segunda-feira, 30 de março de 2026

Dark Tranquillity: Crítica de Construct (2013)

 


Um dos nomes originais da cena musical sueca de Gotemburgo e um dos pilares do chamado melodic death metal, o Dark Tranquillity construiu ao longo de mais de duas décadas uma discografia consistente, que explorou em cada um dos registros novas sonoridades e percorreu caminhos ainda mais diferentes no estilo que ele mesmo ajudou a formar.

Construct é apenas o décimo álbum de estúdio, em meio a incontáveis lançamentos de coletâneas e discos de raridades/sobras de estúdio, e vem sendo considerado pela banda como o material mais dinâmico que eles lançaram desde Projector, o divisor de águas de sua identidade musical. O novo trabalho foi produzido em conjunto com Jens Bogren e lançado pela Century Media, e pode ser considerado como mais um passo no que o Dark Tranquillity vem trilhando nos últimos anos (em específico, após o Fiction, de 2007).


Porém, ao contrário do que pode ser ouvido nos álbuns anteriores, a faixa escolhida para abrir o disco, “For Broken Words” traz um ritmo cadenciado e de tempos esquisitos, destacando ainda mais a atmosfera sonora criadas pelo tecladista Martin Brändström, cuja função na banda se torna ainda mais importante a cada registro. As tendências se mantêm imutáveis em “The Science Of Noise”, uma das faixas liberadas para divulgação, aonde é importante notar que a voz de Mikael Stanne voltou ao gutural de antes, deixando de lado o excessivamente rasgado de We Are The Void.


“Uniformity” desce ainda mais na profundidade e soa como um híbrido entre o Dark Tranquillity atual e a banda da época do Projector, com elementos de gothic metal e industrial em meio ao melodic death, enquanto “The Silence In Between” é o primeiro momento realmente agressivo em Construct, com uma daquelas faixas de margens pouco definidas entre cada seção. Com riffs que remetem ao som primordial da banda, “Apathetic” quase chega a esbarrar nas influências de black metal que eles tiveram em determinadas partes dos últimos álbuns, diferente da simplicidade instrumental em “What Only You Know”, algo que raramente se vê nas faixas padrão da banda.


E por falar em simplicidade, muito pouco do melodic death metal de outrora é identificável em “Endtime Hearts”, que carregada de elementos eletrônicos, se aproxima um pouco mais dos lances de industrial. Estes mesmos elementos são os principais condutores de “State of Trust”, possivelmente o mais próximo de uma balada que os suecos compuseram nos últimos anos (embora você não deva esperar batidinhas de violão ou letras melosas aqui), uma preparação para a excessivamente cadenciada “Weight Of The End”, e para “None Becoming”, faixa que encerra o álbum mantendo a tradição de ser arrastada, atmosférica, como uma proclamação desesperada em diversos momentos.


Alguns detalhes importantes devem ser levantados para que seja possível entender a sonoridade do Dark Tranquillity em Construct: o principal compositor nesse álbum é o tecladista Martin Brändström (ele assina oito das faixas), que além de ter esta função na banda, é um freak no que se trata de efeitos eletrônicos e criação de texturas e atmosferas; o guitarrista Niklas Sundin, responsável por algumas das mais soturnas composições na discografia do Dark Tranquillity, é o segundo que mais colabora; Martin Henriksson e Anders Jivarp, anteriormente os principais compositores, aparecem em proporção muito menor do que a de anos atrás.


Agora, qual o motivo de saber tudo isso? Simples: Construct é um disco muito mais simples, no que diz respeito à sua execução técnica, centrado na construção de camadas musicais e na atmosfera que os instrumentos criam, guiados pelas texturas eletrônicas e linhas de teclado. A virtuose e a perfeição teórica de álbuns como Character e Fiction foram deixadas consideravelmente de lado (trabalhos em que Henriksson participou mais ativamente), enquanto que o espírito negativista de We Are The Void foi mantido, porém colocado aqui sob outro ponto de vista.


O que pode ser ouvido neste disco, é um Dark Tranquillity retomando algo que fizeram há mais de uma década, nos álbuns Projector e Haven (pelo qual foram um tanto quanto criticados, na época), porém com a experiência e a maturidade musical em um patamar muito acima, equilibrando as suas mais diversas facetas, e caminhando, ainda que isso ainda seja meio nebuloso, para novos ares.


Ou seja, Construct não é o mais indicado para que se tenha o primeiro contato com a banda, pois exige um pouco para montar mentalmente as referências, e mesmo não sendo nada exatamente novo ou revolucionário, foca em outros aspectos da sua identidade. 


E, definitivamente, não há nenhum problema nisso.




Faixas:
01. For Broken Words
02. The Science Of Noise
03. Uniformity
04. The Silence In Between
05. Apathetic
06. What Only You Know
07. Endtime Hearts
08. State Of Trust
09. Weight Of The End
10. None Becoming






Megadeth: crítica de Super Collider (2013)

 



De um projeto de vingança a uma das maiores e mais influentes bandas da história do heavy metal, o Megadeth completa em 2013 trinta anos de existência, entre idas, vindas, polêmicas, discos multi platinados, reabilitações e conversões.


Não apenas isso, marca também o lançamento de seu décimo quarto álbum de estúdio, Super Collider, o primeiro a manter a mesma formação entre um trabalho e outro desde Cryptic Writings (de um longínquo 1997), e também o primeiro a ser lançado pela Tradecraft, o selo do próprio Dave Mustaine. Produzido por Johnny K e masterizado por Ted Jensen, o novo disco ainda conta com a participação de uma série de convidados, responsáveis pela presença de trompete, violino e gaitas de fole nas 
músicas
 (embora seja mais do que sutil), além de David Draiman, vocalista do Disturbed/Device.


“Kingmaker” inicia o álbum com o típico híbrido de thrash e heavy metal, característica que estabeleceu o Megadeth como um dos grandes nomes da 
música
 entre as décadas de oitenta e noventa. Porém o resultado aqui soa muito inferior, grande parte pelas linhas vocais apáticas que deixam uma incômoda sensação de que a faixa simplesmente não chegará a nenhum lugar – o que de fato acontece. A indiferença da abertura do disco se mostra mais evidente ao ouvir “Super Collider”, a cadenciada música que batiza o novo trabalho e, que mesmo tendo causado reações controversas ao ser liberada para audição previamente, traz boas ideias e funciona muito melhor do que a anterior.


Apesar do conteúdo lírico mais raso do que o chorume entre a calçada e o meio fio, “Burn!” mostra uma banda se aproximando um pouco mais da simplicidade do hard rock, e é o primeiro momento que realmente atrai a atenção no álbum. Bem diferente de “Built For War”, que tenta mesclar a quebradeira e o peso de um Hellyeah com aqueles coros feitos apenas para as apresentações ao vivo – soando vergonhosos no estúdio.


Com uma introdução que parece preparar para uma faixa épica, a verdade é que “Off The Edge” se revela uma das mais pobres composições da carreira do Megadeth, daquelas que simplesmente não apresentam nenhum momento de inspiração ou um segundo qualquer memorável. Seria para afundar de vez o disco no ostracismo, mas “Dance In The Rain” está entre o que de mais interessante foi escrito pela banda nos últimos anos, puxando-o de volta para a superfície, com diversas mudanças de andamento e um instrumental carregado de detalhes que acrescentam em muito a faixa.


Porém, tudo parece afundar novamente com a arrastadíssima “The Beginning Of Sorrow”, que beira o amadorismo, tão fraco é o seu desenvolvimento em menos de quatro minutos de duração (caindo no mesmo problema de “Kingmaker”), enquanto “The Blackest Crow” retoma os elementos de western e bluegrass, como visto em “Guns, Drugs & Money”, faixa do álbum Th1rt3en. Apesar de ser homônima a uma histórica canção americana e carregar o mesmo sentimento melancólico, são bem diferentes, e mesmo a intenção do Mustaine tendo sido das melhores, a realidade é que é apenas uma música ok.


Voltando para as estruturas 
musicais
 mais tradicionais da banda, “Forget To Remember” resgata novamente saudáveis toques de hard rock e heavy tradicional, em um dos momentos mais melódicos em 
Super Collider e um destaque imediato, com potencial para as apresentações ao vivo muito maior do que o restante do disco. Por outro lado, a seguinte “Don’t Turn Your Back...” cai no mesmo problema de ser uma faixa que vem, vai embora, e não deixa nenhuma passagem memorável sequer, sendo solenemente ignorada a essa altura do álbum. Ou seja, o encerramento não é indiferente apenas graças à fiel versão de “Cold Sweat”, do Thin Lizzy, que se não é nada revolucionário, também não compromete – ao menos não é a regravação de algum sucesso comercial da própria banda.


Mas colocando em termos gerais, a realidade é que o Megadeth vem desde 2004 em uma curva descendente de inspiração, lançando discos com composições cada vez mais repetitivas e aparentemente sem o mesmo sentimento de outrora. Em Super Collider, com raras exceções, é um trabalho sem identidade própria, sem ideias memoráveis, com várias músicas sem o menor propósito de existência além de preencher lacunas no tracklist. As letras se mostram simplistas, infantis e sem nenhuma mensagem, bem diferentes do que já foi feito anteriormente e do que comummente é dito pelo incansável polemista falastrão líder da banda, nas entrevistas.


E por falar em Dave Mustaine, é notável como a sua voz está cada vez mais comprometida (basta comparar com os álbuns anteriores): tons mais graves, menos rasgado e em alguns momentos ele parece simplesmente recitar a letra ao invés de efetivamente cantá-la – e boa parte dos pontos negativos em Super Collider são decorrentes dessa insuficiência nas linhas vocais. A grande questão é quanto tempo mais será possível manter uma regularidade em álbuns e turnês.


Megadeth parece dar mais um passo ladeira abaixo, para longe da influente banda de décadas atrás, indo na contramão dos grandes nomes do thrash metal (que lançaram alguns de seus melhores álbuns nos últimos anos), como se estivesse extremamente confortável em sua situação e fazendo o menor esforço possível para lançar material novo a ponto de marcar a sua própria história de forma positiva.


Pelo menos, desta vez ninguém disse que seria “o melhor álbum desde Rust In Peace”.



Faixas:
01. Kingmaker
02. Super Collider
03. Burn!
04. Built For War
05. Off The Edge
06. Dance In The Rain
07. The Beginning Of Sorrow
08. The Blackest Crow
09. Forget To Remember
10. Don’t Turn Your Back…
11. Cold Sweat




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