segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Hark: crítica de Crystalline (2014)

 



Jimbob Isaac esteve a frente da banda galesa Taint por quase duas décadas, e apesar de não ter ultrapassado as margens do underground, o seu legado stoner chapado permaneceu nos dois discos lançados pela Rise Above Records (a cultuada gravadora de Lee Dorian) e continua a se manifestar em Hark, novo projeto formado ao lado do baixista Nikolai Ribnikov e do baterista Simon Bonwick, ambos ex-Whyteleaf.

O trio já havia excursionado exaustivamente nos anos anteriores (em especial, uma turnê ao lado de Red Fang e Clutch), e como uma nova aposta da Season of Mist, lançou o seu disco de estreia no mês de março. Gravado no Monnow Valley Studios (por onde já passaram Black Sabbath e Judas Priest) e mixado por Kurt Ballou, basta olhar para a  arte de Crystalline, desenhada pelo próprio Isaac, que já se espera que algo grandioso esteja ali dentro.


A imundice já é espalhada assim que o primeiro assalto de "Palendromeda" é libertado, despejando absurdas toneladas em andamentos que permeiam entre o cadenciado do stoner e o arrastado do sludge, com o mérito de soar climática mesmo quando não há espaço para se mexer em meio às anárquicas e desenfreadas linhas de percussão claramente mastodonianas. A claustrofobia permanece na monotonia dos riffs constantes do híbrido entre hardcore e blues de "Hounded By Callous Decree", uma sensação energizada pela produção cuidadosa, de indefinidas margens entre cada um dos  instrumentos


"Sins On Sleeves", ao longo de seus sete minutos, introduz de forma mais evidente outro elemento que se mostra presente na sonoridade do Hark: certas inserções de southern rock, ora mais sutis, ora conduzindo pra valer a forma como cada passagem e melodia funcionam (como é o caso aqui) – a influência sabbathica se envereda por uma estranhíssima aura contemplativa e desértica. Aliás, "Black Hole South West" torna tudo ainda mais pesaroso, com uma veia rastejante beneficiada pelos intermináveis ruídos e contaminada por aquele ar da Georgia, que a levam até "Breathe and Run" e suas inesperadas mudanças de andamento ligadas por uma lisérgica e confusa harmonia, um bizarro espécime gerado pela união de sludge com hard rock setentista.

O direcionamento empoeirado permanece assombrando cada segundo de "Mythopoela", como um stoner em sua mais pura e suja forma que ecoa pelas décadas, direto de alguma velha casa abandonada na velha região industrial de Londres. Por falar em fantasmas, "Scarlet Extermities" vagueia perdidamente entre o doom primordial e o heavy metal americano grooveado dos anos noventa, enquanto "All Wretch No Vomit" parece ir mais longe ao trazer ligeiros toques de rock progressivo e hard rock às extremamente cadenciadas e nervosas nuances. 

Os ruídos de "Xtal 0.6" introduzem "Clear Light Of...", praticamente uma jornada stoner sludge através de um caminho espacial cheio de obstáculos e desvios a velocidades alucinantes, capitaneada pelas vozes de Isaac e Neil Fallon (do Clutch) sobre passagens que depois simplesmente largam o seu espírito vagando nas estrelas, ainda tentando compreender o que acabou de acontecer.

Crystalline não é exatamente o  álbum mais original e revolucionário que você irá ouvir, dependendo do quanto já foi explorado. Una a técnica e a agressividade de um Mastodon, a distorção ruidosa de um Kylesa ou Black Tusk, a complexidade de um Neurosis e o sentimento de um Clutch, e é aproximadamente o que você tem aqui. Porém, o trabalho de estreia do Hark não soa sem alma e apenas como uma mera casca vazia, e sim mostra como a experiência de cada um dos músicos envolvidos, assim como os seus dinâmicos métodos de composição, consegue criar uma música facilmente identificável, infinitas influências que soam como vários grupos diferentes, mas sem deixar a impressão de estarem perdidos pelo caminho ou sem objetivo definido. 

Do stoner ao rock progressivo ao thrash ao sludge, uma conflitante produção densa e imunda no instrumental com toques de modernidade, sempre carregadíssimo de voltas intrincadas e inteligentes que parecem surgir de onde menos se espera, envoltos por melodias que inesperadamente se agarram a sua mente (o trabalho de vozes é no mínimo espetacular – algo na linha semelhante a de John Baizley). É uma viagem profunda, a ser repetida inúmeras vezes até ser compreendida por completo – o que torna muito difícil imaginar o que esperar da banda no futuro.

O stoner em suas personificações mais sujas pode não ser mais a vertente em total evidência desde o último ano, assim como o foi em tempos anteriores, mas ao mesmo tempo continua a proporcionar ácidas e complexas jornadas. Basta apenas encontrar o disco certo. E talvez em 2014, Crystalline seja este disco.

Faixas:
1 Palendroma
2 Hounded By Callous Decree
3 Sins on Sleeves
4 Black Hole South West
5 Breath and Run
6 Mythopoela
7 Scarlet Extremities
8 All Wretch No Vomit
9 Xtal 0.6
10 Clear Light Of…




Kamchatka: crítica de The Search Goes On (2014)

 



A Suécia tem apenas 10 milhões de habitantes, menos que São Paulo, a maior cidade brasileira. A área total do país é de 500 mil kilômetros quadrados. O Brasil possui 8,5 milhões. A princípio, “ganhamos” de goleada destes nórdicos.

Mas a história não é bem assim. A Suécia tem uma das economias mais estáveis do mundo. O país é o 7º do planeta em Índice de Desenvolvimento Humano. A renda per capita é superior a 40 mil dólares anuais. A brasileira, pouco mais de 12 mil. Um olhar mais profundo revela que, no que realmente importa, são os suecos que goleiam o Brasil, e não o contrário.

Indo para a nossa praia, que é a música, o rock e o heavy metal, a coisa então descamba de vez. A cena sueca é não apenas uma das mais prolíficas em número de bandas como, sobretudo, é responsável por revelar ao mundo alguns dos grupos mais interessantes, originais e cativantes surgidos nos últimos dez anos. A lista é longa, bem longa: Opeth, Graveyard, Ghost, In Flames, Soilwork ... Dá pra passar dias citando. O Brasil, apesar de evidentemente contar com uma cena sólida no território da música pesada, está a milhas de distâncias.

O Kamchatka é mais uma banda saída dos limites suecos carregando autenticidade, personalidade e muita qualidade nas costas. Na estrada desde 2001, o trio lançou em fevereiro o seu novo e quinto  álbumThe Search Goes On. Formado por Thomas Andersson (vocal e guitarra), Per Wiberg (baixo e vocal, ex-Opeth) e Tobias Strandvik (bateria), o grupo executa um hard rock muito bem feito, de bom gosto e bastante acima da média.

The Search Goes On conta com dez faixas e é o sucessor de Bury Your Roots (2011). A adição de Wiberg, músico reconhecido pelo enorme talento e que entrou na banda recentemente, acrescentou muito ao som do Kamchatka. Se no trabalho anterior já era possível perceber o grande potencial da banda, no novo disco ele fica mais do que evidente. As composições fluem soltas, com arranjos redondos. O trio evidencia a sua experiência, colocando notas, vocais e batidas nos lugares e momentos certos. Não há nada fora do lugar, e toda a excelência demonstrada pela banda faz com que o álbum tenha apenas um destino: o coração do ouvinte.

Em um exercício, é possível definir a música do Kamchatka como um hard rock perfeito para pegar a estrada, com uma evidente influência dos anos 1970 mas que não fica preso no passado. Há grandes performances individuais dos três músicos, que não apenas dominam os seus instrumentos como são, acima de tudo, mestres na fina arte do feeling, da emoção. A banda não pisa muito no acelerador, preferindo investir em andamentos mais cadenciados. É possível perceber, ainda que de maneira sutil, uma certa influência do Bad Company e do Free, esse último principalmente nos momentos mais blues.

The Search Goes On é um grande disco, com ótimas canções como “Tango Decadence”, “Coast to Coast”, “Thank You For Your Time”, "Son of the Sea" e a faxa-título, todas construídas a partir de riffs de guitarra e contando com uma afiada cozinha. Básico, e por isso mesmo tão eficiente e prazeroso de ouvir.

Se faltava motivo para mudar de vez para a Suécia, agora não falta mais!

Faixas:
1 Somedays
2 Tango Decadence
3 Coast to Coast
4 Son of the Sea
5 Broken Man
6 Pressure
7 Cross the Distance
8 Thank You For Your Time
9 Dragons
10 The Search Goes On




Ronnie James Dio: crítica do tributo This is Your Life (2014)

 



Ronnie James Dio é uma das poucas unanimidades do heavy metal. Em sua longa trajetória, fez história em bandas como Rainbow, Black Sabbath e Dio, escrevendo o seu nome definitivamente no Olimpo do estilo. Seu timbre de voz privilegiado, assim como o gesto que ajudou a popularizar (com os dedos fazendo o sinal do chifre característico do metal \m/), estão na memória afetiva dos fãs e no DNA da música pesada.

This is Your Life álbum tributo lançado pela Rhino, é uma bela homenagem ao pequeno Deus do metal. Com a participação de nomes do porte de Metallica, Rob Halford, Anthrax, Motörhead, Scorpions, Corey Taylor e outros, contém um dos elencos mais estelares já reunidos. Dio merece.

No entanto, o resultado final oscila bastante. No topo, lá em cima, temos versões excelentes como as gravadas pelo Andrenaline Mob (“The Mob Rules”), Motörhead com Biff Byford (“Starstruck”) e, sobretudo, as fenomenais releituras de Corey Taylor para “Rainbow in the Dark” e o medley executado pelo Metallica unindo as faixas “Tarot Woman”, “Stargazer”, “A Light in the Black” e “Kill the King”. No meio, covers competentes e apenas corretos como as entregues pelo Anthrax (“Neon Knights”), Halestorm (“Straight Trough the Heart”), Scorpions (“Temple of the King”), Doro (“Egypt (The Chains Are On)”), Killswitch Engage (“Holy Diver”) e Oni Logan (“I”). E, lá embaixo, regravações equivocadas em um número acima do aceitável. Nesse último bloco entram o Tenacious D com “The Last in Line” (o que essa banda, um projeto humorístico do ator Jack Black, faz aqui é um mistério para mim), Glenn Hughes conseguindo a proeza de estragar a belíssima “Catch the Rainbow” (apesar de cantar menos forçado do que nos últimos anos, Hughes desata a executar malabarismos vocais totalmente desnecessários, como se precisasse provar que ainda pode soar como há décadas atrás - o que, todos sabemos, não e mais possível) e Rob Halford em “Man on the Silver Mountain” (que, além de ter o seu riff clássico deturpado, é transformada pelo Metal God em um pseudo e equivocado power metal).

No final, o saldo é positivo, muito devido à força descomunal do repertório, que esbanja clássicos. Nesse ponto, é preciso frisar o quanto o trabalho de Dio ao lado de Ritchie Blackmore no Rainbow segue não apenas soando atual mas, sobretudo, o quão boas são as canções gravadas pela dupla nos três discos em que trabalharam juntos. Ainda que involuntariamente, o merecido tributo a Ronnie acaba respingando, de maneira mais do que justa, no genial Ritchie Blackmore, um dos maiores guitarristas da história.

Apesar dos delizes, This is Your Life vale a compra. Uma bonita homenagem a um dos artistas mais emblemáticos e influentes do heavy metal, que deixou a sua marca em todo o estilo.


1. Anthrax - Neon Knights
2. Tenacious D - The Last in Line
3. Adrenaline Mob - The Mob Rules
4. Corey Taylor & Friends - Rainbow in the Dark
5. Halestorm - Straight Through the Heart
6. Motörhead & Biff Byford - Starstruck
7. Scorpions - The Temple of the King
8. Doro - Egypt (The Chains Are On)
9. Killswitch Engage - Holy Diver
10. Glenn Hughes & Friends - Catch the Rainbow
11. Oni Logan & Friends - I
12. Rob Halford & Friends - Man on the Silver Mountain
13. Metallica - Ronnie Rising Medley
14. Dio - This is Your Life




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