quinta-feira, 6 de junho de 2024
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Broken Social Scene – You Forgot It In People (2002)
Revisitar You Forgot it in People será sempre um prazer, um regresso à adolescência, a um tempo de sonhos e descoberta do seu lugar no mundo.
Comecemos por situar quem poderá eventualmente nunca ter ouvido esta banda – originais de Toronto, liderados por Kevin Drew e Brendan Canning, e que começaram a carreira por música ambiente (Feel Good Lost, de 2001), evoluindo depois para um colectivo de artistas da cena indie da maior cidade do Canadá (onde se incluia por exemplo Feist, Emily Haines, Elizabeth Powell). Em concerto eram normalmente cerca de 10 elementos, podendo crescer até 20 se as condições o permitissem. Foi com base nesta experiência que surgiu You Forgot it in People, com Drew e Canning aos comandos e a participação de todos, no que podia ser um caos total mas passou como histeria contida e arrasadora.
Parece incrível a todos os níveis que se tenham passado dezassete anos desde o seu lançamento, mas no fundo, é um álbum que esteve sempre presente, sempre ali a ocupar espaço no imaginário sonoro que habita o meu cérebro. Ouvi-lo em 2019 continua a ser um prazer imenso, pela conjungação de momentos festivos com momentos angustiantes, de momentos de interação com o grupo que rodeia com momentos de solidão, de momentos adultos com momentos pueris. No fundo, tudo o que representa uma fase única da nossa vida, a transição adolescência-adulto, onde reina a incerteza e a certeza de que já se sabe tudo, a inquietude pessoal e sexual, o descobrir de um lugar no mundo.
Nas várias análises reinantes em pareceres de psicologia, a infância costuma aparecer como a fase da vida que é mais recordada por adultos, mais importante e marcante no caminho de cada pessoa, pelo que estou obviamente a atirar-me para fora de pé quando lanço a hipótese de que talvez esta fase 17-20 anos seja bem mais definidora. Ainda assim faço-o, mera opinião descomprometida, concorde quem quiser, discorde quem o entender. Num dos momentos mais altos do álbum, “Anthems for a Seventeen Year-Old”, a vontade de regressar a esse tempo entra pelo ouvinte adentro pela doce voz de Emily Haines, repetindo até à exaustão a vontade de “Park that car, drop that phone, sleep on the floor, dream about me”. Nostalgia pura e dura de um tempo em que responsabilidade nem vê-la.
E depois, há a sexualidade. Drew e seus comparsas atacam o tema sem complexos – “Lover´s Spit” é a amostra mais vincada disto mesmo, mas também em “Almost Crimes” e “I’m Still Your Fag” a questão sexual impera, sem papas na língua. Os títulos em si já são reveladores, mas atentem às letras, o manancial de badalhoquice que Drew nos atira é único e garantidamente controverso.
Sempre intercalados por brilhantes temas instrumentais – “Capture the Flag” para abrir, “Pacific Theme” e “Late Nineties Bedroom Rock for the Missionaries” a meio, “Pitter Patter Goes My Heart” para fechar – as músicas dos Broken Social Scene florescem a cada audição, tal é a riqueza dos detalhes que se encontram nelas. O facto de ter ao seu dispôr um colectivo de músicos em muito contribui, naturalmente, mas é na conjugação de todas as variáveis que está a magia que Drew e Canning fazem. “Cause = Time” é melhor prova que podemos ter disto mesmo, é o menu degustação do restaurante Broken Social Scene. Foi esta música que elevou um projecto entre amigos para uma banda que podia conquistar o mundo.
You Forgot it in People é de 2002, mas muito poucos o terão ouvido nesse ano, apenas em 2003 começou a captar maior atenção, tendo os Broken Social Scene usufruído e muito da rampa de lançamento arcadefireiana para chegarem aos escaparates nos EUA e Europa. Havia algumas semelhanças aparentes, nomeadamente no ponto de ser mais um colectivo que uma banda, dado o número de músicos que participam. Mas onde os Arcade Fire foram épicos, os Broken Social Scene começaram por ser introspectivos, sendo que no álbum seguinte, Broken Social Scene deram uma maior amostra desse lado (sobretudo com canções como “Shoreline (7/4)” e “It’s All Gonna Break”). A intensidade, essa encontra-se em ambas as bandas em igual medida. Basta ouvir com o devido carinho e atenção para se perceber isso mesmo.
Zanibar Aliens – III (2018)

Ao terceiro disco, os Zanibar Aliens esticam as asas para algumas novas paisagens sonoras, sem perder o puro sangue rock que sempre os caracterizou
Os lobos uivam e a caravana passa. Em poucos anos, os Zanibar Aliens (dois tugas e dois irmãos suecos a viver em Portugal) afirmaram-se como os grandes portadores da tocha do rock clássico no nosso país. Bela Vista, a estreia, é de 2016; menos de um ano depois, nova bomba, com Space Pigeon; e, ainda no finalzinho de 2018, aí está o terceiro tomo desta viagem, com o simplesmente intitulado III, trazendo-nos à memória os nomes dos discos de uma das grandes inspirações desta banda, os gigantes Led Zeppelin, que mereceram recentemente um extenso especial por parte do Altamont.
Tal como nos registos anteriores, III é um disco curto e muito intenso. O som dos Zanibar Aliens está solidificado, nunca fugindo muito do registo do hard-rock/blues da viragem dos anos 60 para a década seguinte. Essa é, aliás, a questão que sempre se coloca a esta banda: quando se conseguirão libertar das suas influências e encontrar uma voz verdadeiramente própria (veja-se o mesmo problema em relação aos Greta Von Fleet, que estão fartinhos que lhes perguntem pelos Led Zeppelin).
Sendo esta questão relevante, há sempre o risco de os lobos se afastarem demasiado da alcateia e adquirirem hábitos mais típicos de outras espécies, ou seja, de os Zanibar Aliens, na tentativa de mexer no seu som, poderem começar a soar a outra coisa qualquer que não aquilo que neles gostamos.
III começa logo a prometer uma abertura estilística, com “All I need is You” a surgir num ritmo ligeiramente mais lento, quase de balada preguiçosa de um verão quente, levando-nos para sons que nos lembram o magnífico Houses of the Holy. Um bom começo, sem dúvida, mas os rapazes não esperam muito para nos dar um petardo rock e quase glam, com o segundo tema, “I am the USA”.
Segue-se “Fever”, uma música que busca inspiração ainda mais atrás, lembrando Del Shannon antes de se transformar num registo quase caribenho movido a um piano inspiradíssimo, acompanhado no final pelos acordes desgarrados de uma guitarra portuguesa. Acredite-se ou não, estranhamente funciona.
“Come on Down” é o regresso a um caminho mais tradicional, uma descontraída e sentida balada, chegando a levar-nos à Motown com o Verão da linha sempre à espreita (a Parede é uma base tradicional da banda). A primeira metade do disco fecha com “Human Error”, um bom boogie-rock com uns novos truques de produção a dar espaço e gás a um belo solo de guitarra. E como é bom um velho solo de guitarra!
O tempo volta a abrandar com “Not Around”, nova balada lenta e cheia de emoção. Será que os Aliens encontraram o amor? Por vários temas deste disco, parece (o que nada tem de mal). E, por mais que gostemos da guitarra, o final deste tema, com o órgão espacial a conduzir-nos pela mão, pedia um novo arranque para uma exploração prog, ao qual a banda continua a resistir.
“Good Things” arranca com um tom optimista que nos remete para os saudosos Clearence Clearwater Revival, toda ela acompanhada por uma slide guitar fresca, ao qual se juntam o piano e até o assobio. Fechando os olhos, estamos no Mississipi. “Lonely Hero” acaba por ser o tema mais esquemático e, como tal, menos inspirado do disco, embora seja salvo com brilhantismo pela orgia musical final.
A caminho do fim, “Hometown” volta a subir o botão da intensidade, com o vocalista Carl Karlsson em pleno modo Robert Plant. É aliás o tema mais descaradamente Zeppelin do disco (aquele final, aquela subtil dupla guitarra, óptimo!). III termina com a doce “As long as I get to see you”, simples e bonita, um descanso depois de uma viagem intensa.
Ao terceiro disco de longa duração, os Zanibar Aliens dão um pequeno passo na abertura do seu som, com uma maior variedade estilística e arranjos mais cuidados (na utilização das teclas, por exemplo), conseguindo manter as forças que já haviam demonstrado no passado e que nos fizeram fãs desde a primeira hora.
Parafraseando os Supergrass, The Kids Are Allright.
Malibu Ken – Malibu Ken (2019)

Malibu Ken dá-nos o melhor de dois ermitas da música alternativa, num projeto que só peca por não ser mais longo.
Quando em 2008 Tom Fec, o líder dos Black Moth Super Rainbow, mais conhecido como Tobacco lançou o seu primeiro disco a solo, Fucked Up Friends, era impossível ignorar a presença de Aesop Rock em “Dirt” não tanto pela sua qualidade intrínseca (esta não se destaca particularmente, o que nos diz mais sobre o álbum do que sobre a música) mas pelo quão vinda do nada a colaboração parecia. Não é bem assim: A verdade é que o grupo de Fec, os Black Moth Super Rainbow e Ian Bavitz, nome real de Aesop, abriram para os Flaming Lips em 2007 e já na altura os dois músicos discutiram a possibilidade de fazerem um disco colaborativo.
Passaram-se oito anos, que viram Aesop Rock afirmar-se como um dos MCs mais literatos do hip-hop (é, afinal de contas, o rapper que detém o maior vocabulário no género) enquanto Tobacco expandia o seu leque sonoro, adquirindo sonoridades mais ácidas e saturadas que o afastaram da pop bucólica e cozida dos Black Moth Super Rainbow.
Malibu Ken não tenta ser mais do que é: Nenhum músico tenta apaziguar as suas idiossincrasias ou adaptá-las ao outro, tornando este disco redundante. Os melhores e mais óbvios frutos desta falta de flexibilidade estão em “Acid King” o primeiro single. Os sintetizadores triunfantes de Tobacco formam a cama ácida onde Aesop Rock cospe, com uma precisão jornalística, a história de Ricky Kasso, um jovem que, sob o efeito de LSD, matou à facada um amigo, afirmando mais tarde ter seguido as ordens de Satanás.
O conceito de narrar estas histórias sórdidas é um dos muitos pontos de encontro dos dois músicos cuja estética deve muito à mitologia miserável e repugnante dos subúrbios americanos. “Churro” é sobre um escândalo ocorrido em Pittsburgh, na Pensilvânia, que envolveu os habitantes da cidade assistirem a duas águias a alimentar as suas crias com a carcaça de um gato.
Tobacco também tem uns truques na manga. “Dog Years” vê o músico a desconstruir o instrumental à medida que este se aproxima do fim e a sua voz, filtrada como sempre pelo vocoder, partilha com Aesop o refrão desta canção e de outras, nomeadamente, “1 + 1 = 13” onde a saturação de fita magnética e arpejos de pastilha elástica dominam a paisagem.
Quando o último refrão da lânguida “Purple Moss” se dilui em pitch shifts e teclados derretidos, ficamos com a sensação de que a aventura acabou prematuramente. Com uns meros trinta e quatro minutos é um disco demasiado curto para nos saciar completamente mas, na sua curta duração, vislumbramos alguns dos momentos mais brilhantes na discografia dos dois artistas.
Destaque
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