quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Discografias Comentadas: Be-Bop Deluxe

 

Discografias Comentadas: Be-Bop Deluxe

Como começou
Eles não faziam nem mesmo jazz, o que dirá bebop, mas gostavam de um luxo: vários discos deles têm arranjos orquestrados em algumas músicas, apreciavam ternos sob medida para as fotos promocionais e os shows, e atingiram um grau de sofisticação musical incomum para a cena britânica da segunda metade dos anos 70 antes de perderem o gás. A carreira do Be Bop Deluxe girou em torno de um inglês de Yorkshire, o guitarrista e vocalista Bill Nelson.

William “Bill” Nelson nasceu em 18/12/1948 (coincidentemente, data de aniversário de Keith Richards) e desenvolveu sua musicalidade no Wakefield College of Art. Suas demos mais antigas datam de 1968 e ele passou por várias bandas e, em 1971, lançou um álbum solo (Northern Dream) em que gravou a maior parte dos instrumentos (embora tenha alguns convidados em alguns instrumentos em algumas faixas), cantou quase todos os vocais e compôs todas as músicas. No ano seguinte ele formou o Be-Bop Deluxe ao encontrar um velho amigo, o guitarrista Ian Parkin, nas ruas de Wakefield (Yorkshire); Parkin convidou Nelson para ensaiar com seus amigos Nicholas Chatterton-Dew (bateria) e Robert Bryan (baixo e vocal); junto com Richard Brown (teclados), o grupo começou a fazer shows em agosto de 1972. No final daquele ano Brown deixou o grupo, que continuou como quarteto, e em 1973 o lendário DJ John Peel (que já tinha ficado impressionado com a habilidade de Nelson como guitarrista ao ouvir o disco de 1971) auxiliou a banda a obter um contrato com o selo Harvest, que lançou o primeiro disco em 1974.

Be Bop Deluxe em 1974: Nicholas Chatterton-Dew, Ian Parkin, Bill Nelson e Robert Bryan

Daí em diante a banda passaria por várias mudanças de formação (até se estabilizar em 1976), gravaria outros quatro discos de estúdio e um ao vivo, e encerraria a carreira em 1979, em parte porque Bill mudara bastante suas composições. Ao longo dos anos, houve rumores sobre a volta do Be Bop Deluxe, mas nada ocorreu e vários ex-integrantes morreriam. Nelson criou um selo próprio (Cocteau Records) e passou a lançar discos de forma independente, e atualmente está afastado dos shows por motivos de saúde. Mas o trabalho do BBD (como chamaremos daqui em diante) permanece circunscrito àqueles seis discos, mais uns poucos lançamentos póstumos.


Axe Victim [1974]

O álbum de estreia é muito bom, mas fortemente calcado em David Bowie na fase Ziggy Stardust e o visual da banda é baseado na cena glam rock britânica. Bill Nelson é o astro aqui; suas pirotecnias na guitarra (“No Trains to Heaven” é um bom exemplo) e seus vocais ocupam a maior parte das músicas, chamando a atenção para o disco e a banda. “Axe Victim”, “Love is Swift Arrows” e “Jet Silver and the Dolls of Venus” escancaram a influência de Ziggy nas letras e melodias, mas há músicas em que Nelson começa a buscar sua própria identidade, como “Adventures in a Yorkshire Landscape” (belo solo de guitarra ao final), “Night Creatures” (com Nelson e Parkin nos violões), “Jets at Dawn” (os passarinhos no início me lembram o Ummagumma do Pink Floyd, mas é uma bela música que não tem nada a ver com a turma de Waters e Gilmour). O riff de “Third Floor Heaven” soa um pouco com o de “Vicious”, de Lou Reed, mas a música tem seu próprio charme e conta com backing vocals de Janita Haan, vocalista do Babe Ruth. Robert Bryan compôs e fez o vocal principal em “Rocket Cathedral” – incidentalmente, a única música não composta por Bill a ser lançada num álbum do BBD. Nelson sabiamente guardou o melhor para o final: “Darkness (L’Immoraliste”) traz um arranjo orquestral impecável e uma bela melodia.

Line-up: Bill Nelson: guitarra, piano e vocal; Ian Parkin: guitarra rítmica, órgão; Robert Bryan: baixo, vocal; Nicholas Chatterton-Dew: bateria.

Tracklist: Axe Victim/Love is Swift Arrows/Jet Silver and the Dolls of Venus/Third Floor Heaven/Night Creatures/Rocket Cathedral/Adventures in a Yorkshire Landscape/Jets at Dawn/No Trains to Heaven/Darkness (L’Immoraliste)


Futurama [1975]

Após dissolver a formação original, Nelson recrutou o baterista Simon Fox, o tecladista Milton Reame-James e o baixista Paul Jefferys. Mas essa formação não o satisfez (fez apenas meia dúzia de shows), e ele demitiu os dois últimos e gravou sozinho os teclados; o neozelandês Charlie Tumahai, um Maori mestiço, entrou no baixo e vocal e se mostrou a escolha perfeita, não apenas pelo seu talento como baixista, mas por harmonizar muito bem com a voz de Nelson. “Stage Whispers” começa com a artilharia guitarrística de Nelson, dando o tom do disco. O álbum está recheado de músicas de alto nível como “Maid in Heaven”, “Sister Seagull” (com sua grandiloquente introdução de guitarras que se transforma numa bela balada), “Music in Dreamland” (com uma banda marcial de Yorkshire contribuindo para o arranjo), “Sound Track”, a excelente “Swan Song” (Nelson dificilmente errava nas músicas de encerramento dos discos do BBD), e a curiosa (mas muito bonita) “Jean Cocteau”, dedicada ao escritor, ator, cineasta e artista francês que Bill idolatrava, um soft jazz meio bossa nova que não se parece com nada que a banda gravou. O disco foi gravado no final de 1974, mas só foi lançado em maio de 1975 – quando o grupo já tinha incorporado o tecladista Simon Andrew “Andy” Clark. A produção é do recentemente falecido Roy Thomas Baker, que ficou famoso ao produzir o Queen, e que passou todo o processo de gravação discutindo com Bill Nelson.

Line-up: Bill Nelson: guitarra, teclados e vocal; Charlie Tumahai: baixo, percussão, vocal; Simon Fox: bateria.

Tracklist: Stage Whispers/Love with the Madman/Maid in Heaven/Sister Seagull/Sound Track/Music in Dreamland/Jean Cocteau/Between the Worlds/Swan Song


Sunburst Finish [1976]

O primeiro álbum lançado nos EUA, o mais bem-sucedido, Sunburst Finish traz Nelson, Tumahai e Fox acompanhados do tecladista Andy Clark: a formação definitiva do BBD. A importância de Clark para o som da banda fica nítida já na abertura, com a ótima “Fair Exchange” – mas as intricadas guitarras de “Heavenly Homes” tranquilizam o ouvinte: Bill continua usando o grupo como veículo para sua habilidade. O single “Ships in the Night” seria o maior sucesso do grupo e mostra como Tumahai e Nelson harmonizavam bem suas vozes; a música traz Ian, irmão de Bill Nelson, no sax. Outros destaques são “Blazing Apostles” (uma gozação com os pastores que faziam programas de TV), “Crying to the Sky” (com belo e frágil vocal de Bill), “Like an Old Blues”, a semiacústica “Beauty Secrets” e a animada “Life in the Air Age”. Durante a turnê de lançamento, a banda excursionou pela primeira vez pelos EUA, um país que sempre fascinara Bill Nelson. A capa com a garota segurando a guitarra flamejante contra um fundo laranja-avermelhado se tornaria uma imagem icônica para a banda. A produção ficou a cargo de John Leckie e do próprio Nelson, e essa dupla se responsabilizaria por essa função até o fim do BBD. Leckie se tornaria um produtor bem requisitado nas décadas seguintes, produzindo XTC, Stone Roses, Radiohead e Muse, entre outras bandas conhecidas.

Line-up: Bill Nelson: guitarra, harmônica, percussão e vocal; Charlie Tumahai: baixo, percussão, vocal; Simon Fox: bateria e percussão; Andy Clark: teclados.

Tracklist: Fair Exchange/Heavenly Homes/Ships in the Night/Crying to the Sky/Sleep that Burns/Beauty Secrets/Life in the Air-Age/Like an Old Blues/Crystal Glazing/Blazing Apostles


Modern Music [1976]

A formação da banda se repetia pela primeira vez em dois discos seguidos, e isso se reflete na boa qualidade do LP. Andy Clark está perfeitamente integrado ao som do grupo e forma bases para os voos de Bill Nelson na guitarra, além de ter seus momentos de brilho. A faixa título é uma suíte de mais de 11 minutos, com bela melodia e alguns trechos bastante intrincados e, claro, Bill dando show na guitarra, dividida em seis partes – “Modern Music” (com seu riff memorável de abertura), “Dancing in the Moonlight (All Alone), “Honeymoon on Mars”, “Lost in the Neon World” (em que a banda acelera um pouco), “Dance of the Uncle Sam Humanoids” (o interlúdio instrumental) e “Modern Music (Reprise)”, e a letra trata das experiências e impressões de Nelson na primeira turnê norte-americana. Mas além dela, “Orphans of Babylon”, “Twilight Capers”, “Forbidden Lovers”, “Down on Terminal Street” são destaques deste que é possivelmente meu disco favorito do BBD.

Line-up: Bill Nelson: guitarra e vocal; Charlie Tumahai: baixo, percussão, vocal; Simon Fox: bateria; Andy Clark: teclados.

Tracklist: Orphans of Babylon/Twilight Capers/Kiss of Light/The Bird Charmer’s Destiny/The Gold at the End of the Rainbow/Bring Back the Spark/Modern Music/Forbidden Lovers/Down on Terminal Street/Make the Music Magic


Be Bop Deluxe em 1976: Andrew Clark, Bill Nelson, Charlie Tumahia e Simon Fox

Live! In the Air Age [1977]

Gravado em uma turnê britânica no início de 1977 e lançado no incomum formato de um LP e um EP, Live! In the Air Age é considerado sensacional por alguns e uma decepção por outros. Estou entre os primeiros. Das dez músicas do disco original, sete foram extraídas dos três primeiros álbuns (curiosamente, nenhuma de Modern Music, que a turnê estava promovendo) mais três músicas não disponibilizadas em LP na época: a instrumental “Shine” (extraída de um single), “Piece of Mine” e “Mill Street Junction” (ambas inéditas). Live! In the Air Age coloca naturalmente a guitarra de Nelson em destaque, mas os teclados de Andy Clark ocupam um bom espaço dos solos e Charlie Tumahai não só harmoniza bem no vocal como ainda se destaca com linhas de baixo interessantes, além de atacar as congas de vez em quando. Em 2021, uma box com 15 CDs e um DVD trouxe o álbum original com algumas bonus tracks, e os sete shows gravados para o disco original divididos em dois volumes para cada (cada show, à exceção de um, tem mais de 110 minutos). A box set é imperdível para os fãs do BBD, pois traz Nelson soltando os bichos no final dos shows em “Blazing Apostles” (tocando até o tema do Pica-Pau), a complexa “Modern Music”, o público cantando junto em “…Terminal Street”, enfim, uma ótima representação dos shows do BBD na época. Além disso, o livreto é muito bom (ótimas fotos da banda no palco, excelente texto), há um poster da turnê, cartões-postais e o programa dos shows. Para o fã ocasional, uma versão diet em CD duplo/LP triplo também está disponível, e é a mais recomendada.

Line-up: Bill Nelson: guitarra e vocal; Charlie Tumahai: baixo, percussão, vocal; Simon Fox: bateria; Andy Clark: teclados.

Tracklist: Life in the Air Age/Ships in the Night/Piece of Mine/A Fair Exchange/Shine/Sister Seagull/Maid in Heaven/Mill Street Junction/Adventures in a Yorkshire Landscape/Blazing Apostles


Drastic Plastic [1978]

O canto do cisne – ou o grasnar do corvo. O último LP do BBD divide opiniões, mas a maioria delas é no sentido de considerá-lo o mais fraco do grupo. O som mudou completamente, com muitos teclados eletrônicos, vocais tratados e a guitarra perdendo destaque – um caminho que a banda começara a trilhar no ano anterior, com o single “Japan” – e se filia à então nascente New Wave. Até aí não teria problema, mas as músicas não são muito interessantes; “Dangerous Stranger” (a mais próxima do trabalho anterior do grupo), “New Mysteries”, “Love in Flames” (essa me lembrou um pouco The Cars, não sei por que), “Panic in the World”, e a bela “Islands of the Dead” (dedicada a Walter Nelson, pai de Bill, que falecera em 1976), são exceções. E, desde a primeira edição em CD, sabe-se que à época o grupo gravou a ótima “Lovers are Mortal” – e a deixou de fora. O álbum é o único do BBD que foi gravado fora da Inglaterra (usou-se um estúdio em um castelo em Juan Les Pins, na França), e vendeu menos do que os anteriores. Ciente da mudança que estava operando no som do grupo, Bill Nelson não queria lançar Drastic Plastic como um disco do Be Bop Deluxe, mas o empresário exigiu que levasse o nome da banda. Os interesses musicais de Nelson tinham mudado, e o fim se tornou inevitável.

Line-up: Bill Nelson: guitarra e vocal; Charlie Tumahai: baixo, percussão, vocal; Simon Fox: bateria; Andy Clark: teclados.

Tracklist: Electrical Language/New Precision/New Mysteries/Surreal Estate/Love in Flames/Panic in the World/Dangerous Stranger/Superenigmatix/Vision of Endless Hopes/Possession/Islands of the Dead


E depois?
No fim de 1978, o visto de trabalho de Tumahai expirou; ainda que ele tenha retornado à Inglaterra, em vez de substituí-lo, Nelson pôs fim ao grupo. O guitarrista formou o Red Noise com Andy Clark, seu irmão Ian (sax, teclados), Rick “Pinky” Ford (baixo) e Steve Peer (bateria), mas essa banda também não durou (lançou apenas o álbum Sound on Sound, e mais recentemente um LP ao vivo gravado em 1979 em tiragem limitada no Record Store Day), com uma sonoridade que lembra Drastic Plastic. Em 1981 Nelson retomou sua carreira solo, embora tenha formado algumas bandas efêmeras ao longo dos anos; seu site oficial registra 121 lançamentos. Ao longo dos anos, várias coletâneas e dois discos com gravações ao vivo para a BBC seriam lançados, e os álbuns originais foram relançados em boxes de 3 ou 4 CDs (e um DVD adicional) com raridades, gravações ao vivo, remixes e sessões para a BBC. Para quem quer a obra do grupo como um todo, há as recentes boxes 1974-76 e 1976-78, que trazem os três primeiros álbuns e os três seguintes (incluindo o disco ao vivo), tal como originalmente lançados. Ou então, há a box de 5 CDs Futurist Manifesto (imagem acima), que traz os cinco discos de estúdio (com direito a bonus tracks em Sunburst FinishModern Music e Drastic Plastic, além de um disco com demos, versões alternativas e ao vivo – na minha opinião, a melhor opção, apesar de faltar Live! In the Air Age.


Contos e Lendas de Canterbury

 

Contos e Lendas de Canterbury

Canterbury é um distrito do condado de Kent que fica no sudoeste da Inglaterra, com aspecto majoritariamente rural. É um centro estudantil que atrai muito a juventude inglesa, onde se localiza uma das mais antigas escolas da Inglaterra, a King´s School. Em sua paisagem predominam as orquídeas e a imponente catedral.

O termo “Cena de Canterbury” ou “som de Canterbury” é muito controverso, especialmente para os músicos que hoje (correta ou incorretamente) são associados diretamente a ele. Na opinião pessoal do autor deste texto, a existência de um sub-gênero para as bandas que surgiram a partir do núcleo Wilde Flowers-Daevid Allen Trio é descabida. Em primeiro lugar, porque existem poucos pontos comuns entre o som das bandas que são categorizadas como tal, e na questão geográfica, muitos músicos de bandas desta dita “cena” nem eram do lugar e as bandas estavam estabelecidas principalmente em Londres. Parece ser mais sensato continuar a considerá-las dentro do grande espectro do rock progressivo, que na realidade parecia ser a ideia (consciente ou inconsciente) de todos eles – a expansão do rock (enquanto linguagem da música jovem) a um novo patamar de musicalidade e de expressão artística e a agregação de novas influências.

Por conta deste núcleo central (de onde derivaram as principais bandas – Soft Machine, Caravan, Hatfield and the North, etc…) ter surgido em Canterbury, por facilidade entendeu-se que todas estas bandas também seriam bandas de Canterbury, assim como as bandas que derivaram destas principais. É um termo incompleto e até certo ponto errôneo de fato, mas que didatiza um pouco a coisa. O que corrobora a tese de uma “cena” em Canterbury é a grande intercalação de músicos, que foram comuns a várias bandas, descritos abaixo com uma resumida biografia. Se valendo dessa agregação de tantas boas bandas de rock progressivo nesse nicho – cena de canterbury – vamos tratar de algumas histórias, de alguns de seus principais expoentes.

Outro ponto importante a citar é que alguns destes grupos, derivados da árvore genealógica iniciada em Canterbury, se tornaram famosos e influentes dentro e fora da Europa. Surge a partir disso uma confusa extensão do “gênero” Canterbury para rotular bandas como Supersister e Pantheon (Holanda), Moving Gelatine Plates (França) e Picchio dal Pozzo (Itália) entre outros, algo que também acontece com o termo kraut-rock, que inicialmente usado como um rechaço inglês ao som feito pelos alemães, foi transformado em gênero e expandido para fora do cenário alemão. É um fator complicador – criar sub-gêneros dentro de um gênero do rock já alvo de tantas indefinições e subjetividades.


Referências aos principais músicos

Daevid Allen => batizado como Christopher David Allen, nascido em Melbourne, Austrália. Guitarrista, vocalista e letrista. Membro fundador do Daevid Allen Trio, Soft Machine, Gong (e seus muitos projetos relacionados) e carreira solo.

Robert Wyatt => Robert Wyatt-Ellidge, natural de Bristol, Inglaterra. Baterista, percussionista e vocalista, membro do Wilde Flowers, Daevid Allen Trio, Soft Machine, Centipede, Matching Mole e também carreira solo.

Hugh Hooper => Nascido em Whitstable, Kent, Inglaterra e infelizmente já falecido (7 de Junho de 2009, aos 64 anos). Baixista, membro do Daevid Allen Trio, Wilde Flowers, Soft Machine, Isotope, Soft Head, Soft Heap, Gilgamesh e vários outros projetos.

Brian Hopper => irmão de Hugh Hooper. Guitarrista, saxofonista e flautista, tocou com o Wilde Flowers, Soft Machine, Zobe e Beggars Farm.

Richard Sinclair => Richard S. Sinclair, nascido em Canterbury, Inglaterra. Guitarrista e baixista. Integrou o grupo Wilde Flowers e formou o Caravan. Tocou também com o Hatfield and the North e o Camel.

Mike Ratledge => Natural de Maidstone, Kent, Inglaterra. Integrou o Soft Machine em suas diversas formações e fases.

Kevin Ayers => De Herne Bay, Kent, Inglaterra. Tocou com o Wilde Flowers e o Soft Machine durante curto período e depois seguiu como artista solo, integrando também o Gong eventualmente.

Dave Stewart => David Lloyd Stewart, nascido em Waterloo, Londres, Inglaterra. Tecladista das bandas Arzachel, Egg, Khan, Hatfield and the North, Gong e National Health.

Phil Miller => Natural de Barnet, Hertfordshire, Inglaterra. Guitarrista, integrou formações do Delivery, Matching Mole, Hatfield and the North e National Health

Pip Pyle => Phillip Pyle, de Sawbridgeworth, Hertfordshire, Inglaterra. Falecido em 2006. Baterista que começou com a banda Delivery e depois tocou com Khan, Gong, Hatfield and the North, National Health e Soft Heap.

Steve Hillage => Nome de batismo Stephen Simpson Hillage, de Chingford, London Borough of Waltham Forest, Inglaterra. Guitarrista e vocalista, participou do Arzachel, Khan, Gong (tocando também com Kevin Ayers) e National Health, mas fez a maior parte de sua carreira como artista solo.

Pye Hastings => Julian Frederick Gordon Hastings, escocês de Tamnavoulin. Guitarrista e vocalista que integrou também o Wilde Flowers e se firmou com o Caravan.

Dave Sinclair => David Sinclair, primo de Richard, natural de Herney Bay, Kent. Foi membro do Wilde Flowers, do Caravan, Matching Mole e Hatfield and the North.


Núcleo Inicial – de Wilde Flowers e Daevid Allen Trio para Soft Machine e Caravan

Wilde Flowers

O jovem Robert Wyatt residia em Lyndon, e ingressou nos estudos na Simon Langton School em Canterbury, cidade próxima de Lyndon. Lá conheceu Hugh Hopper e Mike Ratledge, que logo se tornaram seus amigos, por dividirem afinidades musicais, especialmente relacionadas ao jazz contemporâneo. Em uma viagem à Majorca, na Espanha, Wyatt trombou com o maluquete Daevid Allen, que estava sempre rodando pela Europa, numa filosofia de vida bem beatnik. De cara, o garoto já simpatizou com Allen e suas idéias e começaram a dar forma a uma banda, que foi batizada como Daevid Allen Trio, baseada em Canterbury. O trio consistia de Wyatt, Hopper e Allen. Isso em 1963. Allen introduziu os garotos numa vida exagerada de bebedeiras e noitadas e também catalizou o interesse dos dois no jazz avant-garde. A banda alcançou uma repercussão muito tímida e naufragou pouco tempo depois de formada, com Daevid Allen se mandando para Paris. A experiência com Allen foi marcante para a dupla Wyatt-Hopper, que seguiu em frente com uma nova banda, já no ano de 64 – The Wilde Flowers. O nome surgiu como uma homenagem à Oscar Wilde e foi sugerido por Kevin Ayers. Inicialmente, faziam parte da empreitada Robert Wyatt (bateria, voz), Brian Hopper (guitarra, sax, flauta), Hugh Hopper (baixo), Richard Sinclair (guitarra) e Kevin Ayers (voz). Reza a lenda que Kevin foi convidado para banda somente por causa de seus cabelos compridos!

Não chegaram a gravar nenhum registro oficial, somente alguns poucos registros de ensaios e apresentações, hoje disponíveis em CD, que apresentam mais valor histórico do que musical. A banda fazia covers dos principais nomes do rock e r&b, especialmente os Beatles e artistas americanos dos anos 50, mas se diferenciava da garotada de outras regiões da Inglaterra por incluir, aos poucos, pitadas do jazz que fazia a cabeça de Robert Wyatt e Hugh Hopper. No curto período de existência do grupo (cerca de 2 anos e meio), ocorreram várias mudanças de formação e até o próprio Daevid Allen, em suas idas e vindas, integrou o grupo por um breve período em 65.

Soft Machine
Soft Machine

Daevid Allen, junto de Kevin Ayers, inicia em 66 um novo grupo – o Soft Machine. As pretensões eram maiores – fazer um som mais sofisticado, mais jazzista e experimental. Junto dos dois, se achegam também Robert Wyatt e Mike Ratledge. Allen na guitarra, Ayers no baixo e vocal, Wyatt na bateria e Ratledge nos teclados. Em 66, a banda inicia seus trabalhos com o registro de um single com as músicas “Love Makes Sweet Music / Feelin’ Reelin’ Squeelin’”, lançado em janeiro de 67. Nesse período, o Soft Machine marca território forte no underground londrino, dividindo as noites do UFO Club com o também nascente Pink Floyd. Em 67, um fato muda a trajetória da banda – Daevid Allen, retornando de viagem à França, onde a banda estivera envolvida com um projeto avant-garde que estava rolando na região de St. Tropez, é impedido de entrar no território inglês. A alegação era de que a legislação para imigrantes havia mudado. Daevid estava na França também interessado nos agitos que ocorriam no movimento estudantil e que culminaram nos marcantes protestos ocorridos em maio de 68.

O grupo porém continuou, sem Daevid Allen, se transformando em um trio de bateria-baixo-teclado. Com essa formação, partem para a América num tour com a Jimi Hendrix Experience, ganhando a admiração de Hendrix. A partir daí a banda se consolida de vez, lançando o primeiro registro em 1968. Seria exaustivo mencionar a história do Soft Machine, que praticamente tem uma formação diferente em cada um dos discos que gravou até 76. Importante é citar que até aquele ano, somente Mike Ratledge participaria de todos os momentos do grupo, que expandiu as divisas da mistura de jazz com rock, via muita experimentação sonora.

Caravan

Desmanchado o Wilde Flowers, um outro grupo que surgiu foi o Caravan. Quando cada um começou a ir para seu canto, sobraram Pye Hastings e David Sinclair, que se juntaram ao primo de David, Richard Sinclair. A primeira formação da banda contava, além dos 3, com Richard Coughlan na bateria, que tinha entrado no lugar de Robert Wyatt no Wilde Flowers, quando este quis assumir os vocais da banda. Curiosamente, os quatros membros da primeira formação do Caravan tinham passado pelo Wilde Flowers, mas em nenhuma das formações havia os 4 músicos juntos.


Steve Hillage e Dave Stewart

Steve Hillage

Ambos dos arredores de Londres, tiveram um primeiro encontro nos idos de 68, na banda Uriel. Estudavam juntos na City of London School e lá também conheceram o baixista Mont Campbell. Todos eles tinham como primeiro instrumento a guitarra. Steve Hillage, por ser o mais habilidoso dos três, ficou com a vaga, com Campbell indo para o baixo e Stewart para os teclados. Também fazia parte dessa empreitada inicial o baterista Clive Brooks e o grupo dedicava-se a tocar covers de blues e rock psicodélico. Hillage saiu da banda para prosseguir os estudos na universidade de Kent, e os três remanescentes prosseguiram, assumindo o nome de “The Egg”, passando a trabalhar em composições próprias. O Egg assinou um contrato prévio com a Decca (através de sua subsidiária Deram), mas pouco tempo depois a banda foi convidada por uma pequena produtora para registrar uma sessão. Para não se queimar com a Decca, reassumem a formação da época do Uriel, convidando novamente Hillage e rebatizando-se como Arzachel. O disco foi gravado em 69 e creditado aos músicos em pseudônimos – Simon Sasparella, Njerogi Gategaka, Basil Dowling e Sam Lee-Uff, com o curioso detalhe de uma biografia inventada para cada um de seus “pseudo-músicos”, descrita no encarte do disco. Apesar de ser um pouco rejeitado tanto por Steve Hillage quanto por Dave Stewart, o disco é bem interessante dentro do espectro do rock psicodélico inglês e vale bastante o garimpo.

Egg, com David Stewart
Egg, com David Stewart

A história enquanto Arzachel/Uriel ficou por ali mesmo e o projeto “Egg” foi que seguiu adiante. Em 70, a banda lançou o primeiro disco, auto-entitulado, sem muita repercussão. Ainda no mesmo ano, em uma nova oportunidade com a Deram, saiPolite Force, melhor recebido por público e crítica, porém a história do trio seguiu só até julho de 72, com Clive Brooks se mandando para o Groundhogs, de Tony McPhee, com quem gravou os álbuns Hoghwash e Solid. No período, a banda compôs material que não foi aproveitado para seus dois álbuns e em 74, Mont Campbell propõe um novo encontro dos três para o lançamento desses temas, que originou o último álbum do Egg, The Civil Surface. Até o fim da banda, não havia nenhuma relação do Egg com Canterbury e os músicos daquela região, apesar de que hoje, o Egg é descrito como integrante da “cena”. Só mais adiante é que Dave Stewart estabeleceria relação (mesmo que indireta) com a galera de lá.

O único disco do Khan, o formidável Space Shanty

Steve Hillage, quando estava em Kent, começou a se relacionar com duas bandas realmente formadas na região – o Caravan e o Spirogyra. O Spirogyra na verdade começou como um duo folk em Lancashire, região norte da Inglaterra. O guitarrista e vocalista Martin Cockerham mudou-se para Canterbury, indo estudar na mesma universidade de Kent e lá expandiu a banda, contando com Barbara Gaskin (vocais), Steve Borill (baixo) e Julian Cusack (violino), além do companheiro Mark Francis, com quem iniciou a banda. Ocasionalmente, Hillage fazia um som com esse pessoal e com eles estabeleceu uma amizade. Retornando à Londres em fins de 1970, iniciou o projeto de uma nova banda, o Khan, que gravou um dos melhores trabalhos do rock progressivo inglês no período, o discoSpace Shanty. A amizade com o pessoal do Caravan viabilizou o lançamento do disco do Khan, que foi produzido por Terry King, produtor também do Caravan na época. Além disso, as duas bandas dividiram o palco em várias ocasiões durante o ano de 72.

Dave Stewart participou das gravações do disco Space Shanty (ocorridas no segundo semestre de 71) e integrou a banda por um pequeno período em 72, após o fim do Egg. Em janeiro de 73, é convidado a integrar a nascente Hatfield and the North, assumindo o posto que por alguns meses fora de David Sinclair (ex-Caravan). Aí sim começa o relacionamento de Dave Stewart com o pessoal de Canterbury, mas é nítido que ainda de uma forma bastante sutil e indireta, porque o próprio Hatfield and the North não era uma banda de Canterbury ou de seus arredores; somente os irmãos Sinclair (David e Richard, sobre os quais falaremos mais em seguida) eram da região. O Hatfield and the North durou até 75, tendo gravado dois discos e depois disso, Stewart tocou com o Gong em alguns concertos pela França e formou o National Health com Alan Gowen (ex-Gilgamesh) e Phil Miller, seu companheiro no Hatfield and the North.

Já Steve Hillage, depois do insucesso com o Khan (devido às constantes mudanças de formação), tocou com a Kevin Ayers Band e com o Gong, antes de partir para uma bem sucedida carreira solo, que iniciou com o petardo Fish Rising, em 75, disco cujo material viria a integrar o segundo disco do Khan, caso a banda tivesse continuado.


Phil Miller e Pip Pyle 

Matching Mole com Phil Miller

Phil (guitarrista) e Pip (baterista) eram de Hertfordshire, na região centro-sul da Inglaterra e lá formaram a banda Delivery, que começou em 66 com o nome de Bruno’s Blues Band. Em 68, integra-se a banda o baixista Roy Babbington e a vocalista londrina Carol Grimes. A banda gravou apenas um disco em 70 e seus produtores queriam que creditar o disco como Carol Grimes and Delivery. Em 71, Pip Pyle sai da banda para entrar no Gong e entra em seu lugar Laurie Allan (que também depois integraria o Gong). Por um breve período, Pip também emprestou seus serviços percussivos ao Khan, de Steve Hillage. O Delivery continuou (após alguns períodos de inatividade) até 72, com uma formação já bem diferente da inicial, formação essa que acabou se tornando o Hatfield and the North.

Antes do Hatfield and the North, Phil Miller estabelece seu primeiro relacionamento de fato com os músicos e bandas dos arredores de Kent. Em 71, Robert Wyatt o convida para seu novo projeto, o Matching Mole, formado em outubro daquele ano, após Wyatt abandonar o Soft Machine. A banda gravou dois discos, contando além de Wyatt e Miller, com David Sinclair nos teclados e o baixista Bill MacCormick (futuro Quiet Sun, outra banda erroneamente relacionada à “cena” de Canterbury). Após o lançamento do disco e uma breve turnê pela Europa, abrindo curiosamente para o Soft Machine, a banda encerra suas atividades. Como curiosidade, vale citar que Matching Mole vem do termo “Machine Molle”, equivalente em francês à Soft Machine. Pouco tempo depois desse primeiro desmanche da banda, surgiu uma nova formação com Wyatt, MacCormick, Francis Monkman (ex-Curved Air) e Gary Windo, que também não durou muito.

A banda Delivery tinha sido convidada a se reunir novamente, no segundo semestre de 72, para alguns shows. Essa empreitada contava inicialmente com Dave Sinclair, que logo desiste e é substituído por Stephen Miller (primo de Phil). Quando dessa mudança, assumem o nome de Hatfield and the North. Stephen só quebrou o galho até que o posto fosse assumido de vez por Dave Stewart. A formação que se estabilizou era Phil Miller, Pyp Pile, Richard Sinclair e Dave Stewart. O Hatfield and the North teve uma trajetória curta, porém bem sucedida, com seus dois discos bastante aclamados pela crítica, uma série de shows na Europa e América e 4 concertos para a BBC.


Os Sinclair

Hatfield and the North
Hatfield and the North

Muitas idas e vindas aconteceram na trajetória musical desses primos. Dave também era estudante na Simon Langton School em Canterbury, onde estudavam Robert Wyatt, os primos Hopper (Brian e Hugh) e Mike Ratledge. Dave integrou, por um breve período, o agrupamento dos Wilde Flowers, onde seu primo Richard já tocava. Mas a coisa começou a valer para os dois mesmo a partir de 68, com a estréia do Caravan.

Dave permaneceu no Caravan até 71 e decidiu abandonar a banda para buscar outros horizontes musicais. Seu primo Richard prosseguiu até 72, época em que era lançado o quarto disco do Caravan, Waterloo Lily. Em 71, Dave foi convidado a participar das gravações do primeiro disco solo de Robert Wyatt, que em agosto daquele ano saíra do Soft Machine e essa parceria amadureceu no Matching Mole. Porém, Dave não estava muito na onda de improvisações jazzísticas e acaba se cansando do Matching Mole, deixando-o em março de 72, após uma temporada de shows pela Europa.

Richard Sinclair convidou o primo para seu novo projeto, que vinha da junção dele com o pessoal do Delivery, o Hatfield and the North. Dave topou, porém os mesmos motivos que o fizeram deixar o Matching Mole surgiram quando das primeiras semanas de ensaio com o Hatfield and the North. Em 72, a barra pesou para Dave que estava sem grana e felizmente surge um convite de Pye Hastings para que Dave voltasse a emprestar seu talento aos teclados do Caravan. Então, surgia o novo lançamento do Caravan, For Girls Who Grow Plump In The Night, contando novamente com Dave Sinclair, assim como os dois próximos discos que a banda lançou, ambos com sucesso –Live With The New Symphonia (1974) e Cunning Stunts (1975). Mas em 75, uma nova debandada de David, dessa vez mais por motivos pessoais do que por direcionamento musical. Ao longo dos anos, ele ainda teria outras entradas e saídas do Caravan.

Richard Sinclair

A carreira de Richard começou bem cedo – logo aos 14 anos ele entrou para o Wilde Flowers, que, na verdade, era uma banda de amigos de colégio. O garoto não ficou muito tempo na banda e saiu para estudar desenho industrial na Universidade de Kent. Quando o Wilde Flowers se desmanchou, Dave Sinclair (junto de Pye Hastings e Richard Couglan) convidam Richard para o nascente Caravan, banda que o projetou e com a qual gravou 4 discos. O terceiro disco, In the Land of Pink and Grey, além de ser mais o bem sucedido da banda até então, também era o que tinha mais composições de Richard na banda. Fica evidenciada, ao se ouvir o trabalho, a grande veia melódica do baixista e guitarrista.

Quando Dave Sinclair deixou o Caravan, no verão de 71, Richard convidou um amigo para substituí-lo nos teclados, Stephen Miller. Stephen acabou sendo o catalisador de mudanças no som do Caravan, o que gerou um certo racha na banda. Depois do disco Waterloo Lily, de 72, Richard também sai da banda junto com Stephen Miller (primo de Phil Miller) e ali começam a arquitetar o Hatfield and the North, sobre o qual já escrevemos.Um dos motivos do fim do Hatfield and the North foi a dificuldade de Richard Sinclair conciliar os contínuos compromissos da banda com sua vida pessoal (naquele momento ele estava casado e com um filho recém nascido). Após um período em pequenos projetos de pouca expressão, Richard Sinclair é convidado por Andy Ward para ingressar no Camel, em 77. Esse período de Sinclair no Camel rendeu os álbuns Rain Dances e Breathless. A carreira de Richard prossegue até hoje, e já passou por diversas reuniões tanto do Caravan quanto do Hatfield and the North, ao longo dos anos.


Kevin Ayers e Daevid Allen

Daevid Allen, barrado na França, formou por lá o Gong, um agrupamento multi-sonoro-multi-nacional de músicos, que hoje poderia até ser descrito como “Família Gong”, pois já originou um sem número de outros projetos com seus ex-membros. Seria também exaustivo tratar sobre a história do Gong, mas vale citar que já participaram da banda figurões como Steve Hillage, Pip Pyle, Dave Stewart e até o próprio Kevin Ayers. Kevin, desde 69, quando lançou seu primeiro álbum solo, Joy of a Toy, continuou passeando por diversos terrenos – rock experimental, música pop, neoclássico, jazz-rock, etc – com sua Kevin Ayers Band.

Os agregados

National Health, com David Stewart, Neil Murray, Phil Miller, e Pip Pyle
National Health, com David Stewart, Neil Murray, Phil Miller, e Pip Pyle

A trajetória do Soft Machine se entrelaça com a da banda londrina Nucleus, do trompetista Ian Carr, um dos pioneiros do jazz-rock na Europa. Alguns músicos que eram do Nucleus passaram pelo Soft Machine, especialmente no período pós-71. Quando Robert Wyatt deixou a banda, Phil Howard assumiu as baquetas por um breve período, mas quem segurou a cadeira pra valer foi o talentoso baterista do Nucleus, John Marshall. Mais ou menos na mesma época, o saxofonista Elton Dean é substituído por Karl Jerkins, multi-instrumentista que tocava teclados e oboé no Nucleus. Jerkins passou a assumir um papel importante nas composições da banda logo de cara. Em 73, outro músico que já tinha passado pelo Nucleus (e também pelo Delivery), Roy Babbington, é efetivado na banda, como baixista substituto de Hugh Hopper. Seria, porém, uma simplificação muito grande dizer que o Nucleus é uma banda da “cena de Canterbury” só por conta disso.

Uma outra banda cuja história vai de encontro com as bandas do núcleo Daevid Allen Trio-Wilde Flowers é o Gilgamesh. Formada no outono de 72, em Londres, era liderada pelo tecladista Alan Gowen. Alan já tinha algum relacionamento com Dave Stewart, Richard Sinclair, Hugh Hopper (que ajudou em algumas composições da banda) e o pessoal do Hatfield and the North. As duas bandas tocaram juntas em um par de concertos no fim de 73 em Leeds, onde reuniram todos os músicos no palco para uma animada jam session. Fizeram parte do Gilgamesh, em alguma de suas diversas formações, o baixista Mont Campbell (que era do Egg), Jeff Clyne (que tinha passagens pelo Nucleus e integraria também o Isotope), James Muir (futuro percussionista do King Crimson) e Neil Murray, famoso anos depois com o Whitesnake. A banda acabou logo depois de ter lançado o primeiro disco em 75 e se refez numa nova formação para gravar um segundo disco, em 77. Após o fim do Hatfield and the North, Alan Gowen juntou-se a eles para formar uma grande reunião destes músicos que temos listado ao longo do artigo – o National Health. Talvez o embrião do National Health tenha sido aquela jam session em Leeds…

A primeira formação do National Health era composta por Dave Stewart e Alan Gowen (teclados), Phil Miller e Phil Lee (guitarras), Mont Campbell (baixo) e Pyp Pile (bateria). Bill Bruford era o baterista inicial, mas logo Pip assumiu o posto, com Bill Bruford participando eventualmente. O primeiro disco do grupo, além de toda essa galera ainda conta com mais uma série de convidados, entre eles Neil Murray, Steve Hillage e Barbara Gaskin, que tinha sido vocalista do Spyrogyra e viria a ser esposa de Dave Stewart. A banda chegou num momento em que o público estava menos disposto a um som jazzístico e avançado; teve uma carreira intermitente e se consolidou mesmo como um projeto, sempre aberto a muitas participações especiais. O fato que mais atrapalhou a continuidade do National Health foi a precoce morte de Alan Gowen, em 1981.

São muitas histórias e trajetórias que se emaranham e que, como dito no início do texto, por facilidade e didática são compartimentadas com este rótulo de “cena de Canterbury”. O fato é que, mesmo incorreto, o termo acabou pegando, num momento em que a crítica musical se concentra em rotular e sub-rotular excessivamente a produção musical. Fica a deixa para que, depois de tantas histórias, desperte-se no leitor o interesse pelo trabalho dessas bandas, o que com certeza proporcionará fantásticas audições, seja nas bandas com maiores influências jazzísticas (Soft Machine, Hatfield and the North, Gilgamesh) nas mais experimentais (Gong, Matching Mole, National Health, Egg) ou naquelas que trafegaram pelas linhas mais tradicionais do rock progressivo inglês (Caravan, Delivery, Khan).

The Who: Cinco Músicas Injustiçadas

 

The Who: Cinco Músicas Injustiçadas

Se a história do The Who tivesse terminado de uma vez por todas em 1982, quando a banda encerrou sua turnê de lançamento de It’s Hard, essa seção teria sido mais fácil de escrever. Entretanto, começando em 1989, The Who se reuniu diversas vezes para turnês com o trio de membros originais, Roger Daltrey, Pete Townshend e John Entwistle, até a morte deste último no começo do século XXI. Ainda assim, The Who já tinha lançado diversas coletâneas oficiais – e várias nem tanto – e com isso diminuiu a lista de músicas que poderiam fazer parte das injustiçadas.

A turnê de 1989 foi responsável por retirar várias músicas com potencial para fazerem parte da nossa lista, e as subsequentes não foram muito diferentes, apesar de os velhos hits serem parte considerável do setlist. Novas coletâneas foram lançadas, com uma delas (The BBC Sessions) sendo responsável por eliminar mais músicas; dentre essas coletâneas, duas box sets (30 Years of Maximum R&B e Maximum A’s & B’s, a primeira uma tentativa de sumarizar a carreira do grupo em 4 CDs, e a segunda trazendo todos os compactos do grupo) eliminaram mais algumas candidatas. Por fim, diversos álbuns ao vivo foram lançados, e, embora a maior parte tenha repertórios razoavelmente semelhantes, versões ao vivo completas de Tommy e Quadrophenia foram oficialmente lançadas. Ainda assim, algumas músicas parecem não aparecer nos lançamentos oficiais.

Assim, compilou-se esta lista de cinco músicas injustiçadas do The Who, concentradas na primeira parte da carreira do grupo. Os dois álbuns de estúdio lançados no século XXI, Endless Wire e WHO, não foram contemplados, porque possuem muito menos promoção em shows ou participação em antologias. Mas há uma razão adicional: ainda que não sejam exatamente discos ruins, é preciso admitir que não estão à altura do que o grupo original fez de melhor (ainda que ganhem de It’s Hard, que pôs fim à carreira deles em 1982), por isso foram deixados de lado. Só para relembrar, os critérios para inclusão de músicas nessa seção são os que o Micael Machado adotou nos artigos anteriores: a música não pode ter sido lançada como single, nem constar de disco ao vivo official ou bootleg (ao menos que eu conheça), não pode ter versão de outro artista (se for o caso, não pode ter grande repercussão no meio musical), e tem que agradar o autor o suficiente para que ele a julgue merecedora de mais atenção do que tenha recebido da imprensa, dos fãs ou mesmo da banda.


  1. It’s Not True – My Generation (1965)

A terceira música do lado B do primeiro álbum do The Who é um rock animadinho com direito às harmonias vocais de Pete e John em contraponto a Roger, e como a maioria das músicas da banda nessa época, traz uma bateria bastante pesada de Keith Moon. O piano de Nicky Hopkins é um dos destaques do arranjo dessa música inocente e ainda meio primitiva, mas que soa bem direitinho no álbum (mesmo que “ensanduichada” entre duas covers, “Please Please Please” e “I’m a Man”, respectivamente de James Brown e Bo Diddley). A letra é divertida e traz o protagonista pedindo à sua garota que não acredite no que falam dele (ele não matou seu pai, não tem onze filhos e nem é meio chinês!). “It’s Not True”, é claro, não está à altura de “My Generation”, “The Kids Are Alright” ou “A Legal Matter”, mas não compromete em nada o bom disco de estreia do The Who, e o fato de não ser pinçada para compilações não quer dizer que ela seja ruim – tem coisa melhor no disco, mas ela merece ser ouvida por qualquer um que se interesse pelo grupo. Na Super DeLuxe Box Set dedicada a My Generation, “It’s Not True” aparece nas versões finais mixadas em mono e estéreo, mas não há nenhuma versão alternativa disponível nos CDs 3 e 4; entretanto, a demo de Pete foi incluída no CD 5. O setlist.fm registra duas versões ao vivo de “It’s not True” em 1965 e 1966, a última gravada para a TV sueca, o que me leva a crer que possa existir discos piratas com ela, mas não encontrei nenhum.


2. Sunrise – The Who Sell Out (1967)

Esta bela balada acústica faz parte do terceiro LP do The Who, e não aparece em nenhuma das muitas coletâneas oficiais da banda, como se pode verificar pelo site oficial e pelas discografias no Discogs e na Wikipedia. Com vocais de Pete Townshend e acordes no violão que remetem a Tommy, que seria lançado posteriormente, “Sunrise” traz uma letra triste e romântica que lamenta a garota cruel que roubou o coração do protagonista – e o faz não querer amar novamente. Verdade seja dita, a música não combina muito com The Who Sell Out; Pete confessou em entrevista que a ideia de construir o disco como se fosse um show de radio derivou de uma insegurança sua, pois ele acreditava não ter músicas suficientes para o terceiro LP da banda! Mesmo a recente box set dedicada ao disco, em seus cinco CDs, não traz nenhuma versão alternative ou demo da música, que aparece duas vezes (junto com o resto do disco), nas mixagens em estéreo e mono. De acordo com o setlist.fm, “Sunrise” só teria sido apresentada ao vivo uma vez, num show em um colégio de Overland Park, Kansas, em novembro de 1967. O fato de ela ser praticamente um número solo de Pete Townshend pode explicar o aparente desprezo da banda por ela, mas de todo modo se trata de uma bela melodia, muito bem executada e com um arranjo simples que destaca com justiça o vocal melancólico de seu autor.


3. They Are All in Love – The Who By Numbers (1975)

Outra bonita balada que está “enterrada”, dessa vez no lado B de um dos discos menos comentados do The Who (ao menos do seu período clássico). A rigor, à exceção de “Blue Red and Grey”, esse lado B é recheado de músicas pouco conhecidas do grupo, como “Success Story”, “How Many Friends” e “In a Hand or a Face”. “The Who By Numbers” foi promovido pela última turnê do grupo antes da morte de Keith Moon, e não há registro de apresentação ao vivo de “They Are All in Love” nem durante essa tour, nem nas subsequentes. A música soa meio nostálgica, numa vibe que também contagia a mais famosa “Squeeze Box”, mas a letra é ambígua; por um lado, evoca um sentimento de solidão por parte do protagonista, por outro lado parece lamentar a falta de inspiração para compor ao mesmo tempo que reconhece que a música está mudando, ao falar nos punks (a quem recomenda “stay young and stay high”) e dizer que ele está apenas reciclando lixo. É interessante ver que nessa música Keith Moon soa bastante domesticado – mas, na verdade, The Who By Numbers não é um disco marcado por um bom desempenho do baterista, que andava mal de saúde na época por causa dos excessos. Na minha opinião, “They Are All in Love” merecia maior sorte ao longo dos anos, e não merece o esquecimento a que foi relegada.


4. You – Face Dances (1981)

John Entwistle escreveu essa música que, para que encontrasse lugar em Face Dances, precisou ser cantada por Roger Daltrey – e este saiu-se muito bem nela, que é um pouco atípica na produção do baixista, uma vez que a letra é bastante amargurada, sem o senso de humor sombrio que o caracteriza. Não sei se John estava se queixando de Pete ou de Roger, mas o fato é que ele pede para ser salvo, ainda que admita que é tarde demais para mudar. A música é razoavelmente pesada, em especial nas guitarras, o que a torna um destaque em um álbum em que a guitarra soa bastante anêmica na maior parte das composições. É um fato conhecido que Face Dances não aparece numa posição elevada em nenhuma lista dos melhores discos do The Who, mas tanto esta quanto a mais conhecida “The Quiet One” fazem com que John tenha sido autor de duas das melhores músicas do LP. “You” não apareceu em nenhum dos shows que a banda fez nas turnês de Face Dances e It’s Hard, e por ter seu vocal gravado por Roger, não rolou nos shows do grupo em que John participou posteriormente até sua morte. Mas ele a interpretou em suas turnês solo, em especial em 1988 e 1996. A DeLuxe edition do álbum Left for Live, gravado em 1998 e lançado no ano seguinte, traz a John Entwistle Band tocando-a ao vivo, mas é sintomático que a edição regular não a traga. Independentemente disso, “You” é uma boa música em um disco que muita gente despreza simplesmente por não ter Keith Moon, e embora seu autor tenha lhe feito justiça, The Who não o fez!


5. I’ve Known no War – It’s Hard (1982)

It’s Hard é o pior disco do The Who, verdade seja dita; mas isso não significa que não haja coisas legais nele, como “It’s Hard”, “Dangerous”, “Cry if you Want” e esta canção injustiçada. A bem da verdade, a única música que pode ser considerada famosa no álbum, sendo apresentada com frequência ao vivo e aparecendo em coletâneas, é “Eminence Front”, mas ela nunca me chamou a atenção (injustiça é ela ser mais conhecida do que as que eu citei, hehehe). Sete das músicas do álbum foram interpretadas na turnê de 1982 (e em alguns shows posteriores), mas esta nunca apareceu em nenhum setlist. O disco, como o anterior, trouxe bastante teclados nos arranjos, mas “I’ve Known no War” é uma das poucas em que eles estão bem integrados ao som do grupo, especialmente no interlúdio instrumental do meio. Gosto bastante do vocal potente de Roger, que interpreta a letra (bastante pessoal, alias) escrita por Pete, em que ele fala sobre ter nascido logo depois do final da Segunda Guerra Mundial – e por isso não conhece a guerra. Entretanto, a letra nada tem de esperançoso, porque, se ele vier a conhecer a Terceira Guerra, será porque um botão será pressionado, haverá o brilho fugaz de uma bola de fogo no céu e nenhum grito de guerra será ouvido, pois não dará tempo. Pete podia andar pouco inspirado na composição das melodias, mas ainda estava afiado nas letras.


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