domingo, 9 de julho de 2023

Discografias Comentadas: Focus (Parte II)

 Discografias Comentadas: Focus (Parte II)

Apresentamos a segunda parte da Discografia Comentada do grupo de rock progressivo Focus. Depois de um longo retiro, com apenas dois álbuns lançados em um período de mais de vinte anos, o grupo firmou-se nos anos 2000, lançando álbuns de estúdio regularmente e ressurgindo como uma das maiores forças do rock progressivo atual. Voltando no tempo, em 1985, novamente o nome Focus apareceu no cenário musical, e dessa vez, de forma totalmente surpreendente.

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Jan Akkerman e Thijs Van Leer (1985)

Focus8Focus [1985]

Sem dúvidas, essa é a maior mancha negra da história do Focus, e quiçá da história da música. Quando ninguém esperava, a união de Akkerman e Van Leer foi anunciada em 1984, e assim, criou-se uma grande expectativa para o que seria parido pelos dois gênios comandantes do grupo dez anos após a separação. Quando Focus chegou ao mercado, a decepção foi maior do que a imensa barriga (e careca) estampada por Van Leer na contra-capa do álbum. O excesso de sintetizadores e batidas eletrônicas em nada convergem para os instrumentos acústicos (violão e flauta respectivamente) ostentados pela dupla na contra-capa do LP. O único momento razoável é “King Kong“, principalmente por não conter nada eletrônico, mas nada mirabolante, e a jam “Who’s Calling“, enaltecendo as virtudes de Akkerman na guitarra e Van Leer na flauta. Há alguns momentos interessantes durante “Russian Roulette”, com a participação do baixista Tato Gomez, e “Olé Judy“, que lembra um pouco o que Rick Wakeman fez na mesma época, mas pelo menos dando espaço para a flauta e a guitarra se exibirem agradavelmente. O resto são canções injustificáveis, seja “Indian Summer”, tendo a presença de Tato e também da tabla de Ustad Zamir Ahmad Khan, a participação de Ruud Jacobs tocando baixo durante os insuportáveis dez minutos de “Beethoven’s Revenge ou Sergio Castillo fazendo a percussão eletrônica de “Le Tango”, uma terrível tentativa de tornar o tango moderno. Um disco muito fraco, que é a mais pura demonstração de como os anos 80 serviram para destruir com a carreira de grandes nomes do rock dos anos 70. Recomendado apenas para colecionistas.

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Bert Ruiter, Thijs Van Leer, Jan Akkerman e Pierre Van der Linden, Na reunião de 1990

Em 1990, a principal formação do Focus, com Van Leer, Akkerman, Bert Ruiter (baixo) e Pierre Van der Linden (bateria) voltou a se reunir para duas apresentações nos programas da TV holandesa Veronika e Goud van Oud. Infelizmente, quando todos achavam que a reunião iria vingar, nada mais do que essas duas apresentações surgiu. Em 1993, Van Leer e Akkerman dividiram o palco durante o North Sea Jaz Festival. Van Leer continuou sua carreira solo, e em 1999, reformulou o Focus, trazendo na formação Hans Cleuver (baterista da primeira formação da banda), Ruiter e Menno Gootjes (guitarras). Vários shows pela Holanda foram realizados, e depois de algumas mudanças na formação, eis que o Focus entra nos anos 2000 com toda força. Van Leer juntou-se aos membros da banda CONXI Bobby Jacobs (baixo), Ruben Van Roon (bateria) e Jan Dumée (guitarras) e ressuscitou o Focus. Van Roon nem chegou a esquentar as baquetas, e foi substituído por Bert Smaak. Esse time lança seu nono álbum em 2002.


Focus9Focus 8 [2002]

Focus 8 colocou o grupo no mercado novamente, através de uma extensa turnê mundial, promovendo o melhor trabalho da banda desde Hamburgo Concerto (1974). O álbum resgata a sonoridade marcante do Focus anos 70, sendo por exemplo impossível não lembrarmos de “House of the King” durante o solo de flauta e violão de “Tamara’s Move“, a singela oitava parte (faixa-título) de “Focus”, a bela “De Ti O De Mi”, e também de segurar as lágrimas na arrepiante revisão instrumental de “Brother”, totalmente modificada em relação a péssima canção registrada em Focus Con Proby, tendo Dumée reproduzindo a linha vocal de Proby na guitarra e com uma tímida citação à “Eruption” em seu encerramento. Temos uma mistura inovadora do yodel e peso durante “Hurkey Turkey”, canção que virou o grande sucesso do álbum, trazendo a participação de Geert Scheijgrond na guitarra, “Neurotyka“, uma neta com genes fortemente ligados a avó “Hocus Pocus”, gravada ao vivo no estúdio e com Ruben Van Roon na bateria, e “Rock & Rio”, alegre homenagem à cidade Maravilhosa. O yodel também está presente em duas canções totalmente opostas, a festiva “Flower Shower”, canção bônus totalmente desnecessária, sendo a mais fraca do álbum, e “Što Čes Raditi Ostatac Života?“, sem dúvidas a melhor canção de Focus 8, levada pelo dedilhado flamenco do violão, os longos acordes de órgão e um solo magistral de Dumée, que comanda a suavidade e simplicidade de “Blizu Tebé”, outra fortemente inspirada nos anos 70. A flauta é o principal instrumento de “Fretless Love”, trazendo elementos de Focus 3 com o som dos anos 2000. Um retorno essencial e definitivo, trazendo o grupo novamente para os palcos, e possibilitando a geração de uma nova leva de fãs, além do resgate dos mais antigos.

Uma extensa turnê mundial trouxe o Focus pela primeira vez ao Brasil em novembro de 2002, para shows no Rio de Janeiro, Macaé, São Paulo e Belo Horizonte. Essa turnê foi registrada no DVD Live in America (2002). O grupo voltou novamente ao Brasil em março do ano seguinte, com três concorridas apresentações em São Paulo, duas no Rio de Janeiro, uma em Porto Alegre e uma em Belo Horizonte.

Thijs van Leer,Pierre Van Der Linden, Bobby Jacobs e Niels Van Der Steenhoven. Focus em 2006

Em 2004, Pierre Van der Linden assumiu novamente seu posto, no lugar de Smaak. No mesmo ano, foi lançado o CD Live at BBC de forma oficial. O mesmo já aparecia como bootleg na década de 90, e nele esá uma apresentação da banda na rádio inglesa em fevereiro de 2006. Também é de 2004 o excelente DVD Masters from the Vaults, um documentário repleto de imagens raras e com toda a história dos holandeses, que seguiram excursionando, passando mais uma vez pelo Brasil (em maio de 2005, com quatro apresentações em São Paulo, mais uma apresentação no Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte), até o novo lançamento, em 2006, já com Niels van der Steenhoven no lugar de Dumée. Vale citar que essas vindas ao Brasil ocasionaram um futuro lançamento, como veremos na sequência, graças a uma jam session realizada no “Boteco” Orquídea, em Niterói, junto ao pianista Marvio Ciribelli.


ffocus_9_nebdaf75d4bca23eafa580edFocus 9 / New Skin [2006]

A nova formação deu uma nova cara para o Focus, principalmente por conta da guitarra jovem de Niels, que foge bastante do virtuosismo empregado por Dumée, e assemelha-se mais as linha de Akkerman, sendo que por diversas vezes confundimos os timbres da guitarra e achamos que é o próprio Jan quem está nas seis cordas, principalmente durante as suaves linhas de “Sylvia’s Stepson”, transformando-se em uma pesada canção na parte central, e nas duas partes de “Focus”, no caso a balada “Focus 7″ e a jazzística maluca “Focus 9” (para os curiosos de plantão, “Focus VI” está presente no álbum Reflections, lançado por Van Leer em sua carreira solo, no ano de 1981). Por outro lado, o guitarrista criou um suingue inigualável em “Niel’s Skin”, única faixa de Focus 9 escrita por ele, e que casou muito bem com a cozinha Jacobs / Van der Linden, além de trazer o free jazz como fonte adicional de criatividade para a música clássica durante os épicos e divertidos dez minutos de “European Rap(sody)“, na qual Thijs é o astro principal, seja na flauta, no órgão, no piano e até nas vocalizações que aparecem na canção, citando nomes de canções do grupo que acabam formando a letra dessa pequena Maravilha. O Focus moderno, com Niels e Van Leer emulando as mesmas melodias, está na alegre “Pim” e nas baladas “Ode to Venus”  e “It Takes 2 2 Tango”, a qual poderia ser um pouco mais curta. O álbum traz uma recriação instrumental para “Black Beauty” (de Focus Play Focus), que particularmente considero bem melhor que sua versão original, e a segunda parte de duas canções gravadas pelo grupo anteriormente: “Hurkey Turkey 2″, um pouco mais lenta que a primeira versão (presente em Focus 8), e com yodels simulando as linhas da “Marcha Turca” de Mozart; e “Just Like Eddy”, sequência de “Eddy” (Focus Con Proby) tendo Jo de Roeck nos vocais, e totalmente descartável. Já o excesso de yodels do álbum anterior é desconstruído em Focus 9, aparecendo apenas em “Hurkey Turkey 2″ e em “Aya-Yuppie-Hippie-Yee”, uma agitada faixa, destacando a performance de Van der Linden, assim como a flauta está mais tímida, aparecendo apenas nas partes leves de “Curtain Call”. No geral, um disco muito bom, que mantém a vontade de se ouvir o grupo em alta.

Mais excursões seguiram-se, com outras três vindas ao Brasil: em junho de 2008 (São Paulo, Rio de Janeiro e Recife); em março de 2010 (Belo Horizonte, Juiz de Fora, Porto Alegre, Goiânia e São Paulo); e março de 2012 (Belo Horizonte, Pouso Alegre, Rio de Janeiro, Goiânia, Votorantim e São Paulo). Nesse meio tempo, foi lançado o ao vivo Live In Europe, lançado em tiragem limitada e vendido exclusivamente nos shows da banda, com registros da turnê europeia de 2008. Em janeiro de 2011, Niels anunciou sua saída oficial do Focus, sendo substituído por Menno Gootjes. Esse time voltou ao estúdio para gravar, seis anos após Focus 9 / New SkinFocus X.


ffocus_xb324ec95cff521cb903193Focus X [2012]

Contando com uma belíssima arte sob a mão do mestre Roger Dean, para mim, esse é o melhor álbum do Focus sem Jan Akkerman. O grupo está solto, e a cozinha Ruiter / Jacobs funciona como uma máquina perfeitamente ajustada. A pancada “Father Baccus“, que abre a bolacha, entra na lista das melhores faixas que o grupo gravou, e Van Leer comprova seu talento na flauta durante a circense “Talk of the Clown” e a veloz “All Hens On Deck” – que também apresenta um bonito duelo de yodel com guitarra – além de declamar um poema em latim durante a viajante “Hoeratio”. Belo também é o trabalho de piano, violão e guitarra em “Amok In Kindergarten“. A guitarra de Menno conversa com o ouvinte durante “Message Magique” e “Victoria”. Surpreendentemente, temos Ivan Lins fazendo a voz de “Birds Come Fly Over (Le Tango)”, e mais surpreendentemente ainda é que é uma boa canção. Outra canção com convidado é “Crossroads“, apresentando Berenice Van Leer nas vocalizações, e o papai  Thijs fazendo a voz principal. Focus X também abre espaço para as bonitas melodias da última parte de “Focus”, “Focus 10″.  A versão japonesa possui dois bônus: “Santa Teresa”, trazendo Ivan Lins nos vocais, em espanhol, e uma versão ao vivo para “Hocus Pocus”. Recentemente, Van Leer declarou que esse é um dos seus discos preferidos da banda, ao lado de Moving Waves e Focus 3.

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Menno Gootjes, Thijs Van Leer, Bobby Jacobs e Pierre Van der Linden

O grupo retornou ao Brasil para mais apresentações em abril de 2014, com uma grande turnê e shows em Florianopolis (09), Curitiba (12), Pouso Alegre (12), Rio de Janeiro (15), Belo Horizonte (16), Catanduva (17), Porto Alegre (18) e São Paulo (19). No mesmo mês, mais precisamente no dia 29, lançam pelo novo selo, In And Out of Focus Records, mais um álbum.


Golden Oldies [2014]

Esse álbum trata de regravações de clássicos da banda com a formação de Focus X. Estão aqui “Aya Yippie Hippie Yee”, “Brother” (similar ao arranjo de Focus 8, e não ao de Con Proby), “Focus 1”, “Focus 3 & 2”, “Hocus Pocus“, “House Of The King”, “Neurotica”, “Sylvia” e “Tommy” (uma das partes de “Eruption”). Com exceção de “Focus 3 & 2”, que faz uma mistura dessas duas partes de “Focus”, e de pequenas modificações em “Focus 1” e “Sylvia”, conforme apresentadas nos shows da época, bem como Van Leer nos vocais de “Brother”, não há nenhum arranjo novo. Apenas uma nova formação interpretando de forma fiel os arranjos originais. Claro que os solos de Menno são bastante diferentes dos de Akkerman (nas faixas em que este era o guitarrista), Van Leer acrescenta novos improvisos aqui e acolá, a cozinha modifica algumas partes de determinados trechos das canções, mas no geral, é mais um caça-níqueis do que um item de exceção na discografia da banda. Vale como uma boa coletânea revisitada.


Focus 8.5 / Beyond The Horizon [2016]

Apresentando uma série de convidados, e sob o título Focus and Friends Featuring Marvio Ciribelli, Focus 8.5 / Beyond The Horizon foi gravado em nosso país durante a turnê de 2005, como resultado das tours citadas acima. O pianista Marvio Ciribelli é a atração na capa, e um dos arranjadores ao lado de Van Leer. Além do brasileiro, estão também Sérgio Chiavazzoli (guitarras, violões), David Ganc (Flauta), Marcelo Martins (Flauta), Mário Sève (Flauta), Arthur Maia (baixo), Rogério Fernandes (baixo), Amaro Júnior (bateria), Marcio Bahia (bateria, voz), Fabiano Segalote (Trombone, voz), Amaro Júnior (Percussão), Flavio Santos (Percussão), Marcio Bahia (efeitos), Mylena Ciribelli (ela mesma, repórter esportiva, efeitos e vocais), Thaís Motta (vocais), Marcio Lott (vocais), além de Van Leer, Van Der Linden, Jacobs e Dumée. O Focus como banda surge apenas na estonteante “Hola, Como Estas?”, belíssima e quebrada faixa com a participação vocal dos amigos brasileiros. Thijs, Jacobs e Pierre estão em “Surrecit Christus”, faixa hipnotizante, onde as flautas de Thijs, David e Mário Seve são os destaques junto das vocalizações de Thaís, além de um solo de baixo por Jacobs. Os músicos estão improvisando de forma descontraída, sem compromisso, como  comprova-se em “Focus Zero”, faixa fantástica na qual Van Der Linden e Van Leer são o centro das atenções, trazendo o brilhante suingue de Marvio ao piano, Arthur no baixo e Sérgio na guitarra. É legal de ver a influência do som brasileiro em “Millenium”, faixa criada por Dumée, com a participação de Van der Linden, mas onde o principal destaque é o suingue percussivo provocado por Amaro, Flavio, Marcio e Pierre, o piano elétrico de Marvio e o piano acústico do próprio Dumée, que também faz vocalizações na melhor linha Milton Nascimento, sendo essa uma faixa que tranquilamente apareceria em algum disco do Clube da Esquina. Marvio é o responsável pela criação de duas canções, “Rock 5”, faixa linda, dividida entre uma balada que destaca as vocalizações de Thaís e uma dançante sessão instrumental, com Jacobs sendo o único membro do Focus a participar, e “Înãlta”, marchinha com pitadas progs tendo a flauta de Van Leer e as suaves vocalizações de Mylena tornando a mesma ainda mais agradável. Por fim, Van der Linden e Marcio fazem um duelo nada empolgante em “Talking Rhythms”, faixa onde somente as baterias e vocalizações estão presentes, e bem desnecessária. No geral, um bom álbum, que no Brasil, foi lançado com uma capa diferente, trazendo caricaturas dos músicos da banda e de alguns dos “amigos”.

Menno Gootjes, Pierre Van der Linden, Thijs Van Leer e Udo Pannekeet

Também é de 2016 o CD e DVD ao vivo Live In England, com o registro de Bilston, no dia 28 de abril de 2009. Mais uma mudança na formação, com Udo Pannekeet substituindo Jacobs, e assim, surge mais um disco da banda, logo após mais uma importante compilação de sobras, chamada The Focus Family Album.


The Focus Family Album [2017]

Essa coletânea dupla, com mais uma belíssima arte de Roger Dean, traz canções do Focus somadas a faixas solo de Van Leer, Van Der Linden, Gootjes, Pannekeet e do projeto Swung, um trio com Menno, Jacobs e Van der Linden. Concentrando-se apenas nas canções do Focus, há de tudo um pouco. O Brasil participa com o Estúdio Mosh cedendo espaço para a jam session “Mosh Blues”, gravada em 18 de março de 2012, e para “The Fifth Man“, registrada no dia 13 de abril 2014. A primeira é uma jam session com improvisos muito simples, enquanto a segunda é uma faixa muito boa, hardeira e mais trabalhada, pensada inclusive de aparecer em Focus XI, mas que foi descartada. “Santa Teresa” é o bônus da versão nipônica de Focus X, com Ivan Lins nos vocais.Falando em Ivan Lins, Van Leer substitui ele nos vocais de “Birds Come Fly Over (Le Tango)”, cujo instrumental é idêntico ao de Focus X. Do mesmo álbum temos uma versão editada e com nova mixagem vocal para “Victoria”. Ainda, “Five Fourth” nasceu no Brasil, e foi gravada em apenas uma tomada, com os músicos tocando uma sequência de notas escritas por Van Leer no intervalo das gravações de Focus X. “Clair-Obscur” e “Winnie” são versões primárias da mesmas faixas que irão aparecer em Focus XI. “Song For Eva” é uma longa peça de quase dez minutos, trazendo o poema “They Say that Hope is Happiness” de Lord Byron, e com um belo solo de Menno. O vocalista Jo de Roeck, que participou de “Just Like Eddy” em Focus 9, interpreta “Fine Without You”. Da “família”, “Nature Is Our Friend” e “Let us Wander” foram gravadas exclusivamente para o disco, tendo apenas Van Leer na sua flauta, caminhando junto a natureza. “Hazel” e “Two-part Intervention“, também exclusivas do álbum, são lindas peças ao violão clássico, na linha de canções de Bach. Já “Riverdance” e “Spiritual Swung”, solos de bateria, foram retiradas de Pierre’s Drum Poetry, um disco apenas para os amigos e familiares, lançado em 2000, mas que teve uma tiragem mundial em 2018. “Song for Yaminah” é uma das faixas que Pannekeet apresentou em seu teste, enquanto “Anaya” destaca o uso do baixo de seis cordas. Já as duas faixas do projeto Swung são do álbum Swung Vol. 1 & 2, de 2014. Apesar de longo (80 minutos), não é um disco a ser desprezado pelos fãs, valendo muito a pena sua posição nas prateleiras.

No dia 04 de março de 2018, Hans Cleuver, primeiro baterista da banda, faleceu. O baterista, mesmo após sair do Focus, continuou esporadicamente trabalhando com Van Leer e Akkerman nos discos solos dos mesmos.


Focus 11 [2018]

Outra linda capa de Roger Dean dá sequência aos trabalhos e shows que a nova formação já vinha apresentando, com improvisos e muita experimentação, Focus XI encerra (por enquanto) a Discografia dos holandeses no mesmo nível dos álbuns Focus 8 e Focus 9. Das faixas mais Focus, posso citar ” How Many Miles?”, na linha de “Sylvia” e com Van Leer aos vocais, sem yodel, a bela “Theodora Na Na Na”, com um riff de flauta e guitarra hipnotizante, e a intrincada “Mazzel“, para mim a melhor do disco, principalmente pela sua complexidade. Mas quer mesmo Focus, então faça uma emocionante volta ao passado de “Focus II” ou “Focus III” com “Mare Nostrum“, principalmente pelo timbre Akkermaniano da guitarra de Gootjes, mas com uma virada surpreendente em sua segunda metade, ou com “Focus 11“, bem diferente das versões anteriores, e mantendo o nível de capacidade de tocar os ouvidos e a mente ds fãs. No mais, temos de tudo um pouco. Inspirações latinas em “Heaven”, com Van Leer destacando-se ao piano, a mistura de jazz e rock ‘n’ roll de “Palindrome” (um espetáculo a parte de Van der Linden na bateria) e “Who’s Calling”, ambas lembrando os grandes nomes do jazz rock do final dos anos 70, além de um retorno aos anos 80 em “Final Analysis”, momentos de profunda intensidade emocional em “Winnie” (que já tinha dado as caras em Focus Family, aqui registrada com um arranjo idêntico), com a flauta e o piano derretendo corações. “Clair-Obscur”, outra que está em Focus Family, também possui um arranjo similar, mas prefiro a versão anterior, mais crua em termos de equalização. Focus 11 foi lançado em uma limitada tiragem em vinil turquesa, especial para colecionadores.




Discografias Comentadas: Focus (Parte I)


Discografias Comentadas: Focus (Parte I)

O grupo holandês Focus é com certeza o maior grupo de rock progressivo que a Holanda forneceu ao mundo, tanto por conta da música como por conta da técnica e qualidade individual de seus músicos. Uma carreira cheia de altos e baixos, com mais de dez discos que começaremos a abranger a partir de hoje, com o período áureo dos holandeses, nos anos 70, comandados pela dupla Thijs van Leer (órgão, piano, flauta, mellotron), Jan Akkerman (guitarra, violão), até a saída do último em 1976. Posteriormente, em uma segunda parte, traremos a partir do momento quando Akkerman retorna ao grupo nos anos 80, saindo para uma carreira solo de relativo sucesso, deixando o legado para Van Leer governar sozinho.

Jan Akkerman, Thijs Van Leer, Hans Cleuver e Martin Dresden

Jan Akkerman, Thijs Van Leer, Hans Cleuver e Martin Dresden

focus_plays_focusFocus Plays Focus [1970]

A estreia dos holandeses é um aperitivo humilde perto da importância que o grupo teria no ano seguinte para o rock progressivo. Conhecido também como In and Out of Focus (nome dado ao lançamento internacional do álbum),  o LP tem em sua formação além de Van Leer e Akkerman, Martin Dresden (baixo, vocais) e Hans Cleuver (bateria), e apresenta jóias instrumentais como “Focus (instrumental version)“, com solos simples e encantadores da guitarra, e “Anonymous”, que seria a gênese de uma Maravilha Prog lançada dois anos depois através dos solos individuais de cada músico. Cleuver apresenta sua voz na jazzística “Happy Nightmare (Mescaline)“, “Focus (vocal version)”, seguindo as mesmas linha de “Focus (instrumental version)”, e nas sessentistas “Sugar Island”, “Black Beauty” e “Why Dream“, ambas cheirando a mofo psicodélico londrino, com leves aromas do flower-power californiano. A guitarra de Akkerman é o principal destaque em todo LP, mas é inquestionável a fundamental participação da flauta e do órgão de Van Leer, criando o marcante som do grupo. Na Alemanha, o álbum trouxe “House of the King” como faixa adicional, uma canção que marcou os fãs por ser muito similar ao que o Jethro Tull fazia na mesma época, sendo fácil encontrar pessoas que confundem as bandas quando ouvem essa canção. Os Estados Unidos, lançaram o álbum no mesmo formato que a versão alemã, porém com as canções em ordem alterada. Existem diferentes capas desse álbum espalhadas pelo mundo, algumas você pode conferir aqui. A capa que estampa esse artigo é a da versão original holandesa. “House of the King” acabou sendo o primeiro sucesso internacional do Focus, apesar de ter saído apenas como compacto em seu país.

Como o grupo não emplacou no primeiro álbum, Akkerman decidiu abandonar o navio, e montou uma nova banda, acompanhado de Pierre Van der Linden (bateria) e Cyrill Havermans (baixo, vocais). Porém, Dresden e Cleuver também resolveram abandonar Van Leer, que se juntou aos amigos de Akkerman, nascendo a segunda formação do Focus.

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Pierre Van der Linden, Cyrill Havermans, Thijs Van Leer e Jan Akkerman

R-1214508-1289824202Focus II [1971]

Com esta nova formação, o Focus muda totalmente sua forma musical, apostando no rock progressivo instrumental e deixando a voz apenas para servir como um instrumento a fazer vocalizações complementares nas linhas melódicas criadas pelo órgão e guitarra. A única canção com letra é a experimental “Moving Waves”, tendo Van Leer na posição de vocalista e pianista, os únicos instrumentos da canção. Foi com Focus II que o Focus alcançou seu status internacional, principalmente por conta de “Hocus Pocus“, uma peça fantástica, na qual Van Leer exibe pela vez primeira toda a graça de suas vocalizações em yodel, algo que marcou a carreira do grupo a partir de então, e que chegou na nona posição nos Estados Unidos. A sequência de solos vocais divididas com os solos de guitarra ainda hoje agita muitas festas mundo afora. Mas Focus II não sobrevive apenas disso, já que também tem um lindo momento solo de Akkerman, batizado de “Le Clochard”, no qual ele abrilhanta o ouvinte com uma peça ao violão clássico, acompanhado por longos acordes de órgão, e a beleza R-4694414-1372821662-8624de “Janis”, destacando Van Leer na flauta. Os holandeses não viraram sinônimo de progressivo por acaso, e o lado prog aparece na sequência de “Focus”, chamada “Focus II“, uma leve balada progressiva com aproximações fortes no jazz, destacando os crescendos de órgão e guitarra, provando mais uma vez todas as qualidades do injustiçado Akkerman, já que raramente ele aparece nas listas de melhores guitarristas de todos os tempos, e no ápice do LP, a Maravilhosa suíte “Eruption“, que através de seus vinte e três minutos, e dezesseis partes, faz uma adaptação da ópera Euridice de forma brilhante. Akkerman continua o centro das atenções, com a capacidade de sair de uma erupção sonora de solos rasgados para a suavidade de um lago tranquilo, através do uso do botão de volume e leves bends. A capa principal aqui presente é de Focus II, e se você estranhou não ser a capa deMoving Waves, é por que Focus II é a versão original holandesa, e Moving Waves é a versão internacional.

Cyril saiu do grupo em 1971, após o encerramento da primeira turnê europeia do grupo, sendo substituído por Bert Ruiter, dando origem então a terceira e mais famosa formação dos holandeses, a qual gravou seu álbum mais ambicioso no ano seguinte.


R-1248063-1226094411Focus III [1972]

Para muitos, esse é o melhor álbum dos holandeses, e qualidades não faltam para garantir essa primeira posição. A entrada de Ruiter trouxe a possibilidade das expansões vocais do yodel, e também motivou Van Leer a se soltar mais. Um exemplo é a abertura, com “Round Goes the Gossip“, quando na primeira parte da canção ele apenas entoa o nome da mesma, e na segunda apresenta seu lado soprano cantando em latim. Essa mesma faixa mostra que o jazz misturado ao progressivo está cada vez mais presente nas composições do grupo. “Carnival Fugue” é uma peça clássica comandada pelo piano, com tímida participação dos demais membros do grupo, transformando-se em um jazz fusion em sua segunda parte. A música clássica tambem dá o ar da graça na “Elspeth of Notthingham“, com acordes de violão inspirados na música celta, e com a participação da flauta em alguns trechos. A arrepiante união do violão clássico e da flauta aparece também em “Love Remembered”, capaz de arrancar lágrimas de qualquer ser vivo nesse planeta. Focus III trouxe o R-3716523-1341517897-2156terceiro grande sucesso dos holandeses, “Sylvia”, canção originalmente composta para fazer parte de um programa de televisão, mas que acabou sendo bastante popular principalmente em sua Terra Natal, com um riff poderoso e uma melodia grudenta da guitarra, e que alcançou a quarta posição nas paradas britânicas. A dupla “Focus III” e “Answers? Questions! Questions? Answers!” mostra Akkerman e Van Leer duelando em solos inesquecíveis, acompanhados pela formidável cozinha Ruiter/Van der Linden. Falando em dupla, o álbum foi lançado originalmente no formato duplo, isso graças a inclusão da MaravilhosaAnonymous Two“, uma incrível jam de mais de vinte e seis minutos que ocupa todo o lado C e boa parte do lado D do vinil, e onde o quarteto apresenta-se com solos individuais, tendo como base o riff de “Anonymous”, lançada no primeiro álbum. Do primeiro álbum também foi resgatada “House of the King”, que finalmente era lançada em um álbum oficial do grupo na Holanda. Existem diferentes capas de Focus III mundo a fora, e as duas apresentadas aqui são a versão original holandesa (primeira) e a versão internacional lançada na América do Norte (segunda).

A segunda turnê europeia aconteceu a partir do segundo semestre de 1972, e foi registrada no essencial at the Rainbow (1973), trazendo um show do grupo gravado no Rainbow Theatre em Londres, e que foi lançada também em VHS, sendo esse vídeo o responsável pela difusão do Focus em países da América do Sul e Ásia

Thijs van Leer, Jan Akkerman, Collin Allen e Bert Ruiter
Thijs van Leer, Jan Akkerman, Collin Allen e Bert Ruiter

R-1662184-1259672434Hamburger Concerto [1974]

O escocês Collin Allen (ex-Stone the Crows) substituiu Van der Linden, e essa nova formação continuou inspirada, lançando este que julgo ser o melhor LP do grupo. Nele, temos o hardão de “Harem Scarem”, a beleza indescritível de “La Cathedrale de Strasbourg“, com Van Leer sobressaindo-se ao piano e nos vocais, as experimentações psicodélicas-clássicas de “Birth”, apresentando Van Leer no cravo, e fazendo belezuras junto de Akkerman quando pula para o órgão e a flauta, e a música clássica da vinheta “Delitiae Musicae“, um magnífico momento somente com alaúde e flauta. Porém, nada supera o que o quarteto registrou no lado B desse vinil, que é a suíte-título. Com trechos inspirados em “Variations on a Theme by Haydn”, de Joseph Hayden, a suíte é dividida em seis partes. Difícil dizer qual o principal momento dessa Maravilha, já que desde a introdução, com as linhas de baixo de Ruiter, o andamento suave dos primeiros minutos, o riff marcante, os solos vocais de Van Leer, o órgão e a flauta alimentando o cérebro com notas divinas, a pegada na guitarra de Akkerman durante a segunda metade da canção, a epopeia emocionante do encerramento, e Collin Allen fazendo ninguém sentir saudades de Van der Linden, são alguns dos pontos que me tornaram fã dos holandeses. Um dia certamente irei comentar sobre “Hamburger Concerto” na seção Maravilhas do Mundo Prog, e por enquanto, deixo apenas a dica para apreciarem mais um daqueles momentos mágicos na música. O relançamento em CD trouxe uma faixa bônus, “Early Birth”, que é a versão original de “Birth”, sem a introdução com o cravo.


R-3203547-1320342420Mother Focus [1975]

Mais uma mudança na formação, novamente na bateria, agora com o americano David Kemper substituindo Allen, que participa em apenas uma faixa, “I Need a Bathroom”, uma balada funk que tornou-se a única canção do grupo a ser cantada por Ruiter. O álbum parece contaminado pela onda disco, com muitos sintetizadores, a utilização constante do vocoder (instrumento que imita a voz humana) e canções curtas que fogem bastante dos padrões esperados para o Focus, lembrando grupos como Sly & The Family Stone ou Funkadelic, mas não deixa de ter seus momentos bons, como a peça clássica “Father Bach”, somente com órgão e guitarra, o suingue da faixa-título, a sutileza de “Focus IV”, sem contar com as linhas de suas antecessoras, mas ainda assim muito bela, e “No Hangs Up“, com certeza a faixa mais Focus de Mother Focus. A dupla “Soft Vanilla” e “Hard Vanilla” parecem trilha sonora de filme brasileiro dos anos 70, diferenciando apenas pelo instrumento utilizado para o solo principal (flauta sintetizada no primeiro e vocoder no segundo), mas “Bennie Helder” é uma das amostras positivas de como misturar elementos clássicos com o funk e a disco-music, enquanto Akkerman convence que ainda existe genialidade na dupla “Someone’s Crying … What?” / “All Together … Oh That!“. Já “My Sweetheart” e “Tropical Bird” acabam sendo manchas negras na carreira do grupo, que começava a rumar para seu fim.

Akkerman pediu as contas pouco depois, sendo substituído pelo belga Philip Catherine, dando origem a uma nova fase para o Focus. Antes, por esforços do produtor Mike Vernon, mais um álbum com Akkerman chegou na praça, no ano de 1976.


focus6Ship of Memories [1976]

Esse álbum é uma coletânea de canções que acabaram ficando de fora dos lançamentos oficiais. Vernon não mediu esforços para manter a chama do Focus acesa durante o período de instabilidade, e resgatou obscuridades não lançadas oficialmente. O lado A foi gravado em duas semanas do ano de 1973, e nele ouvimos uma sequência interessante de canções programadas para compor o quarto álbum dos holandeses. “P’s March” alterna-se entre solos de flauta e guitarra, e “Focus V” traz as fontes jazzísticas e o andamento que criaram a base musical do Focus. O melhor fica para “Can’t Believe My Eyes” e “Out of Vesuvius“, ambas experimentações virtuosísticas de Akkerman, inseridas em um andamento sombrio e tenso (a primeira) e em uma levada dançante (a segunda). O lado B é mais diversificado, trazendo “Spoke the Lord Creator”, gravada em 1970, e que foi a primeira tentativa de recriar “Variations on a Theme by Haydn”, “Ship of Memories”, um breve solo de bateria e órgão de igreja feito por Van der Linden, “Red Sky at Night”, tendo um belo solo de Akkerman, e “Glider“, versão original de “Mother Focus” e que particularmente considero melhor que a versão registrada no álbum homônimo, principalmente pela exploração dos yodels. Nessa canção, Akkerman toca Sitar elétrico, o que também deu um efeito diferente, e conta com Van der Linden na bateria. “Crackers” é da época de Mother Focus, enaltecendo o lado funk-fusion que predominou no último álbum lançado com Akkerman nas guitarras, sendo uma canção de menor qualidade perto das demais. A contra-capa do álbum apresenta um interessante texto de Mike Vernon contando sua experiência com o grupo e os caminhos que levaram ao lançamento de Ship of Memories, o que é um bom complemento para quem quer se aprofundar na história da banda.

A saída inesperada do guitarrista Jan Akkerman em 1976 foi um grande choque para o Focus. O guitarrista mergulhou em uma carreira solo de destaque, e mesmo com um substituto a altura, o guitarrista belga Philip Catherine, as coisas não estavam nada bem. O jeito foi arriscar na loteria, e assim, o grupo manteve-se na ativa, unindo-se ao cantor pop americano P. J. Proby e lançando seu sétimo disco de estúdio, o primeiro sem Akkerman, no ano de 1978.

Bert Ruiter, David Kemper, Thijs Van Leer e Philip Catherine

 Bert Ruiter, David Kemper, Thijs Van Leer e Philip Catherine (1977)


focus7Focus Con Proby [1978]

Trazendo na formação Thijs Van Leer (flauta, teclados, vocais), Bert Ruiter (baixo, vocais), Philip Catherine (guitarras), Steve Smith substituindo David Kemer na bateria e a adição do excelente Eef Albers às guitarras, além da voz principal de PJ Proby, os holandeses surpreenderam com um álbum muito diferente do que havia sido apresentado nos discos anteriores, principalmente no fraco Mother Focus (1975). É difícil classificar esse álbum, pois existem momentos preciosos e outros que em nada poderiam estar presentes na Discografia de um gigante como o Focus. A voz de Proby é um estranho no ninho para quem estava acostumado com as vocalizações em yodel de Van Leer, mas por outro lado, as guitarras de Albers e Catherine deram uma nova cara para a banda, que no geral, inspira-se no som do final dos anos 70, praticando um som próximo ao de grupos como Weather Report e Eleventh House, e aqui cito a velocidade jazzística de “Sneezing Bull“, com Van Leer exibindo-se na flauta (coloque para um amigo e duvido que ele não diga que é Jethro Tull o que está rodando), a exuberância zappiana de “Maximum”, com solos de Catherine e Van Leer, a linda “Orion”, com Ruiter e Albers fazendo o solo principal juntamente, na alucinante “Night Flight“, com Albers gastando seus dedos em um solo impressionante, e outros mais voltados para canções dançantes ( “Tokyo Rose”, “How Long” e “Wingless“) e baladas mela-cuecas (“Eddy” e “Brother”) que em nada acrescentam ao fã dos primeiros álbuns. Pela parte instrumental, temos um excelente trabalho, e se você retirar as duas últimas canções com vocais citadas nesse texto, Focus con Proby é um ótimo disco. O problema é que aturar “Eddy” e “Brother” é um constrangimento e tanto para quem já pulou com “Hocus Pocus”.

O grupo fez uma curta turnê, mas em seguida, Van Leer anunciou o encerramento das atividades do Focus, seguindo para uma carreira solo de relativo sucesso. O retorno acontece surpreendentemente em meados dos anos 80, como veremos daqui a algumas semanas, na segunda parte dessa Discografia Comentada.

DISCOS DE ÊXITOS

 

                                        Benito Di Paula - 20 Super Sucessos (2000)


Faixas:

01 Amigo Do Sol, Amigo Da Lua
02 Charlie Brown
03 Do Jeito Quie A Vida Quer
04 Além De Tudo
05 Bandeira do Samba
06 Se Não For Amor
07 Proteção Às Borboletas
08 Modificação
09 Meu Brasil, Meu Doce Amado
10 Ah! Como Eu Amei
11 Maria Baiana Maria
12 Vai Ficar Na Saudade - Benito Di Paula
13 Assobiar ou Chupar Cana
14 Não Precisa me Perdoar
15 Mulher Brasileira
16 Sanfona Branca
17 Osso Duro De Roer
18 Como Dizia O Mestre
19 Tudo Está No Seu Lugar
20 Violão Não Se Empresta A Ninguém.


Jessé - O Inesquecível Jessé [2003]



Músicas:

01. Voa Liberdade
02. Porto Solidão
03. Onde Está Você
04. Campo Minado
05. Alguém Cantando
06. Solidão De Amigos
07. Romaria
08. Ser Estranho
09. A Noite Do Meu Bem
10. Eu Te Amo
11. Paraíso Das Hienas
12. Chão De Estrelas
13. Concerto Para Uma Só Voz
14. Como Nossos Pais




BBM - Around the Next Dream [1994]



As listas de Melhores de Todos os Tempos sempre propiciam boas discussões, muitas vezes fundadas na emoção e no gosto pessoal de determinado consultor, que recusa-se a aceitar ou entender a votação dos colegas e achincalha sem dó nem piedade discos que para ele, são simplesmente a reprodução da bost@ da mosca que circula ao redor da merd@ do cavalo do bandido. Eu mesmo sou um tarado na discussão. Quanta porcaria já rolaram nessas listas? A pior de todas com a enfadonha visão do RPM encabeçando a lista de Melhores de Todos os Tempos de 1985 (UOL Host, devolva nosso post!). Absurdos incomensuráveis, discos nada representativos, Maravilhas Prog abandonadas ao léu, enfim, o fato é que as listas são uma ótima diversão para nós que as escrevemos, e acredito, causa os mesmos transtornos em diversos leitores, mas sempre lembrando que as listas na maioria dos casos (para não dizer 100%) leva em conta simplesmente o gosto pessoal da criatura.


Em virtude da aproximação da lista de Melhores de 1994, venho de antemão me manifestar com esse petardo que DUVI-D-O-DÓ entre nos dez mais. Em um ano tão competitivo, com pelo menos três álbuns clássicos (Slayer - Divine Intervention, The Rolling Stones - Voodoo Lounge, e Pink Floyd - The Division Bell), algumas novidades surgiram no mercado, outras bandas novas consolidaram-se como fortes expoentes de sua geração, mas o mais marcante foi o renascimento de grandes nomes do rock, que perambularam como zumbis pop nos anos 80 e, depois de ter engolido muito cérebro com apenas dois neurônios, fizeram um tratamento de revitalização, saindo das tumbas com força e lançando discos muito bons, porém não tão aclamados assim.

Jack Bruce
Jack Bruce

E aqui entra Around the Next Dream, álbum lançado pelo magnífico trio Jack Bruce (baixo, piano, teclados e vocais), Ginger Baker (bateria, percussão) e Gary Moore (guitarra, violões, vocais), ou simplesmente BBM. Na época, a imprensa babou o ovo para o disco, mas os fãs fizeram um estardalhaço muito pequeno em comparação com as dimensões do álbum, que acabou atingindo o nono lugar nas paradas do Reino Unido, mas foi considerado um fracasso na parada americana.


Antes dessa reunião, os três vinham de carreiras solo que não estavam nada bem. Bruce, após sair do Cream por divergências com Baker, perambulou com participações especiais em discos de diversos artistas - Frank Zappa, Robin Trower, John McLaughlin, Jon Anderson, o próprio Gary Moore, entre outros - até enveredar pela World Music. Em 1993, ele havia lançado seu oitavo álbum de estúdio, Somethin' Else, que passou despercebido do grande público. Mas ainda naquele ano, em um encontro com Baker, a sua situação musical começou a mudar.
Jonas Hellborg e Ginger Baker, na época do Public Image Ltd.
Jonas Hellborg e Ginger Baker, na época do Public Image Ltd.

Baker foi outro nômade pós-Cream. Logo de cara, participou do super grupo Blind Faith (ao lado de Eric Clapton, Steve Winwood e Rick Grech), e na sequência, levou Steve Winwood para fundar a maravilhosa Ginger Baker's Airforce, que lançou dois excelentes mas desconhecidos trabalhos homônimos, ambos em 1970. Depois, foi viver na África, mais precisamente na Nigéria, onde apaixonou-se ainda mais pelos sons tribais africanos e lançou uma trinca de discos com o multi-instrumentista Fela Kuti. Depois do projeto Baker Gurvitz Armu, tocou com o Public Image Ltd. de John Lydon e com o Hawkwind, antes de montar o projeto Masters of Reality, que durou um elogiado álbum, Sunrise of the Sufferbus (1992), mas um verdadeiro fracasso, tendo vendido menos de 10 mil cópias em todo o mundo. Mas em 1993, a coisa mudou ...

Gary Moore
Gary Moore


Do trio, Moore é o que estava com sua carreira solo mais consolidada. O guitarrista irlandês já vinha de experiências bem sucedidas no Skid Row e no Thin Lizzy, duas das maiores bandas de sua terra natal, e seus discos vendiam regularmente bem. Em 1985, lançou seu álbum de maior sucesso comercial, Run for Cover, com forte sonoridade AOR, que se para os fãs antigos foi tratado com menosprezo, conquistou toda uma nova geração de seguidores. Porém, no início dos anos 90 Moore resolveu voltar as raízes do blues, lançado os belos álbuns After the War (1989), Still Got the Blues (1990) e After Hours (1992), ótimos discos em sua integridade, mas que não obtiveram sequer a sombra do sucesso de Run for Cover, apesar do single de "Still Got the Blues" ter ficado entre os 100 mais da Billboard. Eis que então chegou o ano de 1993.


Naquele ano, Bruce estava comemorando cinquenta anos de vida, e para celebrar o momento, realizou dois shows especiais na cidade de Colônia, Alemanha, nos dias 02 e 03 de novembro. O espetáculo contou com a presença de diversos artistas convidados, dentre eles Baker e Moore, que como trio, arrasaram com a plateia em versões foderosíssimas de quatro clássicos do Cream: "N. S. U.", "Sitting on Top of the World", "Politician" e "Spoonful". Essas preciosidades foram registradas no álbum duplo Cities of the Heart (1994), contendo toda a apresentação de Colônia e fazendo parte da discografia de Bruce. A apresentação foi tão impactante que catalisou a continuação do trio, e assim nasceu o BBM.

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Cities of the Heart

contendo os primeiros registros do trio BBM
Em pouco tempo, Around the Next Dream já estava pronto, sendo lançado em maio de 1994. O álbum já abre com a pancada "Waiting in the Wings", chapando o ouvinte e colocando-o diretamente em 1968, mais especificamente nos estúdios de gravação do aclamado Wheels of Fire, com a diferença que empunhando as seis cordas e pisoteando o wah-wah está Gary Moore, e não Eric Clapton. É impossível para qualquer fã do Cream não sentir o aroma e as nuances de "Tales of Brave Ulysses" ou "White Room" nessa faixa, seja pelo vozeirão de Bruce ainda estar intacto, pelo baixo cavalgante de Bruce, ou por que Moore é um guitarrista de mão cheia, e a forma como ele pisoteia o wah-wah sem dó durante o solo é muito similar a Clapton em tal faixa, principalmente pelas intervenções durante as frases de Bruce.


É impossível não ouvir o início do álbum pensando nos saudosos e inquestionáveis álbuns do Cream, e quando "City of Gold" surge nas caixas de som, continuamos viajando pela discografia da banda, partindo para Fresh Cream com as clássicas linhas de "Rollin' and Tumblin'", mas o experiente trio não vive só do passado, e faz uma surpreendente balada flower power, "Where in the World", com os vocais marcantes de Moore acompanhados por violão e sintetizadores aqui, a cargo de Tommy Eyre, além da percussão de Arran Ahmun, nessa que para alguns pode ser a única baixa do LP, mas na verdade, é uma singela peça musical oitentista entre a ótima agressividade sessentista que permeia todo o disco, com destaque para o refrão tendo os vocais divididos entre a dupla Moore e Bruce.
Gary Moore, Jack Bruce e Ginger Baker
Gary Moore, Jack Bruce e Ginger Baker
Moore também assume os vocais do gigante blues "Can't Fool the Blues", ótimo para ser ouvido regado por um velho uísque quinze anos, e mostrando que Moore além de um guitarrista de mão cheia, é um vocalista excepcional. Por mais que seja irlandês de nascença, sua voz soa como dos velhos africanos negros que influenciam gerações e gerações de cantores até hoje, em uma das melhores performances vocais de sua carreira. Além disso, o solo que é elaborado para essa faixa simplesmente é uma aula de como se construir um solo de blues simples mas recheado de feeling, e certamente aqui você irá se levantar da poltrona para brincar de air guitar.


O clima acalma em outro blues, "High Cost of Loving", com a marcante presença do órgão e do piano, sem gerar comparações com o Cream, lembrando talvez um pouco da carreira solo de Stevie Ray Vaughan, mas com uma performance irretocável do trio, fechando o lado A.
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Encarte


O lado B abre com "Glory Days", uma canção muito próxima ao que Moore registrou na sua fase AOR, contando com o trompete de Morris Murphy principalmente em Run for Cover, seguida da melhor canção do disco. Só ela já vale a aquisição do álbum, principalmente pela quantidade de arrepios e lágrimas que ela irá causar em você. Trata-se da emocionante "Why Does Love (Have to Go Wrong)". Com um início que nos lembra "We're Going Wrong" (Disraeli Gears, 1967), a canção passeia em sua mente por quase nove minutos que vão da dor agonizante de Bruce implorando a sua amada por uma explicação para os problemas de relacionamento entre ambos, até o solo de Moore, onde as portas do paraíso abrem-se para receber a majestosta virada que o guitarrista faz na canção. Que momento fantástico, em uma pegada fulminante que fecha os três últimos minutos da canção e simplesmente o coloca de queixo caído diante da vitrola, dizendo "Sério que foram seres humanos quem registraram essa belezura?".


Depois do desbunde feito pelo trio em "Why Does Love (Have to Go Wrong)", sobra pouco espaço para surpresas, mas elas ainda irão surgir, começando pela leveza da tocante "Naked Flame", uma ótima ode para o descanso após a intensa orgia musical propiciada na faixa anterior. A voz de Moore enche as caixas de som no boogie de Albert King "I Wonder Why (Are You So Mean to Me?)", destacando outro belo solo de Moore. Por fim, a balada "Wring Side of Town" encerra o LP com Bruce no baixo acústico e muito sintetizador, em uma dolorida canção de despedida do trio, que saiu em uma turnê de regular sucesso pela Europa e Estados Unidos, mas acabou fechando as atividades no ano seguinte, novamente por conta das divergências entre Baker e Bruce.
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As canções do álbum
Around the Next Dream recebeu um relançamento em CD em 2002, com quatro faixas bônus: "Danger Zone", "World Keeps on Turning", 13. "Sitting on Top of the World" (Live) e "I Wonder Why (Are You So Mean to Me?)" (Live). O trio nunca mais se reuniu, virando mais uma pedra no muro de supergrupos que nasceram para o sucesso, mas naufragaram nos oceanos do desconhecimento e do descaso.


Curiosamente, nesse mesmo ano, Eric Clapton abandonou a pieguice explícita dos terríveis August Journeyman, e finalmente encontrou-se com as raízes no belíssimo From The Cradle, mas isso é papo para outra rodada de ceva.


PS: Duvido também que From the Cradle fique entre os dez mais ..
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b Back
Contra-capa de Around the Next Dream

Track list 

1. Waiting in the Wings 
2. City of Gold 
3. Where in the World 
4. Can't Fool the Blues 
5. High Cost of Living 
6. Glory Days 
7. Why Does Love (Have Go Wrong) 
8. Naked Flame 
9. I Wonder Why (Are You So Mean To Me) 
10. Wrong Side of Town




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