domingo, 2 de março de 2025

“9 Luas” (EMI,1996), Os Paralamas do Sucesso

 


Após a sequência de Os Grãos (1991) e Severino (1994), dois trabalhos de pouco apelo popular e recepção “morna” por parte da crítica, os Paralamas do Sucesso estavam em uma encruzilhada. Em ambos os discos, a banda mergulhou de cabeça em experimentalismos, como a experiência com sonoridades eletrônicas (Os Grãos) e influências nordestinas (Severino), e abraçou um tom mais introspectivo, quase sombrio, que desconcertou boa parte de sua base de fãs. Phil Manzanera, produtor e guitarrista do Roxy Music, ajudou a moldar a produção de Severino com seu toque sofisticado, mas a combinação de temáticas sociais e políticas acabou sendo demais para um público que esperava algo mais palatável. A crítica? Em parte aplaudiu o movimento audacioso. Mas comercialmente? O fracasso foi evidente. Severino deixou uma sombra de incertezas no ar, com a pergunta sendo: qual seria o próximo movimento da banda? 

A situação começou a mudar quando a banda lançou, em 1995, Vamo Batê Lata, álbum duplo gravado ao vivo em duas noites de shows no Palace, em São Paulo, em dezembro de 1994. Os dois shows fizeram parte da turnê do álbum Severino, e tudo foi registrado para o álbum ao vivo. Além do formato LP, Vamo Batê Lata foi lançado em CD, K7, VHS e DVD (este em 2005). Embora fosse um álbum duplo, Vamo Batê Lata foi um fenômeno em vendas na carreira dos Paralamas, que nem os integrantes da banda sabiam explicar: o álbum alcançou a marca de 1 milhão de cópias vendidas. Vamo Batê Lata trazia não só os grandes sucessos da banda carioca gravados ao vivo, como também quatro canções inéditas gravadas em estúdio: “Uma Brasileira”, “Saber Amar”, “Luís Inácio (300 Picaretas)” e “Esta Tarde”. “Uma Brasileira”, parceria de Herbert e Carlinhos Brown, com participação especial de Djavan, fez um grande sucesso nas paradas radiofônicas, assim como a balada “Saber Amar”. As duas canções provavelmente apontaram o caminho que os Paralamas deveriam seguir para a concepção do seu próximo álbum de estúdio: o retorno a algo mais simples e popular. 

Depois do mergulho denso e quase claustrofóbico de Severino, o álbum que deixou os fãs coçando a cabeça e a crítica dividida, os Paralamas do Sucesso emergiram das profundezas com 9 Luas, o álbum de estúdio seguinte. Se Severino foi a carta de risco, 9 Luas foi a aposta certeira, que, a bem da verdade, foi garantida com o sucesso dos hits “Uma Brasileira” e “Saber Amar”, de Vamo Batê Lata, o álbum ao vivo lançado entre os dois álbuns de estúdio. E os resultados falam por si: foi muito bem recebido pela crítica musical e um sucesso comercial. 

Lançado em julho de 1996, 9 Luas manteve a parceria dos Paralamas do Sucesso com o produtor Carlos Savalla, o mesmo desde Bora-Bora (1988). Oitavo álbum de estúdio dos Paralamas, 9 Luas trouxe o trio carioca de volta ao básico, mas com aquela inteligência que só a experiência proporciona. 9 Luas explora uma rica diversidade de temas e estilos musicais, refletindo a maturidade da banda. As letras abordam o amor e os relacionamentos, além de reflexões sobre a passagem do tempo e críticas sociais sutis. O álbum também presta homenagens a artistas do rock argentino, como nas versões de "De Música Ligeira", do Soda Stereo, e "Lourinha Bombril", dos Los Pericos, demonstrando a admiração dos Paralamas pela Argentina, país onde a banda brasileira conquistou milhares de fãs. Essa pluralidade de temas contribui para a riqueza e profundidade do trabalho.

Volta por cima: após o fracasso comercial de Severino, o álbum duplo gravado
ao vivo Vamo Batê Lata marcou o retorno dos Paralamas às paradas de rádio.

Musicalmente, o álbum transita entre uma diversidade de estilos, com o rock e o pop dominando boa parte das faixas. As guitarras vibrantes e os ritmos energéticos, característicos do rock, são equilibrados por uma abordagem pop mais acessível, que torna as melodias cativantes e radiofônicas. O reggae, presente desde o início da carreira dos Paralamas, continua a marcar presença, conferindo uma cadência envolvente a várias canções. Elementos latinos, como salsa e merengue, trazem um toque exótico, enriquecendo a variedade sonora do disco. Até mesmo o samba dá o ar de sua graça em uma das faixas. 

A ilustração da capa do disco foi feita por Pedro Ribeiro, irmão de Bi Ribeiro. O encarte do álbum traz também trabalhos de outros sete artistas, dentre os quais Lygia Pape (1927-2004), Beatriz Milhazes e Daniel Senise. 

9 Luas começa com o ritmo contagiante de “Lourinha Bombril”, versão em português escrita por Herbert Vianna para “Parate y Mira”, da banda argentina Los Pericos. A letra celebra a integração das heranças culturais do Brasil, faz referências à gastronomia brasileira, à política e ao futebol. Os versos ainda enfatizam a valorização de soluções nacionais e o orgulho pela identidade plural do país. 

“Outra Beleza” é uma parceria entre Herbert e Lulu Santos. A primeira parte da faixa é um delicioso ritmo de salsa, mas, do meio para o fim, cede espaço para a batucada do samba brasileiro. A letra celebra a beleza genuína, destacando que ela não precisa de ostentação ou comparação. Ao mesmo tempo, os versos dessa canção traçam uma crítica à sociedade que prioriza a aparência visual em detrimento do conteúdo que o ser humano possa ter. 

A faixa seguinte, “La Bella Luna”, é um reggae malemolente, cujos versos tratam do desejo e da saudade de um encontro amoroso, com a Lua sendo um símbolo que desperta lembranças e esperança de reviver momentos passados. 

Bi Ribeiro, Herbert Vianna e João Barone em foto da contracapa de 9 Luas.


Do reggae malemolente de “La Bella Luna”, os Paralamas partem para o rock de “De Música Ligeira”, versão em português da música homônima da banda argentina Soda Stereo. Herbert canta sobre o amor intenso, mas passageiro, simbolizado pela "música ligeira", onde o eu lírico aceita com melancolia o fim inevitável da relação amorosa. A repetição da frase "nada mais resta" reforça a transitoriedade e o vazio deixado após o desenlace. 

Composta pelos irmãos Paulo Sérgio e Marcos Valle para a trilha sonora da novela Selva de Pedra, de 1972, da TV Globo, "Capitão de Indústria" foi gravada originalmente naquele ano pelo cantor Djalma Dias (1938-2021). A letra critica a rotina exaustiva do mundo corporativo, onde o eu lírico se sente preso em um ciclo de trabalho contínuo. Ela reflete a perda de tempo para aproveitar a vida fora das obrigações profissionais. Com um tom reflexivo, a banda provoca uma reflexão sobre o valor da existência além do trabalho e do consumo. Enquanto a versão original gravada por Djalma é um misto de soul e samba, os Paralamas deram um caráter bem pessoal à sua versão, optando pelo reggae. 

O rock "O Caminho Pisado" trata da rotina monótona e desgastante da vida cotidiana, marcada pela repetição, resignação e o peso da realidade social, onde as promessas de mudança parecem sempre inalcançáveis. Gravada antes pelos Titãs para o disco Domingo (1995), "O Caroço da Cabeça" explora a conexão entre os sentidos e funções do corpo humano por meio de metáforas. A canção também reflete sobre a mortalidade, destacando o ciclo da vida e a continuidade após a morte. 

A linda balada pop “Sempre Te Quis” expressa um amor profundo e sincero, onde o eu lírico encontra segurança e renovação emocional ao lado da pessoa amada, superando medos e incertezas. Na fronteira entre o reggae e o ska, “Seja Você” tem como destaque o naipe de metais, que dá um toque especial a esta canção que fala sobre autoconfiança e o encontro da felicidade nas pequenas coisas da vida. 

Ao contrário da mensagem otimista de "Seja Você", "Na Nossa Casa" apresenta uma perspectiva mais melancólica sobre as relações humanas ao retratar a dor e as confusões de um coração partido. É uma canção que retrata a desilusão e a solidão de um relacionamento que se desfez, explorando a sensação de perda e a busca por respostas em meio ao vazio. 

"De Música Ligeira" é uma versão em português de "De Música Ligera", grande
sucesso de 1990 da banda argentina Soda Stereo (foto).


Fechando o álbum, "Um Pequeno Imprevisto" é uma parceria de Herbert Vianna e Theddy Correia, vocalista do Nenhum de Nós. É uma canção que faz uma reflexão sobre a transitoriedade da vida e a impossibilidade de controlar o tempo e as mudanças, revelando a frustração do eu lírico diante da inevitabilidade da passagem do tempo e da transformação: “Eu quis prever o futuro, consertar o passado / Calculando os riscos / Bem devagar, ponderado / Perfeitamente equilibrado”. 

A recepção de 9 Luas por parte da imprensa foi a melhor que não se via há muito tempo a um lançamento de um novo álbum dos Paralamas do Sucesso. O disco foi saudado como uma volta da banda ao pop, como nos velhos tempos. Para o jornalista Tárik de Sousa, do Jornal do Brasil, 9 Luas buscou “retomar as pegadas primitivas do álbum O Passo do Lui, mas sem ser passadista”. Já Marisa Adán Gil, da Folha de S. Paulo, afirmou que 9 Luas estabelece os Paralamas como o elo perdido entre o rock dos anos 80 e o nosso novo pop nacional”. 

O público também foi bastante receptivo, aliás, acima do esperado. Para se ter uma ideia, após um mês de lançamento, o disco havia vendido mais de 250 mil cópias, rendendo ao trio o disco de platina. Não demorou muito, e o álbum 9 Luas alcançou a marca de 600 mil cópias vendidas, um sucesso avassalador. Das 12 faixas de 9 Luas, metade chegou às paradas de rádio do Brasil: “Lourinha Bombril”, “La Bella Luna”, “Capitão de Indústria”, “Busca Vida”, “Outra Beleza” e “De Música Ligeira”. Talvez isso ajude a explicar o sucesso comercial do álbum, que trouxe de volta os Paralamas ao centro da cena, de onde eles pareciam ter se afastado por um tempo. 9 Luas foi a reafirmação do status dos Paralamas do Sucesso como gigantes do rock brasileiro. 

Em agosto de 1996, os Paralamas do Sucesso conquistaram três prêmios VMB da MTV Brasil com o videoclipe de “Lourinha Bombril”, que venceu nas categorias “Clipe do Ano”, “Direção” e “Edição”. Dois meses depois, os Paralamas partiram para uma turnê nacional para promover o álbum 9 Luas. 

O álbum 9 Luas deixou um legado significativo na carreira dos Paralamas. Ao resgatar a simplicidade e a energia contagiante dos primeiros trabalhos da banda, o álbum conquistou um público amplo e consolidou a posição dos Paralamas como um dos maiores nomes da música nacional. 9 Luas reflete o amadurecimento dos Paralamas, tanto em termos líricos quanto sonoros, abordando temas mais introspectivos e universais. Com sucessos como "Lourinha Bombril" e "Busca Vida", o disco se conectou a diferentes gerações e marcou uma fase de transição na sonoridade da banda, preparando o terreno para novas experimentações que viriam nos anos seguintes.

 

Faixas

Todas as faixas escritas e compostas por Herbert Vianna, exceto onde indicado.

 

  1. "Lourinha Bombril" (Diego Blanco / Bahiano (Los Pericos), versão Herbert Vianna)          
  2. "Outra Beleza" (Herbert Vianna / Lulu Santos)         
  3. "La Bella Luna"                          
  4. "De Música Ligeira" (Gustavo Cerati / Zeta Bosio (Soda Stereo), versão Herbert Vianna)          
  5. "Capitão de Indústria" (Paulo Sérgio Valle / Marcos Valle) 
  6. "O Caminho Pisado"               
  7. "Busca Vida"               
  8. "O Caroço da Cabeça" (Herbert Vianna / Nando Reis / Marcelo Fromer)            
  9. "Sempre Te Quis"                     
  10. "Seja Você"                   
  11. "Na Nossa Casa"                       
  12. "Um Pequeno Imprevisto" (Herbert Vianna / Thedy Correa)

 

Os Paralamas do Sucesso: Herbert Vianna (voz, guitarra e violão; dobro em "La Bella Luna"), Bi Ribeiro (baixo) e João Barone (bateria e percussão) 

"Lourinha Bombril"

"Outra Beleza"


"La Bella Luna"

"De Música Ligeira"

"Capitão de Indústria"


"O Caminho Pisado"


"Busca Vida"
(videoclipe oficial)

"O Caroço da Cabeça"

"Sempre Te Quis"

"Seja Você"

"Na Nossa Casa"

"Um Pequeno Imprevisto"

"La Bella Luna" 
(videoclipe original - letra em espanhol)


Há 52 anos, em 1°. de março de 1973, o Pink Floyd lançava The Dark Side Of The Moon

Há 52 anos, em 1°. de março de 1973, o Pink Floyd lançava The Dark Side Of The Moon, oitavo álbum de estúdio da banda britânica. 🇬🇧
O registro baseia-se nas ideias exploradas nas gravações e performances anteriores do Pink Floyd, omitindo os instrumentais estendidos que caracterizaram seus trabalhos anteriores. The Dark Side Of The Moon, portanto, consiste em um álbum conceitual, explorando temas como conflitos, ganância, tempo, morte e doenças mentais -- esse último parcialmente inspirado pela deterioração da saúde do membro fundador Syd Barrett, que deixou o grupo em 1968. O conceito do álbum, bem como a maior parte das letras, é de autoria do baixista Roger Waters.
A obra foi desenvolvida principalmente durante apresentações ao vivo: a banda estreou uma versão inicial do disco vários meses antes do início da gravação. Um novo material foi gravado em duas sessões em 1972 e 1973 no Abbey Road Studios, em Londres.
No estúdio, o grupo usou técnicas como a gravação multipista, laços de fita e sintetizadores analógicos. Trechos de entrevistas com a equipe de estrada da banda, bem como citações filosóficas, também foram utilizados. O engenheiro de som Alan Parsonsfoi responsável por muitos aspectos sonoros e pelo recrutamento da cantora Clare Torry, que aparece na faixa "The Great Gig in the Sky". O álbum foi promovido com dois singles: "Money" e "Us And Them".
A famosa capa de Dark Side Of The Moon, por sua vez, mostra um espectro de prisma, sendo projetada pelo designer gráfico Storm Thorgerson -- seguindo o pedido do tecladista Richard Wright para um design "simples e ousado", representando a iluminação da banda e os temas do disco.
The Dark Side Of The Moon foi lançado pela EMI nos Estados Unidos em 1 de março de 1973 -- no Reino Unido, o lançamento ocorreu 23 dias depois -- e recebeu elogios da crítica, desde então tendo sido amplamente aclamado como um dos maiores álbuns de todos os tempos. O álbum alcançou o #1 na Billboard 200, principal parada musical de álbuns dos Estados Unidos, e permaneceu no gráfico por mais de 900 semanas. Com vendas estimadas em mais de 45 milhões de cópias, é o best-seller do Pink Floyd e um dos álbuns mais vendidos em todo o mundo.
O disco significou um rompimento com a fase inicial do Pink Floyd, caracterizada pelo experimentalismo e menor projeção midiática, e ajudou a impulsionar o Pink Floyd à fama internacional, trazendo riqueza e reconhecimento a todos os seus quatro integrantes.


Há 32 anos, em 1°. de março de 1993, The Cranberries lançavam Everybody Else Is Doing It, So Why Can't We?

Há 32 anos, em 1°. de março de 1993, The Cranberries lançavam Everybody Else Is Doing It, So Why Can't We?, primeiro álbum de estúdio da banda irlandesa. 🇮🇪
Os Cranberries foram formados em 1989 na cidade de Limerick, Irlanda, sendo originalmente integrados pelo vocalista Niall Quinn, o guitarrista Noel Hogan, o baixista Mike Hogan e o baterista Fergal Lawler. Em 1990, Quinn foi substituído como vocalista pela jovem Dolores O'Riordan, de apenas 18 anos, e realizou seus primeiros shows com a nova formação. Eles gravaram uma demo e, no ano seguinte, assinaram contrato com a Island Records, com a qual estrearam com seu primeiro EP, Uncertain (1991), que teve recepção negativa da crítica e falhou nas paradas -- sendo sucedido por mais três EPs de pouca repercussão.
Embora abalados com a performance de Uncertain, os Cranberries entraram no estúdio Windmill Lane, em Dublin, em meados de 1992, para gravarem seu primeiro álbum completo, sob produção de Stephen Street. A banda se classificou como um grupo de rock alternativo, mas incorporou aspectos de indie rock, jangle pop, dream pop, folk rock, pós-punk e pop rock em seu som. O álbum foi escrito inteiramente pela vocalista Dolores O'Riordan e pelo guitarrista Noel Hogan.
Everybody Else Is Doing It, So Why Can't We? foi lançado pela Island em março de 1993 e tornou-se um sucesso, alcançando o #1 nas paradas de álbuns do Reino Unido e da Irlanda e o #18 na Billboard 200, nos Estados Unidos. O álbum também contém o single de maior sucesso dos Cranberries nos Estados Unidos, "Linger", #8 na Billboard Hot 100, além dos sucessos menores "Dreams" e "Sunday". De qualquer forma, o debute foi responsável por apresentar os Cranberries ao grande público e estabelece-la como uma alternativa europeia ao grunge predominante na América.


 

Há 20 anos, em 1°. de março de 2005, Jack Johnson lançava In Betweeen Dreams

Há 20 anos, em 1°. de março de 2005, Jack Johnson lançava In Betweeen Dreams, terceiro álbum de estúdio do artista americano. 🇺🇸
Gravado no estúdio The Mango Tree, no Havaí, em outubro de 2004, o álbum traz conteúdo lírico descrito como "otimista" e "animador", ainda que com faixas politizadas como "Crying Shame" e "Staple It Together", com o conteúdo majoritariamente escrito por Johnson; também apresenta bastante presença de violões. A capa do álbum, por sua vez, retrata uma mangueira, referindo-se ao estúdio Mango Tree.
Apesar da recepção mista da crítica, In Between Dreams obteve aclamação popular e tornou-se um sucesso comercial, alcançando o #2 na Billboard 200 nos Estados Unidos. O álbum foi promovido pelos singles "Better Together", "Good People", "Breakdown" e o hit "Sitting, Waiting, Wishing", indicado ao Grammy Awards na categoria Melhor Performance Vocal Pop Masculina. A exposição deu início ao período de maior sucesso da carreira de Jack Johnson.

 

David Bowie - "Aladdin Sane" (1973)


'A Lad Insane'?
'A Land Insane'?
'Love Alladin Vein'?
Não,  'Aladdin Sane' apenas.
trocadilhos posíveis
idealizados para o nome do álbum

Readquiri ontem, depois de muito tempo apenas com algumas músicas dele numa coletânea 'geralzona', o ótimo "Aladdin Sane" de David Bowie, de 1973.
Cartilha do glitter rock e um dos melhores álbuns do Camaleão, "Aladdin Sane", o sucessor do clássico "The Rise and the Fall of Ziggy Stardust...", é praticamente uma continuação daquele, sem ser uma repetição ou uma imitação. É sim uma recriação. Por mais que seja bem glam, bem carregado nas guitarras assim como o outro, "Aladdin Sane" tem toda uma personalidade enquanto álbum, uma aura própria e uma  melodiosidade toda peculiar.
"Watch the Man" que abre o disco é um exemplo perfeito do glitter característico de Bowie; "Panic in Detroit" e "Cracked Actor" carregam nas guitarras em dois rockões empolgantes; "Time" é uma provocante balada de cabaré interpretada com maestria com aquele jeito Bowie, único, de cantar; e "The Jean Genie", outra das melhores do disco, é um bluesão fantástico e matador.
A faixa que dá nome ao álbum, por sua vez, é uma requintada e ousada composição onde a base chega a estacionar e parar, repetindo-se, para dar espaço a um admirável solo de piano. Piano que também é destaque na faixa final, "Lady Grinning Soul", uma melodia flamenca na qual o som das teclas alvi-negras parece deslizar por sobre a canção, fluindo líquido como se escorresse pelo seu interior.
Bowie apresenta-nos ainda uma cover muito legal de "Let Spend the Night Together" dos Rolling Stones , inclusive com uma inusitada pausa para distorções no finalzinho, o que dá um toque todo particular à versão.
Mais um grande disco deste cara que nunca cansou de nos surpreender. Que praticamente se renova a cada 2 ou 3 discos, sempre estando na vanguarda dos acontecimentos, tendências e costumes. E com este álbum não foi diferente
Bowie sempre atemporal.

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FAIXAS:
1."Watch That Man" 4:25
2."Aladdin Sane (1913-1938-197?)" 5:06
3."Drive-In Saturday" 4:29
4."Panic in Detroit" 4:25
5."Cracked Actor" 2:56
6."Time" 5:09
7."The Prettiest Star" 3:26
8."Let's Spend the Night Together" 3:03
9."The Jean Genie" 4:02
10."Lady Grinning Soul" 3:46




Danzig - "Danzig II - Lucifuge" (1990)

 


“Vós tendes por pai o Diabo,
e quereis satisfazer os desejos de vosso pai”
citação do livro de João, da Bíblia,
no encarte da edição original do álbum



Dia desses estava eu numa loja de CD’s comprando uma camiseta do Johnny Cash, e como não raro acontece, o som que tocava na loja me chamou a atenção. Um metal semi-acústico alicerçado no blues, interpretado com ênfase, paixão e vigor. Interessantíssimo aquilo! Fui até o balconista e perguntei do que se tratava, ao que ele me respondeu que era Danzig. Ora, já havia ouvido falar da banda mas nunca efetivamente havia escutado. A surpresa foi agradabilíssima. Perguntei o nome da música. Aquela chamava-se “I’m the One”. Estusiasmante, extasiante! Ao melhor estilo dos blueseiros da antiga mas cantado com a força do metal.

Procurei saber de onde era aquela música e a mesma fazia parte do álbum chamado “Lucifuge” que, já na primeira audição, ratificando a boa impressão inicial apresentava-se como um maravilhoso exemplar de uma espécie de blues-metal bastante original na sua concepção, execução e interpretação.

Embora utilizando-se, sim, de instrumentos elétricos, de peso e vocais impetuosos, A produção caprichada do ótimo Rick Rubin (de "BloodSugarSexMagik" dos Chilli Peppers e a série "American" de Johnny Cash , por exemplo) estreita de maneira admirável as correntes do metal com as características mais primárias do bom e velho blues tradicional dos grandes mestres, isso sem falar nas temáticas, é claro, sinistras, cheias de lendas e demônios comuns a ambos os estilos.

Além da já citada “I’m the One”, minha favorita, destaque especial também para a primeira “Long Way Back from Hell” um metal galopante, potente, forte e vigoroso; para a balada “Blood and Tears”; para o ótimo blues-metal apocalíptico "777";  e para a excelente “Killer Wolf”, referência ao lendário blueseiro Howlin’ Wolf, pelo título e pela interpretação. No restante, todas são boas canções mas, se pode-se apontar um defeito é que, talvez uniformes demais, algumas acabem soando muito parecidas com as outras. Mas nada que desdoure ou invalide todos os méritos deste ótimo trabalho.

Só algum tempo depois de conhecer o Danzig foi que descobri que o líder, vocalista, idealizador, Glen Danzig era o vocalista do extinto Misfits, que para falar a verdade, nunca me agradou muito. Já o Danzig, bastou um pouquinho daquele blues diferente, envenenado, sujo, satânico pra me pegar pelos ouvidos.
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FAIXAS:
  1. "Long Way Back from Hell" - 4:27
  2. "Snakes of Christ" - 3:59
  3. "Killer Wolf" - 4:14
  4. "Tired of Being Alive" - 4:03
  5. "I'm the One" - 4:09
  6. "Her Black Wings" - 4:47
  7. "Devil's Plaything" - 3:58
  8. "777" - 5:40
  9. "Blood and Tears" - 4:20
  10. "Girl" - 4:18
  11. "Pain in the World" - 5:46




Danilo Caymmi - "Cheiro Verde" (1977)

 

“Você gravava, vendia, corria atrás, ia pra rua. Fizemos três mil cópias e conseguimos vender todas. Mas agora, nesta era digital, esse disco ficou parado. Ele foi se valorizando com o tempo, o que é muito gratificante”. 
Danilo Caymmi

Danilo é o menos badalado entre os Caymmi. No que diz respeito a seu pai, Dorival, poucos se equiparam ao gênio deste Buda Nagô, um dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos. Seu irmão mais velho, Dori, gabaritado maestro de reconhecimento internacional, trabalhou com alguns dos mais prestigiados músicos do seu tempo, como os conterrâneos Tom JobimJoão Gilberto e Elis Regina e os estrangeiros Dionne Warwick, Quincy Jones e Toots Thielemans. Nana, a irmã, é nome inconteste entre as maiores vozes da MPB. Até mesmo a filha Alice, cultuada pelo público mais jovem, ganha mais holofotes do que ele. A figura modesta talvez explique. A mãe Stella Maris, mineira, sentenciou certa vez que, entre os filhos, Nana cantava, Dori arranjava e Danilo tocava flauta. Porém, Danilo é, certamente, muito mais do que uma retaguarda, visto que é o mais catalisador da família em termos musicais. Caçula, talvez justamente por ter vindo por último ele consiga recolher características de cada um: de Dorival, traz nas veias a sofisticação das canções praieiras; do irmão mais velho, a versatilidade e a musicalidade profunda; de Nana, o timbre inconfundível dos Caymmi e o apuro vocal; da filha, a modernidade musical intercambiada desde que ela estava no berço.

“Cheiro Verde”, seu álbum de estreia, de 1977, é um exemplo claro desta multiplicidade simbiótica de Danilo. Cantor, flautista, compositor e violonista, traz em sua música uma impressionante diversidade de estilos, que vão da bossa nova ao baião, passando pelo samba jazz e a soul. Com um time de grandes músicos, tal Cristóvão Bastos, Maurício Maestro e Fernando Laporace, o disco traz a mais alta qualidade melodia e harmonia quanto letrística e instrumental, ao nível do "alto escalão" da MPB, como Tom, Arthur VerocaiIvan Lins, Waltel Branco, Antonio Adolfo, Tânia Maria, Edu Lobo. Ao nível dos Caymmi.

Afinal, Danilo, mesmo debutando como artista solo, não era nenhum novato. Flautista profissional desde os 16, o futuro arquiteto que abandonou a faculdade para seguir a vida musical já em 1968 participava do II Festival Internacional da Canção Popular. Levou o terceiro lugar com a clássica “Andança”, parceria com Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, defendida por Beth Carvalho. No ano seguinte, venceu o Festival de Juiz de Fora com a canção “Casaco Marrom”, parceria com Renato Corrêa e Gutemberg Guarabyra, interpretada por Evinha. Bastante próximo dos colegas mineiros, de quem tem forte influência musical, já havia integrado a banda de Tom, Joyce, Milton NascimentoSom ImaginárioMartinho da Vila, Quarteto em Cy, entre outros, além de assinar, juntamente com Beto GuedesNovelli e Toninho Horta, um dos melhores discos de toda a década de 70.

Em “Cheiro…”, portanto, Danilo chegava pronto como que perfumado para uma festa. A primeira nota do frasco, “Mineiro”, é exemplar nisso: bossa nova com dissonâncias e harmonia típicas dos autores de grande domínio composicional. A letra de Ronaldo Bastos é uma homenagem de dois cariocas aos amigos do Clube da Esquina: “Vou por aí levando um coração mineiro, pois é”. Ainda, as participações especiais de Airto Moreira na bateria, Helvius Vilela no piano e Gegê na percussão. Com Bastos, também assina “Codajás”, que Nana gravara um ano antes. De tom ao mesmo tempo blueseiro e sambístico, traz o belo canto de Danilo soltando agudos difíceis a qualquer cantor, ainda mais a alguém de uma família cujo timbre tende sempre ao barítono. Fora isso, Danilo a aperfeiçoa ainda mais com um jazzístico solo de flauta, que encerra o número.

Com a então esposa Ana Terra, excelente musicista carioca e responsável também pela produção, compõe maior parte do repertório, como o samba “Pé sem Cabeça”, típica música do período da ditadura no Brasil - gravada posteriormente, claro, pela combativa Elis. Com cara de tema romântico, na verdade, denuncia o regime e os horrores cometidos contra os opositores: “Você me fez sofrer/ Ninguém me faz sofrer assim/ O que era tanta beleza num pé sem cabeça você transformou”. É dos dois também a brejeira e lúdica “Juliana”, de acordes jobinianos, e a subsequente “Aperta Outro”, samba cheio de suingue com toque do trombone de Edson Maciel e o baixo do parceiro Novelli. 

Ainda mais gingada é “Racha Cartola”, ode à boemia mas, igualmente, à preocupação do boêmio quando volta para casa. “Como explicar?”, pergunta-se lembrando que terá de encarar a esposa esperando-o irritada. A sincopada “Botina”, dele e de outro mineiro, Nelson Ângelo, traz novamente a atmosfera de Minas (“Velha porteira, cidade interior/ Uma voz de lavanderia, um batuque e um sabor”), referenciando, mais uma vez - além do próprio coautor -, à turma liderada por Milton Nascimento. Aliás, o gênio de Três Pontas empresta sua voz inconfundível em “Lua Do Meio-Dia”, outra com Ana e das mais belas e engenhosas melodias do disco, com sua estrutura dissonante e complexas divisões.

Em época de Abertura Política, mas de manutenção da repressão, Danilo ousa e encaminha o final do álbum com mais um tema bastante provocativo: “Vivo ou Morto”. Dele e de João Carlos Pádua, não tem como não relacionar os versos deste baião tristonho às mortes de presos políticos promovidas nos Anos de Chumbo: “Debaixo das 9 pedras/ Ele vive muito bem/… Ele respira e fala pelas bocas do inferno/…Debaixo das 9 bocas/ Ele nem mesmo se cala/ Debaixo das 9 botas/ Ele dá voltas na sala”. Para encerrar mesmo, então, a sinestésica faixa-título, quinta dele com Ana entre as 10 faixas de todo o trabalho. E que bela canção! Com a atmosfera da música “ecológica” que Tom inauguraria no início dos anos 70, quando começou a se voltar às questões do Planeta, Danilo parecia antever sua entrada anos depois, em 1984, na Banda Nova, conjunto que passaria a acompanhar o Maestro Soberano até o final de sua vida.

Desde então, Danilo seguiria intercalando uma afirmada carreira solo com participações como instrumentista em trabalhos de outros, reuniões com a família no palco e gravações e shows na Banda Nova. Lançou 10 álbuns como front man, alcançando, em 1990, grande sucesso com “O Bem e o Mal”, tema da minissérie “Riacho Doce”, da Globo. No entanto, “Cheiro Verde” permanece um marco na sua obra não apenas por ser o primeiro ato de um músico que soube aproveitar seu gene privilegiado, mas pela qualidade indiscutível que guarda até hoje. Tanto é que, lançado independentemente em 1977, teve, em 2002, sua tiragem licenciada na Inglaterra, tornando-se cult entre os jovens na Europa. Somente no ano passado, teve relançamento no Brasil para a alegria dos fãs e apreciadores. Pelo visto, esse aroma inconfundível e encantador não se dissipou mesmo tantos anos depois.

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FAIXAS:
1. “Mineiro” (Danilo Caymmi/ Ronaldo Bastos) - 3:25
2. “Pé Sem Cabeça” (Caymmi/ Ana Terra) - 2:45
3. “Codajás” (Caymmi/ Bastos) - 3:05
4. “Juliana” (Caymmi/ Terra) - 2:44
5. “Aperta Outro” (Caymmi/ Terra) - 2:54
6. “Racha Cartola” (Caymmi/ João Carlos Pádua) - 2:55
7. “Botina” (Caymmi/ Nelson Angelo) - 2:37
8. “Lua Do Meio-Dia” (Caymmi/ Terra) - 2:16
9. “Vivo Ou Morto” (Caymmi/ Pádua) - 3:07
10. “Cheiro Verde” (Caymmi/ Terra) - 4:15




Cyndi Lauper - "She's So Unusual" (1983)



"Uma mistura de auto-confiança,
sentimentalismo descarado
e humor inteligente"
Stephen Thomas Earlewine,
da Allmusic sobre 
"She's So Unusual"





Se me perguntassem, lá naquele início de anos 80, entre as cantoras pop que estavam em evidência, Madonna ou Cyndi Lauper, qual seria minha preferida, eu, não teria dúvida em escolher a segunda. Se preferia Cyndi naquele momento, mesmo sem muito discernimento naqueles meus 9 ou 10 anos de idade, hoje com critério o suficiente (eu acho...) consigo avaliar os porquês. Madonna já estourava em sucesso, é verdade, com seu primeiro álbum já prenunciando seu reinado no mundo pop, no entanto, aquilo me soava um popzinho frágil, artificial e pueril. Musiquinhas como "Everybody", "Borderline", "Burning Up", "Crazy For You" não me despertavam, e não despertam até hoje, nenhum entusiasmo, nenhum brilho nos olhos. Eram cançõezinhas bobas que qualquer outra daquelas, qualquer cantora medíocre metida a gatinha apelando pra lingeries e sensualidade gratuita podia fazer.
No mesmo ano, 1983, "rivalizava" com ela nas paradas uma outra norte-americana. Uma magricela de voz estridente e cabelo extravagante que apesar do igual sucesso comercial naquele momento, parecia ter seu lugar irremediavelmente reservado à margem da outra.
"She's So Unusual", álbum de estreia de Cyndi Lauper era muito melhor do que o debut de Madonna com o disco que levava seu nome. Mais bem trabalhado, bem acabado e coeso, o trabalho de Cyndi alcançava um resultado mais consistente, isso sem falar no talento vocal nem sempre devidamente reconhecido da cantora, muito superior ao da Material Girl.
"Money Changes Everything", cover dos The Brains, uma banda americana pouco conhecida, é um pop vigoroso que ganha uma atmosfera meio escocesa por conta de um agradável solo de melódica; "Time After Time", que possivelmente tenha inspirado a canção "Como Eu Quero" do Kid Abelha é uma balada graciosa, delicada e apaixonante; e "When You Were Mine" é uma boa versão da música do primeiro álbum de Prince. "Witness" é interessante pela pegada reggae; "She Bop", uma new wave embalada, com seu refrão malicioso e picante (sugerindo masturbação), parece reeditar as velhas chamadas rock'n roll ("Be bop--be bop--a--lu--she bop/ Oo--oo--she--do--she bop--she bop); e a encantadora "All Through The Night" tem interpretação marcante da cantora e um trabalho de estúdio impecável dos produtores lhe garantindo um status de qualidade superior.
Mas o ponto fulgurante do disco não poderia ser outro que não o megahit "Girls Just Wanna Have Fun", canção vibrante e descontraída conduzida por uma base eletrônica repetida que, se prestar-se bastante atenção, lembra a "locomotiva" de "Trans-Europe Express" do Kraftwerk. A música, aparentemente boba e juvenil, é quase um manifesto bem-humorado pela liberdade de escolha das mulheres, o que a torna extremamente relevante nos dias atuais com a presente reconscientização feminina e levante em busca de condições igualitárias. "Sim, eu sou mulher e só quero me divertir. E daí?", este era o recado.
O tempo viria a mostrar que a aparente "apelação" de Madonna era na verdade um inteligente e necessária provocação tão valorosa quanto uma "Girls Just Wanna Have Fun", e que, apesar de seu talento vocal inferior a Cyndi, é uma artista mais completa. Hoje gosto muito mais de Madonna. Da obra de Madonna, da influencia de Madonna, do comportamento de Madonna. Talvez a dimensão do que Madonna se tornou, e mais uma legião de madonnetes que vieram na cola dela exibindo seus decotes e lingeries e cantando refrões sussurrados tenha abafado as Cyndis por aí afora. Mas o fato é que Cyndi Lauper prosseguiu sua carreira com competência e qualidade, reapareceu na metade dos anos 90 com uma coletânea que trazia uma releitura de "Girls Just Wanna Have Fun", mas nunca igualou o sucesso de seu ótimo disco de estreia de 1983 quando, sim, Cyndi Lauper era melhor que Madonna.
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FAIXAS:
1. Money Changes Everything (5:02)
2. Girls Just Want To Have Fun (3:55)
3. When You Were Mine (5:07)
4. Time After Time3:59

5. She Bop (3:43)
6. All Through The Night (4:29)
7. Witness (3:38)
8. I'll Kiss You (4:05)
9. He's So Unusual (0:45)
10. Yeah Yeah (3:17)




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