quinta-feira, 6 de junho de 2024

The Rolling Stones “Come On” (1963)

 Foi a 7 de junho de 1963 que os Rolling Stones lançaram o seu primeiro disco. O single, gravado semanas antes em Londres, nos Olympic Studios, apresentava no lado A uma versão de “Come On”, original de Chuck Berry que datava de 1961. 

Todas as histórias têm um começo. E a que conta a discografia dos Rolling Stones começou a ganhar forma a 10 de maio de 1963 numa sessão nos Olimpic Studios, em Barnes (Londres), na companhia de Andrew Loog Oldham, e com o engenheiro de som Roger Savage sentado na mesa de gravação. 

Da sessão surgiram os temas que, a 7 de junho de 1963, foram fixados no single de estreia dos Rolling Stones, lançado sem capa ilustrada (usando, portanto, a custom sleeve habitual em singles da Decca). No lado A surge uma versão de “Come On”, canção de Chuck Berry originalmente editada em 1961 e que tinha passado algo distante das atenções (tanto que deu mais que falar o lado B desse mesmo single). No lado B do seu single de estreia os Stones registaram uma leitura sua de “I Want to Be Loved” de Willie Dixon. Da mesma sessão nasceram outras gravações.

Apesar de ter ascendido ao número 21 na tabela de vendas de singles no Reino Unido (o que não era mau para uma estreia), “Come On” acabou por não ter nunca uma presença maior na vida do grupo, tanto em discos como entre palcos. Daria mais que falar, até porque surgiu quando os Beatles estavam a começar a tornar-se num fenómeno de popularidade, o single seguinte, “I Wanna Be Your Man” (canção de Lennon e McCartney que os Stones gravam mesmo antes dos próprios fab four), que os levaria ao número 12 alguns meses depois. 




David Bowie “Without You” (1983)

 Além de recuperar “Putting Out Fire”, de 1982, o álbum “Let’s Dance” gerou três êxitos planetários. Mas houve ainda mais um single que, sem o apoio de um teledisco e lançado em poucos mercados, acabou por passar a leste das atenções. 

É unânime o reconhecimento de um evidente flirt com o mainstream por parte de David Bowie nos anos 80, do qual se saldou um álbum notável (“Let’s Dance”, de 1983), um mediano (“Tonight”, de 1984) e um que mais tarde mereceria uma revisão nos arranjos e produção, melhorando a memória do seu impacte inicial (“Never Let Me Down”, de 1987). “Let’s Dance” surgiu em 1983 sob uma evidente vontade de reorientar rumos depois de quase 15 anos de ininterrupto protagonismo visionário sob a aclamação generalizada. Depois de uma súmula das ideias exploradas na reta final dos anos 70, juntando notas de reflexão sobre o futuro imediato, em “Scarry Monsters” (1980) e de uma pausa nos dois anos que se seguiram (nos quais editou apenas singles, duetos e experimentou projetos ligados a outras artes), Bowie recrutou o guitarrista dos Chic Nile Rogers para com ele criar um híbrido pop/rock com travo dançável (de notória afinidade com heranças do disco) e com intenções de chegar ainda mais longe do que a mítica primeira experiência de contacto com dinâmicas rítmicas de escolas negras que havia registado no álbum “Young Americans”, de 1975. 

“Let’s Dance” correspondeu em pleno ao que desejava, tendo gerado três êxitos globais para Bowie com o tema-título, uma versão do seu “China Girl” (antes cantado por Iggy Pop) e o irresistível “Modern Love”. A estes singles podemos juntar ainda “Putting Out Fire”, lançado em 1982 e recuperado para o alinhamento do álbum. Seguiu-se a planetária Serious Moonlight Tour, que afirmou pela primeira vez Bowie como estrela pop mainstream global. Para fechar o bouquet, a editora norte-americana quis editar um quarto single do álbum. Escolheu “Without You”, faixa atípica face ao som dominante do álbum, talvez mais na linha de uma pop polida que os Roxy Music haviam explorado recentemente, e que conta com a participação, no baixo, de Bernard Edwards (também dos Chic). É uma bela canção, mas acabou ignorada depois de tão gigantes êxitos globais, não tendo sequer conhecido o suporte promocional de um teledisco. No lado B servia-se uma versão de “Criminal World”, dos Metro. Para a capa, Keith Haring criou uma ilustração inédita, que hoje faz deste single uma peça desejada entre colecionadores. “O single”Without You” foi apenas editado nos EUA, Japão, Holanda e Espanha.




Mick Jagger “Memo From Turner” (1970)


Muito antes da sua estreia num álbum em nome próprio, que chegou em 1985 com “She’s The Boss” – ao qual se seguiram “Primitive Cool” (1987), “Wandering Spirit” (1993) e “Goddess in The Doorway” (2001) – a obra a solo de Mick Jagger tinha já cruzado o seu caminho com um dueto com os Jacksons em “State of Shock” (1984) e estava, por aqueles dias, a dar mais um passo numa outra parceria, esta com David Bowie, num dueto que reinventara, a pensar no Live Aid, o clássico “Dancing In The Streets” (1985), originalmente gravado por Martha and The Vandellas. Porém, a obra discográfica a solo do vocalista dos Rolling Stones já tinha somado, valentes anos antes, em 1970, um primeiro single ligado a uma das suas primeiras experiências no cinema, assim como acrescentaria a esta lista, em 1972, o álbum “Jamming with Edward!” Criado em conjunto com os companheiros Bill Wyman e Charlie Watts (respetivamente baixista e baterista dos Stones), juntamente com Ry Cooder (guitarra) e Nicky Hopkins (teclas), disco ao que parece nascido enquanto faziam tempo em estúdio perante uma ausência de Keith Richards.  

Editado em 1970 o single “Memo From Turner” correspondeu, então, à estreia a solo de Mick Jagger. A canção surgira para servir a banda sonora de “Performance”, filme de Donald Cammel e de Nicholas Roeg (este último o mesmo que pouco depois chamaria Bowie para o papel principal de “The Man Who Fell To Earth”), no qual Mick Jagger vestia a pele de Turner, um músico de rock com vida algo reclusa e que correspondeu, no mesmo ano em que interpretava o protagonista de “Ned Kelly”, de Tony Richardson, a um momento de estreia do cantor nos ecrãs de cinema.

Assinada pela dupla “oficial” Jagger/Richards, apesar do clima tenso que se instalara quando correra o rumor que Anita Pallenberg, que interpretava no mesmo elenco o papel de Pherber e na altura tinha um relacionamento com Keith Richards, poderia partilhar cenas mais íntimas com o cantor durante a rodagem. Rumor que é atribuído também à não concretização de uma possível banda sonora a criar pelos Rolling Stones, abrindo espaço a uma banda sonora na qual surgem nomes como Jack Nitzsche, os Last Poets, Buffy Sainte-Marie ou Ry Cooder, este último surgindo também na ficha técnica de “Memo From Turner”, canção propositadamente criada para o filme e que conta com a voz de Mick Jagger. “Memo From Turner” conheceu então edição num single, que ao lado B levou o instrumental “Natural Magic”, também da banda sonora de performance. “Memo From Turner” foi mais tarde incluída na antologia dos Rolling Stones “Singles Collection – The London Years”, editada em 1989.



Gloria Gaynor: “I Will Survive” (1978)

 


Há sucessos inesperados. Na verdade não é caso único a história de um lado B de um single, destinado a não ser sequer uma nota de rodapé numa discografia, a transformar-se num caso de maior visibilidade do que o respetivo lado A. Mas, em 1978, com “I Will Survive”, a canção destinada ao lado B de “Substitute” (pois, é natural que desta poucos se lembrem), acabou mesmo por se transformar no maior sucesso de toda a obra de Gloria Gaynor. 

A canção começou a nascer na casa do produtor e compositor Dino Fekaris, que recentemente tinha sido afastado da Motown Records e procurava, através da escrita, uma rota de superação. Assim aconteceu e, motivado por ecos claramente próximos da sua vida pessoal, acabou por lançar ideias para um potencial hino de auto-estima, subtexto que a Gloria Gaynor logo descodificou assim que lhe foi apresentada a canção. Acontece que, na sessão de gravação destinada a criar um novo single o tempo de estúdio foi quase todo ocupado pelo registo de “Substitute”, no final restando apenas 35 minutos, nos quais “I Will Survive” ganhou forma… 

Na hora de preparar o lançamento, apesar da aposta da cantora em “I Will Survive” a vontade da editora prevaleceu e “Substitute” avançou como lado A. O clima ‘disco’ também estava perto, mas o mood da canção era coisa mais tranquila, mais discreta, longe do potencial de êxito que a própria Gloria Gaynor desde logo havia reconhecido em “I Will Survive”. Nada como um plano B, então… O marido de Gloria Gaynor apresentou então o lado B ao DJ do Studio 54, a discoteca que, depois da etapa inicial do ‘disco sound’ vivida em clubes de menos visibilidade mainstream, era então o local que ditava tendências na noite nova-iorquina. A reação foi de evidente entusiasmo, pelo que o DJ acabou com uma pilha de singles para distribuir entre colegas e amigos… E foi assim que, entre a pulsação noturna da cidade que “I Will Survive” começou a cativar atenções, acabando por chegar à rádio de tal forma que a editora acabou mesmo a trocar a ordem das canções em novas prensagens, elevando “I Will Survive” ao estatuto de lado A, abrindo caminho para um vendaval de adesões que acabaram por levar a canção ao número um na principal tabela de singles dos EUA, com repercussão internacional no mesmo calibre, suplantando assim os resultados obtidos quatro anos antes com “Never Can Sai Goodbye”, que havia já representado (em 1974) um dos primeiros casos de sucesso maior do então emergente ‘disco sound’.



O motor lírico, centrado numa ideia de auto-estima, foi conquistando depois todo um historial de novos significados, um deles, imediato, pelo facto deste hino surgir na voz de uma mulher. Este seria um entre os vários episódios da história do ‘disco’ e dos seus grandes intérpretes que contrariam os argumentos que apontavam o dedo a uma música essencialmente festiva e eventualmente vazia de conteúdo. Visão errada, ainda por cima numa cantora que sempre procurou dar voz a canções com vitaminas de significados, atenta a grandes causas sociais e que viu, poucos anos depois, o igualmente marcante “I Am What I Am” elevado a estatuto de hino de orgulho identitário reclamado pela comunidade LGBTIA+. 

Kenny Wheeler • David Friedman • Jasper van 't Hof - Greenhouse Fables (1992)

 

Essa capa do álbum é realmente horrível, né? Suponho que a arte em si não seja tão ruim, mas essas fontes e a composição geral? Parece um livro de autoajuda sobre como a depressão bipolar pode afetar seu casamento ou algo assim.

O que é uma pena, porque a música é um jazz ambiente positivamente lindo. O trompete/flugelhorn de Wheeler, o vibrafone de Friedman e o piano de van 't Hof são companheiros belos e contemplativos, combinando e dispersando sem esforço, permitindo uma sensação de dinâmica e movimento, mesmo que o volume raramente vá além de um murmúrio suave.


Track listing:
1. Zambon
2. Everybody's Song but My Own
3. Truvib
4. Greenhouse Fables
5. Farm
6. Salina Street





Müller • Sugimoto - I Am Happy If You Are Happy (2000)

 


MUSICA&SOM

Track listing:
1. Frozen Memories
2. Snow Pocket
3. Rest and Smile
4. Bright White
5. Cumulus
6. Pitch the Clock





Oren Ambarchi - Stacte.2 (1999)

 


Dois primeiros experimentos de guitarra/loop sem título do grande Oren Ambarchi. Ouvi Ambarchi pela primeira vez anos atrás através de suas colaborações com Stephen O'Malley / Sunn O))) - Burial Chamber Trio, Gravetemple, Pentemple, Shade Themes de Kairos - mas só recentemente comecei a ouvir seu material solo. Depois de cinco álbuns, ainda não ouvi nada que não fosse excelente, e Stacte.2 foi onde comecei, então é aí que estamos começando. Seus sons alegres, minimalistas e texturais são todos provenientes da guitarra e suponho que sejam o resultado do loop da fita, conforme as notas do álbum: "Todos os sons = guitarra - sem edição, sem processamento, sem computador, não". Ainda não entendo como esses sintetizadores não são, mas o que eu sei.





Aquila - Observations on the Loss of Culture (1996)

 

Techno/trance/eletrônica abstrata com uma vibração obscura e inebriante do produtor australiano Matthew Thomas. Ótima audição com fones de ouvido.

Track listing:
1. Culture
2. Museum
3. Identity
4. Knowledge
5. The Impossibility of Isolation
6. Ritual
7. Progress





Philip Samartzis - Mort aux Vaches (2003)

 


Estou de volta de uma longa viagem que foi um pouco exigente emocional e fisicamente para ser chamada de “férias”. Procurar emprego e estudar para o exame CPA ocuparão grande parte do meu tempo livre nas próximas semanas e meses, então espere postagens ainda mais esporádicas. Mas aqui e agora, desfrute destas cativantes peças sonoras experimentais do compositor australiano Philip Samartzis. Descrevê-los meio que tiraria a diversão de ouvir suas paletas sonoras se expandirem e explodirem, então não vou fazer isso.

Lista de músicas:
Track listing:
1. Variable Resistance
2. Deconstructed Windmills
3. Soft and Loud




Mastery - Valis (2015)


Facilmente um dos black metal mais implacavelmente caóticos que existe. Uma massa impenetrável que alcança a transcendência através de uma cacofonia pura, contorcida e vertiginosa. Por mais inacessível que Valis seja, eu honestamente sinto que pode ser uma boa porta de entrada para pessoas que gostam de música experimental, mas não de black metal, pois, apesar de consistir em grande parte dos componentes mais básicos do gênero - guitarras com tremolo, gritos distorcidos, explosões bateria - seu impacto geral desorientador é semelhante ao do ruído áspero ou da psicologia experimental.


Track listing:
1. V.A.L.I.S.V.E.S.S.E.L.
2. A.S.H.V.E.S.S.E.L.
3. L.O.R.E.S.E.E.K.E.R.
4. I.L.K.S.E.E.K.E.R.
5. S.T.A.R.S.E.E.K.E.R.





Destaque

Pip Pyle's Bash! - Belle Illusion (2004)

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