Alec Benjamin provou nos últimos anos que o instrumentalismo da música pop não morreu. Com uma voz incrível e uma presença de palco impecável, Alec Benjamin sempre sabe como conquistar os corações dos fãs adolescentes, que não param de cantar em seus shows e apresentações. Além de cantar, Alec também é um ótimo guitarrista, tendo feito covers de inúmeras músicas, incluindo "Stan", do Eminem.
Em um de seus shows, Benjamin tocou violão durante a maior parte do show, mas os fãs ficaram surpresos ao descobrir que ele também tocava piano. Nesse ponto, ficou claro para muitos que Alec Benjamin era um rapaz muito talentoso. Ele é capaz de transmitir emoções cruas, mesmo com a pequena chance de mostrar seu talento no teclado, algo que a maioria dos artistas pop modernos não consegue. O rapaz de 27 anos, natural de Phoenix, Arizona, acumulou mais de 880 milhões de streams no Spotify e seu hit, "Let Me Down Slowly", alcançou o top 40 nas paradas de mais de 20 países.
Sua desavença com a gravadora Columbia Records é bem conhecida, após o término da parceria com a gravadora duas semanas após o lançamento de seu álbum. Alec Benjamin fez uma turnê autofinanciada após a desavença e promoveu sua música tocando em estacionamentos e distribuindo cartões de visita. Sua mixtape de 2019, Narrated For You, alcançou a posição #127 na Billboard 200 dos EUA, enquanto seu álbum de estreia, These Two Windows, alcançou a posição #75 na mesma parada.
Alec Benjamin cita Eminem , Chris Martin, do Cold Play, e Jason Mraz como algumas de suas maiores influências e, embora ainda tenha um longo caminho a percorrer para alcançar o sucesso, ele demonstrou um potencial enorme. Aqui estão as dez melhores músicas de Alec Benjamin de todos os tempos.
10. Mind Is a Prison
A décima música da nossa lista traz Alec Benjamin cantando sobre pensamentos que ficam presos em sua cabeça e dos quais é impossível escapar. A música mostra o quão talentoso contador de histórias Alec Benjamin é, em uma canção cuja história pode nos ajudar a escapar da desesperança para o otimismo duradouro em nossas vidas.
9. Oh My God
Alec Benjamin lançou esta música em 13 de fevereiro de 2020. Nesta canção reflexiva, Alec Benjamin pensa em como as coisas poderiam ser se ele se tornasse famoso demais e se esquecesse de quem ele era e de onde realmente veio. A música faz parte do seu álbum de estreia, These Two Windows.
8. Gotta Be a Reason
A oitava música da nossa lista das dez melhores músicas de Alec Benjamin o apresenta narrando a história de um veterano do exército traumatizado pela morte de um amigo durante uma guerra, e a história de uma atriz fracassada que se tornou garçonete para ganhar a vida. Em ambas as histórias, os personagens acabam aceitando as coisas como elas são e, portanto, conseguem lidar bem com suas vidas.
7. If I Killed Someone For You
Você já se apaixonou tanto por alguém que mataria por ela? Nesta música, Alec Benjamin expressa seu profundo amor por sua amada, a ponto de fazer qualquer coisa para manter as coisas boas com o amor de sua vida.
6. Jesus In La
Esta música tem um vídeo simbólico que apresenta Alec Benjamin caminhando por uma noite no Angelino cercado por muitas pessoas, mas ainda se sentindo sozinho. Nesta música autobiográfica, Alec Benjamin usa metáforas para contar a história de como foi a Los Angeles na esperança de encontrar algo que não viu.
5. Water Fountain
A quinta música da nossa contagem regressiva das dez melhores músicas de Alec Benjamin o mostra falando sobre uma garota por quem ele tinha uma queda. Como o título sugere, eles se conheceram em um bebedouro. Infelizmente, ele descobre mais tarde que a garota está com outro rapaz. Alec, então, vai ao bebedouro novamente e deseja que a garota estivesse lá com ele.
4. If We Have Each Other
“If We Have Each Other” é a primeira música da primeira mixtape de Alec Benjamin, Narrated For You. A música era uma dedicatória à sua irmã, com Alec esperando que estar em um ambiente adequado os ajudasse a lidar com a situação. Ao final de cada verso, Alec conclui lembrando que estar presente um para o outro é essencial para superar as adversidades.
3. Outrunning Karma
O álbum de 2018 de Alec Benjamin, Narrated For You, foi um sucesso, e uma das músicas mais marcantes do álbum é "Outrunning Karma". Com mais de 13 milhões de visualizações só no YouTube, essa música é uma das favoritas dos fãs. A letra é sombria e os vocais de Alec Benjamin tornam a música uma ótima audição. Se você quer transformar qualquer amante da música em fã de Alec Benjamin, recomendo começar com esta.
2. Boy In the Bubble
A segunda música da nossa lista das melhores músicas de Alec Benjamin contém um dos videoclipes mais influentes que você já viu. Assim como a letra da música, o videoclipe também fala sobre solidão e a agressividade que ela traz. A música também tem um refrão cativante que Alec Benjamin escreveu intencionalmente para compartilhar suas experiências de bullying.
1. Let Me Down Slowly
"Let Me Down Slowly" é indiscutivelmente a música mais popular de Alec Benjamin. A canção foi chamada de "sucesso vulnerável" pela Billboard e foi escrita após uma experiência com sua namorada em 2017. A canção alcançou a posição #79 na Billboard Hot 100 dos EUA e foi seu primeiro hit na parada.
Durante anos este era dado como o mais improvável dos reencontros. Na verdade um fim nunca tinha sido sequer enunciado. Depois da edição de “Visitors” seguiram-se novas sessões em estúdio das quais chegaram a surgir dois novos singles em 1982 (“The Day Before You Came” e “Under Attack”), ambos reunidos num ‘bem of’ que então celebrou dez anos de atividade. Na verdade não se esgotaram nessas quatro novas canções (havia os lados B “Cassandra” e “You Owe Me One”) o lote de temas registados nessas sessões que tiveram lugar nesse mesmo ano. E em 1993, no alinhamento de “More Abba Gold”, surgiu a canção “I Am The City” vinda deste mesmo tempo… Mas na verdade, depois do lançamento desses singles e álbum, havia em volta dos quatro elementos dos Abba uma agenda mais pessoal do que pensada em grupo. Frida tinha acabado de editar um álbum produzido por Phil Collins. Agnetha preparava um primeiro álbum em inglês (que surgiria em 1983). E a dupla Benny e Björn trabalhava no seu primeiro musical, “Chess”. Mas o que aconteceu então ninguém esperava. E o que parecia ser uma escapada pontual (como sucedeu com os Duran Duran em 1985) acabou por se prolongar por anos a fio, sem que nunca houvesse a comunicação de uma separação.
O tempo foi passando. Ao mesmo tempo que nascia um EP de versões dos Erasure a banda de tributo Björn Again ganhava algum mediatismo (vimo-los na Expo 98), a compilação “Abba Gold” gerou um fenómeno de reencontro com as canções dos Abba. Em 1999 estreava o musical “Mamma Mia”, que criava uma narrativa a partir de canções de vários álbuns e singles do grupo sueco. Em 2004 fizeram discretos cameos num vídeo (protagonizado por marionetas) que celebra os 30 anos da vitória de “Waterloo” na Eurovisão. Todos estes episódios sublinhavam a resiliência do legado dos Abba… E eis senão quando começam a surgir rumores de algo novo. Primeiro falava-se de um especial para televisão… Depois sobre a eventualidade de uma ou duas novas canções para esse mesmo evento… Na verdade o projecto evoluiu para um modelo inovador de espetáculo e, além das duas canções inéditas, o grupo acabou mesmo por criar um novo álbum (“Voyage”, editado em 2021), surgindo em Londres, em maio de 2020, “Abba Voyage” que acaba de assinalar três anos de vida com casa sempre cheia.
Este é de facto um espetáculo único e desconcertante. Único pelo ineditismo tecnológico envolvido. Desconcertante porque cria de facto a ilusão de estarmos a ver, em palco… os Abba. Ao invés de espetáculos holográficos já antes criados para figuras que já não estão entre nós (como Maria Callas), esta proposta contou com o envolvimento de facto dos quatro elementos dos Abba que foram submetidos a sessões de digitalização dos seus movimentos, criando um volume de informação que permitiu a criação de entidades digitais (os tais “abbatars”) que assim se movem com um sentido inesperado de “realismo”. Para acolher os “abbatars” foi construída uma sala que, igualmente munida de dispositivos tecnológicos, permite não apenas criar a “ilusão” da presença em cena dos quatro músicos mas a própria ideia de experiência (literalmente) imersiva, já que tanto o teto da sala como três das paredes recorrem a dispositivos de luz e geração de imagens que alargam o show para lá da ideia mais tradicional de palco. A tudo isto junta-se a construção de um alinhamento que prevê pontuais momentos de comunicação com a plateia, um acoplamento de canções que doseia velhos clássicos, alguns temas menos óbvios e duas das “novas” canções. E com o bónus, ocasional, e nunca comunicado, da eventual presença de um ou outro dos quatro Abba de quando em vez na própria sala, como espectadores, tal como sucedeu esta semana, quando Benny e Anni-Frid ali estiveram para celebrar o terceiro aniversário de “Abba Voyage”.
Vi recentemente o espetáculo. E, não soubesse eu da história, quase teria caído na ilusão de ter visto ali os Abba… Com o seu look de finais dos anos 70, é certo. E acompanhados de facto por uma banda que toca ao vivo. Mas a criação da experiência é tal que embarcamos numa ideia de reencontro… Será isto o principio de uma nova era na história do espetáculo? Talvez. Mas creio que só com um artista com capacidade de gerar um público que encha salas meses a fio se pode, para já, desenhar um conceito que de barato nada tem. No fundo, o volume do investimento e a adesão popular atestam a longevidade de uma obra de facto com rara dimensão de alcance na história da cultura popular.
Vale a pena sublinhar que o espetáculo foi criado com os próprios Abba… Já um show “digital” de um Mozart ou um Louis Armstrong, isto para não falar num Elvis ou num qualquer outro ícone da cultura pop, levantaria todo um debate ético que aqui não se coloca. Porque “Abba Voyage” nasce de uma ideia do próprio artista, criada por e com os quatro músicos. Mas sim… essa outra frente de possibilidades pode gerar uma discussão que vale a pena encarar quanto antes.
O arquivo de Elis Regina vai dar-nos surpresas por ocasião da passagem dos 80 anos sobre o nascimento deu uma das maiores vozes da música brasileira. E a primeira surpresa chegou na forma de uma versão, com novos arranjos, de “Para Lennon e McCartney”, canção de Milton Nascimento que o músico que os amigos tratam como Bituca desde pequeno editou no seu álbum de 1970. Esta nova versão surgiu recentemente nas plataformas de streaming num lançamento pela Trama e partiu de uma gravação de 1976, que foi restaurada com equipamento de inteligência artificial e à qual foram acrescentadas novas partes instrumentais gravadas por João Marcello Bôscoli (teclas e percussão), Daniel de Paula (bateria), Robinho Tavares (baixo), Conrado Goys (guitarra) e Marcelo Maita (piano e teclados analógicos). Nenhum dos instrumentos usados é de construção recente, procurando uma proximidade com os que existiriam por alturas da gravação original de Elis Regina, alguns deles tendo de facto sido usados nesse registo de arquivo.
João Bôscoli, filho da cantora e um dos fundadores da Trama, comentou que este “lançamento da Elis, sob o selo Trama” corresponde ao “primeiro de vários outros que virão” mais adiante, acrescentando que estão “imersos no processo de remasterização” de todo acervo da etiqueta e que “a ideia é disponibilizar tudo gradualmente”. Sobre a quantidade de material diz que “é imensa, tanto em áudio quanto em vídeo”, advertindo que “a execução desse trabalho requer muito cuidado e precisão” e observa ainda: “cada vez que reviramos o baú, surgem mais e mais pérola”.
Esta não correspondeu à primeira incursão desta nova fase da editora Trama pelo arquivo de Elis Regina, já que em 2023 uma outra canção, neste caso “Como Nossos Pais”, também de 1976, conheceu nova versão, desta vez surgindo em dueto agora criado em estúdio com a filha Maria Rita e que foi então usado num filme publicitário. A nova versão de “Para Lennon e McCartney” correspondeu ao single de avanço de “Elis Para Sempre”, álbum que recupera essa e outras mais gravações de 1976.
O assinalar dos 80 anos do nascimento de Elis Regina inclui tributos em Porto Alegre (onde nasceu) ou no Rio de Janeiro e envolve ainda um concerto dia 28 em São Paulo, com Ivan Lins, João Bosco e Fagner. Também em São Paulo o MIS – Museu da Imagem e do Som, que tem neste momento patente uma exposição sobre Ney Matogrosso, apresentará no segundo semestre de 2025 uma outra dedicada a Elis Regina. A biografia de Julio Maria, “Elis Regina — Nada Será Como Antes” (originalmente lançada em 2015 pela Companhia das Letras) vai ter já este mês uma nova edição revista e atualizada que inclui elementos do caderno de notas no qual a cantora registou factos e pensamentos nos seus últimos dias. Entre as novidades estão ainda os documentários “Elis por Ela Mesma”, de Hugo Prata, que explora as entrevistas da cantora e um outro, “Elis e Eu”, pelo filho João Marcelo Bôscoli, baseado no seu livro “Elis e Eu – 11 Anos, 6 Meses e 19 Dias com a Minha Mãe”. Um filme de ficção irá entretanto recriar a criação do mítico “Elis e Tom”, o álbum de 1974 gravado em Los Angeles ao lado de Tom Jobim. Neste filme caberá a Bianca Comparato recriar a figura de Elis Regina. Em 2006 a atriz tinha vá vestido a pele de Elis Regina (nos dias de juventude) num episódio de “Por Toda Minha Vida”, na TV Globo.
Os 80 anos de Elis Regina são também evocados no mais recente episódio do Gira Discos. Além de uma viagens por canções de Elis Regina, numa seleção que vai de memórias da estreia em “Viva a Brotolândia” de 1961 até à nova versão de “Para Lennon e McCartney”, o episódio junta ainda memórias de autores que ela mesa cantou como Edu Lobo, Gilberto Gil ou Milton Nascimento, incluindo ainda uma incursão pelo mítico “Abbey Road” dos Beatles ao lado deste último.
Ney Matogrosso é a figura em destaque na nova exposição do MIS – Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. “Ney Matogrosso” inaugura esta sexta, dia 21, e propõe “um percurso cronológico pela obra do artista, passando por cada década de sua atuação na frente dos palcos – desde a estreia como vocalista do grupo “Secos & Molhados”, até seu mais recente álbum “Nu com minha música”, o primeiro concebido separadamente de um show”, como se lê no site do museu. Esta exposição junta ainda alguns elementos da cenografia criados para o filme “Homem com H”, biopic sobre o músico assinado por Esmir Filho, com estreia prevista para maio.
Fotos: Lucas Mello / MIS
O percurso expositivo apresenta-se dividido em seis núcleos juntando figurinos, adereços usados em palco, capas de discos, fotografias, pósteres ou documentos. “Ney Matogrosso” tem curadoria de André Sturm, diretor-geral do MIS e inclui textos assinados pelo jornalista Julio Maria, o autor de “Ney Matogrosso – a biografia” (Companhia das Letras em 2021).
Esta nova proposta sucede a um mergulho “imersivo” sobre a obra do cineasta norte-americano Billy Wilder, na qual víamos recriado o célebre “Apartamento” (no Brasil estreou como “Se Meu Apartamento Falasse”) ou o balcão do café de “Irma La Douce” ou o vestido esvoaçante de Marilyn Monroe em “O Pecado Mora Ao Lado”, numa sucessão de salas que nos lembravam momentos, histórias e ambientes de “ Crepúsculo dos Deuses” ou “Starlag 17” (“Inferno número 17” no Brasil ou “O inferno na terra” em Portugal) e, claro, o instante em que se escuta “I Wanna Loved By You” em “Quanto Mais Quente Melhor”.
Exposição “Billy Wilder” no MIS
Uma das exposições de maior sucesso na história do MIS – Museu da Imagem e do Som evocou uma outra figura da história da música popular brasileira: Rita Lee.
Depois de normalizada a vida política e de criada uma cultura jovem no Portugal de inícios dos anos 80, o passo seguinte para muitos foi o que procurou aprofundar o gosto pela busca de novos desafios, estimulando a criatividade para além dos limites normativos. Da música à moda, a Lisboa de então acolheu novos vultos e ideias. Diferentes entre os diferentes os Pop Dell’Arte surgiram em inícios de 1985 com o (mítico) Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous na mira dos seus primeiros objetivos, acabando então brindados com o Prémio de Originalidade. Eram os primeiros passos de uma carreira fundamental na definição de uma cultura alternativa na música portuguesa. Mas tudo começou num estúdio em Campo de Ourique uns meses antes.
A 11 de fevereiro de 1985, entraram no estúdio Musicorde, em Campo de Ourique, para, sob o olhar atento de Rui Remígio, registar uma primeira maquete. Tinham dinheiro para duas horas de estúdio, mas ficaram ali perto de quatro e, como ainda hoje recorda o próprio João Peste (na sua página no Facebook), o estúdio não lhes terá cobrado mais do que duas horas e meia, obrigando mesmo assim o vocalista a uma corrida breve até casa dos pais para ir buscar mais uns escudos. Ali nasceram “Turin Welisa Strada”, “Eastern Streets”, “Bladin” e “Sonhos Pop” e, assim, um primeiro retrato gravado de uma nova ideia pop em construção. Eram então no estúdio João Peste, Zé Pedro Moura, Paulo Salgado, Ondina Pires, Sapo e Luís Saraiva. E assim, há 40 anos, davam esse primeiro passo, já com o Concurso de Música Moderna na linha do horizonte.
Concorreram. Não ganharam, mas saíram de lá com o Prémio de Originalidade. Troféu justo, brindando logo à nascença uma banda que desde então traçou um percurso único, sem comparação a mais nenhuma banda deste e do outro lado das fronteiras.
O ponto de partida para a música dos Pop Dell’Arte foi, definido pela ordem instrumental e pelo universo em que se afirmaram, o espaço que genericamente se descreve como o pop/rock alternativo. Mas desde cedo outros estímulos e influências – da literatura e artes plásticas à própria música – incentivaram a procura de outros caminhos. Heranças de visões de Braque e Picasso sobre a colagem (em inícios do século XX), a ideia do ready made de Duchamp e a pop art de Warhol foram apenas alguns entre os muitos dados que o grupo levou às suas composições, imagens e concertos. Assim se definiram temas icónicos como “Sonhos Pop” ou “Illogic Plastik”, esse álbum de estreia absolutamente visionário que foi “Free Pop” (editado em 1987) e, toda uma restante discografia que, muito espaçada no tempo, inclui ainda os álbuns “Ready Made” (1992), “Sex Symbol” (1995), “Contra Mundum” (2010) e “Transgressio Global” (2020), além de vários máxis e EPs e duas antologias.
Passo determinante na afirmação não apenas da personalidade dos Pop Dell’Arte mas de um espaço próprio no panorama da música portuguesa de meados dos oitentas, numa altura em que uma nova cultura alternativa emergia, foi o surgimento da editora independente Ama Romanta, que assegurou o lançamento dos primeiros títulos da obra do grupo, a eles juntando outros que ajudaram a dar forma a uma geração que procurava, de uma genética comum, partir rumo a horizontes desconhecidos, fugindo a sete pés de mimetismos ou seguidismos. Ser ousado, ser diferente era a norma. E juntamente com nomes seus contemporâneos como os Mler Ife Dada ou Mão Morta, os Pop Dell’Arte fizeram a diferença.
A obra dos Pop Dell’Arte passou por várias etapas, cada qual atenta a novos estímulos e surgindo em contextos distintos. Mas sempre não alinhada. Houve assimilações da cultura rave nos anos 90. Houve uma breve passagem por uma multinacional (a Universal, onde editaram um álbum em 1995). Houve problemas pessoais e pausas. Mas sempre que regressam revelam uma rara capacidade em juntar novas gerações que deles tinham ouvido falar aos velhos admiradores que nunca os abandonaram.
Há alguns anos, numa entrevista para o DN, João Peste dizia-me que sabia que o projeto da Ama Romanta estava condenado à partida, porque começavam “com uma situação em défice”. Essa consciência fez com que ali nunca procurassem o negócio, o lucro. Mantiveram assim intacta a atitude e, como ele mesmo descreveu, uma certa “pureza de intenções”. O álbum de estreia dos Velvet Underground, por exemplo, foi um fracasso nas vendas em 1967. É verdade que deixaram mais evidente descendência. Mas, como os Pop Dell’Arte, cruzaram universos e aproximaram a noção de arte ao espaço da cultura pop/rock.
Com João Peste agora e sempre como a sua voz e mais visível rosto, os Pop Dell’Arte são hoje, além dele, Paulo Monteiro (guitarras), Zé Pedro Moura (baixo), e Ricardo Martins (bateria).
Como complemento a esta memória, fica aqui parte de uma entrevista que fiz com o João Peste (JP) e o José Pedro Moura (JPM) em 2005, quando se assinalavam os 20 anos de vida dos Pop Dell’Arte. Não será demais sublinhar que esta é uma entrevista de arquivo e que as perguntas e respostas datam de 2005.
Em 1985, quando os Pop Dell’Arte apareceram, o meio pop/rock português era efervescente… JPM – E hoje, apesar de haver mais facilidade ou mais meios para fazer as coisas, não há mais coisas a acontecer. Parece que as pessoas estão mais desmobilizadas.
E o que mobilizava então as pessoas? JPM – Primeiro éramos putos, havia aquilo de fazer as coisas pela primeira vez, aquela descoberta contínua. Bem, mas agora também há putos, e as coisas não acontecem da mesma maneira. Depois havia o Rock Rendez Vous, um espaço onde se apresentavam bandas, que hoje não há. Havia as rádios independentes, e isto hoje, em termos de rádio, é um descalabro. JP – Pelo facto do Rock Rendez Vous ter acabado nos anos 90 houve tentativas de fazer espaços que tivessem novamente uma certa atitude. O que mais se chegou a aproximar foi o Ritz Clube. Mas tinha uma série de condicionalismos. Se tivesse sido apoiado, o Ritz Clube teria sido o novo Rock Rendez Vous, não interessa se no Rego ou na Praça da Alegria. Mas tinha sido prometido um apoio da Câmara, que depois falhou. Os Pop Dell’Arte chegaram a tocar no Ritz Clube com intenção de ajudar a recolher fundos e criar uma situação em que o espaço pudesse surgir como um novo Rock Rendez Vous que faz tanta falta à sociedade portuguesa. E a coisa ficou em águas de bacalhau por causa da actual Câmara de Lisboa. Bastava o cachet de uma super-banda que toque numa noite das Festas da Cidade, e isso pagava as obras para que Lisboa tivesse um espaço para corresponder ao que o Rock Rendez Vous foi.
Não havia no Portugal de 80 uma vontade em criar, pela primeira vez, uma cultura alternativa entre nós? JP – Uma cultura alternativa que não acontece só na música. Nessa altura começam a aparecer os primeiros fanzines, os primeiros realizadores de certo tipo de cinema, e até mesmo na vida nocturna, no Bairro Alto, ou mesmo a ideia de moda, que até então quase não existia em Portugal. Foi o safanão que o país teve de dar depois de 48 anos de ditadura. JPM – Que aconteceu também em Espanha, mas eles agarraram a coisa de outra maneira. Cá, não… JP – As coisas não são tão comparáveis assim, porque há grandes diferenças entre os dois países, mas é verdade que a Espanha conseguiu construir uma identidade nova, pós-moderna ou como lhe quiserem chamar. E nós ainda estamos a fazer os projectos.
Na altura, os Pop Dell’Arte, como tantos outros projectos, estabeleciam pontes entre a cultura musical alternativa e outras formas artísticas. Uma confluência de gostos e curiosidades? JP – Quando penso nisso tudo não deixo de achar que sou um falhado. Os objectivos que tínhamos não conseguiram vencer. Eu sabia que o projecto Ama Romanta estava condenado à partida, porque começávamos logo com uma situação de défice. Não estávamos também à procura de lucro… E isso também levou a que se mantivesse a atitude. Como não havia a ilusão de que podíamos dar a volta e ganhar dinheiro com isto, isso fez com que se mantivesse uma certa pureza de intenções. E hoje estamos a deixar a fase industrial para uma informacional, e a própria expressão indústria musical deixará de fazer sentido.
A reflexão sobre a sociedade, as culturas e a afirmação sexual são os três pilares temáticos da obra dos Pop Dell’Arte? João Peste – Chamava-lhe mais, talvez, libertação sexual… Essa é uma arrumação possível, sim. Faz sentido, mas não o tinha pensado assim. As coisas foram acontecendo. Se me perguntassem quais seriam as preocupações temáticas dos Pop Dell’Arte diria que também a resistência, a transformação. E sempre houve, de facto, uma carga forte relativamente à identidade e à orientação sexual, que tem a ver com o próprio contexto. Em Portugal as coisas continuam a ser tabu, e houve até situações ridículas de censura sobre coisas que fizemos, desde a capa do “Illogik Plastik” a letras… Situações que considero incompreensíveis.
A obra musical dos Pop Dell’Arte é muito versátil, mas há duas ideias que a marcam: a colagem (antes mesmo do conceito de samplagem vulgarizado) e o ready made . Conceitos introduzidos na música portuguesa pelos Pop Dell’Arte?… JP – Não tinha pensado nisso assim… Há um cheirinho ou outro de colagem no “Hardcore” dos GNR. Em relação ao ready made , não.
De onde veio a ideia de importar o conceito de colagem, habitualmente mais ligada à imagem (artes plásticas, cinema, fotografia) ou letras, para a música? JP – A responsabilidade, aí, até cabe bastante a mim. Eu não era músico. Não tinha formação musical como o Zé Pedro ou o Luís San Payo. Por isso não foi uma estratégia, quase uma consequência. Quando me juntei às pessoas de Campo de Ourique queria participar nas bandas que se estavam a formar, e não sabia muito bem a fazer o quê. Não tinha formação nem um instrumento com o qual me identificasse. Se tivesse de optar por algum seriam as teclas, porque nunca me identifiquei muito com os instrumentos de cordas. São pesados e desconfortáveis (risos)… Mas achei sempre que poderia fazer música. Aliás, isso é uma consequência ideológica do punk rock. Depois, nos anos 80, embora directamente não pareça ligado a esta ideia, o conceito que os Einstuerzende Neubaten marcaram, mais conceptualmente que em termos de influência de sonoridade. Obviamente que havia uma tradição de arte moderna em relação à colagem, que apareceu em 1912 com o Braque e o Picasso. O conceito depois foi desenvolvido pelos futuristas, pelos dadas, pela pop art. Os Pop Dell’Arte tinham por referência esses movimentos artísticos, porque éramos um projecto arty , pelo menos da minha parte. Isto porque não me propunha a entrar no meio musical por ter determinados dotes musicais, mas pelas ideias que poderia ir buscar a outras áreas. Tinha frequentado o conservatório a estudar teatro, estava em sociologia, tinha determinadas ligações às artes plásticas e à literatura. E apesar desse lado arty , os Pop Dell’Arte nunca se assumiram como um projecto elitista, de alta cultura, mas sim um projecto pop. E, dentro da música, ligado ao rock. Posteriormente, houve a revolução na música de dança e isso também foi incontornável.
De resto, nada mais que uma evolução natural da cultura pop… JP – Certas formas de expressão no final dos anos 80 e no princípio dos anos 90, a tecno , as raves e as novas drogas foram, no fundo, uma apropriação do espírito do rock’n’roll pela música de dança. José Pedro Moura – E o papel da música de dança é, em finais de 80, muito parecido ao do punk e new wave.
Foi a consciência de que houve um movimento cultural e social que se manifestou na música nos anos 80 que levou, nos 90, uma multinacional com a Polygram a assinar os Pop Dell’Arte? JPM – Eu acho até estranho como é que o não fizeram mais cedo… JP – E porque não continuaram?… Mas isso só quem estava lá é que o poderá explicar. Mas por pouco que o “Sex Symbol” tivesse vendido, e não foi tão pouco porque teve várias edições e está esgotado, não me parece que os números sirvam para justificar. Há coisas que não vendem e têm segundo ou terceiro disco. Se eles pusessem fora quem não venda sempre ao primeiro disco…
Mas porque se passou o que se passou? JP – Compreendo que as bandas que existem no underground a determinado momento, quando sobrevivem acabam por assinar por multinacionais mais tarde ou mais cedo. A história está cheia de casos, e alguns até se mantêm a fazer coisas muito radicais. E até servem para as multinacionais justificarem que mantêm uma actividade artística. Mas o contexto português é muito diferente… E a coisa não aconteceu só connosco, mas também com os Mão Morta. JPM – E aí tanto na BMG como na NorteSul. JP – E não sei se os Mler Ife Dada tivessem sobrevivido o que lhes teria acontecido. Até porque as pessoas que estavam ligadas aos Mler Ife Dada, como a Anabela Duarte, o Pedro D’Orey e o Nuno Rebelo, que é o melhor músico da nossa geração, estão hoje em independentes. Este cenário é comum à troika das bandas ligadas ao Rock Rendez Vous de 1984 a 86, ou seja, nós, Mão Morta e músicos dos Mler Ife Dada.
Os problemas entre a PolyGram e a banda afectaram a atividade dos Pop Dell’Arte na segunda metade dos anos 90? JP – Houve ali um período de crise da minha parte. Uma crise pessoal que teve essas repercussões.
O EP “So Goodnight” , quando apareceu em 2002, foi pensado como um cartão de visita para uma nova etapa? JP – O “So Goodnight” foi, como então o disse, um EPA. Está tudo dito! (risos). Não era um cartão de apresentação de nada. Havia dois temas, o “Mrs Tyler” e o “So Goodnight” que estávamos a tocar e de que as pessoas gostavam. E não havia condições para fazer um álbum novo. E não nos parecia fechar esses temas na gaveta e esperar não sei quantos anos para que acontecesse alguma coisa. A realidade é esta: os Pop Dell’Arte não gravaram um disco novo porque não há dinheiro para os Pop Dell’Arte gravarem um disco novo! Não é haver falta de canções… Obviamente podíamos ir para a cozinha gravar o disco, ou para a garagem. Mas depois de termos trabalhado em determinadas condições… É que quando gravámos o “Querelle” e o “Free Pop” começámos logo nos estúdios Valentim de Carvalho. E mesmo quando gravámos a primeira maquete e o “Divergências” fizemo-lo nos estúdios da Musicorde em Campo de Ourique, com o Rui Remígio.
Há uma bitola de exigências mínimas nos Pop Dell’Arte? JP – Não quer dizer que não poderíamos fazer um disco noutras condições, mas habituámo-nos assim. Não gravámos nestes últimos anos porque, quando os Pop Dell’Arte deixam de se editar a si próprios como banda, deixam de ter alguém que se interesse por si. E isto sem fazer a conversa do desgraçadinho. Mas o facto é que, à excepção da Polygram nos ter assinado a dada altura, houve sempre um virar das costas da indústria aos Pop Dell’Arte.
E como está o livro de memórias de que se já falou no passado? JP – Adiado!… Como ainda tenho um sonho ou dois, dá sempre para ir adiando… Por um lado fui adiando porque uma pessoa constrói essas coisas a partir de um epicentro, e algum tempo depois a visão dessas mesmas coisas é bastante diferente. Se o tivesse feito corresponderia à visão daquela altura em que o comecei a fazer. Agora já tenho que pensar as narrativas de outra forma. Quando surgiu essa ideia, há dez anos, escrevinhei algumas coisas. Mas muito aconteceu depois disso… Mas pode fazer mais sentido uma história dos Pop Dell’Arte.
Uma das últimas aparições dos Pop Dell’ Arte (antes do regresso em 2005 e da compilação “PopPlastik”), foi no concerto Avariações, uma homenagem a António Variações… João Peste – Eu senti-me muito desconfortável a cantar as coisas do António Variações. Sinto-me piroso, no entanto aquilo, na voz dele, não é piroso. Era o génio dele, além de fazer aquelas brincadeiras como a Maria Albertina … É preciso uma capacidade interpretativa para dar a volta àquilo. Gosto do trabalho dos Humanos, mas tiveram de ser pessoas muito bem escolhidas para cantar aquilo… Às vezes também me falam em fazer um disco de homenagem aos Pop Dell’Arte e é-me estranho imaginar como é que soaria… No espectáculo acabámos por fazer uma homenagem ao António Variações, mas sem respeitar a intenção que era a de fazer uma versão. Se calhar foi melhor assim, porque não ficámos com o peso na consciência de ter estragado um tema dele.
Por onde tinham andado os Pop Dell’ Arte? JP – Os Pop Dell’Arte tinham andado recolhidos. Depois da saída do Luís San Payo e do concerto em Londres com o Nuno dos More República Masónica, os Pop Dell’Arte retiraram-se de cena. Mantivemo-nos como um núcleo a ensaiar, eu, o Paulo Monteiro, o Zé Pedro Moura e por vezes também o Tiago Miranda. Tirando o espectáculo do António Variações estávamos desactivados. Ensaiávamos não para um concerto ou fazer um disco, mas só para não perder o jeito. Depois surgiu o convite da organização das Festas da Cidade para tocarmos no Fórum Lisboa. Entretanto apareceu um grupo de fãs a propor fazer um site dos Pop Dell’Arte. E tudo coincidiu com o vigésimo aniversário do grupo. Resolvemos, sem grandes compromissos, assumir o espectáculo para comemorar os 20 anos, mas sem grandes perspectivas para fazer grandes coisas a partir daí.
Esta efervescência social que vivemos não é matéria-prima ideal para uma banda que sempre esteve atenta ao seu tempo, aos fenómenos da sociedade e das artes? JP – É irónico, porque nós aparecemos, quando fizemos o “Mai 86”, com uma certa visão. Mas só os tolos é que não mudam de opinião. Havia um certo niilismo e desencantamento, que tinha a ver com os anos 80, nas letras e na postura que se assumiu, que passados 20 anos não consigo manter. Olho para as coisas e vejo-as de um modo diferente, não sei se pessimista será a expressão ideal. O pessimimo ter-nos-ia levado a cruzar os braços. E acho que não foi isso que fizemos nem como Pop Dell’Arte nem como músicos ou pessoas. Criámos a Ama Romanta, tentámos fazer o máximo de coisas, e creio que neste momento, e vou dizer uma coisa horrível, seríamos um bom exemplo a seguir. Sobre essa perspectiva ideológica, já que noutras não seríamos nada um bom exemplo a seguir… Assumo o que disse! E digo que seríamos um bom exemplo, porque na época em que estivemos, no período em que aparecemos, não aceitámos as coisas como estavam e quisemos mudar. Inclusivamente, contribuímos para a mudança. As pessoas quando tomam atitudes mudam sempre qualquer coisa, mesmo que depois se vá parar à gaveta ou ao caixote do lixo (que se calhar é o destino de todos, embora não o queriamos aceitar facilmente). Neste momento creio que era importante as bandas e as pessoas mais novas reverem-se em certo tipo de atitude e maneira de estar, obviamente tendo como pano de fundo uma realidade diferente.
A sementeira de editoras independentes, como Ama Romanta ou a Dansa do Som, teve frutos? José Pedro Moura – Há uma Borland, essas coisas. Mas são coisas muito pequenas. Se calhar é um mercado que interessa às grandes que não se desenvolva. Mas passados 20 anos a situação continua na mesma, senão pior. João Peste – Estamos num contexto de “make it or break it”… Nesta primeira década do século XXI é extremamente importante as pessoas fazerem coisas, virarem-se umas para as outras e entrarem em interacção. Estamos a viver num período histórico de mudança. No início dos anos 80 estávamos a levar com um contexto ainda de fim de guerra fria, embora o que é hoje a União Europeia já germinasse desde há muitos anos…
Juntando aí o contexto peculiar do Portugal político, social e cultural do pós-25 de Abril… JP – Era um contexto muito específico, sim. Mas era mais fácil encontrar uma continuidade nas coisas do que hoje, onde tudo parece descontínuo. Às vezes parece ficção-científica. Neste momento é importante as pessoas marcarem posições, tomarem atitudes. Porque, mais que nunca, o futuro depende de nós. Se soubermos utilizar a tecnologia ela pode-nos permitir uma série de coisas. As pessoas podem-se libertar sexualmente, ideologicamente, podem-se ultrapassar barreiras que antes eram intransponíveis na comunicação. Nos anos 80 denunciei aquilo a que chamava ditaduras culturais, que hoje não deixam de fazer sentido, embora possa estar nas nossas mãos que possam, mais que nunca, ser derrotadas. A proposta da Ama Romanta era a de as derrotar, ou pelo menos fazer resistência. A resistência, às vezes, já é uma derrota dessas ditaduras. Por vezes os projectos não existem para tomar o poder, mas para existir e resistir. A Ama Romanta e os Pop Dell’Arte, nesse aspecto, foram uma pièce de resistence. O tal exemplo… JPM – E quando há uma administração mais reaccionária e conservadora, como a administração Bush, geralmente acontecem as coisas mais interessantes na música e outros tipos de expressão. Desde 2001 aconteceu um montão de coisas interessantes nos EUA, principalmente em Nova Iorque.
Surgiu em 1964, de voz límpida e jovem, ao som de “As Tears Go By”, canção assinada por Mick Jagger e Keith Richrads que os próprios Rolling Stones gravariam depois. A sua voz mudou com o tempo, traduzindo marcas de dias difíceis vividos em finais dos anos 60 e a década de 70. E surgiu reinventada perto da viragem para os 80, abrindo uma nova etapa que a devolveu aos focais das atenções e fez associar, disco após disco, a alguns dos grandes autores de canções das novas gerações com quem se foi cruzando. Deixou-nos ontem, aos 78 anos.
Tudo começou na Londres de sessenta, quando, apesar de uma relação inicial com o teatro vinda ainda da escola, foi a música que a levou aos circuitos da folk que, por sua vez, lhe abriu as portas a uma festa onde conheceu Andrew Loog Oldham, manager dos Rolling Stones. Estreou-se em disco em 1964 arrebatando logo um episódio de sucesso com “As Tears Go By”, seguindo-se um primeiro álbum logo um ano depois. E, de um relacionamento com Mick Jagger que desponta pouco depois nasce um dos casais mais badalados da swinging London, inspirando canções dos Rolling Stones (como “Wild Horses” ou “You Can’t Always Get What You Want”), chegando também aos jornais por histórias de excessos. As dependências de drogas acabaram por interferir com a evolução de uma carreira que à música tinha entretanto juntado trabalhos no cinema. Com uma vida pessoal à beira do abismo perdeu a custódia do filho, passou por uma tentativa de suicídio e durante algum tempo viveu como sem abrigo nas ruas de Londres.
Depois de um álbum de travo country grandemente ignorado (salvo na Irlanda), chegou ao final da década de 70 com a voz transformada pelas marcas dos dias difíceis entretanto vividos e também por uma séria laringite. É então que renasce criativamente com o álbum “Broken English” que a coloca em sintonia com sonoridades emergentes, seguindo-se uma sucessão de lançamentos que a reposicionam no panorama pop/rock, com nova solidez e reconhecimento, colhendo novos elogios em 1987 em “Strange Weather”, disco que cria em parceria com Hal Wilner.
Na década de 90, além de lançar uma autobiografia (“Faithfull”, 1994) na qual pretendeu registar as respostas todas as questões que lhe quisessem lançar sobre o seu percurso de vida (sobretudo nos anos 60 e 70), Marianne Faithfull colaborou com Angelo Badalamenti num dos mais belos títulos da sua discografia (“A Secret Life”, 1995) e gravou música de Kurt Weill com textos de Brecht (aqui estabelecendo uma ponte com memórias familiares, já que a sua mãe, que era sobrinha-neta de Leopold Ritter von Sacher-Masoch, o autor de “A Vénus das Peles”, tinha sido bailarina da companhia de Max Reinhardt que havia apresentado várias produções da autoria dessa dupla histórica). Já no século XXI a obra de Marianne Faithfull conheceu episódios de parceria com grandes vultos das cenas pop/rock e indie de então. Beck, Jarvis Cocker, PJ Harvey, Nick Cave, Damon Albarn ou Anna Calvi estão entre a lista de parceiros criativos com quem trabalhou em discos marcantes como “Kissin Time” (2001), “Before The Poison” (2004) ou “Give My Love to London” (2014). “Negative Capability”, de 2018, o seu último álbum de canções, envolveu figuras como Mark Lanegan, Ed Harcourt ou Nick Cabe e teve Warren Ellis entre a equipa de produção. Ele mesmo repartiu com Marianne Faithfull os créditos de “She Walks in Beauty” (2021), disco de poesia que assinalou o derradeiro episódio na sua discografia.
Do seu percurso nos palcos e ecrãs foram inúmeros os momentos de grande destaque. No cinema, depois de um papel magistral em “Intimidade” (2001) de Patrice Chereau, de ter vestido a pele de Maria Teresa de Áustria na “Maria Antonieta” (2006) de Sofia Coppola ou sido a protagonista de “Irina Palm” (2007) de Sam Garbarski, ouvimo-la mais recentemente como voz de uma anciã Bene Gesserit, no “Duna” de Dennis Villeneuve. O teatro acolheu-a pela última vez numa produção de “The Black Rider” no Barbican (Londres) em 2004.
O rock brasileiro vive uma ótima fase já há alguns anos. A quantidade de boas bandas em diferentes pontos do país anima e impressiona. Basta tirar a preguiça do ouvido, pesquisar um pouco e se divertir com as mais variadas abordagens sonoras.
Os sergipanos do The Baggios estão entre as minhas preferidas. Formada em 2004 na cidade de São Cristóvão, o duo que conta com o o vocalista/guitarrista Julio Andrade e o baterista Gabriel Carvalho possui uma sonoridade que parte do rock e vai ao encontro, simultaneamente, do blues e de sonoridades regionais, formando um painel musical original e cativante.
Com três discos na bagagem - The Baggios (2011), o ótimo Sina (2013) e o recém-lançado Brutown (2016), além do ao vivo 10 Anos Depois (2015) -, o The Baggios mostra em seu novo disco uma maturidade onipresente e uma profundidade sonora maior. A participação do baixista e tecladista Rafael Ramos tem muito a ver com isso, fazendo com que a banda possa dar alguns passos além das limitações geradas pela relação guitarra e bateria, abrindo novos horizontes e tornando reais caminhos sonoros até então impossíveis de serem trilhados. Uma evolução natural e que já foi vivida por formações similares como o Black Keys, por exemplo, que assim como o Baggios partiu da crueza do blues rock para a variedade maior de seus trabalhos mais recentes.
Brutown traz doze faixas e foi produzido por Felipe Rodarte e pela própria banda. Gravado no estúdio Toca do Bandido, no Rio de Janeiro, o álbum traz diversas participações especiais: Emmily Barreto (do Far From Alaska) canta em “Estigma”, Jorge Du Peixe (Nação Zumbi) em “Saruê”, Fernando Catatau (Cidadão Instigado) toca guitarra em “Soledad”, Felipe Ventura (Baleia) coloca o seu violino em “Soledad" e “Miquim" e a dupla dos Autoramas, Gabriel Thomaz e Erika Martins, faz backing vocal em “Desapracatado”. A bela capa foi criada por Neilton Carvalho, guitarrista do Devotos do Ódio.
Outro ponto que merece menção é a abordagem social e política presente em várias músicas. A violência dos grandes centros urbanos é cantado em “Estigma" e na faixa-título, enquanto a tragédia de Mariana (MG) e o massacre do Bataclan (Paris) são retratados na linda “Sangue e Lama”.
As canções do disco impressionam o ouvido. Esbanjando maturidade, o The Baggios entrega um tracklist cheio de ótimas músicas, onde é até mesmo difícil encontrar destaques individuais. As já citadas “Estigma" e “Brutown" chutam o balde logo no início, com metais comendo soltos na primeira e uma longa introdução levando ao bater de cabeça na segunda. “Sangue e Lama” é um blues dono de uma beleza inebriante, enquanto o violino e o arranjo criado por Felipe Ventura são a cereja do bolo na linda “Miquin”. “Medo" vem com um solo de teclado na parte central que é uma delícia, enquanto o groove dá o tom na sacolejante “Vivo Pra Mim”.
Brutown é o melhor disco do The Baggios. E isso é um feito e tanto por um motivo bem simples: os álbuns anteriores já eram muito bons. Temos aqui uma banda que sabe o que quer, com ideias originais e claras que levam a sua música por caminhos cheios de personalidade.
Sem dúvida, um dos grandes discos lançados no Brasil este ano. Até agora, o grande álbum de rock disponibilizado por uma banda brasileira neste 2016.
Em 1968, o Fleetwood Mac surgiu como uma das mais perfeitas expressões do blues inglês. Uma banda jovem, capitaneada pelo vocalista e guitarrista Peter Green, com uma sonoridade refrescante. Uma porta de entrada perfeita para os jovens brancos ingleses se apaixonarem pelo blues nascido nas fazendas de algodão norte-americanas, onde os negros trabalhavam sem parar, dia sim, outro também.
No entanto, Green permaneceu na banda por apenas três discos, saindo em 1971. O Fleetwood Mac passou um par de anos meio sem rumo, até incluir em sua formação, durante o ano de 1974, o guitarrista e vocalista Lindsey Buckingham e a cantora Stevie Nicks. Com a nova formação, o som também mudou, culminando em um soft rock cativante e que ganhou o mundo com o best seller Rumours (1977), disco que vendeu mais de 20 milhões de cópias somente nos Estados Unidos.
Foram dois períodos distintos, com sonoridades bastante diferentes entre si, criadas e desenvolvidas pela mesma banda. Ambas as eras da carreira do Fleetwood Mac são excelentes, e possuem fãs próprios. Uns preferem o período blues, outros a fase pop - e alguns ainda apreciam os dois momentos.
Corta para 2011. Após construir uma longa carreira como um dos nomes mais criativos do metal extremo, a banda sueca Opeth chocou os fãs ao lançar o seu décimo disco, Heritage. O álbum deixava de lado os vocais guturais típicos do death metal e apostava em uma sonoridade vintage, enormemente influenciada pelo rock progressivo da década de 1970. Saíam o guitarrista Peter Lindgren, o tecladista Per Wiberg e o baterista Martin Lopez, fundamentais na primeira fase da banda, e chegava uma nova trinca de instrumentistas para fazer companhia ao vocalista Mikael Akerfeldt e o baixista Martín Mendez: Fredrik Akesson (guitarra), Joakim Svalberg (teclado) e Martin Axenrot (bateria).
No lugar do death metal original e inovador da primeira fase - e que, é preciso ficar claro, sempre apresentou influências progressivas -, emergia uma nova sonoridade, totalmente distinta. Menos peso, mais nuances. Menos pancadaria, mais detalhes. Nada de guturais, tudo com vocais limpos. O choque foi enorme.
É preciso entender que o fã de metal, em sua maioria, possui um ouvido bastante conservador. Ele admite, é claro, inovações, mas desde que dentro do ambiente que conhece: o peso, os riffs, a violência sonora. Ao abrir mão disso, toda banda se vê diante de um desafio. E a resistência dos ouvintes é facilmente entendível. O ser humano, e não apenas aquele que ouve heavy metal, é naturalmente resistente à mudança. É difícil para nós, homens e mulheres, abrir mão do que conhecemos, daquilo que torna o nosso ambiente e o nosso cotidiano concreto, amigável e reconhecível. Caminhar por ambientes desconhecidos é sempre desafiador. Porém, é justamente ao entrar em contato com algo novo que aprendemos, experimentamos novas abordagens e conceitos e, consequentemente, nos desenvolvemos.
O paralelo entre as trajetórias do Fleetwood Mac e do Opeth é interessante pois são situações similares. Exemplos de bandas que tiveram não apenas coragem, mas, sobretudo, talento e criatividade para se reinventarem de maneira radical, trilhando caminhos sonoros inesperados com o mesmo brilhantismo que já haviam apresentado antes.
Se Heritage chocou, Pale Communion (2014) trouxe um pouco mais de peso para a mistura, em um resultado que manteve o nível do álbum que rompeu com o passado da banda. Já Sorceress, terceiro capítulo da história desse novo Opeth, surge como o mais sólido e consistente trabalho da segunda fase da banda. Conseguindo um equilíbrio maior entre as influências progressivas e o peso que, afinal, faz parte do seu DNA, a banda sueca gravou um disco que pode ser definido como uma espécie de "stoner prog". A aura pesada é predominante e divide espaço com o sempre presente requinte instrumental, com as decisões criativas dos arranjos e com a bem-vinda variação instrumental, capaz de entregar canções mais agressivas para logo em seguida exibir toda delicadeza instrumental da banda em trechos belíssimos.
Lançado no dia 30 de setembro pela Nuclear Blast, Sorceress foi gravado no Rockfield Studios, no País de Gales. A magia e o clima da milenar região britânica parecem ter inspirado consideravelmente o grupo, que entregou um dos melhores trabalhos de sua longa, e variada, carreira.
Sorceress consegue apresentar referências tanto de álbuns anteriores como Ghost Reveries (2005) e Blackwater Park (2001) quanto explorar as inspirações que ganharam destaque nessa nova fase da carreira dos suecos. O resultado é um disco com uma musicalidade diversa, refletida em excelentes canções que, como convém à tradição da banda, nunca apresentam medo de experimentar. Há influência de ícones da música pesada, notavelmente os primeiros anos do Black Sabbath e do Deep Purple, assim como as faixas acústicas remetem ao clima agradável do terceiro álbum do Led Zeppelin. No meio disso tudo, a veia progressiva surge forte trazendo ecos de King Crimson, Gentle Giant e do Genesis da fase Peter Gabriel. Tudo embalado com um trabalho de composição excepcional. O resultado final é um disco brilhante, e que em certos aspectos parece fruto da união entre Watershed (2008) e Heritage (2011).
A conclusão disso tudo leva a fatos bastante claros: alguns irão seguir preferindo a fase death metal do Opeth, enquanto outros se apaixonarão de vez pelo novo momento do grupo. Mas é impossível negar que o que ouvimos em Sorceress é algo excepcional, de uma qualidade incrível e que solidifica de vez a escolha do Opeth pelo desenvolvimento de uma nova sonoridade.
Acima de rótulos, períodos ou preferências pessoais, Sorceress é um ótimo disco, que recompensa o ouvinte com inúmeros detalhes e gratificantes canções. E, acima de tudo, é o registro mais bem resolvido e consistente desta nova cara mostrada pelos suecos.