terça-feira, 5 de agosto de 2025

SLIPKNOT: Tudo o que se sabe sobre a reedição de 25.º aniversário do icónico «Slipknot»

 

25 anos depois, tudo sobre a nova vida do álbum que transformou os SLIPKNOT num fenómeno global.

Na sequência de um falso arranque que deixou muitos fãs furiosos, os SLIPKNOT vão comemorar os 25 anos do seu histórico álbum de estreia para a Roadrunner Records com uma reedição de luxo intitulada «Slipknot (25th Anniversary Edition)», com lançamento marcado para o dia 5 de Setembro de 2025. O disco que, em 1999, redefiniu o panorama do metal para uma nova geração, regressa agora com uma série de conteúdos inéditos que prometem oferecer uma perspectiva profunda sobre o processo criativo da banda na época em que passou de uma promessa obscura do Iowa a uma das forças mais influentes da música pesada contemporânea.

Entre os múltiplos formatos anunciados para esta edição comemorativa — incluindo versões em 2CD, 2LP e digital — destaca-se a box set com seis LPs em vinil salpicado de sangue, limitado a umas míseras 1899 unidades. Ainda mais exclusivo foi o lançamento de 100 cópias em vinil preenchido com sangue real, a tal disponibilizada directamente aos fãs através do site secreto 742617000027.net, que acabou por colapsar em segundos devido à enorme procura. Por tudo isso, estas edições de coleccionador prometem tornar-se relíquias quase mitológicas entre os seguidores mais devotos do grupo.

O conteúdo desta reedição vai muito além do álbum original, produzido por Ross Robinson, incluindo demos nunca antes divulgadas, versões alternativas e misturas de estúdio inéditas gravadas em locais lendários como o SR Audio e o Indigo Ranch, bem como “test mixes” por engenheiros alternativos. Este vasto arquivo sonoro não só documenta o percurso e as decisões que moldaram a sonoridade abrasiva e singular dos SLIPKNOT, como oferece uma visão clara do nascimento de um dos álbuns mais icónicos da história do metal moderno.

Como amostra do que está por vir, a banda disponibilizou uma versão demo inédita daq «Prosthetics», registada ainda antes das sessões em estúdio com Ross Robinson. Esta versão primitiva, mais crua e instintiva, revela o potencial bruto do grupo e antecipa a intensidade que viria a marcar o álbum editado.

A edição comemorativa incluirá ainda gravações ao vivo de dois concertos históricos: um em Hartford, no Connecticut, em 1999, representando a energia explosiva da banda em clubes pequenos durante aqueles primeiros meses de digressão, e outro no Reino Unido, já em 2000, onde se percebe a transição da banda para grandes palcos com multidões colossais. Ambos os concertos foram remasterizados a partir das fitas digitais da mesa de som, escolhidas pelos próprios membros dos SLIPKNOT como sendo testemunhos fidedignos da intensidade caótica e apaixonada dos seus primeiros anos.

Lançado originalmente no dia 29 de Junho de 1999, «Slipknot» conquistou rapidamente os fãs e a crítica especializada, marcando o início de uma revolução no metal que rejeitava convenções e explorava novas estéticas, tanto visuais como sonoras. Com riffs violentos, produção esmagadora e uma atenção pouco comum (e muito minuciosa) à composição, o disco transformou-se numa referência obrigatória — hoje certificado como dupla platina.

Jim Root, guitarrista da banda, recorda: “Adorámos o que fizemos com o primeiro disco, mas nem sabíamos se haveria algo depois disso para nós. Só queríamos que as pessoas o ouvissem. Esgotar discos e concertos, fazer digressões de sucesso — isso são objectivos de qualquer banda. No entanto, de certa forma, o cenário de sonho concretizou-se para nós.”

Desde então, o percurso de SLIPKNOT tem sido marcado por uma ascensão meteórica. A banda de Des Moines colecciona hoje mais de 30 milhões de discos vendidos, 14 certificações de platina, 40 de ouro, 64 nomeações para prémios e 27 vitórias, incluindo um Grammy Award por «Before I Forget» do também já clássico «Vol. 3: (The Subliminal Verses)». Com digressões extensivas, actuações como cabeças-de-cartaz nos maiores festivais do mundo — do Download ao Rock In Rio, passando pelo Wacken e pelo Hellfest —, e milhares de concertos arrebatadores, os SLIPKNOT cimentaram o seu estatuto como um dos nomes mais relevantes do metal do século XXI.

Outro marco fundamental na trajetória do grupo foi a criação do Knotfest, festival itinerante fundado em 2012. A iniciativa evoluiu para um verdadeiro império multimédia com o portal Knotfest.com, que se tornou uma plataforma incontornável para novos artistas, vozes dissidentes e entusiastas do metal e da cultura alternativa. Agora, com este lançamento, os SLIPKNOT voltam a desafiar as fronteiras entre o culto e o mainstream, entre a violência sonora e a sofisticação conceptual — exactamente como fizeram em 1999.

LP 1: «Slipknot»
O seminal álbum de estreia dos SLIPKNOT para a Roadrunner Records.

Side 1
01. 742617000027 | 02. (Sic) | 03. Eyeless | 04. Wait And Bleed | 05. Surfacing | 06. Spit It Out | 07. Tattered And Torn | 08. Me Inside

Side 2
01. Liberate | 02. Prosthetics | 03. No Life | 04. Diluted | 05. Only One | 06. Scissors

LP 2 & 3: «Indigo Ranch Mixes»
Em 1999, a banda reuniu-se no Indigo Ranch, em Malibu, para gravar o seu primeiro álbum de estreia. Estas misturas iniciais mostram a energia bruta e a vibração caótica antes das misturas finais de Ross Robinson.

Side 1
01. (Sic) | 02. Eyeless | 03. Surfacing | 04. Tattered And Torn

Side 2
01. Only One | 02. Liberate | 03. Suck These Nuts (Get This) | 04. Killing Leslie

Side 3
01. Me Inside | 02. Wait And Bleed | 03. No Life | 04. Interloper (Diluted)

Side 4
01. Spit It Out | 02. Eeyore | 03. Scissors

LP 4: «Demos And Alternate Mixes»
Estas são as demos originais gravadas antes dos SLIPKNOT entrarem no Indigo Ranch com Ross Robinson. Inclui também as misturas de Jay Baumgardner e Ulrich Wild; a banda e a editora queriam fazer misturas de teste antes de finalizarem o álbum e contactaram outros dois misturados de renome para verem o que fariam com as misturas.

Side 1
01. Wait And Bleed (Demo) | 02. Snap (Demo) | 03. Interloper (Demo) | 04. Despise (Demo) | 05. Only One (Demo) | 06. Me Inside (Demo) | 07. Prosthetics (Demo)

Side 2
01. Surfacing (Jay Baumgardner Mix) | 02. Only One (Jay Baumgardner Mix) | 03. No Life (Jay Baumgardner Mix) | 04. (Sic) (Ulrich Wild Mix) | 05. Purity | 06. Eeyore

LP 5 & 6: «Live»
Meses após a edição do álbum de estreia, os SLIPKNOT fizeram-se à estrada e estas gravações ao vivo mostram a ascensão atmosférica da banda, da actuação como cabeças de cartaz no lendário Webster Theater, em Hartford, Connecticut, com capacidade para 1.200 pessoas, em Setembro de 1999, até aos primeiros concertos para grandes multidões no Reino Unido e no Iowa, no final de 2000.

Side 1
01. Wait And Bleed (Live In Hartford 1999) | 02. Surfacing (Live In Hartford 1999) | 03. Purity (Live In Hartford 1999) | 04. Spit It Out (Live In Hartford 1999) | 05. Eeyore (Live In Hartford 1999)

Side 2
01. (Sic) (Live In The UK 2000) | 02. Eyeless (Live In The UK 2000) | 03. No Life (Live In The UK 2000) | 04. Eeyore (Live In The UK 2000) | 05. Liberate (Live In The UK 2000)

Side 3
01. Purity (Live In The UK 2000) | 02. Prosthetics (Live In The UK 2000) | 03. Spit It Out (Live In The UK 2000) | 04. Wait And Bleed (Live In The UK 2000) | 05. Get This (Live In The UK 2000)

Side 4

01. Surfacing (Live In The UK 2000)
02. Me Inside (Live In The UK 2000)
03. Scissors (Live In Iowa 2000)

TOMBS regressam com o novo álbum «Feral Darkness»,

 

O primeiro tema de avanço para «Feral Darkness», que chega em Outubro, mostra os TOMBS a aprofundarem a sua estética sombria com camadas de introspecção e densidade atmosférica.

Os nova-iorquinos TOMBS preparam-se para lançar aquele que será, muito provavelmente, o seu LP mais expansivo e denso até à data. «Feral Darkness», o novo álbum, chega a 17 de Outubro através da editora Redefining Darkness Records, marcando assim um novo capítulo na já longa jornada do colectivo liderado por Mike Hill.

Descrito como uma nova incursão pelas profundezas do seu universo sonoro sombrio, «Feral Darkness» é também o primeiro registo dos TOMBS com o selo Redefining Darkness, e surge acompanhado de um avanço revelador: o tema-título, já disponível para escuta em baixo, aponta claramente para aquilo que só podemos descrever como uma ampliação do espectro emocional e estilístico da banda. Mantendo intacta a agressividade de base black metal, o tema introduz com naturalidade elementos de death rock, pós-punk minimalista e uma sensibilidade melódica que reforça o lado mais introspectivo do projecto.

“No «Feral Darkness» estamos a ir mais fundo no abismo, adicionando mais camadas de expressão em que temos vindo a trabalhar ao longo da última década”, afirma Mike Hill, mentor e único membro fundador dos TOMBS ainda no activo. “Este novo álbum é o mais próximo que estivemos até hoje de concretizar a nossa viagem pelos aspectos mais escuros do cosmos, com uma boa dose de introspecção pessoal.”

Composto por dez faixas que se estendem por pouco mais de cinquenta minutos, «Feral Darkness» promete uma experiência sonora densa e carregada de emoção. Entre os destaques apontados estão temas como «Glass Eyes/Ghoul»«Granite Sky» e o épico «Nightland», que conta com a participação especial de Sera Timms (dos BLACK MAREBLACK MATH HORSEMENIDES OF GEMINI), cujo registo voz acrescenta um aspecto ainda mais etéreo e inquietante ao ambiente já denso da faixa.

Gravado e misturado por Justin Spaeth, o disco foi posteriormente masterizado por Andreas Rosczyk e conta com arte da capa assinada pelo artista visual Seldon Hunt, conhecido pelas suas colaborações com bandas como NEUROSISISIS e SUNN O)))«Feral Darkness» está já disponível para pré-encomenda no Bandcamp e na loja oficial da Redefining Darkness Records. Para os fãs de metal experimental que orbitam entre a violência controlada do black metal, a melancolia do pós-punk e os contornos mais esotéricos do death rock, o novo álbum dos TOMBS pode bem ser um dos lançamentos mais aguardados do Outono de 2025.

01. Glass Eyes/Ghoul | 02. Feral Darkness | 03. Granite Sky | 04. The Sun Sets | 05. Last Days | 06. The Wintering | 07. Black Shapes | 08. Nightland | 09. Wasps | 10. Glaeken


Joe Henderson - “Inner Urge” (1964)

 

“Uma das marcas da estatura constantemente crescente de Joe Henderson é que ele não pode ser categorizado de maneira ordenada. Por um lado, está entre os jovens exploradores de novas formas de expandir as linguagens do jazz. Por outro lado, ele pode ser igualmente convincente como um blues groover e como um mestre personalizador de baladas na tradição vintage dos tenores do jazz ultratonal. Este álbum ilustra ainda mais o alcance e a profundidade de Henderson.”
Nat Hantoff, do texto da contracapa original de “Inner Urge”

“Na hora marcada, as necessidades tornam-se maduras. É a hora em que o Espírito Criativo (que também se pode designar como Espírito Abstrato) encontra um caminho para a alma, depois para outras almas, e provoca um anseio, um desejo interior.”
Wassily Kandinsky, de “Sobre o problema da forma", 1912

Todo amante de jazz tem motivos para reverenciar o ano de 1964. Assim como o igualmente rico 1959, em que pelo menos dois discos revolucionários para o gênero foram concebidos – “Kind of Blue”, de Miles Davis, e “The Shape of Jazz to Come”, de Ornette Coleman - o quarto ano da década de 1960, em que a abismal leva de grandes músicos surgidos no pós-Guerra encontrava-se em plena forma, impressiona pela quantidade de obras da mais fina estampa. De Wayne Shorter a Albert Ayler, de Lee Morgan a Sun Ra, vários dos “feras” do jazz deixaram sua marca em 1964. Quem também o fez com igual competência e qualidade foi Joe Henderson. A obra em questão é “Inner Urge”, em que o saxofonista tenor norte-americano está acompanhado de um estelar time: Bob Cranshaw, baixo, Elvin Jones, bateria, e McCoy Tyner, piano. Praticamente, o trio que acompanhava John Coltrane havia anos (afora Cranshaw, que tinha no lugar Jimmy Garrison) e que, poucos meses dali, gravaria com este o talvez maior feito não somente daquele fatídico ano, mas de toda a história do jazz: “A Love Supreme”.

Quarto disco de Henderson tanto como band leader quanto pela Blue Note, sua primeira gravadora e que o havia contratado um ano antes, carrega, como o título diz, o sincero “desejo interior” de um jovem artista em plena atividade. Em menos de dois anos, o produtivo Henderson estava com sangue nos olhos, visto que já tinha emendado outros três álbuns, sendo um deles o memorável “In ‘Out”, daquele mesmo milagroso 1964. Motivos havia, contudo, para que estivesse com todo esse gás. Embora fosse recente a carreira solo, sua trilha na música já vinha de pelo menos 15 anos antes. Dono de um estilo que oscila entre o austero e o onírico com a mesma naturalidade que seu sax salta de escala, Henderson sempre foi um “cabeção”. Estudou flauta, baixo e saxofone na Wayne State University e, mais tarde, composição no Kentucky State College, não raro destacando-se pela criatividade e aplicação, Dotado da rara habilidade de “ouvido absoluto”, era capaz de emular com perfeição seus mestres Charlie ParkerDexter Gordon e Yusef Lateef só ao escutá-los. Nem a passagem pelo exército norte-americano, entre 1960 e 1962, foi capaz de freá-lo, visto que não parou com a música neste tempo e até ganhou prêmios tocando para os colegas soldados. Ao sair das forças armadas, sua arma passou a ser seu instrumento e o território a conquistar seria o centro nervoso do jazz, Nova York, para onde se mudou imediatamente após a baixa. 

As experiências vividas e a sensibilidade musical de Henderson lhe legaram uma visão artística  naturalmente abrangente, que o condicionaram a transitar do classicismo do be-bop à ousadia da avant-garde ou à complexidade harmônica da bossa nova num passo. Em “Inner”, esta ânsia de um “espírito abstrato”, como classificou o artista visual russo Wassily Kandinsky, referência da arte abstrata, está cristalina na multiplicidade e no ecletismo dos números musicais que o compõem. A perfeita engenharia sonora de Rudy Van Gelder e a produção invariavelmente caprichada de Alfred Lion estendem o tapete para a entrada da impecável faixa-título, melodiosa e instigante. São 12 minutos de passeio modal de uma turma acostumada com esse expediente desde que Miles e Dave Bruback o cunharam poucos anos antes. A alta química entre os integrantes da banda propiciam a Henderson o exercício de seus aforismos sonoros com liberdade. Enquanto Tyner dedilha notas líricas e dissonantes, Cranshaw espalha os tons graves com sabedoria e Jones... bem, Jones arrasa do início ao fim na combinação caixa/pratos e, em especial, no magnífico solo que executa quase ao final, quando não deixa o ouvinte respirar. 

“Isotope”, na sequência, mantém o clima suspenso, porém agora num hard-bop colorido, suingado, que contrasta com o abstratismo da faixa inicial. Decréscimo nenhum, contudo. Espelhando-se na elegância de Dex Gordon, Henderson volta às raízes bop. Em seguida, um novo tema e uma nova guinada. As influências hispânicas, que tanto agradavam os jazzistas desde os anos 50 (a se ver pelo “Jazz Flamenco”, de Lionel Hampton, ou “Sketches of Spain”, de Miles) dominam a excelente “El Barrio”. Traços, no entanto, desenhados com os pincéis abstratos do autor, que a impregna de estilo e personalidade. A começar pelos acordes iniciais, quando as notas graves do sax de Henderson emanam caracteres típicos das terras madrilenhas. Jones, atinado, articula um compasso sincopado, enquanto o piano de Tyner e o baixo de Cranshaw insinuam movimentos airosos. Lá pelas tantas, de tão absorvido, Henderson, ao lançar um forte solfejo, chega a afastar-se do microfone, diminuindo a captação do som, o que sabiamente não foi “corrigido” por Van Gelder. Afinal, como no flamenco, é assim que “El Barrio” tinha que soar: orgânica. Tema absolutamente sensual e acachapante. 

Não é exagero dizer que “You Know I Care”, versão para a canção de Duke Pearson, é das mais belas baladas do cancioneiro jazz – ao menos, do abastado ano de 1964 com certeza. Mudando totalmente de estilo – ou melhor, recorrendo a mais uma de suas facetas –, Henderson encarna o mais romântico dos jazzistas e faz ouvirem-se Coleman Hawkins, Lester Young, Gordon e... Joe Handerson também, é claro. Para um disco que, mesmo em apenas cinco faixas, não cansa de surpreender, não é de se estranhar que até o standart “Night and Day” venha igualmente cheio de originalidade. A leitura post-bop de Henderson e sua banda para o clássico de Cole Porter lhe dá um caráter sinuoso, que ora percorre os acordes-base com elegância, ora lhe acentua dissonâncias e modernidade modal. Uma reestruturação melódica que contribuiu para um olhar totalmente diferente deste popular song dos anos 30.

Por cinco anos, desde que entrara para a Blue Note, um ano antes de realizar “Inner”, até 1968, Joe Henderson apareceu em quase 30 álbuns do selo, sendo apenas cinco lançados sob o seu nome. Independentemente da assinatura, o que importava mesmo era espraiar a sua arte por tanto tempo restrita apenas aos conservatórios, aos palcos e até às trincheiras. Porém, de toda esta larga produção, “Inner” é o trabalho que melhor define sua alma exploratória e inquieta. Se "na hora marcada, as necessidades tornam-se maduras" aos "espíritos criativos", Henderson deu um jeito de não perdê-la. Por isso, por algum motivo mágico, 1964 parecia mobilizá-lo especialmente, assim como a outros de seus pares. Tanto é que, além deste e de “In ‘Out” – um lançado em abril e outro em novembro –, Henderson também integra os grupos de outros 10 projetos dentro daqueles 12 inesquecíveis meses, a maioria clássicos como ”Song for My Father", de Horace Silver, ou “The Sidewinder”, de Morgan. Pena que, tanto para Henderson quanto para todos os músicos e amantes do jazz, inexoravelmente 1º de janeiro de 1965 um dia chegou.


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FAIXAS:
1. “Inner Urge” - 12:00
2. “Isotope” - 9:10
3. “El Barrio” - 7:10
4. “You Know I Care” (Duke Pierson) - 7:15
5. “Night And Day” (Cole Porter) - 7:00
Todas as composições de autoria de Joe Henderson, exceto indicadas

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OUÇA O DISCO:




João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia - "Brasil" (1981)

 

Quatro capas de "Brasil", lançado por Warner, Philips,
Universal e em edição conjunta com 
o disco
imediatamente anterior de João, "Amoroso"

"Quando dizem que João é o grande mestre inventor da bossa nova, não é gratuita essa denominação. Ele, com essa capacidade aglutinadora de vários elementos musicais para uma direção especial, foi o grande inventor desse conjunto extraordinário". 
Gilberto Gil

"Todo e total respeito e reverência a essa entidade da música brasileira". 
Maria Bethânia

"A bossa nova tem sido, de fato, para nós como para estrangeiros, o som do Brasil do descobrimento sonhado". 
Caetano Veloso

Definir um povo através da música nem sempre é uma tarefa fácil. Países como Portugal e seu fado ou a Argentina com o famoso tango talvez sejam afortunados por conseguirem essa identidade sonora, o que certamente lhes é favorecido pelas pequenas dimensões territoriais e a formação social uniforme – resultante, não raro, de alguma dose de tragédia. Porém, esse aspecto ganha complexidade quando o povo em questão é diverso e a jurisdição bem maior, tal como ocorre com os continentais Estados Unidos e Brasil. Assim como os norte-americanos tem tanto o jazz quanto o country, o rock ou o blues, o Brasil, obviamente, não é só samba. O Sul da milonga difere brutalmente do Nordeste do baião, do forró e do maracatu, igual ao carimbó do Norte ou o sertanejo do Centro-Sul. O que dizer então, quando se aprecia as peculiaridades culturais – e musicais, por consequência – entre os estados? A riqueza mestiça de Minas, o balanço leve da Bahia, a realeza malandra carioca, a dureza concreta de São Paulo...

O que abarcaria, então, um conceito minimamente consensual que representasse o ser brasileiro para dentro e para fora dos limites fronteiriços? A resposta talvez esteja justamente no gênero que efetivou esse protagonismo interna e externamente. O estilo que achou a "caixa de munição" ideal e sintética do Brasil: a bossa nova. João Gilberto, promotor da revolução ao inferir sua estética infalível de canto e instrumental (e espírito) às harmonias jobinianas já suficientemente revolucionárias, o ponto perfeito entre a tradição e o moderno, acreditava nesse poder simbólico da bossa nova. Depois do seu advento, com todos os seus protagonistas e personagens (TomVinicius de Moraes, Johnny Alf, Antônio Maria, Carlos Lyra, Dolores Duran, entre outros) o Brasil, em recente industrialização pois ainda fortemente rural e mero exportador de matéria-prima naquela metade de século XX, nunca mais foi o mesmo. Entrou, definitivamente, no mapa da produção intelectual mundial.

Além disso, João completava 50 naquele 1981. Era hora de celebrar a própria trajetória, bem como a do estado e do país que lhe fizeram artista. Isso ajuda a explicar porque João, sem pudores, chamou para gravar consigo os conterrâneos baianos e súditos Caetano VelosoGilberto Gil e Maria Bethânia um disco corajosamente chamado "Brasil". A "estação primeira do Brasil", aquela que o destino quis que recebesse o navio descobridor impregnado de Velho Mundo, juntava seus mais célebres porta-vozes para cantar-lhe, o Brasil, nos seus versos. 

O autor de “Bim Bom”, em sua inteligência e sensibilidade supremas, sabia muito bem o que queria com esse projeto, que completa 40 anos de lançamento em 2021. Tanto que é ele mesmo quem assume pela primeira vez na carreira de então mais de 30 anos e onze discos gravados a própria produção do álbum. E o faz com total domínio, nada tão complicado para alguém dotado de ouvido absoluto e atento aos dedos hábeis de craques das mesas de som com quem trabalhou, como Tommy LiPumma, Aloysio de Oliveira e Creed Taylor. O repertório, escolhido a dedo, igualmente, saiu de sua cabeça, que desde os anos 50 propusera uma releitura constante e modernizante (mas também arraigada nos matizes de um Brasil complexo e multicultural) da música através das notas dissonantes. Era samba-de-roda, era batuque de morro, era bloco de escola. Mas era também o choro, a modinha, a seresta, a valsa e uma pitada da jazz norte-americano para os gringos ficarem boquiabertos com tamanha musicalidade vinda dos trópicos.

Os manos Caê e Bethânia admiram o mestre João
ao vivo exibindo sua arte: momento único
Celebrações se inauguram ao som de hinos. Não poderia ser diferente, então, que o disco começasse com aquele que é considerado o segundo símbolo musical nacional, talvez mais conhecido que o próprio hino pátrio: “Aquarela do Brasil”. O clássico de Ary Barroso – então já imortalizado em gravações como as de Francisco Alves com a orquestra de Radamés Gnatali, em 1939, ou a de Elis Regina, de 30 anos depois – ganha uma versão revestida de personalidade e elegância e que vai ditar o conceito de toda a obra. Os primeiros acordes são emitidos da espinha dorsal: o violão, instrumento que João integrou à voz na sua revolução bossa-novista ao invés de dissociar um elemento do outro como até então havia sido em música popular. Porém, desta vez ele tem correligionários para acompanhá-lo em sua magia, pois é um uníssono emocionante o que se ouve. Os famosos versos ufanistas "Brasil, meu Brasil brasileiro/ Meu mulato inzoneiro/ Vou cantar-te nos meus versos" saem das vozes de João, Gil e Caetano juntas. Quanta história e simbologia unidas! Assim, impactante, como a delicada força das águas do mar, eles intercalam-se, cada um repetindo uma vez a letra sozinho para, num final triunfante, tornarem a unir os vocais, agora acompanhados da empolgante percussão comandada por Paulinho da Costa e os teclados e sintetizadores arranjados por Johnny Mandell. A sensação ao final da faixa é que podia até ficar somente nisso, de tão completo que é. Mas tem mais.

A fórmula é repetida com igual brilhantismo em “Bahia com H”, samba dos anos 40 escolhido por motivos óbvios, e, ainda mais bairrista. “Milagre”, a versão da fantasia praieira de Caymmi, artista largamente reverenciado por todos eles, é muito mais que uma faixa, mas um acontecimento único na história da música brasileira. O trato do violão e da voz de João à rica melodia e a perfeita harmonia da canção, estarrece. Gil, cujas guias de Logunedé, Jimi Hendrix e Luiz Gonzaga carrega sempre consigo no pescoço, elabora o canto com seu gingado gracioso. Já a voz de cristal de Caetano parece acariciar as notas, joão-gilbertiando o que há de bom.

A união de vozes do trio volta para interpretar uma deliciosa versão de Haroldo Barbosa para o standart “All of Me” num jazz rebatizado nas águas de Senhor do Bonfim. Arranjo, produção, timbrística, tudo impecável. E quando João percebeu ser necessário uma voz feminina? Chamou outra baiana, claro. Mas nada de recrutar alguma falsa delas, mas sim Bethânia, que faz dueto com ele e com os parceiros de Doces Bárbaros no brejeiro samba “No Tabuleiro da Baiana”, outra de Ary Barroso. Uma única participação da poderosa voz da Abelha-Rainha, mas marcante e significativa. Aliás, como em todo o disco – e a bossa nova em si –, mínimo é mais.

A faixa de encerramento, "Cordeiro de Nanã", é um comovente mas breve canto, quase uma vinheta, para a orixá da sabedoria, a que domina os trânsitos entre a vida e a morte. Impressionante como uma canção pode ser tão singela e penetrante: pouco menos de 1 minuto e meio de uma das coisas mais bonitas da música brasileira. E com ela se encerra este sucinto mas acachapante disco: com sons que parecem misturar-se com o ar, que parecem soprados pela natureza, que parecem emergidos das águas profundas da mais velha das Yabás. Sabedoria é o que define.

Ouvir “Brasil”, indepentemente da época, faz com que, pelo menos durante sua pouco menos de meia hora, acredite-se que este é o Brasil que deu certo, seja para dentro de seus domínios como para fora dele. Os germânicos legaram ao mundo a sintaxe da música clássica, os norte-americanos forjaram o arrojado jazz, mas não é nenhum exagero dizer que o mais sofisticado dos gêneros musicais modernos tem pele mestiça e se chama bossa nova. Internamente, faz-se ainda mais provável essa tese. Há Villa-Lobos, o chorinho e a tentativa legítima do movimento Armorial de cunhar um estilo genuinamente brasileiro. Mas ninguém realizou esse sonho como João e seu violão. Seu Brasil foi a Bahia, de onde ele veio e invariavelmente voltava para lá. A Santa Bahia Imortal a qual ele ficava contente da vida em saber que era Brasil. Um Brazyl, aliás, que conheceu o Brasil. Um Brasil que foi, sim, ao Brazil. Aquele mais cosmopolita e contemporâneo, mas basicamente folclórico, popular e profundo, como as águas protegidas por Nanã Buruquê. Caetano tem razão: definitivamente, depois dos acordes dissonantes emanados do peito dos desafinados, a nossa vida nunca mais foi igual. 

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documentário "Brasil", de Rogério Sganzerla (1981)

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FAIXAS:
1. "Aquarela do Brasil (Brasil)" (Ary Barroso) - 6:34
2. "Disse Alguém (All of Me)" (Gerald Marks, Seymour Simons – versão: Haroldo Barbosa) - 5:18
3. "Bahia com H" (Denis Brean) - 5:13
4. "No Tabuleiro da Baiana" (Ary Barroso) - 4:50
5. "Milagre" (Dorival Caymmi) - 4:57
6. "Cordeiro de Nanã" (Dadinho, Mateus) - 1:20



João Gilberto - “Live at The 19th Montreux Jazz Festival” ou "Live In Montreux" (1985)


No topo, capa do LP original
lançado no Brasil e, abaixo,
a da edição americana

“É a grande soma da obra de João Gilberto. É o disco que dá a visão mais ampla da ideia que ele tem de repertório, de estilo”.
Caetano Veloso

Os baianos, mais do que qualquer outra gente, são donos de uma genialidade que às vezes beira a ingenuidade. Caetano Veloso conta que, certa vez, ao visitar Dorival Caymmi em sua casa numa quente tarde de Salvador, o anfitrião mal o deixou entrar pelo portão e já se pôs a mostrar-lhe uma novidade que havia descoberto para aliviar aquele intenso calor. Levou, então, Caetano até a sala e solenemente lhe apresentou sua mais nova obra de engenharia doméstica: havia disposto a cadeira na qual estava sentado só de bermuda e chinelos feito um Buda nagô de frente para um... ventilador! 

Por mais óbvio que pareça o raciocínio de Caymmi, ele guarda, no fundo, uma percepção que, muitas vezes, foge aos mortais preocupados em complexar a vida: a simplicidade. Foi valendo-se do mesmo senso natural que outro baiano favorecido pelos Céus, João Gilberto, chegou a uma conclusão semelhante. Além daquilo que produzia nos invariavelmente indispensáveis discos de estúdio desde o final dos anos 50, João costumava reinventar seu repertório a cada nova apresentação ao vivo. Geralmente, só ele é o inseparável violão. Uma magia inimitável a qualquer outro momento da história da música moderna. Então, do fundo de sua cabeça privilegiada mas distraída, pensou: "porque não gravo um disco ao vivo que transmita essa atmosfera?" 

Sim, passados mais de 30 anos de carreira, João nunca havia feito um álbum neste formato. Tinha até então dois ao vivo, todos com parcerias e/ou bandas/orquestra acompanhando: "Getz/Gilberto #2", em companhia do saxofonista de jazz norte-americano Stan Getz, de 1965, e o especial da TV Globo "João Gilberto Prado Pereira de Oliveira", de 1980, no qual recebe vários convidados. Assim, só ele no palco, nunca.

O que parecia óbvio, por se tratar da essência do som do homem que inventou a moderna música brasileira com a concepção da bossa nova, ganhava, enfim, um registro fiel. Já havia se tornado comum a artistas brasileiros a partir dos anos 70 gravarem seus shows no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, desde que a curadoria do evento se abrira para a sonoridade da MPB como sendo cabível no gênero do "jazz moderno". De A Cor do Som a Elis Regina, passando por Gilberto GilPepeu Gomes e Hermeto Pascoal. Faltava João.

E o Bruxo de Juazeiro não deixa por menos. Com seu repertório impecável selecionado cirurgicamente, une velhos sambas, como os de Ary Barroso, Haroldo Barbosa, Geraldo Pereira e Wilson Batista, a então novos clássicos. Melhor exemplo é "Menino do Rio", de Caetano, lançada em 1979 pelo autor e já versada pelo próprio João um anos depois. Mas ocorreu que a música fizera novamente muito sucesso em 1982 na voz de Baby Consuelo para a trilha do filme homônimo, e João, ao resgatá-la, transformava-a imediatamente de um hit para um clássico. 

João destila musicalidade. É tocante ouvir o trato de cada detalhe, de cada pronúncia, de cada acorde ou silêncio. A permanente confluência harmonia-melodia, as variações de ritmo, o casamento de cordas vocais e cordas de nylon num constante entendimento, entrelaçando-se, dançando. "Tim Tim Por Tim Tim", conhecida do repertório de João, abre com um verdadeiro show de gingado. Quem escuta ele tocando e cantando com tamanha naturalidade pode até pensar que se trata de um improvido. Mas o mais impressionante de João é que tudo aquilo faz parte de um exercício de controle absurdo, e ao vivo isso fica mais evidente. As soluções harmônicas, as escolhas de tempos, a voz afinadíssima mas sem vibrato, o controle da cadência, o que arpejar e o que silenciar: tudo se resolve ali, na hora, no palco, diante do microfone e da plateia. 

O público, neste show, aliás, merece uma atenção à parte. Até mais: merece também aplausos. Visivelmente formada por muitos brasileiros, mas certamente também por suíços e outros estrangeiros, na maioria da Europa, a plateia se emociona e transmite essa emoção para o artista, que retribui, numa corrente de energia poucas vezes vista ou perceptível em discos ao vivo. João brincando de "quém quém" ao cantar "O Pato" ou sambando com a voz em "Sem Compromisso" não deixam mentir. Mas, principalmente, "Adeus América". O samba de Haroldo Barbosa, escrito para outro símbolo mundial do Brasil (o maior deles), Carmem Miranda, como uma declaração de amor ao Brasil após ela ser tachada pelos compatriotas invejosos de "voltar americanizada" dos Estados Unidos, aqui soa (e ainda mais aos brasileiros da plateia) como um canto de exílio, um canto de saudade da terra mater. “Não posso mais, que saudade do Brasil/ Ai que vontade que eu tenho de voltar/ Adeus América, essa terra é muito boa/ Mas não posso ficar porque/ O samba mandou me chamar”. É certamente o momento mais emocionante do show, como talvez nenhuma outra gravação ao vivo de João neste ou noutros discos.

Há também a apropriação "mpbística" do jazz standart italiano "Estate", presente no memorável LP "Amoroso", de 1977, e, claro, a reverência à bossa nova. Mais precisamente, a Tom Jobim. Do maestro, João toca quatro das 15 do set-list: "Retrato em Branco e Preto", dois ícones da primeira fase bossanovista, "Garota de Ipanema" e "Desafinado"; e uma imbatível "A Felicidade", menos recorrente no repertório de João e até por isso ainda mais impactante.

Outro maestro, no entanto, é exaltado por João na histórica apresentação no 19º Festival de Montreux. Cabe ao legado de Ary Barroso fechar o show com três faixas: "Morena Boca de Ouro" e outras dois símbolos de brasilidade em música: as ufanistas "Isto Aqui o que É?" e aquele que é considerado o segundo hino da nação, "Aquarela do Brasil", numa execução de quase 10 minutos. João, que a havia protagonizado no disco "Brasil", de quatro anos antes e quando teve a companhia de Caetano e Gil para interpretá-la, encara aqui a empreitada sozinho. Coisa só de quem tem a mesma envergadura da própria música que entoa.

Prestes a completar 40 anos de seu lançamento, “Live at The 19th Montreux Jazz Festival” guarda a primazia de ser a primeira gravação fiel de um show de João Gilberto, abrindo caminho para vários outros que viriam nos anos seguinte e dos quais destacam-se pelo menos dois: “João Gilberto In Tokyo”, de 2004, e “Live At Umbria Jazz”, de 2002. No entanto, este registro evidentemente possui uma aura e uma importância especial. Mesmo que na maioria dos discos, inclusive os de estúdio, João fosse captado “just in time” pelas mesas de som, no palco não há o que editar ou refazer. É aquele pulsar orgânico e indelével. E no caso de João, isso vale mais do que o silêncio, como diz Caetano. 

E dizer que João levou mais de duas décadas para deixar essa óbvia joia da cultura brasileira para a posteridade... Às vezes, a obviedade é mesmo genial.

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Originalmente lançado no Brasil e no Japão em 1985 como LP duplo de 15 faixas, "Live At The 19th Montreux Jazz Festival", na versão norte-americana, de um ano após, chamou-se apenas de "Live In Montreux" e contendo 13 músicas: sem "Tim Tim Por Tim Tim", "Desafinado" e "O Pato" e tendo acrescida "Rosa Morena" (Dorival Caymmi).

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FAIXAS:
1. “Tim Tim Por Tim Tim” (Geraldo Jacques, Haroldo Barbosa) - 3:38
2. “Preconceito” (Marino Pinto, Wilson Batista) - 2:25
3. “Sem Compromisso” (Geraldo Pereira, Nelson Trigueira) - 4:05
4. “Menino Do Rio” (Caetano Veloso) - 3:45
5. “Retrato Em Branco e Preto (Antonio Carlos Jobim, Chico Buarque) - 6:36
6. “Pra Que Discutir Com Madame?” (Haroldo Barbosa, Janet de Almeida) - 6:25
7. “Garota De Ipanema” (Antonio Carlos Jobim, Vinicius De Moraes) - 3:42
8. “Desafinado” (Antonio Carlos Jobim, Newton Mendonça) - 4:53
9. “O Pato” (Jaime SIlva, Neuza Teixeira) - 6:08
10. “Adeus América” (Geraldo Jacques, Haroldo Barbosa) - 6:50
11. “Estate” (Bruno Brighetti, Bruno Martino) - 5:18
12. “Morena Boca de Ouro” ((Ary Barroso) - 5:37
13. “A Felicidade” (Antonio Carlos Jobim, Vinicius De Moraes) - 5:10
14. “Isto Aqui, O Que É? (Sandália de Prata”) (Ary Barroso) - 6:43
15. “Aquarela Do Brasil” (Ary Barroso) – 9:05




João Gilberto - "João Gilberto" (1973)

 

“Melhor do que o silêncio, só João.”
Caetano Veloso



"João Gilberto", de 1973, não é tão importante quanto “Getz/Gilberto” (1964), obra-prima e definitiva difusora da bossa nova para o mundo; não sustenta a idolatria e o pioneirismo de “Chega de Saudade” (1958), precursor de todo o movimento e referência a TODOS os artistas de MPB a partir de então; nem é tão clássico quanto “Amoroso” (1977), cujo repertório escolhido a dedo traz orquestrações que se harmonizam à voz e ao violão com assombroso requinte. Mas “João Gilberto” é, certamente, o mais João Gilberto dos João Gilberto. Mínimo, detalhista, preciso, econômico, delicado. Perfeito.
De fato, é difícil apontar apenas um disco de João como fundamental. Sua obra é um verdadeiro evangelho de toda a música popular brasileira moderna. E isso se reafirma a cada esporádica gravação que faz. Seu estilo revisita toda a tradição do samba, de Nazareth ao batuque do morro. Moderno e tradicional ao mesmo tempo, o modo de cantar de João passeia com naturalidade de Orlando Silva a Chet Baker, passando por Mário Reis, Carlos Gardel, Vicente Celestino, Cartola, Bola de Nieve e Elizeth Cardoso num lance. Isso tudo aliado a uma técnica inovadora de tocar e, mais do que isso, de estruturar a melodia.
Até o advento da bossa nova, as notas dissonantes nunca haviam sido empregadas em música popular em nenhum lugar do mundo com tamanha exatidão e consciência e em sintonia perfeita (mesmo quando “fora” do compasso, coisa comum em João) como as que consegue extrair de seu violão. Toda essa gama de referências poderia muito bem virar uma salada sonora ininteligível; mas nas mãos e no gogó dele se cristalizaram no mínimo, no volume baixo e apenas audível, no controle absoluto da voz e dos silêncios. Num acorde tão bem elaborado e executado que vale por uma escola de samba inteira.
O que dizer, então, do álbum? Para começar, nada mais, nada menos, talvez a mais bela gravação da mais bela música já composta nesses pagos tupiniquins: “Águas de Março”, de  Tom Jobim .
Já está ali a tônica do disco: voz e violão perfeitamente modulados – a ponto de se escutar os trastes do violão, a respiração e a umidade da língua – acompanhados de uma econômica percussão. Nada mais (e precisa?). A harmonia feita sobre esta melodia indefectível é de uma beleza tamanha que chega a me fugir à compreensão. Faz-me lembrar o que o fã incondicional Caetano Veloso  diz sobre o ídolo: “ninguém consegue mudar tanto mudando tão pouco”. É, de fato, complexo e mínimo como um traçado de Niemeyer, como uma remoinhante de Van Gogh, como um solo de  Miles Davis .
Na sequência, “Undiú”, das raras composições do próprio João e uma de suas mais inspiradas. Trata-se de um samba-de-roda meio baião Gonzaga, meio valsa minimalista, meio canto de pescadores a la Caymmi, em que João articula, com uma afinação incrível, alguns fonemas sem sentido sintático, mas repletos de sentido melódico. Em seguida, o baiano verte outro clássico da MPB. Ou melhor: o reelabora. “Na Baixa do Sapateiro”, de Ary Barroso, vira uma peça instrumental tão bem arranjada e executada que sua partitura poderia muito bem servir como o 13º Estudo para Violão de Villa-Lobos.
Em “Avarandado” e “Eu Vim da Bahia”, dos então “novos baianos” Caetano Veloso e Gilberto Gil , respectivamente, o “velho baiano” tem a coragem de gravar os amigos conterrâneos recém retornados do exílio – ou seja, ainda sob vigília pelo governo militar. Mas João nem quis saber. E as duas músicas são lindas: “Avarandado”, brejeira e apaixonada, e “Eu vim...”, aquele samba radiante e colorido cheio de África-Brasil por todas as notas como só Gil sabe fazer.
Entre as que mais escuto estão “Falsa Baiana” e “Eu Quero um Samba”, tomadas de “requebros e maneiras”, de um swing pleno e natural. Aí vem “Valsa” ou “Bebel” ou “Como São Lindos os Youguis”, outra de autoria de João composta para a filha, a hoje mundialmente conhecida Bebel Gilberto, à época com 6 anos. É uma bela “valsa de ninar”, sem letra, só cantarolada. Imagino que os “Youguis” do subtítulo deviam fazer muito sentido para aquela criança (tanto que os considerava “lindos”). Mas que privilégio ser ninada com uma maravilha dessas, hein? Só podia virar cantora.
A triste “É Preciso Perdoar” e o divertido samba-crônica “Izaura”, a única em que divide os vocais – o que o fez muito bem com Miúcha, mãe de Bebel e então esposa –, fecham este disco inigualável dentro da música brasileira por sua simplicidade e coesão. Seria ridículo dizer que aqui João Gilberto atinge a maturidade musical, pois se trata de um artista que já nasceu maduro. Mas faz sentido pensar que, nesses idos, início dos 70, a bossa nova teve tempo de ser criada, exportada e assimilada por tropicalistas e outrem, a ponto de suas notas dissonantes se integrarem ao som dos imbecis. Tom, Vinícius e ele já haviam entrado para a história pela criação de um estilo musical tão rico que somente meia dúzia de jazzistas, roqueiros e eruditos da vanguarda conseguiram tal feito no século XX. Então, era hora de pegar o banquinho, o violão, aquele amor e 10 canções selecionadas com primor como João sempre soube fazer. Tudo isso para quê? Para ensinar ao mundo como se ouve o silêncio.

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FAIXAS:
1 - "Águas de Março" (Tom Jobim) – 5:23
2 - "Undiú" (João Gilberto) – 6:37
3 - "Na Baixa do Sapateiro" (Ary Barroso) – 4:43
4 - "Avarandado" (Caetano Veloso) – 4:29
5 - "Falsa Baiana" (Geraldo Pereira) – 3:45
6 - "Eu Quero um Samba" (Janet de Almeida, Haroldo Barbosa) – 4:46
7 - "Eu Vim da Bahia" (Gilberto Gil) – 5:52
8 - "Valsa (Como são Lindos os Youguis)" (João Gilberto) – 3:19
9 - "É Preciso Perdoar" (Alcivando Luz, Carlos Coqueijo) – 5:08
10 - "Izaura" (Roberto Roberti, Herivelto Martins) – 5:28

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Ouça:
João Gilberto 1973



Bengal Tigers - Cry Havoc (2025) Austrália

 

Os Bengal Tigers, a banda de heavy metal da Austrália, regressam com o seu mais recente álbum, "Cry Havoc", uma declaração de intenções que promete uma dose de metal puro e sem concessões. Para os amantes de riffs poderosos, vocais rasgados e uma energia implacável, este álbum é um prato cheio, entregue com a paixão e a agressividade que definem o género.

Desde o primeiro acorde, "Cry Havoc" atinge o ouvinte com a força de uma carga de batalha. A produção é robusta e direta, capturando a essência de uma banda que soa como se estivesse a tocar ao vivo. As guitarras são o coração pulsante do álbum, com riffs que são simultaneamente pesados e cativantes. Os solos são incendiários, cheios de feeling e técnica, mas sempre com o propósito de servir a energia da canção.

O vocalista é uma força central. Com uma voz que tem um timbre rasgado e cheio de atitude, ele entrega as letras com uma confiança inabalável. Os refrões são viciantes e feitos para serem cantados em plenos pulmões, mostrando a capacidade da banda em criar hinos de metal. As letras, que frequentemente abordam temas de guerra, batalha e superação, complementam na perfeição a sonoridade agressiva do álbum.

"Cry Havoc" é um álbum que brilha pela sua consistência e coesão. As músicas fluem bem umas para as outras, mantendo um nível de energia constantemente elevado. Embora os Bengal Tigers operem dentro de uma linguagem familiar para os amantes do heavy metal clássico, eles conseguem imprimir a sua própria marca, com composições que são ao mesmo tempo clássicas e cheias de vida. A banda não tenta reinventar a roda, mas sim roda-a com grande entusiasmo e competência.

Para os fãs de bandas como Judas Priest, Accept, Saxon, e outros gigantes do heavy metal tradicional, "Cry Havoc" será uma audição extremamente gratificante. É um álbum que celebra a essência do género: riffs poderosos, uma atitude desafiadora e uma paixão inegável.

Em resumo, "Cry Havoc" é um triunfo para os Bengal Tigers. É um álbum que entrega o que promete: uma dose generosa de heavy metal puro e sem concessões, feito com paixão e uma execução impecável. Prepare-se para gritar "Cry Havoc" junto com eles.

Já teve a oportunidade de ouvir "Cry Havoc" dos Bengal Tigers? Qual a sua faixa favorita e o que mais o atraiu neste álbum?

Temas:

1. Tear You to Shreds 04:39
2. Penetrator 04:04
3. Cry Havoc 05:02
4. Under the Tower 06:40
5. I Am the Fucking Machine 05:24
6. Riding on the Storm 05:42
7. Heartbreak in Belgium 04:18
8. Diamonds and Rust 04:15
9. Taken by Force 06:41
10. Pounding Energy 05:30

Banda:

Gordon Heald - Vocals
Yuri Linzew - Guitars
Rob Bodger - Bass
Justin Linkins - Drum




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