quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Bruce Dickinson – Scream for Me Brazil [1999]

 



Scream For Me Brazil é um verdadeiro marco na histórica relação dos headbangers da terra descoberta por Cabral com o Heavy Metal. A partir da decisão de Bruce Dickinson em gravar um álbum ao vivo por esses lados antes de retomar os trabalhos com o Iron Maiden, o país tornou-se opção obrigatória para qualquer banda do estilo na hora de registrar um trabalho em palco. O que acontece com justiça, ressalte-se. Poucos públicos no mundo fazem tanto barulho e participam dos shows como os brasileiros, proporcionando um espetáculo muito bonito de se ver e ouvir. Não é por menos que sempre somos lembrados pelos figurões da cena.

O momento da carreira de Bruce era fantástico, com uma banda extremamente afiada, contando com seu fiel escudeiro Roy Z e seus colegas de Tribe of Gypsies. Mas o cara que faz toda a diferença não é outro senão Adrian Smith. O guitarrista e compositor é daqueles músicos que, tivesse morrido jovem, seria considerado uma verdadeira lenda. Instrumentista com capacidade acima de qualquer suspeita e ainda escreve músicas com um senso melódico que poucos possuem, ultrapassando as raias do absurdo. Não é por menos que Dickinson gravou com ele seus maiores trabalhos, tanto nos tempos de Maiden quanto na sua aventura solo, vide os fantásticos Accident of Birth e Chemical Wedding.


Com a platéia nas mãos o tempo inteiro, o vocalista entra em cena com o jogo ganho e despeja adrenalina aos fãs, que participam explendidamente de tudo. Além das músicas que estão presentes no CD, foram executados sons do ótimo Tattooed Millionaire e da Donzela de Ferro. Uma pena que ficaram de fora da edição final, especialmente os primeiros citados, pois seria muito bom ouvir as canções da estréia solo de Bruce com essa formação. Mesmo assim, não há como não sentir a adrenalina que tomou conta do Via Funchal, na apresentação que foi recorde de público da casa – não sei se ainda é até os dias atuais – forçando a produção a marcar uma sessão extra para alguns dias depois.

Dito tudo isso, não precisamos nem discorrer sobre a qualidade do que temos aqui. É um dos maiores de todos os tempos em um de seus melhores momentos. Muito superior ao que sua banda principal apresenta há anos. O negócio é juntar-se ao grito do povo: Olê, olê, olê, olê, Brucêêêêêêêêêêê, Brucêêêêêêêêêêê!!!

Bruce Dickinson (vocals)
Adrian Smith (guitars)
Roy Z (guitars)
Eddie Casillas (bass)
Dave Ingraham (drums)

01. Trumpets of Jericho
02. King in Crimson
03. Chemical Wedding
04. Gates of Urizen
05. Killing Floor
06. Book of Thel
07. Tears of the Dragon
08. Laughing in the Hiding Bush
09. Accident of Birth
10. The Tower
11. Darkside of Aquarius
12. Road to Hell



Cheap Trick – Heaven Tonight [1978]

 



Cheap Trick é uma das maiores bandas de rock dos Estados Unidos. Talvez a sua fama não tenha atingido as terras tupiniquins ou a Europa com a mesma força que atingiu o mercado norte americano, mas, por lá, os caras são deuses.

Mais uma banda em que os componentes assumem características de personagens, cada capa de disco é uma piada a parte. Enquanto Robin Zander (guitarra e vocais) e Tom Petersson (baixo e vocais) fazem as vezes de rockstars lindos e pomposos, Rick Nielsen, uma das maiores feras da guitarra do rock, faz o papel do nerd maluco, e Bun E. Carlos (bateria) representa um burocrata em final de expediente.

Heaven Tonight é um clássico da contracultura norteamericana. Rick Nielsen é o principal compositor e, ao vivo, faz diversas maluquices, como tocar uma guitarra de cinco braços, caras e bocas para o público e as câmeras, enfim, um performer que tira sarro da indústria de rockstars criada pelas companhias da sua terra natal.



Heaven Tonight é o terceiro disco da banda e o que originou a megaturnê que resultou no clássico ao vivo Live At Budokhan. Também é conhecido como o primeiro disco a ter um baixo de 12 cordas gravado e é o preferido de toda a vasta carreira do produtor Tom Werman (Ted Nugent, Blue Öyster Cult, Molly Hatchet, Twisted Sister, Mötley Crüe, Stryper, L.A. Guns, Poison e mais uma porrada de hardeiros que fazem a nossa alegria). A reedição foi produzida por ninguém menos que Bruce Dickinson. Estamos diante de um clássico.

Sobre Tom Werman, é importante frisar que ele tem um currículo invejável de discos de ouro e platina sob sua batuta. O Girls Girls Girls, do Mötley, é dele e, embora Nikki Sixx diga em sua autobiografia que Tom estragou aquilo que ele considera uma grande obra, eu imagino que o disco só saiu por causa da organização do produtor, afinal, 1987 não foi um ano bom para Nikki e sua turma.

Enquanto, na capa, os linduchos fazem beicinho pra foto, na contracapa a dupla Nielsen e Carlos se arrumam no banheiro. Esse é o típico senso de humor do Cheap Trick, uma banda que sempre soube se reinventar para o seu público, mesmo em tempos difíceis.

Surrender abre o disco de forma magistral. Teclados que seriam a cama padrão do hard rock da década seguinte, traz guitarras fuzz com um sotaque quase punk que culminam em um refrão para todo mundo cantar junto. Exatamente o que os norteamericanos gostam.

On Top Of The World é aquele rock’n’roll típico do final dos anos 70. Me lembra o já postado aqui Rocky Burnette. California Man, de Roy Wood, é uma ode (ou paródia) aos Beach Boys, com um sotaque tipicamente Cheap Trick. Guitarras discretas jogando para o time, e cozinha simples, mas firme.

High Roller tem cara de balada, mas sem melar a cueca. É rock, simples e direto. Auf Wiedersehen tem aquele contrabaixo de 12 cordas já mencionado aqui. Taking Me Back é, definitivamente, uma balada, com vocais harmonizados e cara de pop. On The Radio mostra o lado riffman de Nielsen, apesar de, mais uma vez, suas guitarras permanecerem discretas. O ruim deste disco (e a culpa é do produtor) é o pouco cuidado com os timbres de guitarra. Parece que o disco inteiro foi gravado com um único timbre, uma mesma guitarra e um mesmo amplificador. E isso não é somente para ouvidos acurados, pois é perceptível a todo momento. Sinto uma falta enorme de ambiências sonoras com texturas de guitarras. E Nielsen tem cacife para isso.

A música que dá nome ao play é uma balada lenta e claustrofóbica, que nos brinda com quase seis minutos de uma psicodelia que foge do padrão do grupo. Pode ser boa, ou não, dependendo do estado de espírito de quem ouve.

Um disco de rock cru e direto, que fez a cabeça da molecada naqueles That 70’s show. Transporte-se para a época e pense que ninguém precisava usar a porra do protetor solar; ou se preocupar em fazer cursinho para ter carteira de motorista; ou ficar apreensivo quando parado no semáforo de madrugada; ou AIDS. Enfim, tempos que não voltam mais.

Track List

1. Surrender
2. On Top of the World
3. California Man
4. High Roller
5. Auf Wiedersehen
6. Takin' Me Back
7. On the Radio
8. Heaven Tonight
9. Stiff Competition
10. How Are You?
11. Oh Claire

Robin Zander (guitarra e vocais)
Tom Petersson (baixo e vocais)
Rick Nielsen (guitarras)
Bun E Carlos (bateria)




Black Sabbath - Dehumanizer [1992]

 



Black Sabbath passou por maus bocados na década de 1980 e chegou a deixar de existir por um curto período de tempo. Aliás, depois do álbum "Born Again", de 1983, o grupo estava muito mais para um projeto solo do guitarrista Tony Iommi. O próprio "Seventh Star", de 1986, tinha a intenção de ser um disco solo, mas por ordens da gravadora, não foi. Vários músicos passaram pelo Sabbath de 1985 até 1990, mas os posteriores "Headless Cross" e "Tyr", respectivamente de 1988 e 1990, consolidaram a presença do vocalista Tony Martin.

A repercussão dos lançamentos até então recentes não era a mesma dos saudosos tempos do Black Sabbath. Por acaso, em 1990, Ronnie James Dio e Geezer Butler haviam tocado juntos em um show e ambos manifestaram vontade de voltar à banda. Facilmente convencido, Tony Iommi aceitou-os de volta e demitiu Martin e o baixista Neil MurrayCozy Powell foi mantido nas baquetas, mas fraturou uma costela e não pôde permanecer, sendo substituído por Vinny Appice.

Da esquerda pra direita: Vinny Appice,
Geezer Butler, Ronnie James Dio, Tony Iommi

A formação lançou "Dehumanizer" em junho de 1992. O processo de composição foi complicado e demorado por conta de tensões entre Iommi e Dio sobre as próprias composições - egos falando sempre mais alto. Mas os primeiros segundos de Computer God, a faixa de abertura, mostram que todo o esforço e toda a demora valeram muito a pena, pois trata-se de um álbum poderoso, com letras incríveis, instrumental soberbo e uma das vozes mais imponentes do Heavy Metal.

Provavelmente um dos mais viscerais do grupo, "Dehumanizer" traz canções muito maduras. Houve uma mistura dosada e precisa dos elementos dos períodos mais consagrados do Sabbath: as fases Ozzy e Dio. A maioria das faixas lembram a fase Dio, por serem mais melódicas e rápidas sem perder o peso impactante do Sabbath. Mas há faixas como Computer GodLetters From Earth e Master Of Insanity que enfatizam riffs soturnos e andamentos bem arrastados, o que é notável nos primeiros lançamentos da banda.



O trabalho dos integrantes é incrível. Como já disse anteriormente, Ronnie James Dio tinha uma das vozes mais imponentes do Heavy Metal, tanto por ser alcance quanto pelo feeling de suas interpretações. A guitarra de Tony Iommi é absurda, com certeza foi o músico que mais se superou por aqui, pois alguns de seus melhores solos estão neste disco. A cozinha insana de Geezer Butler e Vinny Appice funciona muito bem, é responsável pelo peso do registro e está bem destacada na mixagem - ainda bem! Além disso, há a cama de teclados e a pitada de sintetizadores tenebrosos do grande Geoff Nicholls.

O êxito comercial do disco foi grande e a turnê atravessou vários lugares, incluindo o Brasil. Mas, infelizmente, a formação não durou por muito tempo (de novo) e a separação ocorreu por conta de um motivo besta (de novo). Ozzy Osbourne, ex-vocalista do Black Sabbath, estava encerrando a sua carreira e pediu para que o grupo abrisse dois shows de seu conjunto solo. Todos aceitaram, exceto Ronnie, que voltou para a sua banda, Dio, e teve que ser substituído às pressas por Rob Halford, do Judas Priest.

25 mil cruzeiros, huh? Barato, mas parece caro com tantos zeros.

Entre os destaques de "Dehumanizer", estão a melódica e depravada Too Late, o single TV Crimes, a pesada I e a incrível Master Of Insanity. Uma grande aula de Heavy Metal que merece ser conferida e ouvida inúmeras vezes.



01. Computer God
02. After All (The Dead)
03. TV Crimes
04. Letters From Earth
05. Master Of Insanity
06. Time Machine
07. Sins Of The Father
08. Too Late
09. I
10. Buried Alive

Ronnie James Dio - vocal
Tony Iommi - guitarra
Geezer Butler - baixo
Vinny Appice - bateria
Geoff Nichols - teclados




Krokodil - Nachash (2014)

 



Impressiona a maturidade apresentada pelo Krokodil em Nachash, seu disco de estreia, lançado em novembro pela Spinefarm. Formada em 2011, a banda inglesa entrega um sludge repleto de groove e riffs cavalares, e o resultado final é um dos grandes  álbuns de metal lançados em 2014.

O sexteto conta com músicos com certa experiência, vindos de grupos como SikTh (o baterista Dan Foord e o baixista James Leach), Gallows (o guitarrista Laurent Barnard), Hexes (Dan Carter, guitarrista), Cry for Silence (Alex Venturella, guitarra) e Liber Necris (o vocalista Simon Wright), formando uma espécie de “supergrupo do futuro”. 

O som do Krokodil é calcado na maior invenção do homem depois da Coca-Cola, do café e do pastel: os riffs de guitarra. Todas as 12 canções de Nachash, sem exceção, são construídas a partir de riffs que proliferam do trio de guitarristas, em um peso astronômico que ganha o adorno sempre bem-vindo de doses certeiras de groove. As influências principais percebidas durante a audição do álbum são Mastodon, Meshuggah, Isis, Converge, Neurosis e Tool. As raízes dos músicos estão presentes e são usadas para montar uma sonoridade com personalidade própria, nada derivativa.

Sempre aprecio a técnica aplicada ao peso, elevando a agressividade das canções à potência máxima, e o Krokodil faz isso com precisão. A violência sonora é onipresente e sempre vem acompanhada por passagens instrumentais inspiradas e nada convencionais, que entortam o ouvido e a cabeça.

Há uma espécie de divisão em Nachash, com a primeira parte do álbum soando mais agressiva enquanto as canções finais apresentam trechos mais atmosféricos e contemplativos, como que conduzindo o ouvinte por uma batalha sanguinolenta que leva ao descanso merecido.

Se você curte Mastodon, Anciients, Intronaut e bandas nessa linha, a estreia do Krokodil foi feita pra você. Metal pesadíssimo, cativante, que preenche as veias e faz o coração bater mais forte.

Recomendadíssimo!





Old Man Gloom - The Ape of God (2014)

 



Aos desavisados, o Old Man Gloom é uma espécie de “supergrupo do lodo”, contando com o guitarrista e vocalista Aaron Turner (do finado e aclamado Isis), o baixista e vocalista Caleb Scofield (Cave In, Zozobra), Nate Newton na guitarra (Converge), além do baterista Santos Montano. Estes quatro estão juntos desde 1999 e unem elementos de sludge-metal, post-rock, crust, doom, noise e música ambiente. Algo realmente sujo e contemplativo.

Em agosto, a banda, através da sua gravadora Profund Lore, enviou o álbum para a imprensa – 3 meses antes do lançamento. Pode até ser um procedimento padrão usado por alguns artistas para ganhar releases, mas no caso do Old Man Gloom foi uma verdadeira jogada de marketing. Esta versão enviada à imprensa era falsa, uma condensação cuidadosamente editada de dois  álbuns de mesmo nome, e isso foi revelado apenas uma semana antes da data de lançamento real (11 de novembro). Uma estratégia feita para irritar especificamente os sites que ganharam este “presente”, já que na mesma semana a versão fake já estava circulando em páginas de downloads – fazendo um protesto inteligente contra a pirataria e a falta de informação que a internet apresenta hoje.

O primeiro dos dois álbuns é um suspiro em meio a estímulos de uma violência dinâmica. “Fist of Fury” ascende o caos, com drones sendo construídos amargamente e os instrumentos sendo liberados aos poucos. Gritos profundos e desesperados são cortados. Já os nove minutos de “Shoulder Meat” conseguem trazer selvageria até nos momentos mais calmos, enquanto “Promise” brinca com atmosferas nebulosas e oscilantes. Mas talvez “Simia Dei” seja a faixa mais emblemática do registro, principalmente por alcançar a explosão em um terço do tempo que o Isis demoraria para chegar.

O segundo álbum é uma grotesca meditação sobre a fragilidade humana. “Burden” inicia esta segunda etapa com uma marcha de 13 minutos rumo a um abismo cada vez maior, onde ondas de ruídos são jogadas a quem quis se aventurar na obra. “Predators” trabalha na construção de camadas, enquanto os 12 tensos minutos de “A Hideous Nightmare Lies Upon the World” se preocupam mais em hipnotizar e energizar. Além disso, a colossal “Arrows to Our Hearts” expõe uma triste paranóia, provando mais do que nunca que essa dupla jornada de quase 90 minutos valeu a pena.



 



Killer Boogie – Detroit (2015)

 



Para alguns mais céticos, o stoner não passa de um movimento musical para saudosistas que não se adaptaram às modernidades sonoras. Mas nada pode ser tão delicioso como ouvir músicos com pupilas dilatadas tocando despretensiosamente em suas garagens, a fim de criar grooves com um clima psicodélico.


O Killer Boogie segue a receita citada acima na sua estreia. Vindos direto da capital italiana, o trio formado por Gabriele Fiori (guitarra, voz), Matteo Marini (baixo) e Luigi Costanzo (bateria) consegue trazer uma porção de riffs empolgantes e uma guitarra com muito fuzz. Entre o acid rock e a crueza do proto-punk, destacando-se generosas influências de Blue Cheer, The Stooges, MC5, Cactus e dos mais recentes Radio Moscow.

O grande crânio com os dentes vitimados pelo tabaco e coroado com cores quentes, serve como um grande aperitivo para o que está por vir. "Bad Rebel" inicia o álbum em um ritmo estrondoso e rápido, tendo um ótima linha de baixo. O som retrô setentista é definitivamente escancarado em "Riding the Wind", com uma dose de guitarras que vai crescendo a cada instante. "My Queen" teve merecidamente um destaque na Classic Rock Magazine; aquele tipo de música que vai moer o seu auto-falante.


Algo interessante no álbum é que a maioria das faixas segue um mesmo padrão rítmico, mas sem que isso soe maçante. "Summertime" e “The Golden Age" seguem essa mesma linha consistente de riffs pesados e distorções trovejantes, complementados por um baixo sempre ofegante e denso, além de um característico vocal hipnótico. Destoando um pouco, "Silver Universe" traz vocais em camadas e tons semi-acústicos mais delicados. Já "Cosmic Eyes" transpira toda a vibe psicodélica dos italianos. Uma aula de como ser vintage.


Tracklist:
1. Bad Rebel
2. Riding The Wind
3. My Queen
4. Little Flower
5. Silver Universe
6. Cosmic Eye
7. Summertime
8. The Golden Age
9. Dynamite




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