Entre 2008 e 2009 Kiko Dinucci e Douglas Germano formaram o Duo Moviola. O projeto com o nome emprestado do antigo aparelho usado para edições cinematográficas, traz em suas letras, cenas do cotidiano paulistano. São verdadeiras crônicas: engraçadas, patéticas e mesmo tristes. Como o quase finado blog do Duo diz: "O disco está separado em duas partes. No Premiére tem música séria. No Matinê tem humor, sado-maso, horror para crianças, jogo, bebida, mulheres e tóchico." Em se tratando de um CD, cabe inferirmos onde termina um lado e começa o outro. De todo modo, fica a dica séria para trabalhos do Ensino Fundamental e Médio, com a lenda urbana "Loira do Banheiro".
O Boca Livre se formou no Rio de Janeiro, em 1978, tendo participado do disco de Edu Lobo - "Camaleão" - e excurcionado com o mesmo no Projeto Pinxinguinha. Nessa primeira formação, era composto por Maurício Maestro (contrabaixo e vocal), Zé Renato (violão e vocal), Cláudio Nucci (violão e vocal) e David Tygel (violão e vocal). O primeiro disco foi independente, o Boca Livre, de 1979, foi o disco independente que mais vendeu até então (100 mil cópias!), e incluiu, entre outras músicas, "Toada" (Zé Renato, Cláudio Nucci e Juca Filho) e "Quem tem a viola" (Zé Renato, Cláudio Nucci e Xico Chaves).
Em 1980 o Boca Livre grava mais um disco independente, o Bicicleta, dando continuidade a façanha do primeiro. Nesse álbum de capa dupla, com uma produção gráfica impecável, Lourenço Baeta assume o lugar de Claudio Nucci, que segue carreira solo.
Somente em 1981 é que o Boca Livre passa a trabalhar com uma gravadora, sai então, pela Philips, o disco Folia com pérolas que aparecem hoje em algumas coletâneas, ficando o CD completo no limbo dos (des)interesses da gravadora.
Durante a existência do Boca Livre as carreiras solo da maioria de seus integrantes é algo que ocorre em paralelo, sem interferir na boa história do grupo, a qual segue até hoje. Assim, podemos encontrar belos discos de David Tygel, Lourenço Baeta e Zé Renato. Mas é claro que substituições aconteceram, nos anos noventa sai David Tygel e entra o Fernando Gamma. Em 2000 Zé Renato vai cuidar exclusivamente de sua carreira solo e Claudio Nucci volta ao Boca. Em 2006 voltam David Tygel e Zé Renato, assumindo os lugares de Cláudio Nucci e Fernando Gamma.
Destaco aqui a canção "Passarinho", um exemplo dos excelentes arranjos vocais do Boca.
David Tygel - José Renato - Maurício Maestro - Cláudio Nucci - Rubinho - Gordo - Bidinho - Niltinho - Zé Nogueira - José Carlos Ramos - Léo Gandelman - Paulo Guimarães - Danilo Caymmi - Toninho Horta - Raimundo Nicoli - Freddy Anrique - Marcelinho - Café
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Esse é o primeiro LP do grupo Boca Livre, com a formação clássica de David Tygel, José Renato, Maurício Maestro e Cláudio Nucci. Aqui está o repertório que notabilizou o grupo numa performance primorosa, que agrega feras comoDanilo Caymmi,Toninho HortaeNelson Ângelo. Era tempo de Anistia, uma vitória parcial contra a Ditadura Civil/Militar, a cereja do bolo se dá pela musicalização do poema do Vianinha, "Minha Terra", que tem como perspectiva a luta que derrama tanto sangue e permanece até os nossos dias. Destaco "Fazenda", uma ode à vida simples e à boa relação entre as gerações.
Lourenço Baeta - Dori Caymmi - Gilson Peranzzetta - David Tygel - Antonio Sant'Anna - Chacal -Ariovaldo - José Botelho - Danilo Caymmi - Antonio Adolfo - Fernando Leporace - Rubinho - Chiquinho - Vitor Assis Brasil - Hélio Delmiro - Gilson Peranzzetta - Bebeto - João Daltro - Marcio Montarroyos - Edson Maciel - João L. Maciel - Waldemar Falcão - Pareschi - José Alves -Walter Hack - Jorge Faini - Aizik - Alfredo Vital - Jean Arnaud - Eduardo Hack - Daltro - Frederick Stephany - Arlindo Penteado - Marcio Malard - Alceu - Ibere Grosso
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Eis o disco solo de Lourenço Baeta, um dos fundadores do grupo Boca Livre, o qual se destacara também por suas belas composições. Nesse LP dá para termos uma ideia mais profunda do trabalho de Baeta, musicando poemas de Cacaso, Sérgio Natureza e Aldir Blanc. É um disco tranquilo, cheio de arranjos delicados, feitos por Baeta, Dori Caymmi e Gilson Peranzzeta, executados com extrema competência por um time de instrumentistas de peso.
Quando trocou a Columbia Records pela Atlantic Records, em 1967, Aretha Franklin (1942-2018) deixou de ser uma jovem cantora promissora para se tornar uma estrela da soul music. Naquele ano, ela lançou o antológico álbum I Never Loved A Man The Way I Love You,2º lugar na parada da Billboard Hot 100 e 1º lugar na parada de black music. O álbum trouxe uma versão bastante pessoal de Aretha para “Respect”, que alcançou um sucesso fantástico e tranformou-se num dos hinos do empoderamento feminino. Aretha Arrives, o álbum seguinte, lançado em agosto de 1967, prosseguiu com o sucesso do álbum anterior e trouxe consigo uma releitura de "(I Can't Get No) Satisfaction", dos Rolling Stones, e "Baby, I Love You", canção escrita pelo compositor Ronnie Shannon exclusivamente para Aretha.
Mas a consolidação como estrela da soul music chegou para Aretha através do álbum Lady Soul. Lançado em 22 de janeiro de 1968, Lady Soul mostrou uma maturidade artística alcançada por Aretha, em que a cantora transita por uma ampla gama de estilos musicais. Lady Soul captura a essência poderosa e expressiva da voz de Aretha, combinada com arranjos musicais sofisicados. Além de cantar, Aretha também tocou piano em Lady Soul.
Produzido por Jerry Wexler (1917-2008) - o mesmo produtor de I Never Loved A Man The Way I Love You e Aretha Arrives - Lady Soul contou com a participação de The Sweet Inspirations, grupo vocal feminino americano bastante requisitado para fazer vocais de apoio em gravações dos mais diversos artistas e do qual fazia parte a cantora Cissy Houston, mãe de Whitney Houston (1963-2012). Quem também fez uma participação nas gravações do álbum Lady Soul foi o guitarrista britânico Eric Clapton, que na época ainda era integrante da banda Cream.
Composto por dez faixas, o álbum Lady Soul abre com "Chain Of Fools", canção em que Aretha Franklin expressa o seu pontencial vocal, transmitindo através dele uma grande dramaticidade que o o conteúdo da letra da canção requer. A letra da canção trata sobre decepção e sensação de manipulação num releacionamento onde a mulher sente-se presa a um homem que a maltrada e a controla. No entanto, essa mulher tenta lidar com essa situação da melhor maneira possível para num determinado momento libertar-se desse homem cruel que a manipula num relacionamento totalmente tóxico.
Aretha Franklin nos estúdios da Atlantic Records em sessão de gravação de Lady Soul, em dezembro de 1967.
"Money Won't Change You" possui um ritmo dançante e envolvente. Acompanhado por um naipe de metais e de vocais de apoio femininos que fazem uma perfomance incrível, Aretha canta versos sobre a ideia de que o dinheiro não altera a essência de alguém com um caráter verdadeiramente honesto.
Em "People Get Ready", Aretha Franklin canta com a alma, fazendo uma performance simplesmente espetacular, deixando exposta toda a influência que recebeu da música gospel desde os tempos em que cantava na igreja ainda na infânica. "People Get Ready" é uma canção cujos versos referem-se à transformação espiritual, compaixão pelo próximo e do ser humano se preparar para o destino que está por vir.
"Niki Hoeky" é sobre um garoto que tem pai preso na cadeia e uma família nada confiável envolvida em problemas judiciais.
O lado 1 do álbum termina em grande estilo com a balada "(You Make Me Feel Like) A Natural Woman", composta por Gerry Goffin (1939-2014) e Carole King, dupla que durante toda a década de 1960 compôs inúmeras canções para vários artistas até a separação do casal e King decidir começar a sua carreira como cantora. O tema da canção é sobre alguém que descobriu o amor e encontrou motivação para viver. É mais uma canção onde Aretha expõe a sua descomunal capacidade vocal expressando um sentimento profundo.
"(Sweet Sweet Baby) Since You've Bean Gone" abre o lado 2 de Lady Soul num ritmo embalado e trazendo um naipe de meais em primeiro plano. A letra trata sobre separação e o vazio que a pessoa amada deixou ao eu lírico após o fim do relacionamento. Ainda assim, o eu lírico guarda a esperança por uma reconciliação.
"Good To Me As I Am To You" é a única canção presente no disco em que Aretha compôs sozinha. A canção é um blues de andamento arrastado e traz a participação especial de Eric Clapton na guitarra. Com uma perfomance fenomenal de Aretha Franklin, "Good To Me As I Am To You" é um dos pontos altos do álbum.
Eric Clapton na fase com Cream, fez participação especial tocando guitarra na faixa "Good To Me As I Am To You".
A faixa seguinte, "Groovin'", é uma balada pop romântica, leve, suave, na qual Aretha canta de forma doce e agradável sobre aproveitar as tardes de domingo para desfrutar os prazeres da vida.
Fechando o álbum, "Ain't No Way", uma canção romântica em que Aretha canta com um potencial vocal mais acentuado do que na canção anterior. Escrita por Carolyn Franklin, irmã de Aretha, a letra de "Ain't No Way" aborda o drama de uma mulher que luta para amar alguém que não está aberto para receber esse amor. Os versos retratam a frustração e a impossibilidade dessa mulher de dar tudo de si a alguém que não permite isso, que não se abre emocionalmente: "Não há como eu te amar / Se você não me deixar / Não há como te dar tudo o que você precisa / Se você não me deixar te dar tudo de mim".
Nas paradas da Billboard, nos EstadosUnidos, Lady Soul alcançou o 1° lugar na parada de álbuns de soul music, 2° lugar na para de álbuns pop e 3° lugar na parada de álbuns de jazz.
O single de "(You Make Me Feel Like) A Natural Woman" chegou ao 8° lugar na parada da Billboard Hot 100, nos Estados Unidos. A canção voltaria ase tornar um grande sucesso radiofônico em 1971, quando Carole King, autora da canção, a gravou para o seu segundo álbum solo, o fenomenal Tapestry.
Lady Soul teve uma recepção bastante positiva por parte da imprensa musical, que elogiou a forma como Aretha Franklin fundiu elementos de soul music, R&B e música pop. Se em I Never Loved A Man The Way I Love You fez de Aretha uma estrela da soul music, Lady Soul consolidou Aretha nesse processo. Além disso, o álbum reforçou o papel de Aretha Franklin como uma voz poderosa no ativismo social. Do ponto de vista artístico, a versão Aretha Franklin moldada por Lady Soul ajudou a redefinir os limites da soul music e serviu de referência para várias cantoras de soul music e R&B ao longo das décadas, como Chaka Khan, Whitney Houston, Mariah Carey e Beyoncé.
Faixas
Lado 1
"Chain Of Fools" (Don Covay)
"Money Won't Change You" (James Brown, Nat Jones)
"People Get Ready" (Curtis Mayfield)
"Niki Hoeky" (J. Leslie McFarland, Sidney Wyche)
"(You Make Me Feel Like) a Natural Woman" (Gerry Goffin, Carole King, Jerry Wexler)
Lado 2
"(Sweet Sweet Baby) Since You've Been Gone" (Aretha Franklin, Ted White)
"Good to Me As I Am to You" (Aretha Franklin, Ted White)
Em 1973, um grupo de jovens italianos entre 16 e 17 anos lançou um lendário álbum progressivo que moldou as bases do heavy prog e dobrou os sons barrocos e renascentistas. Paolo Faenza, baterista da banda naquela estreia “Dedicato A Frazz”, decidiu cinquenta anos depois que um único álbum não seria suficiente para encapsular a energia concentrada em Semiramis.
Na época era uma banda fortemente subestimada com uma história trágica; um projeto fascinante que só poderia ter resultado na formação de uma banda emblemática depois de algum tempo de maturação. Infelizmente, durante uma breve turnê, por volta de 1974, a van da banda foi roubada com todo o equipamento necessário para continuar tocando. Tentou-se arrecadar dinheiro com shows beneficentes e outros eventos, mas no final não foi possível reunir Semiramis.
O destino de Michele Zarrillo, vocalista e guitarrista do grupo durante os anos 70, era se tornar uma verdadeira popstar, vencedora do Festival Italiano Canzone. Muito bom para ele.
Por outro lado, o grupo que hoje nos preocupa é absolutamente novo, sendo Faenza o único membro fundador ainda envolvido com Semiramis.
“La fine non esiste” não tem muito a ver com aquela sonoridade clássica de “Frazz”, tem flashes ecléticos que evocam de repente aquelas explosões adolescentes da estreia mas mantém em todos os momentos uma altura muito mais evidente e um foco sonoro primordial. Com elementos marcantes do hard rock e uma estética sóbria, somos presenteados com um álbum progressivo italiano clássico e de boa sonoridade.
Sem dúvida, destacam-se a voz operística de Giovanni Barco e os violões de seu irmão Emanuele, graciosamente acompanhados pelo órgão de Daniele Sorrenti. A construção melódica dessas músicas é concreta e os contrapontos fazem uma delícia em todos os momentos. O emparelhamento entre os riffs que cada instrumento implanta é admirável, o violão completa os sintetizadores elétricos e as guitarras profusas sem muitos problemas, gerando um ambiente complexo e texturizado.
“In quel secondo regno” é uma abertura direta com um riff de hard rock e constantes mudanças de compasso. Os ares barrocos nos lembram Gentle Giant e a primeira fase da banda. Eles não esperam para mostrar os truques, pois nos deixam com um fantástico solo de guitarra e apresentam na íntegra as interessantes texturas do teclado.
Num início estrondoso “Cacciatore di ansie” mantém uma personalidade avassaladora e criativa. As linhas melódicas ainda mais claras que na composição anterior tornam esta música uma escuta amigável e emocionante, mesmo sendo extremamente progressiva. Um festival melódico que se ramifica em cada pilar deste grupo.
“Donna dalle ali d'acciaio” é romântica e intimista. As vozes evocam por vezes as narrativas interessantes da banda Homunculus Res. Uma mudança repentina desperta uma secção progressiva impecável repleta de órgão Hammond e uma linha de baixo lúgubre e agressiva: permanecemos neste tom até ao fim, marchantes e explosivos.
“Non chiedere a un Dios” nos dá as boas-vindas com alguns sinos. Outras dimensões sonoras são exploradas através de incríveis toques de teclado e guitarra. Virtuosismo, pomposidade e consolidação de uma composição polifónica versátil. Seções pastorais reduzem periodicamente a intensidade que sempre flutua entre os teclados e as percussões sinistras.
“Tenda Rossa” é uma exposição de melodias em claro-escuro. Mudanças imprevisíveis de ritmo e harmonia fazem desta uma das composições mais sinistras e modernas do álbum.
Com o barulho das diferentes guitarras e a voz emocionante de Giovanni Barco, o disco se despede de nós em “Sua Maest il cuore”. Uma faixa que contra todas as probabilidades se transforma em uma balada emocionante com piano e voz. Quando a instrumentação explode na coda, somos recebidos por um clímax massivo que é mais do que necessário para fechar este LP com a mesma paixão que o iniciou.
Este é um álbum retrô ideal para fãs do progressivo italiano dos anos 70, mas vale a pena ouvir mesmo que não estejamos familiarizados com o gênero. É difícil ignorar a grandeza dessas guitarras pesadas e a habilidade melódica dos instrumentistas. É emocionante continuar ouvindo esses gigantes tocarem e vivenciar de perto o renascimento do progressivo italiano, Museu Rosenbach, PFM, Banco, etc... Todos são mais que bem-vindos para retornar com música lendária e atemporal.
Curiosidade ridiculamente rara de 1969. Padre Pat Berkery era um padre moderno de St. Louis que combinou seus sermões com guitarra fuzz rock psicodélico da costa oeste. Nunca reeditado e difícil de encontrar.
Álbum de estreia da resposta da Califórnia aos Rolling Stones. Infelizmente para a Chocolate Watchband, eles caíram em desgraça com aqueles terríveis negócios da década de 1960. O contrato deu poder total aos produtores que insistiram em mais covers do que material original, retiraram os vocais de Dave Aguilar e os substituíram por um cantor de sua escolha em algumas músicas e até mesmo tendo 'bandas fantasmas' inteiras em algumas faixas.
Apesar disso, o álbum ainda é incrível e um psicológico deve ter. O material gravado pela banda preencheu outros dois álbuns (junto com mais material de tocadores de sessão)