quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Luciano Berio - "Folk Songs" (1964)

 


"Até Cathy Barberian sabe/
Não há uma volata que
 ela não possa cantar"
da música "Your Gold Teeth"
do Steely Dan


Por séculos a música erudita pautou a música popular, ditando com autoritarismo estético e formal o que seria aproveitado ou não na música de acesso geral – já que, historicamente, a música clássica nunca foi acessível. O contrário mal acontecia, ou seja, da música pop ou folclórica influenciar a clássica (quando ocorria, prevalecia o lado “clássico”). Até que, na senda aberta pelos modernistas da primeira metade do século XX, Shoenberg, Berg, StravinskiOrff, entre outros, a turma de compositores da vanguarda erudita que veio logo em seguida entrou para derrubar todas as barreiras. Um deles foi o italiano Luciano Berio (1925-2003), prolífero autor que, em 1964, compôs o que para muitos é (e para mim também) sua obra-prima: as Folk Songs, marco da fusão entre pop, folclore e erudito.Concisão, precisão e requinte em pouco mais de 20 minutos. Resultado de um trabalho de pesquisa de Berio a cantigas folclóricas de diversas partes do mundo, "Folk Songs" é perfeito em tudo: sonoridade, melodia, harmonia, métrica. As sonoridades típicas do lugar de onde se originaram ganham uma síntese, um corpo, como que uma nova linguagem sonora. O arranjo se resume a sete grupos de instrumentos: flauta, clarinete, cello, violino, viola, percussão e harpa. Ah! Claro, tem um oitavo instrumento fundamental e sem o qual a obra não existiria: a voz da mezzo-soprano norte-americana Cathy Barberian. À época casada com Berio, Cathy ganhou do marido esse ciclo de músicas, feitas especialmente para seu vocal apurado e expressivo. Altamente influente em trabalhos para voz na música como um todo, as "Folk Songs" se tornaram uma referência tanto para compositores desta linha, como Meredith MonkPhillip Glass  quanto para cantoras pop como Elizabeth Frazer (Cocteau Twins), Sinéad O'Connor, Joni Mitchell, entre várias outras.
 E as faixas? Todas impecáveis. Abrindo, "Black Is the Colour (Of My True Love's Hair)" e "I Wonder as I Wander" – minha preferida, com um lindo conjunto harmônico de viola, cello e harpa que forma um som de sanfona “caipira” –, são adaptações livres de canções do compositor folk norte-americano John Jacob Niles. A valsa “Loosin Yelav”, da Armênia, país dos antepassados Cathy, descreve de forma fantástica a trajetória da lua, transmitindo para os sons a impressão deste movimento onírico. “Rosssignolet Du Bois” vem suave e assim se mantém, límpida, contrastando com a intensidade dramática siciliana da seguinte, “A La Femminisca”.
 "La Donna Ideale" e "Ballo" não provêm de bardos populares anônimos; porém, são composições de Berio sobre temas folclórico-amorosos de sua terra natal. A primeira vem de um poema no velho dialeto genovês, "A Mulher Ideal", o qual diz que, se um homem encontrar uma mulher educada, bem formada e com um bom dote, não pode deixá-la escapar. Já a outra, intensa em seus arpejos de violino e cuja letra também é extraída de um antigo poema, diz que o mais sábio dos homens perde a cabeça por amor, mas, em contrapartida, resiste a tudo por causa desse sentimento. Ainda na Itália, a melancólica e dissonante “Motettu de Tristura” baixa o tom lindamente.
 A França retorna nas duas seguintes, inspiradas em peças resgatadas pelo musicólogo Joseph Canteloube no idioma occitano. "Malurous qu'o uno Fenno", bastante medieval com sua flauta doce acompanhando o canto, fala sobre os desencontros conjugais entre homens e mulheres. Já "Lo Fïolairé", em que uma menina em sua roda de fiar canta uma imaginária troca de beijos com um pastor, é uma das mais belas do círculo. Com uma maravilhosa performance de Cathy, que executa uma impressionante progressão harmônica, abre com um violoncelo grave e introspectivo do desejo reprimido da moça, mas progride e termina em acordes cristalinos e deleitosos de harpa. Um gozo.
 A alegre “Azerbaijan Love Song” termina a obra em dança típica russa e uma interpretação bem mais solta da solista, fechando este trabalho que é, do início ao fim e através de várias lógicas, uma declaração de amor do autor à sua amada.
 Um disco pop com ares clássicos ou vice-versa, onde as faixas têm, inclusive, como que feito para tocar nas rádios, o mesmo tempo médio de 2 min e 30 seg de duração. Enquanto, nos anos 50 e 60, vários outros compositores modernos como Berio, ao tentar exprimir os horrores do pós-guerra e as tensões de um mundo dividido faziam de tudo para combater a tonalidade da música, ele não só acolheu a escala cromática como, ainda, a reelaborou, criando uma obra única e agradável a todos os ouvidos, do mais rebuscado ao mais desavisado. Afinal, quando a música é boa, tudo acaba sendo, saudavelmente, a mesma coisa.
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O CD original traz ainda o “Recital I for Cathy” (para voz feminina e 17 instrumentos), considerada uma das mais importantes releituras musicais da segunda metade do século passado. Luciano Berio escreveu esta debochada peça de 35 minutos de teatro em que inclui numerosas citações de história musical (Bach, Monteverdi, Ravel, Wagner, Prokofiev, Bizet e vários outros, inclusive ele mesmo) em estilo tragicômico.
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FAIXAS:
1. Black Is The Colour (Of My True Love's Hair) (EUA) - 3:01
2. I Wonder As I Wander (EUA) - 1:42
3. Loosin Yelav (Armênia) - 2:34
4. Rosssignolet Du Bois (França) - 1:17
5. A La Femminisca (Sicília, Itália) - 1:38
6. La Donna Ideale (Itália) - 1:02
7. Ballo (Itália) - 1:20
8. Motettu De Tristura (Sardenha, Itália) - 2:16
9. Malorous Qu'o Uno Fenno (Auvergne, França) - 0:55
10. Lo Fiolaire (Auvergne , França) - 2:50
11. Azerbaijan Love Song (Azerbaijão) - 2:09



Black Dog Moon - Hell And Back (2025) Irlanda

 

Hell And Back, lançado em novembro de 2025, é o segundo álbum de estúdio da banda de Hard Rock irlandesa Black Dog Moon. Em menos de 18 meses após a sua estreia, a banda de Waterford retorna com um disco que demonstra confiança, diversidade e uma execução Blues Rock impecável, provando que não há "maldição do segundo álbum" a ser encontrada aqui.

O Som: Hard Rock Clássico com Alma Blues

Os Black Dog Moon (liderados por Conal Montgomery) estabeleceram um som que bebe profundamente nas fontes do Blues Rock e do Hard Rock Clássico dos anos 70 e 80, mas aplicam-lhe um toque contemporâneo.

  • Dual Guitars e Groove: O som do álbum é dominado pela interação das guitarras duplas de Daniel Martin e Dylan Kelly, que entregam riffs e solos poderosos e melódicos. Complementados pela bateria trovejante de Steve Glackin e o baixo forte de Nicky Brown, o álbum possui um groove implacável, essencial para o género.

  • Produção de Classe: A produção de Steve Fearnley equilibra um som moderno e encorpado com uma atmosfera que remete para os clubes enfumaçados de Blues e o som Classic Rock dos anos 80, conferindo ao disco uma autenticidade inegável.

  • Voz Inimitável: A voz distinta de Conal Montgomery é o veículo narrativo perfeito, transmitindo a intensidade e a alma necessária para contar as histórias por trás de cada faixa.

Análise das Faixas: Uma Viagem Pelo Extremo

O álbum de 11 faixas é exaustivo na sua exploração de ideias, alternando entre baladas de Blues lentas e ataques diretos de Hard Rock.

O álbum não começa com um estrondo previsível, mas sim com o bluesy slow-burner "The Prophecy", uma introdução emocional "depois da meia-noite" que aborda temas de fé cega e fim do mundo. É uma escolha de abertura poderosa pela sua intensidade emocional.

A energia explode com o single principal "Neon Queen", que é um assalto implacável de guitarras crunchy e bateria forte, onde as guitarras duplas se revezam em riffs contagiantes. Segue-se "1985", um aceno nostálgico ao Hair Rock e à moda da década de 80, com uma melodia viciante, descrita como "Summer of '69, mas escrita pelos Thin Lizzy". O seu primo mais pesado e suado, "Heavy Shot of Love", completa o trio de hinos de Rock and Roll direto.

O disco demonstra profundidade com faixas mais sombrias e narrativas:

  • "The Ghostly Old Scots Pine" é um conto comovente sobre as lutas de saúde mental de um amigo, que cresce de uma introdução acústica calma para um turbilhão de guitarras selvagens.

  • "Holy War", o focus track, carrega uma abordagem mais pesada e com toques de Metal ao estilo dos Sabbath ou Maiden, usando o peso musical para expressar a frustração com os conflitos religiosos globais.

  • A faixa-título "Hell and Back" é um ripping e acelerado ataque de Rock and Roll que, apesar de ter sido adicionada de forma espontânea no final da produção, é o epítome da atitude e da execução da banda.

O álbum termina em grande estilo com "Black Hearts and Diamonds", que regressa às raízes do Blues Rock com passagens de call and response e solos longos ao estilo Jimmy Page, encerrando a história de dois amantes que sobrevivem na estrada.

O Veredito Final

Hell And Back é o som de uma banda confiante e à vontade na sua sonoridade. Os Black Dog Moon não se limitam ao seu nicho, explorando uma vasta paleta de sons — do Blues lento ao Metal rápido — sem perder a sua identidade. Com uma contribuição expandida para a escrita das canções, o álbum é mais rico e diversificado, cimentando o estatuto da banda no panorama do Rock and Roll. Este é o álbum perfeito para quem gosta do Rock feito com alma, garra e excelentes riffs de guitarra.

Recomendado para: Fãs de Hard Rock, Blues Rock e Southern Rock (nomeadamente Black Stone Cherry, Thin Lizzy e Black Crowes).


Temas:

  1. The Prophecy
  2. Neon Queen
  3. The Ghostly Scots Pine Tree
  4. 1985
  5. Heavy Shot Of Love
  6. Leaving Town
  7. Holy War
  8. Gratitude
  9. Lost My Mind In California
  10. Hell and Back
  11. Black Hearts and Diamonds

Banda:

Conal Montgomery – vocals
Daniel Martin – guitar
Dylan Kelly – guitar, vocals
Nicky Brown – bass, vocals
Stevie Glackin – drums




ROCK ART


 

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