seus nomes (a Cotton-Young Band), a que se juntaram uma nova secção rítmica composta pelos britânicos Charlie Harrison (baixo) e Steve Chapman (bateria). Com a mudança de época que se aproximava, surgiu a vontade de explorar outros caminhos além do country rock, que só havia gerado para Poco um relativo sucesso comercial, em comparação com outros representantes do gênero, a começar pelos Eagles, que de fato haviam feito sua popularidade crescer afastando-se de seu estilo inicial. Uma lição bem compreendida por Cotton and Young, que regressou em 1978 com um produtor agora sozinho ao leme - Richard Sanford Orshoff, notadamente conhecido por ter produzido o primeiro álbum de Jackson Browne -, a quem também foi confiado o poder de arbitragem na escolha de as composições mantidas. O papel de Orshoff na nova coloração musical deste projeto que voltará a ser Poco por vontade da gravadora ABC não é, sem dúvida, desprezível,

Sem marcar uma pausa demasiado abrupta com "Indian Summer" , "Legend" dá a impressão de que os patrões do Poco deram um passo em frente na mestria da sua arte, e em particular Paul Cotton, que é talvez o mais inspirado dos dois amigos neste álbum, ou pelo menos o mais determinado a renovar a sua música, embora só assine um terço dos títulos. Refira-se ainda que a partir deste disco, os dois músicos - que sempre escreveram sozinhos - vão por sua vez criar faíscas e dominar este ou aquele álbum ao oferecer as melodias mais cativantes, até “Inamorata  . É, portanto, Cotton quem conduzirá a dança em “Legend”, compondo relativamente pouco, mas interpretando a maioria dos títulos, inclusive uma das peças-chave, cortadas para as faixas: "Heart Of The Night", que lembra um pouco o espírito de "One Of These Nights", gravada pelos Eagles três anos antes. Entre os sucessos de Paul Cotton, ainda podemos citar o título de abertura, “Boomerang”, bem mais cara que o normal, com seu riff flertando com o hard rock e seu ritmo inspirado no funk, dançando na perfeição.

Mais prolífico, Rusty Young está paradoxalmente um pouco atrasado, oferecendo várias de suas composições a Paul Cotton. Sua especialidade neste disco é a balada: ele assina quatro delas, sem sobrecarregar o ambiente. Com seus sons típicos de piano elétrico da costa oeste, a soberba “Spellbound” está lá para atestar isso; é o tipo de peça cheia de delicadeza e sutileza que seu ex-parceiro Timothy B. Schmit poderia ter composto e interpretado, o que se tornará uma segunda natureza para Rusty Young ao longo dos álbuns. Interpretada por seu amigo Cotton, "Love Comes Love Goes" é mais clichê, mas ainda agradável, com suas belas harmonias vocais e seu curto solo de saxofone. Young brilha mais com "The Last Goodbye", uma melodia acolchoada, com um refrão bastante poderoso e arejado, num registo sempre tão costeiro e encantador, onde as duas cantoras partilham o microfone. O single "Crazy Love" também deve ser contado entre essas muitas baladas, em uma forma amplamente acústica e lindamente etérea. Finalmente chega "Legend", um título composto por Young mas interpretado por Cotton, que encerra este disco de forma bonita, num tom mais rock, e deu um bom motivo para esperar impacientemente pela continuação desta nova era na discografia de Poco que finalmente teve seu primeiro sucesso real com dois singles entrando no top 20 americano e um primeiro disco de ouro, infelizmente o único em pouco tempo. em uma forma amplamente acústica e lindamente etérea. Finalmente chega "Legend", um título composto por Young mas interpretado por Cotton, que encerra este disco de forma bonita, num tom mais rock, e deu um bom motivo para esperar impacientemente pela continuação desta nova era na discografia de Poco que finalmente teve seu primeiro sucesso real com dois singles entrando no top 20 americano e um primeiro disco de ouro, infelizmente o único em pouco tempo. em uma forma amplamente acústica e lindamente etérea. Finalmente chega "Legend", um título composto por Young mas interpretado por Cotton, que encerra este disco de forma bonita, num tom mais rock, e deu um bom motivo para esperar impacientemente pela continuação desta nova era na discografia de Poco que finalmente teve seu primeiro sucesso real com dois singles entrando no top 20 americano e um primeiro disco de ouro, infelizmente o único em pouco tempo.

ítulos:
01. Boomerang
02. Spellbound
03. Barbados
04. Little Darlin’
05. Love Comes Love Goes
06. Heart Of The Night
07. Crazy Love
08. The Last Goodbye
09. Legend

Músicos:
Paul Cotton: vocal, guitarra
Rusty Young: vocal, guitarra, guitarra de aço
Charlie Harrison: baixo, backing vocals
Steve Chapman: bateria
______
Tom Stephenson: teclado
Jai Winding: teclado
Michael Boddicker: sintetizador
Steve Forman: percussão
Phil Kenzie: saxofone
David Campbell: arranjos de cordas

Produção: Richard Sanford Orshoff

Rótulo: ABC depois MCA

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Resenha Buffalo Springfield Álbum de Buffalo Springfield 1966

 

Resenha

Buffalo Springfield

Álbum de Buffalo Springfield

1966

CD/LP

Vamos voltar no tempo, lá para a década de sessenta, para falar um pouco sobre o período que fomentou o crescimento e desenvolvimento do rock. Com Beatles e Stones seguindo os passos do pessoal que veio lá da década de cinquenta, adicionando também uma camada de ousadia, diversas bandas começaram a surgir logo depois com propostas distintas para expandir esse maravilhoso leque que tem como centro o rock. Blues, psicodelia, progressivo, metal, folk, country, southern, tudo começou a se fundir e crescer exponencialmente. E foi com o mesmo intuito que surgiu o Buffalo Springfield, após Stephen Stills e Neil Young se conhecerem lá na região de Los Angeles compartilhando da mesma energia em cima dos palcos. O vocalista Rick James veio depois, através do baixista Bruce Palmer que, ao lado de Young, foi parar em L.A. após não conseguirem ir adiante com a banda The Mynah Birds, de Toronto.

Com bom entrosamento em cima dos palcos, duas mentes extremamente criativas (Young e Stills) e material suficiente para lançar o primeiro álbum, foi questão de tempo até que tudo se acertasse. Mas, o primeiro single, "Nowadays Clancy Can't Even Sing", não foi tão bem assim, já que não trazia a mesma energia que a banda tinha em cima dos palcos. Porém, pouco depois, Stills compôs o maior hit da banda: "For What It's Worth", que foi bem nas paradas e garantiu a visibilidade necessária ao Buffalo Springfield.

A versão que estou escrevendo é a que foi lançada em stereo e contém o hit "For What It's Worth". Há uma versão em mono também, do qual a faixa em questão dá lugar a "Baby Don't Scold Me". São doze faixas em pouco mais de trinta minutos de audição. Com a produção ficando por conta dos empresários Charles Greene e Brian Stone, o disco falhou por impressionar além do hit, já que carece da energia de palco da banda. Com canções bem compostas, executadas e cantadas, a produção fez com que o resultado final tenha ficado sem um brilho adicional, ou seja, não resultou em um impacto suficiente para concorrer com os grandes nomes da época como Beatles, Stones, The Who, etc.

Stills e Young compuseram a maior parte do material, que traz também a colaboração dos demais membros aqui e ali. Os vocais foram divididos entre os dois e também Furay, que representa a figura principal, o frontman.

A banda traz uma competente integração entre o rock e o country, com uma pegada bem southern. Destacam-se o hit "For What It's Worth", "Go and Say Goodbye", "Sit Down, I Think I Love You", "Hot Dusty Roads", as belas baladas "Flying on the Ground Is Wrong" e "Out Of My Mind", e "Leave".

Banda:

Stephen Stills — vocals, guitars, keyboards
Neil Young — vocals, guitars, harmonica, piano
Richie Furay — vocals, rhythm guitar
Bruce Palmer — bass guitar
Dewey Martin — drums, backing vocals

Faixas:

A1		For What It's Worth
A2		Go And Say Goodbye
A3		Sit Down I Think I Love You
A4		Nowadays Clancy Can't Even Sing
A5		Hot Dusty Roads
A6		Everybody's Wrong
B1		Flying On The Ground Is Wrong
B2		Burned
B3		Do I Have To Come Right Out And Say It
B4		Leave
B5		Out Of My Mind
B6		Pay The Price


Resenha 16 Álbum de Einar Solberg 2023

 

Resenha

16

Álbum de Einar Solberg

2023

CD/LP

Impressionante o trabalho de estreia do versátil e talentoso vocalista norueguês Einar Solberg, conhecido também por ser o vocalista do grupo de metal progressivo Leprous. "16" é a sua estreia como artista solo e impressiona pela ousadia e personalidade.

2023 é de fato mais um ano surpreendente em produções oriundas das bandas da cena progressiva, algo que tem ocorrido com frequência considerando também os anos anteriores. Além dos medalhões e veteranos como Yes, Neal Morse, Flower Kings, Pendragon, Arena, Marillion, etc., temos novos artistas buscando por espaço e se consolidando como líderes dessa nova geração. E Einar Solberg é um deles. Com apenas 38 anos e uma notável discografia ao lado de sua banda principal, o Leprous, seu debute solo veio só agora em 2023, só que muito, mas muito acima da média em termos de criatividade, ousadia e também na parte técnica.

Muitos consideram que o Leprous é na verdade uma banda solo de Einar, embora o cantor discorde com o argumento de que os últimos álbuns foram os mais colaborativos até então. Fato é que, mesmo seu álbum solo não conseguindo se desconectar completamente do som de sua banda principal, novas texturas sonoras são exploradas em "16", que é abrilhantado também por diversas participações especiais. Lançado pela Inside Out, o disco traz uma viagem relativamente longa em 11 faixas, mas que não cansa o ouvinte em um momento sequer, dada a diversidade entre cada música e também entre as diversas técnicas vocais de Einar, que possui um dom bem exclusivo e sabe muito bem como não cansar o ouvinte.

"16" abre com a faixa título de maneira suave e bem atmosférica, soando perfeita para ouvir com os fones. Aqui lembra muito o Steven Wilson em seus primeiros discos solo. "Remember Me" nos remete ao Riverside sem soar como uma cópia, e é onde o peso começa a aparecer. A faixa também conta com belíssima orquestração. "A Beautiful Life" segue a mesma linha, contando agora com sintetizadores e linhas vocais que declaram abertamente que Einar é admirador de Morten Harket, também norueguês e vocalista do famoso grupo de synthpop A-HA. "Where All The Twigs Broke" é conduzida pelo piano e traz uma abordagem mais melancólica, mergulhando posteriormente em passagens progressivas e orquestradas. Referenciando novamente Steven Wilson, "Metacognitive" é impressionante em termos de texturas que casam melodias marcantes em um ritmo em uma pegada mais lenta. De repente, "Home" vira completamente o jogo e traz um progressivo mais complexo misturando influências de bandas setentistas como Van der Graaf Generator com produção moderna. "Blue Light" é uma balada com belas vocalizações e uma abordagem mais singela e emocionante. "Grotto" também merece destaque por surpreender ao nos lembrar de Pain Of Salvation, misturando o progressivo com alternativo e também o hip-hop. Vocais guturais são o destaque do dramático refrão de "Splitting The Soul", uma faixa densa e interessante. Por fim, temos a tocante e impactante balada "Over The Top", a que menos me impressionou, e a épica de encerramento "The Glass Is Empty", progressiva, pesada e também densa. Uma viagem que impressiona até o minuto final é o que resume essa grande composição.

Meus amigos, por se tratar de um disco de estreia e considerando que o Leprous vai muito bem, esse é um álbum merecedor de aplausos. Se você é fã de artistas fora da caixinha e também das bandas mencionadas, não terá o seu tempo perdido. Se puder, pegue o seu melhor fone, apague as luzes e viaje incansavelmente ao som de "16".

Créditos:

Bass – Tor Egil Kreken
Cello – Raphael Weinroth-Browne
Choir – The City Of Prague Philharmonic Choir
Drums – Keli Guðjónsson
French Horn – Nora Hannisdal
Guitar – Ben Levin (2) (faixas: 2, 3, 8, 10), Magnus Børmark* (faixas: 2 to 4, 8, 10)
Guitar, Piano, Composed By [Composition] – Tóti Guðnason (faixas: 11)
Guitar, Vocals, Composed By [Composition] – Ihsahn (faixas: 9)
Organ [Church Organ] – Þórður Sigurðarson
Producer, Engineer [Recording Engineer] – David Castillo (5)
Recorded By – Henning Svoren
Recorded By [Bass Recording] – Dag Erik Johansen
Saxophone – Jon Henrik Rubach
Trombone – Runar Fiksda*
Trumpet – Pål Gunnar Fiksdal
Violin – Chris Baum

Faixas:

1. 16 (feat. Raphael Weinroth-Browne) 7:44 
2. Remember Me 5:39 
3. A Beautiful Life 4:35 
4. Where All The Twigs Broke (feat. Star of Ash) 6:14 
5. Metacognitive 5:13 
6. Home (feat. Ben Levin) 4:10 
7. Blue Light (feat. Asger Mygind) 6:54 
8. Grotto (feat. Magnus Børmark) 4:57 
9. Splitting The Soul (feat. Ihsahn) 6:22 
10. Over The Top 6:54 
11. The Glass Is Empty (feat. Tóti Guðnason) 11:08 


ROCK ART

 


BIOGRAFIA DE Moreira da Silva

Moreira da Silva

Antônio Moreira da Silva[1] (Rio de Janeiro1 de abril de 1902[1] — Ibid.6 de junho de 2000[2]) foi um cantor e compositor brasileiro, também conhecido como Kid Morengueira.[3] É considerado o criador do samba-de-breque, embora o breque já existisse em composições mais antigas como "Cansei", de Sinhô.[4] Moreira da Silva nasceu no começo do século XX, 1902, quando o Rio de Janeiro estava em transformação, com a inauguração das primeiras salas de cinema.

Infância, adolescência e vida pessoal

Antonio Moreira da Silva nasceu na Rua Santo Henrique (atual Carlos Vasconcelos) no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. Filho mais velho de Bernardino da Silva Paranhos, trombonista da Polícia Militar e da dona de casa Pauladina da Silva Paranhos.[1]

Abandonou a escola aos treze anos, quando o pai morreu (outra fonte afirma que o pai morreu de cirrose por consequência do excesso de consumo de bebidas alcoólicas quando Moreira tinha 5 anos[1]), e a família ficou sem um maior apoio. Assim, trabalhou como vendedor de doce, entregador de marmita e catador de papel,[1] tendo trabalhado até sua aposentadoria como servidor público.[5] Na adolescência, atuou também numa barraca da festa da Penha, numa fábrica de meias e noutra de cigarro. Mais tarde, foi motorista de táxi e, depois, de ambulância.[1]

Formou família ao se casar em 1928, permanecendo casado por 50 anos.[5] Quando frequentava a zona do meretrício do Rio, Moreira conheceu Estera Gladkowicer, uma imigrante judia russa naturalizada brasileira que integrava a Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita. Depois de algum tempo se prostituindo, Estera virou cafetina e administrou um bordel no Mangue, onde Moreira se encontrava com ela. Os dois ficaram juntos por 18 anos.[6]

Carreira

Primeiros trabalhos

Um dia, ao fazer uma corrida para Ismael Silva, este lhe sugeriu que fizesse um teste na Odeon, por achar que ele tinha talento. Moreira foi à gravadora e passou no teste, gravando um disco com duas composições de Getúlio Marinho: "Ererê" e "Rei da Umbanda". Foi no terceiro que alcançou o sucesso, com o lado B "Arrasta a Sandália", de Antonio Gomes e Baiaco.[7]

Em 1934, entrou para a equipe do Programa Casé, da Rádio Philips. No mesmo ano, pela Columbia, lançou mais um sucesso: "Implorar", escrita por ele em parceria com Kid Pepe e J. Gaspar.[8] Em 1937, a convite do então diretor artístico da Rádio Mayrink Veiga César Ladeira, foi para a emissora por um salário de quinhentos mil-réis, juntando-se a Francisco AlvesCarmen e Aurora MirandaGastão FormentiJoão Petra de BarrosPatrício TeixeiraMário ReisJorge FernandesCyro MonteiroEriberto MuraroJosé Maria de AbreuNonô, entre outras estrelas da rádio na época.[8] Em 1939, a convite do fadista Manuel Monteiro, foi se apresentar em Portugal, o que lhe rendeu uma participação no filme A Varanda dos Rouxinóis, de José Leitão de Barros.[9] Moreira ficou no país europeu por três meses.[6]

Decadência financeira

Pouco antes de ir para Portugal, Moreira se desligara da Mayrink. Além disso, por ter ficado três meses fora do país, não gravou nenhum disco e sua execução nas rádios caiu. Entre 1938 e 1939, ele gravou várias músicas pela Odeon e pela Columbia, mas nenhuma delas estourou. Além disso, a Rádio Nacional não quis renovar seu contrato e ofereceu-lhe somente um cachê simbólico por apresentações esporádicas. Em 1940, ele tentou dois discos, de novo sem sucesso.[10] Em 1942, após temporada de um mês na Bahia, Moreira tentou o sucesso novamente comprando uma composição ("Lembranças da Bahia", para a qual constou como coescritor) de Geraldo Pereira, mas ainda não foi daquela vez.[11]

Volta ao sucesso

Moreira começou a lentamente reconstruir sua carreira no início dos anos 1950, quando Jorge Veiga foi da Tupi para a Rádio Nacional, abrindo uma vaga para Moreira.[12] Ainda nos anos 1950, mais precisamente em 1954, tentou carreira política, candidatando-se a vereador do Distrito Federal, mas recebeu pouco menos de 400 votos.[12] Em 1958, completou 32 anos de carreira no funcionalismo público e se aposentou como encarregado de garagem.[13]

Em dado momento, a Odeon o convidou a gravar um disco com antigos sucessos, que saiu com o nome O Último Malandro. O LP renovou sua carreira, levando-o de volta às rádios e aos programas de televisão e rendendo um prêmio de Disco de Ouro, entre outros. A amizade com o poeta e radialista Miguel Gustavo começa nesta fase.[14]

Nova queda

Contudo, a chegada da bossa nova (que o cantor desmereceu) e da Jovem Guarda tiraram espaço dele e outros sambistas. Seu último disco, Moreira da Silva, o Tal Malandro, vendeu 1,5 mil cópias, resultado que levou a Odeon a colocá-lo na "geladeira".[15] Contrariado pela relutância da gravadora em lançar um disco cheio seu, Moreira rescindiu seu contrato e foi para a Cantagalo, por meio da qual lançou os discos O Sucesso Continua e Manchete do Dia.[15]

Em 1976, fez um show com Jards Macalé descrito como "antológico" por quem o assistiu.[16] No ano seguinte, a dupla juntou-se ao Projeto Pixinguinha e excursionou por diversas capitais estaduais do Brasil.[17] Participou do histórico disco de Chico Buarque de Holanda, a Ópera do Malandro de 1979, fazendo dueto com o próprio Chico.

Em 1992, foi tema do enredo da escola de samba Unidos de Manguinhos. Em 1995 gravou Os 3 Malandros in Concert com Dicró e Bezerra da Silva, aos 93 anos de idade. Em 1996, foi tema do livro Moreira da Silva - O Último dos Malandros. Com 98 anos de idade, ainda se apresentava em shows.

Problemas de saúde e morte

Nos anos 1990, vivendo sua décima década de vida, Moreira tinha apenas 10% da visão no olho direito, tomado pela catarata. Realizou uma operação para resolver o problema, mas logo depois, teve de operar também a próstata. Sofrendo de insônia, passa a tomar lorax, o que o deixa debilitado ao longo do dia. Mesmo assim, seguiu fazendo shows até uma nova operação afastá-lo dos palcos por cinco meses. Seu último espetáculo foi Os 3 Malandros in Concert.[2]

Em 29 de abril de 2000, Moreira da Silva caiu em casa e foi internado numa clínica particular, sendo depois levado ao Hospital dos Servidores do Estado, no Rio de Janeiro, em função dos altos custos da permanência na UTI. O cantor morreu na manhã de 6 de junho de 2000[2] em função de falência múltipla de órgãos.[5]

Discografia

Do lançamento mais novo para o mais antigo. Adaptado das fontes.[18][19]

  • 1995 - Bezerra, Moreira e Dicró - Os 3 Malandros In Concert • CID • CD
  • 1994 - Mestres da MPB • Continental • CD
  • 1993 - Moreira da Silva fotografa o Rio • EMI • CD
  • 1990 - Moreira da Silva especial • EMI-Odeon • CD
  • 1989 - 50 Anos de samba de breque • Fama • LP
  • 1986 - Cheguei e vou dar trabalho • Top Tape • LP
  • 1985 - O rei do gatilho • PolyGram • LP
  • 1983 - O astro • Jangada • LP
  • 1981 - A arte de Moreira da Silva • PolyGram • LP
  • 1979 - O jovem Moreira • PolyGram • LP
  • 1977 - Talento brasileiro • CID • LP
  • 1973 - Consagração • CID • LP
  • 1972 - 70 anos de samba • Tropicana • LP
  • 1970 - Manchete do dia • Cantagalo • LP
  • 1970 - Mo"Ringo"eira • Continental • LP
  • 1968 - O sucesso continua • Cantagalo • LP
  • 1968 - Morengueira • Imperial • LP
  • 1967 - Moreira da Silva-O Tal Malandro • Odeon • LP
  • 1966 - Conversa de botequim • Odeon • LP
  • 1964 - A carta/Céu sem balões • Repertório • 78
  • 1964 - Morengueira 64 • Odeon • LP
  • 1963 - Rio alegre/Vem Emilinha • Magistral • 78
  • 1963 - Botafogo/Herdeiros do Brasil • Regency • 78
  • 1963 - O último dos moicanos • Odeon • LP
  • 1963 - Tradição da Lapa;Pai Adão • Albatroz • 78
  • 1962 - Malandro diferente • Odeon • LP
  • 1962 - Moreira da Silva-O Tal Malandro • Odeon • LP
  • 1962 - Bailarinos do gramado/Que loura é essa? • Odeon • 78
  • 1962 - Dancê mademoisele/O último dos moicanos • Odeon • 78
  • 1962 - Mundo de lata/Meu prazer • Orion • 78
  • 1962 - Meu desejo/Fingida • Musidisc • 78
  • 1961 - Malandro em sinuca • Odeon • LP
  • 1961 - Aquele adeus/O rei do gatilho • Odeon • 78
  • 1960 - Dona justina/O canto do pintor • Odeon • 78
  • 1960 - Cinderela em negativo/Antigamente • Odeon • 78
  • 1960 - Cardápio de Chang-Wu/Cachorro da madame • Odeon • 78
  • 1959 - Gago apaixonado/Bamba de Caxias • Odeon • 78
  • 1959 - Madona de minh'alma/Feliz Natal, minha mãe • Odeon • 78
  • 1959 - A volta do malandro • Odeon • LP
  • 1958 - Jogando com o capeta/Despreso • Odeon • 78
  • 1958 - O último malandro • Odeon • LP
  • 1957 - Chang Lang/Escuta moreninha • Odeon • 78
  • 1956 - Zé Trombone/Tentação • Santa Anita • 78
  • 1956 - Turma do funil/Brotinho bom • Santa Anita • 78
  • 1956 - Moreira da Silva, O Tal!Santa Anita • LP
  • 1955 - Portuguesa da minha rua/Aluga-se uma casa • Continental • 78
  • 1954 - Diploma de pobre/A mão do Alcides • Continental • 78
  • 1954 - Bamba de Caxias/Laranja tem vitamina • Continental • 78
  • 1954 - Vote em mim/Capitão Guerreiro • Todamérica • 78
  • 1953 - Arrependida/Viva o Cabral • Continental • 78
  • 1953 - Bilhete premiado/Dormi no molhado/Jogo proibido/Malandro bombardeado • Continental • 78
  • 1953 - 1.296 mulheres/Falsa Grã-fina • Continental • 78
  • 1953 - Na carreira do crime/Poeta dos negros • Continental • 78
  • 1952 - Cavaleiro de Deus/Na subida do morro • Continental • 78
  • 1952 - Olha o Padilha/Rosinha • Continental • 78
  • 1952 - Três-três/São Sebastião • Continental • 78
  • 1951 - Viva o elefante/Ele tem que voltar • Carnaval • 78
  • 1951 - Sempre a mulher/Boquinha de siri • Carnaval • 78
  • 1950 - Arraiá do Barnabé/Olhai pelo Brasil • Star • 78
  • 1950 - Entrevista/Sou motorista • Star • 78
  • 1950 - Papai das coroas/Meu sapato • Star • 78
  • 1949 - Mulher que eu gosto/Falta de elegância • Star • 78
  • 1949 - Pra cubano ver/Alto, moreno e simpático • Star • 78
  • 1949 - Helena querida/Resignado • Star • 78
  • 1949 - Céu azul/Presépio encantado • Star • 78
  • 1948 - Amigo desleal/Margarida • Odeon • 78
  • 1948 - Estácio de Sá/A volta da jardineira • Odeon • 78
  • 1948 - Rei dos ciganos/Ela é feia, mas é boa • Star • 78
  • 1947 - Samba triste/Pernambuco, você é meu! • Odeon • 78
  • 1947 - Rica cigana/São Cristóvão • Odeon • 78
  • 1946 - Amigo-da-onça/Noiva da gafieira • Odeon • 78
  • 1946 - O relógio da matriz/Adeus, Aurora • Odeon • 78
  • 1945 - Falavas de mim com ela/O relógio lá de casa • Odeon • 78
  • 1945 - Cremilda/Estúdio azul • Odeon • 78
  • 1945 - O samba na Gamboa/Lindo Lar • Odeon • 78
  • 1944 - Foi-se meu azar/Juracy, boca-de-siri • Odeon • 78
  • 1944 - Meu grande amigo/Meu pecado • Odeon • 78
  • 1943 - Antes, porém.../Conversando com satanás • Odeon • 78
  • 1943 - Cigano/Copa Roca • Odeon • 78
  • 1943 - Samba pro concurso/Maestro, toque aquela • Odeon • 78
  • 1942 - Dormi no molhado/Fui a Paris • Odeon • 78
  • 1942 - Lembranças da Bahia/Mentiras de madame • Odeon • 78
  • 1942 - Conversa de camelô/Qu'este-ce que tu pense? • Odeon • 78
  • 1942 - Diplomata/Voz do morro • Odeon • 78
  • 1941 - Esta noite eu tive um sonho/Amigo urso • Victor • 78
  • 1941 - O homem que se casa é feliz/Mendigo do amor • Victor • 78
  • 1941 - Doutor em futebol/Bilhete branco • Victor • 78
  • 1941 - Pára-quedista do amor/O jantar está na mesa • Odeon • 78
  • 1941 - Nicolau/Dança do espalha • Odeon • 78
  • 1940 - A deusa da vila/Com açúcar • Odeon • 78
  • 1940 - Marcha ABC/Quando o sol apareceu • Odeon • 78
  • 1940 - Olha a cara dela/Assim termina um grande amor • Victor • 78
  • 1940 - A casinha amarela/Acertei no milhar • Odeon • 78
  • 1939 - O trabalho me deu o bolo/Adeus, orgia adeus • Odeon • 78
  • 1938 - Todo mundo está esperando/Mineiro sabido • Columbia • 78
  • 1938 - Fraco abusado/Do amor ao ódio • Columbia • 78
  • 1938 - Cassino/Nega Zura • Columbia • 78
  • 1938 - Mineiro sabido/Chang-Lang se queimou • Columbia • 78
  • 1938 - Nega de gafieira/Beijo furtado • Columbia • 78
  • 1938 - Não sou mais aquele/Meu sofrimento • Columbia • 78
  • 1937 - O trabalho me deu bolo/O que tem iaiá • Columbia • 78
  • 1936 - Qual é teu desejo/Roxa de saudade • Columbia • 78
  • 1936 - Depois de você/Adeus... vou partir • Columbia • 78
  • 1936 - Olha a lua/Tenho tudo • Columbia • 78
  • 1935 - Gosto de você iaiá/Coração constipado • Columbia • 78
  • 1935 - Sá Miquilina/Foi em 1500... • Columbia • 78
  • 1934 - Devias ser condenada/Implorar • Columbia • 78
  • 1933 - Empurra/Implorei sua amizade • Victor • 78
  • 1933 - Confesso/Homem não chora • Victor • 78
  • 1933 - Cabrocha Inteligente/Quando a noite vem chegando • Victor • 78
  • 1933 - Vou vender jornal • Columbia • 78
  • 1933 - É batucada/Tudo no penhor • Columbia • 78
  • 1933 - Xandica • Columbia • 78
  • 1933 - No Morro de São Carlos/Eu vou comprar • Victor • 78
  • 1933 - Abre a boca e feche os olhos/Olha à direita • Victor • 78
  • 1933 - Levante o dedo/Cadê você, meu bem? • Victor • 78
  • 1933 - Cadê você? • Victor • 78
  • 1933 - Desperta/Confissão de malandro • Victor • 78
  • 1932 - Na favela/Eu sou é bamba • Odeon • 78
  • 1932 - Auê/Cafioto • Odeon • 78
  • 1932 - Na mata virgem/Auê de Ganga • Odeon • 78
  • 1932 - A baiana de nagô/Martirizado • Odeon • 78
  • 1932 - Era meia-noite! • Parlophon • 78
  • 1932 - Vejo lágrimas/Arrasta a sandália • Columbia • 78
  • 1932 - Pra lá de boa /Oi, Maria • Victor • 78
  • 1931 - Ererê/Rei da umbanda • Odeon • 78

Filmografia

Adaptado da fonte.[20]



 

Review: Pain of Salvation – Panther (2020)

 


O Pain of Salvation é sinônimo de qualidade e evolução. Desde o início a banda deu passos para a frente em cada álbum, alterando seu som às vezes com pequenas variações e em outras chocando os ouvintes com mudanças massivas.

O último disco dos suecos, In the Passing Light of Day (2017), foi considerado por muitos como uma espécie de volta às raízes, com uma sonoridade mais alinhada ao metal progressivo canônico do grupo. Já em Panther ocorre mais uma mudança de rumo, com um disco que é ao mesmo tempo sombrio, agressivo, intimista, sofisticado, técnico, delicado, moderno, ambicioso e temperamental. Art rock em sua essência – ou, se preferir, pode chamar de art metal.

Panther é um trabalho que entrega melodias fortemente emotivas adornadas por ritmos e arranjos que causam estranheza em alguns momentos, mas quando são assimilados por quem é fã de metal progressivo levam a inevitáveis “uaus”. Um disco que traz sons futuristas e tendências modernas e se conecta ao universo de nomes diversos como Devin Towsend, Haken e outras referências do prog contemporâneo.

Os destaques vão para o líder Daniel Gildenlöw, coração e alma do Pain of Salvation, um compositor singular e um intérprete visceral, que explora uma gama enorme de sentimentos em cada canção. E também para o baterista Léo Margarit, um dos nomes mais subestimados do instrumento e que aqui é o responsável, em grande parte, não só pelo poderio percussivo sempre presente nos discos da banda mas também pelo próprio dinamismo do álbum. Assinaturas de tempo complexas, criativas e totalmente incomuns tornam o trabalho de bateria absolutamente deslumbrante.

O Pain of Salvation é uma banda pródiga em entregar obras-primas para os fãs. E Panther mantém o nível surreal de In the Passing Light of Day e também dos já clássicos The Perfect Element I (2000), Remedy Lane (2002) e Be (2004). A maturidade, a personalidade única e a autoconsciência gigantesca de Daniel Gildenlöw e seus colegas pode facilmente ser confundida com pretensão, mas na realidade são demonstrações explícitas de um talento brilhante.

Espetacular, mais uma vez!



Review: Haken – Virus (2020)

 


Este é o primeiro álbum do Haken a não "evoluir" o som, no sentido de que não introduz nada realmente novo que não tenhamos ouvido nos discos anteriores da banda inglesa. Como se trata de uma sequência direta do último disco, Vector (2018), faz sentido que seja assim.

Na verdade, os dois álbuns funcionam extremamente bem juntos. Tudo o que foi feito em Vector é intensificado aqui, com o grupo mergulhando no djent e até em algumas influências de thrash metal. Pode-se dizer que Virus é ainda mais denso, embora um pouco mais longo. Trata-se de um trabalho sem nada desnecessário e fora de lugar, um disco sem frescuras e que é apenas um belo e bem dado soco no rosto do ouvinte.

Algumas faixas se destacam: o belo trabalho vocal de “Invasion” merece menção, o labirinto de sons apresentado em “Carousel” e os mais de dezessete minutos da suíte de cinco partes “Messiah Complex”.

Ao lado de nomes como o Caligula’s Horse, Leprous, Thy Catafalque, Ne Obliviscaris, Between the Buried and Me e alguns outras, o Haken conduz o prog metal por caminhos que mantém o estilo interessante ao associá-lo com outros gêneros sem abrir mão de sua essência.

A nova década do metal progressivo começou em altíssimo nível e merece um brinde em alto e bom som.



Review: Marcus King – El Dorado (2020)

 


Quem gosta de southern rock já conhece o nome de Marcus King há um certo tempo. Nascido em Greenville, na Carolina do Sul, em 1996, o vocalista e guitarrista é uma das referências atuais do estilo, que nasceu e foi popularizado durante os anos 1970 por lendas do porte do Lynyrd Skynyrd e The Allman Brothers Band.

King é influenciado tanto pelo Skynyrd quanto pela banda dos irmãos Allman, mas traz em sua musicalidade também muito elementos de country, folk e blues. Na estrada desde 2015 com a The Marcus King Band, chega agora ao seu quarto disco, El Dorado, o primeiro assinado apenas com o seu nome. Soul Insight (2015), The Marcus King Band (2016) e Carolina Confessions (2018), os três anteriores, foram creditados à Marcus King Band.

El Dorado traz um elemento a mais e que agrega muito ao som de King, e seu nome é Dan Auerbach. O vocalista e guitarrista do The Black Keys foi parceiro na composição das faixas e produziu o disco, usando a sua experiência para tornar a música do prodígio norte-americano ainda mais universal. Vale lembrar que Warren Haynes, outro gigante da história do southern e o cérebro do Gov’t Mule, apadrinhou King desde o início da sua trajetória. Ou seja: o cara vem cercado de grandes talentos e faz jus aos elogios que tem recebido.

O álbum apresenta doze músicas gravadas ao lado do tecladista Bobby Wood (que tocou com Elvis Presley, Dusty Springfield e Wilson Pickett), do baixista Dave Roe (lenda do som de Nashville que fez parte da banda de Johnny Cash e possui um currículo gigantesco) e do baterista Gene Chrisman (que tocou com Aretha Franklin, Dionne Warwick, Roy Orbison e outras lendas da música). Excelente cantor, King possui um timbre similar ao de seu mentor Warren Haynes, enquanto na parte instrumental é um guitarrista com um senso melódico inato e um feeling farto para criar momentos marcantes.

Em seu primeiro disco solo, Marcus King soa menos visceral que nos álbuns que gravou com a sua banda. No entanto, soa mais maduro do que antes. A parceria com Auerbach acentuou a influência de soul já latente nos trabalhos anteriores, como é possível ouvir na linda “One Day She’s Here”. A folha corrida e o feeling de Wood, Roe e Chrisman é um das responsáveis pelo clima contemplativo e mais sossegado das músicas. Essa pisada no freio, no entanto, torna a audição do trabalho um tanto cansativa, pois há uma inegável falta de momentos mais explosivos. Essa carência é parcialmente preenchida por “Say You Will”, The Well” e “Too Much Whiskey”, essa última totalmente Lynyrd Skynyrd.

Ainda assim, El Dorado é um dos grandes discos de 2020, principalmente para quem é fã do rock sulista dos Estados Unidos com elementos de country, blues e folk.



Manu Chao – Clandestino (1998)

 

Um disco de Verão, cheio de boas vibrações caribenhas e uma névoa forte de marijuana a sair das colunas de som.

1995 foi um ano complicado para Manu Chao: a sua banda Mano Negra desfaz-se e o seu namoro de longos anos chega ao fim. Deprimido, deambula pelo mundo (México, Congo, Brasil…), recolhendo sons no seu tosco gravador e escrevinhando canções à viola para esconjurar os seus demónios.

Regressado a casa em ’98, Chao transforma esse seu diário de viagem no seu primeiro disco a solo, o icónico Clandestino. Onde Mano Negra era eufórico e eléctrico, Manu Chao é descontraído e acústico, dominado pelo balanço reggae da viola e pela sua voz quente e anasalada.

Em coerência com a frugalidade de Manu Chao, conhecido por não ter carro nem telemóvel, a Virgin não fez qualquer promoção do disco. Por isso, foi muito lenta a sua ascensão na tabela de vendas. Mas o boca-a-boca foi começando, cada fã sussurando a novidade mágica ao fã seguinte, até que cinco milhões de pessoas em todo o mundo guardavam o segredo no seu discman. A geração do interail e da mochila às costas acabara de encontrar o seu porta-voz.

A maioria dos temas é cantada em espanhol, o que somado aos trompetes mariachi, percussões cubanas e guitarradas peruanas dá um forte travo latino a Clandestino (tudo filtrado por uma sensibilidade alternativa, de quem vem do punk rock). Manu canta também em francês, inglês e português, como quem diz que não pertence a nenhum outro sítio que não ao mundo inteiro.

Manu Chao em concerto
Manu Chao, cidadão do mundo se apresenta.

Entre um tema que acaba e um novo que começa não há qualquer corte, tudo flui suavemente como um riacho a correr. Melodias, palavras e beats de uma canção reaparecem em outros lugares com roupagens diferentes, acentuando a sensação de só haver uma única e enorme faixa. Excertos de noticiários, relatos de futebol, trechos de novelas e discursos políticos vão atravessando o disco, como se girássemos o botão do rádio, com o vento entrando pelo vidro aberto do carro.

Os arranjos esparsos são de um irrepreensível bom gosto mas o que torna Clandestino um disco tão especial é a qualidade da escrita das suas canções. Imaginação é a palavra-chave: nas bonitas melodias e nas palavras transbordantes de poesia.

Clandestino é um disco de Verão, cheio de boas vibrações caribenhas e com uma névoa forte de marijuana a sair das colunas de som (reza a lenda que Manu fuma mais erva sozinho do que os Wailers todos juntos). Mas se tivermos mais atentos encontraremos também muita dor e desilusão, e não falamos só do seu coração partido. Na fronteiriça “Welcome to Tijuana”, o festim dos sentidos de “tequila, sexo e marijuana” tem tanto de euforia como de desespero. Em “Bongo Bong”, um percussionista africano que era o maior na sua aldeia natal batuca para ninguém na solidão da grande cidade. E a canção que dá nome ao disco é um retrato duro sobre a situação dos sem-papéis. Nestas vinhetas, o subtexto esquerdista é evidente mas Chao nunca cede ao facilitismo panfletário, nem partir montras em “manifs” anti-globalização é um requisito para se ser fã. Manu apenas mostra o mundo tal como ele é: cruel mas belo, cheio de “lágrimas de oro”.



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