quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Marillion & The Positive Light – Tales From The Engine Room [1998]

 Marillion & The Positive Light – Tales From The Engine Room [1998]

Se levarmos ao pé da letra esse disco nem deveria estar sendo resenhado em um site como a Consultoria do Rock. Por quê? Porque não é rock!!! Mas é rock progressivo, o leitor mais criterioso poderia dizer. Afinal é um disco do Marillion. Aí é que está a história, o correto mesmo era disco nem ter saído com o nome Marillion na capa.

Vou explicar tudo.

This Strange Engine de 1998 era o então quinto disco gravado pelo Marillion depois da entrada de Steve Hogart na banda. Dos cinco, era o menos inspirado. Sem o Fish a banda já tinha feito um pouco e tudo nessa seara do prog, desde coisas até mais acessíveis do que já tinha feito no início da carreira, passou pelo har progressivo e progressivo de fato, ou sinfônico, daqueles direcionados para os mais aficionados fãs do estilo. Aquele progressivo de bandas como Tangerine Dream era algo que eles ainda não tinham feito. Aí apareceram os caras do The Positive Light.

The Positive Light era formado por dois músicos/produtores chamados Marc Mitchell e Mark Daghorn, ambos fãs declarados da banda de Steve Rothery. Por algum motivo conseguiram o direito do material gravado no então mais novo disco do grupo para usarem da forma que quisessem. E esse disco é exatamente isso, uma reinterpretação das músicas de This Strange Engine feito por um grupo ligado ao universo de música eletrônica.

Na época desses discos o Marillion passava por uma fase de transição e estava aberto a mudanças de paradigmas do mercado musical. Um texto sobre o período e algumas das ações que a banda tomou o leitor pode encontrar aqui. Acredito que essa liberação dos direitos de sua música para serem usados por artistas de outros estilos pode ter feito parte dessa tentativa de se adequar ao mercado do período, em um rompante de criatividade que talvez não tenha chegado em um objetivo esperado. Tentaram seguir caminhos ainda não percorridos.

O sentimento é que os climas das versões originais das músicas do álbum original se perdem em um mar de batidas dançantes monótonas e notas de bateria acentuadas, muitas vezes resultando em versões estendidas das músicas de This Strange Engine. No fim das contas a faixa que tem algum ganho é mesmo, e não estou falando do quase dobro tempo de duração dela, é a de abertura “Estonia”. Porém, o que é o diferencial nessa faixa, se torna repetitivo nas seguintes fazendo a animação cair ao longo do disco até chegar em um ponto em que você já está torcendo para ele chegar ao fim em “Eighty Days”. A então faixa título que já tinha seus mais de quinze minutos ganham mais cinco extras de batidas, overdubs e climas repetitivos.

Para completar todo cenário de confusão com o álbum e provando que o Marillion não tinha mais nenhuma responsabilidade e interesse pelo lançamento, na sua edição lançada oito anos depois na Holanda resolveram mudar a capa. Já havia outras duas versões: a original, que ilustra e é capa desse texto, com a imagem de uma espiral, provavelmente uma interpretação da curva de Fibonacci, e a versão alemã, de 2005, com uma foto de uma sala vista de uma janela basculante sobre a foto dos membros da banda fazendo um gesto com as mãos junto aos olhos imitando a criança da capa de Marbles de 2004. Por se tratar de um remix de um disco lançado bem antes, já seria algo bastante estranho usar essa iconografia de um álbum subsequente. Mas aí temos a versão que saiu na Holanda. Lançada em 2006 eles simplesmente usaram o antigo logo do Marillion, que havia sido usava somente até o Season’s End (1989), ou seja, já abandonada há muito tempo na sequência da carreira com Steve Hogart, e uma foto da banda em que o seu antigo vocalista está presente. Isso mesmo! Depois de quase vinte anos com Fish fora da banda, os responsáveis pelo lançamento do disco provavelmente não ficaram sabendo da troca. Resumindo, uma salada completa. O que me espanta é o interesse que esse disco despertou para o seu relançamento anos depois do fracasso retumbante de 1998.

No fim, o disco acaba gerando apenas como algo desejado por colecionadores completistas. Porém, se você é uma pessoa que gosta de progressivo e de trance pode encontrar aqui uma mistura que vá te agradar. Quem sabe?


O Som da Virada: Dos Anos 60 Para os Anos 70

 O Som da Virada: Dos Anos 60 Para os Anos 70

Existe algo intrigante com os números. A simples mudança na contagem de 1 ano comove as pessoas, as leva a celebrar e fazer um retrospecto, pensar em novas perspectivas e sonhos. Ainda que, como diria Drummond, muitos aguardem um decreto da esperança para que os sonhos se realizem e façam efetivamente muito pouca coisa a respeito, é inegável que o próprio estabelecimento de calendários e datas reflete a necessidade intrínseca da humanidade de estabelecer ciclos. Eu, particularmente, sou muito afeito a datas. Mas do que um transpassar de períodos, elas são a medida da transformação. Se a passagem de 1 ano para o outro reflete esse estado de mudanças, a passagem de década é ainda mais emblemática em muitos sentidos.

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Mudanças muito importantes na música popular também ocorreram próximas das viradas de década – o nascimento do rock n’ roll e do jazz modal no fim dos anos 50, a ascensão do punk-rock e da disco music no fim dos anos 70, o grunge no fim dos anos 80 e início dos anos 90, dentre muitos outros exemplos possíveis.

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Me fascina a transição da década de 1960 para 1970, em termos de música. Os números são o retrato de uma época efervescente de criação musical. Poderia discorrer laudas e laudas sobre as metamorfoses do blues-rock, do jazz-rock, a transformação da música negra norte-americana, mas falarei mais especificamente sobre o rock psicodélico.

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Críticos se dividem na tentativa de explicar a movimentação do rock a partir de 1966, principalmente nos EUA. Absorvidas as influências da invasão britânica, grupos norte-americanos passaram a fazer o som do chamado “verão do amor”, emblematizado pelo festival de Monterrey. A grande dúvida é se responder – o rock psicodélico existiu enquanto sub-gênero ou foi apenas um arranjo estilístico que incorporou abertamente a cultura do LSD? Se observarmos do ponto de vista musical, a segunda opção ganha muita força. E justamente observar o quê as bandas, que capitanearam esta parte da história do rock, fizeram após a virada os anos 70 nos ajuda a ouvir isto com mais clareza.

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Pra contar e exemplificar esta história, devemos colocar na agulha discos que merecem ser redescobertos, e criticados sob uma nova óptica, ainda que não representem o auge criativo dos grupos citados. O rock psicodélico foi uma leitura lisérgica do rock dos Beatles e uma carona na fase elétrica de Bob Dylan, somado a toda bagagem (em diferentes doses) da música americana – country, soul, blues e swing-jazz – arranjada com a aparelhagem moderninha da época (leia-se guitarras fuzz, pedais de tremolo e órgãos Farfisa) e algum ingrediente étnico. Além de todo o aparato visual – roupas coloridas, projeções estroboscópicas, artes gráficas de cartazes e capas de discos como uma espécie de barroco ácido.

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Ouvindo atentamente discos menos celebrados de grupos como Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service, Big Brother and Holding Company, Grateful Dead, Love, Moby Grape, Steppenwolf, The Doors, Iron Butterfly, The Byrds, etc, lançados de 1970 em diante, isto fica claro. As bases sobre as quais a música destas bandas se desenvolve mudou pouco. Nota-se a ausência dos elementos mais “externos” do período 67-69. As técnicas de gravação evoluíram, resultando em sons mais aprimorados e fortes. Os instrumentos, efeitos de guitarra e amplificadores ficaram mais elaborados e poderosos, dando maiores possibilidades. Uma maior maturidade musical foi atingida pela maioria dos grupos, antes formados por pós-adolescentes que queriam transmitir toda catarse e rave-up possível para sua música. E todo um paradigma musical do período favoreceu enormemente o desenvolvimento do lado instrumental da música. Longos trechos instrumentais viraram commodity. Sonoridades fuzz e Farfisa e o uso maciço de guitarras semi-acústicas foram sendo varridos do panorama. Contudo, substancialmente, a base musical foi mantida. E foi o que deu origem ao que hoje alguns chamam como “american rock”, ou os mais taxônomicos chamam de “west coast rock”.Moby-Grape.-Michael-Ochs-Archives-1967.

O que alguns, como eu, podem enxergar como evolução, outros ouvidos mais apegados podem ouvir com desprezo. Mas é fato que mudanças aconteceram. A estreia do Moby Grape, em 1967, por exemplo, tem apenas duas canções com mais de 3 minutos de duração. Em 1967, a abertura se dá com o energético boogie “Hey Grandma“. Já em 1971, o disco 20 Granite Creek abre com a swingada e pesada “Gypsy Weeding“, com um vocal bem poderoso que em nada lembra a adolescência deixada em 1967. Contudo “Goin’ Down to Texas” e “I’m the Kind of Man That Baby” tem a mesma influência country e blues que ouvimos na estreia, apesar delas não soarem da mesma forma. Será que foram só os cabelos que ficaram maiores?

Moby Grape e sua estreia em 1967
Moby Grape e sua estreia em 1967
Moby Grape 1971 – 20 Granite Creek
Moby Grape 1971 – 20 Granite Creek

Para o Jefferson Airplane, o som ficou menos quadril e mais cabeça. Qual paralelo podemos estabelecer entre “Somebody to Love” com alguma faixa do disco Long John Silver? São 5 anos de distância e alguns quilômetros de evolução musical. Mas “Feel So Good“, do disco Bark, de 1970, não poderia ser um seguimento mais amplificado, a moda dos anos 70, a “Plastic Fantastic Lover“? Alguns podem afirmar, com razão, que o senso de humor se dissipou. O Hot Tuna (grupo formado nos anos 70 por dois ex-membros do Jefferson Airplane) cristalizou em sons toda a influência blues-country que ficava escondida por trás das guitarras ardidas do Jefferson Airplane.

Jefferson Airplane em ação em 1970
Jefferson Airplane em ação em 1970

A força melódica de “Hope“, do disco Quicksilver, de 1971, do Quicksilver Messenger Service em nada lembra os dois primeiros discos do grupo. Porém, como não associar a estrutura de “The Truth“, deste mesmo disco com “Pride of Man“, do disco de estreia, de 68? ou ainda com “Fresh Air” do disco Just for Love, de 70? A diferença básica para estas é sua duração e a quantia de solos de guitara.

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A fantástica arte do disco Just for Love, de 1970

Até nome do disco pode ser irônico em se tratando do grupo Love. Talvez pudéssemos dizer que ali se trata de um “falso início” para um disco do grupo com a lisérgica e distorcida “The Everlasting First” comparado com um grupo que abusou tanto de violões acústicos e de passagens orquestrais no mítico Forever Changes. Mas ali temos um outro ingrediente chamado “Jimi Hendrix” fazendo toda a diferença. De fato, o Love quis buscar outros territórios para vestir seu folk-rock, mas sem perder a verve melódica que tanto os caracterizou. O vocalista e guitarrista Arthur Lee, em seu disco solo de 1972, Vindicator, apropriou-se do heavy rock.

Lançamento de 1970 da banda Love
Lançamento de 1970 da banda Love

Em se tratando do território de mudanças mais bruscas de som e sonoridade, poderíamos dar o exemplo do Big Brother and the Holding Company. Para uma banda que ficou na sombra de um talento como o de Janis Joplin, e que causou muita dor de cabeça aos produtores para editarem os trechos ao vivo em Cheap Trills (tamanha a quantia de bolas na trave durante a gravação), chega a ser impressionante ouvir discos como Be a Brother e How Hard it Is, lançados entre 1970 e 1971, já sem Janis. Musicalmente mais ecléticos e fluentes, se aventuraram bem em faixas mais elaboradas, como “Nu Bugaloo Jam“, “Funkie Jim” e “How Hard it is”, admitindo que o funk e o soul lhes fazia muito a cabeça. Os vocais divididos em refrões ganchudos continuavam ali, sendo uma marca registrada do grupo. Mas a maturidade musical chegava pra toda essa turma, que não teve medo em seguir adiante.

Big Brother and the Holding Company – How Hard it Is (1971)
Big Brother and the Holding Company – How Hard it Is (1971)

1967. O Grateful Dead ia longe nas improvisações de “Viola Lee Blues“, dando voltas em torno de si próprio, com o vocabulário de frases que lhes era disponível. Em 1969, coisas como os 23 minutos de “Dark Star“, mostravam o quanto aquelas ácidas jam sessions eram didáticas em termos de instrumentação. Contando com a talentosa dupla de guitarristas Bob Weird e Jerry Garcia, em 1975, pintavam coisas dissonantes e tortuosas como “King Solomon’s Marble“, com sua puxada latina e free jazz. Sem contar, o mergulho fundo que a banda deu nas águas batismais do country-rock emAmerican Beauty, de 1971.

O Grateful Dead em algum lugar dos anos 70
O Grateful Dead em algum lugar dos anos 70

Outros que avançaram muito na musicalidade foram os Byrds. E com talvez o caso que melhor explique todo esse texto. Ouça e compare “Eight Miles High” em 1966 e a mesma “Eight Miles High” em 1970, ao vivo. Sim, o country-rock e a influência dylanesca continuaram lá intactas para os Byrds, mesmo com as mudanças de formação, mas novas influências e possibilidades foram assimiladas no cardápio. Triste ver discos como Byrdmaniax esquecido pelos fãs do grupo. Ok, não era mais a novidade. Mas quem gosta de arroz a piamontese geralmente não deixa de gostar de arroz.

Os Byrds entrando nos anos 70
Os Byrds entrando nos anos 70

O Iron Butterfly em 1968 já era um grupo com muito conteúdo musical e boas passagens instrumentais. Ainda que seu som soe hoje bastante datado pelo uso maciço dos órgãos Farfisa, Vox e Lowry pelo tecladista e vocalista Doug Ingle, sons como “Possession” e “Fields of Sun” poderiam estar alguns anos avante da concorrência. Estas diferenças foram se ampliando, com a banda experimentando mais o soul, o blues e o rock pesado a partir de 1970. Músicas como “Stone Believer” tem muitas variações e uma balada “Slower than Guns” lembra até os momentos acústicos do que viria a ser o Genesis, de Peter Gabriel. Ainda que um lançamento muito irregular como Sun and Steel, em 1975, possa nos trazer momentos bons e enérgicos como “Lightnin“, que em nada lembra o passado, tanto em termos de musicalidade como de sonoridade.

Iron Butterfly ao vivo, lançado em 1971
Iron Butterfly ao vivo, lançado em 1971

O Steppenwolf foi um grupo que pouco mudou. Para a felicidade daqueles que se encantam com sua estreia em 1968, na virada da década ainda tinhamos discos como Seven e For Ladies Only, queimando aquela mesma lenha. O único porém é que não se consegue vender a mesma coisa para o mesmo cliente muitas vezes. Mas coisas como “Earschplittenloudenboomer” tem uma ousadia e uma safadeza típica dos anos 70 que não se encontra nos lançamentos anteriores.

O Steppenwolf em uma de suas muitas formações
O Steppenwolf em uma de suas muitas formações

Falamos só de EUA até então. Na Inglaterra, a história é bem outra. Das bandas que fizeram a transição, as mudanças foram mais radicais e um novo padrão e forma de se fazer música surgiram, dando origem ao rock progressivo. Obviamente, muita bagagem foi importada dos EUA e isso daria um outro texto inteiro. Mas para exemplificar apenas, encerro a discussão toda com o Traffic em 1967, nos apresentando “Coloured Rain” e em 1974, nos apresentando “Graveyard People“.

Traffic em 1971
Traffic em 1971

O fato é que ainda que as bandas do rock psicodélico não tenham carregado a novidade o tempo todo, continuaram fazendo um trabalho digno de nota mas menos carregado na lisergia, ao passo que incrementaram seu som com novas influências ou apenas as deixaram transparecer com um aparato menos intenso. Novos tempos pediam novos sons e quase ninguém deixou o barco passar, ainda que nem sempre as escolhas resultaram em acertos, tanto do ponto de vista artístico quanto do ponto de vista comercial.

Bem diferente do que vemos nos nossos tempos atuais, em que o mesmo rockzinho indie mainstream perdura por mais de 20 anos, sem apresentar um pingo de evolução musical. E o mesmo pop eletrônico continua sendo uma picaretagem de mal gosto de produtores atrás de suas mesas de som com suas dançarinas/vocalistas de aluguel.

Lulu Santos - "Lulu" (1986)

 


"O cara fuma, bebe, cheira
Fuma, bebe, cheira
Fuma e quer pegar no meu pau.
Cheira a noite inteira, Fala sem parar
E quando chega o dia
não quer mais me contratar."
trecho de
"Ro-Que-Se-Da-Ne (Junte as Sílabas e Forme Novas Palavrinhas)"







Vamos combinar que Lulu Santos é possivelmente o maior hit-maker do Brasil, talvez só superado pelo Rei Roberto.
Estamos de acordo?
Acho que não tem muito o que contestar.
De Repente Califórnia”, “O Último Romântico”, “Certas Coisas”, “Cara Normal”, “Adivinha o Que”, “A Cura”, “Assim Caminha a Humanidade”...Ufa! Sucessos são o que não faltam. Até por isso, muitos de seus disco poderiam ser destacados como básicos na discografia nacional, seu primeiro com a ótima “Tempos Modernos” que dá nome ao álbum, o segundo da marcante “Como uma Onda”, o 3º, “Tudo Azul” com a melosa “Lua-de-Mel” regravada por Gal Costa, etc. Mas Lulu”, de 1986, além de confirmar a vocação para a produção de grandes sucessos radiofônicos, era um álbum mais coeso, completo e de musicalidade variadas.
“Lulu”, de capa muito legal, estilo Keith Haring, é um daqueles discos que a gente tem que pensar como um LP, pois seus lados são distintos e de características diferentes.
O lado A empilha hits e seu início é de tirar o fôlego. Abre com a gostosa e cativante “Casa” normalmente associada a uma espécie de volta de um "filho pródigo" ou algo do tipo, mas esclarecido pelo próprio autor que trata do prazer de encontrar a própria casa todos os dias; emenda com a excelente “Condição”, um pop cheio de variações e possibilidades, com guitarras distorcidas, bateria eletrônica, vocoder, entre outros recursos, passeando por diversos estilos mas mantendo a unidade com competência e qualidade; e traz na sequência a melancólica balada “Minha Vida”, bela e tristonha.
Depois da interessante e simpática “Pé Atrás”, a única do lado A que não tocou à exaustão por aí, a sequência de hits é retomada com “Um Pro Outro”, outro pop daqueles pegajosos, que teve sua popularidade aumentada ainda pela inclusão na trilha de uma novela. E o lado A, o lado hiper-pop, o lado dos sucessos se encerra.
O lado B é mais ousado, diversificado, até experimental, por assim dizer, abrindo com a excelente “Twist, o Disco” uma brilhante crônica de costumes sobre a volubilidade da moda e das tendências, que mistura rock, com mambo, com disco, com tango, numa das melhores músicas do disco e do próprio Lulu.
Segue com o ska animado “Duplo Sentido”; com o pop-rock básico “Telegrama”, possivelmente a menos interessante do disco; o reggae muito bacana cantado em inglês, “Demon”; e fecha com a espetacular “Ro-Que-Se-Da-Ne (junte as sílabas e forme novas palavrinhas)“ um punk rock escrachado cantado à la Roger do Ultraje, no qual Lulu chuta o balde, escangalhando a superficialidade das relações pessoais, mas sobretudo, escancarando a promiscuidade da indústria fonográfica. Um final matador para um baita disco.
Lulu Santos é o tipo do cara que a gente pode até não adorar mas, a rigor, não tem muito como dizer que é ruim, e seu interessantíssimo “Lulu”, lançado no auge da efervescência do rock BR dos anos 80, é um disco, em especial, que merece uma menção mais significativa no âmbito do pop-rock nacional daquele momento.
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FAIXAS:

Lado A
  1. Casa (O Eterno Retorno) - 5:06 
  2. Condição - 4:22 
  3. Minha Vida - 5:08 
  4. Pé Atrás - 3:35 
  5. Um Pro Outro - 3:54 
Lado B
  1. Twist , o Disco - 4:16 
  2. Duplo Sentido - 2:29 
  3. Telegrama (Lulu Santos e Scarlet Moon) - 3:50 
  4. Demon - 5:17 
  5. Ro-Que-Se-Da-Ne (Junte as Sílabas e Forme Novas Palavrinhas) - 2:24 



Luiz Melodia - "Pérola Negra" (1973)

 


"Também tinha essa outra novidade,
 um negro recém-chegando no mundo musical
 com um estilo 
completamente pop,
 e misturando tudo:  rock, samba.
 Isso deixou confuso principalmente
 os mais tradicionais, conservadores. 
Teve criticas de jornalista que falava:
 'mas como esse Luiz Melodia desce o morro lá de cima,
 e a pele é negra e ele não faz samba.
 Qual é a dele?'.
 Coisas desse tipo, que entrava por um ouvido
 e saia pelo outro, logicamente."
Luiz Melodia



Sempre gostei de "Pérola Negra", de Luiz Melodia, mas com o passar do tempo esse disco foi crescendo cada vez mais na minha preferência até tornar-se, hoje, um dos queridinhos da minha discoteca. É, certamente, para mim um dos discos mais prazerosos de se ouvir da música brasileira. A elegância das interpretações de Melodia, a singeleza poética das letras, o ecletismo e a variedade sonora, fazem de sua audição um prazer quase indescritível.
Melodia transita entre ritmos com naturalidade, com leveza e beleza mantendo uma unidade mágica, coerente e encantadora no conjunto do álbum.
Abre com um choro, "Estácio, Eu e Você", declaração de amor ao bairro de origem, abrilhantado por ninguém menos que o mestre da flauta brasileira, Altamiro Carrilho; emenda com "Vale Quanto Pesa" que começa como uma balada melancólica, vira um jazz compassado, ganha cores de Beatles para enfim culminar numa espécie de rumba no refrão. O clássico "Estácio, Holy Estácio", outra reverência ao bairro onde nasceu, é um samba canção charmoso, um primor e certamente uma de suas canções mais marcantes. O disco segue com o rock "Pra Aquietar"; depois com o blues de letra sombria "Abundantemente Morte"; e vai adiante com aquela que dá nome ao disco, a excepcional "Pérola Negra", um número musical de bar esfumaçado, com sua letra apaixonadamente conflitante e marcante linha de metais. A balada "Magrelinha", cheia de alternativas sonoras e influências, traz mais uma interpretação daquelas inesquecíveis do cantor; para logo em seguida uma guitarra blues anunciar "Farrapo Humano" que vem com seu vocal funk, base soul e metais típicos de bandas de jazz de New Orleans. "Objeto H", um, rock charmoso, encaminha o final do disco que, finalmente fecha com um animado ritmo bem brasileiro do Nordeste, "Forró de Janeiro", com participação do experimental e lendário Damião Experiência, que colabora com brados, urros, guinchos e gritos numa performance que transita no limite entre o esquisito e o hilário.
Disco cujo nome não poderia ser mais apropriado, uma pérola da música brasileira concebida por um homem negro. Um negro do Morro de São Carlos, no Estácio, no Rio de Janeiro. Mais um dos grandes homens negros que ajudaram a tornar ainda mais rica a cultura deste país. E a capa, genial, concebida por Rubens Maia, com aqueles feijões todos e o artista com o mundo nas mãos, já sugere que ali dentro, com muitos temperos, temperos de todos os tipos e de todos os lugares, você poderá ser encontrado um prato perfeito para apreciadores da boa música.

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FAIXAS:
  1. Estácio, eu e você
  2. Vale quanto pesa
  3. Estácio, Holy Estácio
  4. Pra Aquietar
  5. Abundantemente morte
  6. Pérola Negra
  7. Magrelinha
  8. Farrapo Humano
  9. Objeto H
  10. Forró de Janeiro

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Ouça:



Ludwig van Beethoven - "Sinfonia nº 9" (1824)

 


"Fora uma noite maravilhosa
e eu só precisava para concluí-la com perfeição
de um pouco do velho Ludwig van (...)
ó, deleite, ó deleite e paraíso.
era a formosura e a formosidade feito carne.
Era como um pássaro de metal raro e celestial,
ou o vinho prateado flutuando numa espaçonave
deixando a gravidade para trás."
personagem Alexander DeLarge
no filme "Laranja Mecânica"


Uma das maiores obras já produzidas na história da humanidade, composta por ninguém menos que aquele que é considerado por muitos, o maior compositor de todos os tempos. A "Sinfonia nº9 em ré menor, opus 125, Coral", última obra completa escrita por Ludwig van Beethoven, no ano de 1824, ou simplesmente a "Nona Sinfonia" como é mais conhecida, é uma das obras musicais mais populares, repetidas, respeitadas e executadas de todos os tempos, utilizada com frequência em meios como comerciais de TV, games, cerimônias e filmes, assumindo, de certa forma, um caráter pop dentro do âmbito da música clássica ou erudita.
A Nona é por exemplo, elemento fundamental na adaptação de Stanley Kubrick para o cinema da obra "Laranja Mecânica", de Anthony Burgess (no livro o autor se fixa na música clássica em si e não especificamente na obra de Beethoven como faz o diretor no filme); foi adotada como hino de instituições ou de eventos; é constantemente tocada em celebrações de toda ordem como olimpíadas, copas, confraternizações, cerimoniais, etc., especialmente seu movimento mais belo, a "Ode à Alegria", um coral imponente onde as vozes conduzem o movimento acompanhado a orquestração, de uma forma absolutamente magnífica e inigualável.
Não vou me alongar aqui em elocubrações técnicas; em dós, rés, e sibemóis porque não sou um profundo entendedor de música. Sequer sou músico. Seria pouco sincero de minha parte. Sou apenas um diletante como muitos, que não se cansa de ouvir, de se encantar e admirar esta majestosa obra deste gênio alemão.
É lógico que a "Nona Sinfonia", como qualquer outra obra desta natureza, não foi concebida no modelo álbum, não foi feita para ser disco, mas é tão importante para o formato, especialmente no que diz respeito à mídia Compact Disc, que a capacidade original do nosso conhecido CD teria sido definida em função da duração da obra. É o que reza a lenda.
Se não for por todos os seus méritos, e não são poucos, só isso já lhe justificaria a inclusão entre os ÁLBUNS FUNDAMENTAIS.
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MOVIMENTOS:

  1. Allegro ma non troppo, un poco maestoso
  2. Molto vivace
  3. Adagio moltoe cantabile
  4. Presto - Allegro assai

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Ouça:
9ª Sinfonia Ludwig Van Beethoven




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